Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Boa noite, irmão Josué. Obrigado por sua ajuda na compreensão da Escritura de Deus.
Irmão, como interpretar os versículos de Hebreus 12:28-29? Hebreus não parece apoiar a ideia da “perda da salvação”, doutrina esta que não advogo? Quem são aqueles exemplos de Hebreus 6 e outras passagens análogas referentes à questão acima?
Minha Resposta:
A sua pergunta é muito importante porque a Epístola aos Hebreus contém algumas das advertências mais solenes de todo o Novo Testamento. Quando essas advertências são retiradas do contexto, realmente podem dar a impressão de que um verdadeiro crente, nascido de novo, pode perder a salvação. Entretanto, é necessário observar cuidadosamente para quem a epístola foi escrita, qual perigo estava diante daqueles hebreus e, principalmente, a distinção que o próprio escritor faz entre profissão de fé e posse verdadeira da salvação.
Comecemos pelo texto mencionado:
“Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade; porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 12:28-29).
O texto não está ensinando que o cristão verdadeiro vive constantemente ameaçado de perder a salvação. Pelo contrário, começa falando de algo recebido: “tendo recebido um reino que não pode ser abalado”.
O contraste estabelecido no contexto é entre aquilo que pode ser abalado e aquilo que não pode ser abalado. O sistema antigo estava ligado às coisas terrenas e temporárias; o cristão, porém, foi introduzido numa esfera celestial e permanente. Por isso, o escritor diz que recebemos “um reino que não pode ser abalado”.
Então vem a aplicação: “sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade”.
A expressão “nosso Deus é um fogo consumidor” não significa que Deus esteja ameaçando consumir eternamente os Seus filhos. Trata-se de uma declaração acerca da santidade imutável de Deus. A expressão vem de Deuteronômio 4:24: “Porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso”.
O Deus que salva continua sendo absolutamente santo.
A graça não diminui a santidade de Deus. A salvação não transforma Deus em alguém indiferente ao pecado. Pelo contrário, aquele que foi salvo deve servir a Deus reconhecendo Sua majestade, santidade e justiça.
É importante distinguir duas coisas: juízo condenatório e disciplina paternal.
Quanto ao juízo condenatório, o verdadeiro crente está seguro, pois o Senhor Jesus declarou:
“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24).
Observe os tempos verbais: “tem”, “não entrará” e “passou”.
Da mesma maneira, Romanos 8 começa dizendo:
“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
E termina perguntando:
“Quem nos separará do amor de Cristo?” (Romanos 8:35).
Depois de enumerar diversas possibilidades, Paulo conclui que nenhuma criatura “nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:39).
Entretanto, o mesmo Deus que não condena Seus filhos pode discipliná-los. Aliás, este é justamente um dos assuntos de Hebreus 12.
“Porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12:6).
Portanto, a disciplina não prova que alguém deixou de ser filho; pelo contrário, pode provar exatamente que é filho:
“Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos” (Hebreus 12:8).
Assim, Hebreus 12 não está ensinando que um filho de Deus pode tornar-se novamente filho da perdição. Está mostrando que o Deus que é Pai continua sendo santo.
A grande dificuldade aparece principalmente em Hebreus 6:4-6:
“Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento.”
Quem são essas pessoas?
A primeira coisa que precisamos perceber é que o texto não diz explicitamente que elas foram justificadas, regeneradas, seladas para o dia da redenção ou que receberam vida eterna. As expressões usadas descrevem privilégios espirituais extraordinários, mas isso não significa necessariamente regeneração.
Foram “iluminados”.
Uma pessoa pode receber grande iluminação acerca da verdade sem recebê-la salvadoramente no coração.
“Provaram o dom celestial”.
Provar alguma coisa não é necessariamente apropriar-se dela definitivamente.
Foram “participantes do Espírito Santo”.
Isso pode descrever pessoas que estiveram debaixo da poderosa influência e operação do Espírito Santo no ambiente da comunidade cristã, presenciando aquilo que Deus estava fazendo e sendo profundamente afetadas por isso, sem necessariamente terem experimentado o novo nascimento.
