O Persistente Propósito de Deus

Capítulo 1 – O Propósito Pleno de Deus Governa Tudo O Que Ele Faz

Vamos usar a primeira parte desta manhã como preparação para aquilo que iremos considerar mais adiante; e quero falar agora sobre alguns princípios de interpretação da Bíblia. É muito importante para nós sermos capazes de conhecer como a Bíblia deve ser interpretada, e isto será especialmente visto naquilo que temos a considerar logo à frente. Se não compreendermos os princípios da Bíblia, ela não será um livro aberto; poderemos saber o que está no livro apenas como um livro, mas não o entenderemos até que tenhamos os princípios de interpretação. Assim, peço a vocês que procurem lembrar daquilo que estarei falando agora, e o tragam para o nosso estudo posterior. Iremos considerar cinco importantes princípios de interpretação da Bíblia:

1. A Eternidade de Deus;
2. A Abrangência de Cristo; 
3. O Intérprete da Bíblia é o Espírito Santo; 
4. A Menção Final; 
5. O Único Valor Real é o Espirito.

(1.) A Eternidade de Deus

O primeiro princípio de interpretação da Bíblia é a eternidade de Deus. Devemos sempre lembrar de que todo o tempo é tempo presente para Deus. Não há passado nem futuro para Ele: tudo o que é passado e futuro para nós, para Deus é sempre presente. Em qualquer momento de tempo para nós, na eternidade é sempre presente para Deus. 

O arquiteto sempre possui a planta completa em suas mãos. Se for o desenhista de um navio, por exemplo, ele possuirá um modelo deste navio antes que qualquer coisa seja feita. Ele vê no modelo o objeto completo, isto é, exatamente como a coisa irá parecer quando ficar pronta. Se for um grande edifício, ou mesmo uma cidade, é da mesma maneira. O arquiteto desenha o que chamamos de modelo em escala, e nele ele vê exatamente como o edifício, ou a cidade, vai ficar quando estiver terminada. O construtor trabalha dia após dia de acordo com aquela planta. Aqueles que somente enxergam as partes não a compreendem, e não devem tomar as partes como se fosse o todo. Às vezes, quando você olha para as partes de um edifício, você não consegue compreender o que aquilo vai ser. Somente quando a coisa completa é vista é que você pode, então, entender as partes. 

Agora, a Bíblia está repleta de partes, e todas elas são partes de algo que Deus vê por inteiro. Deus é o grande Arquiteto; Ele possui a planta completa e perfeita diante de Si antes de começar a obra.  A eternidade de Deus está em todo lugar. Assim, precisamos compreender que a Mente Plena de Deus está por detrás de tudo o que Ele faz! O PROPÓSITO PLENO DE DEUS GOVERNA TUDO O QUE ELE FAZ! Vocês precisam entender que a Mente de Deus nunca evolui – Deus é incapaz de evoluir. 

A forma temporária de todas as coisas contém o eterno e o pleno pensamento de Deus. Vocês precisam compreender que há sempre DOIS SIGNIFICADOS em tudo o que está na Bíblia. Há o significado presente, isto é, como aquilo se aplica à situação presente; e há, também, o significado futuro. Tudo na Bíblia, embora tenha uma aplicação presente, também possui uma significação maior no futuro. Esta é a primeira lei de interpretação: é a eternidade de Deus.

(2.) A Plenitude de Cristo

A segunda lei de interpretação é a plenitude de Cristo. Cristo é a interpretação de toda Bíblia; conhecer Cristo é conhecer a Bíblia. Homens como Pedro e Paulo conheciam a Bíblia, mas eles não a entenderam enquanto não conheceram o Senhor Jesus. Primeiro conhecemos o Senhor Jesus, depois O trazemos para a Bíblia; Ele é a interpretação da Bíblia. Nós não podemos realmente compreender a Bíblia enquanto não conhecermos o Senhor Jesus. Isto resulta no seguinte – a Bíblia é realmente uma Pessoa, e não apenas um livro. A Bíblia é uma Pessoa Viva, e não letras mortas. Por ser esta Pessoa inesgotável, Ela torna a Bíblia também inesgotável. 

Agora, este é o princípio mais importante que vocês talvez percebam. É possível esgotar a Bíblia como um livro. Conhecemos grandes professores da Bíblia que percorreram através dela, ensinando-a repetidamente, mas, no final de suas vidas, tais pessoas estavam tendo grande dificuldade para encontrar algo novo, e ficavam apenas repetindo coisas que já haviam falado em outros anos. A razão disso é que eles trataram a Bíblia apenas como um livro. Isto jamais irá acontecer se vocês conhecerem o Senhor Jesus e enxergarem a Bíblia nele; e enxergarem Ele na Bíblia. Repito, o Senhor Jesus jamais poderá ser esgotado. Na medida em que o Espírito Santo revela o Senhor Jesus a nós, a Bíblia fica cada vez mais viva. Assim, temos os nossos primeiros dois princípios de interpretação: (1) A Eternidade de Deus e (2) A Plenitude de Cristo.
 

(3.) O Intérprete Da Bíblia É O Espírito Santo

Agora vamos para o número três: o intérprete da Bíblia é o Espírito Santo. Eu falei que Jesus é a interpretação da Bíblia. Agora estou dizendo que o Espírito Santo é o INTÉRPRETE da Bíblia. Nós estamos familiarizados com as palavras da carta aos Coríntios, mas vamos apenas dar uma olhada nelas novamente. Primeira carta aos Coríntios, capítulo dois, verso treze: "As quais coisas também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas em palavras ensinadas pelo Espírito, comparando coisas espirituais com espirituais." 

Eu não sei se vocês possuem referências na margem de suas Bíblias, mas a tradução mais correta dessas palavras é esta: "interpretando coisas espirituais a homens espirituais." Vamos ler a passagem toda, novamente, desta maneira: 

“As quais coisas também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito; interpretando coisas espirituais a homens espirituais”.

Esta Escritura é uma declaração muito importante, e ela definitivamente afirma o princípio que agora estamos colocando – o princípio de que o intérprete da Bíblia é o Espírito Santo. Então, acima de tudo, a Bíblia é o livro do Espírito Santo. A Bíblia não é primeiramente um livro humano; ela não é o nosso livro; nós não somos donos do livro. Temos certas escritas chamadas de Escritura, mas na verdade, nós não somos donos do Livro. 

Vocês lembram o caso do Etíope eunuco, em Atos? Quando Felipe chegou perto de sua carruagem, ouviu o etíope lendo. Lia Isaías 53. Então, Felipe disse a ele. “Compreendes o que lês?” e o etíope respondeu: “Como entenderei se alguém não me explicar?” Aqui está um homem que, em certo sentido, tinha o Livro, mas, num sentido real e proveitoso, não possuía o Livro. Nós podemos ter o Livro como um volume, e, contudo, podemos não possuí-lo, pois primeiro, a Bíblia é o Livro do Espírito Santo. A mente do homem e a mente do Espírito são coisas completamente diferentes! 

Vocês sabem que existem muitos e muitos cristãos que não reconhecem isto! Há muitos mestres da Bíblia que não reconhecem isto! E esta é a causa de muita confusão, e a razão para tanta insignificância e fraqueza espiritual. Penso que isto pode estar no fundo da maior parte da controvérsia. A BÍBLIA É UM LIVRO FECHADO A TODOS, EXCETO AOS HOMENS ESPIRITUAIS. Este é o princípio que o Senhor estabeleceu diante de Nicodemus: Você precisa nascer do alto, para que possa enxergar o que está em cima.

Nossa medida de entendimento da Bíblia será exatamente a medida da nossa vida espiritual. Esta é a razão de o Senhor nos fazer passar pelas experiências, a fim de nos trazer o entendimento. A medida da morte da nossa mente natural será a medida da nossa compreensão das coisas do Espírito. Por favor, lembrem-se disso durante esses dias que estão diante de nós – algo precisa acontecer EM NÓS antes de entendermos a Escritura. Não podemos compreender a Palavra de Deus apenas decidindo fazer um curso de treinamento, ou ter algumas aulas de ensino da Bíblia. Não, não é desta maneira que iremos compreender a Palavra de Deus. Podemos compreender a Bíblia somente na mesma proporção da medida da nossa vida espiritual. Este é o terceiro princípio de interpretação bíblica. Agora chegamos ao quarto princípio.

(4.) A Menção Final

A menção final de qualquer material particular na Bíblia é usualmente uma chave para todo o seu significado. Isto é algo que precisamos pensar a respeito! Nós encontramos certas coisas mencionadas repetidamente na Bíblia; mas, quando chegamos à ocasião final onde aquilo é mencionado, geralmente encontramos a chave para tudo o que foi dito anteriormente sobre o assunto. Se você pegar um determinado assunto onde ele foi mencionado pela última vez, e, então, observar o cenário, o contexto e a relação, você obterá o significado pleno daquilo que foi dito anteriormente. 

Esta é uma afirmação que eu estou fazendo; vocês precisarão pensar e trabalhar nela, mas irei ajudá-los dando apenas uma ilustração. No último capítulo da Bíblia, Apocalipse vinte e dois, verso dois, temos a última menção à "árvore da vida. "Quando voltamos para o início da Bíblia, também temos "a árvore da vida" mencionada, mas nada nos é dito sobre ela – ela é apenas mencionada como algo que existe. Não temos qualquer explicação; não nos é dito o que é aquela árvore, ou o que ela significa; ela é apenas referida como “a árvore da vida." Precisamos ir para o final da Bíblia, a fim de termos a explicação, e, quando chegamos a este último capítulo da Bíblia, pelo contexto e relação, obtemos uma explicação bastante vasta. 

Vamos ler a passagem. Apocalipse 22: "E Ele me mostrou o rio da água da vida, claro como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro," – observem o contexto, 'o trono de Deus e do Cordeiro'. Vocês precisam ler todo o livro do Apocalipse para poder compreender isso! Há muita informação nos capítulos anteriores deste livro que falam sobre “o trono de Deus e do Cordeiro". E vocês precisam entender o que é o trono de Deus, e qual o significado do trono do Cordeiro – no meio do trono está um Cordeiro! 

Em relação ao "trono de Deus e do Cordeiro", há o "rio da água da vida..." no meio do rio. E de cada lado do rio estava a árvore da vida, a qual dá doze tipos de frutos, dando o seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a cura das nações. E nunca mais haverá qualquer maldição. E o trono de Deus e do Cordeiro estarão ali: e os seus servos o servirão." Há a "árvore da vida". Dá fruto imortal. NÃO HÁ LUGAR PARA A MORTE ALI. Seu fruto nasce a cada mês: é fruto imortal, ou fruto sem morte. As folhas desta árvore são para a CURA das nações. Lamento que, na maioria das versões, a palavra "cura" está traduzida erradamente. Não sei que palavra está na tradução de vocês, mas, no original, não está escrito “para a cura das nações”, mas “para a saúde das nações”. Vocês podem perguntar: “e qual é a diferença?" Bem, uma é A REMOÇÃO DA DOENÇA; a outra é A PREVENÇÃO CONTRA A DOENÇA. 

Em Apocalipse 22, chegamos ao tempo quando as doenças espirituais das nações foram curadas, mas a cura das nações precisa ser preservada. É um estado que precisa ser mantido. Assim, as folhas não são para a cura, mas para a prevenção. O versículo diz: "E não haverá mais qualquer maldição". 

Como se vê, temos a história toda da Bíblia nestas palavras. Vocês têm tudo aquilo que sobreveio às nações por causa do pecado de Adão. Vocês têm corrupção e morte – doença moral – o resultado da maldição. Tudo isto está agora esclarecido, e "a árvore da vida" representa a VITÓRIA DA VIDA sobre tudo; Vida Triunfante; Vida Abundante. Aqui, o significado pleno da “árvore da vida” é revelado. E assim é com todas as outras questões. Quando vocês chegam à última menção, vocês adquirem a chave para a questão toda. Este é um princípio de interpretação da Bíblia.

(5.) O Único Valor Real é o Valor Espiritual

Chegamos agora ao último princípio para o presente, o número cinco: o único valor real é o valor espiritual. Devemos nos lembrar disso quando estivermos lendo e estudando a Bíblia, e devemos manter isto em nossa mente durante este período de tempo que estivermos juntos. Não devemos simplesmente chegar aqui com sede de mais informação, ou com desejo de adquirir mais conhecimento. Há pessoas que apenas querem mais e mais conhecimento e educação. Isto é um perigo. Foi exatamente desta maneira que Adão foi apanhado. Vocês sabem, Satanás disse: "Se você comer desta árvore irá adquirir conhecimento"; foi "a árvore do conhecimento." E há sempre perigo em se comer desta árvore. Ela simplesmente nos leva para a morte e não para a vida. Então, vou repetir este princípio de interpretação bíblica: o único valor real é o valor espiritual. E valor espiritual é algo que afeta a nossa vida com Deus. Realmente desejaria que Adão tivesse reconhecido isto! Quando Satanás o tentou, para que comesse da “árvore do conhecimento”, se apenas ele tivesse dito: "o que isto irá afetar em minha vida com Deus?”, ele e nós poderíamos ter evitado todos os males. 

Assim, deixem-me repetir novamente: valor espiritual é algo que afeta a nossa vida com Deus. Vou colocar isto de outra forma – Valor espiritual é o quanto algo aumenta a medida de Cristo. Se Cristo é a interpretação da Bíblia, então, o conhecimento espiritual da Bíblia produz um crescimento de Cristo. Se esses dias em que estaremos juntos não produzirem um aumento da medida de Cristo, então é porque nos perdemos pelo caminho. Se não sairmos daqui como homens e mulheres mais semelhantes a Cristo, com uma medida maior do Senhor Jesus, então este curso terá fracassado. Assim, peço que vocês orem, para que todo esse tempo que estivermos juntos possa significar AUMENTO ESPIRITUAL, e não aumento intelectual, mas CONHECIMENTO ESPIRITUAL. 

Tudo deve ser julgado no sentido de se saber em quanto o negócio está contribuindo para o propósito final de Deus. Precisamos perguntar: "Onde isto está nos levando? Isto está nos levando para algum lugar? Todo conhecimento espiritual leva para um aumento de Cristo; contribui para o propósito final de Deus. A pergunta é: "Quanto de Vida há nisso?” Não é uma questão de interesse, nem de fascinação pela verdade da Bíblia, nem de nos tornarmos pessoas mais importantes com o aumento da nossa estatura natural, mas é uma questão da medida de Cristo. Isto é valor espiritual real. 

Passemos agora aos nossos cinco princípios de interpretação da Bíblia. Nesta nossa segunda hora que estamos juntos, vamos tomá-lo em nosso tema especial para estudo, assim como continuaremos a fazê-lo nos próximos dias: (1) A Eternidade de Deus; (2) A Abrangência de Cristo; (3) O Intérprete é o Espírito Santo; (4) A Menção Final de Tudo Contém Todo o Seu Significado; e (5) O Valor Real é o Espiritual. 

Também, irmãos, antes da próxima sessão, gostaria que vocês lessem os primeiros capítulos do Profeta Ezequiel. Vocês terão que lê-los mais de uma vez nesses próximos dias, mas seria de grande valia se vocês refrescassem as suas mentes com aquilo que está nesses três capítulos.
 

Capítulo 2 – Para Deus o Fim está Sempre Presente em Seus Inícios

Os princípios que estávamos considerando esta manhã são a chave para o Livro de Ezequiel de um modo especial. Começamos esta tarde indicando um daqueles princípios de outra maneira – Para Deus, o fim está sempre implícito em todos os Seus inícios. Assim, temos o livro de Gênesis no Livro de Apocalipse, e o Livro de Apocalipse no livro de Gênesis. Deixem-me repetir este princípio novamente: Para Deus o fim está sempre presente em Seus inícios. Talvez vocês gostassem de uma ilustração disto. E nós a temos no décimo quinto capítulo do Livro de Êxodo. Capítulo quinze, versos treze e dezessete:

“Tu, com a Tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a Tua força o levaste à habitação da Tua santidade”...

“Tu os introduzirás, e os plantarás no monte da Tua herança, no lugar que Tu, ó Senhor, aparelhaste para a Tua habitação, no santuário, ó Senhor, que as Tuas mãos estabeleceram”.

Vocês reconhecem o que foi dito? Israel tinha acabado de sair do Egito e estava no Mar Vermelho; esta é a canção de Moisés e de todo Israel quando o povo tinha escapado do Egito e de Faraó. Tinham acabado de iniciar a jornada. Mas aqui está dito: "Em Sua força Tu os tem guiado para a Tua Santa habitação… o lugar, ó Senhor, que Tu tens feito para a Tua habitação, o santuário, ó Senhor, que as Tuas mãos estabeleceram." Isto nos leva diretamente para o final da história desse povo. Centenas de anos teriam que passar antes que o templo fosse construído, antes de Jerusalém – o monte estava seguro. Eles teriam que percorrer um longo caminho durante um longo tempo antes de chegar lá. Mas aqui, bem no início, é falado como se a coisa já tivesse acontecido. Assim, podemos ver, à partir deste exemplo, o que eu quero dizer com “para Deus o fim está sempre lá no princípio”. As coisas celestiais sempre governam TODAS as coisas terrenas. As coisas invisíveis governam TODAS as coisas visíveis. As coisas espirituais governam TODAS as coisas temporais. As coisas universais governam TODAS as coisas locais. Isto é algo que vocês sempre devem se lembrar quando estiverem lendo a Bíblia. É algo que deve ser mantido em nossa mente na medida em que abordamos este livro de Ezequiel.  

A história da humanidade não é apenas uma história humana, mas é a história de Deus! Este livro de Ezequiel parece conter um monte de história nele, mas a verdade é que tudo é governado pelo Propósito Divino. A grande questão que encontramos no início deste livro é a seguinte: "Este livro possui alguma mensagem para a Igreja em nossa dispensação?” – será que só se refere a um período passado da história do povo de Israel? Será que, em questão de profecia, faz alguma referência à dispensação futura? – Ou será que a sua mensagem principal é justamente para a Igreja em nossa dispensação?" Nós seremos compelidos a enfrentar estas questões à medida que percorrermos este livro, especialmente naquelas partes que particularmente iremos considerar. A resposta é encontrada não no campo terreno, mas no celestial; não no temporal, MAS no espiritual. 

Assim, chegamos ao cenário e à razão deste livro: precisamos reconhecer quando o livro foi escrito, e por que. Aquilo que está neste livro aconteceu num tempo quando todo um sistema havia se rompido e fracassado. A razão para o colapso e fracasso foi porque aquele sistema acabou se tornando algo em si mesmo. Perdeu o seu significado espiritual e eterno. Precisamos reconhecer que isto é algo que frequentemente se repete na história das coisas de Deus. Aconteceu em Israel. Tem acontecido no cristianismo. Tem acontecido em muitos movimentos e em muitas partes da obra de Deus. A obra começou com um grande testemunho no início de Israel. A história de Israel começou como um maravilhoso testemunho para o Senhor, porém, a coisa toda desmoronou. Fracassou completamente porque perdeu o seu significado espiritual, tornando-se algo em si mesmo. O mesmo é verdade sobre o cristianismo, o qual teve um maravilhoso começo, mas, falando genericamente, o cristianismo desmoronou e fracassou, pois se tornou um sistema terreno – algo em si mesmo; perdeu o seu significado Celestial. 

Retornando ao livro de Ezequiel, encontramos Deus se afastando de Jerusalém; e Deus é achado do lado de fora; aquilo onde Deus estava havia agora se tornado uma concha vazia. Aquilo que uma vez havia sido vital e eficaz, sendo grandemente usado pelo Senhor, tornou-se agora uma coisa meramente formal e vazia, com Deus do lado de fora. Este é o cenário e a ocasião deste livro.

Um Profeta Representa A Mente Plena De Deus

Vamos olhar agora para o profeta em si. Vocês sabem que Ezequiel não começou sendo profeta. Ezequiel foi um sacerdote treinado e não um profeta. Notem que o verso três do capítulo um nos fala isso. E, então, no início, o versículo um faz referência ao "trigésimo ano": "E aconteceu que no trigésimo ano" - o trigésimo ano muito provavelmente foi o trigésimo ano do nascimento de Ezequiel. Era aos trinta anos que os sacerdotes terminavam o seu treinamento e entravam para o ministério. Vocês se lembram de que foi quando o Senhor Jesus completou trinta anos de idade que Ele entrou para o seu ministério. Sua preparação estava completa e Seu ministério começou. Então, aos trinta anos, Ezequiel tinha que começar o seu ministério sacerdotal; mas, ao invés de cumprir o seu ministério como sacerdote, ele foi chamado para ser profeta. Toda a sua vida, treinamento e vocação foram mudados. 

O profeta é alguém “que representa a mente plena de Deus quando esta mente já fora perdida”. É impressionante observar que Ezequiel teve que assumir algo totalmente diferente daquilo para o qual ele havia sido treinado. Mas a situação existente requeria isto. Iremos voltar a isso mais tarde. 

Quando Deus se move em relação ao Seu Pleno Propósito – que foi perdido pelo seu povo – há sempre coisas essenciais no instrumento do Seu mover. E, se a obra precisa ser feita, somente Deus poderá fazê-la! Vocês sabem que o curso dos homens é completamente diferente disto. O modo natural é pegar homens e treiná-los, capacitando-os para fazer o serviço, tanto que, quando essas pessoas saem da faculdade, ou de um instituto bíblico, elas sentem que estão preparadas para o trabalho; e então, naturalmente, acham que podem realizar a obra. Elas foram treinadas para aquilo. Porém, Ezequiel não estava qualificado para a obra. Ele estava preparado para exercer o sacerdócio, mas havia sido chamado para ser profeta. E o que descobrimos é que, ao longo de toda a sua vida, ele nunca achou que a coisa fosse fácil. Vocês sabem quão dificultoso Ezequiel achava o seu serviço: ele percebeu que apenas com a ajuda de Deus poderia cumprir o seu ministério. 

Nós todos temos que começar por aí se realmente vamos ministrar coisas celestiais. Tem que haver esta tremenda mudança a ponto de descobrirmos que não poderemos realizar a obra por nós mesmos. Somente o Senhor pode fazê-la. Havia este grande senso de decepção com as coisas do modo como estavam; o avassalador senso de que as coisas estavam erradas, e este estado de coisa tinha que se tornar o negócio da vida de Ezequiel. Vocês devem começar por aí se realmente quiserem ser usados por Deus. Vocês precisarão ser dominados por este senso de que as coisas estão todas erradas no mundo, de que as coisas não estão como deveriam estar, e que vocês não têm qualquer capacidade para endireitá-las. Vocês sentem o chamado de Deus para algo, mas sabem que a capacidade precisa vir do próprio Deus.  

É aí que começamos com Ezequiel, e, naturalmente, tomando os princípios espirituais à medida que formos avançando. Acho que não preciso voltar a este terreno. Existe um colapso nas coisas; elas não estão como Deus queria que estivessem. Deus chama homens e mulheres em relação a esta situação, e a chamada muda todo o curso de suas vidas. E, nesta chamada, essas pessoas têm a consciência de que não possuem capacidade, em si mesmas, para enfrentar a situação. Mas Deus, que as chama, e irá ser a suficiência delas. Lemos os primeiros três capítulos de Ezequiel sobre o que acabamos de dizer. 

Tomemos um pequeno fragmento desses capítulos, que é a comissão de Ezequiel: "Filho do homem, Eu te envio não a um povo de língua estrangeira, cujo idioma você não conhece. Se Eu o enviasse a tal povo estrangeiro, ele lhe ouviria. Mas Eu lhe envio à casa de Israel. Eles não irão te ouvir." (Ezequiel 3:4-7; parafraseado). Esta é uma comissão difícil; somente o Senhor poderá conduzir um homem através disso. Mas, então, observem o que o Senhor diz quanto ao equipamento divino: "Eis que fiz duro o teu rosto contra os rostos deles, e forte a tua fronte contra a fronte deles." (Ezequiel 3:8). Em outras palavras, o Senhor irá ser a força para esta difícil obra.

Ezequiel Viu O Que o Senhor Queria

Observemos outra coisa. Com este senso de desapontamento; com toda esta mudança no curso de vida; com tudo isto tendo que tomar um caminho para o qual não há equipamento natural, lá vai o segundo grande fator: "Ezequiel viu o Senhor." Ele teve uma visão do Senhor, uma visão daquilo que o Senhor queria. É muito importante que essas duas coisas que acabamos de mencionar sempre estejam juntas. Se tivermos desapontamento e descontentamento sem visão, isto será algo negativo. Há muitas pessoas que estão descontentes com as coisas da forma como estão. São pessoas que sempre conseguem ver o que está errado. Podem apontar seus dedos para a fraqueza e para as falhas; são peritas em criticar tudo. Isto é negativo; não leva a lugar algum. Junto com o descontentamento, precisa haver uma visão. Mas a visão deve vir através de um trabalho de parto. Visão sem dores de parto, sem sofrimento de coração, não passa de misticismo. Estas duas coisas, visão e sofrimento de coração, precisam andar juntos. Se vocês e eu nos sentimos descontentes, se sentimos que as coisas estão erradas, então precisamos conhecer o que o Senhor realmente está querendo. Temos de ter uma visão positiva do propósito de Deus.

Quero parar por aqui, a fim de dizer uma palavra a vocês. Vamos ler esses primeiros versículos de Ezequiel: 

“E aconteceu no trigésimo ano, no quarto mês, no quinto dia do mês, que estando eu no meio dos cativos, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus. No quinto dia do mês, no quinto ano do cativeiro do rei Jeoiaquim, veio expressamente a palavra do Senhor a Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar, e ali esteve sobre ele a mão do Senhor”. 

Quero dizer uma palavra a vocês sobre ministério. Vocês observam que aquilo que Ezequiel estava prestes a fazer teve uma data especial para o seu início. É muito impressionante quão específico Ezequiel é a respeito de datas em suas profecias. Se realmente vocês lerem essas profecias, irão ver que ele é muito específico a respeito de datas. Isto nos dá o primeiro ponto a respeito de ministério. Um ministro segundo a vontade de Deus precisa ter uma mensagem para a sua época. Não é para nós ficarmos aqui fornecendo coisas de forma genérica. Nosso estudo da Bíblia não pode ter apenas característica genérica. O que Deus precisa mais do que qualquer coisa é de pessoas que tenham uma mensagem para o seu tempo. Quando chegarmos ao final das nossas vidas, e do nosso ministério, que possa ser possível ser dito a nosso respeito que tivemos uma mensagem para o tempo presente; que não sejamos mais um na multidão de mestres, mas que tenhamos tido a Palavra de Deus para a presente hora – que o nosso ministério  tenha tido relação com um tempo especial no propósito de Deus. 

Agora, vocês, servos de Deus, peçam ao Senhor para tornar isso real em vocês; que possa ser reconhecido que o ministério de vocês tem relação com o tempo presente – COM O QUE DEUS DESEJA FAZER AGORA. Este é um fator muito importante no ministério. O que Deus está precisando no tempo presente? Precisamos orar para que possamos ser instrumentos do Senhor nesse tempo atual – que possa haver esse fator tempo muito claramente definido em nosso ministério. Assim, a data é algo muito importante no ministério. Quando Deus realmente levanta Seus servos, Ele os levanta para um determinado tempo.

