Áudios

Pesquisar este blog

Como funciona, na prática, esse reconhecimento dos presbíteros?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, sabemos que a igreja local é governada pelo Espírito Santo, que constitui presbíteros para o cuidado do rebanho da igreja de Deus. Logo, esse cuidado é coletivo, e não individual, exercido por um só presbítero.

A minha pergunta é: como são constituídos esses presbíteros? Refiro-me à prática. Eles são apresentados diante de toda a igreja para que fique claro que estes são os presbíteros da igreja local que cuidam do rebanho? Como funciona, na prática, esse reconhecimento dos presbíteros?

Paz seja contigo.

Minha Resposta:

Sua pergunta é muito importante, porque precisamos fazer uma distinção entre duas coisas que, embora estejam relacionadas, não são exatamente a mesma coisa: a constituição dos presbíteros e o reconhecimento dos presbíteros.

A resposta mais simples seria esta: quem constitui os presbíteros é o Espírito Santo; a igreja local não os elege, mas deve reconhecê-los. E esse reconhecimento deve ocorrer depois que esses homens já demonstraram, por sua vida, caráter, doutrina e trabalho, que o Espírito Santo os levantou para cuidar do rebanho.

  1. QUEM CONSTITUI OS PRESBÍTEROS?

O texto fundamental é Atos dos Apóstolos 20:28. Paulo chamou os presbíteros da igreja em Éfeso e lhes disse:

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus.”

Observe cuidadosamente: Paulo não disse que a igreja os havia constituído. Também não disse que eles haviam se constituído a si mesmos. Ele declarou expressamente: “o Espírito Santo vos constituiu bispos”.

Isso é muito importante.

Em Atos dos Apóstolos 20:17, esses homens são chamados “anciãos” ou “presbíteros”. No versículo 28, os mesmos homens são chamados “bispos”, isto é, superintendentes, e recebem a responsabilidade de “apascentar” o rebanho. Portanto, presbítero, ancião e bispo não são três níveis diferentes de uma hierarquia eclesiástica. São diferentes designações relacionadas aos mesmos homens e ao seu trabalho.

“Presbítero” ou “ancião” destaca principalmente a maturidade do homem; “bispo” ou “superintendente” destaca sua responsabilidade de supervisionar; e “apascentar” descreve seu trabalho pastoral.

Também devemos observar que o padrão apresentado no Novo Testamento é de pluralidade. Paulo chamou “os presbíteros da igreja” em Éfeso (Atos dos Apóstolos 20:17). Paulo e Barnabé estabeleceram “anciãos em cada igreja” (Atos dos Apóstolos 14:23). Paulo escreveu aos santos em Filipos “com os bispos e diáconos” (Filipenses 1:1). Pedro escreveu: “Aos presbíteros que estão entre vós” (1 Pedro 5:1).

Portanto, concordo com a observação feita na pergunta: biblicamente, o cuidado da igreja local não está concentrado normalmente nas mãos de um único homem. Há uma pluralidade de presbíteros cuidando coletivamente do mesmo rebanho.

  1. A IGREJA ESCOLHE OS PRESBÍTEROS?

Aqui precisamos ter bastante cuidado.

Não encontramos no Novo Testamento uma igreja reunindo-se para realizar uma eleição e, por maioria de votos, decidir quem será presbítero.

Atos dos Apóstolos 20:28 coloca a iniciativa no Espírito Santo.

Isso significa que o presbiterato não começa com uma eleição, mas com uma obra espiritual realizada por Deus naquele homem.

Primeira Epístola a Timóteo 3:1 diz:

“Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.”

Observe que ele deseja uma “obra”. O texto não apresenta primeiramente uma posição de honra, mas um trabalho.

Depois, Paulo apresenta as qualificações:

“Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar...” (1 Timóteo 3:2).

E a lista continua até o versículo 7.

Tito 1:5-9 apresenta qualificações semelhantes.

Portanto, não é uma votação que torna alguém presbítero. O homem precisa possuir as qualificações bíblicas e já demonstrar capacidade espiritual para realizar aquele trabalho.

  1. ENTÃO, O QUE A IGREJA FAZ?

A igreja reconhece aquilo que o Espírito Santo já realizou.

Este princípio aparece de maneira muito bonita na Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:12-13:

“E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra.”

Veja a ordem.

Primeiro: eles “trabalham entre vós”.

Segundo: eles “presidem sobre vós no Senhor”.

Terceiro: eles “vos admoestam”.

Depois vem a responsabilidade dos santos: “reconheçais”.

Portanto, a prática precede o reconhecimento.

Um homem não começa a cuidar do rebanho porque recebeu o título de presbítero. O contrário é que deve acontecer: ele é reconhecido como presbítero porque já está demonstrando, de maneira bíblica e consistente, que o Espírito Santo o capacitou e levantou para aquele trabalho.

Essa diferença é fundamental.

  1. COMO O ESPÍRITO SANTO TORNA ISSO VISÍVEL?

Não devemos imaginar que o Espírito Santo comunica diretamente à igreja, mediante uma revelação extraordinária, dizendo: “Este homem agora é presbítero”.

As Escrituras fornecem critérios objetivos pelos quais a ação do Espírito Santo pode ser reconhecida.

Primeira Epístola a Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9 apresentam esses critérios.

É necessário observar sua vida pessoal.

É necessário observar seu casamento e sua vida familiar.

É necessário observar sua reputação.

É necessário observar seu domínio próprio.

É necessário observar sua hospitalidade.

É necessário observar seu conhecimento das Escrituras.

É necessário observar sua capacidade de ensinar e exortar.

É necessário observar sua maturidade espiritual.

É necessário observar sua relação com dinheiro.

É necessário observar sua atitude em relação aos irmãos.

É necessário observar se ele realmente cuida das ovelhas.

Por isso Paulo diz:

“Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” (1 Timóteo 3:6).

Presbítero não é simplesmente o irmão mais velho em idade, nem necessariamente aquele que está há mais tempo na igreja. Trata-se de maturidade espiritual comprovada.

  1. ELE JÁ ESTARÁ FAZENDO O TRABALHO ANTES DO RECONHECIMENTO

Este talvez seja o ponto mais importante para responder à pergunta prática.

Antes que uma igreja reconheça formalmente determinado irmão como presbítero, já deverá ser possível perceber nele características do trabalho pastoral.

Ele visita os enfermos.

Procura os que estão se afastando.

Ajuda os fracos.

Admoesta os desordenados.

Consola os abatidos.

Protege a igreja contra falsos ensinamentos.

Ensina a Palavra de Deus.

Demonstra interesse genuíno pelo estado espiritual dos irmãos.

Ora pelo rebanho.

Procura resolver problemas espirituais.

Age com equilíbrio diante das dificuldades.

É procurado espontaneamente pelos irmãos quando surgem problemas.

Tudo isso vai tornando evidente que aquele homem está sendo preparado e usado pelo Espírito Santo para o cuidado do rebanho.

Primeira Epístola de Pedro 5:2-3 descreve muito bem essa atividade:

“Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.”

Portanto, um verdadeiro presbítero não surge simplesmente porque alguém anunciou seu nome numa reunião. Ele já vinha sendo um exemplo para o rebanho.

  1. MAS PODE HAVER UM RECONHECIMENTO PÚBLICO DIANTE DA IGREJA?

Aqui precisamos ter cuidado para não estabelecer um procedimento que o Novo Testamento não estabelece.

O princípio fundamental é muito claro: quem constitui os presbíteros é o Espírito Santo.

Paulo disse aos presbíteros de Éfeso:

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus” (Atos 20:28).

Portanto, a igreja não transforma um homem em presbítero por meio de uma votação, eleição, cerimônia ou decisão administrativa. O Espírito Santo é quem levanta homens para esse trabalho.

Mas isso não significa que o presbítero simplesmente declare a si mesmo como tal.

Existe também o reconhecimento da igreja.

Paulo escreveu aos tessalonicenses:

“E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra” (1 Tessalonicenses 5:12-13).

Observe cuidadosamente a ordem apresentada.

Esses homens já estavam trabalhando entre os santos.

Já estavam exercendo cuidado.

Já estavam tomando a liderança espiritual.

Já estavam admoestando.

Então os santos deveriam reconhecê-los.

Isso é muito importante, porque mostra que a prática precede o reconhecimento.

O homem não começa a cuidar do rebanho porque recebeu o título de presbítero. Ele é reconhecido como presbítero porque, tendo sido levantado pelo Espírito Santo e possuindo as qualificações bíblicas, já vem realizando essa obra entre os santos.

O reconhecimento, portanto, nasce da observação.

A igreja conhece esses homens pelo seu trabalho, caráter, doutrina, maturidade e cuidado pelo rebanho.

É nesse sentido que podemos falar de um reconhecimento dos presbíteros pela igreja.

O Novo Testamento não nos fornece uma cerimônia obrigatória que deva ser reproduzida hoje, nem estabelece que os presbíteros tenham necessariamente de ser apresentados formalmente diante de toda a igreja em determinado culto.

Lendo 1 Tessalonicenses 5:12-13, Hebreus 13:7, 17 e 24, pressupõe-se que esses homens sejam conhecidos pelos santos pelo trabalho que fazem.

  1. COMO ISSO PODERIA FUNCIONAR NA PRÁTICA?

Suponhamos que numa igreja local já existam alguns presbíteros reconhecidos.

Com o passar do tempo, outro irmão começa a manifestar as características necessárias para o cuidado do rebanho.

Ele demonstra maturidade espiritual.

Sua vida familiar corresponde às qualificações apresentadas em 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9.

Ele conhece e maneja corretamente a Palavra de Deus.

Sua doutrina é sadia.

Seu caráter é conhecido.

Ele demonstra humildade.

Ele ama os santos.

Ele procura os que estão espiritualmente fracos.

Ele aconselha.

Ele admoesta quando necessário.

Ele ajuda a preservar a igreja de erros doutrinários.

Ele demonstra capacidade para cuidar espiritualmente de outros.

E, sobretudo, ele não está simplesmente procurando uma posição: está fazendo a obra.

Os presbíteros já reconhecidos devem estar atentos a homens assim. Devem observar o que o Espírito Santo está fazendo na vida dos irmãos mais novos e discernir aqueles que estão sendo preparados para assumir responsabilidades no cuidado da igreja.

Isso não deve ser feito apressadamente.

A advertência de 1 Timóteo 5:22 é muito importante:

“A ninguém imponhas precipitadamente as mãos.”

No contexto do capítulo, há uma séria advertência contra o reconhecimento prematuro de homens que ainda não tiveram suficientemente provados seu caráter e sua conduta.

Por isso, não se reconhece um presbítero simplesmente porque ele prega bem.

Também não porque possui muito conhecimento bíblico.

Não porque é um dos irmãos mais antigos da igreja.

Não porque tem boa condição financeira.

Não porque é um excelente administrador.

Não porque possui formação acadêmica.

E muito menos porque deseja uma posição de destaque.

É necessário observar sua vida e seu trabalho.

Primeiro vem aquilo que Deus está realizando no homem.

Depois vêm as evidências desse trabalho espiritual.

Finalmente vem o reconhecimento.

