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Eles confundem o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Graça e paz, irmão Josué.

Conversei com um judeu, e ele disse que acredita que, quando vier a ressurreição, eles irão morar na Terra restaurada e não subirão para o terceiro céu.

É isso mesmo que ensina a tradição judaica?

Eles confundem o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem?

Minha Resposta:

A sua pergunta envolve dois assuntos que precisam ser separados: primeiro, qual é a esperança de Israel apresentada no Antigo Testamento; segundo, o que o Novo Testamento acrescenta a essa revelação.

Em certo sentido, aquilo que esse judeu lhe falou tem uma base compreensível no Antigo Testamento. A esperança profética dada a Israel está fortemente relacionada com a Terra, com a restauração da nação, com Jerusalém e com o reino do Messias. Porém, a revelação completa das Escrituras vai além disso.

  1. A esperança nacional de Israel está realmente relacionada com a Terra

Deus fez promessas literais a Abraão e aos seus descendentes. Em Gênesis 12:1-3, Gênesis 13:14-17 e Gênesis 15:18, encontramos a promessa da terra.

Posteriormente, os profetas desenvolveram amplamente essa esperança. Por exemplo:

“E acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes e se exalçará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações” (Isaías 2:2).

Isaías apresenta ainda um período em que o Messias governará em justiça, haverá transformação nas condições da criação e “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:1-9).

Ezequiel também fala da restauração de Israel:

“E vos tomarei dentre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra” (Ezequiel 36:24).

Encontramos a mesma esperança em Jeremias 30:3; Jeremias 31:8-14; Ezequiel 37:21-28; Amós 9:11-15; Miquéias 4:1-8; Zacarias 8:1-8 e Zacarias 14:9-21.

Portanto, o judeu com quem o irmão conversou não está simplesmente inventando uma esperança terrena. Existe realmente no Antigo Testamento uma expectativa muito forte de restauração de Israel e de um reino messiânico estabelecido sobre a Terra.

O problema aparece quando se pensa que isso constitui toda a revelação de Deus acerca do destino dos santos ressuscitados.

  1. O próprio Antigo Testamento ensina a ressurreição

A ressurreição também fazia parte da esperança de Israel.

Daniel escreveu:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12:2).

O Senhor Jesus confirmou que a esperança da ressurreição já estava implícita na revelação dada aos patriarcas. Respondendo aos saduceus, que negavam a ressurreição, Ele citou Êxodo 3:6:

“Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22:32).

Isso é muito importante. Abraão recebeu promessas que não foram plenamente cumpridas durante sua vida terrena. Hebreus 11:13 diz que aqueles homens “morreram na fé, sem terem recebido as promessas”.

Assim, a ressurreição está ligada também à fidelidade de Deus às Suas promessas.

  1. Entretanto, Abraão esperava mais do que simplesmente uma Terra restaurada

Aqui o Novo Testamento acrescenta algo extraordinário.

Sobre Abraão, lemos:

“Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10).

Depois lemos:

“Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial” (Hebreus 11:16).

Portanto, seria incompleto afirmar simplesmente que todos os santos israelitas ressuscitarão para permanecer na Terra em condições semelhantes às pessoas que entrarão vivas no reino milenar.

Existe uma diferença importante entre Israel restaurado como nação sobre a Terra e os santos ressuscitados e glorificados.

Durante o reino milenar haverá pessoas vivendo naturalmente sobre a Terra. Israel terá seu lugar determinado por Deus, Jerusalém terá importância especial e Cristo exercerá Seu governo universal. Isaías 11; Isaías 35; Isaías 65:18-25; Jeremias 31; Ezequiel 36–37; Zacarias 14 e Apocalipse 20 apresentam diferentes aspectos desse reino.

Mas os ressuscitados pertencem a uma condição diferente. Ressurreição não significa simplesmente retornar à antiga existência natural.

  1. Precisamos também distinguir Israel da Igreja

Aqui encontramos outra diferença fundamental.

As promessas nacionais de Israel não devem ser transferidas para a Igreja, assim como as promessas específicas dadas à Igreja não devem ser confundidas com aquelas dadas a Israel.

A esperança característica da Igreja é celestial.

O Senhor Jesus disse aos discípulos:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas [...] vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós também” (João 14:2-3).

Paulo explica:

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:16-17).

Portanto, para a Igreja, a questão central nem sequer é simplesmente “onde iremos morar?”, mas “com quem estaremos?”

“E assim estaremos sempre com o Senhor.”

Esta é a esperança cristã.

  1. O terceiro céu

A expressão “terceiro céu” aparece claramente em 2 Coríntios 12:2, quando Paulo diz:

“Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos [...] foi arrebatado ao terceiro céu.”

No versículo 4, Paulo relaciona essa experiência com o “paraíso”.

Entretanto, devemos ter cuidado para não transformar a expressão “terceiro céu” numa fórmula aplicada indistintamente a todas as promessas escatológicas.

A Bíblia apresenta diferentes grupos dentro do programa profético de Deus: a Igreja, Israel, os santos do Antigo Testamento e aqueles que serão salvos durante os acontecimentos futuros. Todos são salvos pela obra de Cristo, mas isso não significa que todas as promessas feitas a eles sejam idênticas.

  1. E quanto ao “Dia do Senhor” e à “vinda do Filho do Homem”?

Aqui eu faria uma pequena correção na forma da pergunta.

Não devemos dizer simplesmente que os judeus “confundem” o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem, porque biblicamente existe realmente uma relação entre essas duas coisas.

O “Dia do Senhor” é uma expressão muito importante dos profetas.

Isaías 2:10-21 mostra o Senhor intervindo diretamente na história humana, humilhando a soberba dos homens.

Joel declara:

“Porque o dia do Senhor está perto” (Joel 2:1).

Sofonias 1:14 diz:

“O grande dia do Senhor está perto.”

Zacarias 14 também associa o Dia do Senhor à intervenção divina, ao juízo das nações e ao estabelecimento do governo do Senhor.

O Novo Testamento conserva essa expressão. Veja Atos dos Apóstolos 2:20; 1 Tessalonicenses 5:2; 2 Tessalonicenses 2:2 e 2 Pedro 3:10.

  1. A vinda do Filho do Homem está inserida nesse cenário

Quando chegamos aos Evangelhos, encontramos repetidamente a expressão “Filho do Homem” relacionada com a Sua manifestação em glória.

O Senhor disse:

“Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mateus 24:27).

E depois:

“E verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:30).

Compare também Mateus 16:27; Mateus 24:37-44; Mateus 25:31; Marcos 13:26; Lucas 17:24-30 e Lucas 21:27.

Tudo isso remonta especialmente à profecia de Daniel:

“Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem” (Daniel 7:13).

Portanto, o Dia do Senhor e a manifestação do Filho do Homem não são duas ideias completamente desconectadas.

O Dia do Senhor é um período mais amplo da intervenção e supremacia pública de Deus sobre a Terra. Dentro desse programa encontra-se a manifestação gloriosa de Cristo como Filho do Homem.

  1. O ponto que precisa ser distinguido é o arrebatamento da Igreja

Aqui está uma distinção muito importante.

O arrebatamento descrito em João 14:1-3, 1 Coríntios 15:51-52 e 1 Tessalonicenses 4:13-18 não deve ser confundido com a manifestação pública do Filho do Homem descrita, por exemplo, em Mateus 24:27-31.

No arrebatamento, Cristo vem para receber os Seus.

Na manifestação, Cristo vem com os Seus.

No arrebatamento, o encontro é “nos ares” (1 Tessalonicenses 4:17).

Na manifestação, Ele aparece publicamente em poder e grande glória (Mateus 24:30).

O arrebatamento pertence particularmente à esperança da Igreja. A manifestação do Filho do Homem está relacionada com Sua intervenção pública na Terra, o julgamento e o estabelecimento do Seu reino.

Colossenses 3:4 mostra muito bem essa diferença:

“Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.”

  1. Portanto, há uma parte verdadeira no que esse judeu lhe falou

Podemos resumir da seguinte maneira:

A esperança nacional de Israel é realmente terrena e está ligada à restauração da nação, à terra prometida e ao reino do Messias.

Porém, isso não significa que a revelação bíblica sobre os santos ressuscitados se limite a uma existência terrena.

O Novo Testamento revela aspectos celestiais que o Antigo Testamento não desenvolvia plenamente.

Além disso, não podemos colocar Israel e a Igreja exatamente na mesma posição profética. Israel possui promessas nacionais e terrenas que Deus ainda cumprirá literalmente; a Igreja possui uma vocação celestial e aguarda o Senhor Jesus para ser arrebatada e estar para sempre com Ele.

Finalmente, o Dia do Senhor e a vinda do Filho do Homem não devem ser tratados como acontecimentos sem relação. A manifestação gloriosa do Filho do Homem está inserida no grande programa do Dia do Senhor. O que precisamos distinguir dessa manifestação pública é o arrebatamento da Igreja, que constitui a esperança própria daqueles que estão em Cristo nesta presente dispensação.

Assim, o judeu com quem o irmão conversou preserva, ainda que de maneira incompleta, algo da antiga esperança de Israel: ressurreição, restauração, Terra e reino. O que lhe falta é aquilo que somente pode ser compreendido plenamente à luz da revelação do Novo Testamento: Jesus de Nazaré é o Messias prometido, Ele já ressuscitou dentre os mortos, voltará para buscar a Sua Igreja e posteriormente Se manifestará como Filho do Homem em poder e grande glória, cumprindo também as promessas que Deus fez a Israel.

Josué Matos

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O pedobatismo deve ser considerar como má doutrina ou é um mal-entendido sobre o batismo?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Quando um irmão pensa que o pedobatismo é válido, devemos considerar isso como má doutrina ou é um mal-entendido sobre o batismo?

Minha Resposta:

Creio que precisamos fazer uma distinção importante. O pedobatismo, isto é, o batismo de crianças que ainda não exerceram fé pessoal no Senhor Jesus Cristo, não encontra fundamento no ensino do Novo Testamento. Portanto, como ensino, é um erro doutrinário. Entretanto, isso não significa necessariamente que todo irmão que aceita o pedobatismo deva ser considerado um falso mestre ou alguém que ensina deliberadamente uma “má doutrina”. Em muitos casos, trata-se de um entendimento equivocado acerca da natureza, do significado e dos requisitos do batismo cristão.

É importante distinguir entre uma doutrina errada e a condição espiritual da pessoa que sustenta esse erro. Um verdadeiro crente pode estar errado sobre determinado assunto bíblico e ainda assim ser um irmão genuíno em Cristo. Áquila e Priscila encontraram Apolo, que era “eloquente e poderoso nas Escrituras”, mas cujo conhecimento ainda era incompleto. Então “lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:24-26). O caminho bíblico é ensinar e corrigir pelas Escrituras.

No caso do batismo, o padrão apresentado no Novo Testamento é bastante claro: primeiro vem a recepção da Palavra e a fé; depois, o batismo.

Em Atos dos Apóstolos 2:41 lemos: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra”. Portanto, receberam a Palavra e depois foram batizados.

Em Atos dos Apóstolos 8, quando o evangelho foi anunciado em Samaria, “como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres” (Atos dos Apóstolos 8:12). Novamente, a ordem é fé e depois batismo.

O mesmo princípio aparece no caso do eunuco etíope. Filipe anunciou-lhe Jesus e, depois de receber a mensagem, ele pediu para ser batizado (Atos dos Apóstolos 8:35-38).