Ezequiel Foi Levantado Em Relação À Situação

E, então, a próxima coisa a ser observada: Ezequiel foi levantado em relação a uma situação específica em seu próprio tempo. O que acabamos de ler mostra que Ezequiel estava inserido na situação: "... Eu estava entre os cativos junto ao rio Quebar." (ASV). Ezequiel não estava pregando para uma situação distante dele próprio. Não estava pregando para uma situação que ele havia imaginado. Não estava pregando para uma situação reportada a ele. Ele estava exatamente incluído na situação. Ele estava no mais íntimo contato pessoal com a necessidade. Aquela necessidade também era a sua necessidade. Ele havia sido colocado bem no coração dela, e o seu ministério surgiu a daí. Ele disse: "Eu Morava onde eles moravam." Isto tira o ministério do terreno meramente teórico e o coloca num terreno muito prático. 

Vocês irão observar que isto também foi verdade em relação a todos os demais profetas. Eles não falavam com o Senhor a respeito do povo usando a palavra ELES – "ELES estão nesta situação; ELES têm feito essas coisas; ELES têm essas necessidades." Os profetas sempre falavam a Deus da seguinte maneira: “NÓS estamos na aflição." Leiam a oração de Neemias no capítulo um, verso 2-11, e a oração de Daniel no capítulo nove, verso 3-19. Eles faziam parte da situação. E para que vocês e eu possamos ser servos eficientes, precisamos estar lá.

A Palavra Veio Expressamente A Ezequiel

E, então, a terceira coisa: o ministério precisa ser muito pessoal. Observem o que diz o capítulo um, verso três: "A Palavra do Senhor veio expressamente a Ezequiel, o sacerdote." Isto significa DUAS coisas:  Primeiramente, significa que Ezequiel não obteve o seu ministério a partir de livros. Não exerceu um ministério de segunda mão. Seu ministério não foi fruto de estudo, mas veio a ele pessoalmente. As visões de Deus também eram suas próprias visões. A mensagem de Ezequiel era original e não de segunda mão. Tem que ser desta forma. Nosso ministério deve ser assim: fruto de algo que Deus nos disse pessoalmente. 

Segundo, o significado da Palavra do Senhor que veio expressamente a Ezequiel é que HAVIA UMA URGÊNCIA. Vocês conhecem o significado da palavra “expressamente”.  Vocês usam o termo trem expresso. O que quer dizer trem expresso? É um trem que chega ao seu destino rapidamente; é muito urgente. Vocês se lembram da palavra do apóstolo Paulo: "... o Espírito expressamente diz" (1 Timóteo 4:1; KJV) – há urgência no caso! "A Palavra do Senhor veio expressamente a Ezequiel." Há algo muito urgente envolvido. Vocês precisam chegar lá o mais rápido que puderem. Há um assunto muito sério em questão. Todas as suas energias devem estar concentradas neste assunto. É assim que precisa ser conosco. Tem que haver uma tremenda urgência em nossa mensagem. Há muitas questões em jogo. Eu lhes diria algo, antes de vocês entregarem as suas mensagens. Parem e digam para si mesmos: "O que Deus tem em mente para o seu povo? – pois vocês irão influenciar vidas, TALVEZ, PARA SEMPRE E POR TODA A ETERNIDADE." 

As coisas que acabei de falar são coisas que constituem o tipo de servos que Deus precisa. Gostaria que vocês voltassem a elas novamente. Lembrem-se de que Ezequiel é um homem cuja vida foi completamente revolucionada pelo propósito de Deus. A NECESSIDADE DE DEUS mudou todo o curso da vida dele! A NECESSIDADE DE DEUS desapontou a Ezequiel no que diz respeito à sua vida natural! Algo do desapontamento e da insatisfação do coração de Deus entrou na vida deste homem! 

E é exatamente desta mesma maneira que Deus tem se movido ao longo de toda a história. Suponho que Abraão estava, talvez na maior parte da sua vida, muito satisfeito em “Ur dos Caldeus”. Ali ele tinha tudo que precisava, mas, então, começou a chegar ao seu coração uma grande insatisfação com aquela vida; e seu coração estava à procura de algo que ele não conhecia. Tudo o que ele podia dizer era: “Eu não fui criado para isto. Estou certo que existe algo mais na vida, além disto. Deve haver algum propósito maior do que este. Isto não me satisfaz." Foi neste terreno que Deus se moveu na vida de Abraão. Era Deus trabalhando nele a SUA PRÓPRIA INSATISFAÇÃO! E, quando esta insatisfação estava lá, então Deus pôde dar o lado positivo daquilo que realmente era o Seu propósito. 

E isto aconteceu na vida de todos os servos de Deus. Penso que isto foi verdade na vida de Moisés. Estou bem certo de que também foi verdade na vida de Ezequiel. Foi verdade na vida de Paulo: Creio que podemos detectar algo de insatisfação até mesmo em Paulo (Saulo) de Tarsus. DEUS PREPARA O SEU CAMINHO DESTA MANEIRA. Podemos ter isto em nós antes de Deus começar a fazer qualquer coisa. A fim de trazer o Seu Grande Propósito, Deus precisa escrever coisas negativas em nossos corações. Este é o caminho do serviço – de um lado, temos desapontamento; de outro lado, é a nomeação de Deus – e, então, a consciência de não se ter a capacidade natural, sendo que toda a capacidade precisa vir do próprio Deus. Era uma obra que nenhum homem podia fazer, e, certamente, uma obra que nenhum homem assumiria para si mesmo – assim foi Ezequiel. Mas Deus havia tomado conta deste homem, e tudo o que aconteceu a ele foi porque “a mão do Senhor estava sobre ele”. 

Vamos terminar por aqui esta manhã. É uma questão da mão do Senhor estar sobre nós; se a mão do Senhor estiver sobre nós, então não poderemos ajudar a nós mesmos. Embora possa ser difícil, embora o desapontamento seja grande, embora as demandas estejam além da nossa capacidade, contudo, nada podemos fazer. Temos que continuar! 

Vocês lembram o que Jeremias e outros profetas disseram sobre isto? Em virtude de o povo não querer ouvir, e porque o seu ministério implicava em muito sofrimento, Jeremias disse que jamais gostaria de falar novamente. Ele estava a ponto de desistir da obra de Deus. Mas, então, ele falou: "Enquanto guardei silêncio, o fogo ardia. A Palavra do Senhor era como um fogo em meus ossos, e, então, quebrei todas as minhas resoluções. Comecei a falar novamente. Não podia fazer diferente" (Jer. 20:9; parafraseado). É isso que Ezequiel quis dizer com: "A mão do Senhor estava sobre mim." Vocês sabem o que isto significou mais tarde, como “a mão do Senhor” moveu Ezequiel por toda parte? Ele era um homem que estava sob “a mão do Senhor”. Orem, para que vocês também possam estar desta maneira. Que não seja a escolha de vocês o ser de um jeito ou de outro, mas que tudo simplesmente seja o que Deus quer que seja, pois “a mão do Senhor está sobre vocês”. O Senhor precisa de homens e mulheres desta maneira. Orem para que vocês possam estar desta maneira. Vocês não estão no negócio por que vocês gostam, porque escolheram, porque têm qualificações. Vocês estão nele porque “a mão do Senhor está sobre vocês”. E, tirar a vocês mesmos desta obra seria sair da “mão do Senhor”.  

Agora, se a coisa for desta maneira, então, algo irá acontecer. Vocês terão uma mensagem para o seu tempo. Terão uma mensagem para a situação. Irão sentir a urgência da mensagem. "a palavra será como um fogo em seus ossos”. Que o Senhor faça de TODOS nós mensageiros como aqueles. 

Agora vocês sabem o que eu quis dizer no início. É o valor espiritual que importa. Não é o conhecimento intelectual, mas é o fato de nós sermos tais homens e tais mulheres – Isto é EFICÁCIA ESPIRITUAL. Peçam a Deus para torná-los desta maneira: que as pessoas possam reconhecer que vocês têm um coração que arde pelo Senhor - que, se por um lado vocês têm visto o que está errado, mas por outro lado, vocês têm visto o que Deus deseja, e que vocês sentem que Ele colocou as MÃOS DELE sobre vocês em relação ao assunto!!! 

QUE O SENHOR FAÇA ISTO VERDADE EM TODOS NÓS!

Capítulo 3 – O Poder Persistente de Deus Na Direção Do Seu Propósito

Voltemos ao livro das profecias de Ezequiel. Para começar, vou apenas dar a vocês um contorno muito amplo deste livro; contudo, deixem-me dizer aqui que não é minha intenção estudar todo o livro. Apenas vamos destacar algumas de suas grandes características. Há uma grande seção intermediária que dificilmente iremos considerar. 

O livro de Ezequiel é um dos livros mais difíceis de ser entendido na Bíblia. Imagino que vocês tenham descoberto isto ao lerem apenas os primeiros três capítulos. Assim, irei apenas dar um esboço bem genérico do livro; vocês podem complementar os detalhes. 

Primeiramente, vocês vão querer conhecer do que se trata esse livro de Ezequiel. Será que podemos ver já na primeira página do livro qualquer coisa que resuma o significado do livro todo? Penso que sim! Este é o livro do persistente propósito de Deus – as energias divinas em relação ao propósito divino. Se vocês quiserem um fragmento do Novo Testamento que irá explicar isto, vocês o têm em Efésios 1:11"...conforme o Seu propósito que opera todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade." Efésios 1:11 é a chave para o livro de Ezequiel. A expressão “que opera”, em Efésios 1:11, é uma palavra muito forte. A palavra grega empregada é ‘energeo’,que significa “energia". Assim, Deus está energizando "todas as coisas segundo o conselho de Sua vontade." De uma forma especial, é isto o que temos no livro de Ezequiel – vocês precisam ler o livro todo à luz de Efésios 1:11. Penso que iremos ver isto na medida em que avançarmos. 

Agora, um esboço amplo do livro. Começamos com o próprio profeta, e a sua preparação para o ministério. Isto abrange os três primeiros capítulos: o próprio profeta, a visão do profeta e a comissão do profeta. Esses pontos são abordados nos capítulos de um ao capítulo três. A seção seguinte vai do capítulo quatro ao vinte e seis.  Esta seção tem a ver com a nação de Israel. Há três coisas nesta seção sobre a nação de Israel: primeiro, o seu afastamento de Deus; segundo, a sua denunciação feita por Deus; e terceiro, o seu juízo. Então, a próxima seção vai do capítulo vinte e cinco ao trinta e dois. Esta seção tem a ver com as nações. Há quatro nações que são tratadas: - Amon, Moabe, Edom, Filistia. E, então, há mais duas: - Tiro e Sidom. Há um breve intervalo relacionado à restauração de Israel no capítulo vinte e oito, versos 25, 26. E, então, o julgamento das nações continua, e o Egito é julgado. 

Então, chegamos à seção quatro. Esta nos traz de volta à nação de Israel. Esta seção vai do capítulo trinta e três ao trinta e nove. Nela é falado sobre o atalaia, os pastores, a nova ordem, a visão dos ossos secos, e o último inimigo.

E, então, chegamos à quinta e última seção, isto é, a restauração encontrada nos capítulos quarenta ao quarenta e oito; e aí temos: o templo, o Senhor, o serviço no templo, o rio, a terra, a herança, e a cidade. Agora, como dissemos, não vamos estudar tudo. Isto apenas foi dado a vocês para ajudá-los a vislumbrar o livro todo.  

Agora vamos retornar à nossa parte do estudo, pois ainda vamos gastar algum tempo nesta primeira seção. Penso que é muito importante gastarmos tempo nesta seção. Imagino que, de vez em quando, vocês estarão dizendo: "Bem, desejaria que ele avançasse com o livro", mas eu não tenho pressa para cobrir uma grande parte do terreno. Quero ter certeza de que temos nos apropriado dessas verdades fundamentais. 

Assim, voltemos aos primeiros três capítulos e vejamos a preparação do profeta para o seu ministério. Este é um assunto que nos interessa muito – como o profeta foi preparado para o ministério – pois, o que foi verdade para Ezequiel também o é para nós, espiritualmente falando. Ontem vimos o fator tempo no ministério dele; a situação para a qual ele foi chamado para ministrar, e a Palavra expressa do Senhor pessoalmente a ele. 

Nesta manhã chegamos às “visões”. Observem o que está dito: "... eu estava junto ao rio Quebar entre os exilados, os céus foram abertos e eu vi visões de Deus." Quero dizer aqui que, embora a forma dessas visões não seja repetida no caso dos servos do Senhor, os princípios e significados espirituais, porém, devem ser verdade para todos nós. Nosso propósito é alcançar aquilo que está por detrás do significado objetivo das coisas, e, em todo o tempo, estaremos tentando chegar ao significado espiritual. Como vocês sabem, o lado objetivo é apenas o método temporário; é apenas o meio que Deus usa para o tempo presente. Agora, o significado espiritual é o significado permanente e real.

O Profeta Viu O Caminho

Passemos às visões. Ezequiel disse: "Eu vi visões de Deus." Isto teve dois significados: (1) significa que as visões vieram de Deus; foram visões que Deus havia dado a ele, e (2) significou que eram as visões dos movimentos de Deus. Deus estava se movendo; estava tomando certa direção, e ao profeta foi dado enxergar esses caminhos que Deus estava tomando: este é o significado das "visões de Deus. "Mas, antes que ele tivesse visto as visões de Deus, é dito que “os céus se abriram. "Vamos falar bastante sobre isto esta manhã. Mas antes, há uma ou duas coisas que precisam ser ditas. 

As visões dadas a Ezequiel variaram no tempo, em natureza, e em método; isto é, variaram em diferentes tempos – não vieram ao profeta todas ao mesmo tempo. O Senhor deu algo ao profeta que o fez prostrar o seu rosto em terra diante do Senhor. É o que vemos no final do capítulo um. Então, o Senhor coloca o profeta em pé, e este tipo de coisa acontece de tempos em tempos. A meu ver, houve intervalos na vida do profeta, e, durante esses intervalos, o profeta teve que refletir sobre aquilo que tinha sido mostrado a ele, para que pudesse se ajustar ao que o Senhor estava mostrando. Gostaria de sublinhar isso, meus irmãos e minhas irmãs. Nós também precisamos de tais intervalos em nossas vidas diante do Senhor. Se o Senhor nos mostra algo, precisamos de um tempo para considerar o assunto, para descobrir o que aquilo significa, e sua implicação. Esta é uma necessidade! Uma grande medida de valor é perdida quando continuamos prosseguindo sem ter esses períodos de quietude com o Senhor a respeito daquilo que Ele está dizendo. Deve haver uma espécie de quietude sabática, a fim de meditarmos naquilo que o Senhor está mostrando, a fim de nos ajustarmos. 

O Senhor diz algo, mas nós ignoramos e prosseguimos; avançamos cada vez mais, sem parar para pensar a respeito daquilo que o Senhor está realmente falando – no que aquilo realmente implica, para que possamos nos ajustar a ele. Creio que a maior parte da vida e do ministério do apóstolo Paulo veio dos seus dois anos de silêncio no deserto.  Ele teve a visão do Senhor na Estrada de Damasco. Foi uma tremenda visão, que o fez até cair com o rosto em terra. E foram necessários dois anos de silêncio para que ele pudesse ajustar-se ao significado daquela visão. Tenho frequentemente tentado imaginar o que realmente aconteceu naqueles dois anos – o que foi aquilo ao qual Paulo teve que se ajustar; como ele precisou ler novamente toda a Escritura à luz daquela visão. Ele teve que reconstruir toda a sua teologia à luz daquela visão: teve que pensar todas as coisas novamente. E eu acredito que boa parte daquilo que recebemos de Paulo veio desses dois anos. 

Não estou sugerindo que vocês, após este curso, também irão precisar de dois anos. Mas existe um princípio. O Senhor falou a Ezequiel, e ele ficou em silêncio por sete dias. Não pôde prosseguir com o seu ministério até que tivesse consumido aqueles sete dias, pensando sobre aquilo que o Senhor tinha lhe mostrado. Minha opinião é que o Senhor não nos dá tudo de uma vez só. Ele espera até que realmente tenhamos entendido o que Ele falou; Ele espera até termos nos ajustado àquilo. Estamos tocando um princípio muito importante aqui – esta questão de períodos entre as revelações. Foi assim com Ezequiel; ele precisou ter seus tempos de quietude. Não apenas uma hora pela manhã, mas, de tempo em tempo, ele ficava em silêncio, ficava sem dizer coisa alguma; ficava completamente a sós com o Senhor. 

Então temos a segunda coisa: essas visões variavam em sua natureza, e não apenas em seu tempo. Temos vários tipos de visões. Não iremos nos deter nelas agora, apenas vamos mencioná-las: houve a visão do Trono; a visão do vale de ossos secos; a visão da Casa do Senhor; a visão do grande rio; a visão da terra; a visão do povo em sua herança; e, finalmente, a visão da cidade.

Ezequiel Foi Instruído Pelo Espírito

Em terceiro lugar, as visões variavam em método, e isto é algo com o qual devemos nos deter por um momento. As visões que chegaram a Ezequiel chegaram de duas maneiras diferentes. Primeiro elas vieram de forma objetiva – as coisas foram apresentadas a ele em forma de visão; Ezequiel estava na mesma situação que João na ilha de Patmos; viu as coisas de forma objetiva; mas as visões nem sempre foram desta maneira. Houve um segundo método pelo qual as visões vieram a Ezequiel, foi pela instrução do Espírito, e este método foi mais amplo. Naturalmente, esses dois métodos não estavam sempre separados, mas são distintos. 

Em nossa dispensação, o primeiro método é muito raro. Paulo não teve muitas visões e revelações objetivas; em 2 Coríntios 12, ele disse: "passarei às visões e revelações... conheço um homem ... se no corpo não sei, se fora do corpo também não sei, Deus sabe – tal homem foi arrebatado ao terceiro céu e ouviu palavras inexprimíveis, as quais ao homem não é permitido falar”. Este foi o primeiro método apresentado a Paulo. Ele teve essas visões objetivas. O apóstolo João também teve, mas essas visões foram excepcionais; pouquíssimos de nós nesta dispensação têm este tipo de visão. Tais visões geralmente pertencem ao início das coisas: o lado objetivo normalmente se refere aos começos. 

Paulo e os demais apóstolos estavam lançando o fundamento para toda esta dispensação. Por isso as visões foram excepcionais, o que podemos chamar de anormais. Contudo, qual é a forma normal para a nossa dispensação? É o segundo método que o Senhor empregou com Ezequiel, o qual tinha a ver com o desenvolvimento do propósito de Deus. Quando você chega a algo tão grande como a Casa do Senhor, e a herança, e a cidade, então, é o Espírito quem está operando tudo o tempo todo. Observem: “O Espírito me levou, o Espírito me fez sentar, o Espírito me tirou, o Espírito me mostrou”. É tudo movimento do Espírito! Esta é a maneira normal para a nossa dispensação. O próprio Senhor Jesus disse que isto seria o normal: "Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará a toda a verdade... Ele receberá do que é meu, e revelará tudo a vocês." E o restante do Novo Testamento segue nesta mesma linha: a maneira normal é o Espírito nos ensinando todas as coisas.

Os Céus Estavam Abertos Para Ele

Isto nos faz voltar à primeira parte da visão: "Os céus foram abertos." Vocês me ouviram dizer bastante sobre o céu aberto, mas quero falar um pouco mais a respeito disto nesta manhã. Todos nós sabemos que no simbolismo do jardim, no princípio, o céu foi fechado para o homem por causa do pecado. O jardim representa o reino dos céus. É uma ordem que o próprio Deus criou. É uma verdadeira representação das coisas celestiais. Porém, quando Adão pecou, ele foi tirado desse ambiente, e a porta foi fechada por detrás dele; e esta porta permaneceu fechada a todos os filhos de Adão. POR TRÁS desta porta está o lugar onde Deus está; POR TRÁS desta porta está o lugar onde a Vida está; POR TRÁS desta porta está o lugar onde a Divina ordem está. Do lado de fora desta porta está a morte; do lado de fora desta porta Deus não está; do lado de fora desta porta não há ordem Divina; e esta porta está fechada para todos os filhos de Adão. 

Mas, a porta foi aberta novamente. E nós sabemos quando ela foi aberta; foi aberta para “o Filho do Homem”. Vocês se lembram de Suas palavras ditas a Natanael? Jesus disse a Natanael: “Em verdade, em verdade te digo, que verás os céus abertos, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem". Naturalmente, isto foi uma pintura. Foi um quadro tirado do Velho Testamento. Natanael sabia o que aquelas palavras significavam. Sabia que elas foram tiradas da experiência de Jacó. Jacó estava no lugar do céu fechado; em Betel ele viu o céu aberto; viu os anjos de Deus subindo e descendo. Natanael conhecia tudo isto. 

Agora Jesus estava dizendo: “Eu sou esta escada. É sobre Mim que os céus estão abertos; todas as comunicações entre o céu e a terra, e a terra e o céu, estão relacionadas a Mim: ninguém vai ao Pai a não ser por Mim; ninguém consegue coisa alguma do Pai, a não ser por Mim”. E assim, às margens do Jordão, os céus foram abertos para Ele; o Jordão simbolizava a Sua Cruz. Na Cruz do nosso Senhor Jesus, um homem foi posto à morte; foi sepultado; e para este homem os céus estão fechados. Do outro lado da Cruz, um Novo Homem ressurge, e, para este, os céus estão abertos: é para o Senhor Jesus, um novo tipo de Homem Celestial, que os céus estão abertos. 

Sabemos que é exatamente isto que o Senhor estava dizendo a Nicodemos – um homem muito inteligente, muito educado e muito religioso. Mas há outro aspecto que tem a ver com o ministério. Há o céu aberto para o ministério, e é disso que estamos falando, no caso de Ezequiel. Para ele o céu aberto referia-se ao seu ministério, e esta é uma questão que vocês e eu precisamos entender. É um aspecto específico do Espírito Santo. Nós recebemos o Espírito Santo quando nascemos do alto, mas a UNÇÃO DO ESPÍRITO REFERE-SE AO MINISTÉRIO. Jesus nasceu do Espírito Santo, mas Ele recebeu a unção do Espírito para o Seu ministério. Não quero aqui mostrar a distinção entre ser nascido do Espírito e ser ungido, mas existe tal diferença! 

Unção é o efeito do Espírito Santo em nós em relação ao ministério. É o que o apóstolo Paulo quis dizer em Efésios, quando orou pela Igreja. Vocês estão tão familiarizados com essas palavras que eu não ousaria lê-las; contudo, vamos olhar para elas novamente. Observem que o apóstolo estava dizendo essas coisas tremendas sobre o chamado da Igreja. É a grande vocação da Igreja que está em foco. Não é apenas a salvação dos crentes – esta já aconteceu; mas, agora, ele está tratando com a questão da Igreja e seu grande ministério; ministério presente e ministério pelas gerações futuras. É isto o que temos na carta aos Efésios. Reconheçamos que esta carta não é para cristãos individuais. Ela somente se aplica ao indivíduo cristão em certo aspecto. Nenhuma das coisas que está nesta carta pode ser cumprida plenamente de forma individual; nenhum indivíduo cristão pode ser abençoado com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais. Há a necessidade de toda a Igreja para que tenhamos todas essas bênçãos espirituais. E nós somente alcançaremos todas essas bênçãos espirituais por meio de uma única maneira: através da comunhão com todos os membros da Igreja.   

Para que servem essas bênçãos espirituais? Serão apenas para a nossa própria satisfação? Para que possamos ser abençoados? Olhando para esta carta vocês percebem que elas visam ao ministério; é para que a Igreja cumpra o seu ministério. Eu não tinha a intenção de sair de Ezequiel e ir para Efésios agora, mas, quem sabe seja o Espírito quem esteja nos levando a isso! Observem o que o apóstolo diz aqui: “Quando Ele subiu às alturas ... deu dons aos homens ... Ele deu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres." Para que? - "Visando o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério" – para tornar a Igreja completa, a fim de que possa cumprir o seu ministério. O objetivo de tudo é o ministério da Igreja. E é por causa deste ministério que o apóstolo ora desta maneira: "Por esta causa eu também… não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós em minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, conceda a vós espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento dEle” – isto é, o conhecimento de Cristo. A palavra “conhecimento”, aqui, é pleno conhecimento, espírito de sabedoria e revelação no pleno conhecimento DELE; tendo os olhos do vosso coração iluminados, para que possais conhecer” (Efé. 3:1a; 1:16,17; KJV; ASV). Então, as coisas que você “pode conhecer” são mencionadas. 

Aqui está a obra do Espírito Santo em relação ao ministério. Em relação ao ministério, A IGREJA precisa ter os olhos do seu coração iluminados (v.18); A IGREJA precisa ter espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento de Cristo (v.17). Esta deve ser a vida normal da Igreja nesta dispensação. Se esta não for a vida normal, então significa que tudo está errado. A IGREJA PRECISA CONHECER “qual é a esperança do seu chamado”; “quais as riquezas da glória de Sua herança” (v.18); “a sobre-excelente grandeza do Seu poder" (v. 19). Este deve ser o conhecimento normal da Igreja para o seu ministério! Este é o significado de céu aberto: "o espírito de sabedoria e revelação" foi dado; os olhos do coração foram iluminados; e nós, então, somos capazes de, pelo Espírito, CONHECER os movimentos de Deus, de CONHECER o caminho que Deus está tomando, de CONHECER o propósito que Deus tem em vista, e de CONHECER que Deus está “trabalhando todas as coisas segundo o conselho de Sua Própria vontade”. 

É isto que Ezequiel chegou a ver com o céu aberto. Deus tem um propósito! E Ele está se movendo na direção deste propósito! Todas as poderosas energias de Deus estão direcionadas para este propósito! Todas as coisas nos céus e na terra estão sendo governadas visando a este propósito! É isto o que Ezequiel viu! O Livro de Ezequiel é o Livro das persistentes energias de Deus em direção ao Seu propósito. Nós, irmãos e irmãs, PRECISAMOS CONHECER isto em nossa própria experiência! 

Foi um caminho tremendamente custoso para Ezequiel. Um caminho que abriu uma linha completamente nova. Leiam este livro e vejam o que esta visão custou ao profeta. A visão custou a ele a vida de sua esposa. Sua jovem esposa morreu como um sinal para Israel, e muitas outras coisas aconteceram ao profeta; coisas muito dolorosas. É algo muito caro ter o céu aberto. Essa maneira custosa não vem a nós da mesma maneira, mas, creiam, o céu aberto implica em muito sofrimento. A visão nos envolve numa impossibilidade de sermos compreendidos por aqueles que ainda não a têm. A visão envolve perseguição por parte de outras pessoas dentre o povo de Deus. É isto que aquela experiência significou para Ezequiel; contudo, vale a pena! Qualquer um que tenha o céu aberto não abrirá mão dele por nada nesta vida. Não abrirá mão dele nem por toda a popularidade deste mundo. O céu aberto é a coisa mais preciosa que qualquer homem ou mulher pode ter – céu aberto é ter comunhão com Deus – onde Deus segue mostrando coisas novas cada vez mais.

