A RESSURREIÇÃO

Leitura: 1 Coríntios 15: 1-58
 
Em seguida, vamos considerar o vasto tratado sobre a verdade da ressurreição. É majestoso, extensivo, informativo, explanatório e revelador.
Não há nada, em outro lugar nas Escrituras, que se possa comparar a ele. Revela novamente a lógica perfeita, o modo de pensar claro, e a maneira profunda de se expressar, do apóstolo, sob a inspiração do Espírito Santo. Neste tratado Paulo associa história e profecia, o verdadeiro evangelho e o falso, a morte e o triunfo da ressurreição, a maravilha do corpo da ressurreição e a revelação de um mistério, e o triunfo da vida sobre a morte: "Tragada foi a morte na vitória" (v. 54).
O v. 12 revela a situação em Corinto que fez necessária esta exposição.
Parece que havia alguns em Corinto que negavam a ressurreição do corpo. Sua negação se resume na frase: "Os mortos não ressuscitam". Parece que não lhes veio à mente que tal teoria envolvia a ressurreição de Cristo. Paulo não exige a excomunhão de tais pessoas; ele reconhece que a situação toda exige um ensino claro e com autoridade, que recuperaria aqueles contaminados pelo erro. Deve ser evidente a todos que a necessidade vital de nossos dias é de ensino claro e objetivo sobre todas as doutrinas fundamentais, "manejando bem a palavra da verdade", e usando sempre palavras fáceis de serem entendidas. Vamos observar como o apóstolo aborda este problema todo. Ele trata de duas questões: O Fato da Ressurreição (vs. 1 -34); O Modo da Ressurreição (vs. 35-58).
 
O Fato da Ressurreição (1-34)
 
"Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o quel também recebestes, e no qual também permaneceis.
Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão.
Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as
Escrituras, E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze.
Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.
Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.
E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.
Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de
Deus.
Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo.
Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido.
Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição dos mortos?
E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.
E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressiscitam.
Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.
Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem.
Porque assim como a .morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem.
Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.
Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda.
Depois virá o fim, quanto tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força.
Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.
Ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte.
Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que sujeitou todas as coisas.
E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as
coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.
Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam?
Por que se batizam eles então pelos mortos?
Por que estamos nós também a toda a hora em perigo?
Eu protesto que cada dia morro gloriando-me em vós, irmãos, por Cristo Jesus nosso Senhor.
Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam?
Comamos e bebamos, que amanhã morreremos.
Não vos enganeis; as más conversações corrompem os bons costumes.
Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa."
 
O fato foi negado porque não entenderam o modo. Observe como Paulo estabelece o fato da verdade da ressurreição (de Cristo), antes de mencionar a existência de erro em Corinto (v. 12). É assim que se deve tratar com tais ensinos. Ao estabelecer a verdade ele tirou-lhes a base da sua posição. Observe bem o seu método. Ele faz declarações fortes, cheias de autoridade, para estabelecer a verdade da ressurreição de Cristo (vs. 1-11), e então mostra qual seria, doutrinariamente, a terrível alternativa se Cristo não ressuscitara (vs. 12-19). Aqui vemos um verdadeiro mestre trabalhando. Ele é capaz, não somente de ensinar e estabelecer a verdade, mas também de demonstrar o resultado do erro. Ele então passa a demonstrar novamente, com declarações fortes e cheias de autoridade (vs. 20-28)" como o programa profético é baseado na ressurreição de Cristo, e depois revela qual seria a terrível alternativa, moralmente (vs. 29-34). Assim temos uma base para o esboço desta seção, vs. 1-34:
a) A Ressurreição de Cristo vs. 1-11;
b) Os Resultados de Negar a Ressurreição vs. 12-19;
c) A Ressurreição e o Programa de Deus vs. 20-28;
d) A Ressurreição e a Vida Cotidiana vs. 29-34.
 
Ao voltar aos primeiros princípios, e apresentar o evangelho com clareza, Paulo mostra: o que o evangelho significa aos convertidos (vs. 1-2); seu conteúdo básico de morte e ressurreição em relação a Cristo (vs. 3-8); e a relação dos apóstolos ao evangelho (vs. 9-11).
 
Observaremos:
a) Os que Receberam o Evangelho vs. 1-2;
b) O Conteúdo do Evangelho vs. 3-8;
c) Os Pregadores do Evangelho vs. 9-11.
 
1-2. Paulo aproveita a oportunidade para declarar-lhes, ainda outra vez, as características essenciais do evangelho. Ele faz isto porque havia a tendência de se perder de vista o seu tremendo significado.
Três frases relativas estabelecem a validez daquilo que ele pregava; os verbos são importantes:
a) Recebestes: o tempo aoristo (no grego) se refere ao passado, ao ato único de recepção, na ocasião de sua conversão.
b) Permaneceis: o tempo perfeito mostra a posição presente, resultante do ato no passado; o resultado permanente foi que lhes fora dado uma posição inabalável e eterna perante Deus, isto é, tinham segurança eterna.
c) Sois Salvos: o tempo presente indica uma salvação diária; estavam sendo salvos; embora não é ainda completa, há de resultar em uma salvação futura. O significado da salvação não se esgota no ato inicial de fé.
 
Observe a repetição da palavra "também": "o qual também recebestes"; "no qual também permaneceis"; "pelo qual também sois salvos". Receber foi sua resposta à pregação; permanecer e ser salvo dependia desse ato, no passado. Sua experiência, no presente, comprovava a realidade da sua fé. Observe também que a retenção ("se o retiverdes") da doutrina do evangelho era prova da realidade de sua experiência; abrir mão destas coisas provaria que tinham crido em vão, e sendo assim, não teriam sido convertidos.
Negar a verdade da ressurreição, e assim negar o evangelho, provaria que a sua fé não tinha valor algum, nem eficácia, e que realmente não tinha ganho algum para eles. A base da sua fé seria inadequada, e portanto não seria uma fé salvadora. Sua fé teria sido exercitada sem a devida consideração, à toa. Seu crer fora demasiadamente superficial.
 
3. O conteúdo do evangelho agora é expresso. Nos vs. 1-2, ele demonstrou como o poder do evangelho foi visto na própria experiência deles. Eles mesmos eram a evidência viva daquela energia transformadora do evangelho, que alguns deles estavam começando a negar. Isto foi realmente magistral, e a intensão era fazê-los pensar seriamente. Agora ele vai além da sua experiência, e fala do conteúdo do evangelho que ele havia recebido e pregado a eles. Quatro coisas positivas vêm à luz: em primeiro lugar, Cristo morreu; em segundo lugar, foi sepultado; em terceiro lugar, ressuscitou; em quarto lugar, apareceu a muitos. Observe também a repetição de
"segundo as Escrituras", ligado com Sua morte e ressurreição.
Estas coisas foram confirmadas pelas Escrituras proféticas. Além disso, observe o testemunho, numericamente esmagador, da realidade da Sua ressurreição. Este fato foi confirmado por homens confiáveis, e que ainda viviam. Assim, profecia e história se unem para enfatizar a realidade daquilo que havia acontecido.
"Primeiramente" (en protois) quer dizer de importância primária.
Vamos notar atentamente que a mensagem é a declaração daquilo que Cristo fez; o homem não é exortado a fazer coisa alguma.
Os fundamentos básicos são claros: "Cristo morreu" - o fato; "por nossos pecados" - o propósito; "segundo as Escrituras" - o testemunho. Ou também: "Cristo morreu" - história; "por nossos pecados" - doutrina; "segundo as Escrituras" - profecia. É verdade que Cristo morreu, mas a razão por que morreu é de suma importância. Foi "por nossos pecados". Isto quer dizer que Cristo não somente satisfez a Deus e suportou o juízo que os pecados merecem, mas a inserção de "nossos" indica que foi uma morte substitutiva: Ele morreu por nós. Também foi uma morte expiatória: foi por causa dos nossos pecados, tendo em vista a expiação deles; foi um sacrifício pelos pecados, um sacrifício propiciatório pelos pecados. Ele tomou o lugar do pecador e sofreu a morte do pecador, levando sobre Si o juízo do pecador. Tudo isso foi segundo as Escrituras, que tinham predito este acontecimento. Veja o Salmo 22, e especialmente Is. 53:5-12. Muitos dos tipos apresentam esta verdade, por exemplo: a Páscoa, os Sacrifícios, e o Dia da Expiação.
 
4. "Foi sepultado" salienta o caráter final da morte. Foi necessário também para a ressurreição. Foi profetizado em Is. 53:9, e registrado em todos os Evangelhos. A profecia em Isaías é impressionante.
Diz: "Com o rico (singular) na sua morte (plural)". "O , rico" (singular) se refere a José de Arimatéia, em cujo túmulo Ele foi colocado. O plural ("mortes") é muito interessante.
Provavelmente seria o plural de majestade, usado para dar ênfase, para destacar a morte intensa e excepcional do santo Sofredor, e como esta morte serviu para anular completa e adequadamente os efeitos do pecado. A declaração "tem sido ressuscitado" (como deve ser traduzido) está em contraste com as duas declarações anteriores: "morreu" e "foi sepultado", nas quais o tempo aoristo (no grego) foi usado. O tempo perfeito sugere um estado que continua; Ele permanece vivo para sempre; Ele continua no caráter de Senhor ressurrecto. O passivo indica que Ele foi ressuscitado por outra pessoa, isto é, por Deus. Pode-se notar que a pregação apostólica, no livro dos Atos, afirma que Deus O ressuscitou dentre os mortos (2:24; 3:15; 4:10; 5:30; 10:40; 13:30); Paulo afirma que Ele foi ressuscitado pela glória do Pai (Rom. 6:4); e Pedro afirma que Ele foi vivificado pelo Espírito (I Ped. 3: 18). Os Evangelhos dão a impressão que Ele ressuscitou por Sua própria autoridade. Portanto a Trindade toda se envolveu ativamente neste notável acontecimento.
Afirma-se categoricamente que Ele foi ressuscitado ao terceiro dia (veja nota).
Pela segunda vez o trecho afirma que tudo isso foi "segundo as Escrituras". É interessante notar que o Salmo 16 é a Escritura usada, no livro dos Atos, com referência à ressurreição (2:25-32; 13:35), embora Is. 53:10-11 pareça apropriado. Portanto, os fatos são claros. Ele morreu e homens sepultaram-nO; Ele ressuscitou e homens viram-nO. Ele não foi visto no momento de ressuscitar, mas ao terceiro dia Ele foi visto já vivo (veja Luc. 24:21). A evidência da Sua ressurreição está registrada nos Evangelhos: a pedra foi revolvida, o sepulcro estava vazia, os lençóis estavam ali, e o lenço enrolado num lugar à parte. O que não se nos diz, mas também é verdade, é que o selo foi quebrado e os soldados haviam fugido. Sem dúvida, o terremoto foi a causa disto (Mateus dá-nos esta informação em 27:54; 28:2), ou a aparição do anjo (Mal. 28:2). Assim os grandes fatos do evangelho foram revelados, mas quão pouco ouvimos acerca do Seu sepultamento e ressurreição, na pregação.
 