Também encontramos essa ordem na casa de Cornélio. Eles ouviram a Palavra, receberam o Espírito Santo como consequência da fé em Cristo e então Pedro perguntou: “Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também receberam como nós o Espírito Santo?” (Atos dos Apóstolos 10:47).

O carcereiro de Filipos também é significativo. Paulo e Silas disseram: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos dos Apóstolos 16:31). Depois “lhe pregaram a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (Atos dos Apóstolos 16:32). Somente depois disso ocorreu o batismo. Portanto, usar os chamados “batismos de casas” para provar o pedobatismo exige colocar no texto algo que ele não afirma. Não há indicação de que bebês tenham sido batizados.

Além disso, o próprio significado do batismo pressupõe uma experiência espiritual anterior. Romanos 6:3-4 apresenta o batismo relacionado à identificação do crente com a morte, o sepultamento e a ressurreição de Cristo. Colossenses 2:12 igualmente diz: “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus”. O batismo, portanto, é uma figura pública da identificação do crente com Cristo.

Há ainda um episódio particularmente esclarecedor em Atos dos Apóstolos 19:1-7. Alguns homens haviam recebido anteriormente o batismo de João. Quando Paulo percebeu que a compreensão deles era incompleta, explicou-lhes a verdade acerca do Senhor Jesus. Depois disso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Isso demonstra que não basta ter passado anteriormente por uma cerimônia chamada “batismo”; é necessário que o ato corresponda ao significado bíblico do batismo cristão.

Por isso, uma pessoa que foi “batizada” quando bebê e posteriormente se converte ao Senhor Jesus não deveria pensar que já recebeu o batismo cristão. Biblicamente, ela ainda precisa ser batizada como crente. Não se trata propriamente de “rebatismo”, pois aquilo que recebeu quando criança não corresponde ao padrão neotestamentário do batismo cristão.

Também devemos lembrar que a palavra grega baptízō traz a ideia de mergulhar, imergir. O próprio relato de João Batista é significativo: “João estava também batizando em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas” (João 3:23). Se fosse simplesmente uma questão de colocar algumas gotas de água sobre alguém, a referência a “muitas águas” perderia grande parte de sua força.

Portanto, há dois problemas no pedobatismo: o sujeito e, frequentemente, o modo. O sujeito bíblico do batismo é aquele que recebeu a Palavra e creu em Cristo; e o modo apresentado pelo significado da palavra e pelo simbolismo de Romanos 6 é a imersão.

Entretanto, há ainda uma distinção muito importante quanto à gravidade do erro.

Uma coisa é um irmão dizer: “Creio que filhos pequenos de cristãos podem ser batizados como sinal de pertencimento à família da aliança”. Consideramos essa interpretação equivocada e sem apoio suficiente no Novo Testamento. Outra coisa, muito mais grave, é ensinar que o batismo infantil regenera a criança, remove o pecado original, comunica salvação ou torna automaticamente aquela criança participante da vida de Cristo.

Nesse segundo caso, já não estamos apenas diante de uma interpretação equivocada sobre quem deve ser batizado. Estamos tocando na própria doutrina da salvação.

A Escritura é clara:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36).

Nenhuma cerimônia exterior possui poder regenerador. A salvação está em Cristo e é recebida mediante a fé. Atribuir ao batismo poder salvador é, portanto, um erro consideravelmente mais grave do que simplesmente estar equivocado quanto à idade ou condição da pessoa que deve ser batizada.

Assim, eu responderia à pergunta desta maneira: o pedobatismo é uma doutrina errada acerca do batismo, porque não corresponde ao padrão apresentado no Novo Testamento. Porém, não devemos automaticamente classificar todo irmão pedobatista como falso mestre ou alguém comprometido com doutrinas destruidoras da fé. Precisamos saber exatamente o que ele crê.

Se ele reconhece que a salvação é somente pela graça, mediante a fé em Cristo, mas entende equivocadamente que filhos de crentes podem ser batizados, estamos diante de um irmão que necessita de melhor compreensão bíblica sobre o batismo.

Se, porém, ele atribui ao batismo infantil poder regenerador, salvador ou sacramental, então o problema se torna muito mais sério, porque já interfere diretamente na doutrina bíblica da salvação.

Finalmente, nossa atitude para com um irmão que pensa diferente nesse assunto não deve ser de hostilidade, mas também não deve ser de indiferentismo doutrinário. Paulo escreveu: “Examinai tudo. Retende o bem” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:21). Devemos receber aquilo que está de acordo com a Palavra de Deus e corrigir, com mansidão e clareza, aquilo que não está.

O padrão apostólico continua sendo simples: a Palavra é anunciada, a pessoa ouve, arrepende-se, crê no Senhor Jesus Cristo e, como discípulo, é batizada. Não encontramos no Novo Testamento um mandamento, um exemplo inequívoco ou uma explicação doutrinária que estabeleça o batismo de bebês como prática da Igreja.

Josué Matos

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A Bíblia não apresenta apenas a questão de começar na fé, mas também insiste em permanecer, perseverar e não apostatar

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, há mensagens que mostram que a pessoa nunca foi de Cristo, mas há mensagens que advertem sobre recuo, desistência, apostasia, perseverar e não vacilar. Como entender de outra forma?

“Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus.” — Apocalipse 2:7

“Arrepende-te e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres.” — Apocalipse 2:5

Romanos 2:13 diz:

“Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.”

Marcos 7:7:

“E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.”

Hebreus 10:38:

“Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.”

2 Pedro 2:20–22

É um dos textos mais fortes:

“Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro.”

Pedro ainda diz que seria melhor não terem conhecido o caminho da justiça.

João 15:5–6

Jesus fala dos que estão nele e depois não permanecem:

“Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como a vara, e secará...”

Gálatas 5:4

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.”

Aqui aparece literalmente a expressão “da graça tendes caído”.

1 Timóteo 1:18–20

Paulo menciona pessoas que “naufragaram na fé”, entre elas Himeneu e Alexandre.

1 Timóteo 4:1

“Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé...”

Colossenses 1:22–23

Paulo relaciona a apresentação diante de Deus à condição:

“...se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho...”

Apocalipse 3:5

Jesus diz:

“O que vencer... de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida...”

Esse versículo é frequentemente relacionado à possibilidade de o nome ser riscado do livro da vida, embora existam diferentes interpretações teológicas sobre a passagem.

Um alerta muito forte de Jesus:

Mateus 24:13

“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.”

Mateus 24:10 fala de pessoas que, nos últimos dias, “se escandalizarão, e trair-se-ão uns aos outros”.

Portanto, a Bíblia não apresenta apenas a questão de começar na fé, mas também insiste em permanecer, perseverar e não apostatar.

Minha Resposta:

Irmão, sua pergunta é importante porque toca numa distinção que precisamos fazer para não cair em nenhum dos dois extremos: de um lado, imaginar que toda profissão de fé significa necessariamente novo nascimento; do outro, concluir que cada advertência sobre perseverança significa que a vida eterna recebida por um verdadeiro crente pode ser perdida.

A Bíblia ensina as duas coisas ao mesmo tempo: a segurança eterna daquele que verdadeiramente nasceu de Deus e a necessidade real de perseverança, vigilância, santidade e fidelidade.

O erro começa quando transformamos essas duas verdades em adversárias.

  1. A vida eterna é realmente eterna

Antes de interpretar os textos de advertência, precisamos estabelecer aquilo que as Escrituras afirmam claramente acerca da salvação.

O Senhor Jesus disse:

“E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28).

Observe que Ele não disse: “dou-lhes vida enquanto perseverarem”. Ele disse “vida eterna”. E acrescentou uma expressão extremamente forte: “nunca hão de perecer”.

Logo depois acrescentou:

“Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (João 10:29).

Temos, portanto, o crente nas mãos do Filho e nas mãos do Pai.

Romanos 8:38-39 acrescenta que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem qualquer outra criatura poderá separar o crente do amor de Deus que está em Cristo Jesus.

Efésios 1:13-14 ensina ainda que aquele que crê é selado com o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança.

Portanto, não podemos interpretar uma passagem difícil de modo que ela contradiga várias declarações claras.

  1. Então por que existem tantas advertências?

Porque segurança eterna não significa licença para viver descuidadamente.

Deus não somente determina o fim; Ele também estabelece o caminho pelo qual os Seus chegam até ele.

A perseverança não compra a salvação; ela evidencia a realidade da fé.

É exatamente isso que aparece em Hebreus 10. Depois da séria advertência:

“Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele” (Hebreus 10:38),

o escritor imediatamente acrescenta:

“Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma” (Hebreus 10:39).

Esse versículo é fundamental.

Ele não diz: “Nós podemos acabar sendo daqueles que se retiram para perdição”. Ele estabelece dois grupos: aqueles que retrocedem para perdição e aqueles que creem.

As advertências são reais, mas também são instrumentos que Deus usa para despertar, corrigir e preservar o Seu povo.

  1. Apostatar da fé não significa necessariamente perder uma salvação anteriormente possuída

Aqui precisamos distinguir “a fé” da fé pessoal salvadora.

Em 1 Timóteo 4:1 lemos:

“Alguns apostatarão da fé.”

“A fé”, nesse contexto, pode designar o conjunto da verdade cristã professada. Uma pessoa pode estar externamente dentro da esfera cristã, conhecer sua doutrina, participar de uma igreja, confessar determinadas verdades e posteriormente abandoná-las.

João explica algo semelhante:

“Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco” (1 João 2:19).

Observe a lógica de João.

Ele não diz:

“Eram de nós, mas deixaram de ser.”

Ele diz:

“não eram de nós”.

E apresenta a saída deles como manifestação daquilo que sempre foram.

Isso ajuda muito na compreensão da apostasia.

  1. Segunda Epístola de Pedro 2:20-22 é realmente uma passagem forte

Mas devemos observar como Pedro termina a descrição:

“Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (2 Pedro 2:22).

Pedro não diz que a ovelha tornou-se porca.

A natureza permaneceu a mesma.

O cão continuou sendo cão; a porca continuou sendo porca.

Houve conhecimento. Houve influência externa. Houve contato com “o caminho da justiça”. Houve até um afastamento das corrupções do mundo mediante esse conhecimento. Mas não é dito que houve novo nascimento.

A porca foi lavada, mas continuou sendo porca.

Isso é muito diferente da linguagem de 2 Pedro 1:4, onde Pedro fala dos verdadeiros crentes como participantes da natureza divina.

A reforma externa não é regeneração.

  1. João 15 e os ramos

Quando o Senhor diz:

“Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como a vara, e secará” (João 15:6),

devemos interpretar a figura dentro de seu contexto.

Estar externamente relacionado com Cristo não significa necessariamente possuir Sua vida.

Judas Iscariotes esteve entre os doze, pregou, participou da atividade apostólica e esteve extremamente próximo do Senhor. Contudo, Jesus disse:

“Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é um diabo” (João 6:70).

E em João 13:10:

“Vós estais limpos, mas não todos.”

Portanto, existe diferença entre associação externa com Cristo e união vital com Cristo.

  1. “Da graça tendes caído” — Gálatas 5:4

Este versículo também precisa ser lido no contexto.

Paulo não está falando de um cristão que cometeu algum pecado e perdeu a salvação. Está combatendo o princípio de procurar justificação mediante a lei.

Ele diz:

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.”

A oposição é entre dois princípios: lei e graça.

