A Ordem Divina da Chefia, a Cobertura da Cabeça e o Cabelo
A primeira epístola aos Coríntios foi escrita aproximadamente no ano 57 d.C., quando o apóstolo Paulo estava em Éfeso, durante aquele período de três anos relacionado com a sua terceira viagem missionária.
Paulo tinha ouvido, por intermédio da família de Cloé, acerca de certas desordens existentes na igreja em Corinto. Além disso, tinha recebido uma carta, provavelmente enviada por pessoas daquela igreja, na qual eram levantadas determinadas questões. Por isso, o apóstolo escreveu esta epístola, tratando de vários assuntos relacionados com a vida e o funcionamento de uma igreja de Deus.
Podemos dividir a epístola, de maneira simples, da seguinte forma:
capítulos 1 a 4 — unidade;
capítulos 5 a 7 — santidade;
capítulos 8 a 10 — liberdade;
capítulos 11 a 14 — os ajuntamentos da igreja;
capítulo 15 — ressurreição;
capítulo 16 — coletas.
Nos capítulos 11 a 14 encontramos várias referências às ocasiões em que os crentes se ajuntam. Isso indica que Paulo está tratando especificamente do procedimento relacionado com as reuniões da igreja e daquilo que deve acontecer nesses ajuntamentos.
O capítulo 11 pode ser dividido em duas partes principais. Os versículos 1 a 16 tratam da chefia e dos sinais visíveis relacionados com ela; os versículos 17 a 34 tratam da Ceia do Senhor.
É significativo que Paulo trate da chefia antes de tratar da Ceia do Senhor. Havia coisas em Corinto que precisavam ser corrigidas antes que o apóstolo abordasse a Ceia.
Os primeiros dezesseis versículos também podem ser divididos em três partes:
Versículos 1 a 6 — o princípio.
O princípio fundamental aparece especialmente no versículo 3: Deus estabeleceu uma ordem de chefia que precisa ser reconhecida.
Versículos 7 a 12 — o protótipo.
Paulo leva os nossos pensamentos de volta a Gênesis, capítulos 1 e 2. Adão e Eva apresentam o padrão estabelecido por Deus desde a criação.
Versículos 13 a 16 — aquilo que é próprio e a própria natureza.
Aquilo que é apropriado, juntamente com o testemunho da natureza, confirma a distinção estabelecida por Deus entre o homem e a mulher.
1 CORÍNTIOS 11:1
“Sede meus imitadores, como também eu de Cristo”
Na realidade, este versículo pertence ao final do assunto tratado no capítulo 10. Ali Paulo está tratando da liberdade cristã e explica como procurou fazer tudo o que era possível para alcançar almas.
Em determinadas circunstâncias, ele estava disposto a abrir mão dos seus próprios direitos, desde que isso não significasse violar a Palavra de Deus, a fim de ganhar pessoas para Cristo.
Por isso ele podia dizer:
“Sede meus imitadores, como também eu de Cristo.”
Em outras palavras: façam aquilo que eu faço; imitem o meu exemplo.
Também nós devemos ter essa disposição. Devemos fazer tudo aquilo que pudermos, sem infringir a Palavra de Deus, para alcançar almas para Cristo.
1 CORÍNTIOS 11:2
Paulo começa elogiando os coríntios
Paulo inicia esta seção dizendo que louva os irmãos porque eles se lembravam dele e conservavam os ensinamentos que lhes haviam sido transmitidos.
É interessante comparar isso com o versículo 17. No versículo 2, Paulo pode dizer:
“Eu vos louvo.”
Mais adiante, porém, no versículo 17, ele precisa dizer:
“Não vos louvo.”
Há aqui um princípio importante. Antes de censurar ou corrigir, Paulo reconhece aquilo que havia de recomendável nos coríntios.
Encontramos algo semelhante nas cartas dirigidas pelo Senhor Jesus às sete igrejas da Ásia, em Apocalipse, capítulos 2 e 3. Antes de censurar aquilo que estava errado, o Senhor reconhecia aquilo que podia ser elogiado.
Naturalmente, Esmirna e Filadélfia não receberam as mesmas censuras das demais igrejas, pois estavam andando de maneira diferente. Mas, nas outras, antes da repreensão, encontramos palavras de reconhecimento.
Isso nos ensina uma lição prática. Quando precisamos corrigir um irmão ou uma irmã, é bom reconhecer primeiramente aquilo que há de recomendável naquela pessoa. Não devemos procurar apenas aquilo que está errado.