5-8. Agora, nos vs. 5-8, vamos considerar as aparições do Senhor. A maioria das traduções críticas diz: "Ele apareceu", enfatizando assim a Sua ação soberana, Sua escolha de testemunhas. Tudo isto é muito impressionante e real. Apresentam-se mais de quinhentas testemunhas, a maioria das quais ainda estava viva vinte e cinco anos depois do acontecimento. Se o Seu sepultamento foi a prova da Sua morte, Suas aparições foram a-prova da Sua ressurreição. O catálogo é extenso e convincente. Uma ou duas (ou talvez um pouco mais) testemunhas poderiam estar enganadas, mas mais de quinhentas, não. Vamos notar os seguintes fatos sobre as testemunhas: a História é aceita sobre este princípio; a Justiça é executada sobre este princípio; e a Ressurreição é estabelecida sobre este princípio.
Observe também a ausência de mulheres na lista. Isto é interessante, visto que os quatro Evangelhos as mencionam. Convém citar F. F. Bruce: "O testemunho das mulheres, tão destacado nas narrativas da ressurreição nos evangelhos, não é mencionado aqui, provavelmente porque não era aceitável, formalmente, como evidência pública e, se tivesse sido usado, teria desacreditado a ressurreição na mente de muitos". Como nenhuma mulher foi usada para escrever os livros da Bíblia, não se encontra entre os doze apóstolos, e não pode falar nas reuniões da igreja local, assim também nenhuma é citada, especificamente, neste rol de testemunhas públicas. Vamos observar como Paulo apresenta três indivíduos: Pedro, Tiago e a si mesmo; e três grupos: os doze, mais de quinhentos irmãos, e todos os apóstolos.
Para confirmar esta afirmação de que Cristo estava vivo, tão essencial por causa do erro em Corinto, Paulo agora apresenta evidência irrefutável, na pessoa de tantas testemunhas, que ainda estavam disponíveis para dar o seu depoimento de testemunha ocular.
 
Ele a apresenta em estilo simples e paratáctico.
 
a) Cefas: a aparição a Pedro é colocada em primeiro lugar, talvez porque ele era bem conhecido dos coríntios, ou porque o Senhor lhe apareceu no primeiro dia. Vemos isto, claramente, em Lucas 24:34: "Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão". Talvez este lugar de precedência lhe foi dado para convencê-lo que Cristo estava vivo, e prepará-lo para a posição de liderança que ele ocuparia mais tarde. Sem dúvida, a entrevista foi necessária para dar-lhe a certeza de perdão, depois de suas negações e sua deslealdade ao Senhor. Nada está registrado acerca deste encontro. Podemos entender isto. Todos nós temos desapontado o Senhor e temos tido uma entrevista com Ele, e os detalhes são tanto sagrados quanto secretos. Sem dúvida, Pedro ficou profundamente convicto, consolado, animado e encorajado. Nada que viesse a acontecer no futuro poderia perturbar a profunda convicção recebida naquele dia, da realidade da ressurreição do Seu Senhor.
b) Os Doze: este parece ser um termo oficial para descrever o grupo apostólico. Judas tinha-se enforcado, e Matias ainda não fora designado. Se é João 20: 19, etc. que está em vista, então Tomé também estava ausente. O mesmo modo de falar poderia ser usado hoje, se alguém afirmasse que tinha sido entrevistado pelos presbíteros de uma igreja local. Talvez somente alguns deles estivessem presentes, mas representariam todos.
c) Quinhentos Irmãos: não temos nenhuma referência direta a esta reunião, nos evangelhos. Deve ter sido uma ocasião emocionante quando Ele apareceu, de repente, a mais de quinhentos cristãos. Que testemunho poderoso e extraordinário isso teria acrescentado à veracidade da declaração que Cristo estava vivo! E não somente isto, mas também a vasta maioria ainda estava viva, e poderia testificar desta ocasião. "Alguns já adormeceram" é uma referência comovente, e faz-nos lembrar do novo conceito de morte, mencionado primeiramente pelo Senhor (João 11: 11).
d) Tiago: geralmente se entende que este era o irmão do Senhor (Gál. 1:19). João 7:5 afirma que Seus irmãos não creram nEle durante os dias do Seu ministério público. Porém, Atos 1:13-14 mostra a presença dos irmãos, no cenáculo, juntamente com os onze apóstolos. Assim, esta aparição a Tiago o teria convencido da divindade de Cristo, e provavelmente levou à conversão dos outros irmãos. Veja a referência a eles, na exposição de 9:5. A fé deles parece ter sido baseada firmemente na ressurreição do Senhor Jesus. Isto, é claro, significa que aceitaram plenamente tudo que Ele dissera acerca de Si mesmo, e da necessidade de Sua morte.
e) Todos os Apóstolos: refere-se provavelmente à ascensão, Sua última aparição aos apóstolos, e pode ter incluído Matias, que foi escolhido mais tarde como o décimo segundo apóstolo, pelo fato de os ter acompanhado "até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima".
f) Paulo: agora ele apresenta a sua própria experiência na estrada de Damasco, à qual se referiu em 9: 1, para validar o seu apostolado.
"Por derradeiro" indica que ele coloca a sua experiência em pé de igualdade com a dos outros, embora todos eles tenham visto o Senhor na terra, e a aparição a ele foi do céu.
Observe a expressão extraordinária: "como a um abortivo", um nascido fora de tempo. No contexto, associada com "derradeiro" e "o menor", isto mostra o seu profundo senso de humildade. Thomas .Scott tem a seguinte anotação: "Suetônio diz: "No tempo de Augusto, havia uma grande quantidade de senadores , .. a maioria indignos daquela posição ... os quais eram elegidos por favoritismo ou suborno. A multidão os chamava, proverbialmente, de abortivos".
Claramente eram indignos de uma posição tão honrada. É este sentimento de indignidade que Paulo estava expressando. Ele se considerava o menor dos apóstolos, não era digno de ser contado entre eles, porque perseguira a igreja de Deus.
 
9. Agora chegamos ao último parágrafo, os vs. 9-11 - os pregadores do evangelho. No V. 9 a humildade de Paulo é destacada; no V. 10, a graça de Deus e Paulo; no V. 11, os outros apóstolos e Paulo.
No V. 9 encontramos a indignidade de Paulo; no V. 10, a energia de Paulo; no V. 11, a harmonia entre Paulo e os outros apóstolos na sua pregação.
Paulo se considera o menor e mais indigno dos apóstolos, por causa da sua perseguição dos santos antes da sua conversão. A conjunção "porque" se refere ao V. 8, e à referência a "um abortivo".
Nenhum dos outros apóstolos tinha a reputação desagradável de ter sido inimigo e antagonista de Cristo. A recordação do que ele fora, no passado, o mantinha constantemente humilde. O fato de ter sido objeto da graça de Deus, e não de juízo, o humilhou na presença do Senhor. De vez em quando ele menciona esta perseguição (veja Gál. 1: 13; Fi!. 3:6; I Tim. I:13). Deus o havia perdoado, mas dificilmente ele podia perdoar-se a si mesmo. Que cada um de nós nunca se esqueça do que eramos, no passado, e do que somos, agora, pela graça de Deus.
 
10. Neste versículo esc1arecedor vamos observar três coisas: a evidência da graça: "sou o que sou"; o poder da graça: "trabalhei muito mais do que todos eles"; a comunhão da graça: "a graça de Deus, que está comigo" (observe a personificação da graça de Deus na última frase). Tudo o que ele é agora é devido à graça. A transformação na sua vida foi devido a um poder fora dele mesmo; o perseguidor agora era pregador, anunciado a fé que antes destruia (Gál. 1:23). Ao falar do poder da graça, ele nos diz que a doação da graça não foi vã, isto é, improdutiva. Constituiu-o não somente pregador, mas também trabalhador. Ele afirma ter trabalhado mais do que os outros, talvez mais do que todos os outros, porém, para que ninguém o acusasse de gloriar-se, e de desviar-se da posição de humildade, ele se apressa a atribuir tudo isso à graça de Deus.
Trabalhando incansavelmente, ele promovia a causa de Cristo, levando o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido. Quando almas foram salvas e igrejas plantadas, ele assumiu a responsabilidade de cuidar delas; Paulo aparece como um gigante, e nos faz sentir quão pouco temos usado do nosso tempo, e quão pobres são os nossos melhores esforços. Ele então expressa a sua imensa obrigação à graça de Deus. Ele personifica tal graça, mostrando como ela trabalhou ao seu lado, estando ele profundamente cônscio do seu auxílio. Porém não há dúvida que a energia com que antigamente perseguia estava sendo dirigida agora ao serviço do Senhor, para produzir esta quantidade admirável de trabalho. Que o Senhor fale aos nossos corações!
 
11. Mas o importante não era quem trabalhasse mais, mas sim, a harmonia entre os apóstolos. Todos pregavam o mesmo evangelho, o único evangelho autêntico, no qual todos haviam crido. Observe: "pregamos ... haveis crido". A fé, isto é, o crer, é a resposta normal à pregação. Assim, ele expôs plenamente o evangelho, estabeleceu a verdade da ressurreição, e demonstrou que todos os apóstolos estavam unidos em pregar este evangelho. Somente podemos admirar uma exposição tão convincente. Ele ainda não mencionou a razão por todo este ensino - a presença entre eles daquilo que destruiria o verdadeiro evangelho; isto ele fará no V. 12.
 
12-13. Agora Paulo passa a demonstrar a terrível alternativa se esta falsa doutrina fosse verdade. O horrível catálogo mostra como este ensino enfraquece os fundamentos do evangelho. Passo a passo ele demonstra a futilidade desta doutrina, a difamação do caráter de Deus, a perda de segurança presente e esperança futura, e o desespero que finalmente produz. Por alguma razão eles não perceberam que negar a ressurreição do corpo seria igual a negar a ressurreição de Cristo, e se este último fosse verdade, o evangelho todo seria destruído. Esta seção revela a posição central que a ressurreição de Cristo ocupa na doutrina cristã, tanto no fato quanto na pregação.
Em primeiro lugar, vamos contrastar os pontos de vista das duas doutrinas (vs. 12-13), e então classificar os resultados catastróficos da aceitação deste ensino (vs. 14-19). Como verdadeiro ensinador, ele não somente declara a verdade do evangelho (nos vs. 1-11), mas também mostra os resultados devastadores que inevitavelmente viriam da aceitação desta doutrina errônea (nos vs. 12-19).
Observemos que no V. 12 Paulo argumenta do ponto de vista do evangelho: "se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos", enquanto que no v. 13, ele argumenta do ponto de vista do erro: "se não há ressurreição de mortos". Ele faz isto por dois motivos: em primeiro lugar, o V. 12 declara a dedução do ensino dos vs. 1-11, isto é, que prega-se Cristo ressurrecto dentre os mortos e, portanto, que seria ilógico sustentar que não há ressurreição de mortos; em segundo lugar, no V. 13, ele chega à conclusão de que, se esta doutrina é verdade, então Cristo também não ressuscitou; isto o leva a mostrar os tristes resultados que seguem. Seu raciocínio, então, é o seguinte: se Cristo ressuscitou, segue-se que outros podem ser ressuscitados (v. 12); negar que outros ressuscitarão (v. 12), inclue negar a ressurreição de Cristo (v. 13). Em seguida, ele indica sete coisas que seriam verdade se Cristo não estivesse vivo.
 