Se alguém procura ser justificado mediante a lei, abandonou o terreno da graça como princípio de justificação.

Paulo já havia estabelecido:

“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 2:16).

Portanto, “cair da graça”, nesse contexto, não significa que uma pessoa possuía vida eterna e depois a perdeu. Significa abandonar o princípio da graça para procurar justificação pelo princípio da lei.

  1. “Naufragaram na fé”

Em 1 Timóteo 1:19-20, Paulo menciona Himeneu e Alexandre.

Mas observe algo interessante: a consequência mencionada não é que Paulo declara que perderam a vida eterna.

Ele diz:

“Os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar.”

Existe disciplina.

Compare com 1 Coríntios 5:5:

“Seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.”

A disciplina divina pode ser extremamente severa, inclusive atingindo a vida física, sem significar necessariamente perda da salvação.

  1. Colossenses 1:23 — “se permanecerdes”

Novamente temos a importância da perseverança.

Mas perseverança é uma das evidências da realidade da fé.

O Senhor Jesus disse:

“Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (João 8:31).

A perseverança manifesta aquilo que a profissão afirma.

Isso explica também Hebreus 3:14:

“Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim.”

Não diz que perseverar nos transforma em participantes de Cristo mediante mérito humano. A perseverança demonstra a realidade daquela participação.

  1. Apocalipse 3:5 não diz que Cristo apagará o nome do crente

Aqui é importante observar exatamente o que o texto diz:

“O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida” (Apocalipse 3:5).

O Senhor não diz:

“Se não vencer, riscarei seu nome.”

Isso seria acrescentar ao texto aquilo que ele não diz.

A construção é uma promessa enfática ao vencedor: “de maneira nenhuma riscarei”.

O livro da vida apresenta o registro celestial dos redimidos. Em Apocalipse 13:8 e 21:27 ele aparece relacionado ao Cordeiro. A ênfase de Apocalipse 3:5 é segurança e reconhecimento, não ameaça de perda da vida eterna.

  1. Apocalipse 2:5 fala da remoção do castiçal

Quando Cristo diz à igreja em Éfeso:

“Arrepende-te... e tirarei do seu lugar o teu castiçal”,

Ele não está ameaçando retirar a salvação individual dos crentes.

O castiçal representa a igreja local como testemunho.

Apocalipse 1:20 explica:

“Os sete castiçais que viste são as sete igrejas.”

Portanto, retirar o castiçal significa remover aquela assembleia de sua posição de testemunho para Cristo. É uma advertência solene à igreja local, não uma explicação de como um indivíduo perde a vida eterna.

  1. Romanos 2:13 também precisa permanecer em seu contexto

“Os que praticam a lei hão de ser justificados.”

Paulo está estabelecendo o princípio da justiça divina.

Mas, poucos versículos depois, demonstra que ninguém alcançou essa condição:

“Não há um justo, nem um sequer” (Romanos 3:10).

E:

“Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei” (Romanos 3:20).

Então apresenta o caminho de Deus:

“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3:24).

Portanto, Romanos 2:13 não ensina salvação pelas obras. Paulo estabelece o padrão da justiça para depois demonstrar que todos fracassaram diante dele.

  1. Mateus 24:13 precisa ser interpretado no contexto profético

“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.”

Mateus 24 trata particularmente dos acontecimentos relacionados a Israel, à Tribulação e à vinda do Filho do Homem.

Veja as referências à Judeia (Mateus 24:16), ao sábado (Mateus 24:20), à “abominação da desolação” profetizada por Daniel (Mateus 24:15), à grande tribulação (Mateus 24:21) e finalmente à manifestação do Filho do Homem (Mateus 24:29-30).

Portanto, não devemos retirar Mateus 24:13 desse contexto e transformá-lo numa fórmula dizendo: “quem conseguir manter sua salvação até morrer será finalmente salvo”.

  1. E Apocalipse 2:7: “ao que vencer”?

João nos ajuda a identificar o vencedor:

“Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1 João 5:4-5).

Isso é muito importante.

O vencedor não é uma classe de cristãos que conseguiu conservar sua salvação enquanto outros cristãos verdadeiros a perderam.

João associa o vencedor àquele que é nascido de Deus.

  1. As advertências continuam sendo absolutamente necessárias

Não devemos enfraquecê-las.

A Bíblia nunca ensina:

“Já que você está salvo, viva de qualquer maneira.”

Muito pelo contrário.

“E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3).

Também:

“Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14).

A segurança eterna não produz necessariamente descuido; quando corretamente compreendida, produz gratidão, santidade e desejo de agradar Àquele que nos salvou.

Além disso, existem consequências gravíssimas para o crente desobediente: disciplina paterna (Hebreus 12:5-11), perda de galardão (1 Coríntios 3:13-15), vergonha diante de Cristo (1 João 2:28), perda de recompensa (2 João 8) e até disciplina que pode resultar em morte física (1 Coríntios 11:30-32).

Portanto, segurança eterna não significa ausência de consequências.

  1. Precisamos distinguir quatro coisas

Muitos textos aparentemente contraditórios ficam mais claros quando distinguimos:

  1. Salvação eterna — recebida gratuitamente pela fé em Cristo.

  2. Discipulado — exige fidelidade, obediência e renúncia.

  3. Comunhão — pode ser interrompida pelo pecado e restaurada mediante confissão.

  4. Galardão e responsabilidade — dependem da fidelidade do crente.

Se colocarmos tudo dentro da categoria “salvação”, surgirão inevitavelmente contradições.

Um crente pode perder comunhão sem perder filiação.

Pode perder recompensa sem perder vida eterna.

Pode sofrer disciplina sem deixar de ser filho.

Pode tornar-se um servo infiel sem desfazer aquilo que Deus realizou na regeneração.

  1. A própria natureza do novo nascimento precisa ser considerada

Quando alguém nasce de Deus, recebe uma nova vida.

“Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5:1).

Pedro diz que fomos regenerados:

“Não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23).

Paulo afirma:

“Se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17).

A questão, então, não é simplesmente se uma pessoa “começou a frequentar a igreja”, “aceitou determinada doutrina” ou “fez uma profissão de fé”. A pergunta é: houve realmente regeneração?

É justamente por isso que existem falsos irmãos (Gálatas 2:4), falsos mestres (2 Pedro 2:1), falsos profetas (Mateus 7:15), pessoas que dizem “Senhor, Senhor” sem serem conhecidas por Cristo (Mateus 7:21-23) e pessoas que estiveram entre os cristãos, mas cuja saída revelou que nunca realmente lhes pertenceram (1 João 2:19).

Conclusão

Portanto, irmão, eu concordo com a sua observação inicial: a Bíblia realmente contém muitas advertências sobre perseverar, permanecer, vigiar, não retroceder e não apostatar. Não devemos diminuir a força dessas advertências.

Mas a conclusão não precisa ser que um homem recebe vida eterna, torna-se filho de Deus, é regenerado, selado pelo Espírito Santo, colocado nas mãos do Filho e do Pai e, posteriormente, perde tudo isso e volta à condição de espiritualmente morto.

As advertências cumprem várias funções. Algumas desmascaram a falsa profissão; outras chamam o verdadeiro crente à perseverança; outras tratam de disciplina, comunhão, testemunho e galardão; e outras pertencem a contextos específicos, como Israel e a Tribulação.

A chave está em permitir que cada passagem permaneça no seu contexto.

Talvez uma das melhores sínteses esteja justamente em Hebreus:

“Mas o justo viverá da fé” (Hebreus 10:38).

A advertência vem imediatamente depois, mas o escritor conclui:

“Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma” (Hebreus 10:39).

E podemos colocar ao lado disso as palavras inequívocas do próprio Senhor Jesus:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer” (João 10:27-28).

A verdadeira fé persevera não para transformar uma vida temporária em eterna, mas porque aquele que nasceu de Deus possui vida eterna em Cristo. E as próprias advertências das Escrituras são um dos meios pelos quais Deus chama os Seus à vigilância, santidade e perseverança.

Josué Matos

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A Bíblia não deixa brecha para um segundo casamento consumado; isso está bem claro, exceto para viúvos(as)?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, boa tarde. Sou do Brasil, vi seus vídeos no YouTube sobre casamento e outros temas. Poderia me tirar uma dúvida?

Realmente, a sua explicação tem muita coerência com a Bíblia sobre os ensinamentos.

A Bíblia não deixa brecha para um segundo casamento consumado; isso está bem claro, exceto para viúvos(as).

Mas, no contexto judaico, pela Lei Mosaica, a mulher tinha que ser virgem para se consumar um casamento, pelo que a gente lê em Deuteronômio 22, que diz respeito a essa Lei Mosaica, não é isso?

Porém, se essa Lei Mosaica foi instituída por Moisés, como é que Moisés permitiu o divórcio por qualquer motivo?

Eu entendo que o divórcio foi permitido por qualquer motivo, mas, havendo ilicitude sexual, vigorava o apedrejamento. É isso?

Só que, quando Jesus dá a cláusula de exceção entre judeus — πορνεία (porneía), que significa, de modo geral, imoralidade sexual, prostituição ou relações sexuais ilícitas —, Ele sabia que a mulher poderia ser morta. Então, Ele deu a cláusula respeitando a Lei Mosaica? Se for isso, faz sentido não haver a cláusula entre gentios. Eu não consigo entender de outra forma.

Irmão, quanto à ligação da lei do marido à mulher em Romanos 7 e 1 Coríntios 7:39, seria a lei divina do matrimônio?

Minha Resposta:

Irmão, boa tarde. Sua pergunta é muito pertinente porque você percebeu corretamente que, para entendermos a chamada “cláusula de exceção” de Mateus 5:32 e Mateus 19:9, precisamos considerar conjuntamente Gênesis, Deuteronômio, os Evangelhos e, finalmente, a doutrina apostólica. Quando fazemos isso, algumas distinções tornam-se importantes.

Primeiramente, precisamos estabelecer algo que vem antes da Lei de Moisés: o casamento não começou com Moisés.

A instituição do casamento aparece em Gênesis 2:24:

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.”

Quando os fariseus perguntaram ao Senhor Jesus sobre o divórcio em Mateus 19, o Senhor não começou Sua resposta em Deuteronômio 24. Ele voltou a Gênesis.

Isso é fundamental.

Os fariseus perguntaram:

“É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mateus 19:3).

O Senhor respondeu recordando a criação do homem e da mulher e concluiu:

“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Portanto, para compreendermos o pensamento de Deus acerca do casamento, nosso ponto de partida não deve ser a concessão mosaica, mas a instituição divina estabelecida na criação.

  1. Moisés não instituiu o casamento

A “lei do marido” de Romanos 7:2 e o princípio de 1 Coríntios 7:39 não começam propriamente com Moisés. Trata-se do vínculo matrimonial reconhecido por Deus, cuja origem remonta à criação.

Romanos 7:2 diz:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.”

E 1 Coríntios 7:39 afirma:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.”

Portanto, respondendo diretamente à sua última pergunta: sim, entendo “a lei do marido”, nesse contexto, como o vínculo ou princípio divino que rege a união matrimonial. Não se trata simplesmente de uma determinada disposição civil da legislação mosaica.

Isso fica ainda mais claro porque Paulo está escrevendo aos cristãos em Roma e Corinto, e não estabelecendo uma regra matrimonial exclusiva para judeus vivendo debaixo da Lei de Moisés.