Se vocês estiverem preparados para aceitar o preço, então, peçam a Deus para tornar isto real, mas não fiquem surpresos se experimentarem o que Ezequiel experimentou logo após sua primeira visão. Ele disse: “fiquei ali sete dias, atônito". Quando alguém morria, era costume as pessoas não tomarem banho por sete dias. Elas lamentavam durante sete dias, e ficavam como que mortas nesse período; (na Bíblia, o oitavo dia é sempre o dia de vida nova), e Ezequiel ficou como que morto por sete dias. O tremendo efeito da visão fez com que ele atravessasse um período muito doloroso. Assim, não fiquem surpresos se vocês começarem a ter um período difícil; o que eu quero dizer é o seguinte: quando temos compromissos desta ordem com o Senhor, Ele geralmente começa a nos fazer passar por experiências profundas, a fim de que tudo se torne muito real. Oh, nossa carne não quer a visão, não deseja o ministério; nossa carne deseja toda a glória, mas o Senhor toma medidas contra a nossa carne, e atravessamos períodos nos quais ela é levada à morte, e isto é para a própria segurança do ministério. Esta é uma verdade que precisamos experimentar, e isto estava no âmago do ministério de Ezequiel.

Capítulo 4 – O Homem Que Está No Trono Governa Todas As Coisas

Agora retornemos às profecias de Ezequiel. Vocês vão se lembrar de que, ontem pela manhã, começamos a considerar a preparação do profeta para o seu ministério, e falamos sobre o céu aberto: "os céus se abriram, e eu vi visões de Deus”. Nesta manhã chegamos à segunda metade da declaração, "visões de Deus," e tomamos esta primeira grande visão que foi dada ao profeta. Isto abrange os versos de quatro a vinte e oito do capítulo um. Vocês leram cuidadosamente esses três capítulos, de modo que não será necessário que os leiamos novamente nesta manhã. 

A primeira coisa que precisamos observar é que esta visão é uma coisa só; ela possui várias partes, mas tem apenas um único objetivo em vista. O último verso do capítulo nos mostra que é desta maneira. O versículo vinte e oito, a segunda parte, diz: "Esta era a aparência da semelhança da glória do Senhor." Tudo no capítulo está incluído nisto, “a aparência da semelhança da glória do Senhor”. 

O fator inclusivo de toda esta visão era o Trono do Senhor. Todas as demais coisas na visão são apenas parte do Trono; todas elas irão compor o Trono do Senhor. É muito importante reconhecermos isto. Vocês não estão lidando com várias coisas diferentes nesta visão: estão lidando apenas com uma única coisa, a qual é formada por várias partes. Há fogo, relâmpagos, poder terrível, há irresistível progresso, há seres viventes, rodas, há semelhança de homem. Todos esses elementos são partes do Trono. Todos eles irão compor o significado do Trono do Senhor. E todos eles estão incluídos nesta declaração final: "Esta (tudo isto) era a aparência da glória do Senhor."

Agora eu quero que vocês entendam essa aparência, da forma como a vemos neste capítulo. Não devemos pensar no Trono como algo separado, distante lá no céu, e, então, os querubins aqui em baixo. O que precisamos entender é que tudo é uma coisa só. Aqui está o Trono acima, então, abaixo do Trono, temos o firmamento, e, imediatamente abaixo do firmamento, temos os querubins. Todos esses elementos compõe uma coisa só, e todos eles estão se movendo juntos. Parece que o Trono e os querubins se movem juntos. Vocês verão que eles vêm do norte. Tudo é uma coisa só, e este é o ponto que eu quero frisar agora. Antes de considerarmos o que está embaixo do firmamento, vamos considerar aquilo que está acima. Talvez, seria melhor que lêssemos o verso vinte e seis novamente: 

“E acima do firmamento que estava sobre suas cabeças estava a aparência do Trono, à semelhança de pedra safira; e sobre o firmamento, que estava por cima das suas cabeças, havia uma semelhança de trono, como a aparência duma safira; e sobre a semelhança do trono havia como que a semelhança dum homem, no alto, sobre ele”. 

Assim, começamos destacando o fator governante que é o Homem sobre o Trono. Se vocês não compreenderem o significado disto, não entenderão o conjunto das profecias de Ezequiel. TUDO o que está neste livro, tanto de história, como de futuro, deve ser visto à luz do Homem sobre o Trono. Há um Trono sobre o firmamento, e há uma aparência de homem sobre ele. TODO governo está investido neste Homem do Trono. Esta não é somente a chave para o livro de Ezequiel, mas, também, é a chave para todas as coisas na história, e particularmente para esta dispensação. É o governo que está investido neste Homem do Trono. Esta é a chave para tudo. Daí vem todas as demais coisas. 

Ao iniciarmos estes estudos, levantamos uma grande questão: “Será que este livro possui uma mensagem para a nossa dispensação?” A resposta pode ser dada em TRÊS fragmentos, a partir do Novo Testamento. Um deles é encontrado em João 6:62 (ASV), dos próprios lábios do Senhor Jesus: “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do Homem para onde primeiro estava?” Como vocês podem ver, isto introduz a questão sobre O LUGAR CERTO PARA O FILHO DO HOMEM. "Que seria... se vísseis o Filho do Homem subir para onde primeiro estava?" A segunda passagem vem dos lábios de Estevão, em Atos 7:56: "Vejo os céus abertos, e o Filho do Homem em pé à destra de Deus.”  Isto revela que as palavras do Senhor Jesus foram cumpridas: -"Eu vejo ... o Filho do Homem em pé à destra de Deus." A questão foi respondida. 

A Terceira passagem inclui as duas anteriores e vai além. Está em Hebreus, capítulo um, verso oito: "... do Filho, Ele diz: 'Teu Trono, ó Deus, é eterno". Esta passagem nos faz voltar para onde Ele estava antes: o Filho do Homem subindo para onde Ele estava anteriormente. Teu Trono é desde sempre, e continua pela eternidade - "Teu Trono... é para sempre e sempre." Isto é dito acerca do Filho; e Jesus fala de Si mesmo como sendo o Filho do Homem, O FILHO DO HOMEM SENTADO EM SEU TRONO ETERNO - "Acima do firmamento está um Trono e a semelhança de um Homem está sobre ele."

O Homem Em Seu Devido Lugar

Primeiramente, Deus tem Seu Filho. Soletramos isto com um grande “H”. Deus tem o Seu Homem, o Homem que Ele sempre quis e pretendeu ter, e agora, este Homem está no Seu devido lugar; o Homem está onde Deus pretendeu que Ele estivesse. Apenas guardem estas duas coisas, porque, como dissemos, elas governam todas as demais. Finalmente Deus tem o Seu Homem. Há um sentido em que Deus, no passado, esteve à procura deste Homem. Deus criou Adão para ser esse homem, e Deus, ao longo da história, sempre esteve à procura desse homem, que fosse segundo o Seu próprio coração. Deus encontrou este Homem em Seu Próprio Filho. Este é o significado pleno da encarnação. Deus proveu para Si mesmo um Homem, e este Homem está agora no lugar designado por Ele. Está em Seu devido lugar, no lugar de governo. Isto responde ao salmo 8:6, "Fazes com que Ele tenha domínio”. Todo domínio e toda autoridade está investida neste Homem! Ele é o Filho de Deus, mas também é o Filho do Homem. Devemos nos lembrar de que TUDO É GOVERNADO POR ISSO! A preparação do servo do Senhor é governada por isto! O ministério é governado por isto! Todo ministério precisa tomar o seu caráter a partir deste Homem assentado no Trono! 

Então, vocês prosseguem através deste grande livro, e chegam aos julgamentos de Deus; primeiro, o julgamento do povo do Senhor e, então, o julgamento das nações; e todos esses julgamentos são governados pelo Homem do Trono.  Após os julgamentos, vocês chegam à recuperação do testemunho de Deus. E a recuperação do testemunho de Deus é conforme o Homem que está no Trono. Poderíamos ficar detidos aqui neste assunto por muito tempo, mas precisamos deixar sua vasta plenitude para mais tarde. 

Mas nos ocorre a seguinte pergunta: "Qual é o testemunho que Deus deseja e quer recuperar?” – É o testemunho de Jesus. É o testemunho de que Deus tem um Homem Segundo O Seu Coração, e que O Homem Segundo O Seu Coração é um tipo de Homem; um Homem diferente de todos os demais, e que toda a Sua autoridade está investida neste Homem, Jesus Cristo. Este é o testemunho que Deus deseja recuperar. Iremos descobrir mais adiante que a Casa de Deus é o lugar onde este testemunho é encontrado. A Casa de Deus é constituída conforme este Homem; e é o que este Homem representa que é expressado na Casa de Deus. É a isto que devemos chegar, pois, é o testemunho de Deus em Jesus Cristo na Casa de Deus. 

Assim, a obra da recuperação como a temos nas profecias de Ezequiel é governada pelo Homem do Trono. E, quando falo governo, não quero dizer governo oficial – mas quero dizer que é o caráter deste Homem que governa todas as coisas. Então, movemo-nos para a Casa de Deus. Ela ocupa um lugar muito importante nestas profecias. É uma Casa muito maravilhosa. Quando chegarmos a ela, veremos que ela é governada pelo Homem do Trono. Depois chegaremos ao rio, que sai da Casa de Deus, fluindo pelo caminho do altar através da corte, descendo às nações, dando vida a todas as coisas por onde quer que passe. Veremos que isto corresponde ao que temos no livro de Atos, pois lá, vemos o rio fluindo do santuário da Jerusalém espiritual para toda Judéia e Samaria, e para os confins da terra. Tudo ganha vida por onde esse rio passa. É um rio bastante longo. É o maior rio do mundo. Ele já tem alcançado a China; está fluído através da Índia. É um rio que corre por toda a terra, e, por onde quer que passe, dá vida às coisas. Mas, lembrem-se de que este rio nasce no Filho do Homem, que está assentado no Trono. Tudo é governado por Deus a partir do Seu Filho no Seu lugar devido.   

Depois veremos o povo de Deus tomando posse da herança. Esta é outra grande verdade do Novo Testamento; o povo do Senhor tomando posse da herança espiritual. Esta é uma das últimas coisas nestas profecias. O povo do Senhor somente tomará posse da herança quando o Senhor Jesus ocupar o Seu devido lugar. Coloquemos isto de outra forma. Quando Jesus está em Seu devido lugar, o povo de Deus, então, toma posse da herança. Nós jamais poderemos tomar posse da nossa herança até que Jesus ocupe o Seu lugar! 

Agora olhem para o livro de Atos – que plenitude tem o povo do Senhor! Que tamanha herança chegou a eles! Por que ela veio? E como? Porque a grande mensagem daquele livro é a de que Jesus Cristo é o Senhor! Deus O exaltou acima de todo poder e autoridade! Quando Jesus tem o Seu lugar, o povo do Senhor alcança a sua herança. 

A última coisa nessas profecias é a cidade, e há o rio fluindo a partir dela; mas o rio sai do Trono de Deus e do Cordeiro. Jesus finalmente está em Seu devido lugar, e a cidade é o vaso da Sua plenitude, e esta plenitude sai da cidade e alcança todos os povos. Tudo isso está aqui em tipo e em símbolo nas profecias de Ezequiel. Será que respondi a nossa primeira pergunta? - "Tem este livro uma mensagem para a nossa dispensação?" Acho que agora podemos ver que tem, mas a nossa questão agora é que tudo isto é governado pelo Homem que está no Trono.   

Temos DUAS coisas a esse respeito, pois, ter Deus o Seu Cristo no céu é algo muitíssimo importante. Gostaria que vocês refletissem mais sobre isto! Que grande coisa é para Deus ter o Seu Cristo no céu! Isto poderia nos envolver por bastante tempo. Paulo nos diz que Deus exerceu a sobre-excelente grandeza do Seu poder para trazer Cristo para lá. Isto significa que todos os demais poderes do universo tiveram que ser VENCIDOS. Realmente é algo tremendo para Deus ter Cristo no céu! E, então, em segundo lugar, é algo muito grande para o povo de Deus ter Cristo no céu.

O Julgamento Vem Do Trono de Cristo

Voltemos agora para o que estávamos falando um ou dois minutos atrás. Todo julgamento vem do Trono de Cristo, e Ele está julgando o Seu povo e as nações a partir do Seu Trono. Observem que o julgamento começa com o povo de Deus, nas profecias de Ezequiel. Isto nos traz para o começo do livro de Apocalipse. São as igrejas que primeiramente são julgadas pelo Senhor Jesus na glória. É um princípio de Deus, “que o julgamento comece pela Casa de Deus”. Naturalmente, isto é necessário pelo próprio caráter de Deus. Supondo que Deus fosse julgar o mundo, e, então, o mundo apontasse para os cristãos e dissesse para Deus: “Olhe para eles; que contradição eles são; contudo, Tu os deixas ir. Tu vens e nos julga, mas não julgas o teu Próprio Povo”. Estaria tudo errado. Assim, por questão de princípio, "o julgamento precisa começar pela Casa de Deus." Nós, como povo de Deus, precisamos passar pelo julgamento do Trono.  

Vou tomar muito cuidado para explicar o que isto significa. Tenho falado mais de uma vez esta manhã que é um tipo especial de Homem está no Trono, e que Deus julga todas as coisas de acordo com o caráter deste Homem. É isto o que vocês têm no começo do livro de Apocalipse. No início deste livro, há um retrato completo do Senhor Jesus. Sua Pessoa e aparência são descritas em detalhes. É desta forma que Ele se apresenta às igrejas; e, então, é como se o Espírito Santo estivesse dizendo: "Eu irei julgá-los conforme este Homem”. Assim, a mensagem para cada igreja é: “Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz”. A obra do Espírito Santo está toda relacionada a Cristo. Vocês sabem disto como sendo uma grande verdade do Novo Testamento. Agora, o desafio para as igrejas é "Como você é medido a este Homem?” Como a sua vida, o seu caráter e a sua obra respondem a Ele?” 

O Resgate Do Testemunho De Jesus

Então, vocês irão ver o Segundo movimento de Deus. Está muito claro no livro de Apocalipse. É o movimento para se resgatar o testemunho de Jesus. João diz: “Eu estava na ilha chamada Patmos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de Jesus”. Esta frase, o testemunho de Jesus, ocorre diversas vezes em Apocalipse. Esta é a base da atividade de Deus. 

Agora, nas igrejas, a única questão é: “ao que vencer…" Os vencedores representam o resgate do testemunho de Deus. A recuperação do movimento de Deus é encontrada nos vencedores. Os vencedores são aqueles que rejeitaram tudo o que não estava de acordo com Cristo, e são agora uma expressão deste Homem Divino, de modo que, quando chegamos ao final do livro, tanto de Ezequiel como de Apocalipse, temos a cidade. Todos nós sabemos que não se trata de uma cidade literal; não poderia ser literal. Vocês teriam que se livrar de muita coisa, a fim de ter esta cidade na terra. Esta cidade, naturalmente, é uma figura. É uma figura da Igreja; tanto a Igreja como a cidade responde à Divina descrição. Paulo coloca da seguinte maneira: “Cristo... amou a Igreja, e por ela Se entregou a Si mesmo... para que pudesse apresentá-la a Si mesmo como Igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, ou qualquer outra coisa”. (Efé. 5:25,27; ASV). Isto descreve plenamente a cidade no fim do livro do Apocalipse: “O Espírito … mostrou-me a cidade santa de Jerusalém … tendo a glória de Deus: - Igreja gloriosa – sua luz era como uma pedra muito preciosa" (Apo. 21:10,11). Luz é sempre símbolo de pureza - "Não tendo mancha, nem ruga, ou qualquer outra coisa." "Cristo... amou a Igreja, e se deu a Si mesmo por ela” – no meio da cidade está o Trono do Cordeiro. Percebam o simbolismo. Percebam o significado espiritual – Este último estado corresponde ao Homem no Trono! 

O livro de Atos é o grande começo. Ele inicia com Cristo no Trono. Antes de chegarmos ao final da era apostólica, as coisas já começam a sair errado. Podemos detectar isto nas cartas de Paulo, especialmente em suas últimas cartas que foram para Timóteo – as coisas estavam erradas. O testemunho estava se perdendo. Então, chegamos a Apocalipse, e Deus começa o julgamento pela Casa de Deus, como que buscando resgatar o testemunho; e, no final de Apocalipse, vemos o testemunho completamente recuperado!  

 

As Energias E Os Movimentos De Deus

 

Retornemos agora a Ezequiel. Neste livro, como já temos dito, vemos as energias e os movimentos de Deus. A primeira visão é uma representação disto. Olhem para os símbolos usados. Primeiro, ‘fogo ardente’ – quem pode permanecer diante do fogo ardente? Quando o fogo começa a varrer a terra, ninguém pode apagá-lo. O fogo é irresistível. E, então, ‘relâmpagos’ – como numa grande tempestade elétrica. É algo terrível. Quem pode resistir a uma grande tempestade elétrica? Você não consegue resistir a ela; não pode acabar com ela. Neste livro vocês têm todos os símbolos desta tremenda energia, e tudo isto está conectado ao movimento de Deus, pois foi o Trono que venceu.  

Digo que a grande consciência da Igreja no princípio era a de que Jesus estava no Trono, e não Satanás – JESUS ESTÁ NO TRONO, e não César! - A Igreja era impulsionada pela energia deste grande fato! A Igreja orava baseada nisto! Ela apelava ao Trono, e orava com confiança, pois sabia que Jesus estava no Trono! Vocês lembram um exemplo disso – a Igreja vivia um tempo de grande oposição; os governantes tinham se levantado contra os cristãos; então, a Igreja se reuniu para orar, e em sua oração eles citaram o Salmo 2. Vocês sabem o que está escrito no salmo 2? "Por que se amotinam os gentios,  as nações imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o Senhor e contra o Seu Ungido... Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles... Proclamarei o decreto. Eu ungi o meu Rei no santo monte de Sião." E, então, os reis e os governantes são instados a: "Beijai o Filho para que não se ire". Vocês podem ver que foi isso que eles usaram na oração no livro de Atos (4:25,26). Que confiança eles tinham no Trono e naquele Homem assentado sobre ele! Eles oravam baseados nisso! Pregavam baseados nisso! Cantavam baseados nisso! 

Sim, eles cantavam. Ouçam dois homens cantando. De onde vem a cantoria? Vem de uma prisão! Há dois homens que foram espancados e feridos, e foram jogados para dentro do calabouço. Seus pés haviam sido acorrentados, mas eles estavam cantando. Como podiam cantar em tal situação? Simplesmente porque sabiam que Jesus estava no Trono! A canção deles era uma canção de fé e de confiança; e, em poucos minutos, houve um grande terremoto, e todas as portas foram abertas e as cadeias caíram. Jesus está no Trono, e eles cantavam por causa disto! 

Eles sofreram por causa disto! Sim, sofreram muito; mas a força para suportar veio da consciência que tinham de que Jesus estava no Trono. E eles morriam por isso! Estevão está morrendo e diz: “Vejo os céus abertos, e o Filho do Homem em pé à mão direita de Deus”. Este foi o seu testemunho, ele morreu nesta base.   

Tenho que parar por aqui esta manhã, pois o nosso tempo acabou. Chegamos apenas ao começo desta grande visão, mas tenho certeza de que vocês enxergam que este livro possui uma mensagem para o nosso tempo. Mas, não posso terminar sem antes lembrá-los do seguinte – tudo isto tinha a ver com a preparação de um homem para o seu ministério. Se Ezequiel não tivesse enxergado isto, ele jamais teria sido capaz de cumprir o seu ministério. Tudo, em seu ministério, veio desta primeira visão. Precisamos entender o significado disso. Isto precisa nos envolver do mesmo modo como envolveu o profeta. O que nos envolve tem que ser: ‘JESUS é o Senhor, Jesus está no Trono; por isso posso continuar. Posso enfrentar dificuldades, posso sofrer, posso morrer, posso orar, posso cantar!”

Capítulo 5 – O Trono Está Se Movendo em Relação ao Divino Propósito

Nós estamos ainda envolvidos com as preparações do servo de Deus para o ministério, e, ontem pela manhã, estávamos considerando o Trono acima do firmamento e também a semelhança do Homem assentado nesse Trono. Como vocês vão se lembrar, concluímos ontem, mostrando a importância para os servos de Deus de enxergar este Trono – o que significa para eles reconhecer que existe um Trono, e que há um Homem assentado sobre ele. Passamos pelo Novo Testamento, e vimos que este era o fator que determinava tudo nos primeiros dias: eles eram capazes de cantar, de orar, de pregar, de sofrer e de morrer porque conheciam o Homem no Trono! Assim, esta parte da visão veio primeiro e foi de grande importância para Ezequiel.  

Acho que vocês conhecem o significado do nome Ezequiel; mas, caso não saibam, permitam-me dizer o significado: “Deus será a minha força”. Ezequiel precisou ter visões e experiências que tornassem verdadeiro o significado do seu próprio nome. Tudo o que Ezequiel estava vendo estava apenas estabelecendo o significado do seu próprio nome, "Deus é a minha força." Nós somente teremos força quando enxergarmos o Homem no Trono! Isto é algo muito importante para o ministério. 

Assim, chegamos à próxima parte das “visões de Deus”, que era a preparação do servo de Deus; isto é, o que estava imediatamente abaixo do firmamento. E a primeira parte era “os quatro seres viventes”, os quais são conhecidos como querubins. Naturalmente, reconhecemos que esses querubins são símbolos de coisas espirituais. E uma coisa que temos a respeito deles é a seguinte – que em diferentes lugares eles diferem em representação. Por exemplo, aqui em Ezequiel eles têm quatro asas; em Isaías, têm seis asas. Isto serve apenas para enfatizar princípios espirituais específicos, e vocês irão observar que há outras diferenças nas referências sobre querubins. Isto significa que, ao mesmo tempo, em um lugar, certas coisas são enfatizadas. Em outro tempo, em outro lugar, outras coisas são enfatizadas. São os princípios espirituais que devem ser observados, por isso os querubins são símbolos de realidades espirituais. A Bíblia, do início ao fim, está cheia de simbolismos – coisas que Senhor utiliza para ensinar verdades espirituais. 

Agora, então, vamos olhar para os “quatro seres viventes”. Primeiro devemos considerar o número deles: número quatro. Tudo neles fala do número quatro. Cada um deles possui quatro semelhanças, e há quatro deles. Eles têm quatro asas. O número característico deles é quatro; e, como vocês devem saber, quatro é o número da criação. Se quisermos abranger todas as dimensões da criação, elas serão em número de quatro: norte, sul, leste, oeste. Há quatro estações no ano: primavera, verão, outono e inverno.  Na Bíblia, o número quatro faz referência aos quatro ventos vindos dos “quatro cantos da terra”. (Apo. 7:1). Sabemos que o mundo não é quadrado; que não possui quatro cantos, mas esta é uma maneira simbólica de falar; “os quatro cantos da terra” significa o mundo todo. Portanto, representa toda a criação; quatro é o número da criação. Guardem isto na mente enquanto nos movemos para as quatro semelhanças dos querubins. 

Vocês sabem, os querubins tinham quatro semelhanças: a semelhança de um homem, a semelhança de um leão, a semelhança de um boi, a semelhança de uma águia; os quatro querubins representam as quatro partes da criação. O leão representa a criação selvagem, o boi representa a criação doméstica, a águia representa a criação que voa, e o homem representa a criação humana. Toda a criação está representada aí. 

Mas, então, qual é o simbolismo espiritual? O leão é o símbolo da realeza; do governo. O boi é o símbolo do serviço; do sacrifício. A águia é o símbolo do celestial, do mistério. E o homem é o símbolo da representação. Este é o simbolismo espiritual. 

Podemos perguntar, “Qual o significado de tudo isso?” Em primeiro lugar, vemos que tudo é uma representação simbólica de Cristo. É Cristo em Sua capacidade quadripartites.  O leão é “o Leão que veio da tribo de Judá”: - de Judá saiu o Governo, assim, este leão é o símbolo do governo; da realeza do Senhor Jesus. Vocês provavelmente sabem que o Evangelho de Mateus corresponde a isto. É o Evangelho do Rei! O Boi é o símbolo do serviço; é a representação do Senhor Jesus na qualidade de servo de Jeová, oferecendo-se a Si mesmo como sacrifício: - "o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar a Sua vida”. O boi corresponde ao Evangelho de Marcos! É no Evangelho de Marcos que, mais do que em qualquer outra parte, Jesus é visto servindo, dando de Si mesmo. O aspecto de Homem do querubim é muito claro, "o Filho do Homem é chegado." Esta é a mensagem de Lucas, Jesus, o Homem! E a Águia é o símbolo do celestial; do mistério, e isto é claramente visto no Evangelho de João! O Senhor Jesus frequentemente, neste evangelho, fala de Si como “descendo do Céu”, e ainda, o mistério a Seu respeito que ninguém consegue compreender. Ele é Homem, porém, é mais do que Homem. Este é o simbolismo da águia. Assim, acho que ficou bem claro com essas referências que o Senhor Jesus é representado por querubins. 

Os querubins são chamados de ‘seres viventes’. Em nossa tradução, uma palavra é introduzida a qual não está no original. Na tradução ‘King James', está escrito ‘criaturas viventes’; em outra tradução, temos ‘bestas viventes’, as quatro bestas. Bem, naturalmente, o homem não é uma besta; a águia não é estritamente uma besta. Contudo, essas palavras, criaturas e bestas, não estão no original. O que está no texto original é ‘seres viventes’, o que simplesmente corresponde à forma plural da palavra ‘vida’. – Significa o plural de ‘vida’. A característica chave dos querubins é vida: - "Nele estava a Vida”. Para que serve a vida? – Jesus é a vida da criação. Naturalmente, agora é a vida da nova criação! 

Voltemos à primeira aparência dos querubins. O homem pecou, Deus amaldiçoou a raça e a terra. Expulsou o homem do jardim, onde estava a ‘árvore da vida’; e colocou querubins junto ao portão, a fim de guardar o caminho da árvore da vida. O que tudo isto significa? A criação pecadora e caída jamais poderá ter aquela Vida novamente. Aquela Vida somente pode ser obtida por meio de ‘uma nova criação’. Entre a criação caída e a criação não caída está Cristo, ‘A Porta’. Cristo diz: “não há vida para a criação pecadora; somente há Vida para a nova criação”. Assim, Cristo está entre a velha criação e a nova. Não há Vida fora de Cristo. Somente há Vida Nele. Cristo, como “A Árvore”, é a porta. Ele diz “NÃO” à velha criação, e “SIM” à nova. Bem, penso que podemos dizer que os querubins representam Cristo. Representam Cristo como sendo a Vida. 