14-19. O que ele apresenta agora é de longo alcance, com conseqüências finais na eternidade. É uma leitura muito solene, e deve convencer-nos plenamente da necessidade de defender o verdadeiro evangelho, e do perigo de mexer com o seu conteúdo fundamental.
 
Lógica e conscienciosamente ele se esforça para expor a natureza e loucura deste ensino.
 
a) Pregação: "vã" (kenos) se encontra, em primeiro lugar, na declaração: "vã é a nossa pregação". A palavra quer dizer vazia, pois se Cristo não ressuscitou a mensagem não teria mais substância, realidade, nem conteúdo verdadeiro. Seria sem sentido e não teria valor verdadeiro. Soaria como uma coisa oca, seria apenas um logro. Que loucura seria pregar acerca de um homem que jaz morto em um sepulcro.
Fé: a fé toma caráter da mensagem que se crê. Se a pregação carece de qualidade e substância, então a fé colocada nela também não tem valor real. Se tirarmos a verdade da ressurreição da pregação, então a fé colocada em tal mensagem não terá mais valor. Tudo será em vão.
Falsas Testemunhas: esta declaração de Paulo é surpreendente.
Uma falsa impressão de Deus tinha sido dada na pregação. O caráter divino tinha sido falsificado. Os pregadores foram "considerados", isto é, expostos, descobertos, desmascarados, como enganadores e mentirosos. Haviam anunciado, publicamente, que Deus ressuscitou a Cristo, que não seria a verdade, seria contrário ao fato, se Cristo nunca tivesse ressuscitado.
Eram falsas testemunhas de (com respeito a) Deus, havendo testificado de (contra) Deus, dizendo que Ele fez o que realmente não tinha feito, se não há ressurreição. Na verdade era um ataque contra a honra e integridade de Deus. Se os apóstolos não eram de confiança nesta questão fundamental, como poderiam ser de confiança em outras questões? Convém mostrar um outro resultado também. Todo aquele que, hoje, nega a ressurreição corporal do Senhor Jesus, defende esta posição, contra o testemunho dos apóstolos e de outros e, por insistir
nesta negação, está dizendo que todos os que viram o Senhor ressurrecto (vs. 5-8) são mentirosos. Vamos basear-nos, firmemente, na fidelidade e veracidade do testemunho apostólico.
Fé: ele já afirmou, no V. 14, que a fé seria vã, mas aqui no V. 17 ele usa uma palavra diferente: mataios, que significa inútil.
Seria fútil, infrutífera, sem efeito. A intenção da fé é trazer-nos benefício, porém isto será impossível se o objeto da fé (Cristo) está morto. A próxima afirmação mostrará que este ensino nos deixa justamente onde nos encontrou, e o processo todo é uma ilusão.
Nos vossos pecados: a falta de resultados se vê em que ainda estaríamos em nossos pecados - sem salvação: nenhuma ressurreição indica nenhuma expiação. Negar a doutrina da ressurreição do corpo é igual a negar a doutrina da expiação. Um Salvador morto não serve para ninguém. Se fosse verdade, não haveria nenhuma esperança de perdão, remissão, ou vida eterna. A ressurreição é o Amém de Deus para Cristo, e Sua obra realizada lá na cruz. Ele é vindicado pela ressurreição.
f) Estão perdidos: estas palavras, expressas de uma maneira franca e simples, com todas as suas implicações terríveis, significam que, se Cristo não ressuscitou, aqueles que confiaram nEle estão no inferno. Pereceram no momento em que dormiram.
Se Cristo não ressuscitou para a sua justificação (Rom. :25), então eles não têm nenhum Advogado perante o tribunal de Deus. Que alternativa terrível! Vamos dar graças a Deus por isto não ser verdade. Se estavam "em Cristo", embora "dormindo", poderiam ter a certeza de ressuscitar, porque "os que morreram em Cristo ressuscitarão" (I Tess. 4: 16).
g) Miseráveis: "miserável" quer dizer simplesmente lastimável.
Negar a ressurreição significa que fomos logrados, enganados, seduzidos. Temos renunciado este mundo para ganhar um outro mundo mas, se Cristo não ressuscitou, não temos garantia alguma deste outro mundo. Temos perdido o gozo de ambos os mundos. Estar pronto para sofrer vergonha por amor de Cristo, ou padecer afronta pelo Seu nome é tudo em vão, se no fim estivermos perdidos. Os mártires morreram em vão, sofrendo
por uma causa perdida. Se a nossa esperança em Cristo somente existe nesta vida, se não há mais nada além disso, nenhum céu além túmulo, se todas as nossas esperanças hão de perecer com a morte, que loucos teremos sido!
Assim Paulo demonstrou, plenamente, a loucura deste ensino.
Tal mensagem não seria boas novas, seria más novas. Observe os terríveis resultados:
a) Pregação vazia.
b) Fé vã.
c) Pregadores mentirosos.
d) Fé inútil.
e) Sem salvação.
f) Santos falecidos perdidos.
g) Santos vivos logrados e enganados.
 
Paulo agora falará da certeza da ressurreição de Cristo e das suas conseqüências benditas.
 
20. Havendo esmagado e demolido, totalmente, o erro que se espalhava entre eles, Paulo volta, agora, à verdade firme e certa que Cristo está vivo. Nos vs. 1-11, ele estabeleceu a verdade da Sua ressurreição; depois, nos vs. 12-19, ele combateu o erro que estava sendo espalhado, mostrando os resultados deste ensino falso. Agora, nos vs. 20-28, ele começa a construir sobre o fato provado da ressurreição de Cristo. Em primeiro lugar, ele trata da certeza da ressurreição para o crente (nos vs. 20-22), depois ele esboça o programa de Deus, baseado na ressurreição de Cristo (nos vs. 23-28).
Todos os propósitos de Deus estão baseados sobre este ponto focal.
Ele agora vai ensinar por analogia: em primeiro lugar, do conceito de primícias, e em segundo lugar, de Adão e Cristo.
Aqui, no V. 20, temos o brado de triunfo e vitória, quando Paulo reafirma a verdade gloriosa da ressurreição de Cristo: "Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos". "Mas" é adversativo, destacando o contraste; "agora" é lógico, mostrando como as coisas são; "ressuscitou" está no tempo perfeito - Ele continua, sempre, naquele estado de ressurrecto; "e foi feito" deve ser omitido. Ao falar de Cristo como as "primícias", Paulo está pensando em Lev. 23:10-11, onde o feixe das primícias era oferecido ao Senhor, "ao seguinte dia do sábado", isto é, no primeiro dia da semana. Muito significante! Isto garantia o resto da ceifa. Portanto temos aqui dois pensamentos: foi o primeiro feixe da ceifa, e o penhor daquilo que havia de seguir. Cristo é as Primícias, de ambas as maneiras. Alguém poderia perguntar, como pode Ele ser o primeiro a ressurgir quando outros já ressuscitaram antes dEle? É verdade que outros ressuscitaram antes dEle, por exemplo, o jovem de Naim (Lucas 7), Lázaro (João 11), mas eles ressuscitaram para morrer novamente; seus corpos foram ressuscitados para continuar a sua vida na terra.
Cristo foi o primeiro que ressuscitou em poder e glória, vivo para todo o sempre, no Seu corpo glorificado.
Cristo é descrito como "as primícias", e também como "o primogênito".
"Primícias" se refere à tempo, enquanto que "o primogênito dentre os mortos" (Col. 1: 18) se refere à dignidade, prioridade e preeminência. Também, como as primícias, a Sua ressurreição garante a nossa ressurreição. Tão certamente como Ele ressuscitou e permanece naquela condição, assim também será conosco.
Sua ressurreição é o penhor e a prova da nossa ressurreição.
 
21. Havendo estabelecido e declarado, plenamente, que a verdade da ressurreição está provada em Cristo ressurrecto, Paulo agora passa a mostrar o contraste entre os dois homens, Adão e Cristo. "A morte veio por um homem (Adão)". Observe que o que se tem em vista aqui é o agente: foi por meio de um homem (Adão) que isto aconteceu. Vemos com clareza que o homem é o responsável pela introdução da morte; seu ato de pecado fez com que a sentença fosse pronunciada por Deus (Gên, 2: 17). Em contraste com Adão há um outro homem, Cristo, em quem foi ordenado que o poder da morte fosse quebrado, totalmente, pela ressurreição. Como o pecado de Adão, que trouxe a morte, teve conseqüências terríveis, assim também a ressurreição de Cristo, que trouxe vida além da morte, terá conseqüências de grande alcance. A segunda expressão, "por um homem", se refere à verdadeira humanidade de Cristo, lembrando-nos da realidade da encarnação. Parece haver uma certa
eqüidade nas expressões: como um homem trouxe a morte, convinha que a ressurreição também viesse por um homem. Este versículo trata das implicações da entrada do pecado quanto ao corpo, morte e ressurreição; muito mais está incluído, que não é mencionado aqui. O que se salienta é a interrupção da seqüência da morte por uma outra força, uma outra energia, manifesta na pessoa de Cristo e no estupendo acontecimento da Sua ressurreição.
 
22. Vamos notar a presença do artigo (no grego) antes dos nomes: "o Adão", "o Cristo". Isto indica liderança: Adão, em relação à antiga criação, e Cristo, em relação à nova. O que se salienta é a solidariedade de cada raça com sua respectiva cabeça. Observe também a mudança de preposição: no v. 21 é dia, indicando agente; aqui é en, expressando associação. O primeiro "todos" se refere a toda a humanidade que se encontra associada com Adão; o segundo "todos" refere-se somente aos cristãos, os quais agora são vistos "em Cristo". Alguns têm procurado fazer ambos co-extensivos, o que sugeriria universalismo. Devemos notar que a expressão "vivificados", nunca é usada de descrentes. Veja João 5:21; 6:63; Rom. 8:11; I Cor. 15:45. É verdade que Cristo ressuscitará toda a humanidade (João 5:28-29) em tempos diferentes, mas nesta passagem vemos somente os cristãos, aqueles que estão "em Cristo".
 