O princípio é universal porque o casamento é anterior a Israel, anterior à Lei e anterior até mesmo à queda do homem.

  1. O que aconteceu, então, em Deuteronômio 24?

Aqui precisamos fazer uma distinção importante.

O Senhor Jesus explicou:

“Por causa da dureza dos vossos corações vos permitiu Moisés repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).

Observe cuidadosamente a palavra usada pelo Senhor: “permitiu”.

Os fariseus haviam perguntado:

“Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la?” (Mateus 19:7).

Mas Cristo corrige a maneira como eles apresentaram a questão.

Eles disseram: “Moisés mandou”.

Cristo disse: “Moisés permitiu”.

Há uma enorme diferença.

Deuteronômio 24 não instituiu o divórcio como sendo o ideal de Deus para o casamento. A legislação mosaica regulamentou uma situação que já ocorria em consequência da dureza do coração humano.

É exatamente por isso que Cristo acrescenta:

“Mas ao princípio não foi assim.”

Ou seja: vocês querem discutir a concessão; Eu estou levando vocês de volta ao propósito original de Deus.

  1. Deuteronômio 22 realmente faz uma distinção importante

Sua observação sobre Deuteronômio 22 está na direção correta, mas precisamos formulá-la com precisão.

Deuteronômio 22 apresenta diferentes situações envolvendo pecado sexual, e não podemos colocar todas elas simplesmente debaixo da palavra “adultério”.

Por exemplo, quando havia adultério propriamente dito entre pessoas casadas, a pena prevista pela Lei era a morte:

“Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido, então ambos morrerão” (Deuteronômio 22:22).

Portanto, dentro daquela legislação, adultério não era apresentado como fundamento para entregar uma carta de divórcio ao cônjuge culpado. A sanção prevista era muito mais grave.

Isso cria uma questão muito importante para quem interpreta a exceção de Mateus 19:9 simplesmente como “adultério”.

Se os fariseus estão discutindo com Cristo a legislação de Moisés, e se o adultério matrimonial, segundo essa mesma legislação, era tratado com pena de morte, precisamos perguntar: por que Cristo utilizou πορνεία (porneía) na exceção e depois utilizou outra família de palavras para falar de adultério?

É aqui que a terminologia grega se torna muito importante.

  1. Porneía e moicheía não são exatamente a mesma palavra

Em Mateus 19:9 encontramos dois conceitos no mesmo versículo.

Primeiro:

πορνεία — porneía

Depois, ao falar de adultério:

μοιχᾶται — moichâtai, do verbo μοιχάομαι, “cometer adultério”.

Isso merece atenção.

É verdade que porneía pode funcionar como uma palavra ampla para imoralidade sexual. Dependendo do contexto, pode abranger diferentes formas de relações sexuais ilícitas.

Entretanto, isso não significa que toda ocorrência de porneía possa simplesmente ser traduzida por “adultério”.

O próprio Evangelho segundo Mateus distingue os termos:

“Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição...” (Mateus 15:19).

Ali aparecem lado a lado os conceitos de adultério e porneía.

Portanto, quando duas palavras diferentes aparecem no mesmo contexto, precisamos respeitar a distinção feita pelo texto.

É justamente isso que acontece em Mateus 19:9.

O Senhor não disse simplesmente: “quem repudiar sua mulher, exceto por adultério...”.

Ele empregou porneía na exceção e a linguagem própria de adultério para descrever o pecado cometido quando alguém entra numa nova união.

Isso nos obriga a investigar o contexto judaico.

  1. O desposório judaico ajuda muito a compreender a exceção

Aqui chegamos a um ponto fundamental.

Entre os judeus, o desposório possuía uma força jurídica muito maior do que aquilo que hoje normalmente chamamos de “noivado”.

O melhor exemplo bíblico está exatamente no Evangelho segundo Mateus.

Mateus 1:18 diz que Maria estava “desposada com José”.

Antes de coabitarem, Maria foi achada grávida.

Qual foi a reação de José?

“Então José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).

Observe algo extraordinário.

Eles ainda não haviam consumado o casamento:

“Antes de se ajuntarem” (Mateus 1:18).

Entretanto, José já é chamado de “seu marido”.

E para romper aquele vínculo seria necessário “deixá-la”, isto é, repudiá-la.

O anjo também disse:

“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).

Portanto, temos uma situação matrimonial peculiar ao ambiente judaico: havia um compromisso juridicamente vinculativo antes da consumação e da vida conjugal propriamente dita.

Isso ajuda consideravelmente a compreender por que a exceção aparece justamente em Mateus.

  1. Por que Mateus contém a exceção, mas Marcos e Lucas não?

Isso é muito significativo.

Mateus registra:

“a não ser por causa de prostituição” (Mateus 5:32);

e:

“não sendo por causa de prostituição” (Mateus 19:9).

Mas observe Marcos:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Nenhuma exceção.

Lucas igualmente diz:

“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).

Novamente, nenhuma exceção.

Depois chegamos à doutrina apostólica e encontramos a mesma clareza.

Romanos 7:2-3 ensina que, enquanto o marido vive, a mulher permanece ligada a ele; se ela se unir a outro homem enquanto o primeiro vive, será chamada adúltera.

Primeira aos Coríntios 7:10-11 diz:

“Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.”

Observe as duas alternativas depois da separação:

ficar sem casar;

ou reconciliar-se.

Não encontramos uma terceira alternativa dizendo: “case-se novamente”.

Finalmente, Paulo conclui:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive” (1 Coríntios 7:39).

Tudo isso precisa ser harmonizado.

  1. A cláusula de exceção não pode contradizer todo o restante do ensino

Este é talvez o ponto mais importante.

Uma interpretação de Mateus 19:9 não pode transformar esse único texto numa autorização geral para um novo casamento enquanto o primeiro cônjuge continua vivo, quando Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:10-11,39 apresentam o vínculo matrimonial permanecendo enquanto o cônjuge vive.

Precisamos interpretar a passagem mais difícil à luz das passagens mais claras.

Por isso entendo que a exceção de Mateus está relacionada à situação de porneía no contexto judaico do desposório, antes da consumação definitiva da união.

O próprio Evangelho segundo Mateus fornece José e Maria como ilustração dessa realidade.

José julgou que Maria tivesse cometido infidelidade durante o período do desposório. Por isso pensou em repudiá-la. Ele não estava divorciando-se de uma esposa com quem havia vivido maritalmente durante anos para então receber autorização divina para constituir outro casamento.

Era uma situação anterior à consumação matrimonial.

  1. Mas então a sua explicação sobre o apedrejamento está errada?

Não completamente. Você percebeu uma conexão real, mas eu faria uma pequena correção na maneira de expressá-la.

Eu não diria simplesmente que “Jesus deu a cláusula porque a mulher poderia ser apedrejada”.

O texto não diz isso diretamente.

É melhor não afirmar além daquilo que podemos demonstrar pelas Escrituras.

O que podemos dizer com segurança é que o contexto judaico distinguia diferentes situações de pecado sexual; que a legislação mosaica previa pena de morte para determinados casos de adultério; que havia uma situação jurídica especial envolvendo a mulher desposada; e que Mateus, escrevendo num contexto particularmente judaico, é o único evangelista que registra a cláusula de porneía.

Esses elementos, considerados conjuntamente, ajudam a compreender a exceção.

Portanto, eu reformularia seu raciocínio assim:

não é simplesmente que Cristo estava “respeitando a pena de apedrejamento”, mas que Sua linguagem precisa ser entendida dentro das categorias matrimoniais e jurídicas conhecidas pelos judeus aos quais aquela discussão estava diretamente relacionada.

  1. Há outra razão muito forte contra entender porneía como adultério que dissolve o casamento

Suponhamos, apenas para argumentar, que Mateus 19:9 esteja dizendo:

“Se sua esposa cometer adultério, você pode divorciar-se dela e casar com outra.”

Nesse caso, o adultério teria poder para desfazer aquilo que Cristo acabara de dizer que Deus ajuntou.

Mas observe a sequência da própria passagem.

Primeiro:

“Serão dois numa só carne” (Mateus 19:5).

Depois:

“Assim não são mais dois, mas uma só carne” (Mateus 19:6).

Depois:

“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Depois:

“Por causa da dureza dos vossos corações vos permitiu Moisés repudiar vossas mulheres” (Mateus 19:8).

E finalmente:

“Mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).

O Senhor está restaurando o princípio original, não estabelecendo uma nova modalidade de divórcio.

  1. O adultério é terrível, mas não transforma automaticamente duas pessoas que eram “uma só carne” em pessoas livres para casar novamente

Essa distinção também é necessária.

O adultério é uma violação gravíssima da fidelidade matrimonial. Mas violar uma aliança não significa necessariamente que Deus considere aquela união inexistente.

Se assim fosse, as declarações de Romanos 7 e 1 Coríntios 7 seriam muito difíceis de explicar.

Paulo não diz:

“A mulher está ligada enquanto seu marido viver, exceto se ele cometer adultério.”

Ele diz:

“Enquanto ele viver.”

Da mesma maneira:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive” (1 Coríntios 7:39).

O elemento que Paulo apresenta como libertador para um novo casamento é a morte.

É também exatamente o que ele diz em Romanos:

“Mas, morto o marido, está livre da lei do marido” (Romanos 7:2).

  1. E quanto ao abandono pelo descrente em 1 Coríntios 7:15?

Este texto também é frequentemente apresentado como outra exceção:

“Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão” (1 Coríntios 7:15).

Entretanto, o texto não diz:

“está livre para casar novamente”.

Isso seria especialmente estranho porque apenas alguns versículos antes Paulo já havia explicado o que fazer quando acontece uma separação:

“que fique sem casar ou que se reconcilie” (1 Coríntios 7:11).

“Não está sujeito à servidão” significa que o cristão abandonado não precisa obrigar o descrente a permanecer na convivência conjugal a qualquer custo.

Se o descrente insiste em partir, o cristão não é obrigado a persegui-lo ou forçá-lo a permanecer.

Mas separação não é dissolução do vínculo matrimonial.

E o próprio capítulo termina estabelecendo o limite:

“todo o tempo que o seu marido vive” (1 Coríntios 7:39).

  1. Então, o que realmente dissolve o casamento?

Biblicamente, encontramos uma resposta explícita:

a morte.

Romanos 7:2:

“morto o marido, está livre da lei do marido.”

Romanos 7:3:

“morto o marido, livre está da lei.”

Primeira aos Coríntios 7:39:

“se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.”

É por isso que Paulo pode dizer aos viúvos:

“Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se” (1 Coríntios 7:8-9).

O novo casamento é claramente permitido quando a morte desfez o primeiro vínculo.

  1. Isso também explica por que o divórcio civil não determina a situação diante de Deus

Um Estado pode declarar duas pessoas legalmente divorciadas. Isso resolve determinadas questões civis, patrimoniais e jurídicas.

Mas a pergunta do cristão deve ser:

O divórcio civil desfez aquilo que Deus ajuntou?

Segundo as palavras do Senhor, não podemos simplesmente concluir que sim.

Mateus 5:32 é muito esclarecedor. O Senhor fala de uma mulher repudiada que entra em outra união e diz que há adultério.

Por quê?

Se o divórcio tivesse dissolvido completamente o primeiro casamento diante de Deus, não haveria adultério. Ela seria simplesmente uma mulher solteira casando-se novamente.

