A igreja local e seu controle

Introdução

Como vimos no Cap. 1, a palavra “Igreja”, nas Escrituras, tem dois aspectos: uma igreja local se reunindo ao nome do Senhor Jesus, e “a igreja que é o Seu corpo”, composta de todas as pessoas que creem no Senhor Jesus nesta dispensação presente. Embora haja semelhanças no controle de ambas, a forma do controle instituído por Deus numa igreja local é diferente do controle na Igreja que é o corpo de Cristo. Cristo é a Cabeça de uma igreja local e também da Igreja que é Seu corpo. As Sagradas Escrituras são o meio pelo qual Cristo, como Cabeça, comunica Sua verdade aos membros do corpo, na energia do Espírito Santo.

Somente Cristo é a Cabeça da Igreja que é o Seu corpo; não há homem, ou homens intermediários entre Cristo como Cabeça e os cristãos como membros do Seu corpo.

Cristo é o Cabeça de uma igreja local reunida ao Seu Nome e responsável somente a Ele; não há nenhuma organização ou controle humano.

Contudo, a situação numa igreja local é diferente, porque Cristo tem colocado homens numa igreja local que são capacitados pelo Espírito Santo para os trabalhos de pastorear e cuidar, como será demonstrado no cap. 9 deste livro. A responsabilidade e a autoridade em qualquer igreja local são colocadas nas mãos destes homens, conhecidos como anciãos ou presbíteros. Estes homens sabem como exercer a autoridade dada por Deus; toda a informação necessária é encontrada nas Escrituras do Novo Testamento. As Epístolas às igrejas e as Epístolas Pastorais são especialmente úteis neste seu trabalho.

Dentro do contexto da igreja local e sua autoridade, mostraremos que esta autoridade é baseada nos seguintes princípios:

• A autoridade do Senhor Jesus Cristo;

• A autoridade do Espírito Santo;

• A autoridade das Sagradas Escrituras.

Juntos, estes princípios formam uma corrente inquebrável de autoridade para o controle que foi confiado aos anciãos de uma igreja local.

Neste capítulo examinaremos esta autoridade e suas consequências práticas numa igreja local. Anciãos são colocados na igreja local pelo Espírito Santo (At 20:28); são responsáveis ao Senhor, o Supremo Pastor (Hb 13:17); e têm as Sagradas Escrituras para sua direção em tudo que fazem (At 20:32; II Tm 3:16-17). Vamos agora tratar destas três formas de autoridade na ordem contrária à lista acima; mencionaremos com poucos detalhes as duas primeiras, e concentraremos mais na autoridade do Senhor Jesus Cristo como a Cabeça exaltada da Igreja. Quando falamos do Senhorio de Cristo estamos nos referindo à autoridade do Senhor Jesus Cristo como estabelecida pelas Escrituras e reconhecida por cada cristão na igreja local.

É fundamental observar que, ao providenciar direção para o testemunho cristão de uma igreja local, as Escrituras são completas e finais.

Isto lhes investe com a autoridade total da palavra falada de Deus. Nos assuntos tratados pelas Escrituras, é Deus Quem está falando: portanto, Seu controle é absoluto. As Escrituras dão aos anciãos o “assim diz o Senhor” para todas as suas ações e decisões. Na distribuição e uso dos dons numa igreja local, o Espírito Santo é soberano e está em controle (I Co 12:1-11). Na administração da graça para as necessidades de uma igreja local, o Senhor Jesus, como Cabeça Ressurreta, anda no meio dos sete castiçais de ouro para esquadrinhar a sua condição e providenciar o que é necessário de correção ou consolação; veja Apocalipse caps. 2 e 3.

A autoridade das Sagradas Escrituras

Quando um assunto é descrito como sendo autoritário, a base da sua autoridade precisa ser estabelecida. O fundamento para tudo que é ensinado numa igreja local é a Palavra inspirada de Deus. II Timóteo 3:16-17 deixa bem claro que toda a Escritura é inspirada por Deus e é útil para vários fins: ensinar, admoestar, corrigir, e para instruir em justiça. Autoridade é uma das consequências imediatas da inspiração das Escrituras. Visto que as Escrituras são inspiradas, elas têm a plena autoridade de Deus que as deu. Nada pode diminuir esta autoridade, e ela deve ser reconhecida por cada verdadeiro cristão. Com base na inspiração, Deus tem estabelecido a autoridade das Escrituras: é a nossa responsabilidade reconhecer este fato. Quando fomos salvos, nos submetemos a esta autoridade ao ouvir e crer na Palavra de Deus (Jo 5:24; Rm 10:17). Assim como aceitamos o que as Escrituras nos ensinaram sobre a salvação, devemos reconhecer a sua autoridade para dirigir a vida que recebemos. Os santos em Tessalônica manifestaram esta atitude, e Paulo os elogiou por isso nas palavras de I Tessalonicenses 2:13: “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como a palavra de Deus, a qual

também opera em vós, os que crestes”. Esta deve ser a atitude de cada salvo numa igreja local: a aceitação da Palavra de Deus como autoritária e suficiente. Há grande necessidade de manter a autoridade das Escrituras através da nossa aceitação pessoal delas como suficientes no seu conselho e completas nas suas admoestações.

Não precisamos de nada além da Palavra de Deus para nos guiar nos assuntos da igreja local. Toda necessidade de direção que uma igreja local pode enfrentar é suprida plenamente pelas Escrituras por um, ou mais, dos seguintes métodos de transmitir esta verdade: preceitos a obedecer, princípios a utilizar e práticas a seguir.