Foi exatamente esse princípio que apareceu nas igrejas do período apostólico. Em Atos 14, as igrejas já existiam antes de terem presbíteros reconhecidos. Foi necessário tempo para que determinados homens demonstrassem maturidade e capacidade espiritual para o cuidado do rebanho.

Da mesma forma, 1 Tessalonicenses 5:12 não manda os santos escolherem homens para começar a trabalhar entre eles. Paulo manda reconhecer aqueles que já “trabalham entre vós”.

Portanto, numa igreja local hoje, os presbíteros existentes devem observar cuidadosamente aqueles irmãos nos quais aparecem as qualificações e o exercício do cuidado espiritual.

Quando ficar evidente que determinado irmão está fazendo a obra de um presbítero e possui as qualificações bíblicas para isso, ele pode ser reconhecido como tal.

A igreja deve saber quem são aqueles que cuidam dela, pois os santos são ensinados a reconhecê-los, estimá-los e sujeitar-se à sua liderança espiritual.

Hebreus 13:17 diz:

“Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas.”

Logo, não há necessidade de criar uma eleição, campanha, votação ou sistema denominacional de ordenação.

Também não devemos transformar o reconhecimento numa cerimônia que supostamente concede ao homem uma posição que ele não possuía antes.

O princípio bíblico pode ser resumido desta maneira:

O Espírito Santo constitui.

O homem manifesta as qualificações.

O trabalho torna-se evidente.

Os irmãos espirituais discernem.

A igreja reconhece.

E os santos passam a considerar aquele irmão como um dos homens que Deus levantou para cuidar do rebanho.

Assim, o reconhecimento não cria o presbítero; confirma aquilo que sua vida, suas qualificações e sua obra já demonstraram.

  1. E SE A IGREJA AINDA NÃO POSSUIR PRESBÍTEROS RECONHECIDOS?

Essa situação exige ainda mais cuidado.

Não devemos criar presbíteros simplesmente porque “uma igreja precisa ter presbíteros”.

Melhor uma igreja esperar até que Deus levante homens qualificados do que colocar precipitadamente homens numa responsabilidade para a qual ainda não estão preparados.

Primeira Epístola a Timóteo 5:22 estabelece um princípio muito importante:

“A ninguém imponhas precipitadamente as mãos.”

A precipitação em reconhecer liderança espiritual pode causar grandes problemas posteriormente.

O tempo revela muita coisa.

Por isso, as qualificações de Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1 precisam ser observadas cuidadosamente.

  1. E TITO 1:5? TITO NÃO “ESTABELECEU” PRESBÍTEROS?

Paulo escreveu:

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tito 1:5).

Precisamos considerar que Tito estava atuando sob autoridade apostólica. O mesmo aconteceu durante o período apostólico em outros lugares.

Mas isso não significa que Tito pudesse arbitrariamente escolher qualquer homem e transformá-lo em presbítero.

Imediatamente depois, Paulo apresenta as qualificações necessárias:

“aquele que for irrepreensível...” (Tito 1:6).

Ou seja, Tito precisava identificar homens nos quais essas qualificações já fossem evidentes.

A função dele era reconhecer, à luz da orientação apostólica, aquilo que Deus havia produzido naqueles homens.

Hoje não temos apóstolos nem delegados apostólicos com a mesma autoridade de Paulo, Timóteo ou Tito. Temos, porém, as Escrituras inspiradas que eles deixaram.

Portanto, atualmente, a igreja deve aplicar cuidadosamente os critérios que encontramos em Primeira Epístola a Timóteo 3, Tito 1, Primeira Epístola de Pedro 5 e outras passagens relacionadas ao assunto.

  1. O RECONHECIMENTO NÃO DEVE CRIAR UMA CLASSE CLERICAL

Também precisamos evitar outro extremo.

Reconhecer presbíteros não significa criar uma classe clerical acima dos demais irmãos.

Pedro diz aos presbíteros:

“Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pedro 5:3).

Os presbíteros possuem autoridade espiritual, mas não são donos da igreja.

O rebanho pertence a Deus.

Atos dos Apóstolos 20:28 chama-o de “igreja de Deus”.

Primeira Epístola de Pedro 5:2 chama-o de “rebanho de Deus”.

E no versículo 4, Cristo é chamado de “Sumo Pastor”.

Portanto, todo presbítero é, na realidade, um pastor subordinado ao Sumo Pastor.

Ele não governa segundo sua vontade pessoal. Ele deve cuidar da igreja de acordo com a Palavra de Deus.

  1. O RECONHECIMENTO DEVE SER DA IGREJA, NÃO APENAS DOS OUTROS PRESBÍTEROS

Há também um aspecto importante aqui.

Os presbíteros existentes podem discernir que determinado irmão está sendo levantado por Deus. Entretanto, o reconhecimento precisa tornar-se conhecido entre os santos, porque Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:12 diz:

“Rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós.”

O texto dirige a responsabilidade aos irmãos.

Isso não significa votação democrática.

Significa reconhecimento espiritual.

Idealmente, quando um homem realmente possui as qualificações bíblicas e já está realizando o trabalho pastoral, seu reconhecimento não deveria causar surpresa à igreja.

Os santos provavelmente pensarão:

“Sim, já víamos esse irmão dessa maneira.”

Isso é muito saudável.

O anúncio público apenas confirma uma realidade que já vinha sendo percebida.

  1. UMA FRASE RESUME TODO O PROCESSO

Podemos resumir assim:

O Espírito Santo constitui; o homem manifesta as qualificações; os presbíteros discernem; a igreja reconhece; e o presbítero continua fazendo aquilo que já fazia: cuidar do rebanho.

Atos dos Apóstolos 20:28 mostra a constituição:

“O Espírito Santo vos constituiu bispos.”

Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1 mostram as qualificações.

Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:12 mostra o reconhecimento:

“Reconheçais os que trabalham entre vós.”

Primeira Epístola de Pedro 5:2 mostra o trabalho:

“Apascentai o rebanho de Deus.”

Hebreus 13:17 mostra a responsabilidade dos santos:

“Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles.”

E Primeira Epístola de Pedro 5:4 mostra a responsabilidade final dos presbíteros perante Cristo:

“E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória.”

Portanto, respondendo objetivamente à pergunta: o Novo Testamento ensina que os presbíteros são constituídos pelo Espírito Santo e reconhecidos pelos santos em razão das qualificações que manifestam e do trabalho que já realizam no cuidado do rebanho.

Esse reconhecimento não é uma eleição, uma promoção, nem uma ordenação que transforma determinado irmão em presbítero. Também não encontramos nas Escrituras uma cerimônia estabelecida pela qual um homem passe oficialmente a ocupar esse lugar.

O princípio de 1 Tessalonicenses 5:12-13 é especialmente importante: os santos deveriam reconhecer aqueles que já trabalhavam entre eles, presidiam no Senhor e os admoestavam. Portanto, a obra precedia o reconhecimento.

Isso significa que um homem não se torna presbítero porque seu nome foi anunciado à igreja. Antes, sua vida, suas qualificações e seu trabalho no cuidado dos santos tornam evidente aquilo que o Espírito Santo está realizando nele.

Naturalmente, é necessário que a igreja saiba quem são os homens que exercem essa responsabilidade, pois os santos são ensinados a reconhecê-los, estimá-los e sujeitar-se à sua liderança espiritual. Entretanto, não devemos ir além das Escrituras estabelecendo como necessária uma cerimônia ou apresentação pública formal que o Novo Testamento não determina.

Talvez a melhor maneira de resumir seja esta:

O Espírito Santo constitui o presbítero; suas qualificações confirmam sua aptidão; seu trabalho demonstra sua realidade; e os santos, observando sua vida e seu serviço, reconhecem aquilo que Deus já tornou evidente.

Assim, quando um homem é verdadeiramente reconhecido como presbítero, ele não começa naquele momento a cuidar do rebanho. Ele já vinha fazendo esse trabalho. O reconhecimento apenas corresponde à realidade espiritual que já estava manifesta entre os santos.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos:

Quando Jesus disse aquelas palavras em Mateus 5:32 e 19:9, em tese dando uma exceção, na verdade Ele apenas estava cumprindo e seguindo a lei que ainda estava em vigor, acerca da pureza entre o povo de Israel.

 Alguém que escreveu no WhatsApp:

Meu Deus, irmão, fica tudo muito claro. Quando Jesus disse aquelas palavras em Mateus 5:32 e 19:9, em tese dando uma exceção, na verdade Ele apenas estava cumprindo e seguindo a lei que ainda estava em vigor, acerca da pureza entre o povo de Israel. As denominações, ditas igrejas, estão escondendo isso para não perder membros dizimistas, que é outra falsa doutrina. Eu não consigo enxergar de outra forma, pois há muitos divorciados e recasados. Vem se cumprindo uma grande apostasia à margem da sã doutrina.

Minha Resposta:

Você percebeu um ponto muito importante, especialmente ao observar que Mateus 5:32 e Mateus 19:9 precisam ser entendidos dentro do contexto judaico em que o Senhor Jesus pronunciou essas palavras. Entretanto, eu faria uma pequena precisão na maneira de expressar isso: não diria simplesmente que Jesus estava apenas “cumprindo e seguindo a lei”. O Senhor vai além disso. Ele mostra que a permissão mosaica para o repúdio nunca representou o propósito original de Deus para o casamento.

Quando os fariseus perguntaram: “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?”, o Senhor não começou Sua resposta em Deuteronômio. Ele voltou muito mais atrás, à criação:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:4-6).

Esse é o fundamento. O padrão do casamento não começa com Moisés, mas com Deus na criação, em Gênesis 2:24.

Quando os fariseus perguntaram por que, então, Moisés permitiu a carta de divórcio, o Senhor explicou:

“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).

Observe cuidadosamente: “ao princípio não foi assim”.

Portanto, a permissão existente na legislação mosaica não anulava o princípio estabelecido por Deus na criação. Era uma concessão relacionada à dureza do coração humano, não a expressão do ideal divino.

A questão da “exceção”

Aqui chegamos justamente ao ponto que você mencionou.

Mateus registra:

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério” (Mateus 19:9).

É muito importante observar que o Senhor emprega palavras diferentes para “fornicação” e “adultério”.

A palavra traduzida por fornicação é porneia.

A palavra relacionada ao adultério é moicheia.

Essa distinção ajuda bastante na compreensão do texto. Se o Senhor estivesse simplesmente dizendo que o adultério depois do casamento desfazia o vínculo matrimonial, seria natural perguntar por que Ele não empregou diretamente a palavra referente ao adultério na chamada cláusula de exceção.

Além disso, há um detalhe muito significativo: essa cláusula aparece em Mateus, mas não aparece nas declarações paralelas de Marcos e Lucas.

Em Marcos lemos:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Lucas é igualmente direto:

“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).

Por que, então, Mateus apresenta a expressão relacionada à porneia?

O próprio Evangelho segundo Mateus fornece uma chave importante no primeiro capítulo.

José e Maria estavam desposados, mas ainda não haviam consumado o casamento:

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem...” (Mateus 1:18).

Mesmo assim, José é chamado de “marido”, e Maria é chamada de sua “mulher”:

“José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).

E o anjo lhe disse:

“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).

Isso é muito importante.