O fato de Cristo chamar a nova relação de adultério demonstra que existe um vínculo anterior que continua sendo reconhecido.

Lucas 16:18 torna isso ainda mais direto:

“E aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também.”

Legalmente ela podia estar repudiada.

Mas moralmente, diante de Deus, o primeiro vínculo continuava relevante.

  1. A reação dos discípulos também é muito significativa

Depois de ouvirem o ensino do Senhor, os discípulos disseram:

“Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar” (Mateus 19:10).

Por que reagiram dessa maneira?

Se Cristo simplesmente tivesse dito: “Vocês podem divorciar-se e casar novamente em caso de adultério”, a reação seria difícil de compreender.

Mas eles perceberam a seriedade daquilo que Cristo estava ensinando.

O casamento não deveria ser tratado como um contrato facilmente dissolvido.

É uma união para toda a vida.

Isso explica a gravidade da resposta dos discípulos.

  1. Portanto, resumindo suas perguntas

Sim, Deuteronômio 22 mostra que a Lei distinguia diferentes pecados e situações sexuais. Adultério propriamente dito era tratado com pena de morte, não simplesmente com uma carta de divórcio.

Sim, Deuteronômio 24 regulamentava o repúdio, mas Cristo deixou claro que isso foi uma concessão devido à dureza do coração humano e não representava o propósito original de Deus.

Sim, porneía possui significado amplo em determinados contextos, mas não devemos automaticamente fazê-la significar “adultério” em Mateus 19:9, especialmente porque o próprio versículo emprega linguagem específica para adultério e porque o Evangelho segundo Mateus conhece a distinção entre os termos.

Sim, o contexto judaico do desposório é extremamente importante para compreendermos a cláusula de exceção.

Sim, é significativo que somente Mateus registre essa cláusula, enquanto Marcos e Lucas apresentam a proibição sem ela.

E sim, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:39 apresentam aquilo que podemos chamar de princípio ou lei divina do vínculo matrimonial: enquanto ambos vivem, permanecem ligados; a morte de um deles deixa o sobrevivente livre para um novo casamento.

Por isso considero muito importante começarmos onde o próprio Senhor começou:

“Desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea” (Marcos 10:6).

A Lei de Moisés regulamentou situações produzidas pelo pecado humano. Cristo, porém, conduziu Seus ouvintes de volta à criação.

“Mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).

E qual era o princípio?

Um homem.

Uma mulher.

Uma só carne.

Uma união feita por Deus.

“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Quando, infelizmente, ocorre uma separação, a orientação apostólica é igualmente clara:

“Que fique sem casar ou que se reconcilie” (1 Coríntios 7:11).

Isso pode ser extremamente difícil em determinadas circunstâncias, especialmente quando houve traição, abandono, violência, sofrimento familiar ou muitos anos de separação. A dificuldade da situação, porém, não nos autoriza a modificar aquilo que as Escrituras ensinam.

Devemos tratar pessoas feridas por divórcio com muita compaixão, graça e cuidado, nunca com desprezo. Ao mesmo tempo, compaixão bíblica não consiste em alterar o padrão de Deus para diminuir a dificuldade de obedecê-lo.

O princípio permanece:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

É justamente a combinação de Gênesis 2, Mateus 5 e 19, Marcos 10, Lucas 16, Romanos 7 e 1 Coríntios 7 que, a meu ver, oferece a compreensão mais coerente: o casamento é uma instituição divina anterior à Lei de Moisés; o divórcio foi uma concessão relacionada à dureza do coração; a cláusula de Mateus deve ser compreendida dentro de seu contexto judaico e não como autorização geral para segundas núpcias; e a liberdade inequívoca para um novo casamento surge quando a morte encerra o primeiro vínculo.

Josué Matos

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Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, a Bíblia fala de uma única religião diante de Deus, não é isso?

Quanto a não haver divisão na interpretação da Bíblia, qual outra forma podemos usar para sermos unânimes e andarmos segundo a sã doutrina? A Bíblia não é interpretada estudando-se o contexto, o idioma, o gênero literário etc.?

Tiago 1:27 afirma: “A religião pura e sem mácula diante de Deus é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e guardar-se incontaminado do mundo.”

João 12:48 “Quem me rejeitar a mim e não receber as minhas palavras já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia.”

A doutrina ensinada pela Igreja deve estar submetida às Escrituras, e não ser criada conforme a preferência de cada indivíduo.

Tito 2:1 fala da “sã doutrina”, e Efésios 4:14 adverte contra “todo vento de doutrina”.

Paulo ordena “que todos faleis a mesma coisa” e que não haja divisões entre os cristãos (1 Coríntios 1:10).

Judas fala da “fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3).

Paulo também diz para permanecer “na doutrina” que havia sido recebida (2 Tessalonicenses 2:15).

E existe um texto particularmente direto: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.”

— 2 Pedro 1:20

2 João 1:9 “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus.”

Efésios 2:20 diz que a Igreja está: “Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?

Minha Resposta:

Irmão, concordo com o princípio central do que você está dizendo: a Igreja não tem autoridade para inventar doutrinas, modificar a Palavra de Deus ou estabelecer como verdade aquilo que contradiz aquilo que Deus revelou nas Escrituras. Entretanto, penso que precisamos fazer algumas distinções importantes para não atribuirmos a determinados textos mais do que eles realmente estão dizendo.

Comecemos por Tiago 1:27. Quando Tiago fala da “religião pura e imaculada para com Deus, o Pai”, ele não está estabelecendo uma denominação religiosa nem dizendo que existe uma instituição terrena que possa reivindicar para si o título exclusivo de “a religião verdadeira”. O contexto é essencialmente prático.

No versículo anterior, Tiago fala daquele que “cuida ser religioso”, mas não refreia a língua. No versículo 27, ele mostra as características práticas da verdadeira religião: compaixão pelos necessitados e separação da corrupção do mundo. Portanto, o contraste é entre uma religiosidade meramente exterior e uma vida que demonstra realmente os efeitos da fé.

Isso está perfeitamente de acordo com todo o contexto da epístola de Tiago: “Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes” (Tiago 1:22).

Então, sim, existe uma verdade de Deus; existe uma fé verdadeira; existe uma doutrina verdadeira; existe um Evangelho verdadeiro. Mas precisamos tomar cuidado para não transformar a expressão “religião pura” de Tiago 1:27 no nome de uma organização ou sistema denominacional.

Quanto à unidade doutrinária, você também está correto ao afirmar que Deus não deseja confusão doutrinária entre os Seus filhos.

Primeira aos Coríntios 1:10 diz:

“Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa e que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos, em um mesmo sentido e em um mesmo parecer.”

Mas precisamos observar cuidadosamente qual era o problema em Corinto. Eles estavam formando partidos em torno de homens:

“Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo” (1 Coríntios 1:12).

A resposta de Paulo é extraordinariamente importante:

“Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:13).

Portanto, a solução apostólica para a divisão não era criar outro partido, mas voltar todos os olhos para Cristo.

Isso nos conduz diretamente ao problema das denominações. No Novo Testamento, os crentes não são identificados por nomes denominacionais. Encontramos “a igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2), “as igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2), “a igreja dos tessalonicenses” (1 Tessalonicenses 1:1), e assim sucessivamente.

O centro não era um nome denominacional, mas Cristo.

Isso também explica Efésios 4. Existe “um só corpo e um só Espírito... um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Efésios 4:4-6).

Essa unidade não é criada por uma organização humana. Paulo diz:

“Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3).

Observe a expressão: “guardar”. Não somos chamados para fabricar a unidade da Igreja. O Espírito Santo já produziu essa unidade. Nossa responsabilidade é guardá-la.

Agora, isso não significa que todas as interpretações da Bíblia sejam igualmente corretas. Certamente não são.

Você mencionou contexto, idioma e gênero literário, e concordo. Tudo isso é importante. Precisamos perguntar: quem escreveu? Para quem escreveu? Em que circunstâncias? Qual é o assunto do livro? Qual é o contexto imediato? Como aquela palavra era usada? Trata-se de narrativa histórica, poesia, profecia, parábola, doutrina apostólica ou linguagem figurada?

Um erro muito comum acontece quando alguém tira um versículo do seu contexto e constrói uma doutrina inteira sobre ele.

Atos dos Apóstolos 17:11 apresenta um princípio muito saudável. Os bereanos receberam a palavra pregada por Paulo, mas examinavam “cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”.

Veja que interessante: quem estava pregando era o próprio apóstolo Paulo. Mesmo assim, o texto elogia aqueles que examinavam as Escrituras.

Portanto, nenhuma igreja, pregador, pastor, presbítero, escritor, comentarista ou denominação deve ocupar o lugar das Escrituras.

Agora precisamos esclarecer também Segunda de Pedro 1:20:

“Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.”

Esse texto muitas vezes é usado como se Pedro estivesse dizendo: “Nenhum indivíduo pode interpretar pessoalmente a Bíblia”. Mas o contexto não está tratando principalmente da liberdade do leitor para estudar as Escrituras.

O versículo seguinte explica:

“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21).

O assunto é a origem da profecia.

A profecia bíblica não nasceu da imaginação particular do profeta. Isaías não inventou sua mensagem. Jeremias não criou a sua. Daniel não produziu suas profecias mediante conclusões pessoais. Pedro explica que aqueles homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.

Por isso mesmo devemos interpretar as Escrituras com reverência, permitindo que a própria Escritura esclareça a Escritura.

Também concordo plenamente com a importância de Judas 3:

“Batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.”

Existe, portanto, um depósito doutrinário recebido. Não estamos autorizados a criar outro cristianismo para cada geração.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido” (2 Timóteo 1:13).

E novamente:

“Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tito 2:1).

Isso estabelece um princípio fundamental: a Igreja não determina o que é verdade; ela recebe a verdade de Deus e deve preservá-la, ensiná-la e praticá-la.

É exatamente aí que Efésios 2:20 se torna tão importante.

A Igreja é apresentada como um edifício:

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Entretanto, precisamos comparar essa passagem com Primeira aos Coríntios 3:11:

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.”

Não existe contradição.

Cristo é o fundamento absoluto. Os apóstolos e profetas foram aqueles através dos quais o fundamento doutrinário da Igreja foi estabelecido. Eles anunciaram Cristo e, mediante inspiração divina, deixaram registrada a doutrina que a Igreja deveria seguir.

Atos dos Apóstolos 2:42 mostra exatamente isso:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos.”

Observe que não diz que perseveravam numa doutrina que seria posteriormente desenvolvida segundo a vontade de cada geração. A doutrina já havia sido recebida.

Por isso Judas pode falar da fé “uma vez” entregue aos santos.

Também por isso João estabelece um limite muito sério:

“Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus” (2 João 9).

Portanto, chegando diretamente à sua pergunta final: “Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?”

Se uma organização ensina conscientemente doutrinas contrárias às Escrituras em questões fundamentais da fé cristã, o simples fato de ela utilizar o nome “igreja” não transforma o erro em verdade.

O nome não autentica a doutrina. A doutrina deve ser examinada pela Palavra de Deus.

O Senhor Jesus advertiu:

“Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7:7).

E Paulo advertiu:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gálatas 1:8).

Veja a força desse princípio. Paulo não disse: “Aceitem a doutrina porque fui eu quem ensinou”. Ele colocou até a si próprio debaixo da autoridade da mensagem divina já recebida: “ainda que nós mesmos”.

Portanto, nenhuma autoridade humana está acima da Palavra de Deus.