23. Agora Paulo mostra, de maneira resumida, como o programa profético é baseado na ressurreição de Cristo. Ele revela a seqüência dos acontecimentos:
a) A ressurreição de Cristo, as Primícias.
b) A parousia, a vinda, abrangendo "os que são de Cristo".
c) O fim, que nos leva até à chegada do estado eterno, quando Cristo, como o Executor divino, entrega o reino a Deus Pai, havendo realizado, perfeitamente, os propósitos do Deus triuno.
 
Vamos observar que a nossa posição presente está entre a ressurreição de Cristo e a parousia. Observemos também que todo o programa profético se estende da Parousia (I Tess. 4: 16-18) até ao "fim". (Parousia quer dizer não somente a vinda, mas também a presença, depois; era um termo técnico usado para indicar a vinda do Senhor.) Convém insistir, novamente, que todo este programa, quanto a sua realização, depende da ressurreição de Cristo. Fica claro que o apóstolo não entrou em detalhes quanto ao programa.
Ele leva nossos pensamentos para além da parousia, até ao fim, omitindo qualquer referência à tribulação, aos detalhes sobre a vinda pública de Cristo, às condições durante o milênio, e à rebelião final (Apoc. 20:7-10).
O Senhor é, novamente, mencionado como sendo as primícias, título bem apropriado no contexto da ressurreição. Este título dános a certeza constante de que, como Ele ressuscitou, nós também ressuscitaremos. Ele está sozinho nesta "ordem", porquanto a Sua ressurreição foi singular e única. O termo "os que são de Cristo" se refere a todos os que pertencem a Ele; pode incluir os santos do VT. Se forrem incluídos, então eles ressuscitarão no arrebatamento, juntamente com a Igreja, pois "eles sem nós" não podem ser aperfeiçoados (Heb. 11:40). O tempo da ressurreição dos santos do VT tem sido a causa de muita polêmica, e portanto não convém sermos dogmáticos. Os que defendem a idéia de que Dan.12:2 trata de uma ressurreição física, provavelmente diriam que esta ressurreição acontecerá quando o Senhor vier para estabelecer o Seu reino.
 
24. "O fim" parece referir-se ao fim' da ordem deste mundo, à consumação de todas as coisas, definida, aqui, como o tempo quando Cristo "tiver entregado" (o verbo, no grego, está no tempo presente, entrega) o reino. A mudança do presente para o aoristo (no grego), em "quando houver aniquilado", indica que o "aniquilar" precede o "entregar". "Todo o império, e toda a potestade e força", se refere àquilo que é humano ou satânico; "aniquilar" (katargeo) quer dizer abolir, tornar ineficaz, anular toda a forma de oposição. Isto incluiria o que há de acontecer quando Ele estabelecer o Seu reino, e também a Sua vitória na última rebelião registrada em Apoc. 20:7-10. Quanto à esfera humana, "império" abrange todo tipo de governo que este mundo tem conhecido, de ditadura até democracia. "Potestade" se refere àqueles que exercem o "império", àqueles que ocupam posições de autoridade sobre uma determinada nação. "Força", indica os meios pelos quais aquele império se mantém, isto é, através das forças policiais e armadas. Todas as pessoas que exercerem um papel tão proeminente nos "últimos tempos" serão julgados e condenados, tais como a Besta, o Falso Profeta, o Rei do Sul, o Rei do Norte, o Assírio, Gogue e Magogue, e outros. Na esfera espiritual, o império satânico se refere aos demônios sob a autoridade de Satanás, aos quais certas áreas foram concedidas onde podem exercer a sua influência maligna sobre as nações; veja Dan. 10: 13: "o príncipe doreino da Pérsia". O que se enfatiza, aqui, é o fato do julgamento destas potestades, não os meios pelos quais serão julgados.
 
25-26. A declaração: "convém que reine" é muito consoladora.
Deus tem decretado isto, e nenhum poder poderá impedi-lo, A palavra "convém" indica a sua certeza e inevitabilidade. Finalmente Cristo há de tomar Seu verdadeiro lugar: "reinará um Rei com justiça" (Is. 32: 1). Como Filho de Abraão, Ele tomará posse da terra de Israel; como Filho de Davi, Ele tomará posse do trono; como Filho do Homem, Ele tomará posse da terra. A mesma coisa que se afirma de Deus, no Sal. 110: 1, se diz, aqui, de Cristo. "Debaixo de Seus pés" indica vitória e supremacia total; Ele é Senhor, sem rival.
Nenhum poder pode oferecer resistência a Ele. Certamente tudo isto há de acontecer. Em dias como estes, quando o mal é tão dominante e agressivo, como é bom compreender esta grande verdade, que o que Deus tem determinado, sem dúvida será realizado. O último inimigo, a morte, também será privado do seu poder. Aqui, a morte está separada de todos os outros inimigos, como um inimigo independente, cujo poder vem se espalhando, universalmente, desde o princípio: "Não haverá mais morte" (Apoc. 21 :4). Tudo o que for estabelecido por Deus no estado eterno está além do alcance da morte; é uma cena de imortalidade onde a vida eterna reina suprema.
Apoc. 20: 14 indica o caráter final do juízo da morte: "a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo". Devemos notar que II Tim. 1:10 afirma que um dos resultados da primeira vinda de Cristo foi que Ele "aboliu" a morte, referindo-se à Sua vitória sobre ela, na ressurreição. A morte foi vencida em favor do cristão.
 
27-28. Talvez convém definir as pessoa indicadas pelos pronomes, nestes versículos: "Porque todas as coisas (Ele, Deus) sujeitou debaixo de Seus (de Cristo) pés. Mas quando (Ele, Deus) diz que todas as coisas Lhe (Cristo) estão sujeitas, claro está que se excetua aquele (Deus) que (a Cristo) sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas Lhe (a Cristo) estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele (Deus) que todas as coisas Lhe (a Cristo) sujeitou, para que Deus seja tudo em todos". Observe também que, no V. 27, as expressões "sujeitou", "estão sujeitas", e "sujeitou", são o mesmo verbo que é traduzido "estiverem sujeitas" e "sujeitou" no V. 28. A primeira declaração do V. 27 é uma citação do Salmo 8:6: "Tudo puseste debaixo de seus pés", que se refere à supremacia do homem (Adão) sobre a criação; aqui, se refere diretamente a Cristo. "Todas as coisas" indica um alcance universal, com uma única exceção, o próprio Deus. Convém observar, aqui, as mudanças nos tempos dos verbos: "todas as coisas sujeitou debaixo de Seus pés" sendo aoristo (no grego) indica um ato completo, uma vez por todas, de sujeição; "Lhe estão sujeitas", perfeito, indica que a sujeição continua permanentemente; "aquele que Lhe sujeitou todas as coisas", outra vez aoristo, se refere à primeira declaração. Soberania universal pertence a Cristo, porém não interfere com, nem prejudica, a soberania do Pai. O V. 28 dá o pensamento final de todo este esquema. Agora vemos que o próprio Filho se sujeitará a Deus. Ele agora se coloca em sujeição a Deus, estando a Sua obra, como Executor divino, completa, e estando toda a criação, que antes andava afastada de Deus, reconciliada com Ele.
Alguns acham dificuldade com esta expressão, mas se observarmos que a sujeição é administrativa, e não essencial, tudo fica claro. Ela se refere a uma posição oficial, e não a um relacionamento. Ele está oficialmente subordinado, e continuará assim no estado eterno, como o Administrador divino exercendo o governo como Cabeça.
Sujeição, neste sentido, não afeta a igualdade da Sua natureza.
Afinal, ao tomar o lugar de Servo, o Senhor foi levado, em sujeição ao Pai, a fazer a Sua vontade. W. Hoste, em Bible Problems and Answers, pág. 340, tem uma observação interessante: "A ordem exata das palavras é: Então também (então, como antes) o próprio Filho será sujeito, para que Deus seja (não se tome) tudo em todos".
Agora tudo será de acordo com a vontade divina. Deus e a Trindade toda descansará num repouso imperturbado, todo inimigo
tendo sido aniquilado, e toda a criação entrará nas condições eternas - as lutas e conflitos da terra estarão terminados para todo o sempre.
 
29. Nos vs. 29-34, Paulo mostra a loucura de continuar na vida cristã, se não há vida após a morte. Seria totalmente ilógico continuar a sofrer como cristão, suportando aflição e vitupério, se os mortos não ressuscitam! Por que não aproveitar a vida, como os outros, e satisfazer todos os desejos ao máximo, pois se não há ressurreição dos mortos, este será o único céu que haveremos de conhecer.
Ele fala desta possibilidade, primeiramente, com referência ao batismo (v. 29); depois, com referência aos sofrimentos (vs. 30-32); e finalmente, com referência aos princípios morais (vs. 33-34).
Este versículo é considerado um dos mais difíceis na epístola, e em todo o NT. Existem muitas interpretações (veja nota abaixo), e portanto vamos limitar-nos ao que acreditamos ser o significado.
 
Vamos observar três coisas na expressão; "os que se batizam pelos mortos":
1-"Batizar-se" refere-se a batismo em água. Está ligado com a conversão, e significa que o crente está tomando o seu lugar,
publicamente, como cristão.
2-"Mortos" se refere àqueles que estão mortos fisicamente. Este é sempre o significado da palavra, no capítulo todo.
3-"Pelos" deve ter um sentido de substituição: "em lugar deles".
A preposição huper 'tem este sentido de substituição em João 10: 11, 15; Rom. 8:32.
 
Juntando as observações acima, o versículo indica que, com a passagem do tempo, crentes morreram, outros foram convertidos e batizados, e são vistos como preenchendo as brechas nas fileiras, e assim o conflito do evangelho se mantém e continua. Porém não haveria sentido em continuar assim, se os mortos não ressuscitam.
Seria como um exército substituindo, constantemente, os seus mortos com novos recrutas, enquanto continuasse a pelejar por uma causa perdida. Foi dito que os vs, 20-28 poderiam ser colocados entre colchetes, e assim o V. 18 estariaria ligado ao V. 29, e o V. 19 ao V. 30. As pessoas mencionadas no v. 29 não acreditam que seus entes queridos tenham perecido, e portanto eles avançam para tomar o lugar deles, e continuam o testemunho no lugar daqueles que faleceram.
No V. 30, o próprio Paulo está pronto a continuar arriscando a sua vida no serviço do Senhor, porque ele não crê que temos
esperança em Cristo somente nesta vida (v. 19). Assim, por sua ação, os que "se batizam pelos mortos" estão declarando resolutamente a sua fé na verdade da ressurreição.
 
30. Paulo continua, nos próximos versículos, a demonstrar a loucura de continuar a arriscar a vida se não há ressurreição. No V. 29 ele mostra a loucura de ser batizado e continuar o testemunho de Deus.
Aqui, no V. 30, ele indica a falta de sabedoria e prudência daqueles que estão prontos a arriscar a vida por Cristo, se os mortos não ressuscitam.
Passagens tais como II Cor. 1:8-9; 4:8-12; 11:23-27 nos mostram, claramente, as aflições constantes que o apóstolo suportou.
Se os mortos não ressuscitam, tudo era em vão.
 