No sistema judaico de desposamento, o compromisso possuía uma seriedade jurídica muito maior do que aquilo que hoje chamamos simplesmente de namoro ou noivado. Uma mulher desposada já podia ser chamada “mulher” daquele homem, embora ainda não tivessem se ajuntado.

Isso também aparece em Deuteronômio 22:23-24, onde uma “moça virgem desposada” é considerada “mulher do seu próximo”.

Assim, há uma compreensão muito coerente da cláusula de Mateus: a “fornicação” mencionada pelo Senhor se refere à imoralidade descoberta antes da consumação do casamento, dentro daquele contexto judaico do desposamento.

José e Maria constituem praticamente uma ilustração do próprio assunto no início do Evangelho.

José acreditou inicialmente que Maria havia sido infiel durante o período do desposamento e, por isso, “intentou deixá-la secretamente”. Naturalmente, depois recebeu a revelação divina de que a gravidez de Maria era obra sobrenatural do Espírito Santo.

Isso também explica por que Mateus, Evangelho profundamente relacionado ao contexto judaico, registra essa cláusula, enquanto Marcos e Lucas apresentam a regra sem ela.

O casamento continua enquanto ambos vivem

Quando chegamos às epístolas, onde encontramos instruções dirigidas às igrejas, a linguagem torna-se ainda mais direta.

Romanos 7:2-3 declara:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido.”

Observe a expressão:

“enquanto ele viver”.

E depois:

“morto o marido, está livre”.

Paulo apresenta a morte, não o divórcio civil, como aquilo que põe fim ao vínculo matrimonial.

Isso concorda com 1 Coríntios 7.

Quando Paulo trata da possibilidade de separação entre cristãos, não diz que o crente separado está livre para procurar outro casamento:

“Todavia, aos casados mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (1 Coríntios 7:10-11).

As duas possibilidades apresentadas são muito claras:

permanecer sem casar;

ou reconciliar-se.

Não encontramos uma terceira opção dizendo: “divorcie-se e case com outra pessoa”.

Mais adiante, Paulo reafirma o mesmo princípio:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

Novamente:

“todo o tempo que o seu marido vive”.

E novamente a liberdade aparece quando o marido “falecer”.

Por isso, precisamos distinguir aquilo que a legislação civil reconhece daquilo que Deus reconhece. Um tribunal pode declarar duas pessoas legalmente divorciadas perante o Estado, mas isso não significa automaticamente que o vínculo estabelecido por Deus deixou de existir.

Foi justamente por isso que o Senhor disse:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Essa declaração é muito mais profunda do que simplesmente proibir uma determinada formalidade jurídica. O casamento é apresentado como uma união realizada diante de Deus.

A própria linguagem de “adultério” depois de um novo casamento demonstra isso.

Se o primeiro casamento tivesse sido completamente dissolvido diante de Deus pelo divórcio, casar novamente não poderia ser chamado de adultério. Adultério pressupõe a existência de um vínculo matrimonial anterior.

É justamente isso que torna tão forte Lucas 16:18:

“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também.”

A mulher foi repudiada. Humanamente, houve separação. Entretanto, casar com ela ainda é chamado de adultério. Isso demonstra que a ruptura reconhecida pelos homens não necessariamente desfaz aquilo que Deus estabeleceu.

Entretanto, precisamos ter cuidado com outra parte do comentário.

É verdade que vivemos dias de grande abandono da verdade bíblica. O Novo Testamento realmente profetiza:

“Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Timóteo 4:3).

Também lemos:

“Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2 Timóteo 3:13).

Contudo, devemos evitar afirmar que todas as igrejas ou todos os ensinadores que interpretam Mateus 19:9 de maneira diferente fazem isso conscientemente “para não perder dizimistas”.

Podemos demonstrar biblicamente que uma interpretação está errada sem julgar necessariamente as motivações do coração de todos que a sustentam.

Existem pessoas sinceras que foram ensinadas dessa maneira e nunca examinaram profundamente o assunto. Existem também exposições diferentes da cláusula de Mateus 19:9 entre pessoas que reconhecem a autoridade das Escrituras.

Nosso dever é:

“Pregar a palavra, instar a tempo e fora de tempo, redarguir, repreender, exortar, com toda a longanimidade e doutrina” (2 Timóteo 4:2).

A verdade não precisa ser enfraquecida, mas deve ser apresentada com fidelidade, paciência e amor.

Quanto ao dízimo, também é necessário fazer a distinção dispensacional. O dízimo pertence claramente ao sistema de Israel e aparece na Lei de Moisés, enquanto o ensino dado às igrejas no Novo Testamento enfatiza contribuição voluntária, proporcional, consciente e alegre:

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).

Assim, não devemos trocar uma ordenança dada a Israel por uma espécie de imposto religioso imposto à Igreja.

Finalmente, quanto à apostasia, devemos igualmente usar o termo biblicamente e com cuidado. Certamente existe crescente abandono da verdade, e as Escrituras já advertiam que isso aconteceria. Mas nossa responsabilidade não é apenas apontar o erro dos outros. Devemos primeiro permanecer pessoalmente firmes na verdade.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado” (2 Timóteo 3:14).

E Judas exorta:

“Batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3).

Portanto, a resposta à confusão dos nossos dias não é adaptar as Escrituras à sociedade, mas voltar humildemente às Escrituras.

No casamento, devemos voltar ao princípio:

“Serão dois numa só carne” (Mateus 19:5).

Na permanência do vínculo:

“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Na separação:

“Fique sem casar ou que se reconcilie” (1 Coríntios 7:11).

Na duração do vínculo:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive” (1 Coríntios 7:39).

E na liberdade para um novo casamento:

“Mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

Quando juntamos essas passagens, o ensino apresenta uma coerência admirável. Não precisamos construir uma doutrina sobre uma frase isolada de Mateus 19:9. Precisamos interpretar essa frase à luz do contexto judaico de Mateus e, depois, compará-la com Marcos 10:11-12; Lucas 16:18; Romanos 7:1-3 e 1 Coríntios 7:10-11,39.

A Escritura deve interpretar a Escritura.

E acima das mudanças culturais, das legislações humanas e das conveniências religiosas permanece a palavra do próprio Senhor Jesus:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos:

Após o arrebatamento da Igreja, o aparecimento do iníquo será imediato, ou as pessoas irão clamar por um “salvador” para resolver o caos, e então ele se manifestará?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Uma pergunta: após o arrebatamento da Igreja, o aparecimento do iníquo será imediato, ou as pessoas irão clamar por um “salvador” para resolver o caos, e então ele se manifestará? Ou ele se manifestará imediatamente após o arrebatamento?

Minha Resposta:

A Palavra de Deus nos permite estabelecer a ordem dos acontecimentos, mas é importante não afirmar além daquilo que foi revelado. A Bíblia não diz que haverá determinado número de horas, dias, semanas ou meses entre o arrebatamento da Igreja e a manifestação do iníquo. Portanto, não podemos estabelecer um intervalo cronológico que as Escrituras não estabelecem.

Entretanto, há uma ligação muito estreita entre a retirada da Igreja e a manifestação desse homem.

O texto principal é 2 Tessalonicenses 2:6-8:

“E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; e então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca e aniquilará pelo esplendor da sua vinda.”

A expressão “e então será revelado o iníquo” é muito importante. Existe atualmente uma força restritiva que impede a plena manifestação desse homem. O mistério da iniquidade já está operando, mas ainda não chegou à sua manifestação final numa pessoa.

Entendemos que Aquele que restringe essa manifestação é o Espírito Santo agindo presentemente por meio da Igreja. Quando a Igreja for arrebatada, conforme 1 Tessalonicenses 4:13-18, essa forma específica da atuação restritiva do Espírito Santo chegará ao fim. Isto não significa que o Espírito Santo deixará a Terra ou deixará de operar. Ele é Deus e é onipresente. Haverá, inclusive, pessoas salvas durante o período da tribulação. O que terminará será Sua atuação particular através da Igreja como habitação de Deus neste presente período.

É significativo que Paulo diga:

“E então será revelado o iníquo” (2 Tessalonicenses 2:8).

Isso indica uma sequência bastante direta: o impedimento é retirado e o iníquo é revelado.

Portanto, não encontramos fundamento bíblico para afirmar que necessariamente haverá um longo período depois do arrebatamento no qual a humanidade ficará procurando alguém para resolver o caos e somente depois surgirá o iníquo. Essa possibilidade pode parecer lógica do ponto de vista humano, mas não é apresentada dessa maneira nas Escrituras.

Por outro lado, também precisamos distinguir entre a existência desse homem, sua manifestação pública e o desenvolvimento posterior de seu poder.

Ele poderá muito bem já ser uma figura conhecida no cenário político antes de ser identificado pelo caráter profético que as Escrituras lhe atribuem. A Bíblia não diz que ele aparecerá subitamente do nada. O que 2 Tessalonicenses 2 ensina é que chegará o momento determinado por Deus em que ele será “revelado”.

Há também Daniel 9:27, que apresenta um acontecimento decisivo no início da última semana profética:

“E ele firmará aliança com muitos por uma semana.”

Essa semana corresponde ao período final de sete anos relacionado especialmente com Israel e com os acontecimentos que culminarão na manifestação gloriosa do Senhor Jesus Cristo.

Portanto, o cenário bíblico aponta para uma rápida reorganização política e religiosa depois do arrebatamento.

Podemos imaginar que o desaparecimento repentino de todos os verdadeiros crentes causará enorme perplexidade no mundo. Pense no impacto social, econômico, político e até familiar desse acontecimento. Milhões de pessoas desaparecerão instantaneamente.

“Num momento, num abrir e fechar de olhos” (1 Coríntios 15:52).

Entretanto, devemos ter cuidado aqui: a Bíblia não descreve detalhadamente como os governos explicarão o arrebatamento nem afirma explicitamente que haverá um clamor mundial dizendo: “Precisamos de um salvador.” Isso seria uma dedução, e não uma declaração das Escrituras.

O que sabemos é que surgirá um sistema de extraordinário poder político e religioso.

Apocalipse 13 apresenta duas figuras especialmente importantes. A primeira besta sobe do mar e recebe enorme autoridade política:

“E deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação” (Apocalipse 13:7).

Depois aparece outra besta:

“E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão” (Apocalipse 13:11).

Esse segundo personagem possui uma aparência enganadora. Parece cordeiro, mas sua voz revela sua verdadeira origem: fala como o dragão. Haverá, portanto, uma combinação extraordinária de poder político, religioso e satânico.

Além disso, 2 Tessalonicenses 2:9 mostra que a manifestação do iníquo será acompanhada de elementos sobrenaturais:

“Esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira.”

Isso explica por que multidões acreditarão nele. Não será simplesmente um político habilidoso oferecendo soluções econômicas. Sua atuação estará relacionada diretamente com a atividade de Satanás.

É também importante perceber que seu verdadeiro caráter será revelado progressivamente.

No princípio, sua atuação poderá parecer extremamente benéfica. Daniel apresenta uma aliança, aparentemente oferecendo estabilidade. Mas, no meio da semana, essa situação mudará dramaticamente:

“Na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares” (Daniel 9:27).

O Senhor Jesus refere-Se diretamente a esse acontecimento:

“Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo...” (Mateus 24:15).

Paulo acrescenta outro detalhe impressionante:

“O qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus” (2 Tessalonicenses 2:4).