Paulo tinha ensinado os coríntios durante aproximadamente dezoito meses de trabalho entre eles, na sua segunda viagem missionária. Em boa medida, eles se lembravam dos seus ensinamentos e os praticavam. Por isso Paulo podia elogiá-los.
Entretanto, havia áreas nas quais tinham se afastado seriamente do padrão apostólico, e algumas delas seriam tratadas a partir deste ponto.
1 CORÍNTIOS 11:3
O princípio fundamental da chefia
“Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão, e o varão a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo.”
Este é o versículo-chave desta seção e talvez possamos considerá-lo o versículo-chave de toda esta primeira parte do capítulo.
Cada expressão é importante.
Paulo apresenta três relações:
Deus → Cristo → homem → mulher.
Ele diz que:
Deus é a cabeça de Cristo;
Cristo é a cabeça do homem;
o homem é a cabeça da mulher.
Trata-se de uma ordem estabelecida por Deus e que deve ser respeitada.
É interessante que Paulo comece mencionando Cristo. Alguém poderia perguntar: “Se Deus é a cabeça de Cristo, por que Paulo não começou com Deus?”
Quando estudamos cuidadosamente os escritos de Paulo, percebemos que muitas vezes aquilo que ele coloca primeiro recebe especial destaque. Aqui ele deseja salientar Cristo.
Cristo é a Pessoa central. Ele é Aquele que nos atrai. Ele deve ocupar o lugar central nos ajuntamentos da igreja.
Por isso Paulo começa:
“Cristo é a cabeça de todo o varão.”
Precisamos também distinguir, ainda que sejam assuntos relacionados, Cristo como Senhor e Cristo como Cabeça.
Quando pensamos em Cristo como Senhor, pensamos especialmente em propriedade e domínio. Ele é Senhor; pertencemos a Ele e estamos sob o Seu senhorio.
Quando pensamos em Cristo como Cabeça, o pensamento é particularmente de ordem, governo e autoridade. É Cristo dirigindo e exercendo a autoridade que Lhe pertence.
Portanto, nesta passagem, estamos tratando da ordem divina de chefia.
A partir desse princípio estabelecido no versículo 3, Paulo passa a mostrar como essa verdade deve ser expressa visivelmente.
Não basta dizer que reconhecemos a chefia estabelecida por Deus. Há sinais pelos quais essa ordem deve ser demonstrada.
1 CORÍNTIOS 11:4
O homem deve estar com a cabeça descoberta
“Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.”
A expressão “sua própria cabeça”, neste contexto, refere-se a Cristo, pois o versículo anterior declarou:
“Cristo é a cabeça de todo o varão.”
Imaginemos, portanto, um irmão presente numa reunião da igreja. Ele se levanta para orar ou profetizar e está com a cabeça coberta.
Segundo o ensino apostólico, ao fazer isso ele desonra a sua Cabeça, isto é, Cristo.
Aqui encontramos a razão pela qual os homens assistem às reuniões da igreja com a cabeça descoberta.
Não se trata simplesmente de um costume criado pelos irmãos.
Não se trata apenas de uma tradição.
O homem permanece com a cabeça descoberta porque deseja honrar o Senhor Jesus Cristo.
Cristo merece ser honrado.
Por isso, o varão não coloca sobre a cabeça véu, lenço, mantilha ou outra cobertura correspondente.
Sua cabeça permanece descoberta como reconhecimento visível da ordem estabelecida por Deus.
1 CORÍNTIOS 11:5
A mulher e a cabeça coberta
“Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça...”
Agora Paulo apresenta a situação correspondente da mulher.
Precisamos observar primeiramente uma questão que às vezes causa dificuldade. Paulo menciona aqui uma mulher orando ou profetizando. Isso significa que ele está autorizando uma irmã a levantar-se e falar audivelmente numa reunião da igreja?
Não.
Neste capítulo, Paulo não aprova nem censura diretamente essa prática. Ele está tratando de outro assunto: a chefia e a cobertura da cabeça.
O apóstolo mantém os assuntos organizados e trata de um problema de cada vez.
Para conhecermos a orientação apostólica quanto à participação audível das mulheres nas reuniões da igreja, precisamos chegar a 1 Coríntios 14:34-36, onde o assunto é tratado diretamente.