31. Este versículo poderia ser traduzido: "Juro, pela alegria que tenho em vós em Cristo Jesus nosso Senhor, que morro, diariamente".
É interessante notar o prazer que Paulo tinha neles, apesar de tantas coisas que o desapontavam. A expressão "cada dia morro", fala de morte física e não moral. Cada dia da sua vida ele enfrentava a probabilidade de morte; cada dia que chegava poderia ter sido o seu último dia aqui na terra. Tal era a sua consagração diária, no serviço de Cristo, que ele estava constantemente em perigo.
Ele declarou, "em nada tenho a minha vida por preciosa" (Atos 20:24). Ficamos admirados diante de tanta coragem e devoção sacrificai: "Eu estou pronto não só a ser ligado, mas, ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus" (Atos 21: 13).
 
32. Parece que Paulo estava usando linguagem figurada, porém surpreendente e nítida. Ele se refere aos seus inimigos como "bestas". Isto indica a ferocidade deles; como eles o teriam destruído; que eram cruéis, sem coração e sem consciência. Homens satanicamente inspirados são vistos como selvagens e insensíveis. A questão é clara: por que sofrer tais aflições terríveis se não há futuro?
Por que não, diz Paulo, citando Is. 22: 13: " ... comamos e bebamos, que amanhã morreremos"? Veja também Is. 56: 12; Ecl. 2:24; Lucas 12: 19. Se não há vida futura, então a presente vida, quanto à disciplina e moralidade, perde todo o seu valor e qualidade.
"Vamos viver e nos satisfazer ao máximo, se os mortos não ressuscitam". Podemos perceber a lógica disso, mas que existência sem esperança! Vamos dar graças a Deus porque isso não é verdade.
Podemos viver a vida, ao máximo, por Cristo agora, e "o futuro será ainda melhor".
 
33. Agora Paulo quer convencê-Ios da necessidade de evitar associarem-se com pessoas que propagam o erro. A palavra traduzida "conversações" pode significar também "companhia" ou "associação". Talvez ela abranje as duas idéias, pois os ajuntamentos de tais pessoas servem para espalhar a má doutrina. A repetição freqüente do erro expõe até os sãos na fé ao perigo de serem logrados e enganados. Ethos ("costumes") indica aquilo que é fixo ou costumeiro, e daí indica hábitos, maneiras, ou caráter. Más companhias destroem os bons princípios morais; más amizades destroem vidas úteis. Por sermos sempre influenciados pelas pessoas com quem nos associamos, convém evitar contato com homens maus e com falso ensino. Tal ensino não promove a santidade. A doutrina e a prática estão intrinsicamente ligadas. Má doutrina leva ao pecado; em contraste, devemos seguir a justiça e não pecar; veja o V. 34.
 
34. O significado deste alerta: "Despertai para a justiça e não pequeis"(VB), se encontra no verbo despertar, que quer dizer
"tornar-se sóbrio". O aviso para voltar a si, de um estado de intoxicação, indica o efeito do falso ensino. Estavam num tipo de estupor, inconscientes do prejuízo que estavam sofrendo. O imperativo presente, "não pequeis", quer dizer que estavam sendo desviados do caminho da santidade. Quão sério foi mexer com esta nova doutrina, esta forma do erro. Os "alguns" que "não têm o conhecimento de Deus", se refere aos' ensinadores da falsa doutrina. Deve ser traduzido: "alguns são ignorantes de Deus". A nova doutrina não era conhecimento superior, mas estava baseada na ignorância.
Era pseudo-intelectualismo. Seus expositores eram lobos vestidos como ovelhas, que tinham se introduzido, furtivamente. Ao esclarecer a verdadeira posição, e expor estes homens, Paulo tinha a intenção de fazer os coríntios sentir-se totalmente envergonhados por terem tolerado tais pessoas: "digo-o para vergonha vossa".
Assim chegamos ao término desta longa seção, convencidos em nossas almas da verdade da ressurreição de Cristo, e do que ela significa para todo o cristão, e da sua profunda e fundamental importância para a superestrutura de graça e glória que Deus está edificando.
O apóstolo tem habilmente estabelecido a verdade e demolido o erro, assim confirmando os santos na sua fé em Cristo e na Sua ressurreição, e na esperança da sua própria ressurreição, se viessem a morrer. Porém, ele tem ainda mais a dizer a respeito da ressurreição do corpo e da vitória que será plenamente demonstrada.
 
NOTAS ADICIONAIS:
2. Três palavras são traduzidas "vão": eike, significando "sem propósito, não conseguindo nada, sem valor" (v. 2); kenos, significando "vazio, oco, sem substância, improdutivo" (vs. 10, 14, 58); mataios, significando "carecendo de resultado, inútil, sem sentido" (v. 17).
É notável que o testemunho consistente depois da ressurreição é que aconteceu ao terceiro dia (Lucas 24:7, 21). Antes da ressurreição, o terceiro dia é mencionado em Mat. 16:21; 17:23; Lucas 9:22; 18:33. A expressão "depois de três dias" ocorre em Mat. 27:63; Mc. 8:31; 9:31 (ARA); 10:34 (ARA). Porém Paulo enfatiza que "ressuscitou ao terceiro dia".
Parousia: veja os comentários que explicam esta palavra em Conheça a Sua Bíblia, Vol. 11, pág. 167.
"A Deus, ao Pai", seria melhor traduzido "a Deus Pai". A tradução "A Deus, ao Pai" pode ser mal compreendida, sugerindo que somente o Pai é Deus, o que não é verdade, e não seria sã doutrina.
"Quando tiver entregado o reino" se refere ao Seu reino mediador, que será a expressão, durante 1000 anos na terra, de um reino cujos princípios são eternos. É muito interessante notar como em Apoc. 20:2-7, pela primeira e última vez, se diz que o reino será de 1000 anos. Isto é muito surpreendente. O reino sempre fora designado "eterno" (Dan. 2:44; Lucas 1:33; II Ped. 1:11; Apoc. 11:15).
Alguns eruditos calculam que há mais de trinta explicações deste versículo.
Não é possível enumerar todas aqui, mas podemos mencionar algumas.
As outras se encontram nos comentários mais antigos.
i) Se refere à prática de batizar em prol de alguém que tinha morrido sem ser batizada. Uma forma de batismo por procuração ou batismo vicário é postulada. Não existe nenhuma evidência de que tal prática existisse nos tempos apostólicos.
ii) Se refere ao significado simbólico do batismo: se não há ressurreição, o batismo é um rito sem sentido. Assim a frase seria traduzida: "os que se batizam como estando mortos". É muito duvidoso se a preposição huper pode ser traduzida desta maneira. Além disso, seria necessário interpretar a palavra "mortos" metaforicamente na primeira frase e literalmente
na segunda, pois "os mortos" na expressão: "se absolutamente os mortos não ressuscitam", são, evidentemente, mortos fisicamente.
iii) Há alguns, W. E. Vine por exemplo, que mudam a pontuação para dizer: "Doutra maneira, que farão os que se batizam? É pelos (isto é, nos interesses dos) mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam. Porque se batizam então por causa deles?"
iv) Outros defendem a idéia de que "os mortos" são crentes que faleceram e cujas vidas e testemunhos têm falado aos seus contemporâneos; e como resultado, alguns foram salvos, e estão sendo batizados "por causa" daqueles cuja influência os trouxe a Cristo.
 
O Modo da Ressurreição (vs.35-58)
 
"Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?
Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.
E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como de trigo, ou doutra qualquer semente.
Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo.
Nem toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra a carne dos animais, e outra a dos peixes, e outra a das aves.
E há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres.
Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória doutra estrela.
Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção.
Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeiase em fraqueza, ressuscitará com vigor.
Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual.
Se há corpo animal, há também corpo espiritual.
Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.
Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual.
O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor é do céu.
Qual o terreno, tais são também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais.
E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.
E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção.
Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revista da imortalidade.
E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que e mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está esscrita: Tragada foi a morte na vitória.
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?
Ora o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.
Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor."
 
Agora o apóstolo deixa o fato da ressurreição e passa a considerar o modo da ressurreição. Ele vai apresentar a natureza do corpo na ressurreição. Ao começarmos a pensar em ressurreição, uma multidão de perguntas inunda a nossa mente. É necessário disciplinar nosso pensamento, levando em consideração a verdade de Deut. 29:29: "As coisas encobertas são para o Senhor nosso Deus, porém as reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre". A primeira parte do versículo mostra os limites da revelação divina. Há certas coisas que não se fazem conhecer, "coisas encobertas", não reveladas. Devemos aceitar plenamente esta situação, e não permitir que a nossa imaginação tome conta, pois há muitas coisas que gostaríamos de entender. A segunda parte do versículo mostra a extensão da revelação divina. Devemos procurar entender plenamente tudo que foi revelado, e assim nos alegrar e folgar na vasta riqueza de verdade que nos foi comunicada. Isto exige pensamento disciplinado.
A pergunta poderia ser feita: Por que é necessário a ressurreição do corpo? Por que não podemos estar no céu, perfeitamente
felizes naquele ambiente, no mesmo estado em que estão os santos que já faleceram? Convém observar que, num certo sentido, "incorporação é o alvo dos caminhos de Deus". É o propósito de Deus que a pessoa inteira, corpo, alma e espírito, seja reunida, para que seja visto que a redenção foi da pessoa inteira. Suponhamos que Cristo nunca tivesse ressuscitado no Seu corpo. Sua alma e Seu espírito estariam livres, mas Seu corpo ainda estaria preso na morte.
A vitória então seria apenas uma vitória parcial, dois terços de uma vitória, pois a morte ainda dominaria sobre o corpo. Portanto, o corpo do crente precisa ser ressuscitado. Não somente cremos no perdão dos pecados e na vida eterna, mas cremos também na ressurreição do corpo. Além disso, os seguidores da filosofia gnóst ica ensinavam que o corpo é totalmente mau, e que não há possibilidade de ressuscitá-Ia. Para eles, somente o espírito era bom, e vida, agora como no futuro, era puramente espiritual. Paulo recusa, totalmente, aceitar esta idéia, e afirma que o corpo será ressuscitado.
Talvez também houvesse o ensino que diz que o corpo presente será reconstruído, na ressurreição. Esta idéia também deve ser rejeitada.
Não cremos na ressurreição do corpo simplesmente para retomar uma existência puramente material. Cremos na transformação do corpo. Não cremos que o corpo, decaído e decomposto, será reajuntado usando as mesmas partículas materiais, para viver e retomar sua existência anterior. Cremos na ressurreição do corpo para que este se tome um novo órgão da vida espiritual.
Ao tratar agora da natureza do corpo da ressurreição, ele emprega uma variedade de analogias para enfatizar a diferença entre este corpo e aquele corpo (vs. 35-41); depois, ele mostra claramente a transformação do corpo (vs. 42-45); e finalmente, mostra-nos o padrão que será observado (vs. 46-49).
Convém observar como as implicações destes versículos nos conduzem até o V. 42: "Assim também a ressurreição dos mortos". A verdade ilustrada por estas analogias se associa com o corpo da ressurreição.
Paulo seleciona suas ilustrações da botânica, isto é, do reino vegetal (vs. 36-38); depois da zoologia, o reino animal (v. 39); e finalmente, da astronomia, o reino celestial (vs. 40-41).
 
