O FALAR EM LÍNGUAS

No dia de Pentecostes, os discípulos ficaram cheios do Espírito Santo, e Ele os capacitou a falar em outras línguas - línguas que nunca haviam aprendido. Podemos supor que todos os 120 cristãos que ali estavam reunidos (Atos 1:15) receberam esse poder. Deus, por Sua graça, agora Se propunha transpor a limitação - a confusão das línguas - que outrora havia imposto ao ser humano para conter o orgulho dele (Gênesis 11: 1 9). Ele não removeu as barreiras lingüísticas - elas continuam até hoje -, mas saltou por sobre elas. Assim, capacitou os Seus servos a falar os mais diferentes idiomas: sinal de que a Sua mensagem deveria alcançar todos os povos e línguas da terra. Em certo sentido, este Christian Briem sinal- o falarem outras línguas - que estava acompanhando a descida do Espírito Santo, foia manifestação audível daquelas "línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles" (Atos2:3).
Antes de nos ocuparmos do caráter essencial do falar em outras línguas, resumiremos o que encontramos na primeira parte de Atos 2 (v. 1-4).
 
Três coisas são apresentadas nesses versículos com referência à descida do Espírito Santo:
 
1- a ocasião -> o dia de Pentecostes;
2- o modo, ou seja, os sinais que acompanhavam o fenômeno -> o som do vento e as línguas como que de fogo;
3- o resultado de Sua descida -> o falar em línguas.
 
Lucas foio único escritor no Novo Testamento incumbido por Deus de relatar o que aconteceu na noite em que o Senhor Jesus nasceu etambém o único a nos comunicar o que se desenrolou na manhã em que o Espírito Santo foi derramado. Oque elenos relata é de fundamental interesse e do mais sublime valor. Somos gratos a Deus por essa narrativa, que Ele fez chegar até nós por meio do "médico amado" (Colossenses4:14).
 
SOBRE O FALAR EM LÍNGUAS
Atos 2: 5-13
 
A segunda parte de Atos 2 compõe-se dos versículosde 5 a 13. Nessa passagem, são-nos apresentados os resultados imediatosda presençadoEspírito Santo,quegiramemtomodofato de que os discípulospassaram a falar em outras línguas. Contudo, resolviatribuirao texto o subtítuloacima, considerando que, para ter uma visão mais ampla do assunto, seriabom não ficarrestrito a esse trecho.
 
 
O MOVIMENTO CARISMÁTICO
 
Muita coisa já se falou e escreveusobreodom de falarem outraslínguas-ousimplesmente "falarem línguas":coisas boas e ruins, corretas e erradas. Porisso há no meioda Cristandademuita faltade clarezasobre o assunto, e poressemotivo,ameuver, várias doutrinas e práticas que não são saudáveis acabaram se espalhando.
Visto que o falar em línguas, conforme apresentado na Sagrada Escritura, obviamente é um milagre divino e que os de fora facilmente são impressionadas por ele, desde sempre o assunto exerceu forte atração sobre os mais religiosos e sentimentais, cuja tendência natural é buscar o espetacular e o psíquico. Essa a razão por que muitos têm reiterado,
inclusive verdadeiros filhos de Deus, que essas manifestações que ocorreram no início do cristianismo ainda hoje constituem a vontade de Deus para conosco. Afirma-se que, se os cristãos fossem mais cheios do Espírito, ainda falariam em outras línguas. E assim, o falar em línguas é tido como a mais elevada expressão de espiritualidade em muitos círculos cristãos. Faltando o dom de línguas, segundo a opinião deles, estará faltando também uma parte essencial do verdadeiro cristianismo. Não é possível nem necessário examinar e explicar em seus pormenores as diversas doutrinas e práticas associadas ao falar em línguas que adentraram a Cristandade. O meu anseio maior é apresentar o que a Palavra de Deus diza esse respeito e deixar que o leitor mesmo tire as suas conclusões sobre as práticas com que depara na cristandade.
Não erramos, porém,' em identificar desde já as diferentes acepções existentes: Há entre os filhos de Deus alguns que, baseados nas Escrituras, rejeitam o falar em línguas em nossos dias, e outros que, fazendo uso da mesma Bíblia, não somente apóiam e praticam "novos batismos com o Espírito" e "curas", como também advogam o falar em línguas sob diversas formas.
O movimento carismático (do grego charisma, "um dom da graça") está ganhando cada vez mais terreno. Seria ele uma bênção ou um perigo? Estará conduzindo à verdade ou ao erro? Bem, sabemos que as ditas experiências de novos batismos com o Espíritosão contrárias às Escrituras. (Nota do Tradutor: O batismo com o Espírito Santo foium evento único. Aconteceu quando o Espírito Santo veio à terra no dia de Pentecostes para formar a Igreja (Atos 2)) .Mas, e quanto ao falar em línguas?
Há verdadeiros filhos de Deus que, envolvidos no movimento carismático,alegam possuir o dom de línguas. Nas reumoes de suasdenominações, falam "em línguas" - não raro váriaspessoas ao mesmo tempo.
Na maioria dos casos, não há intérprete. Até onde é possível constatar, as "línguas" muitas vezes são apenas gritos, ainda que referidascomo "línguasdos anjos". Quando se dão ao trabalho de colocar intérprete, a tradução não pode ser comprovada, e o conteúdo em geral é paupérrimo. Verifica-se que, muitas vezes, são mulheres que exercem com veemência esse "dom espiritual" - para edificação,como se diz.Outros, porém, associam o falar em línguas com a pregação do evangelho, com experiências profundas, com sublimes sentimentos de alegria, com o fortalecimento interior e com a auto-ediíicaçâo. Eles falam de êxtase, de arrebatamento ao terceiro céu e até mesmo de expulsão de demônios ou exorcismo.
 
O NOSSO PROPÓSITO
 
Com isso, estabelecemos o pano de fundo no qual iremos desenvolver nosso assunto. Mas não é nosso objetivo analisar esse contexto, e sim esclarecer a verdade. Se abrirmos o nosso coração, a verdade, por si, irá separar o bom do mau, o certo do errado, e assim poderemos reconhecer se o que ouvimos é realmente a voz do bom Pastor ou a de um estranho.
Aliás, esta é uma tarefa da qual o Senhor não nos poderá livrar nestes dias tão maus: provar se os espíritos são de Deus ou não (1 João 4: 1).
Vamos, pois, com base no texto diante nós e em outras passagens da Palavra de Deus, verificar essencialmente três questões importantes que dizem respeito ao falar em outras línguas e ver o que a Sagrada Escritura nos dizsobre o assunto: 
 
1- Qual a natureza das "outras línguas"?
2- Qual era a finalidade dessas línguas?
3- Podemos ainda hoje contar com esse milagre?
 
O que diz a Escritura sobre a continuidade das línguas?
 
A resposta a essas perguntas sem dúvida exercerá influência sobre a nossa maneirade pensar.
 
E é fundamental estarmos cientes de que não podemos nos desviar da verdade, ou de parte dela, sem que a nossa alma sofra algum dano.
Ao todo, três escritores do Novo Testamento, e apenas estes, discorrem sobreo assunto: Marcos, Lucas e Paulo. Masnão será a exposição isolada de qualquer um desses escritores que nos dará a resposta às questões acima. Porém, podemos esperar que,conforme o estágio histórico da época a que se refere o escritor, mais luz seja lançada sobre o assunto. E de fato é assim. Marcos se refere ao falar em línguascomo uma promessa do Senhor ressurreto. Lucas relata historicamente três ocorrências que correspondem ao cumprimento das palavras do Senhor. Eo apóstolo Paulo, sob a inspiração do mesmo Espírito que influenciouMarcos e Lucas, apresenta-nos importantes princípios da verdade, os quais são esclarecedores quanto ao uso - e ao abuso - do dom de línguas.
 