Existem certas situações para as quais Deus tem dado preceitos: isto é, instruções claras e duráveis. Por exemplo, os símbolos que devemos usar ao nos lembramos do Senhor na Ceia são claramente afirmados, não somente nos relatos da instituição da Ceia nos Evangelhos, mas também nas instruções do apóstolo Paulo sobre a Ceia, em I Coríntios 11:23-34. Há outras situações onde não achamos preceitos específicos na forma de “assim diz o Senhor”; mas um princípio claro é percebido pela leitura das Escrituras. Por exemplo, uma igreja quer saber que idade os anciãos devem ter, ou quantos anciãos devem estar cuidando dos santos na igreja local. O Novo Testamento não dá mandamentos específicos sobre estas coisas. Contudo, quando consideramos as referências a

anciãos e se  trabalho, logo vemos princípios para nos guiar: um ancião não pode ser alguém inexperiente (“não neófito”, I Tm 3:6), e deve haver mais que um ancião numa igreja (Fp 1:1). Assim, mesmo que não haja preceitos específicos para responder estas perguntas, não ficamos sem diretrizes — há princípios claros para nos guiar. Há também situações onde não há um preceito, mas se lermos cuidadosamente a Palavra de Deus veremos que havia uma prática clara observada entre os apóstolos e os cristãos primitivos. Por exemplo, quando é que um novo convertido deve ser batizado? Não encontramos um preceito ou princípio direito sobre este assunto; mas no Novo Testamento o batismo sempre estava intimamente ligado à conversão, e assim a prática seguida pelos Apóstolos era que o batismo acontecia logo depois da conversão. Não é nosso assunto neste capítulo, mas é importante que os irmãos responsáveis pelo batismo de convertidos verifiquem cuidadosamente se a pessoa pedindo batismo está mostrando evidências de salvação e vida piedosa.

Esta aceitação incondicional da autoridade dos preceitos, princípios e práticas das Sagradas Escrituras era uma das características dos irmãos das gerações passadas. Para eles era suficiente ver que “está escrito” para tirar todas as dúvidas. Esta mesma atitude entre as igrejas locais nos nossos dias traria as mesmas bênçãos e favores divinos gozados pelas gerações passadas.

A autoridade das Escrituras conduz uma igreja a uma liberdade simples que a livra de muitas distrações espirituais modernas. Uma das distrações mais difundidas hoje é o movimento da Igreja Emergente*.

Os anciãos deveriam conhecer o perigo deste movimento insidioso e suas várias manifestações. Não é uma denominação específica, mas uma filosofia de ministério que atravessou as barreiras denominacionais e se infiltrou nos escritos e livros de autores bem conhecidos. Um dos seus ensinos básicos é que, desde que vivemos num mundo que está constantemente mudando, precisamos também mudar nossos métodos, ou vamos rapidamente ficar irrelevantes aos incrédulos.

Para ajudar seus objetivos, a ideia da verdade ser absoluta é completamente rejeitada. Relativismo — a teoria de que os padrões podem mudar de acordo com as circunstâncias — é a nova ordem do dia. Por causa desta atitude, há uma grande falta de ênfase na pregação da Palavra de Deus em qualquer forma, mas especialmente na exposição.  

* Uma publicação útil que trata deste assunto é “Becoming Conversant With The Emerging Church Movement”, por D. A. Carson, Zondervan Books, 2005.

A preferência é por algo mais leve, como “um tempo de compartilhar”, quando cristãos compartilham com outros do seu grupo o que a Bíblia significa para eles na sua situação atual. Dizem que a pregação bíblica aliena os incrédulos, e pode até ofendê-los! Você frequentemente ouvirá tais sentimentos expressados nas seguintes frases: “Bem, é isto que este versículo significa para mim”, ou “Essa é a sua opinião do versículo, a minha é completamente diferente, mas também é válida”. Isto cria um ambiente onde qualquer coisa é válida. Quando os anciãos ouvem tais coisas não significa, necessariamente, que estão ouvindo alguém rebelar abertamente contra a Palavra de Deus. Talvez cristãos inocentes deixaram-se enganar pelos pretenciosos princípios que este movimento reivindica. Entretanto, é um sinal de algo muito mais sutil, e igualmente sério, como uma negação aberta da verdade que as Escrituras ensinam.

A autoridade das Sagradas Escrituras não somente traz liberdade a uma igreja, mas também traz estabilidade. A Palavra de Deus numa circunstância específica é a espada do Espírito, e uma igreja que reconhece a sua autoridade terá a capacidade para usá-la como espada em qualquer situação que exige defesa. Sem hesitação, ou reservas, os santos podem afirmar: “Está escrito”. Não haverá necessidade de procurar ajuda de outras igrejas, ou temer o que outras igrejas vão pensar. A igreja que permite que a Palavra de Deus tenha sua devida autoridade pode andar num caminho firme de testemunho para o Senhor, sabendo que está dando prazer ao Senhor.

A autoridade das Sagradas Escrituras também concederá unidade à igreja local. Se cada cristão na igreja reconhece a autoridade da Bíblia com a mesma sinceridade, não haverá desunião entre eles. Da mesma forma, se cada igreja local reconhecesse a autoridade absoluta das Escrituras, haveria comunhão e harmonia perfeitas entre as igrejas vizinhas enquanto, juntas, se submetem à verdade das Escrituras.

É uma reflexão triste da nossa espiritualidade quando a liberdade, estabilidade e união não estão tão firmemente estabelecidas na vida das igrejas, como deveriam estar. A paralização das atividades evangélicas será inevitável se não mantivermos uma firme aceitação da autoridade das Escrituras, que dizem: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15).