Observe também o seguinte:
VS. 36-38 identidade com diferença;
V. 39 corpo correspondente à esfera;
V. 40 glória correspondente à esfera;
V. 41 glória correspondente ao corpo.
 
Como foi dito acima, estas verdade se relacionam com o corpo da ressurreição.
 
35. Aqui Paulo antecipa duas perguntas que alguém de opinião contrária poderia levantar. É como se alguém dissesse: "O senhor já provou o fato da ressurreição; informe-nos então: como é que os mortos serão ressuscitados? e que tipo de corpo teremos na ressurreição?"
A primeira pergunta levanta o problema da mecânica do processo; a segunda, trata da forma que o corpo terá naquele dia. A
primeira pergunta parece significar: em que condição é que os mortos serão ressuscitados? mais do que: de que maneira? ou: por qual meio? Como pode um corpo, que já se desintegrou, ser reconstruído? Em outro lugar Paulo desafia tal atitude: "Pois quê? julgase coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?" (Atos 26:8). Ainda existem pessoas, mesmo entre os cristãos, que estão perplexas acerca de como a ressurreição será possível no caso de corpos que foram perdidos no mar, despedaçados em explosões, ou cremados. Certamente Aquele que criou e sustém o universo, não terá dificuldade com tais problemas! A segunda pergunta é: "Se os mortos vão ressuscitar, que tipo de corpo é que possuirão na ressurreição?" Paulo começa agora a responder as perguntas.
 
36. Paulo usa a expressão "insensato" para destacar a tolice das perguntas, a aparente estupidez que as caraterizava. Sua aspereza os surpreenderia muito, mas a tolice deles não pode ser negada: "o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer", destaca o princípio de ressurreição na natureza, e indica que até mesmo aquele que discordava poderia ter se ocupado nesta atividade.
Familiaridade o teria tomado insensível quanto à maravilha deste milagre. A semente é destruída para fazer aparecer a nova vida. As palavras do Senhor Jesus, em João 12:24, são apropriadas: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto". Assim Paulo está dizendo que a morte não é uma barreira para a ressurreição, mas sim uma necessidade. Observe o passivo: "não é vivificado". A semente não possui em si o poder de vida; Deus é quem faz com que ela venha a viver. Isto será mencionado no v. 38.
 
37. Todo o mundo sabe que o que brota como resultado de semear a semente é diferente aquilo que foi semeado: "o corpo que há de nascer" se refere à planta que aparece. Porém há uma ligação muito íntima entre a semente que foi semeada e a planta. Se semearmos semente de alface, o que cresce será alface, e não nabo nem qualquer outra coisa. Duas coisas são claras nesta analogia do reino vegetal:
a) Há identidade entre aquilo que é semeado e aquilo que brota.
b) Aquilo que brota é diferente daquilo que é semeado.
 
Portanto, a natureza nos ensina claramente, em relação à ressurreição, que o corpo ressurrecto será diferente deste corpo. Isto anula qualquer objeção de que o corpo da ressurreição tem que ser semelhante ao nosso corpo presente. A identidade entre o corpo da ressurreição e este presente corpo não está na iguladade das partículas, mas sim no relacionamento com a pessoa.
 
38. Vemos que Deus é quem dirige todo este processo. Somos levados aos bastidores para observar o divino ato criativo: "Deus dá-lhe o corpo". Aqui, se vê a operação do poder soberano. Observe os tempos dos verbos:
a) Quer - aoristo (no grego), desde que Deus decretou a mecânica do processo.
b) Dá - presente, pois Deus está constantemente dando corpo à sementes.
Na criação, Deus decretou e planejou aquilo que ia existir, e nos processos da natureza tudo se conforma ao plano. A vontade divina fez com que cada semente possuísse um corpo segundo a sua espécie, ou família; esta é a importância da expressão: "cuja semente está nela conforme a sua espécie" (Gên. I: 12). O processo segue com regularidade, mas cada família apresenta uma enorme quantidade de variedades. Até no caso de uma só variedade, cada semente tem sua própria individualidade, dada por Deus. Portanto o ensino é claro. A personalidade há de continuar, mas o corpo será totalmente diferente do presente corpo. Agora Paulo desenvolve esta idéia, pois ele sabe que é justamente aqui que tantos encontram dificuldade para entender estas coisas.
 
39. Em uma única declaração, simples e breve, "nem toda a carne é uma mesma carne", o apóstolo dá o golpe mortal à teoria da evolução. Existem várias espécies de carne, e não há nenhum progresso de uma para outra. A rigorosa separação entre as espécies demonstra a impossibilidade da evolução de uma para outra. Cada forma de vida tem um corpo adaptado às suas próprias necessidades.
Alguns animais hibernam durante vários meses, mas o corpo humano é diferente; ele não possui a capacidade para isso. As aves podem voar, algumas por períodos prolongados à grandes altitudes, mas o homem não pode fazer isto; naquela atmosfera rarefeita ele precisa de uma máquina especial pressurizada, como um avião. Os peixes passam toda a sua vida na água, atingindo grandes profundidades, mas o homem não pode fazer isso; ele não tem um corpo adaptado para estas esferas. Assim na ressurreição, teremos corpos adaptados, idealmente, para a esfera da glória.
 
40. Ao falar da existência de corpos celestes e terrestres, dá-se ênfase à glória que pertence a cada um. Os corpos não somente são diferentes, mas cada um possui uma glória adaptada à esfera em que é colocado. Assim o corpo da ressurreição será adaptado àquela esfera elevada e espiritual onde há de desempenhar todas as funções necessárias para desfrutar daquela vida que é eterna.
 
41. "Glória", referindo-se aqui a cada um destes corpos, o sol, a lua e as estrelas, parece sugerir manifestação. Cada um tem a sua própria glória singular. Num dia sem nuvens podemos ver a plena glória do sol; numa noite clara observamos a glória da lua; uma noite muito fria destaca a glória das estrelas. Observando-as através de instrumentos adequados, vemos as diferenças entre estrelas individuais e planetas. Vênus, Marte, a Ursa, o Órion, etc., todos contribuem a sua própria glória. Desta maneira se nos apresentam as maravilhas da galáxia e sua variedade, cada corpo radiando o seu esplendor singular nos céus salpicados de tanta glória. Observe aqui o contraste entre as obras de Deus e as do homem. Deus, na Sua atividade criadora, caracterizada por tão admirável poder e força, exibe aos olhos de todos uma abundância de variedade que enleva a alma; enquanto que o homem, querendo produzir alguma coisa em abundância, tem que recorrer à produção em massa, onde tudo é igual, sem variedade. Considerando todas as diferentes espécies de corpos exibidos na criação material, quão fútil seria pensar que o único tipo de corpo é este corpo terrestre! Além disso devemos notar que a declaração: "uma estrela difere em glória de outra estrela" não quer dizer que os corpos dos santos serão diferentes uns dos outros em glória. Antes, tudo isso sugere que, como a flor difere da semente da qual brota; como uma planta difere de outra planta; como o homem e o animal diferem do peixe e da ave; como o sol, a lua e as estrelas diferem umas das outras; como uma estrela difere de outra estrela, assim o corpo da ressurreição será diferente deste corpo natural.
 