O TESTEMUNHO DE MARCOS
 
No final de seu evangelho, Marcos relata a tarefa que o Senhor ressurreto legou aos Seus discípulos, os apóstolos. Eles deveriam ir ao mundo inteiro e pregar o Evangelho a toda criatura. Quem cresse e fossebatizado, seriasalvo;quem não cresse, seria condenado (16: 15-16). Erauma obra muito mais abrangente que a missão que o Senhor Ihes havia confiado nos dias em que aqui viveu (3:14-15). Estariam eles à altura de tal tarefa, considerando que agora estariam privados da presença física de seu Senhor e Mestre, ao Qual sempre podiam recor rer em todas as dificuldades, mesmo em seus fracassos e falhas?
 
CINCO SINAIS DO PODER DIVINO
 
Como que para dissipar tais temores e encorajálosa executar uma tarefa tão abrangente mesmo em Sua ausência, o Senhor acrescentou:
"Estes sinais seguirão aos que crerem:
1. em meu nome, expulsarãodemônios;
2. falarão novas línguas;
3. pegarão em serpentes;
4. e, se beberem alguma coisa mortífera, não Ihes fará dano algum;
5. e imporão as mãos sobreos enfermos e os curarão" (Marcos 16:17-18).
São ao todo cinco sinais do poder divino que acompanhariam a pregação dos apóstolos e os que cressem mediante a pregação deles.
Quando o Senhor, no início de seuministérioterreno, os enviou a pregar, deu-Ihes também poder para curar doenças e expulsar demônios (3:5).Agora porém, já ressurreto, acrescentou três sinais vinculados ao ministério apostólico: o falar em novas línguas, poder sobre as serpentes (compare com Isaías 11 :8) e imunidade a venenos. Como era oportuna e apropriada a concessão de tais dons a esses homens, que exerceriam um ministério mundial! Segundo os desígnios de Deus, os futuros redimidos procederiam de "toda tribo, e íngua, e povo, e nação"
(Apocalipse 5:9).
Como era, então, conveniente o sinal de falar novas línguas! 
 
CONFIRMAÇÃO DA PALAVRA
 
O que podemos aprender sobre o dom das línguas com base no breve relato de Marcos?
Ficamos sabendo que o falar novas línguas era um dos cinco sinais ou dons especiais concedidos pelo Senhor aos apóstolos e aos que, nos anos seguintes, viessem a crer - sinais que autenticavam a mensagem anunciada como procedente de Deus - o evangelho da salvação, que se baseava no Cristo crucificado, ressurreto e assunto ao céu, era algo inteiramente novo sobre a terra. Aprouve a Deus confirmar a proclamação de Seu Evangelho mediante sinais exteriores de poder. Assim, os ouvintes da mensagem apostólica não teriam argumento algum para desculpar a eventual incredulidade ou a rejeição à mensagem. Deus não apenas Ihes enviou a Boa Nova, mas também a confirmou por meio de sinais e poderosos milagres.
Pois bem, esse é um aspecto de suma importância relacionado com o falarem línguas,e iremos retomá 10 mais adiante. a procedimento de confirmação por meio de milagres em sinão é novidade. 
Quando o Senhor enviou Moisés aos filhos de Israel, este argumentou que eles não iriam crer e nem lhe dar ouvidos.
Então o Senhor lhe concedeu três sinais específicos a serem usados para sua legitimação perante o povo: a sua vara se tornaria em serpente, a sua mão ficaria leprosa e a água do Nilo se tornaria em sangue quando derramada sobre a terra seca (Êxodo 4). Eram sinais suficientespara afastar qualquer sombra de incredulidade da parte do povo de Israel.
Quando o Senhor Jesus iniciouo Seu ministério público e anunciou o Reino dos céus como não sendo deste mundo, ele fazia sinais e milagres para confirmar a Palavra. a que as pessoas ouviamera autenticado pelo que viam. Sabemos o que aconteceu quando João Batista foi acometido de dúvidas na prisão e mandou perguntar a Jesus se Ele era realmente o Messias ou se deveria esperar outro. a Senhor deu-lhe esta resposta: "IdeeanunciaiaJoão as coisas que ouvis e vedes: as cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho. E bem aventurado é aquele que se não escandalizar em mim" (Mateus 11 :4-6). as sinais que operava identificavam-nocomo a Pessoa que Ele realmente era - o Ungido do SENHOR.
De modo semelhante, constatamos que estes sinais seguiam os servos do Senhor depois do Pentecostes, confirmando que o ministério deles procedia de Deus. Tratase de um princípio divino,como já foi mencionado: Deus confirma oqueé novo mediante sinais exteriores. O último versículo do Evangelho de Marcos atesta isso de maneira inequívoca. Depois que o Senhor foi elevado ao Céu e ocupou o Seu lugar à destra de Deus, conforme relata o penúltimo versículo, Marcos encerra o seu livro com estas palavras: "E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém!".
Na Epístola aos Hebreus, verificamos o mesmo conceito: "Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada
pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram; testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade?" (Hebreus 2:3-4).
Portanto os sinaise milagres, entre quais o falar em línguas, ocupavam lugar determinado, atestavam a pregação da nova mensagem e removiam qualquer pretexto para a incredulidade do ouvinte.
Temos também de levar em conta o fato de que a mensagem da graça de Deus em Cristo Jesus não somente era nova como ainda ninguém escrevera uma linha sequer do Novo
Testamento. Tudo repousava unicamente na Palavra falada. Essa a razão por que Deus confirmava a Palavra anunciada oralmente com os sinais. Se algo não fosse coerente com a Palavra, se não fosse a pura doutrina de Cristo, então não poderia haver tais sinais. Deus jamais confirma o que é errado.
Assim, quando encontramos filhos de Deus, ou tais que professam sê-lo, manifestando evidente desobediência à Palavra, ao mesmo tempo em que arrogam possuir poderosos
dons espirituais, podemos tranqüilamente colocar um grande ponto de interrogação atrás de tudo que o sistema deles apregoa. Não raro a evidência de uma mentira manifesta a falsidade de um sistema inteiro (1 João 2:27).
 