“Provaram a boa palavra de Deus.”
Também é possível conhecer profundamente as Escrituras e mesmo assim não possuir vida espiritual. O próprio Senhor Jesus disse a certos judeus:
“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; e não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:39-40).
Judas Iscariotes talvez seja uma das ilustrações mais impressionantes desse princípio.
Judas caminhou com Cristo. Ouviu os mesmos sermões que Pedro, João e os demais apóstolos. Viu os milagres. Participou da atividade apostólica. Esteve externamente associado ao Senhor Jesus durante aproximadamente três anos.
Entretanto, Cristo disse:
“Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é um diabo” (João 6:70).
O problema de Judas não foi ter possuído a vida eterna e depois perdê-la. Ele esteve extraordinariamente próximo da fonte da vida, mas nunca pertenceu verdadeiramente a Cristo.
Essa distinção aparece claramente em Primeira João 2:19:
“Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós.”
João não diz: “Eram de nós e deixaram de ser”.
Ele diz: “não eram de nós”.
A saída revelou uma condição que já existia.
É exatamente aqui que precisamos entender a palavra “apostasia”.
Apostasia não significa simplesmente um cristão cair em pecado. Também não significa um crente atravessar um período de frieza espiritual, dúvida ou fraqueza. Apostasia é a rejeição consciente e deliberada da verdade anteriormente conhecida e professada.
Esse é também o sentido de Hebreus 10:26:
“Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados.”
Este versículo também é frequentemente utilizado para ensinar perda da salvação.
Mas observe que não diz: “depois de termos recebido a salvação”.
Diz:
“depois de termos recebido o conhecimento da verdade”.
Existe diferença entre conhecer a verdade e receber Cristo.
Uma pessoa pode conhecer intelectualmente todo o Evangelho e ainda permanecer perdida.
Hebreus estava tratando particularmente com judeus que haviam saído do ambiente do judaísmo e se aproximado do cristianismo. Alguns haviam verdadeiramente crido em Cristo. Outros estavam profundamente convencidos da verdade, participavam das reuniões cristãs, conheciam o Evangelho e desfrutavam dos privilégios daquela comunidade, mas corriam o risco de voltar definitivamente ao sistema judaico.
Para um judeu naquela situação, voltar ao judaísmo significava algo muito mais sério do que simplesmente mudar de congregação. Significava abandonar deliberadamente Cristo depois de reconhecer intelectualmente que Ele era o Messias e voltar para um sistema de sacrifícios que já havia sido tornado obsoleto pelo sacrifício definitivo de Cristo.
Por isso:
“já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:26).
Não porque o sangue de Cristo fosse insuficiente, mas porque, rejeitado o único sacrifício eficaz, nenhum outro existia.
Os sacrifícios levíticos não poderiam substituí-lo.
Cristo “com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).
Esta é, aliás, uma das grandes declarações de segurança encontradas justamente na Epístola aos Hebreus.
“Uma só oblação.”
“Aperfeiçoou.”
“Para sempre.”
Hebreus não diminui a eficácia da obra de Cristo; exalta-a.
Veja também Hebreus 7:25:
“Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.”
E Hebreus 9:12 declara que Cristo entrou no santuário:
“havendo efetuado uma eterna redenção”.
Se a redenção é eterna, não pode depender da manutenção humana da própria salvação.
A segurança do crente está na perfeição da obra de Cristo.
Isso também explica Hebreus 6 através da ilustração que vem imediatamente depois:
“Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada” (Hebreus 6:7-8).
Observe que a mesma chuva cai sobre os dois terrenos.
A diferença aparece no fruto.
Isso lembra a parábola do semeador. A mesma Palavra alcança diferentes corações, mas nem toda recepção inicial demonstra verdadeira conversão.
Então, imediatamente depois da terrível advertência de Hebreus 6, o escritor acrescenta:
“Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos” (Hebreus 6:9).
Essa frase é extremamente importante.
Ele acabou de descrever as experiências anteriores e depois diz que, quanto aos seus leitores, esperava “coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação”.
Isso indica que os privilégios mencionados anteriormente não devem simplesmente ser identificados com a própria salvação.