Agora, também é muito claro enxergar que os querubins, em relação ao Trono, representam toda a criação. O Trono está ligado à criação – tanto em criação como em redenção. Por um lado, o Trono está relacionado à criação; do outro, está relacionado à redenção desta criação! O Trono de Deus governa essas duas coisas. O Trono sobre rodas de Deus está ligado ao poder criativo e ao poder redentor de Deus. Este Trono diz que Deus está interessado na redenção da criação. Observem que acima do Trono está um “arco-íris". O arco-íris é o símbolo da aliança da redenção. Vocês irão encontrar o arco-íris novamente em Apocalipse, e nós iremos ver a sua conexão naquele livro, mas fiquemos bem seguros quanto ao que acabamos de falar.   

Aqui está o Trono sobre rodas de Deus! Abaixo dele estão os símbolos de toda a criação! Tudo é uma questão de Vida para a criação, e nós vemos as tremendas energias e poder desses movimentos do Trono! Todas as energias e movimentos de Deus estão relacionados à nova criação, à criação redimida. Assim, vemos que o Trono está se movendo em relação ao Propósito de Deus – o Divino Propósito em relação à criação. Este movimento se dá por meio do Senhor Jesus. A nova criação deve ter a Jesus como seu Rei. Isto se dá através do Seu serviço e do Seu sacrifício. Isto será uma expressão de Seu Caráter Celestial, e tudo se resumirá nisto: “um homem segundo o coração de Deus!” 

Nos capítulos quatro e cinco de Apocalipse, uma grande multidão de redimidos será mostrada para todo o universo; e, quando isso acontecer, a própria criação será libertada. Não vai demorar muito para Deus dizer: “Eis que crio novos céus e nova terra... pois o primeiro céu e a primeira terra já passaram”. (Isaias 65:17a; Apo. 21:1, 4b; NASV; KJV). Tudo isto está aqui em Ezequiel, em princípio. Mas temos algo muito significativo – nos capítulos quatro e cinco de Apocalipse, temos os quatro seres viventes. No capítulo quatro, eles estão ligados à criação. A canção no capítulo quatro é: “Pois Tu criaste todas as coisas, e por Tua causa elas existem, e foram criadas." Os seres viventes estão ligados a isso. O propósito Divino na criação - "Deus criou todas as coisas em Cristo Jesus”. Os seres viventes são uma representação de Jesus Cristo – Rei, Sacrifício, Homem Celestial, que dá significado à criação. "Todas as coisas foram criadas Nele”, e os seres viventes estão lá no momento da canção da criação, mas de uma forma especial – agora é a canção da nova criação.

No capítulo cinco de Apocalipse, outra canção é cantada, e os seres viventes estão lá. Esta é a canção da redenção: Tu… redimiste!”; esta é a nova canção, e os seres viventes estão lá. O propósito da criação em Cristo Jesus - Jesus como o Propósito da criação, e, quando a nova criação é assegurada, os seres viventes estão lá. É a nova criação em Cristo Jesus. A canção da Redenção é: “Tu … nos redimiste,” – e A Redenção está em Cristo Jesus.   

Isto nos faz retornar a Ezequiel – os querubins, em primeiro lugar, são uma representação de Cristo. Por um lado, estão relacionados à criação; por outro, à redenção. Todas as poderosas energias de Deus estão concentradas nisto. Todos os movimentos de Deus estão nesta direção. Uma criação fracassou; Deus terá uma nova criação. Uma representação de Deus falhou; Deus terá uma nova representação. Israel fracassou como representação de Deus, mas Ele, então, tem a Igreja. Isto é o que aparece mais tarde nas profecias.   

Agora vamos deixar isto por aqui. É apenas a metade do todo. A outra metade são as rodas, mas acho que devemos parar por aqui esta manhã. Isto tudo não é apenas interessante, mas muito instrutivo. Pode nos ajudar a enxergar uma coisa: O Trono no céu está concentrado numa plena e perfeita representação do Propósito do Senhor. Quando resumirmos toda esta seção, veremos mais do que isto significa para nós. Mas é algo tremendo estar bem no meio dos movimentos de Deus! Não do lado, não em pequeno pedaço, mas bem no meio do mover de Deus! É aí que encontraremos o suporte do Trono!
 

Capítulo 6 – A Autoridade está Investida no Homem do Trono
 

Esta primeira seção, dos capítulos um a três, trata da preparação do servo do Senhor para o ministério. Até onde temos considerado o profeta em si, e, então, o céu aberto, temos prosseguido com as visões de Deus. E nós ainda temos um pouco mais a falar sobre a primeira visão. Temos considerado o Trono sobre rodas e os quatro seres viventes. Há apenas mais dois outros aspectos para considerarmos. O primeiro são as rodas. Esta seção está em Ezequiel um, dos versos quinze a vinte e um. Vocês já leram isto, de modo que não precisaremos abordá-los esta manhã. Há vários aspectos ou características nas rodas, e penso que podem ser colocadas como sendo cinco coisas.  

Primeiro, as rodas são símbolos de movimento; significam mobilidade. As rodas, aqui, também falam de direção. Terceiro, elas começam na terra, e são levantadas da terra para o céu, e, então, parecem tocar a terra novamente, em tempos diferentes. Em seus movimentos, as rodas parecem vir à terra de tempos em tempos. Então, em quarto lugar, essas rodas estão cheias de olhos. Em todo o redor das rodas há olhos. E, em quinto lugar, o Espírito de vida está nas rodas. Quero apenas mencionar essas coisas, para mostrar o seu ensino. Não precisamos gastar muito tempo sobre cada aspecto; vamos apenas rever uma ou duas observações.

Rodas Representam Mobilidade

Número um: as rodas representam mobilidade. Isto sugere duas coisas. Primeiro, Deus está em movimento. Estamos aqui diante dos movimentos do Trono sobre rodas. Segundo, Deus requer liberdade absoluta para se mover. Ele requer total liberdade para os Seus movimentos. Se vocês não estão muito certos do que eu quero dizer com isto, basta lembrarem de que vocês estão tratando aqui em Ezequiel exatamente com a mesma coisa que está no livro de Atos. E, quando falamos do livro de Atos, entendemos que estamos falando sobre todo o Novo Testamento. Todas as cartas dos apóstolos saíram do livro de Atos – O Livro de Atos compreende todo o Novo Testamento. Precisaremos ver isto em mais detalhes. Porém, quando chegamos ao livro de Atos, descobrimos duas coisas: o Trono está em movimento. Não há dúvida de que o Homem assentado no Trono está se movendo. Nós podemos ver os movimentos do Senhor no livro de Atos. Atos não é um livro estático. O Senhor não está parado ali; está em movimento. 

A segunda coisa é que o Senhor requer liberdade para se mover. Esta liberdade de movimento precisa ser reconhecida e aceita. Lembremo-nos de Pedro na casa de Cornélio. Aquela visão que Pedro teve no terraço está sempre presente em nossa mente. O Senhor está se movendo de Israel para os Gentios, de Jerusalém para as regiões baixas. Isto é o que temos em Ezequiel. Mas Pedro quis parar o movimento do Senhor – ele disse: "Não, Senhor." Mas as mãos do Senhor não estão amarradas pela tradição. O Senhor não está preso pelo preconceito. Esta foi uma tremenda crise para Pedro, e esta foi a natureza da crise. O Senhor estava dizendo a ele: “Pedro, eu estou me movendo. Você vai comigo? Se você não for comigo, não faz diferença. Simplesmente você vai ficar para trás. Mas, se você for comigo, terá que me dar toda a liberdade de movimento. A sua mente não pode interferir nos meus movimentos. As suas tradições religiosas não podem interferir no meu movimento. O seu preconceito não pode interferir no meu movimento”.  

O Senhor está se movendo, e Ele requer absoluta liberdade de movimento. É isto o que temos aqui nas rodas, bem no início. Deus está se movendo, e reivindica o direito de se manter em movimento. Isto não é apenas algo dito a vocês esta manhã. Há muita coisa ligada a isto. Precisamos nos lembrar de que Deus está sempre se movendo em direção ao Seu Eterno Propósito. E nós não podemos colocar coisa alguma em Seu caminho. Repetidamente o Senhor pode vir contra essas coisas que estão em nós, nossa mente a respeito das coisas, ou até mesmo as nossas experiências passadas, nossas ideias de que já conhecemos tudo. O Senhor diz: “Eu tenho ainda mais luz e verdade para revelar em minha Palavra. Vocês ainda não chegaram ao final dos meus movimentos. Há muito mais adiante do que o que ficou para trás, e vocês precisam dar a Mim total liberdade para prosseguir”. 

Agora, precisamos pensar sobre isto, porque não é apenas a primeira coisa, mas é o fundamento de tudo. O Trono do Senhor está sobre rodas. Repousa sobre o princípio de que Deus é um Deus de movimento e que exige liberdade para se mover.

Rodas Falam De Direção

A segunda coisa: as rodas falam de direção sem desvios. Este é um dos pontos mais difíceis de interpretar nesta visão. Mas, conforme vejo, para mim significa o seguinte: Quando Deus segue avante, Ele jamais é pego de surpresa por algo que Ele não tenha previsto. Se Deus muda de direção, é porque tudo já estava previsto, não se trata de uma emergência, não é porque Deus não tinha antecipado a situação. Agora, provavelmente vocês irão encontrar dificuldade para entender isto. Voltemos para o que estávamos falando sobre Pedro. Parece que Deus está mudando de direção, pois, até este ponto, Ele estava se movendo com Israel; todos os Seus movimentos até então estavam relacionados a Israel. Agora parece como se Deus estivesse mudando de direção, e isto foi um problema para Pedro. Foi uma mudança muito grande na direção de Deus. Pedro queria que o Senhor continuasse com Israel, e não mudasse o Seu curso na direção dos gentios. Parecia que Deus estava mudando o Seu curso só porque havia enfrentado dificuldades em Israel. É assim que muitos expositores da Bíblia interpretam. 

Deus encontrou dificuldade em Israel, por isso se voltou para os gentios. A ida aos gentios, dizem, foi uma política completamente diferente adotada pelo Senhor, isto porque os Judeus lhe apresentaram dificuldade. É assim que Pedro viu a coisa, sentindo-se muito mal com isso, e, então, teria dito: "Senhor, você não pode fazer isso. Você andou com Israel por séculos. Você não pode mudar o curso agora”. Os irmãos estão entendendo a questão agora? – o fato é que Deus não estava mudando o curso. A Bíblia deixa bem claro que Deus sempre teve os gentios em mente. Ele queria alcançar os gentios através dos judeus, mas esta é outra história. Se os judeus fracassaram em servir a Deus desta maneira, Ele simplesmente continua firme com o Seu propósito de sempre.  

As rodas seguem em frente. Elas podem mudar de direção, mas isto não significa mudança de propósito. Mesmo numa aparente mudança de direção, elas ainda continuam em frente. Deus não deixa o Seu caminho por causa das circunstâncias. Ele apenas segue em frente. Agora, isto é algo muito difícil de entender enquanto vocês leem esta visão das rodas, mas penso que a ilustração de Israel e dos gentios é a chave para esta situação.  

Quando vocês chegam ao final do Novo Testamento, vocês também se deparam com outra dificuldade. Desta vez com relação à Igreja em geral. É como que se o Senhor tivesse encontrado outro obstáculo, dando a entender que Ele sai novamente do Seu caminho, tomando outro curso. Parece que Ele deixa a Igreja em geral e desvia a Sua atenção agora para os vencedores. Esta é apenas uma maneira de ver a coisa – o Caminho Divino ainda continua com o Seu propósito – não significa desvio de propósito. Deus ainda continua em frente. Bem, acho que já falamos o suficiente sobre isto, mas há muita instrução aí, se vocês pensarem a respeito.

As Rodas Tocam A Terra E Sobem

Então, ponto número três: as rodas tocam a terra e sobem para o céu.  E, então, parece que elas voltam à terra novamente e aí permanecem. Os seres viventes abaixam suas asas, e, por um tempo, tudo parece ficar imóvel, e, então, a inferência que temos é a de que elas prosseguem novamente. Penso haver muita história aí. 

O Senhor começou no dia de Pentecoste. Começou em Jerusalém. Podemos dizer que Ele começou, por assim dizer, na terra. Seus movimentos estão sobre a terra – Ele está, através deste livro, numa posição sobre a terra, e, então, para. Isto não é uma contradição daquilo que acabamos de falar. Há tempos quando o Senhor precisa esperar – esperar por algo – Seus movimentos para frente parecem parar. Quanta história há aí – toda a história da Igreja está exatamente aí. Deus se move para frente e, então, precisa esperar, e, quando obtém aquilo que está esperando, então prossegue. Há esses movimentos de Deus os quais podemos observar na história. Precisamos muito seriamente considerar este assunto de Deus ter que esperar por algo! 

Observem as nossas próprias vidas. Há um movimento de Deus, e, então, parece haver um período de espera – o Senhor está esperando algo. Pode ser que Ele esteja esperando pelo nosso ajustamento a alguma luz que tenha nos dado. Pode ser que esteja esperando pela remoção daquilo que entrou, mas que não veio Dele. Podem ser muitas coisas, mas sabemos que, em nossas próprias vidas, há períodos em que parece que o Senhor não está se movendo. 

Talvez Ele tenha parado o Seu movimento – talvez esteja agora esperando algo. Durante esse período de espera, precisamos refletir muito seriamente - "Por que será que o Senhor não está se movendo?” Por que o Senhor não está se movendo comigo? O que o Senhor está esperando? De que ajustes estou precisando? O que será que preciso tirar do caminho do Senhor? Precisamos nos exercitar todas as vezes que o Senhor parar e ficar esperando algo.

Isto também se aplica em relação à obra do Senhor. Aplica-se em nossa própria vida espiritual. Há períodos quando o Senhor parece estar esperando algo. Parece que Ele parou de se mover. Pode haver várias razões para isso. Não é porque o Senhor desistiu do Seu propósito! Não é porque Ele cessou de ser um Deus de movimento, mas porque Ele está esperando por nós! Ele está esperando pelo Seu povo – Ele está esperando por algo em Seu povo. Em todos esses períodos de tempo, precisamos nos exercitar muito sobre o seguinte: “O que o Senhor está esperando?" 

Bem, se tomarmos a história da Igreja durante os últimos dois milênios, (e é um estudo muito instrutivo), de um lado, vemos aqueles movimentos de Deus no céu – é como se o Trono fosse levantado da terra e estivesse se movendo. O Trono estava governando as coisas da terra – estava avançando em seu poder. Isto aconteceu repetidamente. Por outro lado, nós procuramos aqueles períodos negros da história da Igreja, tal como o que chamamos de Idade Média, e outros períodos, quando parecia que o Senhor ficava inerte. E tem sido assim muitas vezes. O Senhor estava esperando algo. Então, um povo se levantou e se exercitou nesta questão, aprofundando-se nela. A partir desse exercício, Deus voltou a se mover novamente! 

Seria muito fácil para mim aqui esta manhã, se eu tivesse tempo, de dar a vocês todos esses movimentos e paradas de Deus, mas não temos tempo. Apenas estamos tocando este princípio: O Trono se move; os seres viventes abaixam suas asas; o Trono fica imóvel por um tempo, e, em seguida, move-se novamente. Eu penso muito sobre isto. Isto contém muito ensino.

 

Rodas Cheias De Olhos

 

Então, chegamos ao próximo ponto: as rodas estão cheias de olhos; há olhos por todo o redor das rodas. Nós nos deparamos com esses olhos em muitas ocasiões na Palavra de Deus. Encontramos esses olhos na profecia de Zacarias, e também em Apocalipse, muitas vezes; naturalmente, sabemos o que eles simbolizam – representam a completa e perfeita inteligência do Trono. O governo do Homem do Trono é um governo de perfeita inteligência. Se transferirmos este princípio para o início do livro de Apocalipse, lá veremos o seu significado. As igrejas estão prestes a serem julgadas, mas Aquele que as julga é Alguém cujos olhos são chamas de fogo. E esta Pessoa diz às igrejas: “conheço as tuas obras”. Então, Ele prossegue, falando tudo o que conhece sobre elas, e é mostrado que Ele conhece mais sobre as igrejas do que elas conhecem sobre si mesmas. 

Ele fala a uma igreja que eles pensam que são ricos e abastados, que de nada têm falta. Mas, Ele diz: “Vocês não sabem que são pobres, cegos e nus”. Então, o que Ele diz a eles? “Aconselho que de Mim comprem colírio, para que possam ver” – para que possam ver aquilo que Eu vejo. O Senhor conhecia mais e enxergava mais do que aquela igreja conhecia a respeito de si mesma. Isto é apenas uma ilustração. Todos os movimentos deste Trono sobre rodas são de completa inteligência. Aquele que está no Trono vê e conhece tudo. O Senhor não é cego nem ignorante.

O Espírito De Vida Está Nas Rodas

E, finalmente: o Espírito de Vida está nas rodas. O princípio que governa os movimentos do Senhor é a Vida. Quem governa o Trono é o princípio da Vida. Vocês conhecem tanto a respeito de Vida na Bíblia que eu não precisarei discorrer sobre isto esta manhã. Vocês têm sido levados através da Bíblia no princípio da Vida, e sabem que a Vida é a questão principal em toda a Bíblia. Este é o assunto com o qual a Bíblia se inicia, e, também, com que termina. Todos os movimentos de Deus desde a eternidade se dão nesta base, com esta questão da Vida.  

Todo Poder Me É Dado No Céu E Na Terra

Agora vamos resumir e trazer isto para o Novo Testamento. Em primeiro lugar, há muito pouca dúvida de que precisamos ler Mateus 28:18-20. Jesus disse: "Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. Esta é a primeira metade da declaração que Ele faz nestas Escrituras; e isto nos faz voltar ao Trono sobre rodas em relação a toda criação e a autoridade que está investida no Homem assentado sobre ele. Observem a palavra “autoridade”, usada por Jesus. Ele não disse, “todo poder Me foi dado no céu e na terra”; naturalmente, isto estava implícito, mas Ele usou outra palavra grega. Ele disse: “Toda autoridade Me foi dada”. Autoridade é algo maior do que poder. O poder está contido na autoridade. A autoridade é o exercício do poder. Jesus disse, "A Mim pertence toda autoridade de governo no céu”. - "Os homens podem me chamar apenas de Jesus de Nazaré, podem me considerar como um homem qualquer, mas eles acabarão descobrindo que em Mim está toda a autoridade do céu." E foi isso o que eles de fato descobriram. 

Então, temos a outra metade da declaração, em Mateus: “Por isso, ide por todo o mundo; e eis que estarei convosco todos os dias". Aqui estão os movimentos do Trono “em todo o mundo”, e a autoridade de Jesus Cristo está com a Igreja. Toda autoridade do céu está com a Igreja, quando ela se alinha aos movimentos do Trono. 

Assim, primeiramente, trazemos Mateus 8:18-20 para Ezequiel, e não se esqueçam de que estamos tratando com a questão da preparação do servo para a obra. Ezequiel certamente precisou desta preparação. Se ele não tivesse tido esta visão, a obra teria sido impossível. Todo servo do Senhor precisa desta visão. Vocês e eu precisamos entender isto. Temos que estar convencidos disto.

Agora, há outras partes do Novo Testamento que precisam ser trazidas para esta seção. Vocês precisam ler as cartas de Colossenses e de Efésios já no primeiro capítulo de Ezequiel. Tragam os primeiros três capítulos da carta aos Colossenses e os primeiros capítulos de Efésios para o capítulo um de Ezequiel. Está cheio de instruções; e aquelas cartas do Novo Testamento serão a melhor exposição de Ezequiel um.  

Observem algumas das principais palavras nesses capítulos e algumas das ideias preponderantes. Para começar, tomem a palavra “criação”. Vocês poderiam trazer à mente neste momento o primeiro capítulo da carta aos Colossenses? Não há nada em toda a Bíblia como este capítulo, quanto ao lugar do Senhor Jesus na criação. É um capítulo tremendo, na questão da relação entre Cristo e a criação, e a criação e Cristo. 

Vocês irão se lembrar do que dissemos sobre os “seres viventes” representarem toda a criação no céu e na terra; o Trono está estabelecido sobre eles. Isto é exatamente o que vocês têm em Colossenses e em Efésios. Tomem a palavra “céus”, como em Efésios. Isto é muito instrutivo para nós. Tudo isso tem a ver com a preparação do servo para o seu ministério.

O Paradoxo Da Cruz

Vamos gastar nossos últimos minutos aqui; falarei muito pouco a respeito. O capítulo dois de Ezequiel, verso 9, até o capítulo três, verso 14, tem a ver com o rolo. Ezequiel diz ter visto uma mão estendida, a qual tinha um rolo escrito por dentro e por fora com lamentações, suspiros e ais, e uma voz que dizia: “come o rolo”; e, após Ezequiel ter comido aquele rolo, disse que era doce como o mel em sua boca. O verso catorze diz: “Eu fui em minha amargura de espírito” – doçura na minha boca e amargura no meu espírito. Isto parece muito estranho. Aqui está um rolo escrito por dentro e por fora com lamentações, suspiros e ais. Como algo pode ser doce e amargo na boca de alguém? E, na medida em que o profeta prossegue, a fim de cumprir o seu ministério, ele diz que foi na amargura do seu espírito. 

Aqui está uma combinação de doçura e amargura no ministério. O que isto significa? Como podemos explicar isto? Acho que, se eu apenas citar uma ou duas passagens da Escritura, isso irá explicar a coisa toda. Jesus está na ceia da páscoa com os Seus discípulos. Sabemos em que o pensamento dele estava focado: no cálice. Dentre pouco tempo Ele diria: “Pai, se for possível, passa de mim este cálice”. Era o cálice do Seu sofrimento, da Sua paixão. Foi um cálice amargo. Não há dúvida sobre isto, e ainda está escrito: “Ele tomou o cálice e deu graças”. Aqui temos uma combinação de duas coisas: amargura e gratidão; sofrimento e glória. Este é o paradoxo da Cruz. 

Jesus falou aos Seus discípulos o que estava para acontecer. Falou que estava prestes a sofrer. Discorreu sobre todo o terreno da Sua Cruz com eles, e, então, é dito: “E, após cantarem um hino, saíram". Vocês sabem para onde eles foram. Vocês poderiam pensar que aquele era o último lugar para se cantar um hino. Vocês teriam pensado que eles tinham saído em absoluto silêncio e pesar, porém, saíram cantando um hino. 

Fico imaginando se vocês sabem que hino teria sido aquela canção. Há muita base para crermos que aquele hino cantado na páscoa foi o salmo 118. Naturalmente, precisamos ler o salmo todo, mas no âmago deste salmo, temos as seguintes palavras: “Nós não morreremos, mas viveremos”. É o salmo da paixão, mas também é o salmo da vitória. É o salmo com a Cruz em vista, mas também é o salmo da glória, que é o outro lado da Cruz. 

Se realmente foi este o salmo que eles cantaram, então enxergamos aqui uma mistura de doçura e amargura no cálice. Vamos tomar outro versículo: “O qual, pelo gozo proposto, suportou a Cruz”. 

Isto é trazer o amargo e o doce juntos. É a isto que Paulo se referiu quando disse: “como que entristecidos, porém sempre alegres". Essas duas coisas sempre andam juntas no ministério do servo de Deus. O caminho da Cruz sempre significa essas duas coisas. É o caminho da doçura, mas também da amargura de espírito; mas nem tudo é amargura. O Senhor dá equilíbrio à balança entre amargura e alegria. Não há só o lado do amargo, da comunhão dos Seus sofrimentos, mas há, também, o lado alegre dessa comunhão! 

À DESTRA DO SENHOR FAZ PROEZAS. 

A DESTRA DO SENHOR SE EXALTA; A DESTRA DO SENHOR FAZ PROEZAS. 

NÃO MORREREI, MAS VIVEREI... (Sal. 118:15-17).

Capítulo 7 – O Mensageiro Precisa Ser Uma Personificação Da Sua Mensagem

Voltemos novamente às profecias de Ezequiel. Há uma grande porção deste livro com a qual nós não seremos capazes de tratar em detalhe, assim, precisamos encontrar uma maneira mais abrangente de tratar disso. Acho que esta maneira seria olharmos para os três títulos diferentes pelos quais Ezequiel era chamado. Talvez vocês tenham observado que, nessas profecias, Ezequiel tinha três títulos diferentes, e esses três títulos reúnem em si mesmos toda esta ampla seção do livro - (1) "filho do homem", (2) "atalaia”, (3) "eu sou o seu sinal".

"Filho Do Homem"

O primeiro desses três títulos é “filho do Homem”. Olhem para os capítulos dois e três: E Ele me disse, filho do homem... (2:1); E ele me disse, filho do homem... (2:3); E Ele me disse, filho do homem... (3:1); E Ele me disse, filho do homem... (3:3). 

E assim segue através do livro todo. Este é um dos títulos principais do profeta. Talvez vocês gostassem de percorrer o livro, a fim de observar quantas vezes aparece a expressão ‘filho do homem’. 

Observamos, então, no início, que este título era usado peculiarmente ao profeta Ezequiel. Nenhum outro profeta foi chamado por este nome desta mesma maneira. Isto marca Ezequiel de uma maneira especial. Sabemos que o Senhor Jesus escolheu para Si mesmo a expressão “Filho do Homem” como Seu título favorito, mas nós não devemos pensar em Ezequiel da mesma maneira. Em relação e este título, Ezequiel foi único entre os profetas, mas Jesus, como O Filho do Homem, foi único entre todos os homens. Assim, sejamos cuidadosos para não confundirmos os dois títulos "filho do homem” e “O FILHO DO HOMEM”. Se há alguma relação ou similaridade, é na função, e não na pessoa.  Este é o ponto que iremos considerar. 

Vimos que, assentado no Trono, havia a semelhança de um homem, e, também, vimos que a característica predominante dos querubins era a de homem. Portanto, tomamos nota deste lugar de homem no livro; é uma ideia especial. Nós também sabemos que homem significa representação, aquele que fala por Deus. Homem não é apenas uma pessoa, ele é uma ideia Divina. Há um Homem sobre o Trono, mas ele não é apenas uma pessoa, é, também, uma ideia Divina. O propósito de Deus ter criado o homem foi para que esse homem pudesse representá-lo. "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança". O homem é o pensamento mais pleno de Deus. O pensamento final de Deus. 

Na criação, a última coisa que Deus criou foi o homem, sujeitando todas as coisas a ele. Após Deus ter feito o homem, pronunciou o Seu veredicto e, então, descansou. Quando Deus tem o homem em conformidade com o Seu propósito, então Ele pode dizer a respeito de todas as coisas criadas: “É muito bom”; e, então, repousa. Deus só descansa quando tem o homem conforme o Seu Propósito. 