Se a autoridade das Escrituras não for reconhecida por “conservar o modelo das sãs palavras” (II Tm 1:13), o resultado será um desvio sério no testemunho da igreja. Contendas e facções irreparáveis serão o triste resultado se os santos não reconhecerem a autoridade das Escrituras (I Co 11:16).

A autoridade do Espírito Santo

Este assunto é tratado detalhadamente no cap. 7, onde é dada uma explicação do papel do Espírito Santo na distribuição e direção dos dons espirituais na igreja local.

A autoridade do Senhor Jesus Cristo

A autoridade do Senhor Jesus Cristo na igreja local é ensinada por meio de duas verdades que são distintas, embora intimamente relacionadas: Senhorio e Autoridade*. O Senhorio de Cristo indica posse, propriedade (I Co 7:22), quando Ele exerce autoridade, soberania e poder (Cl 3:22-23). A Autoridade indica um relacionamento em que Cristo, como Cabeça, é responsável pelo sustento do corpo (Ef 5:29), pela provisão para o corpo (Ef 5:25-28), e pela proteção do corpo (Ef 5:21-23).

O Senhorio e a Autoridade estão tão inextricavelmente ligados que minha submissão à Autoridade de Cristo está em harmonia com minha submissão ao Seu Senhorio, e vice versa: um exige o outro.

Cristo, como Cabeça da Igreja que é Seu corpo, é uma das grandes e repetidas verdades do Novo Testamento (Ef 1:22; Cl 1:18). A palavra kephale que o Novo Testamento usa para Cristo como Cabeça já foi debatida por séculos, na tentativa de interpretá-la como fonte, ou origem, em vez de aceitar o significado tradicional com o sentido de autoridade, direção, liderança e poder. A posição do presente autor é a interpretação tradicional de “Cabeça”, significando autoridade. Alguém querendo estudar outras razões que defendem esta interpretação encontrará ajuda num artigo escrito por Wayne Grudem†.

Como o foco deste capítulo é a igreja local, o restante do capítulo será uma exposição da verdade sobre a Autoridade de Cristo. A nossa submissão à Autoridade e ao Senhorio de Cristo exige obediência pessoal a Ele. A submissão ao Senhorio de Cristo é demonstrada principalmente de uma maneira pessoal, quando o cristão individual demonstra sua submissão a Cristo como Senhor da sua vida. Entretanto, a submissão à Autoridade de Cristo é uma verdade que se expressa na igreja local reunida em serviço e adoração a Ele.

Submissão à Autoridade de Cristo é demonstrada por uma igreja local de, pelo menos, duas maneiras:

• Nossa obediência no exercício dos dons na igreja;

• Nossa obediência nas diferentes funções entre homens e mulheres na igreja local.

* Usaremos “autoridade” para traduzir o termo “headship” (que, literalmente, seria “ocupar a posição de cabeça”). (N. do E.)

† GRUDEM, Wayne. “The Meaning of ephale (Head): An Evaluation of New Evidence, Real and Alleged”. Journal of the Evangelical Theological Society 44:1 (Março 2001) págs. 25-65.

Reconhecemos que esta é uma área de verdade veementemente resistida.

Entretanto, temos de encarar o que as Escrituras ensinam, pois fazer diferente seria equivalente a desobedecer.

Quando o apóstolo Paulo deu instruções sobre Autoridade à igreja em Corinto, ele sabia que estava encarando uma possibilidade de oposição (I Co 11:16). Não é diferente hoje; por algum motivo, ensino sobre senhorio e autoridade muitas vezes não é bem vindo. Para alguém que tem dúvidas sobre a validade deste ensino, as palavras do Senhor Jesus em João 7:17 são esclarecedoras: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus …” A confirmação de que o ensino do Salvador tinha o selo da aprovação do Céu foi achada em obedecê-lo: obedecer às Suas palavras trazia o conhecimento da Sua vontade. O mesmo se aplica à submissão à verdade sobre a Autoridade.

Neste assunto, as perguntas importantes são: “O que a Bíblia ensina?”

e “Estou disposto a obedecer este ensino?” Provaremos a validade da verdade pela nossa obediência a ela.

 

A autoridade vista no exercício de dons na igreja

 

Frequentemente pensamos que a única maneira de reconhecer a Autoridade na igreja local é pela cabeça descoberta e cabelo curto dos homens, e pela cabeça coberta e cabelos compridos das mulheres. Mas há mais envolvido na verdade sobre Autoridade do que isto. Reconhecer Cristo como Cabeça da Igreja também significa submissão a Ele na esfera em que Ele tem controle. Sendo a Cabeça Ressurreta, Ele tem controle sobre o exercício dos dons na igreja reunida.