Há coisas que acompanham a salvação.
A vida espiritual produz evidências.
O mesmo princípio aparece no final de Hebreus 10:
“Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele. Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma” (Hebreus 10:38-39).
Novamente aparecem duas classes.
“Aqueles que se retiram para a perdição.”
E:
“aqueles que creem para a conservação da alma.”
O escritor se identifica com a segunda classe: “Nós, porém, não somos daqueles...”.
Portanto, Hebreus apresenta constantemente uma distinção entre verdadeira fé e mera profissão.
Isso harmoniza perfeitamente com as palavras do Senhor Jesus:
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:27-28).
Observe novamente:
“dou-lhes a vida eterna”.
“nunca hão de perecer”.
“Ninguém as arrebatará da minha mão.”
E o Senhor acrescenta:
“Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (João 10:29).
A segurança da salvação repousa, portanto, não na força da mão da ovelha segurando o Pastor, mas na força da mão do Pastor segurando a ovelha.
Paulo apresenta a mesma verdade:
“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida” (Efésios 1:13-14).
O Espírito Santo é o selo e o penhor da herança futura.
Isso não significa que as advertências de Hebreus sejam fictícias ou desnecessárias. Elas são terrivelmente sérias. O erro está em transformar essas advertências contra apostasia em ensino de que um filho de Deus pode nascer de novo, deixar de ser filho de Deus, perder a vida eterna e voltar à condição anterior de morte espiritual.
Hebreus não ensina isso.
Ao contrário, apresenta Cristo como o Autor da “eterna salvação” (Hebreus 5:9), fala de “eterna redenção” (Hebreus 9:12), de uma herança eterna (Hebreus 9:15) e declara que, mediante uma única oferta, Cristo aperfeiçoou “para sempre” os que são santificados (Hebreus 10:14).
Devemos, portanto, manter juntas duas verdades bíblicas.
A primeira é a segurança eterna daquele que verdadeiramente nasceu de Deus.
A segunda é a realidade terrível da apostasia daquele que esteve muito próximo das coisas de Deus, foi iluminado, convencido, influenciado, participou externamente dos privilégios cristãos e até professou a fé, mas nunca recebeu verdadeiramente Cristo pela fé salvadora.
É possível estar muito perto do Reino e continuar fora dele.
Judas esteve perto.
Muitos discípulos de João 6 estiveram perto. Quando o ensino do Senhor se tornou difícil para eles, “tornaram para trás e já não andavam com ele” (João 6:66).
O Senhor então perguntou aos doze:
“Quereis vós também retirar-vos?” (João 6:67).
Pedro respondeu:
“Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente” (João 6:68-69).
A diferença aparece na fé verdadeira.
Hebreus foi escrito justamente para mostrar a judeus professos que não havia caminho de volta. Cristo é superior aos anjos, superior a Moisés, superior a Josué, superior a Arão; Seu sacerdócio é superior, Sua aliança é superior, Seu sangue é superior e Seu sacrifício é definitivo.
Abandonar Cristo não significava encontrar outra forma de chegar a Deus. Significava abandonar a única.
Por isso as advertências são tão severas.
E justamente por isso a segurança daquele que verdadeiramente está em Cristo é tão preciosa.
Quando Hebreus 12:29 diz que “nosso Deus é um fogo consumidor”, portanto, não está destruindo a doutrina da segurança eterna. Está lembrando aos redimidos que o Deus que os salvou pela graça continua sendo infinitamente santo.
Não servimos a Deus para permanecermos salvos.
Servimos a Deus porque fomos salvos.
Não vivemos em santidade para conquistar vida eterna.
Vivemos em santidade porque recebemos vida eterna.
E a verdadeira fé persevera, não porque o crente possua força independente em si mesmo, mas porque aquele que começou a boa obra é poderoso para completá-la, conforme lemos:
“Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6).
Assim, as advertências de Hebreus devem produzir reverência, vigilância, perseverança e exame pessoal, mas não devem retirar do verdadeiro filho de Deus a segurança que repousa na obra consumada de Cristo.
Josué Matos
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