Assim, aquele que inicialmente poderá ser recebido como solução acabará revelando-se como inimigo declarado de Deus.

É exatamente esse contraste que torna o período tão terrível. O mundo rejeitou o verdadeiro Cristo e acabará recebendo aquele que vem em seu próprio nome.

O próprio Senhor Jesus disse:

“Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” (João 5:43).

Há aqui uma impressionante correspondência profética. O mundo rejeitou o Príncipe da Paz, mas receberá uma paz falsa. Rejeitou o verdadeiro Messias, mas aceitará um falso messias. Rejeitou a verdade de Deus e receberá a mentira de Satanás.

Por isso Paulo escreve:

“E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade” (2 Tessalonicenses 2:11-12).

Portanto, resumindo: o arrebatamento remove o testemunho da Igreja e a presente restrição que impede a plena manifestação do iníquo. Depois disso, o caminho estará aberto para sua revelação. 2 Tessalonicenses 2:7-8 sugere uma sequência muito próxima — “até que do meio seja tirado; e então será revelado o iníquo”.

Mas não podemos dizer se haverá algumas horas, dias, semanas ou algum outro pequeno intervalo, porque Deus simplesmente não revelou isso.

Também não precisamos imaginar necessariamente que o mundo ficará durante muito tempo procurando desesperadamente um líder até encontrá-lo. É perfeitamente possível que esse homem já esteja em posição de destaque e que, depois do arrebatamento, as circunstâncias permitam sua rápida ascensão e manifestação. Contudo, isso permanece no campo da possibilidade; não devemos transformá-lo em doutrina.

O que podemos afirmar com segurança é a ordem bíblica:

A Igreja será arrebatada (1 Tessalonicenses 4:16-17); a presente restrição será removida (2 Tessalonicenses 2:6-7); o iníquo será revelado (2 Tessalonicenses 2:8); haverá uma aliança relacionada com a última semana de Daniel (Daniel 9:27); seu verdadeiro caráter será plenamente manifestado, inclusive com sua pretensão de ocupar o lugar de Deus (2 Tessalonicenses 2:4; Mateus 24:15); e, finalmente, o Senhor Jesus Cristo aparecerá em glória e destruirá todo esse sistema de rebelião.

O fim do iníquo já está determinado:

“E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca e aniquilará pelo esplendor da sua vinda” (2 Tessalonicenses 2:8).

Assim, a profecia bíblica não termina com o triunfo do anticristo, mas com o triunfo absoluto do Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: 

https://appscentralhub.com

Qual a garantia que temos de que a Bíblia não foi adulterada?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, qual a garantia que temos de que a Bíblia não foi adulterada?

Primeiros textos do Antigo Testamento: por volta de 1400–1200 a.C. (dependendo da datação adotada).

Últimos escritos do Novo Testamento: provavelmente no final do século I d.C., aproximadamente 90–100 d.C.

Minha Resposta:

Essa é uma pergunta muito importante, porque estamos falando de documentos escritos ao longo de muitos séculos e que, durante grande parte de sua história, precisaram ser copiados manualmente. Portanto, a pergunta é legítima: como podemos saber que aquilo que lemos hoje corresponde substancialmente ao que os escritores bíblicos escreveram?

É importante começar fazendo uma distinção. Uma coisa é perguntar se ocorreram erros de cópia durante a transmissão dos manuscritos. Outra coisa completamente diferente é afirmar que a Bíblia foi adulterada, isto é, que alguém ou alguma instituição modificou deliberadamente sua mensagem de maneira generalizada.

A primeira coisa realmente aconteceu: existem variantes entre os manuscritos antigos. A segunda afirmação, porém, não encontra sustentação na evidência documental disponível.

  1. A própria Bíblia apresenta Deus como aquele que preserva Sua Palavra

A confiança cristã na preservação das Escrituras começa no próprio caráter de Deus.

O Senhor Jesus declarou:

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mateus 24:35).

Em outro lugar, encontramos:

“Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Isaías 40:8).

O Salmo 119 também declara:

“Para sempre, ó Senhor, a tua palavra permanece no céu” (Salmos 119:89).

E o Senhor Jesus afirmou acerca das Escrituras:

“...a Escritura não pode ser anulada” (João 10:35).

Isso não significa necessariamente que Deus prometeu preservar cada cópia manuscrita sem qualquer erro de copista. A história dos manuscritos mostra que os copistas cometeram erros. Significa, porém, que Deus não permitiu que Sua revelação desaparecesse ou fosse corrompida de maneira que Sua mensagem se tornasse irrecuperável.

  1. Não possuímos apenas uma linha de transmissão

Aqui está um dos argumentos mais importantes.

Se tivéssemos apenas uma Bíblia manuscrita, copiada de outra, que foi copiada de outra, durante muitos séculos, seria muito mais difícil verificar se alterações haviam ocorrido.

Mas não foi assim que a Bíblia chegou até nós.

Existem numerosos manuscritos provenientes de diferentes épocas e regiões. No caso do Novo Testamento, há manuscritos gregos, traduções muito antigas para outros idiomas e numerosas citações dos textos bíblicos encontradas nos escritos dos primeiros cristãos.

Isso cria uma enorme rede de testemunhas independentes.

É justamente a existência de muitos manuscritos que nos permite descobrir diferenças entre eles.

Suponhamos, por exemplo, que dez copistas copiassem determinado texto e um deles, acidentalmente, omitisse uma frase. Se tivéssemos somente a cópia dele, talvez nunca soubéssemos da omissão.

Mas, possuindo as outras nove cópias, podemos compará-las e identificar facilmente o problema.

Portanto, curiosamente, a existência de variantes nos manuscritos não demonstra que perdemos a Bíblia. Pelo contrário: a enorme quantidade de testemunhas é justamente aquilo que permite identificar as variantes e reconstruir o texto com extraordinária segurança.

  1. Existem, sim, variantes textuais

É importante não esconder esse fato.

Os manuscritos antigos não são absolutamente idênticos. Há diferenças de grafia, inversões na ordem das palavras, omissões acidentais, repetições, harmonizações e outras variações produzidas durante séculos de cópia manual.

Por exemplo, um copista poderia repetir uma palavra, saltar uma linha porque duas linhas terminavam de maneira semelhante ou trocar a ordem de duas palavras.

A existência dessas variantes é conhecida e estudada. Existe inclusive uma área especializada chamada crítica textual, cuja finalidade é comparar os manuscritos e determinar, com a maior segurança possível, a forma mais antiga do texto.

Portanto, quando alguém diz: “A Bíblia sofreu alterações durante as cópias”, precisamos perguntar:

“Que tipo de alterações?”

Se estiver falando de variantes entre manuscritos, sim, elas existem.

Mas se estiver afirmando que alguém reescreveu a Bíblia inteira e modificou sua mensagem, então precisa apresentar evidências para isso.

São afirmações completamente diferentes.

  1. Uma adulteração generalizada seria extremamente difícil

Imagine o que seria necessário para adulterar o Novo Testamento depois que seus livros começaram a circular.

Seria preciso localizar manuscritos espalhados por diversas regiões, recolhê-los, alterar todos eles da mesma maneira, modificar traduções já existentes e ainda corrigir as citações que cristãos haviam feito desses textos em seus próprios escritos.

Isso se tornaria cada vez mais impossível conforme o cristianismo se espalhava geograficamente.

Os textos não estavam guardados em um único edifício sob controle de uma única organização. Eram copiados e distribuídos.

As igrejas possuíam seus exemplares. Cristãos copiavam textos. Traduções eram produzidas. Escritores citavam passagens.

Portanto, não existia um único “arquivo central” que alguém pudesse modificar e, dessa forma, alterar todas as Bíblias existentes.

  1. O próprio Novo Testamento mostra que os escritos circulavam

Paulo escreveu aos Colossenses:

“E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodiceia lede-a vós também” (Colossenses 4:16).

Isso mostra que os documentos eram compartilhados entre as igrejas.

Pedro também demonstra conhecimento de uma coleção de cartas de Paulo:

“...como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas...” (2 Pedro 3:15-16).

Assim, desde muito cedo, os escritos apostólicos começaram a circular para além de seus destinatários originais.

Quanto mais cópias eram produzidas e distribuídas, mais difícil se tornava qualquer tentativa posterior de alteração universal.

  1. O Antigo Testamento também apresenta evidências importantes de preservação

Durante muito tempo alguém poderia perguntar: “Como sabemos que o texto hebraico não foi profundamente alterado durante os séculos?”

Os manuscritos encontrados na região do Mar Morto deram uma contribuição muito importante para essa questão.

Eles forneceram manuscritos bíblicos muito anteriores aos manuscritos hebraicos medievais que durante muito tempo constituíram nossa principal base documental.

Isso permitiu comparar textos separados por muitos séculos.

Há diferenças textuais em determinados lugares, naturalmente, mas a comparação também demonstra uma notável continuidade da tradição textual do Antigo Testamento.

Isso é muito significativo.

Temos, portanto, diferentes testemunhas do texto hebraico e também antigas traduções, como a tradução grega do Antigo Testamento, que permitem comparações.

  1. A Bíblia nunca escondeu a importância da transmissão escrita

Deus ordenou repetidamente que Sua revelação fosse registrada.

Disse Deus a Moisés:

“Escreve isto para memória num livro...” (Êxodo 17:14).

Novamente:

“Escreve estas palavras...” (Êxodo 34:27).

A respeito da Lei, encontramos:

“E escreveu Moisés esta lei...” (Deuteronômio 31:9).

Os profetas também receberam ordens semelhantes. Deus disse a Jeremias:

“Toma o rolo de um livro e escreve nele todas as palavras que te tenho falado...” (Jeremias 36:2).

No Novo Testamento encontramos o mesmo princípio:

“Estas, porém, foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus...” (João 20:31).

E no final do Novo Testamento:

“Escreve num livro o que vês e envia-o às sete igrejas...” (Apocalipse 1:11).

A revelação divina não deveria depender exclusivamente da memória humana. Ela foi registrada e transmitida.

  1. Jesus confirmou as Escrituras que existiam em Seus dias

Este é um argumento especialmente importante para o cristão.

Quando o Senhor Jesus esteve neste mundo, os escritos de Moisés já tinham atravessado muitos séculos de transmissão.

Mesmo assim, Cristo tratava as Escrituras disponíveis em Seus dias como Palavra de Deus.

Ele dizia:

“Está escrito...” (Mateus 4:4).

E novamente:

“Não tendes lido o que Deus vos declarou...?” (Mateus 22:31).

Observe a força dessa declaração. Jesus estava falando de algo que havia sido escrito séculos anteriormente, mas disse:

“o que Deus vos declarou”.

Para Cristo, aquilo que Deus havia dito nas Escrituras continuava falando às gerações posteriores.

Depois de Sua ressurreição, Ele afirmou:

“São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos” (Lucas 24:44).

Portanto, o próprio Senhor reconheceu a autoridade das Escrituras que haviam sido transmitidas durante séculos.

  1. Os apóstolos igualmente confiavam nas Escrituras

Paulo escreveu:

“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16).

Pedro escreveu:

“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21).

A inspiração pertence aos escritos dados por Deus. A transmissão posterior ocorreu por meio de seres humanos, razão pela qual surgiram variantes de cópia. Entretanto, a abundância de testemunhos manuscritos permite identificar e estudar essas diferenças.