Mas isto não é o fim de tudo. A esta altura, Deus olha para a reprodução. Ele diz ao homem: "Sede fecundo e multiplicai, e enchei a terra”. E a lei da criação era que tudo deveria se reproduzir “conforme a sua própria espécie”. As coisas jamais foram planejadas para mudarem de forma, antes, a todas as coisas foi dada uma forma definitiva e distinta. Foi um tipo de criação, e tudo deveria se reproduzir segundo a sua espécie. 

Deus criou o homem, e, antes que o homem caísse, Deus disse: “Sede fecundos e multiplicai”. A ideia de Deus era que o homem não caído se multiplicasse e enchesse a terra. Mas o homem caiu, e a terra foi povoada por um tipo de homem que Deus jamais planejou. Por isso Deus coloca um limite à vida humana; Deus fixou o número dos dias do homem, para que ele não continuasse a viver indefinidamente. Acho que vocês entendem a partir disso que o plano de Deus é ter um homem segundo o Seu próprio coração. Jesus foi esse homem, de forma completa; por isso Ele é “O Filho do Homem”, e, em certo sentido, Ele foi o ÚNICO filho do Homem. 

Assim, o princípio de humanidade é resgatado para o povo de Deus, e é exatamente aí onde Ezequiel entra. Não é a pessoa, mas a função, o princípio; assim, este “filho do homem” fala de duas coisas. Significa trazer à vista o pensamento e o padrão original de Deus. Este era o princípio que o Senhor estava querendo realizar em Israel. Israel é um homem aos olhos de Deus, mas, neste livro de Ezequiel, Israel não é o homem desejado por Deus. Neste livro, Israel é um homem desfigurado, e Deus está se movendo neste princípio de humanidade, a fim de recuperar a ideia original em Israel. Mais tarde iremos descobrir que Deus não pôde realizar isto em Israel em plenitude, por isso Ele buscou realizar o propósito no remanescente. Mas o Velho Testamento se encerra com esta ideia de completo fracasso em Israel.  

Quando vamos ao Novo Testamento, encontramos a nós mesmos diante de um novo homem, isto é, o homem corporificado, que é a Igreja. Mas não iremos falar disto esta manhã; ficaremos apenas com o princípio. Em princípio, “filho do homem” significa falar do pensamento e do padrão original de Deus. Vocês precisam reconhecer que isto é a chave para todas essas profecias. O que tudo isso significa? O que todo este livro significa em todas as suas partes? Bem, o título “filho do homem” está espalhado por todo o livro, e significa que o projeto principal de Deus é esta concepção de homem conforme o Seu coração. Se Deus envia este homem coletivo para o cativeiro, significa que este homem não pode mais permanecer diante dEle. Deus precisa de outro tipo de homem. A grande ilustração disso, naturalmente, é o vale de ossos secos – trazer da sepultura em Babilônia um novo homem, com um novo coração, e um novo espírito. 

Acho que isto é suficiente para indicar o significado do título. Deus está se movendo, a fim de recuperar o Seu plano original. Este plano se perdeu. É isto o que Paulo quis dizer quando chamou Timóteo de “homem de Deus”. Seu apelo a Timóteo foi, “ó, homem de Deus” – é isto o que Deus procura. 

Precisamos assumir isto em relação ao nosso ministério, e isto nos faz perguntar o seguinte: O que estamos fazendo aqui?” Qual é o significado do nosso ministério?” É para que Deus tenha este homem corporativo, conforme a Sua própria vontade. Este é o significado de Efésios, capítulo quatro: “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e do conhecimento do Filho de Deus, à medida da estatura completa de Cristo”. 

Deus está trabalhando na direção deste homem corporativo. Devemos nos lembrar de que a ideia de Deus é um homem. Quero enfatizar isto porque muitos parecem pensar que o projeto de Deus é uma organização, uma instituição, alguma coisa chamada de igreja, uma forma de fazer coisas, um determinado ensino – todo um sistema – e Deus não está atrás disto. Deus não está atrás da Igreja simplesmente como Igreja. O objetivo da Igreja na mente de Deus é que ela seja a expressão de Cristo! A Igreja é o Corpo de Cristo. Não é um sistema de ensinamentos. Não é uma forma especial de prática. É um Homem. É Cristo em expressão corporativa! Nós vamos chegar a isso mais adiante, neste livro de Ezequiel, porém, assumimos aqui este princípio. É uma coisa muito importante para nós reconhecermos este Homem corporativo! 

Assim, este ‘homem-princípio’ fala de três coisas. Primeiro, uma apresentação – Deus apresenta o Seu projeto, e, então, uma representação de algo que expresse este projeto pretendido, e, então, uma declaração, uma pregação a respeito daquilo. A coisa é apresentada como um pensamento Divino, e, então, ela é representada num Corpo, e, a partir daí vem a mensagem.  

Vocês captaram essas três coisas, irmãos? Primeiro temos a visão: o Homem é apresentado. Vocês têm o Homem no trono. Vocês captam a ideia de Deus. E a ideia de Deus é a humanidade, humanidade com determinado caráter. A partir daí, Deus tem uma representação daquilo que corporifica a Sua ideia, e só então surge a mensagem. Nós não podemos inverter a ordem, pregando primeiro. Primeiramente precisamos ter enxergado a visão, e, então, precisa haver uma expressão dessa visão. Tem que haver algo para o qual possamos apontar e dizer: ‘É isto’. A mensagem precisa sair de algo que realmente exista e esteja em conformidade com a mente de Deus.  

Acho que não preciso me delongar mais aqui, mas vocês sabem, isto se aplica primeiramente a Cristo. Vocês precisam primeiro ter visto o Senhor, e, então, isto tem que ter produzido algo em vocês, de modo que a coisa não seja apenas objetiva e abstrata, mas sim que o Senhor tenha realmente realizado algo em vocês. E, então, dessa experiência, surge o ministério.   

O mesmo se aplica à Igreja. Primeiro deve haver uma revelação da Igreja, e, então, deve haver uma representação dela, da qual resulta uma expressão definitiva da Igreja – a mensagem surge daí. É quase impossível pregar a verdade sem que haja algo por detrás. É essencial que possamos dizer: “Isto funciona”, e eu posso mostrar que funciona. Isto se tornará mais claro quando chegarmos à nossa próxima consideração, em Ezequiel, mas espero que vocês tenham assimilado esta primeira ideia, o princípio implícito neste primeiro título, “Filho do Homem”. Há muito da Mente de Deus neste título.

"Um Atalaia”

Agora vamos para o nosso Segundo título de Ezequiel. No capítulo três, versículo dezessete, está escrito: “Filho do homem, Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel. "E veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Filho do homem, fala aos filhos do teu povo, e diz a eles: ‘Filho do homem, fala aos filhos do teu povo, e dize-lhes: Quando eu fizer vir a espada sobre a terra, e o povo da terra tomar um homem dos seus termos, e o constituir por seu atalaia”. 

“E, vendo ele que a espada vem sobre a terra, tocar a trombeta e avisar o povo; se aquele que ouvir o som da trombeta, não se der por avisado, e vier a espada, e o alcançar, o seu sangue será sobre a sua cabeça. Ele ouviu o som da trombeta, e não se deu por avisado, o seu sangue será sobre ele; mas o que se dá por avisado salvará a sua vida. Mas, se quando o atalaia vir que vem a espada, e não tocar a trombeta, e não for avisado o povo, e a espada vier, e levar uma vida dentre eles, este tal foi levado na sua iniquidade, porém o seu sangue requererei da mão do atalaia. A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca, e lhes anunciarás da minha parte”. (Eze. 33:1-7). 

O segundo título de Ezequiel é “atalaia”. Esta ideia não é uma peculiaridade de Ezequiel. Temos a figura do atalaia em outros profetas, ou, vamos dizer, temos a função do atalaia em outros profetas. Habacuque 2:1 diz, "Sobre a minha guarda estarei”: esta é a função do atalaia. Em Isaías 21:11 está escrito: "Guarda, que houve de noite?" Assim, novamente temos a função, porém, ninguém mais foi chamado exatamente de atalaia, exceto Ezequiel. E, como vocês têm observado, este título foi aplicado a ele no início do seu ministério, e, mais tarde, em sua nova comissão. 

Agora, este título e esta função não precisam nos prender por muito tempo. Apenas façamos a nós mesmos a seguinte pergunta: “qual é a função do atalaia?” Primeiramente, a função do atalaia é a de conhecer e declarar o tempo. Esta ideia sempre esteve associada ao atalaia. Até mesmo em nossos tempos, isto é verdade. Não sei se isto também é verdade na China, ou em outras partes do mundo, mas até bem pouco tempo, isto era verdade na Grã Bretanha. No interior do país, o atalaia circulava a certas horas da noite e tocava a sua trombeta, ou o seu sino, e falava a hora. Ele tocava o sino e dizia: “São cinco horas da manhã”. Esta ideia está em Isaías, capítulo 21. Alguém está perguntando: ‘atalaia, que houve de noite?” E o atalaia responde: “Vem a manhã, e também a noite” A primeira coisa sobre o atalaia é que ele deve conhecer o tempo – ele precisa saber que horas são no propósito e na obra de Deus. 

Há muitas pessoas que estão bastante confusas em relação a esta questão. Elas estão tentando fazer um monte de coisas fora do tempo. Há pessoas que ficaram confusas nas dispensações sobre isto. Nesta dispensação, Deus está fazendo algo especial. Há uma coisa em particular que marca esta dispensação no propósito de Deus, e é da maior importância que vocês e eu saibamos o que é isto que pertence a esta dispensação.

Há toda sorte de sistemas de ensino que nada tem a ver com o propósito desta dispensação. São muito interessantes, pode haver alguma verdade neles, porém, não estão alinhados ao propósito específico de Deus para esta dispensação. Não vou tomar o tempo de vocês esta manhã para ilustrar o que estou querendo dizer, embora pudesse falar de diferentes sistemas de verdade que têm tirado as pessoas do propósito específico de Deus para os nossos dias. Não é uma questão de quanto de verdade, ou quanto de erro há no sistema. A questão real é: “É isto o que Deus está procurando agora, nesta dispensação?” Vocês podem detectar o erro por meio do seguinte – o tal sistema tem alguma coisa a ver com este mundo? Se tiver, então não é o que Deus está fazendo nesta dispensação. Deus não está mais interessado em fazer coisa alguma neste mundo, nesta dispensação; está, sim, tirando do meio das nações um povo para o Seu nome. Ele está edificando algo no céu durante esta dispensação. Se o assunto for Israel, ou qualquer outra coisa, este não é o interesse de Deus nesta dispensação; e qualquer coisa que tenha a ver com este mundo não pertence a esta dispensação. Este é o porquê de o Senhor Jesus ter deixado esta terra e ter ido para o céu. Esta dispensação está caracterizada por algo Celestial, e não terreno. Este é o maior teste. 

Agora, naturalmente, eu poderia gastar bastante tempo falando sobre o que Deus está procurando nesta dispensação. Isto virá mais adiante, no livro de Ezequiel. Esta manhã estamos apenas sublinhando esta verdade: a primeira ocupação do atalaia é a de conhecer o tempo, e, então, dar uma mensagem bem clara sobre que tempo é esse. Se a nota dele não for clara e distinta, o povo não irá saber que horas são. Peço que os irmãos reflitam sobre isto. A questão toda de quanto o Senhor está com vocês irá depender de quanto vocês estão com Ele em Seu propósito para a presente hora. Se vocês estiverem tentando fazer algo que Deus não quer fazer neste tempo, então, estarão desperdiçando tanto o tempo quanto a energia de vocês. Então, a função do atalaia é a ser os olhos do povo de Deus. 

A segunda coisa é discernir qual é a situação e a que ela leva. Tudo isto está contido nesta descrição da palavra atalaia, que o Senhor deu a Ezequiel. O atalaia alerta consegue enxergar certas coisas, e discernir o que elas implicam. Ele vê que certas coisas representam algo de ruim para o povo de Deus – são sinais que indicam que o mal está chegando. Se não nos protegermos, o resultado será morte. Isto é o que está aqui na descrição daquilo que o atalaia viu. Por outro lado, ele enxerga o Caminho da Vida, e é capaz de dizer: “este é o caminho da morte; aquele é o Caminho da Vida”. Mas o atalaia tem que estar familiarizado tanto com o que está no Caminho da Vida como o que está no caminho da morte. Assim, ele tem que discernir a situação e reconhecer o caminho no qual as coisas estão indo. É uma responsabilidade muito grande. Todos nós somos chamados para sermos atalaias, e temos que ter uma mensagem inequívoca. Temos que entender as coisas que significam morte para a Igreja. 

"Eu Sou Um Sinal Para Vocês"

Isto nos traz para o nosso terceiro e último título de Ezequiel: “eu sou um sinal para vocês”. No livro de Ezequiel, todas as coisas que o Senhor ordenou que o profeta fizesse estão reunidas neste título. Olhem para o capítulo quatro e observem as coisas estranhas que o Senhor mandou o profeta fazer. 

O Senhor ordenou que ele pegasse uma telha e desenhasse nela uma pintura de Jerusalém; de Jerusalém sitiada. Então, foi dito a Ezequiel que se deitasse sobre o seu lado esquerdo por 390 dias, e, então, que se deitasse sobre o seu lado direito por mais 40 dias, e, também, que descobrisse os seus braços diante do povo, e, depois, o Senhor disse que iria colocar bandas sobre o profeta para que não pudesse se mover, e o Senhor iria colar a língua dele no céu da boca, para que não pudesse falar, e, também, foi ordenado que ele assasse pães suficientes para durar por 390 dias. Também foi ordenado que o profeta raspasse a sua cabeça, e que pesasse o cabelo numa balança. 

Estas coisas são todas estranhas, e Ezequiel fez todas elas diante do povo. Então, avançando no livro, vocês chegam àquele acontecimento muito triste. No capítulo 24, morre a mulher de Ezequiel, e não é permitido a ele lamentar por ela. Simplesmente ele deveria seguir a vida como se nada tivesse acontecido; todos olhariam para ele e lhe diriam: “Isto é algo escandaloso; o homem não se importa nem mesmo com a morte de sua esposa". Mas Ezequiel prossegue como se nada houvesse acontecido. 

Qual é o significado de tudo isso? Está tudo reunido neste título: “Eu sou um sinal para vocês”. Vamos resumir da seguinte maneira: significa que a mensagem de Ezequiel havia sido, antes de tudo, forjada em sua própria experiência. Ele experimentou a mensagem antes de entregá-la. As coisas que ele iria falar já haviam sido trabalhadas em sua própria vida. Eu não quero dizer aqui que nós também temos que ter literalmente as mesmas experiências de Ezequiel, mas, a questão toda é a seguinte: o mensageiro precisa ser a personificação de sua mensagem! A mensagem não pode apenas ser coisas que dizemos; devem ser coisas que foram trabalhadas em nossa própria vida. Ezequiel era a própria mensagem; e, quando as pessoas olhavam para ele, VIAM a mensagem. 

Vejam que grande princípio isto introduz. João coloca da seguinte maneira: “Nós falamos aquilo que realmente conhecemos e testificamos aquilo que temos visto e que as nossas mãos apalparam". Não deve haver qualquer brecha entre o mestre e a sua mensagem. O mestre e a mensagem precisam ser uma coisa só. Nossa posição não pode ser de apenas doutrina ou teoria; nosso ensino precisa ser nós mesmos. A mensagem precisa ser vista em nossa própria história; precisa ser vista em nossa própria experiência. Isto irá, obviamente, explicar muita coisa quanto aos tratamentos do Senhor para conosco. Se o Senhor realmente tomar conta de nós, ELE não permitirá que entreguemos apenas teorias. A mensagem irá nascer a partir de uma experiência profunda. 

Vejamos três ilustrações. A comissão de Pedro foi para “pastorear o rebanho”, e, em suas cartas, ele fala muito sobre isso. Fala do Pastor; dos anciãos, e diz: “...apascentai o rebanho que o Senhor vos tem confiado”. Qual é a principal característica de um verdadeiro pastor? Se tomarmos o Senhor Jesus como exemplo, a principal característica será que ele entrega a sua própria alma pelas ovelhas. Observem que eu escolhi a palavra alma. Esta é a palavra que o Senhor usou. Ele falou sobre os discípulos negando as suas próprias almas.  Agora, Pedro tinha uma alma bastante forte. Vocês sabem o que é alma, e Pedro tinha uma das grandes, e a grande lição da vida dele foi a de negar a sua própria alma. Se a alma é a mente, as emoções, a vontade, então, podemos ver quão grande era a alma de Pedro. Ele tinha uma mente própria; uma vontade própria; sentimentos próprios; ele estava sempre fazendo essas coisas prevalecerem.  Pedro estava na dura escola onde tinha que aprender a negar a sua alma. Vocês conhecem bem toda a história da vida de Pedro, pois nós a temos no Novo Testamento para mostrar quão verdadeiro isto foi. Pedro não era um pastor profissional – ele teve o princípio do pastor trabalhado em seu próprio ser. 

Passemos para o Apóstolo Paulo. O grande ministério de Paulo foi concernente à Igreja, como o Corpo de Cristo. Os princípios do Corpo de Cristo são: relacionamento, dependência, sublimidade, espiritualidade. Será que Paulo não precisou que tudo isso fosse trabalhado dentro dele?! Quando vocês olham para Saulo de Tarso, vocês têm a própria personificação da independência, da ação pessoal, das coisas terrenas, da falta de espiritualidade. Saulo de Tarso não tinha qualquer senso de dependência, de ligação; mas vejam que o Senhor o tomou em Suas mãos, e, a partir dali mesmo, da Estrada de Damasco, durante toda a sua trajetória, ele teve que aprender essas lições.  

Agora, Paulo foi um sinal para a nossa dispensação. Pensem sobre isto. Nós conhecemos o propósito desta dispensação: é a Igreja, o Corpo de Cristo. Esta não é apenas uma ideia, ou um ensinamento, mas uma realidade prática. Esta revelação veio para esta dispensação através do Apóstolo Paulo, e, portanto, ela precisou ser trabalhada na própria constituição dele. TODA independência teve que ser destruída; TODA falta de relacionamento precisou ser removida; TODAS as expectativas terrenas tiveram que ser descartadas. Paulo precisou ter toda a sua vida constituída sobre a base da mensagem que fora entregue a ele. Ele foi um sinal para a nossa dispensação. É por isso que nós fazemos tanto caso dele.

E agora, que tal João? Qual foi a mensagem particular de João? O ministério de João particularmente fez referência à Vida. Esta foi a grande palavra de João através de todos os seus escritos. João se tornou a personificação deste princípio de vida triunfante sobre a morte. Quando todos os apóstolos já haviam partido, João ainda estava aqui. Ele viveu mais que todos os demais, não porque teve um tempo mais fácil do que eles tiveram. João sofreu como qualquer outro apóstolo, e também morreu como todos os demais; mas aqui está um testemunho da Vida Divina em espírito, mente e corpo. A questão é que João realmente representou a mensagem que ele deu. Pedro, Paulo e João podiam dizer: “Eu sou um sinal para vocês”. 

Irmãos e irmãs, vocês e eu precisamos ser capazes de dizer o mesmo. As pessoas precisam ver em nós a mensagem e não apenas ouvi-la dos nossos lábios. Eles precisam ver que a mensagem é verdadeira em nossa própria história e experiência.

Capítulo 8 - "EIS... UM HOMEM": Tudo é Medido Conforme Este Homem

Agora, as profecias de Ezequiel, que começam no capítulo quarenta. Enquanto leem os seis capítulos seguintes, começando com o capítulo quarenta, vocês observam que este capítulo e esta seção começam com uma nova data. Quando o Profeta Ezequiel nos dá uma data, normalmente ela faz referência a uma nova fase de coisas. Significa que uma fase termina, e outra começa.  O capítulo trinta e nove termina com aquilo que podemos chamar de predições diretas, e o capítulo quarenta começa com o que chamamos de apocalipse. Aqui nós temos uma revelação quanto à realização do propósito de Deus. Vocês irão observar que a data é dada como vinte e cinco anos após o cativeiro (Eze. 40:1). Sabemos que o cativeiro durou setenta anos, e, tirando vinte e cinco de setenta, significa que ainda restavam quarenta e cinco anos pela frente. Isto é algo que devemos manter em mente, porque esta seção está avistando um longo caminho à frente. Poderíamos fazer a seguinte pergunta: "Por que esta visão seria dada quarenta e cinco anos antes do fim do cativeiro?” A resposta virá em nossa consideração geral, na medida em que prosseguirmos. 

Agora, nós não podemos avançar nesta seção sem enfrentar o problema da interpretação. Provavelmente, poucas partes da Bíblia têm sido mais controversas do que esta, visto que há muitas escolas de interpretação, e cada uma delas tem a sua própria visão. Assim, chegamos a este problema de interpretação. Vocês irão se lembrar do que dissemos no início, sobre princípios de interpretação; dissemos que havia cinco importantes princípios de interpretação na Bíblia: (1) a Eternidade de Deus; (2) A Plenitude de Cristo; (3) O Intérprete da Bíblia é o Espírito Santo; (4) A Última Menção; (5) O Único Valor Real é o espiritual. E dissemos que esses princípios se aplicam a todas as profecias de Ezequiel. Isto é verdade, mas eles precisam ser trazidos, de maneira muito especial, para esta seção de profecias. Eu sugeriria a vocês que tomassem aquele esboço de princípios de interpretação e dessem uma lida, antes de iniciarmos o capítulo quarenta, pois aqueles princípios são a chave para esta seção de profecias, numa forma especial. 

Agora, sobre a interpretação desses seis capítulos. Vamos chegar à Casa de Deus, e, então, ao rio, à herança e à distribuição da terra, e, finalmente, à cidade; e perguntamos: “Como tudo isto deve ser interpretado?” Cremos que tudo isto que está aqui nesta seção é apenas tipo e símbolo de algo espiritual. Cremos que tudo foi cumprido em Cristo. Cremos que todos os sacrifícios terminaram por ocasião do sacrifício de Cristo. Todo o sacerdócio foi recolhido e terminado em Cristo. Cremos que todos os tipos e figuras foram cumpridos em Cristo. Cremos que isto se aplica aos sacrifícios, ao sacerdócio, e à Casa de Deus. Não apenas cremos, mas também sabemos que o Novo Testamento ensina isto.  

Paulo nos ensina muito claramente que o mistério de Cristo e da Igreja estava escondido em todos os profetas – aquele mistério estava escondido em todas as escrituras dos profetas. Estava escondido em todas as gerações, mas, nesta dispensação, aquele mistério veio à luz através do Espírito, e eu creio que esta é a chave para a situação toda. O que temos nesta seção de Ezequiel é um sistema de princípios espirituais. Não se trata de um templo literal que já existiu, ou que foi destinado a existir, ou que irá existir. É uma representação simbólica do que se obtém de forma espiritual nesta dispensação. Esta é a única e honesta maneira de interpretar esses capítulos. Assim, devemos nos aproximar disto desta maneira; e, quando tivermos visto que o mistério está agora revelado, veremos que Ezequiel estava falando coisas que eram muito maiores do que ele compreendia. 

Agora, observem, era o ‘Espírito’ quem estava interpretando tudo isto para Ezequiel; o Espírito estava mostrando a ele algo além da sua compreensão. O Novo Testamento ensina que pelo Espírito podemos compreender estas coisas. O significado da compreensão espiritual é que nós entendemos aquilo que o Espírito sempre quis dizer. É uma das nossas leis de interpretação que a Bíblia toda está focada em Cristo, e que a obra do Espírito Santo em cada dispensação diz respeito a Cristo. A obra do Espírito Santo jamais se referiu a alguma coisa terrena, nem por um momento. A obra do Espírito Santo sempre esteve relacionada ao pensamento eterno de Deus, o qual está centralizado em Cristo. Assim, o que temos nesses capítulos de Ezequiel é uma representação simbólica de Cristo e de Sua Igreja. 

Aqui em Ezequiel, há vários pontos preliminares a serem observados. Primeiro, as últimas visões de Ezequiel são governadas pela visão do capítulo um, verso 28:"Como o aspecto do arco que aparece na nuvem no dia da chuva, assim era o aspecto do resplendor em redor. Este era o aspecto da semelhança da glória do Senhor; e, vendo isto, caí sobre o meu rosto, e ouvi a voz de quem falava”.

Passemos, agora, ao capítulo 43, verso 3: "E o aspecto da visão que tive era como o da visão que eu tivera quando vim destruir a cidade; e eram as visões como as que tive junto ao rio Quebar; e caí sobre o meu rosto”. 

Esta afirmação traz a visão do capítulo 1 exatamente para esta seção; assim, tudo o que temos falado sobre a visão no capítulo 1 domina esta nova seção. Nós não podemos voltar a todos os detalhes da primeira visão, mas sugiro que vocês peguem os seus esboços da primeira visão e os tragam para cá, e observem como cada seção se aplica a esta parte específica da revelação. Tudo é governado pelo Trono, com o Homem assentado nele. Por isso, estamos certos em concluir que aquilo que se segue é uma representação deste Homem sobre o Trono. De várias maneiras, iremos chegar a este fato, à medida que prosseguirmos. Observem aqui dois fatores predominantes.  Eles são representados por meio de duas palavras: “a glória”, e “o Espírito”. Sublinhem estas palavras. Transportem isto para o Novo Testamento, e vocês verão que a revelação da Igreja no Novo Testamento vem por meio do Espírito na base do Cristo Glorificado. O começo de tudo é Cristo Glorificado no Trono. É aí onde vocês começam o livro de Atos. O Espírito vem porque Cristo foi glorificado, e a obra do Espírito está ligada à Igreja – a formação e a revelação da Igreja; estas coisas estão muito claras aqui: a visão da glória, o Homem Glorificado no Trono, o Espírito vindo, e, então, a Casa de Deus. 

“Assim, Ele me trouxe aqui; e eis que havia um Homem cuja aparência era como a aparência do bronze, com um cordel de linho e uma cana de medir em Sua mão; e Ele estava em pé à porta”. 

Aqui nesta escritura, é muito difícil separar o Homem, com a cana, do Espírito. Se vocês lerem as palavras do capítulo quarenta, irão descobrir que é muito difícil fazer esta separação. O Espírito é mencionado, o homem com a cana de medir é mencionado, e, então, descobrimos que é feito referência a um “ele”. Quem é este “ele”? Será “o Espírito”, ou será “o Homem com a cana de medir”? Isto não está claro, mas, à medida que vocês forem lendo, parece que se trata da mesma pessoa. Eu penso, a princípio, que são a mesma pessoa. O Homem com a cana de medir é o Espírito. 

Talvez pudéssemos compreender isto se déssemos uma pequena olhada no primeiro capítulo do livro de Apocalipse. João disse: “Eu me encontrei em espírito... e eu vi”. O que foi que ele viu? Viu um Homem com a cana de medir, isto é, uma visão de Cristo vindo medir a Igreja, ou as igrejas. Esses dois estão se movendo juntos, o Espírito e o Homem Divino, e a atividade deles é uma só – medir a Casa de Deus. Este é apenas um pequeno ponto de interpretação, mas nos ajuda a ver que, aqui em Ezequiel, temos a verdade do Novo Testamento novamente. 