Mas acrescento uma cautela igualmente importante: nem toda divergência de interpretação significa necessariamente “outro evangelho”.

Há doutrinas fundamentais e há questões secundárias nas quais cristãos verdadeiros podem chegar a conclusões diferentes por limitações de entendimento.

Por exemplo, negar a divindade de Cristo, negar Sua verdadeira humanidade, negar Sua ressurreição corporal, negar que Jesus Cristo é o Filho de Deus ou apresentar outro caminho de salvação atinge fundamentos da fé.

Já diferenças sobre determinados detalhes proféticos, certos aspectos da organização das reuniões, interpretação de uma passagem difícil ou outras questões semelhantes precisam ser examinadas cuidadosamente, mas não devemos automaticamente colocar toda divergência no mesmo nível de Gálatas 1.

A própria Escritura nos ensina a distinguir as coisas.

Existe “outro evangelho” que deve ser rejeitado (Gálatas 1:6-9), existem “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1), existem falsos mestres que introduzem “heresias de perdição” (2 Pedro 2:1), mas também existem questões nas quais Paulo ordena paciência entre irmãos que possuem diferentes níveis de compreensão, como vemos em Romanos 14.

A unidade bíblica, portanto, não significa uniformidade produzida por uma autoridade denominacional. Também não significa que cada pessoa possa interpretar a Bíblia como quiser.

Os dois extremos são perigosos.

De um lado: “A instituição decide o que a Bíblia significa.”

Do outro: “A Bíblia significa aquilo que eu quiser que ela signifique.”

Nenhuma dessas posições é segura.

A pergunta correta é:

“O que realmente está escrito?”

Depois:

“O que o escritor inspirado quis comunicar naquele contexto?”

E finalmente:

“Como essa passagem se harmoniza com o restante das Escrituras?”

Foi exatamente assim que o próprio Senhor Jesus tratou as Escrituras. Repetidamente Ele dizia:

“Está escrito” (Mateus 4:4,7,10).

E, depois da ressurreição:

“Começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24:27).

Portanto, você está certo quanto ao princípio fundamental: precisamos voltar às Escrituras.

Não devemos perguntar primeiramente: “O que ensina a minha denominação?”

Muito menos: “O que eu gostaria que este texto significasse?”

Devemos perguntar: “O que diz a Escritura?” (Romanos 4:3).

E, quando descobrimos claramente aquilo que Deus revelou, nossa responsabilidade não é adaptar a Palavra à nossa tradição, mas adaptar nossa crença e nossa prática à Palavra.

A verdadeira unidade cristã nunca será alcançada colocando uma instituição acima das Escrituras. Tampouco será alcançada permitindo que cada indivíduo transforme sua opinião pessoal em doutrina.

A verdadeira unidade encontra seu centro em Cristo, sua autoridade na Palavra de Deus e seu poder no Espírito Santo.

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:5).

Cristo continua sendo a Cabeça da Igreja (Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18), as Escrituras continuam sendo nossa autoridade doutrinária (2 Timóteo 3:16-17), e a responsabilidade dos crentes continua sendo perseverar “na doutrina dos apóstolos” (Atos dos Apóstolos 2:42).

Se uma tradição concorda com as Escrituras, podemos recebê-la porque é bíblica. Se uma tradição contradiz as Escrituras, devemos ficar com as Escrituras.

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva” (Isaías 8:20).

Josué Matos

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Eu posso administrar minhas contribuições ajudando as pessoas necessitadas, priorizando os da fé?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Agradeço muito pela atenção. As contribuições têm uma finalidade, que é ajudar os necessitados etc. Se não estiverem priorizando essas finalidades, eu posso administrar minhas contribuições ajudando as pessoas necessitadas, priorizando os da fé? Tem um WhatsApp para eu falar com você?

Minha Resposta:

Agradeço muito pela sua mensagem e pela confiança. Para contato, prefiro responder por e-mail. Você pode escrever para:

palavrasdoevangelho@ymail.com

Quanto à sua pergunta, é importante distinguir alguns aspectos do ensino bíblico sobre contribuições. No Novo Testamento, a contribuição do cristão não aparece como uma espécie de imposto religioso que simplesmente entregamos sem qualquer preocupação com a sua finalidade. Pelo contrário, contribuir é apresentado como um exercício espiritual, voluntário, consciente e responsável diante de Deus.

Paulo escreveu:

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (Segunda Epístola aos Coríntios 9:7).

Portanto, existe responsabilidade pessoal diante de Deus na maneira como usamos aquilo que Ele colocou em nossas mãos.

Ao mesmo tempo, encontramos no Novo Testamento contribuições feitas por intermédio da igreja. Em Primeira Epístola aos Coríntios 16:1-2, Paulo orientou os irmãos a separarem regularmente uma contribuição destinada aos santos necessitados. Em Segunda Epístola aos Coríntios, capítulos 8 e 9, encontramos novamente uma grande coleta sendo organizada para socorrer irmãos que estavam passando necessidade. Isso mostra que uma das finalidades importantes das contribuições cristãs é justamente a assistência aos necessitados.

Há também um princípio muito claro em Gálatas:

“Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Epístola aos Gálatas 6:10).

Observe o equilíbrio da Palavra de Deus: “a todos”, mas “principalmente aos domésticos da fé”. Portanto, não devemos ser indiferentes ao sofrimento de qualquer pessoa, mas existe uma responsabilidade especial para com nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Encontramos esse mesmo cuidado na igreja primitiva. Em Atos dos Apóstolos 4:34-35, havia preocupação para que as necessidades existentes entre os santos fossem supridas. Mais tarde, quando surgiu uma necessidade específica entre as viúvas, a igreja tomou providências para que elas fossem atendidas, conforme Atos dos Apóstolos 6:1-4.

Primeira Epístola de João também apresenta essa responsabilidade de maneira muito prática:

“Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (Primeira Epístola de João 3:17).

Então, respondendo diretamente à sua pergunta: sim, biblicamente existe lugar para a contribuição pessoal e direta. Um cristão pode ajudar uma família necessitada, um irmão desempregado, uma viúva, alguém passando por dificuldades financeiras ou outra necessidade legítima. Não encontramos no Novo Testamento um mandamento dizendo que toda manifestação de generosidade do cristão obrigatoriamente precisa passar pela administração da igreja.

Entretanto, eu teria cautela em transformar isso numa escolha entre “contribuir para a igreja” ou “ajudar os necessitados”. O Novo Testamento apresenta as duas responsabilidades. Há necessidades relacionadas à obra de Deus, ao sustento daqueles que trabalham na Palavra e ao funcionamento das responsabilidades da igreja; e há também o socorro aos necessitados. Veja, por exemplo, Primeira Epístola aos Coríntios 9:7-14; Epístola aos Gálatas 6:6; Primeira Epístola a Timóteo 5:17-18 e Terceira Epístola de João 5-8.

Também é importante lembrar que as contribuições administradas pela igreja são algo sério e santo. Segunda Epístola aos Coríntios 8:18-21 mostra o cuidado que havia na administração da oferta. Paulo tomou providências para que tudo fosse feito corretamente, não apenas diante do Senhor, mas também diante dos homens. Isso ensina transparência, responsabilidade e cuidado na administração dos recursos confiados pelos irmãos.

Portanto, se a sua preocupação é que os necessitados não estejam recebendo a devida atenção, creio que é legítimo conversar com os irmãos responsáveis e procurar compreender como as contribuições estão sendo empregadas. Não devemos fazer acusações sem conhecer os fatos, mas também não precisamos tratar a administração financeira da igreja como um assunto sobre o qual ninguém pode perguntar.

Além disso, nada impede que você tenha um exercício pessoal diante de Deus para ajudar diretamente alguém necessitado. Dorcas, por exemplo, era conhecida pelas boas obras e esmolas que fazia (Atos dos Apóstolos 9:36). Cornélio dava muitas esmolas ao povo (Atos dos Apóstolos 10:2). Essas atitudes pessoais foram registradas de maneira positiva pela Palavra de Deus.

O princípio fundamental é reconhecer que aquilo que possuímos pertence ao Senhor e somos apenas administradores. Por isso, devemos buscar sabedoria diante dEle para distribuir nossos recursos de maneira que O agrade, lembrando especialmente dos necessitados e, conforme Gálatas 6:10 ensina, “principalmente dos domésticos da fé”.

A contribuição cristã não deveria ser simplesmente o ato de entregar determinado valor e esquecer o assunto. Ela faz parte da nossa mordomia diante de Deus e deve ser acompanhada de amor, discernimento, generosidade e responsabilidade.

“Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho da caridade que, para com o seu nome, mostrastes, enquanto servistes aos santos e ainda servis” (Epístola aos Hebreus 6:10).

Josué Matos

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Meu irmão, o ‘ide a todo o mundo, pregai o evangelho’ não se refere à Igreja.

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Meu irmão, o ‘ide a todo o mundo, pregai o evangelho’ não se refere à Igreja. E, quanto ao Evangelho como responsabilidade da assembleia local, não temos esse modelo nas Sagradas Escrituras. É muito útil quando observamos todo o contexto. Observação: temos aí ideias clericais herdadas de irmãos carnais, que adoram e elevam costumes humanos acima da vontade do Senhor e dos ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Minha Resposta:

Meu irmão, concordo plenamente com uma coisa que você disse: precisamos observar todo o contexto. Entretanto, justamente quando examinamos o conjunto do Novo Testamento, não creio que seja possível sustentar que a evangelização esteja desligada da responsabilidade e do testemunho da igreja local.

Antes de tudo, precisamos fazer uma distinção. A igreja local não é a fonte da comissão, nem o evangelista é servo da igreja no sentido de receber dela o seu chamado. O evangelista é servo de Cristo e recebe do Senhor o seu dom e direção. Porém, disso não se segue que seu trabalho seja independente da igreja local. O Novo Testamento apresenta exatamente o contrário: o evangelista pertence ao Corpo de Cristo, está em comunhão com os santos e seu trabalho está relacionado ao testemunho das igrejas.

  1. Efésios 4 apresenta um argumento muito importante

Depois da Sua morte, ressurreição e ascensão, Cristo concedeu homens à Sua Igreja:

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efésios 4:11).

É importante observar cuidadosamente a linguagem. Aqui não temos simplesmente dons abstratos dados aos homens. Temos homens dotados que o Cristo ressuscitado e glorificado concede ao Seu Corpo.

Entre eles está o evangelista.

E aqui surge uma pergunta muito simples: por que Cristo deu evangelistas à Igreja?

Certamente não para evangelizarem a própria Igreja, porque o evangelista, propriamente dito, anuncia as boas-novas aos que estão fora. A Igreja é constituída daqueles que já receberam o Evangelho.

Portanto, o fato de o evangelista ser dado à Igreja demonstra precisamente que a atividade evangelística, embora dirigida ao mundo, pertence ao serviço que procede do âmbito da Igreja.

Efésios 4:12 prossegue falando do “aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”.

Assim, existe uma diferença entre o destinatário da evangelização e a esfera à qual o evangelista pertence.

O destinatário é o mundo.

O evangelista é dado à Igreja.

Seu Senhor é Cristo.

Sua mensagem é o Evangelho de Deus.

Seu campo são os perdidos.

E os convertidos, por meio desse trabalho, são posteriormente batizados, ensinados e agregados ao testemunho de uma igreja local.

Isso aparece repetidamente em Atos dos Apóstolos.