CONCLUSÃO SOBRE MARCOS 16
 
 
Se retomarmos às três perguntas levantadas no início, à primeiravistaparece não haver o que extrair do pequeno relato de Marcos acerca da natureza das novas línguas. Mas tal
impressão é enganosa, pois as palavras do Senhor Jesus esclarecem muito bem um aspecto: que as línguas são um sinal. Um sinal não é pura e simplesmente um milagre, mas um milagre pelo qual Deus almeja mostrar algo específico e que traz, em seu bojo, algum significado moral ou espiritual.
As novas línguas, portanto, são um sinal. O texto de Marcos, porém, ainda não diz a quem ou a que elas são destinadas.
É dito que as "línguas" são novas línguas. Esse adjetivo também não é sem propósito. A língua grega conhece basicamente duas palavras para expressar a idéia de novo. A queé empregada aqui, kainós, não descreve algo novo no sentido temporal, e sim algo não usual, nada corriqueiro - novo em sua natureza. As "novas" línguas de Marcos 16 são as "outras" línguas de Atos 2.
Obviamente, não eram novas para os ouvintes, como iremos verificar ainda, e sim para aqueles que as falavam: eram diferentes das que estes costumavam empregar.
A segunda questão, que diz respeito à finalidade do falar em hnguas, encontra uma resposta parcial, mas importante: era a confirmação daquiloqueera novo. Novo era não apenas o Evangelho da graça de Deus, mas também o seu direcionamento a todos os povos, línguas e nações. Quanto à terceira questão, referente à continuidade do dom línguas até hoje -, não encontramos no relato de Marcos o menor indício de que esse dom - ou qualquer outro dos sinais relacionados - acompanharia a pregação do Evangelho nas gerações da fé posteriores à época dos apóstolos ou mesmo até ao término da presente dispensação da graça. Pelo contrário, no texto de Marcos somente vemos menção explícita ao encargo atribuído aos apóstolos, e notamos ser evitada qualquer alusão a uma permanência dos sinais. Isso se torna ainda mais patente se considerarmos que na comissão da qual o Senhor incumbiu os Seus discípulos, no final do Evangelho de Mateus, Ele promete estar presente "até à consumação do século". E Mateus não faz qualquer menção aos sinais!
Em Marcos, onde os temos mencionados, falta a indicação de sua vigência. Não nos dá isso razão para pensar?
Mesmo assim, para os defensores do falar em línguas, esses indícios não bastam. Visto que a permanência do dom de línguas não foi especificada, argumentam, é natural supor que ele permaneça até hoje.
Argumentos desse tipo, no entanto, aniquilama si mesmos.
Se o falar em línguas permanece, os outros quatro sinais igualmente perduram. Mas isso significa que os que arrogam a si o dom de línguas deveriam também evidenciar os outros dons. Mas são eles capazes de expulsar demônios, de pegar em serpentes ou de beber veneno sem sofrer dano?
Afinal, o Senhor também mencionou que esses sinais acompanhariam os que cressem. É notável, pois, que quase só se faça referência ao falar em línguas! Mas se uma coisa há de permanecer, as outras permanecem também.
Onde, estão, pois, os outros sinais?
 
O TESTEMUNHO DE LUCAS:
JERUSALÉM
 
O sagrado escritor, Lucas, relata três ocasiões em que se falou em línguas, Aprimeira foi na manhã do dia de Pentecostes, em Jerusalém, Atentemos para o seu relato:
"E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, correndo aquela voz, ajuntouse uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouviafalarna sua própria língua.
E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! Não são galileustodos estes homens que estão falando? Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medas, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e Capadócia, Ponto eÁsia,e Frígia e Panfilía, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguasfalar das grandezas de Deus. Etodos se maravilhamvam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer?
E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto" (Atos 2:5-13)
 
DOIS GRUPOS DE JUDEUS
 
Naqueles dias, por ocasião da grande festa, estavam em Jerusalém judeus provenientes das maisdiversaspartes da terra. Naqueles dias, por ocasião da grande festa, estavam em Jerusalém judeus provenientes das maisdiversaspartes da terra. Naqueles dias, por ocasião da grande festa, estavam em Jerusalém judeus provenientes das maisdiversaspartes da terra.
Alguns vieram do distante nordeste -Pártia, Média,Pérsia e Mesopotâmia. Outros vieram do sul: Egito, Líbia e Cirene. Estavam representadas as províncias da Ásia Menor, situadas a noroeste, e havia também muitos judeus que vieram da capital do Império Romano. Havia gente até mesmo das ilhasmediterrâneas, como Creta, etambémdaÁrabia,
situada a suleste. O relato cita nominalmente quinze regiões. Os visitantes compunham um grande grupo de judeus estrangeiros. Mas havia ainda um segundo grupo, constituído pelos judeus nativos, residentes na Judéia. Ao que parece todos estes tiveram sua atração chamada pelo veemente ruído, e afluiram para a casa onde os discípulos estavam reunidos.
Quando, então, chegaram ali, ouviram os 120 crentes (que, pelo visto,haviamdeixadoa casa neste intermédio, indo para as ruas e para os átrios do Templo) falar em seus próprios dialetos, nos idiomas dos países onde tinham nascido.
Não há razão para imaginara cena como uma mistura confusa de vozes nem para pensar que os diversos dialetosforam todos falados em um mesmo lugar,de modo que um não pudesse entender o outro direito. Deus não é um Deus de confusão, e havia lugar suficiente nos edifíciosdo Templo e nas ruas circunvizinhaspara que os 120 discipulos se espalhassem por alipara render o seu testemunho das grandezas de Deus.
Os discípulos, portanto, falaram em pelo menos quinze idiomas. Digo "pelo menos", porque a descrição das regiões é muito concisa (p. ex. "partes da Líbia, junto a Cirene") e porque emgrandes países como a Mesopotâmia e o Egito certamente eram falados vários dialetos.
 
 
AS RAZÕES DOS JUDEUS
 
As reações da multidão diante do grande milagre variavam do espanto ao escárnio. Nessas atitudes, evidenciam-seos dois principais  grupos que compunham a multidão judaica. Esses judeus, vindos de outros países, designados no texto "varões religiosos"(ou"varões tementes a Deus"), estavam confusos porque cada um deles os ouvia falar na própria língua (v. 6).
Depois, "pasmavam e se maravilhavam" pelo fato de que estes, que falavam na língua corrente de seus países de residência, eram nativos da Galiléia(v.7). E, por fim, "todos se maravilhavam e estavam suspensos" porque não podiam entender o significado daquilo tudo (v. 12).
Em contraste, o grupo dos judeus nativos comportava-se de maneira diferente: "Zombando, diziam: Estão cheios de mosto" (v. 13). Qual a razão dessas diferentes reações? Temos de procurar a resposta não apenas em um estado espiritual melhor ou pior, mas em um processo muito natural: o primeiro grupo entendia o que era falado, e o segundo, não. Os judeus estrangeiros ouviam os crentes falando as línguas de seus países e podiam entender o que era falado. Eles não tinham razão para pensar que os oradores estavam "cheios de mosto".
Para os judeus residentes no país, porém, as línguas que ouviam eram totalmente estranhas. É verdade que sabiam mais ou menos o grego, porém a sua línguamaterna era o aramaico. Não dominavam outros dialetos e estavam mais propensos a pensar que os discípulos do Senhor estivessem bêbados.
 
LINGUAS DOS HOMENS
 
Pois bem, tudo isso tem significado relevante ao nosso assunto. Do relato histórico que estamos considerando, depreendem-se alguns detalhes que merecem a nossa atenção. Verificamos, pois, que as "novas línguas" mencionadas pelo Senhor em Marcos 16, eram línguas dos homens - idiomas ou dialetos falados e entendidos por homens daquela época. Não se tratava de gritos mal articulados e histéricos, mas de línguas verdadeiras. Os discípulos jamais as haviam aprendido, e nisso consistia o milagre. Era um milagre do falar, e não do ouvir. Eles"começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo Ihes concedia que falassem" (v. 4).
"Todos [os ouviram em suas] próprias línguas falar das grandezas de Deus" (v. 11). Mas, quanto às línguas que falaram, tratava-se de linguagem e idéias correntes e bem normais. Não eram línguas místicas, isto é, "línguas dos anjos".
 
SINAIS - DE QUÊ? PARA QUEM?
 
Tínhamos visto, em Marcos 16, que as línguas eram um "sinal". No texto em estudo, aprendemos de que elas eram sinal e para quem.
 
Eram um sinal de que:
 
1- Deus, o Espírito Santo, fora derramado sobre os discípulos que criam no Senhor Jesus e
2- que Deus estava pronto a fazer com que o Evangelho da Graça fosse anunciado a todas as línguas e povos da terra.
 
