Alguém que me escreveu no YouTube:
Irmão, você está equivocado quanto à origem do chamado “exclusivismo”. É importante ter cautela ao ler comentários sobre Darby, pois muitos são distorcidos. O ideal é sempre consultar diretamente os seus escritos.
Os chamados “irmãos exclusivistas” não se originaram em Darby. A divisão que produziu esse grupo começou com F. E. Raven, que criou um racha baseado em interpretações particulares de certos princípios ensinados por Darby. No entanto, ao lermos os próprios escritos de Darby, percebemos que ele não apoiava esse tipo de divisão.
Raven utilizou verdades bíblicas ensinadas por Darby — especialmente quanto ao zelo e à pureza na mesa do Senhor — mas aplicou esses princípios de maneira a criar uma nova divisão, o que contraria o espírito dos ensinos de Darby. Ele sempre foi contrário a separações carnais e a divisões entre irmãos (1 Coríntios 1:10; 3:3), ainda que enfatizasse a necessidade de zelo ao receber alguém à mesa do Senhor (1 Coríntios 5:6–8).
Eu mesmo congrego com o irmão Mário Persona, e entendemos que não existe essa ideia de “exclusivismo” ou de “seguir Darby” como se fosse uma denominação, como alguns vídeos insinuam. O zelo que Darby ensinava não é nada além do ensino bíblico: não permitir que a mesa do Senhor seja contaminada (1 Coríntios 10:21; 5:11–13).
Neste sentido, seguimos o mesmo entendimento que Darby tinha — que é, na verdade, o ensino do próprio apóstolo Paulo. Do mesmo modo, não se recebe à mesa irmãos que permanecem no sistema denominacional, pois esse sistema é um erro do qual a pessoa precisa se separar para estar em comunhão prática (Hebreus 13:13; 2 Timóteo 2:19–22). Uma vez abandonado tal erro, o irmão é recebido com alegria, como a Palavra ordena (Romanos 15:7).
Também é importante lembrar que não adotamos títulos como “irmãos x” ou “irmãos y”.
Por isso, deixo um alerta: cuidado com o “denominacionalismo invisível” e com qualquer espírito de divisão. A igreja é um só corpo, e nada deve ser acrescentado além do que a Escritura ensina.
Minha Resposta:
Agradeço a mensagem, mas permita-me esclarecer com calma e fidelidade às Escrituras, sem rótulos humanos e sem misturar conceitos que não têm base bíblica.
Em primeiro lugar, ninguém aqui defende Darby como um “fundador” de grupo algum. O próprio Darby rejeitava qualquer ideia de partido ou denominação. A verdadeira questão nunca foi “seguir Darby”, mas seguir somente a Palavra de Deus. E, exatamente por isso, é preciso distinguir com clareza dois assuntos que você misturou:
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Pureza na ceia do Senhor, que é um princípio bíblico (1 Coríntios 5:6–8; 1 Coríntios 10:21).
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Exclusivismo sectário, que é fruto da carne e condenado pelo próprio apóstolo Paulo (1 Coríntios 1:10; 3:3).
F. E. Raven realmente desenvolveu um exclusivismo que não encontra apoio no ensino neotestamentário. Mas o zelo pela ceia do Senhor não nasceu dele, nem de Darby — nasceu de 1 Coríntios. Quando a Palavra diz que “um pouco de fermento leveda toda a massa”, ela não ensina exclusivismo: ensina santidade.
Além disso, você afirma que “não se aceita à ceia do Senhor irmãos que permanecem no sistema denominacional porque isso é um erro do qual ele precisa se separar”. A questão é muito mais ampla do que essa frase sugere. O Novo Testamento nunca coloca “não ser denominacional” como critério de comunhão, mas sim:
– vida moral correta (1 Coríntios 5:11–13),
– doutrina que não destrói o fundamento do evangelho (Romanos 16:17),
– consciência limpa perante Deus (1 Timóteo 1:5).
O problema não é a pessoa estar num sistema; o problema é o que ela professa, pratica e aceita, e se isso fere a Pessoa de Cristo, a Sua obra ou a verdade revelada. A separação de 2 Timóteo 2:19–22 é moral e doutrinária, não denominacional. O texto fala de injustiça e de vasos para desonra, não de placas de igreja.
Também é importante corrigir outro ponto: receber ou não receber alguém não pode ser transformado num “princípio absoluto” aplicado de forma mecânica. A própria Escritura mostra que o princípio é universal, mas a aplicação é local. Exemplo: Romanos 14 ensina que irmãos com convicções diferentes podem caminhar juntos desde que nenhum pecado ou falsa doutrina esteja envolvido. A ceia do Senhor é do Senhor, mas a responsabilidade de julgar é sempre congregacional, nunca de uma “comissão mundial”.