Lembramo-nos de tudo que o Senhor falou sobre o que o Espírito Santo iria fazer quando fosse enviado. Jesus disse que a obra do Espírito, quando viesse, estaria totalmente relacionada a Ele mesmo. "Ele receberá do que é meu, e mostrará a vocês”. A obra do Espírito seria a de revelar Cristo, dar “o comprimento, a largura, a altura, e a profundidade de Cristo” - todas as medidas de Cristo. É isto que o Senhor disse que seria a obra do Espírito, e é exatamente isto que o Espírito fez. Primeiro Ele apresentou Cristo, depois, prosseguiu em mostrar as dimensões de Cristo, de quão grande Ele é! – Cristo é muito grande para ficar confinado a qualquer Jerusalém terrena; para ficar contido em qualquer templo terreno, para ficar limitado a qualquer país terreno.  Por isso, o que temos aqui extrapola qualquer fronteira da velha Jerusalém e do velho país. Creio que esta é uma verdade espiritual muito clara aqui neste livro. 

Somente podemos ver o que o Espírito apresenta quando ocupamos uma posição celestial. Para ver o Senhor e Sua Igreja, da forma como a temos em Efésios, vocês precisam estar na mesma posição que está lá: “Ele nos vivificou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus”. Foi à partir desta posição celestial que Paulo nos deu a revelação de Cristo e de Sua Igreja.

Tudo Em Conformidade Com Este Homem

Mais uma coisa para esta manhã. Em Ezequiel, capítulo quarenta, está escrito: “E Ele me levou para lá, e, eis que havia um Homem, cuja aparência era como a aparência de bronze." Acho que teremos que parar na metade do versículo. “eis... um Homem” – encontramos aqui a ideia de Homem novamente. É a ideia de Homem que governa todas as coisas. É algo que temos falado reiteradamente. "Havia um Homem”; há muita coisa incluída nesta declaração. Tudo irá ser conforme as medidas deste Homem. Fazemos a declaração novamente e paramos aí. "Cuja aparência era como a aparência do bronze". Isto também nos leva de volta à primeira visão. Vocês se lembram da visão dos querubins: "seus pés eram como bronze reluzente". Quando vocês chegam ao primeiro capítulo de Apocalipse, na apresentação do “Filho do Homem”, no verso quinze vocês encontram: “Seus pés eram como bronze reluzente". Espero que vocês saibam o que o bronze representa na Bíblia: representa julgamento justo. Aqui, então, no simbolismo, todas as atividades e caminhos deste Homem são em justiça. O homem injusto foi julgado e colocado de lado. Ele não tem lugar na Casa de Deus. 

O grande altar era feito de bronze, e tudo era consumido nele. É o símbolo de julgamento justo. É Deus julgando todas as coisas em justiça. Não sobrou lugar para a carne: tudo é reduzido a cinzas. Portanto, este é outro Homem; é O Homem Justo, e tudo está sendo medido conforme a justiça. Quanta Escritura poderíamos citar a este respeito! A respeito do Senhor Jesus é dito: “(Ele) se tornou a nossa justiça”; "O Senhor irá julgar o mundo com justiça por meio de um Homem que tem escolhido”; “Jesus Cristo, o Justo”; poderíamos citar muito mais textos. É o que Cristo é em caráter que é o padrão da Casa de Deus. Assim, a declaração completa é que toda a dimensão da Casa é “Santidade ao Senhor”. 

Voltaremos a este assunto mais tarde, mas está muito claro a esta altura que não há lugar para o homem natural nesta Casa. Somente há lugar nela para o Homem Justo. Nesta Casa é o homem que se tornou “a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo”. Assim, se o Senhor permitir, iremos prosseguir com este tema amanhã pela manhã, a fim de continuarmos com a “medição”. Mas, por ora, espero que vocês tenham começado a enxergar algo de valor espiritual, ou, devo dizer, espero que tenham começado a enxergar uma Pessoa, pois é Cristo que, pelo Espírito, está em foco.

Capítulo 9 – A Casa de Deus: A Grandeza de Cristo e de Sua Igreja

Retornamos esta manhã ao que fora revelado ao profeta Ezequiel; e estou certo de que, na medida em que vocês liam aqueles seis capítulos (Eze 40-46), encontraram grande dificuldade para obter um quadro claro de todo o conjunto. Eu tentei, por diversas vezes, desenhar uma planta desta casa com todos os seus detalhes e medidas. Até o presente momento, não tenho tido êxito. Não é porque é impossível. Espero que haja alguns arquitetos aqui esta manhã que possam conseguir isso, pois tenho insistido com o Senhor sobre este assunto. Tenho pegado papel, prancheta e todos os meus instrumentos, e, insistentemente tenho tentado esboçar esta planta, porém, não tenho conseguido ir muito longe. É como se eu estivesse tentando fazer algo que o Senhor não quisesse. Eu me pergunto se vocês já tiveram esta experiência; se já tentaram fazer algo, mas acabaram não encontrando vida naquilo, absolutamente. A coisa se torna morta; e, se você for sensível, espiritualmente, apenas poderá dizer: “Bem, o Senhor não está neste negócio”. Esta tem sido a minha consciência cada vez que tento reduzir isto a uma planta no papel. Este é o ponto em que começo esta manhã, porque acredito que existe um princípio muito importante aqui. 

Na medida em que lemos esses capítulos, encontramos a nós mesmos diante de uma grande quantidade de detalhes. É muito difícil lidar com todos eles. Se tivéssemos que tratar com isto, nessas seções, descobriríamos que a missão é impossível. Teríamos que permanecer aqui por um longo tempo; possivelmente começaríamos a perder o nosso senso de vida com tal empreendimento. Meu ponto de vista é o seguinte: seria muito fácil para nós cairmos no erro, ao que devemos muito evitar, que é o de tentar resolver coisas espirituais por meio de um sistema técnico; ficamos obcecados pela técnica da Casa de Deus. Isto é um perigo muito grande! E eu realmente quero enfatizar isto esta manhã.  

Esta grande quantidade de detalhes aqui está completamente fora do nosso poder de manuseá-lo. E, se fôssemos resolver a coisa toda através de um sistema meramente técnico, poderíamos facilmente destruir a vida! Por isso eu exorto os irmãos a serem muito cuidadosos em relação a este assunto; cuidado para não reduzirem a Casa de Deus a uma técnica. Se a coisa for reduzida a um sistema técnico, então, imediatamente estará fadado a perder a sua vida. Isto é algo que tem acontecido repetidamente na história da Igreja.  Antes de chegarem ao final do livro de Atos, vocês descobrirão que isto já estava acontecendo! Todo este sistema cristão de hoje já estava surgindo; e Paulo escreveu as suas últimas cartas a Timóteo justamente para restaurar a natureza espiritual das coisas. Ele procurou mostrar que os ofícios da igreja não são apenas ofícios; isto é, que os anciãos não são oficiais, mas homens espirituais. 

A Casa de Deus não é um sistema – é uma Casa espiritual. Nos dias de Timóteo, os homens já tinham começado a transformar as coisas espirituais num sistema terreno, e isto aconteceu muitas vezes durante os séculos passados. Deus fez algo de caráter espiritual. Deu uma revelação fresca sobre a natureza das coisas espirituais, e, por um tempo, as coisas caminharam nesta vida espiritual, porém, os homens se apoderaram da verdade e a reduziram a um sistema fixo. Tiraram as coisas dos lugares celestiais e as trouxeram para o campo terreno; e ao fazer isto, mataram a verdade espiritual. Esta é a história de muitas coisas no cristianismo sobre a terra hoje. Muitos cristãos realmente começaram numa vida espiritual verdadeira – estavam no poder espiritual – deles saía um rio de vida. Mas, então, o homem se apoderou das verdades e as transformou num sistema, introduzindo um elemento técnico nas coisas; e, ao fazer isto, mataram a vida. Eu exorto os irmãos a tomarem cuidado contra este perigo, e a se guardarem contra isso, especialmente aqueles de vocês que têm responsabilidade na liderança. 

Retornemos agora à Casa de Deus, como apresentado em Ezequiel. Naturalmente, toda esta apresentação mostra quão exato e cuidadoso Deus é. Quão específico Ele é quanto aos menores detalhes. Reconhecemos que isto é uma lei da Casa de Deus. Deus é muito específico quanto aos menores detalhes. Cada pequena coisa tem a sua própria medida – uma medida que é dada a ela por Deus. E nós não estamos autorizados a torná-la nem maior, nem menor; ela deve expressar a Mente do Senhor. Como temos dito, há uma tremenda quantidade de detalhes aqui, mas cada parte disto representa um cuidado específico de Deus em relação às coisas conforme a Sua Mente. Reconhecemos isto, mas, ao mesmo tempo, devemos reconhecer que não é um sistema que está sendo mostrado. Nesta visão da Casa de Deus, Deus não está apresentando um sistema. Não está apresentando uma organização. Ele está apresentando uma Pessoa. A Pessoa de Seu Filho. Esta é uma Casa espiritual, não um sistema de verdade; e a característica suprema desta Casa tem a ver com Vida.

Vamos olhar para isto de dois lados. A VIDA exige exatidão de comportamento; exige exatidão na ordem; e nós podemos ter a ordem sem a Vida. É possível para o sistema, ou para a técnica, destruir a vida. Não é verdade que, só porque você tem as coisas tecnicamente em conformidade com a Bíblia, que você as tem conforme a Vida. É possível transformar o Cristianismo num sistema legalista. A lei desta Casa é Santidade de Vida. Por isso, precisamos ver este templo em Ezequiel de forma objetiva. É assim que Ezequiel o viu, primeiramente. Vocês verão que foram duas as visões do templo dadas a Ezequiel. Primeiro, ele viu o templo como um todo, como que de certa distância; a ele foi dado ver o templo a partir de uma “montanha muito alta”. Ele viu o templo exaustivamente desta maneira. Viu suas linhas gerais; seus limites e suas inclusões. E, então, o Espírito o tomou, e ele viu o templo a partir do seu interior. Foram mostrados a ele todos os detalhes do lado interno. É importante que vejamos o templo desta maneira. 

A primeira coisa que vemos a partir deste ponto de vista celestial é o grande tamanho da Casa de Deus. Toda a área da Casa foi revelada a Ezequiel, e é, como vimos ontem, algo muito grande. Precisamos tomar muito cuidado para não tornar Cristo, ou a sua Igreja, menor do que Ele realmente é. Precisamos tomar cuidado para não tornar Cristo menor do que aquilo que Deus O tem feito. Não podemos torná-Lo simplesmente o nosso Cristo, o Cristo que pertence a nós, o Cristo da nossa localidade. Devemos tomar cuidado para não tornar Cristo menor do que Deus O tem feito, e não podemos tornar a Igreja menor do que Deus a tem feito. Ela não é a nossa pequena Igreja; não é a pequena Igreja de ninguém. Ela é muito maior do que os nossos pensamentos: ela vai muito além das nossas imaginações. Trata-se de um Cristo e de uma Igreja muito grandes. 

Aqui, novamente, precisamos nos guardar do perigo; isto é, o perigo sempre presente de reduzir o tamanho de Cristo e da Igreja, reduzindo a Igreja para aquela medida que temos visto. A medida da Igreja não é a medida da compreensão que temos dela. A oração do Apóstolo Paulo, em Efésios, concernente à Igreja, era que os irmãos pudessem ter um alargamento na compreensão. Ele orou para que a Igreja pudesse conhecer “qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade". Isto é um conhecimento que ultrapassa todo o conhecimento humano. Se havia uma coisa sobre o Apóstolo Paulo mais do que os demais, era isto: ele estava dominado pela Grandeza de Cristo, e pela grandeza da Igreja. 

É assim que nós também devemos enxergar, guardando-nos sempre do perigo de reduzir Cristo e a Igreja à nossa própria estatura; ao tamanho do nosso conhecimento.  Vocês e eu temos ainda que aprender mais sobre o Senhor e Sua Igreja, muito mais do que aquilo que temos visto, e a percepção deste fato poderá nos livrar da insignificância. Aqui, então, está a bússola da Grande Plenitude – A Casa preenche todas as coisas, e todas as coisas são preenchidas por ela. Esta Casa é para realizar todas as coisas até o fim. É a isto que chegamos quando alcançamos o rio. O rio é a influência, o efeito, desta Casa. É o que sai dela para o mundo, e afeta o mundo inteiro, de modo que, todas as potencialidades para afetar os confins da terra estão armazenadas nesta Casa. 

Vocês vão observar que toda a dimensão desta Casa é quadrada. Ela possui quatro lados, e todos eles são iguais. Estou falando agora a respeito de toda a área do templo; a área toda do templo é um grande quadrado, quatro lados iguais. Vocês se lembram do que dissemos no início sobre o número ‘quatro’. Nós assinalamos que o número quatro é o número da criação. O número quatro abrange toda a criação, e esta Casa representa a nova criação em Cristo. Paulo nos fala que Cristo encherá todas as coisas e TODAS as coisas serão cheias por Ele, ou, usando outra frase de Paulo, em Efésios 3:9, "E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério". 

Tomem nota disto: “E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério". Isto não significa necessariamente que todos os homens irão aceitar, ou entender. Devemos ser muito cuidadosos para não limitar a verdade da Igreja, como a chamamos, para apenas algumas poucas pessoas. Não podemos ser como aqueles que dizem: “Nós somos o povo que tem visto a Igreja, permanecemos no terreno da Igreja, detemos a verdade da Igreja, temos visto o significado do Corpo de Cristo. Muitos cristãos ainda não têm visto a Igreja, ainda não estão neste terreno; por isso, que conclusão podemos tirar, senão que nós  somos a Igreja, e não eles!” Esta é uma conclusão muito artificial. Temos que ser muito cuidadosos contra isso. Pode haver diferença em relação à compreensão da verdade; pode haver diferença em relação à posição quanto à Igreja, porém, a vontade de Deus é "demonstrar a todos os homens qual seja a dispensação do mistério". Vocês não devem ficar de fora deste ‘TODOS OS HOMENS’ porque este é o alcance da vontade de Deus, e nós precisamos alargar os nossos corações e as nossas mentes a esta medida de Deus. 

Dissemos que Paulo foi dominado por esta consciência. Ele frequentemente ficava exclamando a respeito desta impressionante grandeza. Paulo falava da “profundidade das riquezas tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! “Quão insondáveis são os Seus caminhos!"– Falava das “sobre-excelentes riquezas". Paulo ficou subjugado pela grandeza de Cristo e de Sua Igreja. Isto equivale ao seguinte: que a real compreensão da Igreja de Cristo irá nos tornar grandes em espírito, e não pequenos. Não há nada que possa nos salvar da insignificância mais do que a verdadeira compreensão de Cristo. Se nos tornamos pequenos, ou se a obra se torna pequena em sua concepção, então ela realmente não tem relação com Cristo. Esta é a primeira coisa que vemos representada aqui na visão de Ezequiel sobre a Casa. Quão grande é esta Casa. Ela representa toda a nova criação. Nas eras por vir, ela encherá todas as coisas; e todas as coisas serão enchidas por ela. É uma visão gloriosa esta. Precisamos, portanto, ser pessoas grandes, grandes em espírito e grandes de coração.

A Casa: O Lugar Da glória De Deus

Então, observamos o propósito tripartite da Casa. Primeiro, é o lugar da glória de Deus. Ezequiel quarenta e três, verso sete: "E disse-me: Filho do homem, este é o lugar do meu trono, e o lugar das plantas dos meus pés, onde habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre; e os da casa de Israel não mais contaminará o meu Santo Nome, nem eles nem os seus reis, com suas prostituições e com os cadáveres dos seus reis, nos seus altos”. 

Observem que é a palavra “glória” que leva ao versículo sete, pois o versículo 2 diz: “Eis que a glória do Deus de Israel vinha do caminho do oriente; e a sua voz era como a voz de muitas águas, e a terra resplandeceu por causa da sua glória”.  

Então, os versículos 4 e 7: “E a glória do Senhor entrou na Casa pelo caminho da porta... oriente... e Ele disse... este é o lugar do Meu Trono". Esta Casa é o lugar do Trono de Glória. 

A "glória" tinha deixado Jerusalém 19 anos antes que esta Casa fosse mostrada a Ezequiel, e ela não mais retornou à Jerusalém terrena; mas retornou à Casa espiritual. Do mesmo modo, a glória deixou Jerusalém quando o Filho de Deus foi rejeitado; e nunca mais voltou a ela; mas voltou à Casa espiritual no dia de Pentecoste. Esta é a Casa da glória de Deus, e, observem a partir de todo o versículo sétimo, que “a glória é a glória da Santidade”. Não se trata apenas de se trazer brilho: é uma condição espiritual. Nenhuma corrupção tem lugar aqui; nenhum corpo morto tem lugar aqui; não há morte nem corrupção aqui. A glória é a glória da Santidade, onde a corrupção e a morte foram removidas. Lembrem-se de que a glória depende da condição espiritual. Depende da santidade. Isto, então, primeiramente, é o lugar da Sua Santidade.

A Casa: O Lugar Do Governo De Deus

E mais, a Casa é o lugar do Seu governo. “Este é o lugar do Meu Trono”: está no lugar do Seu governo. Lembrem-se de que esta é uma Casa espiritual. O lugar do Seu governo não é uma igreja terrena, esteja ela em Roma ou em qualquer outro lugar. O lugar do Seu Trono está no céu, e nós somente estaremos debaixo do governo de Deus quando ocuparmos uma posição celestial. Esta é uma declaração bastante forte. Ela carrega muita coisa em si, mas, realmente, somente estaremos debaixo do governo de Deus quando ocuparmos uma posição celestial. E eu estou muito certo de que vocês irão concordar que é algo muitíssimo importante estar debaixo do governo de Deus. Que esperança haverá para nós ou para a igreja, senão debaixo do governo de Deus? 

Assim, o que temos lido no livro de Atos deixa a coisa muito clara para nós. Lá a Igreja está debaixo do governo do Céu, e é uma Igreja muito eficaz. Mas, quando a Igreja está debaixo da autoridade humana, ela perde sua eficácia. O governo da Igreja exige uma posição celestial, isto é, uma Igreja, ou uma Casa, completamente conformada a Cristo. Isto é necessário ao governo celestial. O governo do Senhor irá vir apenas quando as coisas estiverem conformadas a Cristo. "Este é o lugar do Meu Trono!" Que lugar? – O lugar que está conformado a Cristo. Tudo aqui nesta visão é Cristo. Cristo está acima de tudo. Tudo recebe a medida e o caráter de Cristo; este é o lugar do trono. 

E, então, esta é uma Casa que está completamente ordenada pelo Espírito. Vocês percebem o lugar do Espírito nesta Casa? – “O Espírito me levantou; o Espírito me trouxe para dentro; o Espírito me levou". – Tudo é no Espírito e pelo Espírito. A revelação de Cristo é pelo Espírito Santo, e esta é a consumação do governo da Igreja. O governo desta Casa é o governo do Espírito Santo. O Espírito Santo pode usar homens; pode escolher aqueles que são chamados de anciãos, porém, há uma grande diferença entre o oficial e o espiritual. Você pode ser o que comumente chamamos de ancião, ancião oficial, mas não ser um ancião espiritual. Se você é um ancião espiritual, necessariamente também será ancião oficialmente. Sua medida será reconhecida; e, seja você um ancião ou não, você acabará sendo um, se espiritualmente já for um. O governo é espiritual. Os homens do Novo Testamento foram descritos como sendo homens “cheios do Espírito Santo”. Eram apóstolos, anciãos, diáconos. Era isto que os tornava aquilo que eram, homens “cheios do Espírito”!

A Casa: O Vaso Da Vida De Deus

Então, temos a terceira coisa. Esta Casa é o canal, ou o vaso, da Vida de Deus. É de uma casa como esta que a Vida flui. Vocês não precisam fazer a Vida fluir. Ela espontaneamente flui como um fluxo. Vocês não precisam ir apanhar baldes de água para tentar tirar a água desta Casa. Não há nada de oficial aqui. Não há nada de segunda mão. Não há nada sendo feito por homens. A Vida simplesmente jorra! Jorra, e jorra de uma Casa como esta – uma Casa onde está o trono do Senhor; uma Casa onde está o governo do céu; uma Casa onde está o Senhor. Desta Casa a Vida flui. O testemunho em si está nesta Vida. 

João disse: “Este é o testemunho”. Vocês querem saber qual é o testemunho? O testemunho não é um sistema de doutrina e de ensino. O testemunho não é uma técnica. “Este é o testemunho, que Deus tem nos dado Vida Eterna, e esta Vida está em Seu Filho”. (1 João 5:11). O testemunho está nesta Vida; e, quando a Vida está em nós, o testemunho também estará. Assim, o testemunho de tudo é a Vida. Esta é uma declaração para ser analisada!

É a Vida que determina a presença do Senhor. É a Vida que mostra se as coisas estão realmente conformadas a Cristo. É a Vida que prova se o serviço é o serviço do Senhor. É A VIDA QUE PROVA TUDO. A questão é: "Isto está ministrando Vida? Isto é uma coisa viva, que está fluindo Vida, fluindo vida para os confins da terra? “Se isto não for verdade, então, alguma coisa está errada”. A coisa pode ser uma técnica e um sistema muito maravilhoso, mas há algo errado nele. Tudo é provado pela “Vida”.

Capítulo 10 – Cristo é a Grande Ordem Espiritual

Ontem pela manhã, demos uma olhada geral na Casa mostrada a Ezequiel. Esta manhã vamos começar a considerar isto mais em detalhe. Vamos retornar ao capítulo 40, versículos 3 e 4: “E, havendo-me levado ali, eis que um homem cuja aparência era como a do bronze, tendo um cordel de linho na sua mão e uma cana de medir, e estava em pé na porta.  E disse-me o homem: Filho do homem, vê com os teus olhos, e ouve com os teus ouvidos, e põe no teu coração tudo quanto eu te fizer ver; porque para te mostrar foste tu aqui trazido; anuncia, pois, à casa de Israel tudo quanto vires”. 

Assim, vamos dar outra olhada no Homem de bronze. Vocês vão se lembrar de que nós observamos que os pés dos querubins eram de bronze, e os pés do Senhor Jesus, no primeiro capítulo de Apocalipse, também eram de bronze; e dissemos que o bronze na Bíblia é o símbolo de juízo justo. Este Homem de bronze está em pé no portão, o que significa que não há lugar lá dentro para homens injustos. O homem carnal não pode entrar por este portão. Não há lugar para a carne nesta Casa. Apenas o Homem Justo pode entrar ali, e tudo será medido a partir deste Homem Justo.  

Vamos dar uma olhada nos instrumentos de medida; observamos que há dois deles. Primeiramente, temos o cordel de linho; nenhuma medida é colocada nele. Não nos é dito qual era o seu comprimento, mas sabemos que ele era usado para grandes comprimentos. Quando chegamos mais adiante, ao rio, no capítulo 47, não é a cana, mas o cordel, o instrumento de medida; e descobrimos que aquele rio se torna muito fundo para o homem. Penso que isto claramente corresponde ao que Paulo disse na carta aos Efésios. Lá ele fala do “amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento”. Nós estamos aqui diante de algo que é maior que a medida humana. Se este Homem realmente representa o Espírito Santo, como dissemos, não existe medida no Espírito Santo. Mas dentro desta plenitude, temos a cana de medida. É ela que traz aquela grande plenitude às questões particulares. Assim, temos a cana de medida. Estas são as duas maneiras de se medir. Uma é o que podemos chamar de “sem medida”. É uma medida que não tem limite. É a plenitude do Espírito. A outra medida é aquilo que é trazido para as coisas do dia a dia. Esta cana é usada para todos os detalhes da Casa. Agora, acho que não é necessário nos delongarmos aqui. Apenas observemos que existem dois meios de medição. Um, a grande plenitude de Cristo; o outro é que esta plenitude é trazida para os detalhes da Casa de Deus. Vou deixar isso com vocês, pois há muita coisa aí. 

Devemos nos lembrar do seguinte, que, quando pensamos na plenitude do Espírito, ou na plenitude de Cristo, não podemos nos esquecer de que isto será trazido para os detalhes da nossa vida. Isto está muito claro na carta aos Efésios. Os primeiros três capítulos fazem referência à grandeza de Cristo, aquela plenitude sem medida. O capítulo 4 começa desta maneira: “Rogo-vos que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados" E, então, todos os detalhes são mencionados: maridos e mulheres, senhores e servos, pais e filhos. Vocês sabem, é a medida da cana aplicada à vida diária. Não podemos pensar nas grandes coisas sem perceber que o Senhor irá aplicar a Sua medida a todos os detalhes. É tão fácil termos essas grandes ideias sobre a plenitude de Cristo, porém, negligenciarmos os detalhes. Cada pequena coisa deve ser medida pelo mesmo Espírito que mede a plenitude de Cristo. Precisamos entender isto. 

Assim, aqui em Ezequiel temos este Homem. Deixemos este “Homem” representar o Espírito Santo, pois o Espírito Santo está falando a respeito da vasta plenitude de Cristo e de Sua Casa. O Espírito está falando sobre a vasta plenitude da Vida que flui; este mesmo Espírito chega aos mínimos detalhes. É o mesmo Espírito, e, embora Ele fale da grandeza, Ele também aponta para os detalhes. Não acho que haveria muito valor em olharmos para as medidas da cana. Assim, passemos para as instruções que são dadas ao profeta.

Observem no capítulo 40, versículo 4: "... O Homem disse para mim, filho do homem, VÊ com os teus olhos, e OUVE com os teus ouvidos, e PÕE no teu coração tudo quanto eu te fizer ver... (Filho do homem), ANUNCIA à Casa de Israel tudo quanto vires". 

Observem as palavras: "vê, ouve, põe no teu coração, anuncia." Então, se vocês prosseguirem até o capítulo 43, versículo 10, terão a outra parte das instruções: "Mostra esta Casa à Casa de Israel". Vamos refletir nisso por um minuto. 

Antes de podermos mostrar qualquer coisa ao povo, nós próprios precisamos conhecer aquilo que estamos apresentando. As instruções ao profeta foram bastante específicas: “Veja com os teus olhos, ouça com os teus ouvidos”, e assim por diante – isto é, dê muita atenção a todo este assunto! Vocês precisam ter uma compreensão muito bem definida sobre aquilo que vocês irão mostrar às pessoas. Vocês próprios precisam ver o objeto. Perguntamos novamente: que objeto é este? Qual é a resposta para toda esta visão? Primeiro, sem sombra de dúvida, a resposta é encontrada na Encarnação. A Encarnação é a chave de tudo. 