Já aprendemos bastante acerca da natureza das línguas por meio das quais os discípulos falaram no dia de Pentecostes.
Mas, qual a sua finalidade?
Para quem era o sinal?
Para os judeus, e para ninguém mais!
Não se tratava de um sinal para o mundo descrente pagão, e sim para o povo dos judeus. Estes deviam estar familiarizados com os oráculos do Antigo Testamento. Os judeus deviam saber da profecia de Joel, segundo a qual o Espírito de Deus haveria de ser derramado. Pedro, em seu discurso logo a seguir, aponta para isso.
 
AS GRANDEZAS DE DEUS
 
Ainda sobre a finalidade do falar em línguas, não creio ter sido o Evangelho a mensagem apregoada sobrenaturalmente aos judeus, seja aos que vieram de longe, seja aos que residiam no país. O texto omite essa informação. O que se lê é que os ouviram "cada um [... ] falar das grandezas de Deus". Era muito mais um louvor a Deus pelas Suas grandezas do que uma pregação. Por isso, nem me parece muito correto afirmar que os discípulos dirigiram a palavra à multidão. O fato é que a multidão simplesmente os ouvia falar (v.6,11). Não lemos nada a respeito de um discurso ou deuma palavra dirigida especificamente àqueles judeus.
Horas mais tarde, isto sim, Pedro Ihes dirigiu a Palavra e anunciou o Evangelho a todos. Isso, porém, não aconteceu em outra língua. Para quê, afinal? Todos compreendiam o aramaico, e foina língua materna deles que o apóstolo Ihes anunciou oEvangelho. Três mil pessoas se converteram nessa ocasião - tocados pela pregação do Evangelho, e não pelo falar em línguas que haviam presenciado na manhã do mesmo dia.
Anos mais tarde, Barnabé e Paulo foram à Licaônia (At 14). Era manifesto que não entendiam licaônico. Segundo a opinião de muitos hoje em dia, esta teria sido uma ocasião para anunciar o Evangelho em línguas, e falar àquelas pessoas em licaônico. Porém, nada disso aconteceu! Todos ali entendiam o grego, e os apóstolos fizeram uso desse idioma. Assim, nem nessa nem em qualquer outra passagem encontramos indicação de que o falar em línguas tivesse sido usado para pregar o Evangelho ou que alguma vez alguém veio a ser salvo por intermédio disso.
 
UMA NOVA ÉPOCA
 
Parece, pois, que a finalidade do falar em línguas estrangeiras era dupla. Em primeiro lugar, servia para chamar a atenção dos judeus e levá-Ios a fazer perguntas. Em segundo
lugar, havia a necessidade de eles serem preparados para o início de uma nova situação: Deus, dali em diante, haveria de ser louvado e glorificadonão somente na "língua santa" - o hebraico -, mas também nas línguas das nações. Aquele procedimento era inconcebível para a mente judaica. Para nós é difícil imaginar o que isso implicava.
Mas a visão do lençol contendo vários animais quadrúpedes e reptéis e o triplo apelo que a voz do céu dirigiu a Pedro dizendo: "Mata e come!" (At 10: 11 ss) mostra-nos mais uma vez quanto era difícilpara o judeu piedoso compreender que Deus agora queria alcançar as outras nações: "De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda" (v.14). Guiado pelo Espírito de Deus, porém, o apóstolo finalmente foi levado a dizer: "Deus mostrou-me que a nenhum homem chama comum ou imundo" (v. 28).
Pouco depois, declara também: "Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo" (v. 34-35). A propósito, isso tudo também evidencia que na época do Pentecostes os próprios apóstolos ainda não haviam entendido o significado desses sinais, embora fossem os instrumentos que Deus usava. E o que Atos 2 nos tem a ensinar com referência à continuidade do falar em línguas? Porventura há, nesse relato de Lucas, algum indício de que tal dom se estenderia aos, dias futuros? De modo algum!Naturalmente, nenhum crente duvida dessa possibilidade, pois "para Deus todas as coisas são possíveis".
No entanto, não precisamos nos deter nas coisas que Deus pode realizar.O que nos cabe é inquirir se, em conformidade com a revelação de Seus caminhos, Elequer fazeralguma coisa. Mas nada nesse relato aponta para essa direção.
As línguas, ao contrário, caracterizavam, juntamente com outros sinais, o início de uma nova dispensação que apresentava forte contraste com tudo que existia até então. Havia agora um Cristo glorificado no céu, a pessoa do Espírito Santo sobre a terra, a graça no lugar da Lei, a justiça pela fé, em vez de uma justiça baseada em obras, e a salvação de Deus disponível a todas as nações, até os confins da terra. Tudo isso caracterizava a nova dispensação, com a qual os judeus teriam de se familiarizar, pois os sinais também valiam para eles.
 
O TESTEUMHO DE LUCAS:
CESARÉIA
 
O segundo relato envolvendo o falar em línguas no livrodeAtos tem como palco a cidade de Cesaréia. Lucas registra o fato no capítulo 10.
Algo inconcebível a ouvidos e corações judaicos havia ocorrido ali.Instruídopor Deus, Pedro chegara à casa de Comélio, um centurião pagão, e anunciado o Evangelho aos
que estavam ali reunidos. Até aquele momento, o Evangelho fora somente anunciado aos judeus e samaritanos (cap. 8), isto é, apenas àqueles no meio dos quais o Senhor Jesus também tinha trabalhado. Mas o caso agora era completamente diferente.
Comélio era piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa. Ele era nascido de novo, sem dúvida, pois as suas orações e esmolas haviam subido como memorial perante Deus - fato do qual um anjo de Deus deu testemunho explícito (v. 1-4). Mas ele sabia - e isto era justamente um aspecto de sua piedade - que "a palavra que [Deus]enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo" (v. 36) não se estendia a ele, um pagão. Comélio não só pertencia ao povo romano, como também era um oficial graduado dessebem-sucedido poder bélico que vencera e agora oprimia o povo de Deus. O que se passava no coração desse homem e de sua família, porém, não passaram despercebidos aos olhos de Deus, e Ele lhes enviou Pedro, a fim de que poudesse levar-Ihes o conhecimento acerca do perdão dos pecados mediante a fé em Jesus Cristo (v.34-43). 
 
UM PASSO SIGNIFICATIVO
 
Hoje não temos dúvidas de que esse passo dado por Pedro estava de acordo com a vontade de Deus e de que o apóstolo foi guiado por Ele também. Os mensageiros do Senhor já haviam hesitado bastante na missão de levar o Evangelho para além dos limitesde Israel e anunciá-Io aos que estavam em trevas (1:8).
Antes que isso pudesse acontecer, no entanto, Pedro teria de cumprir uma missão especial. O Senhor Jesus lhe havia confiado as chaves do Reino dos céus (Mt16:19). No devido tempo, o apóstolo deveria abrir as portas do Reino para aos convertidos provenientes dos judeus, dos samaritanos e de todas as nações. No que diz respeito aos dois primeiros grupos, isso já havia acontecido (At 2 e 8). E agora, na seqüência dos eventos, vemos que pela primeira vez na história os pagãos ouviam o Evangelho - e o pregador era um judeu, o apóstolo da circuncisão. Digo "pela primeira vez" porque o eunuco da Etiópia foi um caso especial, sem qualquer relação com a abertura do Reino dos céus por intermédio de Pedro.
Além do mais, é provável que o eunuco fosse um prosélito, ou seja, um pagão acolhido na comunidade religiosa de Israel. oato de Pedro foium passo de suma importância na história da Igreja sobre a terra. Forçosamente, porém, surge a pergunta: "Esse passo foi operado por Deus?".
 