Outro ponto: você diz que “não se denominam”, mas o tom da mensagem revela exatamente o perigo que você mesmo citou: o “denominacionalismo invisível”. Quando alguém começa a aplicar um conjunto de práticas como se fossem “o padrão” e ver todos os outros irmãos através desse filtro, sem perceber, já criou uma denominação — mesmo que sem nome.
A igreja é “um só corpo” (Efésios 4:4), e isso não significa admitirmos o mal, mas também não significa reduzir o corpo apenas aos que andam conosco. O sectarismo pode nascer tanto da frouxidão moral quanto do excesso de zelo mal aplicado.
A solução bíblica é simples:
– examinar cada caso com oração e verdade (João 7:24),
– guardar a ceia do Senhor de fermento moral e doutrinário (1 Coríntios 5),
– receber quem Cristo recebe (Romanos 15:7),
– jamais transformar práticas locais em cercas carnais (Colossenses 2:20–23).
Se a intenção é manter comunhão ao redor do Nome do Senhor, então não podemos misturar princípios bíblicos com tradições humanas — nem de Raven, nem de Darby, nem de quem quer que seja. A autoridade final é só a Escritura.
A pessoa respondeu-me novamente dizendo:
Vou tentar explicar de forma simples, porque percebo que usamos as mesmas palavras, mas com sentidos diferentes, e isso gera ruído. Você disse que o Novo Testamento não coloca “não ser denominacional” como critério de comunhão. Concordo que o termo “denominação” não aparece na Bíblia, mas o princípio por trás disso aparece claramente. A Escritura condena divisões organizadas entre cristãos. Paulo não fala apenas de contendas, mas de partidos e identidades religiosas distintas, como quando diz: “Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas…” (1 Coríntios 1:12–13). Para mim, isso já é denominacionalismo, mesmo sem placa. A questão não é o nome do grupo, mas pertencer a um sistema que divide os filhos de Deus. Isso é fermento, e Romanos 16:17 manda afastar-se — e esse afastamento é doutrinário, não apenas moral. O denominacionalismo, portanto, é uma doutrina construída sobre divisão.
Em 2 Timóteo 2, a separação ensinada é doutrinária. Himeneu e Fileto ensinavam erro; o fundamento de Deus permanece firme; e o crente deve se apartar dos vasos de desonra. Vaso de desonra não é só quem tem falha moral, mas quem aceita e permanece num sistema errado. O problema não é apenas estar num sistema, mas aceitar o sistema. Assim, quando um irmão se identifica com um sistema denominacional, ele está aceitando divisão entre cristãos, aceitando mesas concorrentes, ministérios humanos, regras não ensinadas pela Escritura e nomes que a Bíblia reprova. Isso não é uma simples opinião diferente; é erro doutrinário.
Por esse motivo, não se pode receber à mesa do Senhor alguém que permanece ligado a um sistema que divide o corpo de Cristo, pois isso traria fermento doutrinário (1 Coríntios 5). Romanos 15:7 não ensina a receber todo mundo indiscriminadamente, porque Paulo não disse para receber quem prega erro, quem aceita divisões ou quem sustenta sistemas humanos. Portanto, Romanos 15:7 não anula 1 Coríntios 5 nem Romanos 16:17.
Quando falei de separação, você mencionou “denominacionalismo invisível”. Mas o que descrevi não é um grupo, nem um nome, nem um registro, nem um conjunto humano de práticas. É simplesmente o princípio bíblico de Hebreus 13:13: “Saiamos a Ele fora do arraial.” Essa separação não foi inventada por Darby ou Raven; está na Bíblia desde Êxodo e se repete no Novo Testamento. A mesa do Senhor é una; as mesas humanas são muitas. Denominação significa várias mesas, vários centros e vários testemunhos separados. Mas há um só corpo (Efésios 4:4). Se há um só corpo, não podem existir várias mesas — e isso exige separação de quem sustenta mesas humanas.
Não estou defendendo seguir Darby, nem exclusivismo; concordamos que seguimos apenas o Senhor Jesus Cristo. Estou falando de princípios bíblicos de comunhão: a mesa é do Senhor; o fermento deve ser removido; a divisão é pecado; o corpo é um só; a comunhão é com quem anda na verdade (3 João 3–4); e a separação de 2 Timóteo 2 é prática. Por isso, alguém não pode trazer o denominacionalismo como sistema para dentro da mesa do Senhor. Isso é erro doutrinário, não apenas divergência de opinião.