Ali é ensinado que não é permitido à mulher falar audivelmente nas reuniões da igreja, devendo permanecer em silêncio.
Portanto, 1 Coríntios 11:5 não deve ser usado para contradizer 1 Coríntios 14. Paulo simplesmente considera aqui a situação sob o aspecto da cobertura da cabeça, porque esse é o assunto que está tratando.
Quando uma mulher comparece ao ajuntamento com a cabeça descoberta, ela desonra a sua cabeça — isto é, o homem, segundo a ordem apresentada no versículo 3.
E, por consequência, a desordem acaba atingindo toda a sequência da chefia estabelecida por Deus.
Assim, a prática bíblica é que as irmãs usem uma cobertura sobre a cabeça ao participarem das reuniões da igreja.
Essa cobertura pode ser chamada de:
véu;
lenço;
mantilha;
cobertura da cabeça.
O elemento fundamental é que a cabeça da mulher esteja coberta.
1 CORÍNTIOS 11:5-6
Se não se cobre, que também se tosquie
Paulo fortalece seu argumento fazendo uma comparação bastante incisiva.
Se uma mulher se recusa a cobrir a cabeça, então, seguindo o raciocínio apostólico, que também seja tosquiada ou rapada.
Mas isso era considerado extremamente vergonhoso.
Mesmo no primeiro século, uma mulher aparecer publicamente com a cabeça rapada ou o cabelo tosquiado era algo humilhante. Poderia estar associado à condição de escrava ou, em determinadas circunstâncias, a uma mulher marcada pela vergonha do adultério.
A grande maioria das mulheres teria horror de aparecer dessa maneira.
Por isso o argumento chega a uma conclusão muito simples:
“Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.”
Em outras palavras: se ela reconhece a vergonha de eliminar aquilo que naturalmente distingue e honra a mulher, deve igualmente reconhecer a necessidade da cobertura prescrita para a ocasião em consideração.
Assim, Paulo encerra essa parte do argumento:
“Que ponha o véu.”
1 CORÍNTIOS 11:7
O homem é a glória de Deus e a mulher é a glória do homem
“O varão, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do varão.”
A partir daqui, Paulo leva nossos pensamentos de volta à criação.
Temos diante de nós Gênesis 1:26-27.
Deus criou o homem à Sua imagem.
Por isso Paulo ensina que o varão não deve cobrir a cabeça, pois é imagem e glória de Deus.
Essa glória deve ficar exposta.
Mais uma vez encontramos a razão doutrinária para o homem permanecer com a cabeça descoberta nas reuniões.
Depois Paulo acrescenta:
“Mas a mulher é a glória do varão.”
Nesta passagem encontramos uma sequência muito interessante:
o homem é a glória de Deus;
a mulher é a glória do homem;
posteriormente veremos que o cabelo comprido é a glória da mulher.
Podemos pensar numa roseira. A roseira é bela, mas qual é a sua glória? A rosa.
Da mesma maneira, o homem foi colocado por Deus como ponto culminante da criação terrestre. Nenhuma outra criatura ocupa a posição que Deus deu ao ser humano.
Por isso Paulo afirma que o homem é imagem e glória de Deus e, no contexto das reuniões da igreja, não deve cobrir a cabeça.
1 CORÍNTIOS 11:8
“A mulher provém do varão”
“Porque o varão não provém da mulher, mas a mulher do varão.”
Agora Paulo passa de Gênesis 1 para Gênesis 2.
Sabemos o que aconteceu na formação de Eva.
Deus fez Adão cair em profundo sono, tomou uma das suas costelas e dela formou a mulher. Depois apresentou a mulher ao homem.
Assim, historicamente, a primeira mulher procedeu do primeiro homem.
É exatamente isso que Paulo utiliza em seu argumento:
“A mulher [provém] do varão.”
A ordem da criação demonstra a precedência dada ao homem dentro da estrutura de chefia estabelecida por Deus.
Isso não significa que a mulher seja espiritualmente inferior ao homem.
Inferioridade não é o assunto.
O assunto é ordem e chefia.
Uma mulher espiritual reconhece a ordem estabelecida por Deus sem entender isso como uma declaração de menor valor pessoal ou espiritual.
É importante observar também uma diferença entre Efésios 5 e 1 Coríntios 11.
Em Efésios 5, encontramos especificamente a relação entre marido e esposa.
Aqui, porém, Paulo usa o princípio de maneira mais abrangente: ele está falando de homem e mulher, ou varão e mulher.