 
A ACOLHIDA DOS CONVERTIDOS
 
PROCEDENTES DOS PAGÃOS
 
Hoje sabemos, para dizê-lo uma vezmais, que isso vinha de Deus. Mas como os crentes judeus daqueles dias viam esse fato? Como aceitaram a igualdadecom os gregos? Como
se sentiam com a presença de romanos convertidos sentando ao lado deles em suas reuniões?
Viria isso de Deus?
Uma necessidade absoluta ficou evidente: a proclamação do Evangelho às nações por meio de Pedro teria de ser confirmada e autenticada pelo próprio Deus de maneira óbvia e incontestável, para que a questão fosse esclarecida de uma vez por todas. Era imprescindível um testemunho apropriado que confirmasse que Comélio, a sua família e os seus amigos haviam sidoaceitos como crentes em Cristo Jesus, tal como o foram os judeus  convertidos.
Essa confirmação aconteceu em Cesaréia. Ouçamos o testemunho de Lucas em Atos 10: "Dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéisque eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios.
Porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus. Respondeu, então, Pedro: Pode alguém, porventura, recusar a água, para que não sejam batizados estes que também receberam, como nós, o Espírito Santo? E mandou que fossem batizados em nome do Senhor" (v.44-48). Com que finalidade, então, estes crentes das nações falaram em línguas? Isso ocorreu para que os judeus - "os [crentes] fiéis que eram da circuncisão" - pudessemreconhecer sem sombra de dúvida que os crentes dentre as nações foram aceitos por Deus e receberam o Espírito Santo da mesma maneira que eles próprios.
A recepção e a posse do EspíritoSanto são, em si, coisas invisíveis e não perceptíveis pelos sentidos. Naquele dia, porém, era imperativo que os judeus crentes pudessem perceber a presença do Espírito Santo entre as nações. Note que já no capítulo seguinte nos é descrita a resistência oferecida pelos que eram da circuncisão.
Eles questionavam Pedro: "Entraste em casa de varões incircuncisos e comeste com eles" (11: 1-3). O apóstolo, em sua réplica, esclareceu que em Cesaréia estava sob a direção
direta do Espírito Santo, finalizando com estas significativas palavras: "Quando comecei a falar, caiu sobre eles o EspíritoSanto, como também sobre nós ao princípio. Elembrei-me do dito do Senhor, quando disse: João certamente batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo. Portanto, se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era, então, eu, para que pudesse resistir a Deus?" (11: 15-17).
 
 
UMA PROVA IMPORTANTE
 
O fato de o Espírito Santo ter sido derramado sobre os crentes em Cesaréia constituía prova inabalável do endosso divino à acolhida dos que procediam das nações. Porém
esta ocorrência só pôde ser reconhecida porque os ouviram falando em línguas, contando as magnificências de Deus.
Pedra nem tinha feito menção do sinal, mesmo assim os judeus reconhecerem a questão - a concessão do EspíritoSanto - nessa obra.
O acontecimento de Cesaréia é mencionado outra vez em Atos 15, quando os apóstolos e anciãos de Jerusalém estavam por esclarecer questões fundaméntais relativas ao tratamento a ser dispensado aos crentes de outras nações. Após muita disputa, Pedro relembrou o  episódio de Cesaréia, e disse: "Varões irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentiosouvissemda minha boca a palavra do evangelho e cressem. E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; e não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando o seu coração pela fé" (At 15:7-9).
 
Aqui o dom do Espírito Santo é uma vezmais apontado como prava de que os cristãos judeus procederam corretamente ao receber seus irmãos das nações. Contudo, o sinal da recepção desse dom foique falaramem línguas.Com a ajuda desse sinal, Pedro e os da circuncisão puderam reconhecer imediatamente o que havia acontecido: o Espírito Santo havia descido sobre aquela gente.
É também interessante constatar que a concessão do dom do Espírito Santo em Cesaréia é mencionada nada menos que cinco vezes, somente com termos ligeiramente modificados: porém, em nenhuma dessas ocorrências, é feita alusão ao batismo com o Espírito Santo.
 
1- "...caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra" (10:44).
2- "E, quando comecei a falar, caiu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós ao princípio" (11: 15).
3- "E os fiéis que eram da circuncisão [...] maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios" (10:45).
4- "... que também receberam como nós o Espírito Santo?" (10:47).
5- E Deus [...] lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós" (15:8).
"Cair", "derramar", "receber" e "dar" são as expressões usadas na Palavra de Deus, mas nunca "batizar".
 
Talvez alguém argumente que Pedra menciona, sim, o batismo com o Espírito Santo (11: 16).
De fato, ele o faz, mas não afirma que os crentes em Cesaréia tivessem sido batizados com o Espírito Santo.
O apóstolo apenas declara que, quando aquilo aconteceu, ele foi lembrado da Palavra do Senhor, que antes de Sua ascensão mencionara o batismo com o Espírito Santo.
Gostaria ainda de apontar a ligação evidente se verifica aqui, à semelhança do dia de pentecoste, entre o falar em línguas e o louvor a Deus: "Porque os ouviam falarlínguas e magnificar a Deus" (10:46).
Mais uma vez, o falarem línguas não se apresenta na forma de proclamação, e sim como louvor a Deus. Ambas as passagens parecem sublinhar que o falar em línguas dirige-se primariamente a Deus. O testemunho porém, o sinal em si, era para os homens, mais precisamente aos judeus.
Nada do que aconteceu em Cesaréia sugere a continuidade do dom das línguas, tampouco o que ocorrera em Jerusalém. Lá em Jerusalém o sinal das línguas serviu para confirmar que o Espírito Santo veio como pessoa à terra. Aqui, em Cesaréia, o mesmo sinal serviu para confirmar que o Espírito Santo também fora concedido aos crentes não-judeus. Ambas ocorrências tiveram um significado inédito e, se repetidas, já não estariam mais evidenciando uma novidade. A vinda do Espírito Santo não é um fato que necessite ser confirmado repetidas vezes, tampouco o fato de que Deus proporcionou aos crentes de todas nações o acesso à Igreja.
Se as ocorrências eram inéditas, os sinais que as acompanharam também foram únicos.
Na verdade, temos em Atos apenas mais um caso em que cristãos falaram em línguas.
Vamos considerá-Iorapidamente.
 
O TESTEMUNHO DE LUCAS:
ÉFESO
 
O episódio de Éfeso não é de pouca importância, pois já não diz respeito ao ministério de Pedro, e sim ao de Paulo. O apóstolo, ao encontrar alguns discípulos de João Batista em Éfeso, percebeu que eles ainda não se encontravam efetivamente na posição cristã, pois Ihes perguntou: "Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. Perguntou-Ihes, então: Em que sois batizados, então? Eeles disseram: No batismo de João. Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-Ihes Paulo as mãos, veio sobre eles o EspíritoSanto; e falavam línguas e profetizavam. Estes eram, ao todo, uns doze varões" (19:2-7).
 