Sem entrar no assunto que será tratado no cap. 7 deste livro, é importante ver que I Coríntios caps. 12-14 ensina que o exercício do dom espiritual na igreja local, embora executado na energia do Espírito Santo, é na direção do Senhor: é debaixo das Suas ordens. Na opinião deste presente autor, a frase “a direção do Espírito Santo” está sendo usada demais nas igrejas, até o ponto de insistir numa prática que prejudica a igreja. I Coríntios 12:4-7 faz distinções precisas sobre a distribuição e uso dos dons. Os dons são dados pelo Espírito Santo; um irmão tem um dom dado a ele pelo Espírito Santo. Mas em I Coríntios 12:5 precisamos observar que a administração do seu dom, isto é, o seu uso na igreja, está sob a direção e controle do Senhor. I Coríntios 12:6 ensina que o poder para usar o dom vem somente de Deus, e isso indica que a pessoa usando o dom é responsável a Deus. Portanto, é confundir estes princípios falar de uma reunião sendo “deixada aberta para a direção do Espírito Santo”. O controle dos irmãos capacitados nas reuniões da igreja está nas mãos do Senhor Jesus Cristo como Cabeça; e o poder para exercer o dom é dado pelo Espírito Santo. Falhar no reconhecimento destes princípios é deixar de dar ao Senhor o Seu devido lugar como Cabeça. Uma reunião pode ser deixada sem qualquer plano prévio sobre quem vai falar, mas para ser proveitosa para a igreja, aqueles que falam precisam ser capacitados pelo Espírito Santo para este trabalho, e eles precisam estar com a mente do Senhor ao se levantarem para falar.

Autoridade vista em funções diferentes

dos homens e mulheres na igreja

Agora vamos considerar I Coríntios 11:2-9 em relação à Autoridade.

Nestes versículos as Escrituras mostram como Deus deseja que os homens e as mulheres mostrem, de maneiras diferentes, sua submissão à Autoridade de Cristo na igreja local. Paulo começa o assunto falando de uma maneira conciliatória, ao elogiá-los pela sua obediência às tradições apostólicas que ele ensinara. No cap. 11, Paulo vai tratar de dois problemas em Corinto, e como é seu costume, ele deixa o problema mais grave para o fim — a embriaguez e desordem na Ceia. Isto não quer dizer que o problema em relação à Autoridade não tinha importância.

Ele usa quinze dos trinta e quatro versículos para corrigir este assunto, que ele identifica como uma das “tradições” apostólicas.

Ao descrever o seu ensino como “tradição”, Paulo não está dizendo que a Autoridade é uma tradição porque eles a tinham guardado por um período de tempo. A palavra “tradição” é usada para descrever os ensinos apostólicos que tinham sido entregues por Deus a Paulo, e em seguida aos coríntios. Os assuntos que Paulo iria corrigir neste capítulo eram parte da sua mordomia — foram entregues a ele como um tesouro precioso para ser preservado. Ele informa os coríntios que, mesmo que tivessem guardado as tradições, ainda há coisas precisando de esclarecimento e correção. É por isso que ele diz no v. 3: “Mas quero que saibais …” Seu ensino corretivo é sobre a demonstração de Autoridade na igreja local, e ele usa três argumentos: um baseado na Cristologia, um baseado na Criação, e um baseado na Decência.

O argumento da Cristologia (I Co 11:3-6)

Paulo começa seu discurso apresentando o fundamento Cristológico para o assunto de Autoridade em 11:3, isto é, este assunto é baseado numa compreensão da doutrina da Pessoa de Cristo. Ele fala da hierarquia da Autoridade, afirmando que “Cristo é a cabeça de todo o homem; e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo”. É importante observar que ele afirma as implicações da autoridade para o homem, depois a mulher, e Cristo no final. Talvez nós acharíamos que ele deveria ter começado dizendo que Deus é a cabeça de Cristo, para dar mais solenidade ao assunto. Contudo, o fato de Deus ser a cabeça de Cristo não é o ponto central no argumento do apóstolo nesta questão de cobrir a cabeça; e por isso ele o menciona por último. A questão a ser corrigida é a autoridade de Cristo como demonstrada pelo homem e também pela mulher. Como mencionamos mais cedo, o significado da palavra “cabeça” no v. 3 é “autoridade e poder”; não se trata de desigualdade ou inferioridade. Cristo é sujeito à autoridade do Pai, como em Filipenses 2:5-7 e I Coríntios 15:28; mas o Pai não é a “fonte ou origem” de Cristo, como alguns querem interpretar “cabeça”. Efésios 5:23 reforça esta interpretação, ao ensinar que a esposa deve se submeter ao seu marido porque ele é sua “cabeça”. Obviamente ele não é “cabeça” no sentido de ser a sua “fonte ou origem”, mas no sentido de autoridade.

Este versículo também esclarece que submissão à Autoridade não tem nada a ver com inferioridade das mulheres ou seu domínio pelo homem, pois Cristo não era inferior ao Pai e nem foi dominado pelo Pai.

Está relacionado com a aceitação da função dada por Deus. Também é importante salientar que, no v. 12, onde Paulo faz um apelo à ordem criatorial, embora as palavras traduzidas “homem” e “mulher” podem, em outros lugares, ser traduzidas “marido” e “esposa”, o contexto aqui mostra que este ensino sobre a Autoridade está relacionado a homem e mulher, e não somente a marido e esposa. Se a passagem significasse “marido” e não “homem”, então o v. 12 significaria que a esposa provém do marido, como também o marido da esposa, que é incompreensível!

Em I Coríntios 3:21-23 Paulo usa esta mesma hierarquia Divina, quando ele afirma que aqueles que ensinam a Palavra de Deus são [estão debaixo] de Cristo, e Cristo é [está debaixo] de Deus.

Em 11:4-6, Paulo salienta as implicações desta hierarquia dentro da Autoridade. O homem não deve cobrir a sua cabeça física quando ele ora ou profetiza. Se ele tiver sua cabeça coberta ele está desonrando sua cabeça (v. 4). Como devemos entender esta palavra “cabeça” no final do v. 4? Ele está desonrando sua cabeça física, ou sua cabeça figurativa, que é Cristo? O uso do artigo (no grego) com a palavra “cabeça” sugere que é sua cabeça física que ele desonra. Contudo, o argumento por extrapolação inclui o fato que ele também desonra sua cabeça figurativa, Cristo. O homem que ora ou profetiza com sua cabeça coberta desonra a si mesmo e também desonra a Cristo.