Não precisamos defender uma ideia que a própria evidência não exige, como se todos os copistas da história tivessem sido miraculosamente impedidos de cometer qualquer erro.

Eles cometeram erros.

Mas erros de copistas não equivalem à adulteração da Bíblia.

  1. Nenhuma doutrina fundamental do cristianismo depende de uma passagem cuja existência seja desconhecida por causa das variantes

Esse ponto também é muito importante.

As grandes doutrinas bíblicas não dependem de um único versículo isolado.

A divindade do Senhor Jesus Cristo, Sua humanidade, Sua morte, Sua ressurreição, a realidade do pecado, a necessidade de salvação, a justificação pela fé, o juízo futuro, a ressurreição dos mortos e a segunda vinda de Cristo aparecem repetidamente nas Escrituras.

Por exemplo, mesmo que alguém tentasse retirar determinada passagem que ensina a ressurreição de Cristo, encontraria essa verdade novamente em Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1 Coríntios, 1 Pedro e outros lugares.

Paulo escreveu:

“Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Coríntios 15:3-4).

A mensagem central está profundamente entrelaçada em todo o Novo Testamento.

  1. Portanto, qual é a nossa garantia?

Podemos falar de dois tipos de segurança que se complementam.

Do ponto de vista histórico e documental, possuímos uma enorme quantidade de testemunhas textuais que podem ser comparadas entre si. As diferenças não são escondidas; são catalogadas, estudadas e avaliadas. Justamente por possuirmos tantas testemunhas, podemos detectar onde os copistas divergiram.

Do ponto de vista da fé, cremos no Deus que inspirou Sua Palavra e que não permitiria que Sua revelação desaparecesse da Terra.

Pedro escreveu:

“Mas a palavra do Senhor permanece para sempre” (1 Pedro 1:25).

Não precisamos afirmar que nunca houve um erro de cópia. Houve. Também não precisamos dizer que todos os manuscritos são idênticos. Não são.

A afirmação correta é muito mais sólida: apesar de séculos de transmissão manuscrita, possuímos testemunhos suficientes para comparar os textos, identificar suas variantes e conhecer com enorme segurança aquilo que os escritores bíblicos escreveram.

E há ainda uma pergunta que deve ser feita a quem afirma que “a Bíblia foi adulterada”:

Quando ela foi adulterada?

Quem realizou essa adulteração?

Quais manuscritos foram alterados?

Onde estão os manuscritos anteriores que apresentam a suposta versão original?

Em que século ocorreu essa mudança?

Como conseguiram modificar simultaneamente manuscritos espalhados geograficamente, traduções antigas e citações já existentes?

A afirmação de adulteração precisa ser demonstrada historicamente, e não apenas repetida.

A Bíblia não chegou até nós porque um manuscrito sobreviveu isoladamente durante milhares de anos. Ela chegou através de uma ampla tradição documental que permite comparar testemunha com testemunha.

Por isso podemos reconhecer humildemente a existência das variantes produzidas pela transmissão humana e, ao mesmo tempo, afirmar com confiança:

“A palavra do Senhor permanece para sempre” (1 Pedro 1:25).

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos:

Como se dá, na prática, o “falem dois ou três, e os outros julguem”?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Oi, irmão. Sobre o ministério da Palavra, sabemos que é aberto aos irmãos que estão em comunhão. Minha dúvida é: como se dá, na prática, o “falem dois ou três, e os outros julguem”?

Agradeço. Paz seja contigo.

Minha Resposta:

Essa é uma pergunta importante porque Primeira aos Coríntios 14:29 precisa ser entendida dentro do seu contexto e, principalmente, precisamos distinguir aquilo que acontecia na igreja apostólica da aplicação desse princípio às reuniões da igreja local hoje.

Paulo escreveu:

“E falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (Primeira aos Coríntios 14:29).

Primeiramente, o texto não está dizendo simplesmente que qualquer irmão em comunhão poderia levantar-se e falar. O versículo diz especificamente “profetas”. Naquele período inicial da Igreja havia o dom sobrenatural de profecia, pelo qual Deus comunicava revelação antes que o Novo Testamento estivesse completo. Por isso, no versículo seguinte encontramos:

“Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro” (Primeira aos Coríntios 14:30).

Observe a palavra “revelada”. Portanto, estamos diante de uma situação própria daquele período em que havia profetas recebendo revelação divina.

Hoje não temos profetas nesse sentido. A revelação de Deus nas Escrituras está completa, e nossa responsabilidade não é receber novas revelações, mas ensinar, expor e aplicar fielmente aquilo que Deus já revelou em Sua Palavra.

Entretanto, os princípios estabelecidos nesse capítulo continuam extremamente importantes para o ministério da Palavra na igreja local.

O primeiro princípio é a pluralidade do ministério.

Paulo diz: “falem dois ou três”. Isso mostra que o padrão apresentado não é o ministério monopolizado permanentemente por um único homem. Na igreja local existem diferentes dons concedidos pelo Senhor.

“Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (Primeira aos Coríntios 12:7).

Também lemos:

“Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis” (Primeira aos Coríntios 12:18).

Assim, uma igreja não deveria depender espiritualmente de um único homem que ensina todas as semanas como se somente ele tivesse capacidade para ministrar. O Senhor distribui dons entre os membros do Corpo.

Ao mesmo tempo, isso não significa que qualquer irmão, simplesmente porque está em comunhão, necessariamente tenha o dom de ensinar publicamente.

Primeira aos Coríntios 12:29 pergunta:

“São todos mestres?”

A resposta evidente é não.

Portanto, estar em comunhão permite ao irmão participar da vida da igreja, mas não significa automaticamente que possua todos os dons. Um irmão pode ser muito espiritual, fiel e piedoso e, contudo, não possuir capacidade dada por Deus para o ministério público da Palavra.

Na prática, os irmãos vão sendo reconhecidos pelo exercício do dom que receberam do Senhor. Isso não exige uma ordenação humana ou um título eclesiástico, mas também não significa ausência de discernimento por parte da igreja.

O segundo princípio é que “os outros julguem”.

Aqui “julgar” não significa que, depois de cada irmão terminar sua mensagem, alguém precise levantar-se publicamente e dizer se concorda ou não com o que foi falado.

Não é essa a ideia.

Trata-se de discernimento espiritual.

O ministério apresentado à igreja nunca está acima da Palavra de Deus. Tudo aquilo que é ensinado precisa ser avaliado à luz das Escrituras.

Esse mesmo princípio aparece em Primeira aos Tessalonicenses 5:20-21:

“Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem.”

Também encontramos em Primeira João 4:1:

“Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.”

Portanto, enquanto um irmão ministra, os demais irmãos espirituais, especialmente aqueles maduros e experientes na Palavra, estão ouvindo com discernimento.

Eles estão considerando: aquilo que está sendo ensinado está de acordo com as Escrituras? Cristo está sendo exaltado? A passagem foi corretamente aplicada? Há equilíbrio doutrinário? O ministério está edificando a igreja?

Esse julgamento normalmente acontece silenciosamente durante o ministério.

Se aquilo que foi ensinado está correto, a igreja recebe e é edificada.

Se surgir algum pequeno equívoco, talvez seja suficiente conversar posteriormente com o irmão.

Se, porém, alguém ensinar algo doutrinariamente grave ou contrário às Escrituras, os irmãos responsáveis pela igreja não devem simplesmente permitir que o erro continue sendo ensinado.

É justamente aqui que entra a responsabilidade dos presbíteros.

Em Atos dos Apóstolos 20:28, Paulo diz:

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus.”

E Tito 1:9 diz que o presbítero deve ser:

“Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes.”

Portanto, existe liberdade no ministério, mas liberdade não significa ausência de governo espiritual.

O Espírito Santo dirige a reunião, mas os presbíteros têm responsabilidade diante de Deus pela doutrina e pelo cuidado do rebanho.

Outro princípio importante aparece no versículo 30:

“Cale-se o primeiro.”

Isso ensina consideração pelos outros irmãos.

Um irmão não deveria ocupar todo o tempo disponível simplesmente porque começou a falar. Se há outros irmãos capazes de contribuir para a edificação, deve existir sensibilidade para lhes dar oportunidade.

Paulo continua:

“Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros, para que todos aprendam e todos sejam consolados” (Primeira aos Coríntios 14:31).

Observe: “uns depois dos outros”.

Não há competição.

Não há dois falando simultaneamente.

Não há disputa pelo púlpito.

Não há necessidade de um irmão mostrar que sabe mais que outro.

O objetivo é muito simples:

“Para que todos aprendam e todos sejam consolados.”

Esse é o grande teste do ministério: a edificação da igreja.

Primeira aos Coríntios 14:26 estabelece o princípio:

“Faça-se tudo para edificação.”

Além disso, Paulo acrescenta uma declaração extremamente importante:

“E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (Primeira aos Coríntios 14:32).

Isso significa que ninguém pode justificar desordem dizendo: “O Espírito Santo me obrigou a falar”.

O Espírito Santo nunca conduz alguém de maneira contrária à ordem que Ele próprio estabeleceu nas Escrituras.

O irmão mantém domínio próprio. Ele pode começar, terminar, resumir sua mensagem e dar lugar a outro irmão.

Por isso Paulo conclui:

“Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (Primeira aos Coríntios 14:33).

E finalmente:

“Mas faça-se tudo decentemente e com ordem” (Primeira aos Coríntios 14:40).

Então, trazendo isso diretamente para a prática de uma igreja local hoje: não reproduzimos exatamente Primeira aos Coríntios 14:29 como se ainda houvesse profetas recebendo novas revelações. O que permanece é o princípio espiritual. O ministério não deve ser monopolizado por um homem; os irmãos que possuem dom para ensinar devem ter oportunidade de exercê-lo; ninguém deve dominar a reunião; tudo deve ocorrer com ordem e consideração mútua; e aquilo que é ministrado deve ser continuamente examinado à luz das Escrituras.

Portanto, “os outros julguem” não significa criar uma espécie de debate público depois de cada mensagem. Significa que nenhum ministério é recebido cegamente. A Palavra de Deus é a autoridade final, e os irmãos espiritualmente maduros, especialmente aqueles que cuidam do rebanho, têm responsabilidade de discernir aquilo que está sendo ensinado.

Há, portanto, uma diferença importante entre “ministério aberto” e “ministério sem ordem”. O primeiro é bíblico; o segundo não é. A liberdade do Espírito Santo nunca elimina o discernimento, o exercício dos dons, a responsabilidade dos presbíteros nem a ordem da casa de Deus.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: 

https://appscentralhub.com

O evangelho do reino não será pregado no reino milenar?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

O evangelho do reino não será pregado no reino milenar? Pois, após o milênio, virá o fim, com o grande trono branco?

Minha Resposta:

É importante distinguir dois momentos diferentes relacionados ao “evangelho do reino”. O evangelho do reino será anunciado durante o período da Tribulação, antes da manifestação de Cristo em glória, mas também haverá proclamação da verdade de Deus durante o próprio Reino Milenar. Durante o Milênio, Cristo será apresentado como Salvador e Rei àqueles que nascerem naquele período.

Em Mateus 24:14, o Senhor Jesus declarou:

“E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim.”