OS DISCÍPULOS DE JOÃO BATISTA
 
Esse grupo de crentes achava-se em uma situação peculiar. Não pertenciam nem aos judeus que se tornaram crentes no Senhor Jesus nem aos não-judeus convertidos, pois seguiam ainda os fundamentos de João Batista. Não há dúvidas de que haviam estado em sua pátria na época em que João Batista pregava no deserto de Judéia,
conclamando os judeus ao arrependimento e anunciando que o Reino dos céus estava próximo. Eles haviam crido na pregação de João e deixaramse batizar por ele com o
batismo do arrependimento após confessarem os seus pecados.
Cerca de vinte anos mais tarde, quando Paulo os encontrou, ainda continuavam estabelecidos sobre os mesmo fundamentos, seguindo os ensinamentos de João e esperando a vinda do Messias e Seu Reino. Não conheciam ao Senhor Jesus nem sabiam da obra que Ele realizara, coroada pela descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Paulo, então, passou a Ihes falar do Senhor Jesus, a Quem o mestre deles já havia apontado. As palavras de Paulo certamente experessavam a plenitude da verdade cristã que lhe fora confiada na condição de ministro da Igreja (veja Cl 1: 24-25). E aqueles homens creram no que Ihes foi apresentado, evidenciando-se a sinceridade de sua confissão no fato de serem batizados ao nome do Senhor Jesus.
Mas como tratar aquele grupo dali em diante? Até então, estavam separados tanto dos judeus quanto dos gentios. Deveriam também eles ser admitidos aos privilégios da Igreja de Deus sobre a terra, estes privilégios aos quais os crentes judeus e os crentes das nações haviam sido introduzidos? Era essa a grande questão a ser resolvida em Éfeso.
A resposta não demorou: Deus concedeu também a eles o Espírito Santo mediante a imposição de mãos por parte de Paulo, tornando-os assim membros do Corpo de Cristo. E, mais uma vez, constatamos o sinal exterior da parte de Deus confirmando esse fato, pois eles falaram línguas e profetizaram. Notamos também aqui que o milagre das línguas está ligado à profecia e à edíficação e que o sinal em si novamente está ligado aos judeus - afinal, foram doze judeus que falaram em línguas.
Vemos que o Espírito Santo não veio sobre eles enquanto criam apenas em um Cristo que estava por vir. Só quando creram naquEle que já viera e cumprira a obra da redenção foique o Espírito Santo desceu sobre eles, como ocorrera com os . seus irmãos segundo a carne.
 
O INÍCIO DA IGREJA EM ÉFESO
 
Esses doze ex-discípulos de João Batista tornaram-se, pela graça de Deus, o ponto de partida - o "núcleo" - da Igreja naquela grande cidade. Paulo trabalhou alidurante dois anos, "detalmaneiraquetodos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, tanto judeus como gregos" (v. 10). Observe como foi importante o "núcleo" daquela igreja local ali ter recebido o mesmo selo de sua aceitação, confirmado pelo mesmo sinal que os crentes em Jerusalém e Cesaréia! Essa ocorrênciaaquitambém foide caráterúnico.Nãoépossível deduzir daqui a continuidade do falaremlínguasaépocaspa;l:eriores ou até mesmo até ao finalda era da graça. Masas três ocorrências (Jerusalém,Cesaréiae Éfeso) têm algo em comum:  ediante o sinal das línguas Deus confirmou fatos que de uma ou de outra forma eram novidade. Em Jerusalém, a novidade foia descida do EspíritoSanto à terra para fazer morada nos crentes e assimformara Igrejade Deus.Em Cesaréia, o fato novo foi que também os crentes das outras nações recebiam o Espírito e eram acrescentados à Igreja. O mesmo fato se observou entre aquele grupo específico dos que, anteriormente, eram discípulos de João Batista.
 
CONCLUSÃO
 
Vamos resumir uma vez mais o que verificamos nos testemunhos de Marcos e Lucas na consideração de nossas três perguntas iniciais!
A natureza das línguas: Eram idiomas reais, correntes e compreendidos por aqueles que os dominavam. Os oradores, porém, jamais os haviam "aprendido". Para estes, eram "novas línguas". Tratava-se de um milagre do falar, não do ouvir. Tal milagre tinha o caráter de sinal, tendo inerenteum significadoespiritual com a finalidade de manifestar alguma coisa.
A finalidade das línguas: Integravam o grupo dos vários dons milagrosos mediante os quais o Senhor, naqueles dias iniciais, confirmava a Palavra que agora havia de ser levada para além dos termos de Israel. Constituiram-se específicamente num sinal exteriormente notável do recebimento do Espírito Santo, porém sempre dirigido aos judeus. Por meio desse sinal era-Ihes testificado que teve início uma nova era, e novas etapas dessa mesma era.
 
A continuidade das línguas:Não vimosem nenhum dos textos contemplados apoio para isso. Sem exceção, tratase de acontecimentos de  caráter único, de sinais que marcavam novos princípios. Depois de o novo período se ter iniciado, e dos cristãos já estarem confirmados em seu caráter universal, já não encontramos mais evidência desse sinal no livro de Atos.
Quando os dons sobrenaturais deixaram de ser necessários, os próprios milagres também desapareceram no Novo Testamento.
 
O TESTEMUNHO DE PAULO
 
Qualquer análise da questão das línguas sem dúvida estaria incompleta sem a consideração das verdades que Deus confiou ao apóstolo Paulo acerca do assunto. Repetidas vezes, o apóstolo fazmenção das línguas em sua primeira carta aos Corintios, nos capítulos 12 a  14. Por isso, gostaria de expor, de forma breve, o conteúdo desses capítulos, levando em conta os três pontos de vista, que também serviram de referência nas explanações anteriores, a saber: o que diz Paulo sobre a natureza, a finalidade e a continuidade desse dom.
 
Destacaremos em primeiro plano uma circunstância que facilmente passa despercebida: embora ricamente agraciado com os dons espirituais,o crente pode viver um baixo nível de espiritualidade. É o que o exemplo dos coríntios nos ensina.
 
CARNAIS APESAR DOS DONS
 
Os coríntios foram em tudo enriquecidos em Cristo, "em toda a palavra e em todo o conhecimento", de maneira que nenhum dom lhes faltava (1 Co 1:4-7). Mesmo assim, eram crentes carnais: "Pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois, porventura, carnais, e não andais segundo os homens?" (3:3). Eles não estavam na carne - nenhum cristão verdadeiro se encontrará nesse estado, pois está em Cristo -, mas eram carnais porque agiam segundo a carne. Repetimos: é possível possuir dons espirituais e ainda assim ser carnal. Possuir um dom, por si só, não torna o cristão espiritual. É algo que  temos de lembrar constantemente, porque temos a inclinação de sobrevalorizar o desenvolvimento de certo dom.
De fato, a igreja em Corinto possuía todos os dons espirituais. De nenhuma outra assembléia se ouve tal coisa.
A mente carnal desses crentes, porém, manifestouse pelo fato de eles gostarem especialmente dos dons espetaculares, que chamavam a atenção do povo, como por exemplo o dom de línguas. Eles gostavam de impressionar os outros. Quase podemos dizer que brincavam com os dons divinos, assim como a criança se diverte com um brinquedo que ganhou recentemente.
Aquilo que Deus classificava em último lugar os coríntios, em uma avaliação própria, colocaram em primeiro. No capítulo 12, o apóstolo enumera os dons da seguinte maneira: "E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente, apóstolos, em segundo lugar [...) em terceiro [... ) depois [... ) depois ..."(v. 28-30). Só no final ele menciona o falar em línguas e a sua interpretação.
Ainda assim, ele faz referência às línguas com uma pergunta: "falam todos diversas línguas? Interpretam todos?".
Embora o próprio apóstolo não dê a resposta, ela claramente é: "Não! Nem todos falam em línguas". Esse fato deve ter levado os coríntios a refletir e, ainda hoje, deveria fazer pensar todos os amados filhos de Deus que dão tanto destaque a esse dom.
 