Semelhantemente, o v. 5 afirma claramente: “toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada”. A mulher orando ou profetizando com sua cabeça descoberta desonra sua cabeça física, e assim também desonra o homem, que é sua cabeça figurativa. Isto indica que se ela desonra o homem, esta desonra também reflete de maneira negativa em Cristo, que é a cabeça do homem. Alguns argumentam que a cabeça descoberta da mulher significa que ela cortou o seu cabelo, porque no v. 15 lemos que “o cabelo lhe foi dado em lugar de véu”. A razão por não aceitar esta ideia é que a palavra “coberta” usada no v. 4 vem de uma palavra grega que significa “tendo alguma coisa sobre a cabeça”. A mesma palavra grega, na forma substantiva, é usada na LXX em Isaías 47:2, onde e traduzida “remove o teu véu”. Porém a palavra grega traduzida “véu” no v. 15 é diferente*; significa “algo enrolado em torno de”, e portanto se refere a alguma coisa que encobre, adicional ao cabelo da mulher.

Agora precisamos considerar o que significa a frase “orando ou profetizando” (vs. 4-5). O espaço disponível não permite apresentar todas as sugestões que existem sobre este assunto. A explicação mais simples é que a Autoridade exige que o irmão descubra a sua cabeça, e que a mulher cubra a sua cabeça durante as orações ou profecias nas reuniões da igreja. Quando um homem dirige o grupo em oração a Deus, ou dá instruções da parte de Deus, cada membro do grupo participa nesta atividade. Assim, cada pessoa está “orando ou profetizando”. Oração é falar com Deus, e profetizar é falar em prol de Deus. É importante observar que esta foi a interpretação aceita durante toda a época da Igreja, até que surgiu o Movimento Feminista, na última metade do século XX.

* Tanto que na ARA é usada a palavra “mantilha” no v. 15. (N. do T.)

Esta atividade de orar ou profetizar inclui todas as reuniões em que há oração ou pregação. Entre outras, inclui escolas dominicais, reuniões para crianças, reuniões evangelísticas. Surge então a pergunta — será que o assunto do véu se aplica a todas as reuniões, ou apenas às reuniões da igreja? Neste contexto devemos observar que no v. 1 Paulo está falando sobre “preceitos”: os ensinos e práticas que ele, como Apóstolo, passou para a igreja. Isto, claramente, sugere as reuniões da igreja. É improvável que a atividade de profetizar, nos vs. 4-5, acontecesse em particular. No v. 16, Paulo chega à sua conclusão afirmando que “nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus”: o que novamente sugere que esta instrução tenha aplicação à igreja. Então, se estas instruções são para as reuniões da igreja, será que há necessidade de obedecê-las em reuniões que não são da igreja? É muito fácil fazer perguntas sobre situações hipotéticas, mas é mais difícil respondê-las. Entretanto, lembrando do que escrevemos na introdução, devemos procurar um preceito, e onde nenhum preceito é dado, devemos procurar um princípio.

Às vezes a pergunta é feita, será que uma irmã deve cobrir a cabeça num casamento ou enterro? Os preceitos de I Coríntios 11 são dados para situações quando os cristãos se reúnem. Se num casamento ou enterro os cristãos se ajuntam (11:17, 18, 20, 33, 34) e estão ocupados em falar com Deus ou em ouvir a comunicação de Deus na pregação, então a cabeça dos homens estará descoberta e a cabeça das mulheres coberta.

Se um cristão, membro de uma igreja local, é convidado a um casamento ou enterro fora da responsabilidade da igreja local (por exemplo, o enterro de um parente que não estava em comunhão numa igreja local), então não podemos esperar achar um preceito para governar esta situação, pois o Novo Testamento não dá ensino para um ajuntamento que não seja de uma igreja local. Entretanto, há um princípio envolvido: a mulher não deve trazer desonra sobre a sua cabeça, e assim sobre o Senhor por ter sua cabeça descoberta onde há oração ou pregação coletiva.

A localidade não importa: pode ser dentro de casa ou ao ar livre. A questão é o reconhecimento da Supremacia do Senhor entre o Seu povo durante a sua atividade de orar ou pregar. Há outros princípios envolvidos, e com igual importância em tal caso. Há a questão do testemunho da igreja local onde a irmã se reúne: o que a sua cabeça descoberta vai mostrar para os outros presentes? Estas são considerações solenes de princípios que não devemos negligenciar.

Outro problema é causado por aqueles que dizem que um chapéu, como usado pelas mulheres na cultura ocidental, não serve, e que ela deve usar um véu. Notamos que Paulo não mencionou nenhuma coisa específica, mas usa um termo geral (“cobrir”), e assim qualquer coisa que cobre a cabeça é suficiente, independentemente do tipo de material ou modelo. Um lenço, mantilha ou pano semelhante, que cobre a cabeça, é o mais perto que podemos chegar ao significado da palavra que Paulo usa para “cobrir”. Isso não exclui um chapéu, como é usado em muitas partes do mundo ocidental. Também, devemos notar que o propósito é cobrir a cabeça, e não o cabelo (vs. 5, 10). Devemos tomar cuidado em relação ao estilo extravagante, e o custo exagerado, de alguns chapéus. A função principal de cobrir a cabeça é demonstrar submissão à Autoridade, e não chamar atenção ou estar na moda. Frequentemente é dito que é o cabelo da mulher, que é a sua glória, que deve ser coberto quando ela estiver na presença do Senhor na igreja local. Se fosse assim então a mulher precisaria usar seu cabelo de uma maneira que ficasse totalmente invisível. Mas este não é o  significado. O cabelo da mulher é lhe dado como cobertura, mas não diz que é lhe dada como glória, como alguns afirmam. O que 11:15 diz é que “… ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso”. A sua glória não é o cabelo em si, mas o fato dela ter deixado o cabelo crescer em obediência às Escrituras, e em reconhecimento da Autoridade do homem e de Cristo. É realmente o inverso do v. 6, onde ter cabelo tosquiado, ou rapado, é coisa indecente para a mulher.