  1. A Grande Comissão foi dada pelo Cristo ressuscitado

Também não me parece correto afastar Mateus 28:18-20, Marcos 16:15 e Lucas 24:46-49 da presente dispensação simplesmente porque a Igreja, historicamente, ainda não havia sido formada em Atos dos Apóstolos 2.

É verdade que a Igreja começou no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu e os crentes foram unidos num só Corpo. Primeira Epístola aos Coríntios 12:13 nos ajuda a compreender essa verdade.

Mas não podemos concluir daí que tudo aquilo que Cristo disse aos discípulos antes de Atos 2 esteja automaticamente fora da presente dispensação.

Se aplicássemos esse princípio de maneira consistente, criaríamos enormes dificuldades.

Observe a sequência.

Depois da ressurreição, o Senhor disse:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

Em Mateus:

“Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:19-20).

Em Lucas, o Senhor declara que “em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” e acrescenta: “E destas coisas sois vós testemunhas” (Lucas 24:47-48).

Agora observe Atos dos Apóstolos 1:8:

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”

Como separar essas declarações?

Lucas 24 termina com a comissão e com a promessa do poder do alto. Atos dos Apóstolos começa retomando exatamente o mesmo assunto. O Senhor manda os discípulos aguardarem em Jerusalém até receberem o Espírito Santo.

Depois, em Atos 2, o Espírito Santo vem.

Portanto, temos uma sequência histórica e doutrinária:

Cristo morre;

Cristo ressuscita;

Cristo comissiona Seus discípulos;

Cristo promete o Espírito Santo;

Cristo ascende;

o Espírito Santo desce;

a Igreja é formada;

os discípulos começam a cumprir a comissão.

Não estamos tratando de acontecimentos desconectados.

  1. Os apóstolos da comissão são os apóstolos da Igreja

Há outro problema com a tentativa de separar completamente a Grande Comissão da Igreja.

A quem o Senhor deu aquela comissão?

Aos Seus apóstolos.

E quem encontramos como fundamento doutrinário da Igreja?

Os mesmos apóstolos.

Efésios 2:20 diz que a Igreja está “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina”.

Atos dos Apóstolos 2:42 diz que os primeiros crentes “perseveravam na doutrina dos apóstolos”.

Portanto, não podemos tratar aqueles homens como se pertencessem exclusivamente a um programa relacionado com Israel e não tivessem relação com a Igreja.

Foram precisamente aqueles homens que, depois da descida do Espírito Santo, aparecem conduzindo o testemunho inicial da Igreja.

Pedro prega em Atos 2.

Pedro e João testemunham em Atos 3 e 4.

Os apóstolos testemunham da ressurreição em Atos 4:33.

Depois, o Evangelho alcança Samaria em Atos 8.

Posteriormente chega aos gentios.

Isso corresponde perfeitamente à progressão de Atos dos Apóstolos 1:8:

Jerusalém → Judeia → Samaria → confins da terra.

  1. Antioquia torna a relação com a igreja local ainda mais evidente

Talvez um dos exemplos mais claros seja Atos dos Apóstolos 13.

Ali encontramos uma igreja local estabelecida em Antioquia:

“E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores” (Atos dos Apóstolos 13:1).

Enquanto aqueles irmãos serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse:

“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (Atos dos Apóstolos 13:2).

Quem chamou Barnabé e Saulo?

O Espírito Santo.

Portanto, a autoridade não veio da assembleia.

Mas onde estavam esses homens?

Na igreja local.

E o que fez aquela igreja?

“Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (Atos dos Apóstolos 13:3).

O versículo seguinte preserva perfeitamente o equilíbrio:

“E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (Atos dos Apóstolos 13:4).

A igreja os despediu em comunhão; o Espírito Santo os enviou.

Isso destrói dois extremos.

O primeiro é o clericalismo, no qual uma organização religiosa controla o servo de Deus.

O segundo é o independentismo, no qual alguém afirma servir ao Senhor sem qualquer vínculo prático com a comunhão da igreja.

Nenhum dos dois corresponde ao padrão apresentado em Atos.

  1. E o que aconteceu quando terminaram aquela viagem evangelística?

Esse ponto é ainda mais esclarecedor.

Depois de pregarem o Evangelho em várias cidades, fazerem discípulos e estabelecerem igrejas, Paulo e Barnabé retornaram.

Para onde?

Antioquia.

“E dali navegaram para Antioquia, de onde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido” (Atos dos Apóstolos 14:26).

Depois:

“E, quando chegaram e reuniram a igreja, relataram quão grandes coisas Deus fizera por eles e como abrira aos gentios a porta da fé” (Atos dos Apóstolos 14:27).

Por que reunir a igreja para contar o que Deus havia realizado?

Porque havia comunhão entre a obra evangelística e aquela igreja local.

Não era “meu ministério”, “minha missão” ou “minha obra” funcionando independentemente dos santos.

Era trabalho para o qual o Espírito Santo havia chamado os servos, realizado em comunhão com uma igreja local, e depois relatado àquela igreja.

  1. A evangelização produzia novas igrejas

Atos dos Apóstolos também apresenta uma progressão extremamente importante.

O Evangelho era anunciado.

Pessoas eram salvas.

Os convertidos eram ensinados.

E igrejas eram estabelecidas.

Em Atos dos Apóstolos 14:21-23, Paulo e Barnabé anunciaram o Evangelho, fizeram muitos discípulos, voltaram fortalecendo os convertidos e estabeleceram anciãos em cada igreja.

Portanto, evangelização e igreja local não aparecem como duas realidades sem ligação.

A evangelização alcança os perdidos e, pela graça de Deus, produz convertidos. Esses convertidos são batizados, ensinados e passam a constituir testemunhos locais.

Essa relação é tão clara que o objetivo do trabalho evangelístico não é simplesmente produzir decisões individuais, mas ver pessoas salvas, discipuladas e reunidas segundo o padrão da Palavra de Deus.

  1. Filipe também confirma que evangelizar é um dom exercido para fora

Atos dos Apóstolos 21:8 chama Filipe especificamente de “evangelista”.

Mas onde vemos Filipe exercendo esse dom?

Especialmente em Atos 8.

Ele desce a Samaria e “lhes pregava a Cristo” (Atos dos Apóstolos 8:5).

Depois, o Senhor o dirige ao encontro do eunuco etíope e Filipe “lhe anunciou a Jesus” (Atos dos Apóstolos 8:35).

Isso confirma exatamente o sentido de Efésios 4.

O evangelista é um homem dado por Cristo à Igreja, mas seu dom o leva aos não convertidos.

Não há contradição alguma nisso.

O pastor é dado à Igreja e trabalha especialmente entre as ovelhas.

O mestre é dado à Igreja e ensina a verdade.

O evangelista é dado à Igreja e sai à procura dos perdidos.

Todos pertencem ao mesmo sistema divino de serviço sob a autoridade da Cabeça, Cristo.

  1. A igreja local possui, sim, um testemunho evangelístico

Também precisamos distinguir entre dizer que não encontramos no Novo Testamento exatamente o formato moderno de uma “reunião evangelística dominical às 19 horas” e afirmar que não existe responsabilidade evangelística ligada à igreja local.

São coisas completamente diferentes.

O Novo Testamento não determina um horário semanal chamado “reunião do Evangelho”. Mas isso não significa que uma igreja local não possa organizar oportunidades para a pregação do Evangelho.

Atos dos Apóstolos mostra igrejas apoiando servos, enviando-os em comunhão, recebendo relatos do trabalho e vendo novas igrejas surgirem por meio da evangelização.

Além disso, cada cristão individualmente é testemunha.

Atos dos Apóstolos 1:8 estabelece o princípio do testemunho.

Primeira Epístola de Pedro 3:15 mostra o crente preparado para responder acerca da esperança que possui.

Filipenses 2:15-16 apresenta os santos resplandecendo “como astros no mundo”, retendo “a palavra da vida”.

Portanto, há evangelização pessoal por irmãos e irmãs e há o trabalho específico daquele que recebeu do Senhor capacidade de evangelista.

  1. Primeira Epístola aos Tessalonicenses é particularmente significativa

Paulo escreveu a uma igreja local:

“Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 1:8).

Isso é muito importante.

Paulo não está falando somente de um evangelista individual. Está escrevendo à “igreja dos tessalonicenses” (1:1) e diz que, a partir deles, “soou a palavra do Senhor”.

Portanto, uma igreja local pode possuir um poderoso testemunho evangelístico.

Isso não significa que todos sejam evangelistas. Efésios 4 não diz isso.

Mas toda a companhia pode estar envolvida no testemunho: alguns pregando publicamente, outros convidando pessoas, outros distribuindo literatura, outros conversando pessoalmente, outros ajudando materialmente, outros sustentando a obra e todos orando.

  1. Isso não é clericalismo

Quanto à afirmação de que essa posição seria consequência de “ideias clericais”, penso que acontece justamente o contrário quando seguimos o padrão bíblico.

Clericalismo é criar uma classe profissional que monopoliza o serviço espiritual.

Mas o padrão do Novo Testamento reconhece a diversidade de dons concedidos soberanamente por Cristo.

O evangelista evangeliza.

O mestre ensina.

O pastor cuida.

Os anciãos supervisionam localmente.

Os demais santos também servem conforme aquilo que receberam do Senhor.

Primeira Epístola aos Coríntios 12 compara a igreja a um corpo justamente porque nenhum membro possui todas as funções.

Efésios 4 apresenta Cristo como a Cabeça e mostra que “todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas”, contribui para seu próprio crescimento (Efésios 4:16).

Isso é precisamente o oposto do clericalismo.

  1. O evangelista não pertence a uma organização missionária; pertence a Cristo e ao Seu Corpo

É importante manter esse equilíbrio.

Não creio que uma igreja local tenha autoridade para fabricar evangelistas, assim como não pode fabricar mestres ou pastores.

É Cristo quem dá o evangelista.

Efésios 4:11 é claro: “Ele mesmo deu”.

A igreja reconhece aquilo que Cristo concedeu.

Do mesmo modo, a recomendação de um irmão para dedicar-se integralmente ao Evangelho não transforma aquele irmão em evangelista. Se ele é verdadeiramente evangelista, o dom já veio de Cristo.

Entretanto, quando esse dom é reconhecido, é perfeitamente bíblico que os irmãos tenham comunhão com ele, orem por ele, auxiliem-no e acompanhem com interesse o trabalho que Deus está realizando.

Foi exatamente o que vemos entre Antioquia, Paulo e Barnabé.

Portanto, irmão, eu concordo que devemos rejeitar costumes meramente humanos quando são elevados ao nível da Palavra de Deus. Também concordo que não devemos transformar determinado formato de “reunião evangelística” numa ordenança bíblica, como se toda igreja fosse obrigada a realizar exatamente o mesmo tipo de reunião, no mesmo dia e da mesma maneira.

Mas daí concluir que o Evangelho não constitui parte da responsabilidade e do testemunho da igreja local é ir além do que as Escrituras permitem.

A própria Escritura apresenta:

Cristo ressuscitado ordenando que o Evangelho alcance todas as nações;

Cristo prometendo o Espírito Santo para capacitar Suas testemunhas;

o Espírito Santo vindo em Atos dos Apóstolos 2 e formando a Igreja;

os mesmos apóstolos iniciando imediatamente o testemunho;

Cristo glorificado dando evangelistas à Igreja;

uma igreja local, Antioquia, tendo comunhão com homens chamados pelo Espírito para levar o Evangelho;

esses homens voltando e relatando à igreja aquilo que Deus fizera;

o Evangelho produzindo convertidos;

e esses convertidos sendo ensinados e constituídos em novas igrejas locais.