SOBRE A NATUREZA DAS LÍNGUAS
 
O apóstolo não deixa dúvida de que o falar em línguas - embora impressionante para os de fora - ocupa lugar ínfimo entre os dons espirituais e está sempre no final das enumerações (12:10,28-30; 14:5). Sem interpretação, as línguas não trazem proveito à igreja, porque só há edificação - o grande objetivo de Deus para o Corpo de Cristo - quando se entende o que é falado (14:5-19,28). Os dons superiores não são os milagrosos, nem se encontra entre eles o dom de línguas, e sim "apóstolos", "profetas" e "doutores" (ou mestres), concedidos por Deus para firmar a Igreja nas grandes verdades do NovoTestamento.
Quem falavaem línguas,não falava aos homens, mas a Deus (14:2,28), fato que verificamos nos relatos históricos de Lucas (At 2 e 10) e é confirmado por Paulo em 1 Coríntios. O falar em línguas é uma coisa direcionada a Deus, é oração, ação de graças, louvor (14: 14- 17). Essa é a caraterística principal desse dom. Esses versículos esclarecem também, que oração, cânticos e ações de graças operam igualmente para a edificação.
Empregado nesse sentido, o apóstolo não fazia qualquer restrição ao falar em línguas, sob a condição de que um ínterprete tornasse inteligível tudo que se falasse por meio desse dom (14:5,13,39). Não havendo ínterprete, o dom das línguas não deveria ser usado na igreja (14:28). O próprio apóstolo falavamais em línguas que todos eles, ou seja, elefalava mistérios a Deus enquanto orava, louvava e rendia graças a Deus, mas não o fazia na igreja. Ali, preferia falar cinco palavras compreensíveis que 10 mil palavras em língua desconhecida (14: 19). Que exemplo digno de imitação para os que pensam poder edificar os outros por meio de palavras misteriosas e ininteligíveis! Quem falavasem intérprete edificava a si mesmo, porque ninguém entendia o que falava (14:4). A auto-edificação, porém, não é o pensamento nem o propósito de Deus para a Igreja - e é disso que trata 1 Coríntios 12 a 14. Deus não concede dons para que o indivíduo edifique a si mesmo.
Por isso,acreditoque o versículo 4 não contém apenas uma afirmativa, mas também certa dose de repreensão. As línguas, pela sua natureza, só serviam para edificação quando interpretadas.
Também em 1 Coríntios as línguas são mencionadas como idiomas humanos concedidos pelo Espírito. Supor ou afirmar que o apóstolo e outros crentes tivessem falado "as línguas dos anjos" (13: 1)é absurdo. Todas as frases do capítulo 13, que se iniciam com "ainda que [eu]", são de natureza hipotética e significam:"Supondo-seque eu fizesse isto ou aquilo ...". Paulo mesmo confessa que não era conhecedor de "toda a ciência", porque ele também conhecia "em parte" (v. 9). Ele não distribuiu todos os seus bens aos pobres nem entregou o próprio corpo para ser queimado. Trata-se de mera suposição, por meio da qual ele queria provar que nada será válido sem o amor como mola propulsora. Ele não está apresentando uma realidade de sua vida, por isso o verbo está no subjuntivo: "Ainda que eu falasse...".
 
SOBRE A FINALIDADE DAS LÍNGUAS
 
Paulo discorre sobre a finalidade das línguas: "Está escrito na lei: Por gente doutras línguas e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis [ou crentes; assim no restante do texto], mas para os infiéis [ou incrédulos; assim no restante do texto]; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão, porventura, que estais loucos?
Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançandose sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós" (14:21-25).
Aprendemos aqui (v. 22) que as línguas não são um sinal para os crentes, e sim para os incrédulos. A quem o apóstolo aplica o termo  "incrédulo"? Isaías 28, citado no versículo anterior, esclarece: trata-se de judeus incrédulos. A eles, Deus iria falar em línguas estranhas, de acordo com o profeta - e isso como castigo! Eles ouviriam, mas não entenderiam, como
o mesmo profeta havia predito em outro lugar (Is 6:9).
Por que, então, os crentes em Corinto se orgulhavam tanto desse dom, que era um sinal de juízo para a nação incrédula dos judeus? As línguas apontavam para o fato de que Deus se desviaria desse povo e se voltaria para as outras nações. Foi isso que verificamos em Atos 2. Deus lhes falou por meio de outras línguas, línguas de países para onde muitos deles haviam sido espalhados pelos caminhos governamentais de Deus. Eles as entendiam acusticamente, mas não de fato. A grande maioria do povo judeu continuava incrédula, rejeitando a Cristo. Portanto, as línguas foram um sinal para eles.
Nos versículos 23 e 24, o apóstolo novamente faz menção dos "incrédulos", ligando-os agora a outro grupo: os "indoutos". Isso dá a entender que ele agora não está falando dos "incrédulos" em geral, como no versículo 22, mas de quaisquer incrédulos de fala grega ("e entrarem indoutos ou infiéis"), que entrassem no meio deles e os teriam por" loucos" , caso todos falassem em línguas. Por que "loucos"? Porque, ao contrário dos judeus incrédulos da dispersão, não entenderiam a língua. Entende-se que o apóstolo fala de judeus incrédulos no versículo 22 e de gregos incrédulos nos versículos 23 e 24 também pelo fato de que no primeiro caso ele põe o artigo antes de "incrédulos" ("os incrédulos") e o deixa fora no segundo. Se ele estivesse apenas citando os incrédulos em geral, o artigo não existiria no texto grego. Por isso, ele sem dúvida se refere a um grupo específico de incrédulos - os judeus. Repetimos este ponto significativo: as línguas não foram dadas como testemunho para os crentes, e sim como sinal para o povo judeu incrédulo. Uma vez compreendido o seu significado básico, é evidente que esse sinal não permaneceria muito tempo.
 
SOBRE A CONTINUIDADE DAS LÍNGUAS
 
No capítulo 13, um detalhe lança certa luz sobre a questão que nos ocupa agora: a continuidade das línguas. O apóstolo fala do amor que "nunca falha". Em seguida, porém, ele faz menção de coisas que não existiriam para sempre: "Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá [ou será aniquilada]" (v. 8).
Observe a mudança de expressão - de "ser aniquilado" para "cessar" e de novo "ser aniquilado". Por que o apóstolo usa essas expressões diferentes? Nada na Sagrada Escritura é por acaso ou sem significado.
Quando vier o que é perfeito, isto é, quando o Senhor Jesus nos arrebatar para estarmos com Ele em Sua glória, não precisaremos mais de profecias. Nos céus, não se ouvirá mais a voz de profeta algum. Também a forma de ciência (conhecimento), tal como a temos agora (nós conhecemos "em parte") será aniquilada. É notável que no versículo 10 é empregada mais uma vez a expressão" ser aniquilado" : "Quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado" . O Senhor nos guiará à ciência perfeita, ao pleno conhecimento, ao conhecimento absoluto uma bênção sem medida! No que diz respeito às línguas, porém, o apóstolo afirma que elas "cessarão". A forma do verbo no grego significa" cessar por si".Assim como o pequeno arroio se esgota em terra seca, as línguas, pouco a pouco, cessarão. Não é o que verificamos em Atos e também no decorrer do Novo Testamento? Em nenhum outro lugar se fala em línguas: elas perderam a sua importância. O testemunho já foi dado aos judeus, há muito tempo. O que era novo já foi confirmado e, portanto, não é mais "novo". Para que, então, as línguas nos dias de hoje? Para anunciar o Evangelho em países estrangeiros? Na Escritura, jamais servem para essa finalidade. As línguas, em seu caráter de sinal, já cumpriram a sua missão, por isso "cessarão" - antes que as profecias e a ciência sejam  aniquiladas.
Essa também é a razão pela qual o apóstolo, às palavras do versículo 9 "porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos" não acrescenta: "... e em parte falamos línguas". As línguas cessariam antes.
 