Alguns argumentam que há um argumento cultural inerente no raciocínio de Paulo, e portanto seu argumento não se aplica à nossa cultura hoje. Obviamente, este não é o caso. A história revela que entre os judeus os homens cobriam suas cabeças quando adoravam, e as mulheres descobriam as suas. Entre os romanos, tanto os homens como as mulheres cobriam suas cabeças quando adoravam seus deuses pagãos.

Entre os gregos, tanto os homens como as mulheres descobriam suas cabeças quando adoravam seus deuses. Assim, Paulo está confirmando um ensino que era culturalmente diferente de todo grupo e sociedade de onde vieram os convertidos para formar a igreja local. Ele baseia seu ensino num fundamento teológico, e não nos costumes sociais daquele tempo.

O argumento da Criação (I Co 11:7-12)

No parágrafo anterior observamos que o homem e a mulher têm responsabilidades diferentes em relação à Autoridade por causa da nossa ligação com Cristo, e por causa da Sua posição de supremacia na ordem estabelecida por Deus. O Apóstolo agora procede no seu argumento, mostrando que o homem e a mulher têm ligações conjuntas dentro da ordem criatorial de Deus, e que a autoridade do homem sobre a mulher deve ser mostrada por causa da ordem natural das coisas na Criação. A Criação mostra que a mulher foi criada do homem e para o homem. Por isso Paulo afirma, no v. 7, que o homem é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. A mulher não é imagem do homem; ela também é imagem de Deus (veja Gn 1:26-27).

Por esta razão, o homem não deve cobrir a sua cabeça (v. 7), e a mulher

deve “ter sobre a cabeça sinal de poderio” (v. 10). A Adão, como o primeiro homem criado, foi conferido Autoridade, como podemos ver em cinco detalhes no relato da Criação em Gênesis caps. 1-3:

i) Adão foi criado antes de Eva;

ii) Adão tinha a autoridade para dar aos animais os seus nomes antes de Eva ser formada;

iii) Adão tinha a autoridade de dar nome a Eva depois de ser formada por Deus;

iv) Deus considerou Adão responsável pela Queda, embora Eva desobedecesse primeiro (veja também Rm 5:12);

v) Eva foi chamada por Deus de “auxiliadora idônea” para Adão quando ela foi criada, antes da Queda.

As Escrituras do Novo Testamento enfatizam a Autoridade de Adão em Romanos 5:12-21, e o fato que Deus criou Adão primeiro é a base deste ensino sobre Autoridade (I Co 11:8-9; I Tm 2:13). A verdade sobre Autoridade abrange a responsabilidade do homem para com Deus e sua autoridade sobre a mulher. A Autoridade do homem no lar é ensinada em Efésios 5:22-24, e sua Autoridade na igreja local é ensinada em I Coríntios 11. Tanto a sequência da criação do homem e depois da mulher (v. 9), como o propósito da criação da mulher para o homem (v. 8), são usados para ensinar sobre a Autoridade do homem sobre a mulher. É significante que é neste ponto que Paulo acrescenta afirmações que qualificam esta autoridade. O homem e a mulher não são independentes um do outro, nem é o homem superior à mulher por causa de ter sido criado antes dela (vs. 11-12). A mutualidade do seu relacionamento não é anulada pela autoridade do homem. O raciocínio aqui é facilmente entendido, com a exceção das duas frases no v. 10, “sobre a cabeça sinal de poderio” e “por causa dos anjos”, que agora vamos considerar.

“Sobre a cabeça sinal de poderio” tem sido explicado como um sinal de estar debaixo de autoridade (margem da Bíblia de Newberry). “Portanto” (v. 10) está se referindo aos versículos anteriores como a razão por que a mulher deve cobrir a cabeça; é símbolo da prioridade do homem na criação como Cabeça, e do propósito da mulher na Criação, como sua auxiliadora. Para uma mulher não cobrir a sua cabeça nas reuniões é como se ela falasse duas coisas: “Eu não estou debaixo da autoridade do homem, e tenho a minha própria autoridade”. Por outro lado, se o homem cobrir a sua cabeça nas reuniões é como se dissesse: “Não tenho autoridade própria e estou debaixo da autoridade da mulher”, pois, realmente, não há mais ninguém ali a quem ele pode curvar-se em submissão a não ser Cristo, e sua submissão a Cristo será demonstrada por não cobrir a cabeça.