42-45. Paulo agora aplica todo este ensino à ressurreição: "assim também a ressurreição dos mortos". Com quatro contrastes nítidos ele nos apresenta a transformação que há de acontecer. Quatro vezes ele fala deste corpo como sendo semeado: "Semeia-se" , não se enterra. (Sepultamento é o método normal mencionado na Bíblia para desfazer-se de um corpo morto) O uso desta palavra "semeiase" indica que Paulo quer que pensemos na ceifa resultante na ressurreição; é uma palavra que nos apresenta a esperança do crente.
Quando estamos junto a um sepulcro aberto, colocando um ente querido na terra, embora os nossos corações estejam quebrantandos e estejamos chorando, contudo estamos semeando em esperança, crendo que na manhã da ressurreição Cristo há de ressuscitá-lo. A luz do evangelho tem transformado o ato de enterrar em um ato de semear. Observe nos primeiros três contrastes o uso de en ("em"), enquanto que no quarto a preposição é abandonada e o escritor passa a usar os adjetivos "animal" e "espiritual". Vamos apresentar agora os quatro contrastes:
a) Corrupção - Incorrupção: O verbo "corromper" quer dizer "deixar a condição original". O corpo vai decair, desintegrarse, decompor-se, perecer; veja João 11:39. Ao ser ressuscitado em "incorrupção", o corpo nunca mais experimentará deterioração, mas reterá sua condição primitiva de excelência e beleza.
Nada poderá invadi-Io para causar qualquer espécie de degeneração, enfermidade, dor, doença, etc. Sua condição será permanente, durável e eterna. Nunca envelhecendo, ficando cansado ou fadigado, ele manterá seu frescor e qualidade de vida para todo o sempre.
b) Ignomínia - Glória: Em primeiro lugar, vamos notar a passagem paralela em Fil. 3:21: "Que transformará o nosso corpo abatido (corpo de humilhação), para ser conforme o seu corpo glorioso (seu corpo de glória)". Colocando esta passagem ao lado do v. 43a, notamos que este presente corpo foi desonrado, envergonhado e humilhado pela presença e prática do pecado; foi desonrado pelo poder do pecado que habita nele. O corpo não é pecaminoso em si mesmo mas é o veículo pelo qual o pecado
opera. "Glória" então é o contrário de todas estas atividades.
O corpo da ressurreição (vida) será livre do poder do pecado original. Paixões malignas e desejos pecaminosos que exigem satisfação estarão ausentes. Não haverá associação alguma com a velha criação. Porém "glória" não pode significar apenas a ausência daquilo que caracteriza este corpo, mas a presença daquilo que está ausente deste corpo. Ser como "seu corpo de glória", sugere algo que difunde luz, que desperta admiração, brilhante e resplendente, fulgurante e belo, perfeito em sua forma e em tudo excelente.
Fraqueza - Vigor: "Semeia-se em fraqueza" enfatiza que, na melhor das hipóteses, é apenas uma frágil moradia de barro, precisando de roupa e abrigo para protegê-Ia da fúria dos elementos.
Com quanta facilidade o mais forte dentre nós fica abalado! Nossos corpos somente podem viver em certas condições e temperaturas. Poderíamos pendurar acima deles a advertência:
"Frágeis, manuseie com cuidado". E nunca estão tão fracos como quando jazem frios na morte. Observe agora que serão "ressuscitados em poder" (ARA), não por poder. Assim como a fraqueza é a característica deste corpo, assim também o poder será a característica do novo corpo. Será cheio de energia, caracterizado por um poder inerente. Então correremos, e não nos cansaremos; caminharemos, e não nos fatigaremos.
Possuiremos poderes totalmente novos, e não teremos mais cansaço, nem colapsos, nem ataques cardíacos, nem esgotamentos, nem qualquer das enfermidades que nos afligem no presente.
Tão velozes quanto o relâmpago iremos através da vasta e maravilhosa criação de Deus, no Seu serviço. Possuidores de um fornecimento constante de energia interna, seremos capazes de esempenhar todo e qualquer tipo de serviço que se requererá
de nós.
Animal - Espiritual: "Corpo animal" (a palavra traduzida "animal" é um adjetivo da mesma raiz que a palavra alma. N. do R.) indica um corpo governado pela alma, do mesmo modo que "corpo espiritual" indica um corpo governado pelo espírito.
Cada corpo está perfeitamente adaptado para a esfera em que vive. Este presente corpo, com seus cinco sentidos, está perfeitamente adaptado para viver neste mundo. Não poderíamos ter uma "casa" melhor do que esta para ser nossa habitação
aqui, mas seria totalmente inadequada para viver numa esfera mais elevada. O corpo espiritual será o vaso, ou veículo perfeito, não para uma vida física e biológica, mas para uma vida espiritual.
A expressão "corpo espiritual" parece um paradoxo.
Como pode um corpo ser espiritual? Não quer dizer um corpo composto de espírito, mas sim, um corpo que expressa o espírito.
Justamente como o corpo presente expressa a vida da alma, assim também aquele corpo expressará a vida do espírito.
Convém dizer que o protótipo do corpo da ressurreição vê-se no corpo do Senhor Jesus, depois que Ele ressuscitou dentre os
mortos.
Vamos agora notar, com atenção, qual é o poder que há de efetuar esta admirável transformação. Fil. 3:21 diz: "segundo o seu
eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas". A força todo poderosa, que é capaz de sujeitar um universo a Si mesmo, não terá nenhuma dificuldade em vencer os problemas, aparentemente insuperáveis, existentes nesta transformação. Nenhum enterro, nem cremação, nenhuma separação dos membros, nenhuma desintegração do corpo devido a forças explosivas, tais como bombas, representará qualquer problema ao Senhor, que então revestirá seu povo redimido com seus corpos da ressurreição. No final do V. 44, Paulo diz:
"Se há corpo animal, há também corpo espiritual"; ele insiste e argumenta que a existência de um corpo animal pressupõe a existência de um corpo espiritual. Agora ely apela às Escrituras para apoiar esta afirmação.
Ao citar Gên. 2:7, ele acrescenta "primeiro" antes de "homem", e "Adão", depois. Isto é para esclarecer o sentido da passagem original, que Adão éra quem estava em vista e não a humanidade em geral. A citação mostra que Adão recebeu a vida, em contraste com Cristo que comunica a vida. "O primeiro homem" indica Adão como progenitor da raça; ele passou sua natureza à raça inteira, e é dele que recebemos nosso corpo natural. Assim, suas características são imprimidas na raça inteira. Deve ser notado, de passagem, que a ênfase em Adão como o primeiro homem prova que não existiu uma raça pre-adâmica. Além disso a expressão: "o primeiro homem Adão" indica que ele foi o cabeça da raça, em contraste com Cristo, como o último Adão. Observe que Cristo não é o segundo Adão, mas o último. Nunca haverá outro cabeça. O alvo é alcançado em Cristo. "O último Adão, em espírito vivificante" se refere, aqui, a Cristo em ressurreição, em Sua relação ao mundo da ressurreição. A vida que gozaremos naquele mundo (incluindo os nossos corpos da ressurreição) proverá dEle, que imprimirá o Seu caráter na cena toda. Finalmente, observe como a citação de Gên. 2:7 termina com as palavras: "alma vivente". Depois Paulo acrescenta as suas próprias palavras sobre Cristo como o último Adão.
 
46. Vamos notar as idéias principais nestes versículos:
v. 46 A ordem observada;
V. 47 Associação;
V. 48 A qualidade da vida;
V. 49 Semelhança.
Aqui no V. 46, Paulo insiste na ordem normal que prevalece, isto é, que o natural sempre vem antes do espiritual. Isto se observa claramente nas seguintes coisas: a vida natural antes da vida espiritual; o corpo natural antes do corpo espiritual; o primeiro homem antes do segundo homem; Adão antes de Cristo.
 
47. Parece que, considerando o contexto como um todo, a idéia principal não é tanto a origem, mas antes a associação. A omissão do artigo antes de "terra" e "céu" (no grego) dá ênfase àquilo que é característico. É verdade que, quanto à sua origem, Adão foi "da terra"; ele era "terreno". É verdade também que Cristo veio do céu, Ele é "celestial". Considerando o contexto, parece que "o segundo homem ... do céu" deve se referir a Cristo exaltado. O primeiro homem é terreno; o segundo homem é celestial. Observe que as palavras "o Senhor" são omitidas em algumas traduções.
 
48. "O terreno" se refere a Adão; "o celestial" se refere a Cristo.
Todos os que estão associados com um ou com o outro tomam o caráter dele, como participantes da mesma vida. Temos corpos
como o de Adão, e possuímos a sua natureza e qualidade de vida.
Por outro lado, existem aqueles que, por causa da sua união com Cristo, são caracteristicamente celestiais, possuindo uma qualidade de vida em contraste total com aquilo que é terreno. Isto também será verdade no mundo da ressurreição: como Ele é, assim seremos semelhantes a Ele, tanto física como moralmente.
 
49. O significado é claro: assim como trazemos a imagem do terreno neste mundo, assim traremos também a imagem do celestial no outro mundo. É realmente surpreendente pensar quantos milhões de pessoas têm descendido de Adão, cada um possuindo o mesmo corpo e a mesma natureza; mas alguns nos dizem que não existem duas pessoas exatamente iguais. Ao lembrarmos que geralmente reconhecemos as pessoas pelo seu rosto, isto é uma tremendo feito do Criador. Assim também no mundo da ressurreição, teremos corpos como o Seu corpo, e gozaremos plenamente da vida que é Sua; porém cada um será reconhecível como uma personalidade distinta.
Seremos então conformes à imagem de Seu Filho (Rom. 8:29).
 
50. Agora chegamos a uma nova revelação, na qual Paulo acrescenta alguns detalhes para completar a verdade daquilo que há de acontecer na vinda do Senhor. Ele vai concentrar-se principalmente na transformação, e em como ela será realizada. Para completar o quadro de tudo que está envolvido neste grande acontecimento - o Arrebatamento, seria necessário juntar, em nossa mente, a verdade revelada em I Tess. 4: 16-17 com o ensino da presente passagem.
Porém, vamos nos limitar àquilo que se revela nesta porção.
Convém notar que nesta revelação não há menção de sermos arrebatados. O que se enfatiza é a transformação que se efetuará
naquele momento. Em I Cor. 15 não saimos da terra, e é por esta razão que enfatizamos a necessidade de colocar ao lado deste
capítulo, o ensino de I Tess. 4, onde se ensina, claramente, a verdade do arrebatamento. Vamos examinar esta porção em três partes:
a) A necessidade da transformação v. 50;
b) A descrição da transformação vs. 51-54;
c) A celebração da transformação vs. 55-57.
Paulo destaca a necessidade de aptidão para o mundo da ressurreição, o que estes nossos corpos não possuem. Ele insiste que não podemos ir ao céu com os corpos que possuímos agora. Parece que, para gozar plena e perfeitamente da nossa vida no céu, tem que haver:
a) aptidão judicial assegurada para nós pelo sangue de Cristo;
b) aptidão espiritual assegurada para nós pelo novo nascimento, a possessão de uma nova natureza;
c) aptidão física, que será assegurada para nós por ocasião do Arrebatamento, quando receberemos os nossos corpos de ressurreição.
"A carne e o sangue" são coisas físicas, e parece que se referem àqueles que estarão vivos quando o Senhor vier; "corrupção",
àqueles que estarão mortos. "O reino de Deus" deve referir-se à esfera celestial, isto é, o próprio céu, pois a carne e o sangue herdarão o reino milenar. A questão é clara: corpos adaptados para este mundo nunca poderiam passar para o mundo da ressurreição. Tem que haver uma transformação, mas como e quando é que isto acontecerá? Paulo passa a responder estas perguntas.
 
51. Convém observar que toda esta verdade é uma revelação divina.
Deus tem revelado o Seu segredo; nós nunca poderíamos tê-la alcançado pelas nossas próprias pesquisas. Quanto devemos ao bondoso Espírito por ter revelado estas coisas, que são tão informativas, consoladoras e auxiliadoras. Além disso, observe que a pessoa que realiza isto não se revela nesta seção, somos somente informados daquilo que há de acontecer. O v. 57 nos mostrará que é "por nosso Senhor Jesus Cristo". Isto concorda com I Tess. 4: 16: "o mesmo Senhor". Vamos observar:
a) A certeza da transformação v. 51;
b) A rapidez da transformação v. 52;
c) Antes da transformação v. 53;
d) Depois da transformação v. 54.
A palavra "mistério" exige nossa ateção, e sugere duasperguntas:
a) O que é um mistério?
b) O que é este mistério?
A primeira pergunta destaca a loucura de tentar entender o NT por meio de um dicionário de Português, pois o NT foi escrito em grego. Em Português, a palavra "mistério" quer dizer alguma coisa inexplicável, talvez até sinistra. No NT, ela significa conhecimento revelado, quando Deus determina fazê-lo conhecido, conhecimento este que nenhum homem poderia compreender; está além do alcance de sua inteligência e entendimento. A seguinte citação declara a posição com clareza: "Como me foi este mistério manifestado pela revelação, ... o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas" (Ef. 3:3-5).
A segunda pergunta diz respeito à natureza exata deste mistério (veja, no comentário sobre 4: I, uma lista completa dos mistérios do NT). Como foi indicado antes, este mistério se refere à transformação que acontecerá no Arrebatamento. Aqui dá-se-nos a certeza de que nem todos morreremos, mas que alguns estarão vivos quando o Senhor vier. Contudo todos serão transformados, quer vivos quer mortos. Isto desmente o ensino do arrebatamento parcial. "Todos" destaca a totalidade dos santos, e indica que é o poder de Deus que há de efetuar a transformação. Fidelidade ou infidelidade não entram na questão.
 