SATANÁS COMO ANJO DE LUZ
 
Se o falar em línguas, praticado hoje em dia por tantas pessoas, contradiz a Palavra de Deus em quase todos os pontos, não se deveria suspeitar então que tal movimento não seja autêntico?
Faz-nos pensar o fato de que muitas vezes são as mulheres que falam publicamente em línguas ou as interpretam, sendo que o "mandamento do Senhor" é que elas fiquem caladas na igreja, porque lhes não é permitido falar (1 Co 14:34,37)? Estaria o Espírito de Deus as incentivando a fazer algo contrário à Palavra de Deus?
Fala-se muito hoje do Espírito Santo e sobre ser cheio do Espírito, porém quase nunca se pratica o que o mesmo Espírito estabelece nas Escrituras. Isso deve levar qualquer leitor a meditar sobre estas linhas. É certo que o Espírito Santo é Deus, como também o Pai e o Filho, mas na era da graça Ele ocupa a  posição - afirmamos isto com todo o temor - de Servo ou Ministro: Ele dirige a atenção dos corações para Cristo. Em João 16, percebemos esse fato claramente. Por isso, quem dá ênfase demasiada ao Espírito Santo facilmente será levado para longe do Senhor Jesus e da Palavra de Deus. Quando o Senhor Jesus estava nesta terra, os líderes do povo judeu cometeram um terrível pecado: atribuíram o poder do Espírito de Deus, pelo qual Ele operava os milagres, a Belzebu, o príncipe dos demônios. Isso se constituía "blasfêmia contra o Espírito", um pecado para o qual não há perdão (Mt 12: 22-32). Hoje, existe o perigo inverso: atribuir ao Espírito Santo, que está na terra, aquilo que o poder de Satanás opera.
Satanás nunca é mais perigoso do que quando se apresenta como "anjo de luz", tentando perverter a verdade divina por meio de imitação. "Não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras" (2 Co 11: 14-15). Ele não hesita em falar coisas agradáveis sobre Cristo e Seus ministros! Porém o faz apenas para confundir os limites entre a luze as trevas e para seduzir os ingênuos.
Encontramos um exemplo disso em Atos 16, onde uma jovem possuída por um espírito de adivinhação seguia Paulo e seus colaboradores, gritando: "Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo" (v. 16-18). Eram palavras aparentemente elogiosas, contudo ela tentava uma ligação com os pregadores do Evangelho. Era um espírito enganador que falava por meio dela, e não o Espírito de Deus. Paulo o reconheceu e ficou "perturbado" por causa disso. Satanás não se contentaria em usar os seus espíritos enganadores apenas nas ruas. Ele com certeza procura introduzi-Iosno meio dos filhos de Deus. Se alguém fala em línguas, como saber ou avaliar o que ele está expressando? Está sendo guiado pelo Espírito Santo ou por espíritos malignos ? Também por essa razão era importante que um intérprete tornasse compreensível o que era falado, e o apóstolo insistia nisso.
Não nos deixemos enganar! Satanás ainda é capaz de colocar um espírito de mentira na boca dos homens, como o fez nos dias de Josafate (1 Rs 22:22-23).
Ele obtinha grande êxito com essa tática! E sempre tentará desviar as pessoas do Deus vivo para conduzi-Ias às vozes enganadoras dos "que chilreiam e murmuram" (Is 8: 19)!
Não devemos nos esquecer de que Satanás é capaz de imitar os milagres operados por Deus. Embora sejam apenas imitações, ele pode fazê-Ios parecer genuínos. Em Israel, ele enganou o povo com falsas visões e por meio de adivinhação lisonjeira (Ez 12:24). Futuramente, o Anticristo exercitará o poder satânico de tal maneira que ele dará" espírito à imagem da besta", fazendo-a falar (Ap 13: 15). Se Satanás fez uso de poderes sobrenaturais no passado, colocando o engano na boca dos homens para, se possível, seduzir até os escolhidos, e se agirá dessa maneira no futuro, então com certeza ele opera de igual modo nos dias de hoje. Os ministros de Satanás muitas vezes chegam à condição de ministros da justiça, mas na verdade são lobos devoradores vestidos de ovelhas (Mt 7: 15). Eles se vestem de "manto de pêlos, para mentirem" (Zc 13:4). Temos exemplos suficientes nas Escrituras de que poderes espirituais e invisíveis podem usar a boca das pessoas a fim de proferir coisas ininteligíveis tanto para o orador quanto para os ouvintes. Tais poderes, geralmente, são de origem demoníaca. Para os nossos dias, portanto, as Escrituras não oferece razão alguma para esperarmos sinais e milagres espetaculares operados pelo poder do Espírito de Deus.
Onde se pretendem tais coisas, elas não passam de engano ou são de origem satânica. Talvez sejam palavras duras, mas não podemos concluir outra coisa com base no que diz a Palavra de Deus. Não ponho em dúvida a sinceridade de muitos filhos de Deus envolvidos em movimentos onde se falam línguas. Só Deus conhece e julga os corações. Tais movimentos, porém, não são de Deus. Os seus seguidores, mais cedo mais tarde, se desviarão para ainda mais longe da verdade das Escrituras. Que o Senhor, pela Sua graça, nos guarde de atentarmos para "espíritos enganadores e a doutrinas de demônios" (1 Tm 4:1)!
Para finalizar, gostaria de apresentar um método de apreciação, com base nas Escrituras, que não falha quando se trata de julgar se algo tem origem no Espírito de Deus ou em poderes
malignos: "Quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema! E ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo" (1 Co 12:3).
O Espírito Santo fará sempre tudo para glorificar ao Senhor Jesus e Lhe dar o lugar de domínio no coração dos Seus.
Ele sempre nos levará a dizer: "Jesus é o Senhor!". É precisamente isso que os demônios jamais farão. Tentarão de qualquer maneira dizer: "Jesus é anátema [maldição]" e de desonrá-Lo. Embora digam coisas bonitas a respeito dEle, nunca O reconhecerão na condição de Senhor.
Hoje,no meioda cristandade, estamos ouvindo coisas de arrepiar.Masnão desanimemos! Não precisamos ficar preocupados. O nosso caminho é bem simples. Temos apenas de examinarascoisasà nossa frente. O Senhor Jesus está sendo glorificado por meio delas ou elas estão colocando algo no lugardEle?Estão de acordo com a Palavra ou expressam pensamentos e experiências próprias? Issodecide a questão. Se a glóriada pessoa de Cristo e Seus direitos de domínio forem mantidos e se as pessoas, pela obediência, se curvarem à autoridade de Sua obra e de Sua Palavra, então podemos ter certeza: a coisa em questão é de Deus. Masse descobrirmos que algo não está em conformidade com os Seus pensamentos, distanciemo-nos de tal coisa: "Qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade" (2 Tm 2:19)! "Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes. Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa" (1 Co 15:33-34). Amamos de fato ao nosso Senhor e Redentor? Então, lembremo-nos de Suas Palavras: "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama" (Jo 14:21).
 
Por Christian Briem

 

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Ao receber o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, uma das primeiras coisas que você irá aprender é que Deus é amor. Como resultado disto, você logo perceberá que o amor precisa de uma forma prática para se expressar. Você aprenderá que há uma relação entre amar e dar. Deus é um Deus que nos dá muitas coisas. Amar e dar estão intimamente ligados nas Escrituras. “O Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20), e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16). Continuar Lendo...
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