“Por causa dos anjos” é mencionado como outra razão por que a mulher deve cobrir a cabeça. Os anjos são os agentes que cuidam dos interesses de Deus, especialmente nas atividades espirituais. Os serafins em Isaías 6, que clamaram “Santo, santo, santo”, cobriram seus rostos e seus pés porque estavam na presença de Deus. A palavra grega usada na Septuaginta para “cobrir” em Isaías 6:2 é a mesma palavra que Paulo usa no v. 6, sobre o cobrir da cabeça da mulher. Se os anjos, que não são parte da hierarquia mencionada no v. 3, se cobrem na presença de Deus, então a mulher, que é sujeita à autoridade do homem, de Cristo

e de Deus, deve tomar cuidado e não repetir a ação rebelde que os anjos testemunharam em Gênesis 3. Os anjos testemunharam a queda do homem por causa da usurpação feminina da autoridade de Deus e do homem. As consequências tão abrangentes daquela usurpação são vistas através de toda a existência humana; e agora, é o privilégio da humanidade redimida demonstrar que a autoridade, divinamente dada ao homem, foi restaurada na igreja local onde a Autoridade é honrada.

Nesta parte do ensino sobre Autoridade, é útil destacar a estrutura na passagem em que Paulo ensina:

• 11:7 — Homens não devem cobrir suas cabeças por causa das razões dadas nos vs. 8-9;

• 11:8-9 — As razões que apoiam a ordem sobre cobrir a cabeça;

• 11:10 — As mulheres devem cobrir suas cabeças por causa das razões dadas nos vs.8-9.

O argumento da decência (I Co 11:13-15)

Até este ponto Paulo tem argumentado usando razões teológicas, mas agora, no v. 13, ele introduz outro argumento, baseado no que é “decente” ou “conveniente”. Nos parágrafos anteriores identificamos as nossas responsabilidades por causa da nossa ligação com Cristo e por causa da nossa ligação mútua dentro da ordem criatorial. Nos vs. 13-15, as Escrituras agora mostram que a própria natureza do homem e da mulher também tem uma influência no assunto, e os convida a julgar por si mesmos: na ordem espiritual, é decente que a mulher ore a Deus sem cobrir a cabeça, em vista do que foi dito anteriormente? Ao lembrarmos dos argumentos sobre a Autoridade do homem, da Criação e dos anjos, seria correto para a mulher orar descoberta? A resposta inferida é — nunca! Paulo argumenta que visto que a natureza deu à mulher um tipo de cobertura na esfera natural, ela deve estar disposta a usar outro tipo de cobertura na esfera espiritual. No caso de uma mulher orar sem cobrir a cabeça (v. 13), e um homem ter cabelo crescido (v. 14), Paulo apela à natureza como dada pela mão de Deus na Criação. Deus implantou no homem e na mulher, na Criação, um senso apropriado do que é certo ou errado. Romanos 1:26-27 é uma passagem paralela, que apresenta um conceito semelhante daquilo que é certo e errado sendo identificado pela nossa natureza, gravada pelo dedo de Deus, na Criação. O cabelo crescido do homem e o cabelo curto da mulher são contrários ao bom senso natural. Para a mulher usar o cabelo crescido, de maneira feminina, é um sinal exterior de que ela está entendendo e cumprindo seu papel na Criação. Semelhantemente, para o homem ter cabelo curto, de maneira masculina, é cumprir seu papel na Criação.

Como o homem e a mulher usam o seu cabelo é um sinal exterior de que estão ou não permanecendo na ordem correta da Criação.

Devemos notar que agora Paulo somente menciona orar e não profetizar, como fez no v. 5. Isso enfatiza o fato que profetizar na reunião era proibido para a mulher (14:34); mas toda mulher participava nas orações da congregação, e portanto deveria ter a sua cabeça coberta.

Nesta parte, onde ele apela à decência, Paulo então introduz o assunto do cabelo, porque ele está intimamente associado com a cabeça (vs. 14-15). Também há uma ligação com os vs. 5-6, onde Paulo falou que é vergonhoso para a mulher ser tosquiada ou rapada. A “desonra” e “indecência”, dos vs. 5-6 devem ser entendidas à luz do que ele afirma aqui nos vs. 14-15. Paulo faz uma pergunta retórica em relação à ordem aceitável na esfera natural. Ele pede a sua consideração ao fato que, como a natureza ensina o homem usar cabelo curto e à mulher usar cabelo crescido como uma cobertura natural, não seria o caso que

a natureza também está ensinando que o homem não deve cobrir a sua cabeça, e que a mulher deve cobrir a sua cabeça nas reuniões da igreja?

A pergunta é feita de tal maneira que a resposta só pode ser afirmativa.

Quando Paulo fala sobre a natureza, ele está se referindo à maneira que a sociedade age normalmente. Ele não está dizendo que, fisiologicamente, o cabelo do homem é curto, e o da mulher comprido: ele está dizendo que os homens normalmente cortam seus cabelos e as mulheres geralmente deixam seu cabelo crescer. Isso não quer dizer que as mulheres não precisam cobrir suas cabeças, mas que, como ela já tem uma coisa que a cobre na esfera natural, ela deve também usar outra na esfera espiritual. Voltando ao v. 6, o argumento agora parece mais claro: se ela recusa cobrir a cabeça na esfera espiritual, então, para ser consistente, ela deve também recusar a cobertura natural, e tosquiar ou rapar seus cabelos! A conclusão é que se nenhuma mulher pensaria em fazer isso, por que então as irmãs devem pensar em fazer algo mais sério, na esfera espiritual, deixando de cobrir a sua cabeça?