Nesse contexto, o “fim” não é o fim do Milênio nem o julgamento do Grande Trono Branco. Trata-se do fim daquele período profético que culminará na manifestação de Cristo em glória e no estabelecimento do Seu reino sobre a Terra.

Isso fica claro pela sequência do próprio capítulo. Depois de mencionar a pregação do evangelho do reino, o Senhor fala da “abominação da desolação” (Mateus 24:15), da “grande tribulação” (Mateus 24:21) e, finalmente, da Sua manifestação:

“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e todas as tribos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:30).

Portanto, o “então virá o fim” de Mateus 24:14 não nos leva diretamente ao Grande Trono Branco de Apocalipse 20:11-15. Entre esses acontecimentos existe o Reino Milenar de Cristo.

A sequência profética é esta:

  1. A Igreja será arrebatada para estar com Cristo, conforme Primeira aos Tessalonicenses 4:13-18.

  2. Durante o período que culminará na Grande Tribulação, haverá novamente a proclamação do evangelho do reino, anunciando a aproximação do Reino do Messias (Mateus 24:14).

  3. Cristo voltará em glória e estabelecerá Seu reino (Mateus 24:29-31; Apocalipse 19:11-21).

  4. Satanás será preso durante mil anos (Apocalipse 20:1-3).

  5. Cristo reinará durante esses mil anos (Apocalipse 20:4-6).

  6. Durante o Milênio nascerão muitas pessoas. Embora vivam sob o governo perfeito de Cristo, elas ainda nascerão possuindo a natureza pecaminosa e precisarão individualmente da salvação. Por isso haverá testemunho e proclamação da verdade de Deus durante o Reino Milenar, apresentando Cristo como Salvador e Rei.

Este último ponto é particularmente importante. Às vezes imaginamos que, por Cristo estar reinando, todos os habitantes do Milênio serão automaticamente salvos. Não será assim. No início do Reino entrarão pessoas salvas, mas essas pessoas terão descendentes. As gerações nascidas durante os mil anos precisarão pessoalmente crer no Senhor.

Isaías apresenta a extraordinária extensão do conhecimento de Deus naquele período:

“Porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:9).

Também lemos:

“E irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e nós andemos pelas suas veredas” (Miqueias 4:2).

Zacarias mostra igualmente as nações indo a Jerusalém para adorar o Rei:

“E acontecerá que todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 14:16).

Portanto, haverá um conhecimento mundial do Senhor e um testemunho relacionado ao Rei e ao Seu reino.

Contudo, viver no Reino de Cristo não significa necessariamente possuir a vida eterna. A grande prova disso encontra-se justamente no final dos mil anos.

Apocalipse 20:7-9 diz que, quando Satanás for solto, ele sairá para enganar as nações. Surpreendentemente, encontrará uma enorme quantidade de pessoas dispostas a rebelar-se contra Cristo:

“E, acabando-se os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá a enganar as nações que estão sobre os quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do mar” (Apocalipse 20:7-8).

Isso demonstra uma verdade solene: nem mesmo um ambiente perfeito pode transformar a natureza humana.

Durante mil anos haverá governo perfeito, justiça, paz e conhecimento de Deus. Satanás estará preso. Cristo governará com justiça. Mesmo assim, haverá pessoas que exteriormente se submeterão ao Rei sem terem experimentado uma verdadeira conversão interior.

Quando Satanás for solto, essa condição escondida será revelada pela rebelião.

Somente depois disso chegamos ao Grande Trono Branco.

A ordem apresentada em Apocalipse 20 é muito clara:

“E, acabando-se os mil anos...” (Apocalipse 20:7).

Segue-se a libertação de Satanás, a última rebelião das nações e sua destruição (Apocalipse 20:7-10). Depois disso João declara:

“E vi um grande trono branco e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles” (Apocalipse 20:11).

Portanto, nesse ponto da pergunta você está correto: o Grande Trono Branco acontece depois do Milênio.

Mas precisamos distinguir isso do “fim” mencionado em Mateus 24:14. Ali, o contexto é o encerramento do período que precede a manifestação gloriosa do Senhor e a implantação do Seu reino; em Apocalipse 20:11-15, estamos mil anos adiante, diante do julgamento final dos mortos incrédulos.

Depois do Grande Trono Branco começa aquilo que podemos chamar propriamente de estado eterno:

“E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram” (Apocalipse 21:1).

Assim, resumidamente: sim, haverá proclamação da verdade de Deus e do evangelho do reino durante o Milênio, especialmente porque novas gerações nascerão e precisarão pessoalmente de Cristo. Porém, o “fim” de Mateus 24:14 não é o fim do Milênio. É o fim do período profético que culminará na volta de Cristo em glória. O Grande Trono Branco ocorrerá somente depois dos mil anos, depois da soltura de Satanás e da última rebelião da humanidade.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: 

https://appscentralhub.com

Existe instrução direta para a Igreja, no Novo Testamento, praticar o jejum?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Boa tarde, irmão.

Ainda vou meditar na sua preciosa reflexão.

Mas segue outra pergunta...

Existe instrução direta para a Igreja, no Novo Testamento, praticar o jejum?

Minha Resposta:

Sim, o jejum aparece no Novo Testamento como uma prática legítima para os discípulos do Senhor e encontramos a igreja primitiva praticando-o. Entretanto, é importante fazer uma distinção: não encontramos nas epístolas uma ordem estabelecendo o jejum como uma obrigação periódica da igreja, com dias, duração ou frequência determinados.

Em outras palavras, o Novo Testamento não institui para a Igreja uma “lei do jejum”, como se todos os cristãos fossem obrigados a jejuar em determinados dias. Contudo, o Senhor Jesus reconheceu que Seus discípulos jejuariam, ensinou como deveriam fazê-lo, e posteriormente encontramos cristãos efetivamente jejuando no livro de Atos dos Apóstolos. 

Em Atos dos Apóstolos 13:2, os irmãos em Antioquia jejuaram enquanto buscavam orientação quanto ao serviço; e, em Atos dos Apóstolos 14:23, Paulo e Barnabé oraram e jejuaram quando foram reconhecidos presbíteros nas igrejas.

  1. O Senhor Jesus não aboliu o jejum

Uma passagem importante encontra-se em Mateus 6:16-18. Observe cuidadosamente a maneira como o Senhor começa:

“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas...” (Mateus 6:16).

Ele não disse: “Se jejuardes”, mas “quando jejuardes”. Assim como anteriormente havia dito “quando, pois, deres esmola” (Mateus 6:2) e “quando orares” (Mateus 6:5), agora diz “quando jejuardes”.

O assunto principal naquela passagem não é estabelecer quando ou quantas vezes o discípulo deve jejuar. O Senhor está corrigindo a maneira hipócrita de praticá-lo.

Os fariseus podiam transformar uma prática espiritual em demonstração pública de espiritualidade. Por isso, o Senhor ensina:

“Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6:17-18).

Portanto, o jejum não deveria servir para mostrar aos outros quão espiritual alguém é.

  1. Cristo disse que chegaria o tempo em que Seus discípulos jejuariam

Talvez esta seja uma das passagens mais esclarecedoras sobre a pergunta.

Quando perguntaram ao Senhor por que os discípulos de João e os fariseus jejuavam, mas Seus discípulos não, Ele respondeu:

“Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” (Mateus 9:15).

O mesmo ensino aparece em Marcos 2:18-20 e Lucas 5:33-35.

Observe a última expressão:

“Então jejuarão.”

Durante a presença corporal de Cristo entre eles, aquele não era o momento apropriado para o jejum caracterizado pela tristeza e humilhação. O Noivo estava presente. Mas o Senhor antecipou Sua partida e declarou que depois disso Seus discípulos jejuariam.

Assim, não podemos afirmar que o jejum pertence exclusivamente ao judaísmo ou que desapareceu com a formação da Igreja. O próprio Senhor antecipou sua prática entre Seus discípulos depois de Sua partida.

  1. A igreja em Antioquia praticava o jejum

Quando chegamos ao livro de Atos dos Apóstolos, encontramos exatamente isso acontecendo.

Atos dos Apóstolos 13 apresenta uma igreja local muito importante: Antioquia. Havia ali profetas e doutores, entre eles Barnabé e Saulo.

Então lemos:

“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (Atos dos Apóstolos 13:2).

E depois:

“Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (Atos dos Apóstolos 13:3).

Aqui já não estamos no período da Lei de Moisés. Estamos claramente dentro da história da Igreja.

Isso é muito significativo.

O jejum aparece associado à oração, à comunhão com Deus e a uma importante decisão relacionada à obra missionária. Não parece haver qualquer tentativa de impressionar pessoas. Pelo contrário, aqueles irmãos estavam buscando a vontade de Deus, e foi nesse contexto que o Espírito Santo tornou conhecida Sua vontade.

  1. O jejum não dava autoridade ao Espírito Santo; preparava os servos para ouvi-Lo

Devemos tomar cuidado para não transformar o jejum numa espécie de mecanismo para obrigar Deus a agir.

Atos dos Apóstolos 13 não ensina que aqueles homens jejuaram para adquirir poder sobre Deus. Eles estavam “servindo ao Senhor e jejuando”.

O jejum bíblico está relacionado à humilhação, dependência e concentração nas coisas de Deus. A pessoa voluntariamente deixa de atender, durante determinado período, uma necessidade legítima do corpo para dedicar-se mais intensamente às coisas espirituais.

Por isso, jejum e oração aparecem juntos.

O jejum sem oração pode ser apenas abstinência de alimentos. O valor espiritual não está simplesmente em deixar de comer, mas no propósito diante de Deus.

  1. Não encontramos uma legislação apostólica sobre o jejum

Aqui está uma distinção que considero muito importante.

Embora encontremos o jejum praticado no Novo Testamento, não encontramos nas epístolas instruções como:

“Todo cristão deverá jejuar uma vez por semana.”

Ou:

“A igreja deverá estabelecer determinado dia para jejum.”

Ou ainda:

“O jejum deverá durar tantas horas.”

Nada disso foi determinado.

Compare isso, por exemplo, com a Ceia do Senhor. Sobre ela encontramos instruções específicas para a igreja em 1 Coríntios 11:23-26.

Encontramos também instruções claras sobre oração em 1 Timóteo 2:1-8; sobre o ministério da Palavra em 1 Coríntios 14; sobre disciplina em 1 Coríntios 5; sobre os anciãos em 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9.

Quanto ao jejum, porém, não encontramos uma regulamentação semelhante.

Portanto, devemos evitar os dois extremos.

Um extremo seria dizer: “O cristão não deve jejuar porque o jejum pertence ao Antigo Testamento.”

Isso não corresponde ao Novo Testamento, pois o Senhor disse “então jejuarão”, e encontramos cristãos jejuando em Atos dos Apóstolos 13.

O outro extremo seria transformar o jejum numa ordenança obrigatória da Igreja, estabelecendo dias, horários e regras que o Novo Testamento não estabeleceu.

Também não temos autoridade bíblica para fazer isso.

  1. O perigo do jejum como demonstração de espiritualidade

Existe ainda outro aspecto importante. O Senhor condenou severamente o jejum usado para alimentar orgulho religioso.

Na parábola do fariseu e do publicano, o fariseu dizia:

“Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lucas 18:12).