Na Encarnação temos o Homem Justo, o Homem Segundo Deus; Ele é o padrão da medida de tudo. "O qual para nós foi feito por Deus justiça". Vocês irão se lembrar de que isto foi falado num tempo quando as coisas estavam fora de ordem na Igreja; as coisas não estavam em conformidade com o propósito do Senhor, e, então, o apóstolo falou sobre Jesus; Ele foi feito para nós Justiça. Tudo na Igreja tem que ser medido conforme Cristo; isto é, conforme o padrão de Deus, como mostrado em Seu Filho. Ele é o Justo. Deus já designou um dia em que com justiça julgará o mundo, por meio do Homem que destinou. Jesus disse que o Pai tinha Lhe dado autoridade para julgar, porque Ele era o Filho do Homem. Aqui está o Homem de bronze. O Filho do Homem é o Justo, e Ele é o padrão da medida de Deus. Deus mede todas as coisas por meio dEle. Teremos que voltar a isto mais tarde; apenas observemos aqui o significado do Homem de bronze e de Sua cana de medir. 

Vocês sabem que o homem natural havia se introduzido na igreja de Corinto. O apóstolo falou muito aos coríntios sobre o homem natural, o homem carnal. Salientou que este homem natural, carnal, não tinha lugar no âmbito das coisas do Espírito. Este "homem não aceita as coisas do Espírito... nem pode entendê-las". E isto é o que este Homem de bronze está fazendo; Ele está dizendo que apenas o homem segundo Cristo pode ver e ouvir.  Apenas o homem espiritual pode entrar no território das coisas do Espírito. O homem natural e carnal tinha se introduzido na igreja de Corinto, e vocês conhecem o método que o apóstolo usou para corrigir isto. Ele disse: “Eu decidi nada saber entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado”. Paulo trouxe este Homem Justo para corrigir as coisas que estavam erradas. Trazendo o Homem Justo, ele removeu o homem carnal. Trazendo o Homem do Espírito, ele pôs para fora o homem carnal. Este é exatamente o significado deste Homem de bronze com sua cana, de modo que, acima de tudo, o objeto em vista é Cristo. É Ele quem governa todas as coisas. 

E, então, prosseguindo, temos “a Igreja, que é o Seu Corpo”. A Igreja é chamada de “um novo homem”. Paulo disse: “Vos REVESTISTES do novo homem". E assim, a Igreja é medida de acordo com Cristo. Cristo é a medida de tudo na Igreja. De fato, esta é a única Igreja conhecida no céu! A única Igreja que o céu reconhece é esta Igreja, o Corpo de Cristo, que é medida de acordo com Cristo. Tudo nesta Igreja tem a ver com uma única coisa: com a medida de Cristo. É isto o que temos em Colossenses, em Efésios e em Filipenses. Mas Colossenses e Efésios, especificamente, são as cartas concernentes à Igreja. Nessas cartas, a medida é mencionada: "a medida da estatura da plenitude de Cristo”; "a largura, o comprimento, a altura e a profundidade". Vocês sabem, há muita medição nessas cartas. Mas esta medida está na Igreja, e tudo com o Espírito é apenas uma questão de quanto de Cristo há.

Vamos tentar nos livrar de nossa ideia técnica sobre a Igreja. Sabemos que a Igreja não é uma coisa, não é uma instituição, não está aqui ou ali, geograficamente. A Igreja está apenas onde está a medida de Cristo. Se há mais da medida de Cristo em um lugar do que em outro, então, haverá mais da Igreja ali. É apenas a medida de Cristo que determina quanto da Igreja há. Tentem se lembrar de que a medida de Cristo é uma medida espiritual, a qual define a Igreja. Se perguntarem: “O que é Igreja e onde ela está?” – a resposta é: “onde Cristo está”, e, onde Cristo estiver mais plenamente, lá a Igreja também estará mais plenamente. Precisamos reconhecer que a Igreja é inteiramente medida de acordo com este Homem, e pode apenas ser vista pela revelação do Espírito Santo. 

Agora, se nós ainda não temos recebido “o espírito de sabedoria e de revelação”, podemos até conversar sobre a Igreja, mas só iremos enxergá-la de uma maneira que não é a maneira do Espírito vê-la. É preciso que o Espírito Santo nos capacite, para que enxerguemos a Igreja. E, quando o Espírito nos mostra a Igreja, o que vemos? Será que vemos algo que é chamado de Igreja? Será que vemos um grupo de pessoas que possuem certa doutrina acerca da Igreja? Será que vemos algo no qual há certa interpretação da Bíblia sobre Igreja? Será que vemos uma congregação de pessoas que a si mesmas chamam de Igreja? Será que vemos alguma dessas coisas? Não! Quando o Espírito Santo abre os nossos olhos, nós não vemos isto. Vemos Cristo. Ver Cristo é ver a Igreja! E ter visto a Igreja significa ter visto Cristo. Cristo é a Grande Ordem Espiritual como também a Grande Pessoa Espiritual.

Há um grande sistema celestial. Cristo é a corporificação deste sistema celestial e espiritual. É tudo uma questão do que Cristo é. É uma questão da Mente de Cristo; isto é, o que Cristo pensa e como Ele vê as coisas é exatamente isso que Ele faz. A Igreja é a expressão de uma Pessoa corporativa. É desta maneira que devemos considerar a Vida de Cristo, para revelar essas grandes verdades espirituais. É um vasto sistema celestial trazido para nós na Pessoa do Filho de Deus. 

Foi quando Paulo viu Cristo que ele começou a ver a Igreja. Essas duas coisas caminham juntas; e, quanto mais ele via Cristo, mais compreendia a Igreja. Isto resultou em Paulo dando-nos esta apresentação única da Igreja. É apenas Paulo que chama a Igreja de “Corpo de Cristo”; e porque a Igreja é o Corpo de Cristo, ela somente pode ser vista a partir de um ponto de vista celestial, por revelação do Espírito Santo.

"Vê... Ouve... Põe em teu Coração”

Assim, chegamos a essas instruções: “Filho do homem, vê com os teus olhos, e ouve com os teus ouvidos, e põe em teu coração tudo quanto eu te mostrar”. O que isto significa em termos de Novo Testamento? Bem, na carta aos Efésios, o apóstolo ora para que a Igreja possa chegar ao “conhecimento Dele”, isto é, "ao pleno conhecimento Dele”. Os crentes de Éfeso tinham um conhecimento do Senhor; penso que tinham um amplo conhecimento do Senhor. Paulo tinha estado com eles por dois anos, e falou que não deixou de anunciar a eles “todo o conhecimento de Deus”, de modo que eles tinham recebido muito ensino de Paulo; e, contudo, no final, o apóstolo está orando para que eles possam alcançar o pleno conhecimento de Cristo. E Paulo explicou isto em sua própria oração: "para que vocês possam conhecer qual é a esperança do Seu chamado, e quais as riquezas da glória de Sua herança nos santos, e qual a sobre-excelente grandeza do Seu poder”. - "Para que possais CONHECER". - "Filho do homem, vê com os teus olhos e ouve com os teus ouvidos, e põe em teu coração todas as coisas que te mostrarei" (Ezequiel 40:4 parafraseado) – Assim, Paulo diz: "Para que eu possa conhecê-lo”. Mesmo no final de sua vida, Paulo ainda continua dizendo: “Para que eu possa conhecê-lo”. – Filho do homem, vê, ouve e ponha em teu coração! Vocês não podem, como servos de Cristo, mostrar nada para ninguém até que vocês próprios tenham visto. Depois o Homem disse a Ezequiel: “Mostra a Casa a Israel”, de modo que este novo ministério para o qual Ezequiel tinha sido chamado era uma apresentação, ou revelação, de Cristo. Podemos colocar desta forma. Na primeira visão, Ezequiel tinha visto o Homem no Trono; tinha visto o Homem no céu e agora sua grande e última visão foi o Homem na Igreja. Ele estava vendo a Igreja, agora, e seu ministério ao final se referiu a isto, a apresentação da plenitude de Cristo, e da Igreja, que é a plenitude daquele que cumpre tudo em todos. – Assim, o final da oração de Paulo é: “a Ele seja a glória na Igreja em Cristo Jesus por todas as gerações e eras: Amém". 

“Filho do homem, mostra a Casa à Casa de Israel”. Qual será o efeito disso? Esta é a prova de que realmente a temos visto. Podemos conversar sobre a Igreja da maneira como a temos no Novo Testamento, e ainda assim não saber nada a respeito dela. Houve um tempo que eu dava ensinos bíblicos, e nesse tempo, eu podia fazer uma análise muito boa e um bom esboço sobre a carta aos Efésios. Era o que estava no Novo Testamento sobre a Igreja, e eu podia apresentá-la. Eu falava sobre a Igreja, mas eu mesmo não sabia nada acerca dela. Eu realmente ainda não a tinha visto. Todo o meu conhecimento do que a Bíblia ensinava não fazia qualquer diferença em mim. Qual foi o resultado, então? Havia muito pouco valor espiritual naquele ministério. Todo aquele ministério não criava uma revolução. 

Agora, observem o que diz aqui: “mostre a Casa a Israel, para que eles fiquem envergonhados por seus caminhos, e possam guardar a Minha Palavra”. Se o efeito do ministério é ter um efeito como este, então precisamos ter enxergado no Espírito. O ministério não terá aquele efeito se nós apenas enxergarmos a Igreja na Carta. "A letra mata, mas o Espírito é que vivifica". O efeito de um ministério de revelação é muito positivo; causa efeito nas pessoas.

Capítulo 11 – O Altar (a Cruz) Governa Tudo

Em Ezequiel 43, versículos 13 a 27, temos o grande altar e seu serviço. Não iremos ler toda a seção, apenas o primeiro versículo: "E estas são as medidas do altar, em côvados (o côvado é um côvado e um palmo): e o fundo será de um côvado de altura, e um côvado de largura, e a sua borda em todo o seu contorno, de um palmo; e esta é a base do altar”. 

Então nos é dado mais características sobre a medição e sobre o ministério. Todos sabemos que o altar no Velho Testamento é um tipo da Cruz. Este altar é o lugar do HOLOCAUSTO, e isto corresponde a Hebreus, capítulo 10, onde o Senhor Jesus é associado ao HOLOCAUSTO. Assim, vamos refletir nesta manhã sobre a centralidade e a universalidade da Cruz. 

Vimos que toda a área do templo era quadrada. Se desenharmos linhas diagonais a partir de cada canto, essas linhas vão se cruzar exatamente onde ficava o altar. O altar ficava bem no centro de toda a área. Vocês irão reconhecer que esta área é diferente daquela do tabernáculo no deserto. O pátio do tabernáculo não era quadrado, e o altar do holocausto ficava à entrada da porta; mas no templo, o altar ficava bem no centro de um quadrado. É importante perceber isto. Todas as linhas se encontram no altar, e todas as linhas saem do altar. O lugar central de tudo é o altar. 

O altar governava tudo. Governava tudo em relação à Casa; isto é, tudo aquilo que realmente estava no templo era governado pelo altar. E o altar também governava tudo o que estava imediatamente ao redor da casa. Se vocês tivessem uma planta desta casa, com toda a sua área, veriam que todas as câmaras dos sacerdotes eram redondas ao redor; e os lugares onde as ofertas eram preparadas ficavam todas ao redor. Tudo era distribuído ao redor da casa, porém, tudo na casa e em toda a sua área era governado pelo altar. 

Todo o ministério da casa também era governado pelo altar. Poderíamos dizer que não havia ministério que não estivesse relacionado ao altar; e, então, para além da casa, e para além da área imediata, na direção de toda a terra, tudo também era governado pelo altar. 

Veremos isto quando chegarmos ao rio, que descia a toda a terra, descia por meio do altar; mas voltemos para dentro da casa.

A Cruz Em Seu Lugar

Aqui temos uma verdade muito importante e vital. Quando a Cruz está em seu lugar com sua medida plena, tudo mais ficará em ordem, e tudo mais alcançará o seu significado e o seu valor. Sinto que não posso dizer isto muito fortemente. Nós muito frequentemente ficamos preocupados com o exterior das coisas, sobre a ordem da Casa do Senhor, sobre o ministério da Casa, sobre as pessoas que estão ligadas à Casa. Costumamos começar sempre pelo exterior. Estamos tentando estabelecer a ordem da Casa de Deus. Estamos tentando colocar as pessoas da Casa no lugar certo. Ficamos muito preocupados com os ministros e com os ministérios. Mas, se a Cruz estivesse realmente em seu devido lugar, com as suas dimensões plenas, todas as coisas iriam se encaixar por si mesmas. Se a Cruz estivesse em seu devido lugar, as pessoas também estariam no lugar certo. Os ministérios seriam vivos. Toda a ordem na Casa estaria correta. A coisa só funciona desta maneira. SE A CRUZ ESTIVER BEM NO CENTRO, em plena medida, (e observem que é um grande altar), ENTÃO TUDO MAIS ESTARÁ EM SEU LUGAR DEVIDO, E NUMA RELAÇÃO VIVA. 

Embora não esteja dito aqui,  penso que estamos corretos em concluir que este altar também era de bronze. O altar no tabernáculo era de bronze, o altar no templo de Salomão era de bronze, e penso que podemos presumir que este altar aqui também fosse de bronze. Já encontramos bronze no Homem da porta, e dissemos que Ele, com Sua cana, media todas as coisas conforme aquilo que Ele era. O bronze é o tipo do justo juízo de Deus. Este grande altar representa a plenitude do justo juízo de Deus. Este altar de bronze é medido pelo Homem de bronze, de modo que este altar representa os pensamentos de Deus em julgamento. 

Neste altar do holocausto, o homem injusto é completamente removido. O altar de bronze vê um homem reduzido a cinzas. As cinzas são tiradas do altar e caem ao chão ao lado do altar. Este é um quadro que mostra o que Deus pensa a respeito do homem injusto, do homem natural. Ele é consumido no fogo do juízo de Deus; é reduzido a cinzas, é jogado ao chão. É ISTO O QUE DEUS PENSA SOBRE O HOMEM NATURAL. Por outro lado, é somente O HOMEM JUSTO que pode permanecer perante este altar. Obviamente, esses são os dois lados DA PESSOA E DA OBRA DO SENHOR JESUS. Por um lado, Jesus foi feito pecado por nós, e, nesta condição, Ele foi completamente consumido e reduzido a cinzas. Quando Ele clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparastes” – temos aí o clamor das cinzas! Ele havia sido reduzido a cinzas e jogado ao chão. 

Mas, então, houve o outro lado da Cruz – “Ele não conheceu pecado”.  Nele mesmo não havia injustiça, portanto, Ele pôde atravessar o altar; pôde sobreviver ao fogo! "Tu não permitirás que o Teu Ungido conheça a corrupção". Porque Nele mesmo não havia pecado; Ele não poderia ser retido pela morte. Sua natureza santa pôde resistir a todos os justos juízos de Deus! Este é o significado do grande altar: um homem é consumido, e outro Homem aparece em Seu lugar. Tudo foi julgado no altar. Tudo é julgado na Cruz. 

Nós fomos julgados na Cruz do Senhor Jesus, e, em nós mesmos, fomos consumidos. Tudo do natural foi julgado e eliminado na Cruz do Senhor Jesus. É algo muito importante reconhecermos isto. Isto torna todas as demais coisas possíveis. Este é o porquê de eu ter falado que, se a Cruz estiver em seu devido lugar, tudo mais estará bem. A Casa estará bem; a Igreja estará bem. O ministério estará bem. A ordem estará bem. Vocês não terão que ir trabalhar para tentar restabelecer a ordem. Ela espontaneamente virá a partir da obra da Cruz.

Espero que vocês realmente estejam escrevendo isto em suas mentes. Vocês podem encontrar desordens na Casa de Deus. Podem encontrar o homem natural na Casa de Deus. Podem encontrar condições completamente erradas na Casa de Deus. E como vocês irão lidar com essas coisas todas? Vocês apenas poderão lidar com elas com a Cruz. Vocês não podem lidar com as pessoas em si; não podem lidar com as coisas em si; mas, se vocês trouxerem a Cruz para a situação, terão resolvido todo o problema. É desta maneira. Nós não começamos do exterior. Nós nunca podemos começar com as pessoas; não podemos começar com a ordem da Casa do Senhor; não podemos começar com o ministério – TEMOS QUE COMEÇAR COM A CRUZ. Se apenas as pessoas enxergarem a Cruz, tudo mais irá se encaixar. Tudo será julgado pela Cruz. 

A Carta aos Romanos é a mensagem da Cruz em sua medida plena. Nesta carta, vocês têm a grande medida da Cruz. Lá a Cruz alcança todas as coisas. Ela traz toda a raça adâmica ao seu fim, e dá início a uma nova raça em Cristo! É muito impressionante que a primeira das Cartas do Novo Testamento pudesse colocar a Cruz lá em sua medida plena. A Carta aos Romanos não foi a primeira carta escrita por Paulo, mas o Espírito Santo colocou-a em primeiro lugar no arranjo. Penso que o Espírito Santo teve algo a ver com o arranjo dos livros do Novo Testamento, e, em Seu soberano arranjo deste livro, Ele colocou o altar em sua plenitude bem no início. Bem, naturalmente, vocês precisam recordar tudo o que sabem acerca da Carta aos Romanos, para entender isto. 

Na primeira Carta aos Coríntios, a Cruz é aplicada ao homem natural e carnal dentro da Igreja. O homem natural e carnal tinha ocupado um lugar onde não tinha direito de estar. Este homem injusto havia escorregado lá para dentro, e, por isso, os apóstolos TRAZEM CRISTO CRUCIFICADO PARA O HOMEM NATURAL E CARNAL. A Cruz em I Coríntios tinha a ver com este homem, não fora da Igreja, como em Romanos, mas dentro dela. 

A segunda Carta aos Coríntios coloca a Cruz em relação ao ministério. Esta carta nos mostra que o ministério flui através de um vaso quebrado e humilhado. Apenas posso dizer estas coisas, sem entrar em sua explicação plena. 

Na Carta aos Gálatas, a Cruz é trazida para se opor àquela tentativa de transformar o cristianismo num sistema legalista, que escravizava os cristãos. Quão duro o apóstolo é nesta carta, mas vejam como ele usa a Cruz. Ele usa tremendamente a Cruz contra aquele esforço de se transformar o cristianismo num sistema legalista, que trazia os crentes novamente para a escravidão. 

Na Carta aos Efésios, a obra da Cruz é a de colocar a Igreja no terreno celestial. A Cruz em Efésios tira totalmente a Igreja do ambiente terreno. Ela põe a Igreja para fora deste mundo.

Na Carta aos Filipenses, a Cruz é aplicada contra aquilo que estava arruinando a harmonia entre o povo do Senhor. Há uma desarticulação dolorosa dentro da Igreja. Há um ponto onde as coisas estão erradas, e isto por causa do orgulho e do interesse pessoal. Algumas pessoas não querem abrir mão dos seus interesses pessoais. Outras não querem abrir mão do seu orgulho. Ficaram ofendidas e não queriam perdoar. Assim, o apóstolo aplica a Cruz naquela discórdia e desarticulação; e ele diz que, se a Cruz estivesse na vida daquelas pessoas, tudo se ajustaria. 

Carta aos Colossenses – esta carta mostra que a Cruz nos liberta de toda falsa espiritualidade. A Cruz remove tudo aquilo que é mero misticismo, e tudo aquilo que poderia tornar Cristo menor do que Ele é. 

Então, temos a Carta aos Tessalonicenses. Aqui a Cruz é a força para suportar o sofrimento – uma inspiração para a vinda do Senhor. Pode não haver muita coisa dita sobre a Cruz, efetivamente, mas o princípio dessas cartas é o princípio da Cruz. Os irmãos estavam sofrendo por causa de Cristo. Estavam sofrendo a perda de todas as coisas, e estavam pensando que o Senhor teria que vir para livrá-los, mas o Senhor estava tardando a Sua vinda. Assim, o apóstolo fala que o sofrimento deles irá provocar a vinda do Senhor e a glória. Os sofrimentos de Cristo. Eles estavam sofrendo por causa de Cristo: é comunhão na Cruz, mas os sofrimentos redundarão em glória. O Senhor virá, e, então, tudo ficará bem. A Cruz possui uma mensagem muito real para os cristãos que sofrem. E, então, concluímos com a Carta aos Hebreus. Nesta Carta, a Cruz mostra como tudo é trazido à plenitude e ao seu caráter definitivo. Tudo isto tem ligação com a Casa no seu interior. Mexe com a conduta, com o caráter, com a ordem, com o ministério. Se a Cruz está em seu devido lugar, tudo será eficaz. 

Agora, eu não apenas tenho dado a vocês algum ensino bíblico. A Cruz é a chave de tudo. Então, o que é verdade em relação ao interior, também o será em relação ao exterior. É a Cruz que afeta toda a gama de influência da Igreja. O rio vem por meio da Cruz, isto é, da influência que sai do santuário para toda a terra. É a Cruz que dá efetividade ao ministério para o mundo inteiro. Assim, os apóstolos pregaram Cristo crucificado em todos os lugares.

A Cruz É A Defesa Contra O Mundo

E, então, observamos outra coisa, o altar era a grande defesa contra o inimigo. Se vocês olharem no livro de Esdras, no capítulo 3, versículo 3, verão o seguinte: "e firmaram o altar sobre as sua bases, porque o terror estava sobre eles, por causa dos povos das terras..." Porque o medo dos povos das terras estava sobre eles, eles colocaram o altar em seu lugar. A Cruz é uma grande defesa – a Cruz nos protege contra o mundo. O mundo é o grande inimigo da Igreja. O espírito do mundo sempre tem sido o grande inimigo da Igreja. Satanás sempre tem tentado colocar o mundo dentro da Igreja, arruinando, assim, o seu ministério, a fim de destruir a influência da Igreja no mundo. É um movimento muito inteligente e sutil do inimigo, a fim de destruir a influência da Igreja no mundo, trazendo o mundo para dentro da Igreja. Mas Paulo disse: "Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na Cruz do nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gál 6:14). 

Pessoas verdadeiramente crucificadas nunca estarão em perigo com relação ao mundo. Somente quando a Cruz não realiza a sua obra é que o mundo tem o seu lugar. O mundo não tem lugar no homem crucificado, na mulher crucificada, no grupo de crentes crucificados. A Cruz é a grande defesa contra o mundo. SE VOCÊS QUEREM SE PROTEGER DO MUNDO, COLOQUEM A CRUZ EM SEU LUGAR. Se a Cruz verdadeiramente estiver em seu devido lugar, em plenitude, então tudo mais ficará em ordem. A CRUZ é a grande defesa contra o mundo. A CRUZ é a grande defesa contra os poderes do mal. A CRUZ deixa tudo seguro; deixa tudo seguro para o Senhor.

O Senhor deseja se envolver conosco. Ele quer confiar no Seu povo, mas, se a Cruz não estiver lá, em operação, Ele não poderá. Ele diz: “Não é seguro dar de Mim mesmo aqui, ou Me deixar envolver com as situações de pessoas não crucificadas". A Cruz torna tudo seguro para o Senhor, e a Cruz também torna tudo seguro para a Igreja. Se a Cruz realmente estiver em operação em todos nós, então poderemos confiar uns nos outros. É muito seguro confiar num homem ou numa mulher que realmente estão crucificados.

Concluo esta manhã enfatizando que a Cruz não é uma doutrina a ser ensinada. Não é um assunto a ser pregado. Obviamente, será ensinado e pregado. Mas, primeiramente, não é um assunto para ser ensinado. Não é apenas uma doutrina. A Cruz é poder. É experiência. É um evento em nossas vidas. É uma crise. Uma revolução. Um terremoto. E houve um terremoto quando Jesus foi crucificado. Se a Cruz entrar em nossas vidas, haverá um terremoto. Tudo será sacudido; tudo será revogado. A Cruz é um terremoto. É algo tremendo. Não é apenas teoria, doutrina: A CRUZ GOVERNA TUDO. Bem, esta é a nossa mensagem sobre a centralidade e universalidade da Cruz. 

O Senhor conceda que sejamos homens e mulheres crucificados. As congregações a que pertencemos – possam ser congregações crucificadas. O Senhor conceda que a Sua Igreja possa entender e ver o significado da Cruz.

Capítulo 12 – Um Rio Que Não Podia Ser Atravessado: A Plenitude do Espírito

Estamos chegando ao final do nosso tempo juntos, e isto significa que há muita coisa em Ezequiel que não seremos capazes de considerar aqui. Assim, nesta manhã, sugiro que demos atenção ao capítulo 47. Este é o capítulo do rio. Penso que este capítulo é bem conhecido de vocês, de modo que não teremos que lê-lo novamente. Contudo, precisamos ler o segundo capítulo do livro de Atos, pois sinto que Ezequiel 47 e Atos capítulo 2 caminham juntos. O segundo capítulo de Atos é o cumprimento daquilo que temos aqui neste capítulo em Ezequiel. Mas há uma passagem da Escritura entre esses dois capítulos, que está no Evangelho de João. Vamos ler João capítulo 7: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. E isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado”. (versos 37-39). 

Uma interpretação rigorosa exige que observemos um ponto, pois isto a que o Senhor Jesus estava se referindo em João sete: “no último dia, o grande dia da festa", não foi estritamente o que temos aqui em Ezequiel 47, mas se refere à Festa dos Tabernáculos, e isto nos leva para muito antes de Ezequiel; leva-nos para a vida de Israel nos tempos antigos. Vocês se lembrarão de que a Festa dos Tabernáculos era a comemoração da saída de Israel do Egito e dos tempos em que viviam em tendas no deserto. Não precisamos nos ater aos detalhes da festa, pois este não é o nosso objetivo, mas era a isto que Jesus estava se referindo. 

Ezequiel 47 não é uma celebração da Festa dos Tabernáculos, mas há algumas características comuns que estão em Ezequiel 47, em João 7 e em Atos 2. Sabemos que, quando Jesus falou estas palavras, Ele estava no templo em Jerusalém. Era no templo que a Festa dos Tabernáculos estava sendo comemorada, e nesse tempo, o sacerdote desceu ao tanque de Betesda e pegou água, e derramou-a na entrada do templo. Jesus usou isso e aplicou a Ele mesmo.

A Fonte Do Rio É O Homem Escondido No Santuário

A característica comum nesses três lugares – Ezequiel, João e Atos – é esta: as águas estão fluindo da Casa. E, então, há outra característica em comum nesses três lugares: na Casa, como vimos, tudo se refere ao Homem Glorificado no Trono. O Homem Glorificado governa tudo. Agora, aqui em João 7, João faz o seguinte comentário: "Isto Ele falou do Espírito, O qual aqueles que criam nEle haveriam de receber; pois o Espírito ainda não havia sido dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado". Assim, isto apontou para o futuro: quando Jesus fosse glorificado. Sem qualquer dúvida, isto já se cumpriu no Dia de Pentecoste. Jesus foi Glorificado e as águas fluíram da Casa. Nós realmente temos algumas características em comum nesses livros. 