Nos vs. 5-6 a vergonha e desonra da mulher é em tosquiar ou rapar seus cabelos; porém aqui no v. 15 é a questão do cabelo comprido como uma glória (o inverso de vergonha). Tem ocorrido muito debate sobre este assunto durante muitos anos. A única maneira de resolver a questão é aproximar-se do assunto num espírito de submissão e obediência às Escrituras, e perguntar: “O que este texto diz?” e: “Será que estou disposto a obedecê-lo?”. O v. 15 ajuda a esclarecer o v. 14, e por isto começaremos com o v. 15, que diz que é uma glória para a mulher ter cabelos compridos. Alguns interpretam “comprido” como “não cortado”,

ou no seu comprimento natural, seja este qual for. Uma maneira mais clara de chegar à interpretação deste versículo é usar o inverso para nos ajudar a compreender o que “crescido ou comprido” significa. O que é o oposto de comprido? No contexto da passagem é tosquiar ou rapar, e não é afirmado quanto cabelo é tosquiado ou rapado. Muitos dizem que a antiga pergunta “quão comprido é comprido?” não pode ser respondida usando I Coríntios 11, mas devemos deixar a passagem falar por si mesma. Colocando os vs. 14-15 ao lado dos vs. 5-6, veremos que cabelo comprido é cabelo que não foi tosquiado ou rapado. Nada pode anular o raciocínio do Apóstolo aqui — cabelo que foi tosquiado ou rapado não é cabelo comprido, e é uma vergonha para a mulher. É o oposto do que traz glória à mulher. Em vista deste argumento de Paulo, não é satisfatório dizer que basta que o cabelo da mulher seja comprido o suficiente para mostrar sua feminilidade e distingui-la dos homens. A passagem não trata da demonstração de feminilidade ou masculinidade, mas da demonstração de submissão aos princípios da Autoridade masculina e feminina. Uma prova disso é o uso das duas palavras diferentes, “tosquiar”e “rapar”. “Tosquiar” (02751, Strongs) é usar a tesoura para cortar.

“Rapar” (03587, Strongs) é usar a navalha para rapar o cabelo ou barba.

Nada aqui deve ser aplicado como sendo vergonha para uma irmã que perde seus cabelos devido a um acidente ou enfermidade, ou como efeito de tratamento de uma doença, ou outra ocorrência anormal.

Também, não deve ser aplicado à irmã cujo cabelo não cresce como o das outras. Também seria legalismo usar este ensino para dizer que uma irmã que corta as pontas dos seus cabelos para mantê-los em boa condição esteja em falta. Semelhantemente, somente aqueles que querem tomar liberdades com a Palavra de Deus usariam esta desculpa de cortar as pontas para ter cabelos que obviamente não são longos.

O argumento da vida da igreja local (I Co 11:16)

Agora Paulo chega a uma conclusão importante e solene. Ele afirma que o que ele está ensinando não é alguma coisa nova entre as igrejas, ou algo que não era ensinado em outras igrejas locais. Ele afirma que o que ele ensinou sobre cobrir a cabeça e sobre o cabelo eram princípios praticados universalmente entre as igrejas locais de Deus. Ao apresentar seus argumentos da Cristologia, da Criação e da Decência, ele não está apelando a alguma cultura específica, mas mostra que estes argumentos doutrinários formam a norma para cada igreja local em qualquer cultura e em qualquer período desta dispensação. Não é algo inventado por ele mesmo; é uma tradição apostólica entregue a todas as igrejas. É muito solene deixar de lado o que Paulo ensinou; de fato, seria desobediência à Palavra de Deus! Paulo está mostrando que recusar este ensino coloca uma igreja “fora de compasso” com as outras igrejas de Deus. Para agir de uma maneira diferente destes ensinos sobre a Autoridade é contrário ao próprio caráter do que uma igreja é. É um equivoco para um grupo de santos reivindicar ser uma igreja de Deus e deixar de lado o que Deus ordenou através de Seus Apóstolos e da Sua Palavra. No seu livro The Letters of Paul, F. F. Bruce traduz este v. 16: “Nós não temos tal costume que vocês estão querendo introduzir, e nem tampouco as igrejas deDeus em outras partes”.

Alguns interpretam a passagem corretamente quanto ao seu significado, mas depois concluem que a sua aplicação pode variar de acordo com a sociedade em que se encontram. Isto em si é um método fraco de exegese, porque a interpretação de qualquer passagem das Escrituras deve sempre governar a sua aplicação, e não vice-versa. Além disso, se usarmos este raciocínio para dispensar o uso dos símbolos da Autoridade na primeira parte deste capítulo, pela mesma razão poderíamos também dispensar com os símbolos da recordação do Senhor, na segunda parte do capítulo! Fazer isto nunca seria aceito em qualquer comunidade de verdadeiros cristãos; e isto revela a insensatez de mudar os símbolos da Autoridade nos vs. 2-16. Estes símbolos que Deus tem escolhido para manifestar a verdade sobre Autoridade são Seus, e modificá-los não é somente insensatez, mas imprudência espiritual.

Conclusão

Temos visto que o controle de uma igreja local é manifestado pela demonstração da verdade da Autoridade. Onde esta Autoridade é reconhecida pelo uso do cabelo curto e cabeça descoberta dos homens, e pelo cabelo comprido e cabeça coberta das mulheres, isso contribui para a glória da igreja local.

Por outro lado, será impossível estar em desobediência ao ensino das Escrituras sobre a Autoridade sem diminuir a glória da igreja local.

Nenhum salvo espiritualmente sensível irá querer ser responsável por isto!

Um reconhecimento completo dos três princípios com que começamos este capítulo sobre a Autoridade trará prosperidade espiritual à igreja local e glória a Deus. Assim, devemos sempre nos esforçar para honrar a autoridade das Sagradas Escrituras, o Espírito Santo, e o Senhor Jesus Cristo.

Por Walter A. Boyd, Irlanda do Norte   

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