O problema não estava simplesmente em jejuar duas vezes por semana. O problema estava no coração daquele homem. Seu jejum havia se transformado em motivo de justiça própria.

Ele praticamente apresentava diante de Deus um currículo religioso.

O publicano, ao contrário:

“Nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lucas 18:13).

E foi este que desceu justificado para sua casa.

Portanto, o jejum pode ser uma prática espiritual legítima e, ao mesmo tempo, tornar-se carnal quando produz orgulho.

  1. Jejum não torna alguém mais espiritual que outro

Também precisamos ter cuidado com isso.

Um irmão que jejua não deve considerar-se superior àquele que não jejua.

O jejum não acrescenta mérito à obra de Cristo. Não aumenta nossa aceitação diante de Deus. Não completa a justificação. Nossa posição diante de Deus está inteiramente fundamentada em Cristo e em Sua obra.

“Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1).

Portanto, não jejuamos para sermos aceitos por Deus. O crente já foi aceito no Amado, conforme Efésios 1:6.

O jejum pertence ao campo da vida prática e da disciplina espiritual, não ao fundamento da nossa salvação.

  1. Então, a Igreja deve praticar o jejum?

Eu responderia da seguinte maneira:

O Novo Testamento reconhece e aprova o jejum como uma prática espiritual dos discípulos do Senhor. Cristo ensinou como deveria ser praticado e declarou que Seus discípulos jejuariam depois de Sua partida. Atos dos Apóstolos mostra cristãos jejuando e orando em conexão com o serviço do Senhor e a busca da Sua vontade.

Contudo, não existe uma ordem apostólica transformando o jejum numa obrigação ritual ou numa ordenança da igreja local, nem estabelecendo frequência, duração ou dias determinados.

Portanto, podemos dizer que o jejum é bíblico, mas não legalista; recomendável em circunstâncias apropriadas, mas não uma ordenança; espiritual quando acompanhado de oração e verdadeira dependência de Deus, mas inútil quando praticado para demonstrar piedade diante dos homens.

Talvez a melhor síntese esteja justamente nas palavras do Senhor:

“Quando jejuardes...” (Mateus 6:16).

Ele reconhece a prática.

“Não vos mostreis contristados como os hipócritas...” (Mateus 6:16).

Ele condena sua ostentação.

“Teu Pai, que vê em secreto...” (Mateus 6:18).

Ele mostra para quem o jejum verdadeiramente deve ser realizado.

E finalmente:

“Então jejuarão” (Mateus 9:15).

Ele próprio antecipou que haveria lugar para essa prática entre Seus discípulos depois de Sua partida.

Assim, irmão, há fundamento neotestamentário para o jejum cristão, inclusive exemplo dentro de uma igreja local. O que não encontramos é uma ordem para transformá-lo numa regra obrigatória ou num ritual periódico para toda a Igreja.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: 

https://appscentralhub.com

Se Mateus 24 diz respeito a um contexto profético predominante a Israel, distinto do arrebatamento da igreja, como associar isso, sendo que haverá só uma boda do Cordeiro?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

“Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou.”

— Apocalipse 19:7.

E em Apocalipse 19:9:

“Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro.”

Irmão, tem um dilema: se Mateus 24 diz respeito a um contexto profético predominante a Israel, distinto do arrebatamento da igreja, como associar isso, sendo que haverá só uma boda do Cordeiro?

Minha Resposta:

A dificuldade desaparece quando fazemos uma distinção que o próprio texto bíblico permite: uma coisa são as bodas do Cordeiro; outra é a ceia ou celebração das bodas. E também precisamos distinguir a posição da Igreja, como Noiva, da posição de Israel e dos demais convidados.

Há uma só Noiva e, portanto, uma só boda do Cordeiro. Mateus 24 não exige uma segunda boda.

  1. Quem é a esposa do Cordeiro?

Em Apocalipse 19:7-8 lemos:

“Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos.”

A esposa aqui é a Igreja. Essa figura já havia sido apresentada pelo apóstolo Paulo:

“Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (Segunda Epístola aos Coríntios 11:2).

O mesmo relacionamento aparece em Efésios 5:25-27, onde Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, tendo em vista apresentá-la a Si mesmo gloriosa, sem mácula, ruga ou coisa semelhante.

Portanto, em Apocalipse 19, não estamos diante de Israel tornando-se a esposa do Cordeiro. É a Igreja que aparece nessa posição celestial.

  1. Quando acontecem as bodas?

A sequência de Apocalipse 19 é muito importante.

Primeiro encontramos:

“São chegadas as bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:7).

Depois:

“Já a sua esposa se aprontou” (Apocalipse 19:7).

Somente depois disso, no versículo 11, João diz:

“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro” (Apocalipse 19:11).

Ou seja, a apresentação das bodas ocorre antes da manifestação pública de Cristo vindo do céu para a terra.

Isso combina perfeitamente com a distinção entre o arrebatamento e a manifestação de Cristo.

No arrebatamento, o Senhor vem buscar os Seus:

“Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:17).

Depois disso ocorre o Tribunal de Cristo, relacionado à avaliação do serviço dos crentes (Primeira Epístola aos Coríntios 3:12-15; Segunda Epístola aos Coríntios 5:10). Isso ajuda a compreender por que, em Apocalipse 19:8, a esposa já aparece vestida de linho fino, identificado com “as justiças dos santos”.

Então temos uma sequência coerente:

Arrebatamento da Igreja → Tribunal de Cristo → Bodas do Cordeiro → manifestação de Cristo em glória.

  1. Onde entra Mateus 24?

É justamente aqui que precisamos evitar misturar duas coisas distintas.

Mateus 24 não está descrevendo as bodas do Cordeiro. O assunto predominante é a situação profética na terra, particularmente relacionada a Israel, Jerusalém, Judeia, o período de grande tribulação e finalmente a manifestação pública do Filho do Homem.

Observe a linguagem:

“Então, os que estiverem na Judeia, fujam para os montes” (Mateus 24:16).

“E orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado” (Mateus 24:20).

“Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco haverá jamais” (Mateus 24:21).

Depois:

“E verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:30).

Portanto, o ponto culminante de Mateus 24 é a manifestação do Filho do Homem à terra.

Já Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4 apresenta o Senhor descendo e os santos subindo para encontrá-Lo nos ares.

São movimentos diferentes:

No arrebatamento, os santos sobem para encontrar Cristo.

Na manifestação, Cristo desce em glória, e os Seus vêm com Ele.

Isso é confirmado em Colossenses 3:4:

“Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.”

  1. Então por que aparecem figuras de casamento em Mateus?

Aqui está provavelmente a origem do dilema.

Depois do discurso de Mateus 24, encontramos em Mateus 25 a parábola das dez virgens:

“Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mateus 25:1).

Pode surgir a pergunta: se essas pessoas estão esperando o Noivo, não seriam elas a Igreja esperando pelo arrebatamento?

Não necessariamente.

Ali elas não são apresentadas como a Noiva. São pessoas que saem ao encontro do Noivo.

Essa diferença é muito importante.

João Batista utilizou uma distinção semelhante:

“O que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo” (João 3:29).

Observe as categorias:

Cristo — o Esposo.

Igreja — a esposa.

Outros — amigos ou convidados.

Portanto, nem toda figura de casamento na Bíblia transforma aqueles que aparecem na parábola em membros da Noiva.

  1. Apocalipse 19 faz exatamente essa distinção

Veja algo muito interessante entre os versículos 7 e 9.

No versículo 7 temos:

“a sua esposa se aprontou”.

Mas no versículo 9 temos:

“Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro.”

Se os chamados para a ceia fossem exatamente a mesma figura da esposa, teríamos uma construção bastante estranha: a esposa seria simultaneamente aquela que está se casando e uma convidada para o próprio casamento.

A linguagem sugere uma distinção.

Há o Cordeiro.

Há Sua esposa.

E há aqueles que são chamados à ceia.

Isso nos ajuda muito a compreender as passagens proféticas relacionadas a Israel.

  1. Bodas e ceia das bodas não precisam significar exatamente o mesmo momento

Esse é talvez o ponto principal para responder ao dilema.

Apocalipse 19:7 fala das “bodas do Cordeiro”.

Apocalipse 19:9 fala daqueles “chamados à ceia das bodas do Cordeiro”.

No costume matrimonial que serve de pano de fundo à figura, o casamento e a celebração ou banquete nupcial estavam intimamente relacionados, mas não precisavam designar exatamente o mesmo momento.

Assim, podemos entender as bodas propriamente ditas como relacionadas a Cristo e Sua Igreja no céu, antes da manifestação gloriosa; enquanto a celebração pública das bênçãos resultantes dessa união se relaciona com o estabelecimento do Reino na terra.

Não são duas esposas.

Não são dois casamentos.

Não são duas bodas do Cordeiro.

É um único relacionamento matrimonial de Cristo com Sua Igreja, seguido pela manifestação pública da glória desse relacionamento.

  1. Israel não precisa ser a Noiva para participar da alegria das bodas

Isso também resolve outra dificuldade.

Israel terá uma posição extraordinária no Reino milenar, conforme as promessas do Antigo Testamento. Mas isso não exige transformar Israel na Igreja.

Deus pode conceder bênçãos diferentes a grupos diferentes sem destruir a unidade do Seu propósito em Cristo.

Israel restaurado desfrutará das bênçãos terrenas do Reino prometido. A Igreja estará associada celestialmente com Cristo.

Por isso encontramos, por exemplo, as promessas feitas a Israel em Isaías 2:1-4; Isaías 11:1-10; Jeremias 31:31-37 e Zacarias 12–14, sem necessidade de transformar Israel na Igreja.

Ao mesmo tempo, a Igreja possui sua vocação celestial:

“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Epístola aos Filipenses 3:20).

  1. Mateus 24 e Apocalipse 19, portanto, se encaixam

Podemos colocar os acontecimentos da seguinte maneira:

A Igreja está na terra durante o presente período.

Cristo vem para os Seus e ocorre o arrebatamento, conforme Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:13-18 e Primeira Epístola aos Coríntios 15:51-52.

A Igreja está com Cristo no céu.

Na terra desenrolam-se os acontecimentos proféticos que culminam na grande tribulação e na manifestação do Filho do Homem descrita em Mateus 24.

No céu, a Igreja comparece perante o Tribunal de Cristo e aparece posteriormente preparada como esposa.

Apocalipse 19:7 anuncia as bodas do Cordeiro.

Então o céu se abre em Apocalipse 19:11.

Cristo vem em glória.

Os santos vêm com Ele, como também ensinam Colossenses 3:4 e Apocalipse 19:14.

Cristo estabelece Seu Reino, e as bênçãos relacionadas à grande celebração messiânica alcançam Israel restaurado e os demais participantes do Reino.

Assim, Mateus 24 não descreve outra boda. Descreve acontecimentos que conduzem à manifestação pública daquele que já possui Sua esposa.

  1. Uma ilustração simples

Podemos resumir usando a própria figura matrimonial.

Imagine:

O Noivo recebe Sua Noiva.

As bodas acontecem.

Depois o casal aparece publicamente.

Em seguida acontece a grande celebração com os convidados.

A presença de convidados na celebração não significa que o Noivo tenha se casado novamente.