Vamos ver alguns detalhes de Ezequiel 47, e, para começar, precisamos observar que toda esta situação é uma situação que estabelece uma condição para a nossa dispensação. Como sabemos, muitos acreditam que tudo isto aqui em Ezequiel se refere ao milênio. Bem, a situação neste capítulo não é uma situação de milênio. Nem corresponde isto plenamente ao final do livro de Apocalipse. É verdade que em Apocalipse temos o rio fluindo do Trono de Deus e do Cordeiro, e há muitas características lá exatamente como estas aqui em Ezequiel. Contudo, o que temos aqui em Ezequiel não é nem o Milênio, nem a Era Vindoura, mas sim uma referência à nossa dispensação. Em Ezequiel há uma situação de necessidade; é um cenário de morte e de doença. Estas águas vencem a morte, e as folhas das árvores são para a cura das doenças; é um cenário de grande necessidade. No milênio a morte ficará suspensa por um tempo, e, no final do livro do Apocalipse, a morte já não existe mais. Aqui em Ezequiel a morte ainda tem que ser enfrentada e vencida. Aqui ainda existe uma condição de falta de saúde que precisa ser tratada. É importante perceber que este capítulo de Ezequiel se aplica à nossa dispensação. 

Vamos anotar alguns detalhes. Primeiro, a fonte do rio. A fonte do rio está escondida em algum lugar no limiar da Casa. A Palavra diz que as águas brotavam do limiar da Casa. Talvez possamos concluir que as águas brotavam do limiar e escorriam pela lateral da Casa, porque é dito que elas desciam na direção do oriente. Este parece ter sido o movimento. Vamos voltar a isso em um minuto. Para o momento, as águas brotavam de algum lugar secreto por debaixo do umbral da Casa. 

O Senhor disse que o Santuário era o lugar do Seu Trono e o lugar de Sua Glória, e o lugar onde o Senhor habita. Acho que podemos concluir que as águas vinham daí. Naturalmente, tudo isto é um tipo, um símbolo. Não é falado exatamente do lugar de onde essas águas brotavam, mas é dito que saíam “por debaixo do umbral”. Acho que podemos concluir que elas saíam do lugar do Trono da Glória, e este é um lugar escondido na presença de Deus, pois sabemos que Deus está escondido no Santuário. 

O Homem no céu está escondido no Santuário. Ele é o Mistério Celestial. Ele está no Trono. Está Glorificado; e, então, o Espírito brota dEle como naquela posição e condição. Nós nos lembramos de que Jesus disse que “depois Ele não se manifestaria ao mundo, mas sim às testemunhas que Ele havia escolhido." Após a Sua ressurreição, Jesus não se manifestou pessoalmente ao mundo. Para o mundo, Jesus não existia mais. O mundo não tem conhecimento de Sua existência pessoal. Ele é um mistério para o mundo, uma irrealidade, isto porque Ele se ocultou do mundo. Ele está escondido no céu. Mas há uma manifestação de Si mesmo, e esta manifestação é no Espírito de Vida que vem do Santuário. Cristo não apenas está pessoalmente no céu; Ele está entronizado na Igreja Celestial. 

Para o mundo, nesta dispensação, Jesus ainda é um mistério. A Igreja não é compreendida, mas este é o mistério: "Cristo em vós, a esperança da glória”. E talvez vocês, estudantes da Bíblia, saibam que a tradução literal é: "Cristo está no meio de vós, Ele é a esperança da glória”. Naturalmente, Cristo está em nós pessoalmente e individualmente, mas a palavra em Colossenses é “Cristo no meio de vós” – a Igreja é o contexto dessas palavras. O grande mistério entre as nações é Cristo no meio da Igreja. Esta é a esperança da glória. Paulo disse: "a Ele seja a glória na Igreja por meio de Cristo Jesus". O mundo somente pode conhecer o mistério por meio da Vida que flui da Igreja. 

É isto o que aconteceu no Dia de Pentecoste. Por meio do rio (o Espírito), que saiu da Igreja, o mundo ficou sabendo que Jesus está vivo; Cristo é o único Caminho no qual o mistério é conhecido. As águas saem do Santuário. É o que diz Ezequiel 47:12: "porque as águas saíam do santuário”. No Santuário, elas são um mistério. O mistério é tornado conhecido quando as águas saem da Casa. Tudo isso também é verdade no Novo Testamento.

O Rio (O Espírito Santo) Torna Todas As Coisas Novas

Assim, vemos que o primeiro detalhe da Casa é a Fonte do rio, e, então, a segunda, é que as águas fluem para o oriente. É dito lá que o templo ficava voltado para o oriente. Assim, as águas se moviam do sul para o leste. Isto é algo interessante! Por que a Casa foi construída com o seu portão voltado para o oriente? Por que tudo se voltava para o leste? E por que essas águas se moviam para o leste? O leste é sempre o símbolo do novo dia. O sol nasce no leste, o dia mundial começa no leste. Portanto, o leste é o símbolo de um novo dia, e é muito claro que este Rio significava um novo dia para todas as coisas, e para todas as pessoas: é a este novo dia do Espírito que o Senhor Jesus se referiu. "Mas a hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito”. Quando Jesus falou sobre a vinda do Espírito, Ele disse: “naquele dia”. Quão frequentemente Ele usava essas palavras, “NAQUELE DIA”, isto é, no dia do Espírito; a nova dispensação – a dispensação do Espírito Santo. 

É nesta dispensação que Deus está oferecendo um novo dia para as pessoas. Obviamente, é um novo dia em muitos aspectos. Todas as coisas velhas das gerações passadas se passaram – as coisas velhas de tipos e símbolos, de formas, de cerimônias. As coisas velhas se passaram: “eis que tudo se fez novo”, e este é o rio que torna todas as coisas novas. É o dia do Espírito Santo. Assim, o rio flui para o leste, e o Espírito traz um Novo Dia. 

Então, a próxima coisa. "Por onde quer que o Rio passe, tudo ganha vida": “E saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos artelhos. E mediu mais mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; e outra vez mediu mil, e me fez passar pelas águas que me davam pelos lombos. E mediu mais mil, e era um rio, que eu não podia atravessar, porque as águas eram profundas, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar.(versos 3-5; ASV). 

Este Homem de bronze mediu “mil côvados quatro vezes”. Mediu mil, e as águas deram pelos artelhos. Outro mil, e elas deram pelos joelhos. Outro mil, e elas deram pelos lombos; mediu mais mil, e havia um rio no qual se podia nadar; um rio que não se podia atravessar a pé. Bem, eu penso que o simbolismo é muito simples. Isto estabelece a plenitude progressiva do Espírito, ou a plenitude progressiva de Cristo. No início há uma imensa potencialidade intrínseca. Pode ser algo pequeno em Jerusalém, pequeno em seu começo, mas esta é apenas uma questão de comparação. Obviamente, foi algo muito grande que aconteceu no Dia de Pentecoste em Jerusalém, mas, comparado ao que viria posteriormente, aquilo não passou de algo pequeno. O começo é pequeno, em comparação com toda a Judéia e Samaria, e os confins da terra. Mas neste pequeno, existe toda a potencialidade para enfrentar o mundo. O objetivo deste rio aumenta. Fica cada vez maior, mais largo, mas o que há aqui nas águas é suficiente para satisfazer todas as necessidades, não importa quão grande possam ser. O Espírito de Jesus é suficiente para tudo. É isto o que está dito, este é o seu significado. Há suficiência em Cristo ministrado pelo Espírito para suprir as maiores necessidades. Não existe necessidade, por maior que seja, que não possa ser suprida por este rio. Não importa por onde o rio passe: `tudo ganha vida´. Se vocês estudarem Ezequiel 47:7, irão ver que não há situação para a qual estas águas não sejam iguais. Contudo, devemos fazer uma ressalva nesta declaração. É dito mais adiante, no capítulo, que os seus charcos e pântanos não se tornam saudáveis; são deixados para sal. (47:11) 

Existe algo que resiste ao Espírito Santo. Judas não chegou a gozar do benefício no dia do Espírito; e realmente existe, no Novo Testamento, esta possibilidade de se pecar contra o Espírito Santo. Onde isto é cometido de forma deliberada e persistente, então não há mais Vida: apenas morte. Mas, desde que não haja essa recusa deliberada e consciente ao Espírito, Ele agirá igual em todas as situações. Quão grande é o Espírito. Ele é completamente incompreensível! 

O profeta disse que havia um rio cujas águas não se podiam atravessar. Isto é algo com o qual é impossível de se lidar. Quão verdadeiro isto é em Atos 2. A vinda do Espírito está ligada a um poderoso e impetuoso vento. O Espírito desceu desta maneira no Dia de Pentecoste. É algo que não pode ser manuseado pelo homem. Vocês não podem limitar o Espírito Santo dentro da esfera da capacidade de vocês. Ezequiel disse: “um rio que não se podia atravessar". É algo muito grande para o homem. Oh, que possamos conhecer o Espírito desta maneira! Em princípio, é isto o que o Espírito faz. Ele se recusa a ser amarrado por nossos sistemas humanos, por nossas medidas humanas. Ele se recusa a ficar limitado ao homem natural. Ele se recusa a ficar limitado por nossas tradições e preconceitos. É isto o que encontramos no livro de Atos. O Espírito Santo é demais para ficar restrito às pessoas em Jerusalém. Ele é muito para Pedro, e para todos os preconceitos de Pedro. Ele é muito para Herodes, o rei. Ele é muito para qualquer coisa que se atravesse em Seu caminho – é um Rio que ninguém pode controlar. 

Agora, para que o Espírito se manifeste desta maneira, duas coisas são necessárias, e isto é um princípio muito verdadeiro. Somente haverá a plenitude e o poder do Espírito se estas duas coisas realmente existirem. A primeira coisa é a absoluta autoridade do Trono, isto é, a absoluta autoridade do Homem que está no Trono. Temos dito repetidamente que o Homem do Trono governa tudo. Tudo no livro está sujeito a Ele. No livro de Atos, vemos o Homem do Trono governando todas as coisas – É a soberania absoluta de Jesus Cristo. 

Agora, Deus não dará o Seu Espírito em plenitude e poder para algo que não corresponda ao Seu Propósito. Assim, isto é essencial: o Homem governando a Casa. Portanto, o que esta crescente medida diz a nós é o seguinte: O Senhor jamais deseja deixar o Seu povo só pelos artelhos no Espírito. Não é vontade do Senhor que tenhamos o Espírito e Vida somente pelos artelhos, nem pelos joelhos, e nem pelos lombos. O desejo do Senhor é plenitude; águas para se nadar nelas; águas que sejam demais para nós. 

Naturalmente, esta é uma situação um tanto que terrível. Acho que vocês conseguem detectar em Ezequiel que o profeta estava um pouco assustado. Para ele, esta foi uma situação terrível, e, quando a situação fica desta maneira, realmente é terrível. – Nós queremos conservar os nossos pés em terra firme. – Não queremos ser varridos para fora dos nossos pés; a Igreja quer ter seus pés na terra, quer ficar segura no chão. Vocês sabem o que isto significa espiritualmente, mas a vontade do Senhor é nos tirar dos nossos pés, para que sejamos levados para profundezas onde não tenhamos medida. Vamos pensar sobre isto. Há duas pequenas palavras aqui: “um rio que NÃO DAVA para atravessar”. Aqui está o grande “não dava” do Espírito. Este “não dava” se sobrepõe a toda capacidade humana.

Ele Me Fazia Ir

A segunda coisa necessária para a plenitude é representada pelas margens e pelas árvores. As margens do rio são mencionadas. Este é um rio que flui entre as margens. Não é uma inundação que se espalha por todos os lugares. É um rio que corre entre as margens. Vocês sabem que o Espírito Santo possui um caminho, um caminho a qual Ele segue; Ele possui o Seu Próprio Propósito quanto a que caminho seguir. Se o Espírito disser: “vou por este caminho”, não adianta falarmos que vamos tomar outro.  Vocês têm muito disso no livro de Atos.  Paulo disse que pretendia pregar a Palavra em Bitínia, indo depois para a Ásia, porém teve que dizer: "O Espírito de Jesus não nos permitiu", e entenderam que daquela vez o Espírito estava indo para a Macedônia. Se Paulo tivesse ido para a Bitínia, ou Ásia, teria se separado do Espírito. O Espírito estava dizendo: “desta vez Eu vou por este caminho. Se você quiser ficar comigo, deverá seguir o Meu caminho”. E isto também aconteceu a Pedro. O Espírito estava se movendo na direção dos gentios, mas Pedro queria seguir o seu próprio caminho. O Espírito disse, em efeito: “Se você quiser estar comigo, deve seguir o Meu caminho. Eu não vou pelo seu caminho. Eu não vou pelo caminho da sua tradição, do seu preconceito. Este é o caminho que estou tomando hoje”. E, quando Pedro foi pelo caminho do Espírito, ele descobriu o Espírito numa plenitude maior do que havia conhecido antes. 

Acho que vocês compreendem o princípio. As margens representam um caminho claramente definido por onde o Espírito passa. Ele pode mudar de direção de tempos em tempos. O Rio pode não seguir numa linha reta, mas irá sempre fluir entre as margens. O Espírito sempre sabe exatamente aquilo que está fazendo e o que Ele procura. Quão importante é para nós estarmos entre as margens com o Espírito! 

E, então, temos as árvores de cada lado do rio. Naturalmente, essas árvores, no Novo Testamento, são testemunhas vivas. Sugiro uma passagem que pode colocar isto melhor, em Efésios 4: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”. (versos 11-13) 

Aqui estão testemunhas vivas às margens do rio. Aqui estão elas ao longo das margens do Novo Testamento, e Deus tem tido as Suas árvores em todos os séculos. São as testemunhas vivas que dão testemunho da plenitude da vida de Cristo, que apontam para a plenitude espiritual, para a plenitude de Cristo. 

Há uma coisa muito interessante para se observar aqui no versículo 9 de Ezequiel 47: ”E será que toda a criatura vivente que passar por onde quer que entrarem esses rios viverá; e haverá muitíssimo peixe, porque lá chegarão estas águas, e serão saudáveis, e viverá tudo por onde quer que entrar este rio”. 

Eu não sei se vocês possuem uma marca em suas bíblias chinesas nesta palavra, mas no hebraico está escrito: “por onde quer que entrarem esses dois rios". Está no plural, no hebraico, e a minha Bíblia contém uma referência na margem, que diz: "por onde quer que entrarem esses dois rios". Isto está no hebraico. 

Agora, isto parece desconsertar tudo, não é verdade? Mas eu penso, novamente, que isto é um símbolo. Talvez esse rio realmente se dividisse em dois, mas “dois” na Bíblia é o número adequado para testemunho. Sempre que vocês encontrarem o número dois, vocês têm aí um testemunho suficiente. - "Pela boca de duas testemunhas toda palavra será estabelecida... Se dois de vós concordarem… ele enviou de dois em dois”. Dois é o número do testemunho suficiente. Assim, o que temos aqui pelo Espírito é um testemunho suficiente em Suas testemunhas. Assim, o efeito de tudo isso é Vida. Naturalmente, gostaria de falar mais a respeito disto, mas devemos parar por aqui. A PROVA de tudo é a Vida. A PROVA de que Jesus é o Senhor é encontrada na Vida. A PROVA de que a Casa está em ordem está na Vida. A PROVA de que o Espírito está tendo o Seu caminho é a Vida. A Vida é o testemunho. Assim, o testemunho é este: que Deus nos deu Vida eterna. 

E assim terminamos por hoje. Ezequiel recebeu ordem para revelar tudo isso à Casa de Israel. A fim de mostrar tudo isso às pessoas, o profeta precisou ele mesmo andar por este caminho. Observem o que ele disse: “O Espírito me fez ir". Vocês e eu precisamos andar por este caminho antes de mostrá-lo a outras pessoas. Esta não é uma verdade apenas objetiva que deva ser ensinada, mas é a própria experiência do servo do Senhor.

Capítulo 13 - "O Senhor Está Aqui"

Nesta manhã, teremos que dar uma conclusão aos nossos estudos de Ezequiel, e acho que não poderíamos fazer melhor do que irmos direto para o final do livro em si. A última frase do livro fala o seguinte: "e o nome da cidade desde aquele dia será: O Senhor está ali".  Precisamos traçar um paralelo disso com algumas palavras de Efésios, capítulo 2, versos 19 a 22: "Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito”.

E o nome da cidade será: o Senhor está ali. 

E, novamente, em Efésios, capítulo, 3, versículos 19 a 21: “Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém”. 

E o nome da cidade será: o Senhor está ali. 

Este é o desfecho para a qual toda a obra de Deus se direciona. Tudo o que temos nestas profecias de Ezequiel aponta para UM FINAL, "O Senhor está ali", mas isto também é verdadeiro em relação à Bíblia como um todo. Toda Bíblia se move para um final. É o propósito para o qual todas as coisas foram criadas, e este propósito é a presença de Deus em plenitude e finalidade. O propósito de Deus é que Ele preencha todas as coisas. Assim, o desfecho final é: “O Senhor está ali”. 

Há uma coisa em particular que se faz necessária para que este propósito seja alcançado. Deus precisa se envolver com o homem. E isso foi o que Ele queria fazer lá no princípio. Está muito claro em Gênesis que Deus queria se envolver com o homem. Queria estar com ele. Queria confiar no homem. Queria colocar todos os Seus ideais nas mãos do homem; em síntese: Deus queria confiar a Si próprio ao homem. 

Assim, a grande questão que agora está diante de nós é: “com que tipo de Homem Deus queria se envolver?" Todo o livro de Ezequiel é a resposta para esta questão. Em primeiro lugar, a resposta é dada de forma negativa. Deus não irá se envolver com nada que Satanás já esteja envolvido. Desde o princípio, Satanás sempre tentou fazer o homem se atravessar no caminho de Deus. Satanás havia conquistado um lugar na nação de Israel e também nas demais nações, e o homem foi criado justamente para o propósito de que Deus pudesse estar com Ele. Porém, Satanás capturou o homem e fez dele um grande obstáculo para Deus; por isso, a glória foi removida. O homem, da forma como ele se encontra hoje, é um verdadeiro obstáculo para o propósito de Deus. Deus não pode se envolver com esse tipo de homem. Deus não irá se envolver com aquilo que Satanás já está envolvido. Satanás e suas obras tinham que ser destruídas, para que Deus pudesse se envolver com o homem. O Filho de Deus foi manifestado para destruir as obras do Diabo, para que Deus tivesse o Seu caminho e pudesse alcançar o Seu propósito. Deus não irá se envolver com aquilo que ainda não tenha sido julgado em justiça. 

Vocês irão se lembrar de tudo o que falamos a respeito do bronze naquelas profecias: o bronze no querubim, o bronze no Homem, o bronze no grande altar. Deus não irá se deixar envolver com nada que não tenha sido julgado em justiça. Este é o lado negativo, mas há o lado positivo da questão. – Com quem Deus irá se envolver? A resposta positiva possui vários aspectos. Primeiro, Deus irá se envolver somente com aquilo que está do outro lado do julgamento. O Homem do Trono representa Cristo do outro lado do julgamento. Lá está o arco-celeste ao redor do Trono. Este arco-celeste é o símbolo da redenção. No livro do Apocalipse, o arco é representado pelo Cordeiro no Trono. O Cordeiro é o Homem, e o Homem é o Cordeiro. Ele está lá do outro lado do julgamento, e esta é a primeira coisa relacionada ao envolvimento do próprio Deus. Digo novamente, Deus irá se envolver onde Cristo está, do outro lado do julgamento – isto é, onde todos os juízos foram efetuados. 

Agora, vocês precisam estudar isto com o Novo Testamento em mãos. Quando Jesus foi para o batismo, Ele disse a João Batista: “Deixai por ora, para que se cumpra toda a justiça". Seu batismo era um tipo da Cruz. Portanto, Seu batismo e a Sua Cruz representam o cumprimento de toda justiça – isto é, através da morte de um homem, o Novo Homem foi colocado para fora do alcance do julgamento. É aí que nos encontramos pela fé em Cristo Jesus. É aí que a Igreja está. No começo da carta aos Efésios, a Igreja está assentada juntamente com Cristo nos lugares celestiais. A Igreja é vista do outro lado do julgamento porque ela foi ressuscitada juntamente com Cristo. Em relação à Igreja, todos os julgamentos estão cumpridos. Esta é a primeira coisa que abre caminho para a glória na Igreja. Todos os julgamentos cumpridos; isto abre caminho para que Deus possa Se envolver conosco. 

Outro aspecto do envolvimento de Deus: é onde Cristo estiver glorificado. Deus irá se envolver onde Cristo estiver glorificado. Esta é uma lei de Deus. Para Deus dar de Si mesmo, por meio de Seu Espírito, Jesus precisa ser glorificado. Quando a glorificação do Senhor Jesus for o nosso único objetivo, então o Pai irá vir por meio do Seu Espírito.   

Então, o terceiro aspecto. Deus irá se envolver onde Jesus estiver entronizado. Quando o Seu Homem estiver do Trono, governando, então Deus irá se envolver. Onde toda a autoridade conferida ao Seu Filho for reconhecida e aceita, então Deus irá se envolver. 

Temos uma quarta coisa. Deus se envolve onde as coisas estiverem “de acordo com Cristo”, onde as coisas tomam as suas medidas a partir de Cristo. Essas coisas estão neste livro de Ezequiel. Nós apenas temos olhado para a Casa. Não a estudamos em todos os seus detalhes, mas o que realmente sabemos a respeito da Casa é que ela foi medida pelo Homem de bronze. Onde as coisas tomam as suas medidas a partir de Cristo, lá Deus irá se envolver. 

E, então, apenas mais uma coisa: Deus irá se envolver onde a Cruz governar. Vimos como o altar governava todas as coisas dentro e fora da Casa. Assim, onde a Cruz governar, aí Deus irá se envolver. O Senhor Jesus é o grande exemplo disso tudo. Deus se envolveu com o Seu Filho. A Palavra diz que Deus não deu Seu Espírito por medida a Jesus; isto é, deu Seu Espírito em plenitude, sem qualquer reserva. Quando o significado da Cruz é estabelecido, então Deus se envolve. Este é o Seu terreno. 

Observem como Jesus media todas as coisas segundo o céu. Temos frequentemente salientado isto. Jesus jamais seria governado pela mente humana – Jamais faria qualquer coisa, diria qualquer coisa, ou iria a algum lugar seguindo um conselho humano. O tempo todo Ele estava repelindo as sugestões dos homens e das mulheres.  Ele também fez isto em relação a Satanás; Jesus agia desta maneira em relação a qualquer coisa. Ele rejeitava tudo que viesse do homem. Ele somente tomava Seu caminho, Suas palavras e Suas obras do Pai. Ele media todas as coisas conforme o céu. Ele caminhava em sintonia com o céu. Para cada detalhe de Sua vida, Ele se sujeitava ao governo do céu. Por isso, o Pai Se envolvia com Ele como sendo o Filho do Homem.

E, então, temos a Sua perfeição. Ele disse: “Eu trabalho hoje e amanhã, e, no terceiro dia, serei consumado”. Está dito que Jesus seria aperfeiçoado por meio dos sofrimentos. Naturalmente, entendemos que não se trata de perfeição moral, pois Jesus já era perfeito. Não se trata de aperfeiçoar a natureza de Jesus, mas sim de trazê-Lo à plenitude da vontade de Deus. Jesus caminhava todos os dias na vontade de Deus. Ele disse: “Eu vim para fazer a Tua vontade”. Mas a vontade de Deus estava exigindo cada vez mais dele, até que, finalmente, exigiu que bebesse o cálice, e que fosse do Getsêmani para a Cruz. Ele estava sendo aperfeiçoado quanto à vontade de Deus; e, quando Ele foi tornado perfeito, Deus deu a Ele a plenitude para a Igreja. "Deus Lhe deu um nome que está acima de todo nome”. Deus confiou a Sua própria plenitude a Jesus. Acho que tudo está muito claro. Jesus é o Grande Exemplo! 

Agora trazemos o estudo para a sua conclusão final. Fazemos isso observando três necessidades, para que o propósito de Deus seja plenamente e finalmente alcançado. A Igreja precisa de três coisas. Primeiro, precisa ter uma compreensão clara do propósito de Deus. É absolutamente necessário que a Igreja entenda qual é o propósito de Deus. Este é o porquê de Paulo ter orado por “espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento dEle”; ter orado para que a Igreja pudesse ter “os olhos do seu coração iluminados”. É absolutamente necessário que tenhamos um claro entendimento do propósito de Deus; propósito de tornar a Igreja a plenitude daquele que cumpre tudo em todos; propósito de que Deus tivesse lugar pleno na Igreja. Esta é a primeira necessidade – a de que possamos compreender isto, e sermos governados por esta visão. Assim, trata-se de uma questão de visão espiritual, ou compreensão espiritual, uma revelação do propósito de Deus concernente à Igreja. Este é o porquê de lermos aquelas textos das Escrituras no início: que a Igreja fosse a “habitação de Deus por meio do Espírito”, que Deus pudesse habitar nela, de modo que pudesse ser dito: “O Senhor está ali”, uma habitação de Deus. Diante disto, precisamos entender qual é o propósito de Deus.  

Segundo, a igreja precisa de uma compreensão clara acerca do Caminho de Deus, a fim de alcançar o Seu propósito; compreensão clara acerca de Sua Casa: uma Casa apropriada a Si mesmo. Esta é uma absoluta necessidade para o propósito de Deus. Terceiro, é essencial que a Igreja tenha uma clara compreensão da Cruz. Essas três coisas são essenciais para que Deus possa estar na Casa!  

E, ainda, há dois aspectos dessas três coisas: há o presente progressivo e o futuro perfeito. No momento presente, isto não é totalmente verdade, embora aquilo que está em Efésios possua uma aplicação presente. No presente, isto é verdade apenas progressivamente. Significa que o Senhor estará presente quando essas coisas forem verdade. Onde houver uma clara compreensão de Seu propósito, onde houver uma clara compreensão de Sua Casa, onde houver uma clara compreensão da Cruz, lá vocês encontrarão o Senhor! No presente, essas coisas determinam à medida que o Senhor está presente, mas o tempo está chegando quando essas coisas estarão completas, quando Ele virá para ser glorificado em Seus santos. Então, Ele será manifestado na Sua Igreja em plenitude. E, assim, vocês observam que, no final de Ezequiel, é a cidade que é mencionada: “O Senhor está ali”. A cidade representa o vaso através do qual Deus está presente em governo. 

Bem, demos um amplo esboço. Tentamos deixar estas linhas tão claras quanto possíveis, mas, dentro deste esboço, há um conteúdo enorme; e, ao passar isto para vocês, digo: “orem sobre o assunto; não recebam isto apenas como um estudo bíblico. Tudo precisa ter valor real e prático. Assim, irmãos, orem e peçam ao Senhor para tornar tudo isto real onde vocês estão".

F I M

 

Devo contribuir?
Ao receber o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, uma das primeiras coisas que você irá aprender é que Deus é amor. Como resultado disto, você logo perceberá que o amor precisa de uma forma prática para se expressar. Você aprenderá que há uma relação entre amar e dar. Deus é um Deus que nos dá muitas coisas. Amar e dar estão intimamente ligados nas Escrituras. “O Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20), e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16). Continuar Lendo...
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