52. Agora chegamos à rapidez da transformação; é instantânea.
"Num momento", indica o menor possível ponto indivisível de tempo. Podemos perceber quão rápida e repentina será esta transformação ao pensarmos em outras expressões de tempo: um ano, um mês, uma semana, um dia, uma hora, um minuto, um segundo; mas um momento é algo que acontece na fração de um segundo.
"Num abrir e fechar de olhos" se refere ao movimento da pálpebra ou a uma olhada rápida. Estas duas expressões claras transmitem, de modo impressionante, a rapidez desse acontecimento. "A última trombeta" equivale à "trombeta de Deus" em I Tess. 4: 16, visto que ambas se referem aos mesmos acontecimentos, no Arrebatamento. Embora chamada aqui de a "última", esta não pode ser a última de uma série, pois nenhuma soou antes dela. É a "ultima" em relação ao tempo, e não a "última" de uma seqüência.
Ela conclui um programa, uma época. O programa para a Igreja termina com o toque de uma trombeta, como mais tarde o programa para Israel terminará com o toque de uma trombeta (Apoc. 11: 15). É o último som que ouviremos na terra, pois é a
convocação para nos reunirmos para o encontro com Cristo e para entrarmos no céu. Alguns têm questionado se será uma trombeta verdadeira, e têm procurado espiritualizá-la, mas a próxima expressão é decisiva: "porque a trombeta soará". O resultado se declara com muita simplicidade, embora é tão milagroso; "os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados".
Finalmente, observe as quatro últimas coisas: a última testemunha (v. 8); o último inimigo (v. 26); o último Adão (v. 45); e a última trombeta (v. 52).
 
53. Este versículo contempla as coisas antes da transformação, e o v. 54 contempla as coisas depois da transformação. Repete-se a necessidade desta transformação, e a magnitude da operação mal pode ser compreendida. "Que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade", introduz a ressurreição dos "mortos em Cristo".
Alguns corpos terão estado no sepulcro durante séculos, e o número dos ressuscitados será de muitos milhões, mas o poder divino realizará tudo isso com a maior facilidade. Nunca antes houve tal demonstração de ressurreição. Acontecerá em escala mundial, e demonstrará a universalidade do evangelho. Depois da ressurreição dos mortos (veja I Tess. 4:16): "isto que é mortal (vivo) se revestirá de imortalidade". Milhões mais serão transformados e, pela primeira vez, a Igreja inteira estará reunida junta, e todos os remidos verão o resultado pleno e total da redenção. No v. 50, Paulo declara o que é impossível: "A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção". Agora ele declara aquilo que há de acontecer, porque foi decretado e ordenado por Deus.
 
54. A evidente consumação desta operação toda demonstrará a verdade da profecia de Is. 25:8: "Tragada foi a morte na vitória".
(Em primeiro lugar é uma referência a Israel e ao reino). A morte foi obrigada a entregar os corpos dos santos, e se vê derrotada por um poder superior, o poder de Deus. Toda esta cena será de triunfo e vitória, e o regozijo dos santos se ouvirá, celebrando a glória de redenção e libertação.
 
55. Observe como na ARA, e em outras versões, ambas as perguntas são dirigidas à morte, em vez da segunda ser dirigida ao inferno.
Observe também como essas versões invertem as perguntas. Porém, utilizando linguagem que nos lembra Os. 13: 14, Paulo está cantando da vitória a\cançada, gloriando-se no fato da derrota da morte. Das duas exclamações, a primeira poderia ser o cântico dos santos vivos que serão transformados: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" pois eles nunca conheceram o aguilhão da morte. Nos maravilhosos caminhos de Deus, eles têm entrado no mundo da ressurreição sem morrer, para gozar eternamente o lar celeste. A segunda pergunta poderia ser o cântico dos santos que ressuscitarão: "Onde está, ó morte, a tua vitória?" Para eles, o poder da morte foi quebrantado. Durante séculos a vitória da morte parecia uma certeza, mas agora, num momento, ela foi obrigada a entregar as suas vítimas, assim tendo que reconhecer um poder, o poder de Deus, tão evidentemente superior ao seu. Podemos imaginar a emoção, o gozo e a maravilha de tudo isso; a própria rapidez aumentando o
senso de vitória, e de vindicação das promessas de Deus. Por um breve momento, no próprio lugar onde a morte reinou suprema durante tanto tempo, ela será totalmente derrotada, e isso numa escala universal.
 
56. "O aguilhão da morte é o pecado" quer dizer que o reinado da morte está baseado no poder do pecado. A morte usou o pecado para ferir a natureza humana, ganhando para si entrada nela, e assim: "pelo pecado a morte" (Rom. 5: 12). Pelo pecado, a morte ganhou autoridade sobre o homem. Quando o problema do pecado é resolvido, a morte perde o seu poder. Ao tratar da questão do pecado na cruz, e morrer pelo pecado do Seu povo, Cristo tirou o aguilhão da morte, e ela já se tornou o caminho de entrada à presença do Senhor. A força e poder do pecado se encontravam na Lei, que estabeleceu padrões que o homem não pôde guardar, e assim o mantinha em perpétua servidão; veja Rom. 7:7-11. Mas Cristo também redime da maldição da Lei; ao morrer, Ele não somente tratou do problema do pecado, como também da Lei e da sua maldição; ao ressuscitar, Ele derrotou a morte. Assim a lei foi privada do seu poder, o pecado foi privado da sua força, e a morte da sua vitória.
Na ressurreição, a morte foi privada do seu poder, ela não terá mais vitória nem aguilhão. Não passa de um inimigo totalmente derrotado!
 
57. Com razão o apóstolo irrompe em sincero agradecimento por esta tão grande vitória. Observe que ele dá graças a Deus que nos dá a vitória. Mas os santos não haviam feito nada; Deus é quem fez tudo! É verdade, mas a vitória é nossa porque será demonstrada em nós. Nós somos os objetos de um poder tão espantoso. Estamos associados com Aquele que realizou tudo isso. "A vitória é nossa!" e será plenamente desfrutada naquele dia. Todavia, é tudo "por nosso Senhor Jesus Cristo" (observe, o título completo). Um profundo sentimento de gratidão enche as nossas almas, ao reconhecermos, em Escrituras tais como esta, a admirável obra que Lhe é atribuida; pensamos na maravilhosa obra da cruz; no poder da Sua ressurreição, e no Seu trabalho presente, como Sumo Sacerdote e Advogado; como Ele trará à consumação a presente era do propósito divino, no Arrebatamento; no estabelecimento do reino; e na consumação final, o estado eterno. Ficamos humilhados ante a majestade da Sua Pessoa e da Sua suprema competência em toda esfera.
 
58. Paulo finaliza este tratado magistral com uma poderosa exortação:
"Portanto" - à luz e conhecimento de todas estas verdades - se vocês realmente crêem nelas, então vivam de uma maneira que demonstre a realidade de sua fé. "Meus amados irmãos", manifesta-lhes a profunda afeição que ele tinha por eles, apesar da facilidade que eles tinham de ser influenciados por idéias que poderiam destruir a sua fé e testemunho. Aqueles que ministram, publicamente, devem aplicar isto ao seu coração, e demonstrar um amor genuíno para com os irmãos, apesar da evidência de tanta fraqueza.
Tanto amor para com eles não afetou o apóstolo de maneira alguma no seu ensino, como a epístola toda demonstra; enquanto ele procurava, fielmente, corrigir as muitas coisas que ameaçavam o seu testemunho, ele falava "a verdade em amor". Ele exorta-os a serem "firmes"; a serem imóveis, arraigados, caracterizados por uma firme convicção e propósito de coração, que não seria facilmente perturbada pelas muitas coisas ao redor que procuravam perturbálos.
"Constantes" quer dizer não facilmente mudados, não instáveis, não facilmente desviados. Isto teria em vista.os ataques contra a fé que surgiriam de vez em quando, ou por meio de ensino falso, que destruiria a verdadeira fé, ou por tentações que os levariam à práticas que diminuiriam a intensidade da sua consagração. Ele deseja que sejam "sempre abundantes na obra do Senhor", caracterizados por energia inesgotável e poder ilimitado para a obra do Senhor, não caracterizados por ociosidade, mas 'antes, por esforço diligente, sempre ocupados na obra do Senhor. "Obra", se refere àquilo que é feito; "trabalho", ao ato de fazê-lo, à labuta e gasto de energia na obra, à força dedicada a ela, e à fatiga resultante dela.
Assim o trabalho não seria "vão", vazio, sem qualidade. Tendo estabelecido a verdade da ressurreição, agora o trabalho será produtivo e frutífero, e também ganhará galardão no Tribunal de Cristo.
"No Senhor" sugere sob o Seu controle, no Seu poder, e para a Sua glória.
 
Agora vamos resumir o ensino deste admirável capítulo:
a) O conteúdo básico do verdadeiro Evangelho abrange a morte, sepultamento e ressurreição do Senhor Jesus Cristo.
b) A evidência, totalmente convincente e indiscutível, da realidade da ressurreição do Senhor Jesus, ressurreição esta que tornou-se o ponto central da pregação dos apóstolos.
c) Se Cristo não ressuscitou, os resultados devastadores seriam a inutilidade da pregação e da fé; a falsificação do caráter divino; o problema do pecado não seria resolvido; a conversão não existiria; não haveria futuro no céu, somente no inferno; e todos os cristãos teriam sido enganados e logrados.
d) A singularidade de Cristo como as Primícias indentifica-O como o penhor da nossa ressurreição.
e) Cristo, como o divino Executor, é competente para realizar os propósitos da Trindade em relação a este mundo.
f) A verdade da ressurreição, tanto o fato quanto o seu caráter, é ilustrada, magnificamente, no reino físico.
g) Através de contrastes nítidos, se revela a natureza e poder do corpo da ressurreição.
h) Cristo se apresenta como o segundo Homem e o último Adão; como o segundo Homem, Ele é o cabeça de uma nova ordem de homens, e como o último Adão nenhuma outra ordem há de se seguir.
i) Manifesta-se o mistério quanto ao tempo e natureza da transformação.
j) O impressionante clímax da nossa redenção será alcançado na celebração da vit6ria que foi realizada por nosso Senhor Jesus Cristo.
 
NOTAS ADICIONAIS:
39-41 Convém notar as várias palavras significando "outro". No V. 40, heteros indica outro de espécie diferente, pois aqueles corpos são de espécies diferentes. Nos vs. 39-41, allos se usa, significando outro do mesmo tipo; estes se diferem somente em grau.
45 "Espírito vivificante". Alguns ligam isto ao Senhor na encarnação mas, enquanto isto pode ser verdadeiro, o contexto parece ser conclusivo: refere-se a Ele agora na glória, e em relação a nossos corpos na ressurreição.
49 Em vez de "traremos também", alguns têm: "tragamos", ou "devemos trazer" (veja ARA). Enquanto alguns manuscritos favorecem esta última tradução, empregando o subjuntivo em vez do indicativo, parece claro que o texto da ARC deve ser aceito, pois uma exortação não seria viável neste contexto.
 
Jack Hunter
Extraído do Comentário Ritchie
Editora Edições Cristãs

 

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