Assim, entendo que quem permanece num sistema religioso está em erro doutrinário e fora da sã doutrina, embora possa congregar conosco desde que saia desse arraial (Hebreus 13:13). Somos um só corpo e, como unidade, devemos ter um só testemunho. O Senhor Jesus Cristo é o nosso Pastor e Cabeça, e devemos zelar pelas doutrinas bíblicas que são o fundamento. Portanto, devemos deixar de lado rótulos como abertos, fechados ou exclusivistas, e simplesmente nos manter no padrão bíblico.
Minha Resposta:
Antes de tudo, preciso esclarecer algo essencial que parece estar a gerar confusão: há uma diferença bíblica entre a Mesa do Senhor e a Ceia do Senhor. Essa distinção é fundamental para compreender todo o restante.
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A Mesa do Senhor
A expressão “mesa do Senhor” aparece em 1 Coríntios 10 e diz respeito ao terreno moral e doutrinário onde os crentes estão, ao testemunho coletivo que representam. Mesa fala de comunhão, de associação pública, de identificação com um testemunho. Por isso Paulo contrasta “mesa do Senhor” com “mesa dos demónios” (1 Coríntios 10:21).
Mesa não é o móvel — é o terreno espiritual onde alguém está colocado. -
A Ceia do Senhor
A ceia está em 1 Coríntios 11. Não é terreno moral; é o memorial da morte do Senhor Jesus, celebrado numa assembleia local, no primeiro dia da semana, como Ele ordenou.
A ceia não é “o lugar onde alguém é recebido”, mas uma reunião da assembleia, entre várias (oração, ministério, disciplina, estudo, etc.). -
Ninguém é recebido “à ceia” — quem é recebido é recebido à comunhão da assembleia local
A ceia é uma das reuniões; receber alguém à comunhão é algo muito mais abrangente: envolve participação em todas as reuniões, em responsabilidades, em identificação com aquele testemunho local.
Aqui já começamos a ver um problema no que você escreveu — você tomou “mesa do Senhor” como sinônimo de “ceia do Senhor”, mas biblicamente são duas coisas distintas.
Agora, indo ao ponto:
1. Não concordo com o denominacionalismo — mas isso não significa que todo salvo que está numa denominação é culpado por ela existir
É verdade que o Novo Testamento não apresenta denominações. E também é verdade que o Espírito Santo formou um só corpo (Efésios 4:4) e não vários sistemas organizados.
Mas é igualmente verdade que:
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muitos crentes piedosos foram salvos dentro desses ambientes: C. I. Scofield, Dwight L. Moody, Charles Haddon Spurgeon, Hudson Taylor, George Müller, Jonathan Edwards, John Wesley, George Whitefield, David Brainerd, William Carey, Martinho Lutero, John Bunyan
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talvez jamais conheceram nada diferente,
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são sinceros dentro daquilo que lhes ensinaram.
A divisão institucional é errada, mas a consciência individual desses irmãos não é culpada daquilo que herdaram. Isso precisa ser dito com equilíbrio.
2. Quando alguém vem de qualquer lugar — os chamados “irmãos” ou qualquer denominação — e deseja comunhão com uma assembleia local, o primeiro passo não é examinar seu grupo, mas a própria pessoa
A primeira pergunta sempre é:
“Como essa pessoa foi salva?”
Porque há muitos que frequentam ambientes cristãos há anos e nunca receberam vida, nunca nasceram de novo.
Depois disso, se esta pessoa não for conhecida dos irmãos na assembleia local:
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a assembleia deve dar tempo para conhecer a pessoa,
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ela deve assistir às reuniões,
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deve observar como a assembleia caminha,
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deve saber no que está a entrar,
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e a assembleia deve conhecer sua conduta e fé.
Muitas vezes, o próprio crente percebe que não é isso o que procura — e não há problema nisso.
Mas se é salvo e deseja caminhar, deve fazê-lo com clareza.
3. É impossível um crente participar da comunhão de uma assembleia local e ao mesmo tempo permanecer congregando numa denominação
Isso seria:
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dois lugares de identificação,
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dois testemunhos diferentes,
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duas mesas distintas.
Não é coerente bíblica nem moralmente.
Uma vez na comunhão de uma assembleia local, a pessoa não permanece identificada com outro sistema.
SOBRE “MESAS” EM 1 CORÍNTIOS 10
Não existe no capítulo uma única linha dizendo que cada denominação é uma “mesa”.
Paulo está a contrastar:
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a mesa do Senhor (a esfera espiritual do salvo),
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e a mesa dos demónios (idolatria pagã).
Querer encaixar todas as denominações nessa categoria é gravíssimo.
Devemos manter firme a verdade da assembleia local, sem criar doutrinas que a Bíblia não ensina.
E sem transformar a separação bíblica numa teoria exagerada que coloca um peso onde a Escritura não colocou.