Não vejo como chamar esse conjunto de evidências de “ideias clericais”.

Pelo contrário, considero um princípio muito simples do Novo Testamento: a Igreja não existe para si mesma. Enquanto está neste mundo, ela deve resplandecer como testemunho de Cristo. O evangelista é servo do Senhor, não empregado da assembleia; mas Cristo o deu à Igreja, e seu serviço para alcançar os perdidos não está desligado da comunhão, das orações e do testemunho dos santos.

E talvez Efésios 4:11 seja justamente uma das passagens que tornam isso mais claro: Cristo deu evangelistas à Igreja porque a Igreja já foi evangelizada, mas o mundo ainda precisa ser.

Josué Matos

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Qual sua opinião sobre cursos de teologia?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Qual sua opinião sobre cursos de teologia?

Minha Resposta:

Minha opinião precisa partir, antes de tudo, daquilo que encontramos na Palavra de Deus. Não tenho nada contra estudar profundamente a Bíblia; muito pelo contrário. Creio que todo cristão deveria ser estimulado a conhecer cada vez mais as Escrituras. A questão é distinguir entre estudar profundamente a Palavra de Deus e adotar como modelo de formação espiritual um sistema que não encontramos estabelecido no Novo Testamento.

Quando observamos a igreja no Novo Testamento, não encontramos o modelo de um seminário teológico para formar uma classe especial de cristãos, separando alguns para receberem uma formação bíblica que os demais não recebem. O padrão que encontramos é o ensino da Palavra de Deus dentro da igreja local, beneficiando todo o povo de Deus.

Em Atos dos Apóstolos 2:42, os primeiros cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos”. Mais tarde, quando Paulo permaneceu em Corinto, ele ficou ali “ensinando entre eles a palavra de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:11). Em Antioquia, Barnabé e Saulo passaram um ano inteiro reunidos com a igreja e “ensinaram muita gente” (Atos dos Apóstolos 11:26). O ensino estava ligado à vida da igreja.

Efésios 4:11-16 também mostra que Deus concedeu à Igreja homens capacitados para ensinar, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos e a edificação do Corpo de Cristo. O objetivo não é criar uma classe superior de cristãos, mas levar os santos à maturidade.

Primeira Epístola aos Coríntios 12 é igualmente importante. Os dons são distribuídos pelo Espírito Santo e exercidos para benefício de todos. A capacidade espiritual e a liderança não são produzidas simplesmente pela frequência a uma faculdade ou seminário; elas se desenvolvem sob a ação de Deus, mediante a Palavra, o exercício do dom e a experiência prática no meio do povo de Deus.

Isso não significa que todos os cristãos terão o mesmo conhecimento, o mesmo dom ou a mesma capacidade. Evidentemente, alguns se dedicarão muito mais ao estudo e alguns serão capacitados por Deus para ensinar. Romanos 12:7 menciona especificamente aquele que possui o dom de ensino: “se é ensinar, haja dedicação ao ensino”. Mas uma coisa é reconhecer diferentes dons e capacidades; outra é estabelecer uma classe espiritual diferenciada mediante formação acadêmica.

Também devemos distinguir conhecimento acadêmico de conhecimento espiritual. Uma pessoa pode estudar hebraico, grego, história, arqueologia, filosofia, hermenêutica e teologia sistemática e, apesar disso, não possuir discernimento espiritual. Primeira Epístola aos Coríntios 2:14-15 estabelece um princípio fundamental: as coisas do Espírito de Deus são discernidas espiritualmente.

É por isso que o verdadeiro conhecimento da Palavra não pode ser separado da atuação do Espírito Santo. O próprio Senhor Jesus prometeu acerca do Espírito Santo: “esse vos ensinará todas as coisas” (João 14:26). Isso não significa que o cristão não precise estudar. Pelo contrário. Significa que estudo e dependência do Espírito precisam caminhar juntos.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (Segunda Epístola a Timóteo 2:15).

Veja que há esforço envolvido. Conhecer profundamente a Bíblia exige trabalho.

Existe uma diferença muito grande entre ler a Bíblia e estudar a Bíblia.

Uma pessoa pode ler vários capítulos diariamente durante muitos anos e ainda possuir um conhecimento bastante limitado das Escrituras. A leitura é importante, inclusive a leitura devocional, mas aquele que deseja aprofundar-se precisa aprender a estudar com propósito.

Precisa comparar Escritura com Escritura, observar o contexto, perguntar quem está falando, para quem está falando, em que circunstâncias, perceber as diferenças entre Israel e a Igreja, estudar doutrinas, acompanhar temas através de diferentes livros, observar palavras importantes e procurar compreender cada passagem dentro do conjunto da revelação bíblica.

Por isso, sou favorável a que o cristão utilize boas ferramentas. Dicionários bíblicos, concordâncias, léxicos, comentários, mapas, livros de história bíblica e outros recursos podem ser muito úteis. O problema começa quando essas ferramentas ocupam o lugar da própria Escritura ou quando a autoridade de um professor, instituição ou sistema teológico passa a determinar aquilo que devemos encontrar na Bíblia.

Nenhum comentário é inspirado. Nenhum professor é infalível. Nenhuma escola teológica possui toda a verdade.

A Palavra de Deus permanece sendo a autoridade.

É interessante observar também que alguns homens que exerceram enorme influência na exposição bíblica não foram produtos de seminários teológicos. Homens como John Nelson Darby, William Kelly e C. H. Mackintosh desenvolveram grande conhecimento das Escrituras por meio de estudo intenso e pessoal. Isso não significa que devamos aceitar tudo o que qualquer um deles escreveu. Significa simplesmente que conhecimento bíblico profundo não depende necessariamente de uma formação institucional.

Aliás, esse princípio não se limita aos homens. As irmãs também devem conhecer profundamente as Escrituras.

Um belo exemplo disso aparece em Atos dos Apóstolos 18.

Apolo era um homem eloquente e “poderoso nas Escrituras” (Atos dos Apóstolos 18:24). Entretanto, seu conhecimento ainda era incompleto. Ele conhecia somente o batismo de João. Quando Áquila e Priscila o ouviram, perceberam essa deficiência.

Então lemos:

“E, ouvindo-o Priscila e Áquila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:26).

É uma passagem muito instrutiva.

Priscila não aparece assumindo publicamente o lugar de mestre na igreja. Contudo, seria igualmente errado concluir que ela era uma mulher sem conhecimento bíblico. Pelo contrário, o próprio fato de estar envolvida nessa situação mostra que possuía discernimento suficiente para perceber que havia uma deficiência naquilo que Apolo estava ensinando.

Áquila e Priscila receberam aquele homem em particular e o ajudaram. Priscila permaneceu dentro da posição que Deus estabeleceu para a mulher, mas isso não a impediu de conhecer profundamente as coisas de Deus e de participar, juntamente com seu marido, daquele auxílio particular.

Portanto, uma irmã pode e deve estudar profundamente a Bíblia. Não existe na Escritura nenhuma ideia de que profundidade doutrinária seja exclusividade masculina. Existem diferenças estabelecidas por Deus quanto ao exercício público do ministério na igreja, mas não existe qualquer proibição quanto à mulher crescer profundamente no conhecimento das Escrituras.

Outro exemplo é Timóteo. Paulo lhe disse:

“E que, desde a tua meninice, sabes as sagradas Escrituras” (Segunda Epístola a Timóteo 3:15).

De onde veio inicialmente esse conhecimento?

Paulo já havia mencionado “a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice” (Segunda Epístola a Timóteo 1:5).

Portanto, encontramos mulheres exercendo uma influência espiritual importantíssima na formação de Timóteo.

Quanto a fazer propriamente um curso de teologia, eu não diria que adquirir conhecimento por meio de um curso seja, em si mesmo, pecado. Alguém pode aproveitar determinadas matérias, aprender história, línguas bíblicas, geografia, contexto cultural e outras informações úteis. Entretanto, eu faria uma distinção entre aproveitar ferramentas acadêmicas e aceitar o sistema de formação ministerial do seminário como se fosse o modelo bíblico para preparar servos de Deus.

Esse modelo não encontro no Novo Testamento.

O padrão bíblico que vejo é a igreja local ensinando os santos, homens espiritualmente capacitados ensinando a Palavra, os mais experientes ajudando os mais novos e cada cristão assumindo pessoalmente a responsabilidade de estudar as Escrituras.

Paulo disse a Timóteo:

“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (Segunda Epístola a Timóteo 2:2).

Observe a sequência: Paulo → Timóteo → homens fiéis → outros.

Não aparece uma instituição produzindo uma categoria profissional de ministros. Vemos verdade espiritual sendo transmitida a homens fiéis que, por sua vez, seriam capazes de ensinar outros.

Também devemos ter cuidado com a ideia de que um diploma teológico qualifica alguém automaticamente para ser pastor, ancião, mestre ou pregador. No Novo Testamento, as qualificações espirituais não são acadêmicas.

Quando lemos Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1, encontramos caráter, maturidade, vida familiar, domínio próprio, hospitalidade, fidelidade à Palavra e capacidade para ensinar. Não encontramos qualquer requisito acadêmico.

Por isso, se um irmão me perguntasse: “Preciso fazer seminário para conhecer profundamente a Bíblia?”, minha resposta seria: não.

Se perguntasse: “Preciso fazer seminário para que Deus possa me usar?”, também responderia: não.

E se perguntasse: “Então não preciso estudar?”, responderia exatamente o contrário: precisa estudar muito.

Talvez mais do que imagina.

Leia a Bíblia inteira repetidamente. Depois estude livros individualmente. Estude capítulos. Estude doutrinas. Compare passagens. Faça anotações. Utilize uma boa concordância. Consulte o significado de palavras. Quando for possível, examine termos gregos e hebraicos com ferramentas responsáveis. Leia bons comentários, mas confira tudo nas Escrituras. Ouça, irmãos, que conhecem a Palavra. Faça perguntas. Aprenda com aqueles que Deus colocou na igreja. E, acima de tudo, faça tudo isso em oração e dependência do Espírito Santo.

O grande perigo é trocar a formação espiritual pela formação meramente intelectual.

A Bíblia não foi dada apenas para informar nossa mente, mas para formar nossa vida.

Esdras apresenta um princípio muito bonito:

“Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos” (Esdras 7:10).

Observe a ordem:

buscar;

cumprir;

ensinar.

Primeiro ele procurou conhecer. Depois procurou viver. Finalmente estava em condições de ensinar.

Esse continua sendo um excelente padrão para qualquer pessoa que deseja conhecer profundamente a Palavra de Deus.

Portanto, não sou contrário ao estudo; sou inteiramente favorável ao estudo bíblico sério e profundo. Minha reserva é quanto a transformar o seminário teológico no método bíblico de formação de servos de Deus ou imaginar que um diploma confere autoridade espiritual.

A melhor “escola” do cristão continua sendo a Palavra de Deus, estudada diligentemente, no contexto da comunhão e ensino da igreja local, com auxílio de irmãos espirituais, utilizando bons recursos quando necessários e, acima de tudo, na dependência do Espírito Santo.

Josué Matos
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