Da mesma maneira, a presença de Israel e de outros santos nas bênçãos relacionadas à celebração do Reino não significa uma segunda boda do Cordeiro.

Há um só Cordeiro.

Há uma só esposa do Cordeiro.

Há uma só união matrimonial.

Mas existem convidados que participam da alegria resultante dessa união.

É exatamente por isso que Apocalipse 19 consegue dizer, com apenas dois versículos de diferença:

“já a sua esposa se aprontou” (Apocalipse 19:7),

e:

“Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:9).

A esposa está preparada; os outros são chamados.

Portanto, irmão, não há contradição entre interpretar Mateus 24 predominantemente dentro do programa profético relacionado a Israel e afirmar que existe apenas uma boda do Cordeiro. O problema só aparece quando identificamos todos os participantes das figuras matrimoniais como sendo a Noiva.

A Igreja é a esposa; Cristo é o Cordeiro e Esposo; Israel restaurado e outros santos podem participar da alegria e das bênçãos da celebração sem se tornarem, por isso, a esposa.

E essa distinção preserva tanto as promessas específicas feitas a Israel quanto a posição singular que o Novo Testamento atribui à Igreja como Noiva de Cristo.

Josué Matos
Conheça Nossos Aplicativos: 

https://appscentralhub.com

Devemos repreender o inimigo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Boa noite, irmão.

Há um certo costume/doutrina entre os crentes denominacionais de, quando enfrentam alguma situação adversa, dizerem que têm que repreender o inimigo. Eu não encontrei nenhuma passagem na Bíblia que aprove essa prática.

Recordo-me daquela jovem adivinhadora que ficou atormentando os apóstolos, e eles expulsaram o demônio dela. Também me recordo de uma situação de Paulo em que, numa das viagens, Satanás impediu a viagem. Mesmo assim, Paulo não repreendeu o inimigo. O mesmo Paulo, quando foi picado pela víbora, nada falou.

Estou falando isso porque hoje tive uma situação comum na vida de todos. Vou resumir: meu carro acendeu a luz da injeção eletrônica. Levei-o ao mecânico, e o carro saiu pior do que estava. Levei-o a outro mecânico, que constatou que o primeiro havia colocado uma vela de ignição errada, o que poderia ter fundido o motor.

Fiquei irado com o primeiro mecânico e me excedi em palavras. Já pedi perdão a Deus por isso, mas sei que isso em mim precisa mudar, e preciso confiar mais no Senhor, até mesmo em situações que podem nos prejudicar muito. Não adianta eu querer resolver tudo do meu jeito.

Eu creio que foi uma situação muito mais de Deus querendo me mostrar como devo agir do que o inimigo me atacando.

Passei o dia sem paz. Agora à noite, parei, abri a Bíblia e li alguns salmos, e a paz voltou (Salmos de Davi, do 12 ao 18).

Referente ao assunto, o que o irmão poderia dizer?

Minha Resposta:

Creio que o irmão percebeu corretamente dois aspectos importantes nessa experiência. O primeiro diz respeito à prática de “repreender o inimigo”; o segundo, ainda mais pessoal, diz respeito à maneira como Deus pode usar circunstâncias desagradáveis para trabalhar em nosso caráter.

Quanto ao primeiro ponto, realmente não encontramos no Novo Testamento uma orientação dada aos crentes para que, diante de cada dificuldade, problema financeiro, enfermidade, acidente, defeito mecânico ou outra adversidade, comecem a “repreender Satanás”. O ensino apostólico segue outra direção.

Há uma passagem particularmente esclarecedora em Judas 9. Quando Miguel, o arcanjo, contendia com o diabo acerca do corpo de Moisés, ele “não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda”. Se até Miguel, um arcanjo, não assumiu para si essa autoridade de pronunciar julgamento contra Satanás, devemos ter muita cautela com a maneira leviana como algumas pessoas hoje se dirigem diretamente ao diabo.

O ensino dado ao crente é:

“Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tiago 4:7).

Observe a ordem. Primeiro: “sujeitai-vos [...] a Deus”. Depois: “resisti ao diabo”. A resistência ao diabo não consiste em desafiar Satanás verbalmente, mas em permanecer sujeito a Deus e firme na fé.

Pedro ensina a mesma coisa:

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé” (Primeira Epístola de Pedro 5:8-9).

Portanto, temos três atitudes: sobriedade, vigilância e resistência firme na fé. Não encontramos a orientação: “repreendei o diabo”.

Isso não significa negar a realidade da atividade de Satanás. Muito pelo contrário. A Bíblia mostra claramente que Satanás é real e que pode se opor à obra de Deus. O próprio Paulo escreveu:

“Por isso bem quisemos uma e outra vez ir ter convosco, pelo menos eu, Paulo, mas Satanás no-lo impediu” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 2:18).

Paulo reconheceu que Satanás havia colocado um impedimento no seu caminho. Entretanto, é interessante que não encontramos Paulo dizendo: “Eu repreendo Satanás e determino que esse impedimento desapareça”. Ele reconheceu a ação do adversário, mas continuou dependendo da direção e providência de Deus.

Temos ainda Segunda Epístola aos Coríntios 12:7. Paulo fala de seu “espinho na carne” como “um mensageiro de Satanás para me esbofetear”. Qual foi a reação de Paulo? Ele não repreendeu Satanás. Ele foi ao Senhor:

“Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim” (Segunda Epístola aos Coríntios 12:8).

E o Senhor não removeu o espinho. Em vez disso, respondeu:

“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (Segunda Epístola aos Coríntios 12:9).

Isso é muito instrutivo. Algo que Paulo relacionava à atividade de Satanás estava, ao mesmo tempo, debaixo da soberania de Deus e sendo usado por Deus para produzir humildade no apóstolo.

A história de Jó apresenta o mesmo princípio. Satanás estava agindo, mas não podia ultrapassar os limites estabelecidos por Deus (Jó 1:10-12; 2:4-6). Jó não conhecia os acontecimentos que estavam ocorrendo no mundo espiritual. Mesmo assim, sua grande preocupação era sua relação com Deus.

Isso nos leva à situação que o irmão relatou.

Nem toda adversidade deve ser imediatamente atribuída a Satanás.

O carro apresentar defeito pode simplesmente fazer parte das circunstâncias normais da vida. Um mecânico cometer um erro pode decorrer de incompetência, descuido ou falha humana. Não precisamos procurar uma causa demoníaca para cada contratempo que encontramos.

Naturalmente, Satanás pode aproveitar circunstâncias para nos tentar. E talvez aí esteja uma distinção importante.

O problema mecânico pode não ter sido produzido por Satanás, mas a ira descontrolada certamente pode tornar-se uma oportunidade para o inimigo. Paulo escreve:

“Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo” (Epístola aos Efésios 4:26-27).

Veja como isso se aproxima da experiência que o irmão descreveu. O problema inicial estava no carro, mas rapidamente o problema mais importante passou para o coração.

A vela errada poderia prejudicar o motor; porém, a ira poderia prejudicar espiritualmente o irmão.

Talvez, portanto, a pergunta mais proveitosa não seja: “Foi Satanás que fez isso?”, mas: “O que Deus quer trabalhar em mim através disso?”

Tiago escreve:

“Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações, sabendo que a prova da vossa fé obra a paciência” (Tiago 1:2-3).

Deus pode usar circunstâncias extremamente comuns para revelar coisas que ainda precisam ser trabalhadas em nós. Às vezes imaginamos que conhecemos nosso coração até surgir uma circunstância que nos contraria profundamente. É nesse momento que aparece aquilo que estava escondido.

O irmão mesmo identificou isso quando escreveu: “Sei que isso em mim precisa mudar”.

Esse reconhecimento é muito importante.

O problema não está em perceber que houve pecado. O perigo seria justificar a ira dizendo: “Ele merecia ouvir aquilo porque quase estragou meu motor”. Pode até haver razão legítima para reclamar, exigir reparação ou responsabilizar alguém pelo prejuízo. O cristão não precisa aceitar passivamente uma injustiça. Mas uma coisa é buscar justiça; outra é pecar enquanto procuramos justiça.

Tiago diz:

“Todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus” (Tiago 1:19-20).

Podemos estar absolutamente certos quanto aos fatos e completamente errados quanto à maneira de reagir.

O mecânico poderia estar errado, mas isso não tornaria correta uma reação pecaminosa.

Por isso, creio que há bastante sabedoria no que o irmão percebeu: talvez Deus tenha permitido a circunstância para mostrar uma área que ainda precisa ser tratada.

Pedro escreve:

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (Primeira Epístola de Pedro 5:6-7).

E é significativo que imediatamente depois Pedro fale sobre Satanás:

“Sede sóbrios; vigiai...” (Primeira Epístola de Pedro 5:8).

Primeiro entregamos nossa ansiedade a Deus; depois permanecemos sóbrios e vigilantes diante do adversário.

Há ainda outro detalhe muito bonito no seu relato. O irmão disse que passou o dia sem paz, mas à noite abriu a Bíblia, leu os Salmos 12 a 18, e a paz voltou.

Isso também é muito instrutivo.

Davi conheceu circunstâncias incomparavelmente mais difíceis do que um problema material. Foi perseguido, caluniado, traído e ameaçado de morte. Entretanto, nos Salmos ele continuamente leva sua angústia para Deus.

No Salmo 13, justamente dentro da sequência que o irmão leu, Davi começa perguntando:

“Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” (Salmos 13:1).

Mas termina dizendo:

“Mas eu confio na tua benignidade; na tua salvação se alegrará o meu coração. Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem” (Salmos 13:5-6).

As circunstâncias talvez ainda não tivessem mudado. Quem mudou foi Davi diante das circunstâncias.

E no Salmo 18 encontramos:

“O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio” (Salmos 18:2).

Esse é o caminho.

A paz não voltou porque o problema do carro desapareceu naquele momento. A paz voltou quando o coração voltou a ocupar-se com Deus.

Há uma grande lição nisso.

Frequentemente queremos primeiro que Deus mude as circunstâncias para depois termos paz. Deus, porém, muitas vezes trabalha de maneira inversa: Ele muda nosso coração diante das circunstâncias e nos dá paz mesmo antes de o problema ser resolvido.

“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplicas, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Epístola aos Filipenses 4:6-7).

Portanto, irmão, eu resumiria assim: não precisamos viver procurando Satanás atrás de cada problema. Precisamos viver procurando a mão de Deus em todas as circunstâncias.

Quando houver realmente oposição do inimigo, a orientação bíblica é sujeitar-nos a Deus, vigiar e resistir firmes na fé. Quando houver uma provação, devemos perguntar o que Deus deseja produzir em nós. Quando pecarmos em nossa reação, devemos confessar o pecado, aprender com a queda e prosseguir. E quando a ansiedade roubar nossa paz, devemos fazer exatamente aquilo que o irmão fez: voltar à presença de Deus e à Sua Palavra.

Talvez o maior resultado de toda essa experiência não seja descobrir por que a luz da injeção eletrônica acendeu, mas descobrir algo que Deus quis iluminar dentro do coração.

O carro precisava de reparação, mas Deus mostrou que havia também algo em nós que precisava ser tratado.

E esse segundo conserto tem valor eterno.

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará” (Salmos 37:5).

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: 

https://appscentralhub.com