Portanto, o princípio de 1 Coríntios 11 não está limitado simplesmente ao relacionamento conjugal.
1 CORÍNTIOS 11:9
A mulher foi criada por causa do homem
“Porque também o varão não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do varão.”
Continuamos em Gênesis 2, especialmente Gênesis 2:18.
Ali encontramos o propósito declarado por Deus ao formar a mulher.
Ela seria uma ajudadora idônea para Adão.
Portanto, na ordem original da criação, o homem foi a razão para a formação da mulher.
Também nesse sentido Paulo demonstra a precedência do homem dentro da ordem estabelecida por Deus.
Não estamos falando de superioridade moral, intelectual ou espiritual.
Estamos falando da ordem da criação, que Paulo utiliza como fundamento para a doutrina da chefia.
Isso também demonstra que o ensino de 1 Coríntios 11 não pode ser descartado simplesmente como um costume social particular da cidade de Corinto.
Paulo fundamenta seu argumento na própria criação de Adão e Eva.
1 CORÍNTIOS 11:10
O sinal de autoridade sobre a cabeça
“Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos.”
Este versículo apresenta uma expressão que pode parecer mais difícil.
Talvez esperássemos que Paulo dissesse:
“sinal de sujeição”.
Mas encontramos a ideia de autoridade.
O sinal está sobre a cabeça da mulher.
Portanto, devemos observar a posição da mulher em relação a esse sinal: ela está debaixo dele.
Assim, ao colocar sobre a cabeça a cobertura que representa autoridade, ela demonstra visivelmente que reconhece estar debaixo da ordem de autoridade estabelecida por Deus.
É uma explicação simples:
o sinal de autoridade está sobre ela; ela voluntariamente ocupa o lugar que Deus lhe designou debaixo dessa autoridade.
Assim, a cobertura não é apresentada como objeto de inferiorização.
É um sinal visível de reconhecimento da ordem divina.
A irmã cristã, portanto, tem a responsabilidade de cobrir a cabeça nas ocasiões indicadas pela passagem.
Paulo acrescenta uma expressão solene:
“por causa dos anjos”.
Isso nos lembra que as reuniões da igreja têm uma dimensão que ultrapassa aquilo que os nossos olhos conseguem perceber. As inteligências celestiais observam a ordem de Deus sendo manifestada entre o Seu povo.
Por isso, aquilo que fazemos numa reunião da igreja não deve ser avaliado simplesmente pela moda, pelos costumes da sociedade ou pelas preferências pessoais.
Há princípios divinos sendo representados.
1 CORÍNTIOS 11:11-12
Homem e mulher são mutuamente dependentes no Senhor
Depois de estabelecer a precedência do homem na criação, Paulo evita qualquer conclusão errada de independência ou superioridade absoluta.
O homem e a mulher não são independentes um do outro no Senhor.
É verdade que a primeira mulher procedeu do homem.
Eva veio de Adão.
Mas, desde então, todo homem nasce de uma mulher.
Assim, existe uma bela dependência mútua.
E, acima de tudo:
“Tudo vem de Deus.”
A chefia bíblica, portanto, não dá ao homem licença para desprezar a mulher, tratá-la como inferior ou imaginar que não precisa dela.
Deus estabeleceu diferenças de posição e responsabilidade, mas também estabeleceu uma profunda dependência entre homem e mulher.
Tudo encontra a sua origem e ordem final no próprio Deus.
1 CORÍNTIOS 11:13
“É decente que a mulher ore a Deus descoberta?”
Paulo agora apela para aquilo que é próprio, apropriado e conveniente.
Ele convida os próprios leitores a julgarem a situação.
Quando uma irmã participa de uma reunião da igreja com a cabeça descoberta, algo está faltando em relação ao sinal exterior da posição que Deus deu à mulher.
A cobertura corresponde à ordem de chefia anteriormente estabelecida.
Por isso, a pergunta de Paulo praticamente conduz o leitor à resposta:
não é apropriado que a mulher esteja descoberta nessa situação.
1 CORÍNTIOS 11:14
O cabelo comprido no homem
“Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o varão ter cabelo crescido?”
Agora Paulo chama a atenção para a própria natureza.
Há uma distinção natural que deve ser preservada entre homem e mulher.
O cabelo comprido não corresponde ao sinal que a natureza atribui ao homem.
Por isso Paulo o chama de desonra para o varão.
Assim, além da cabeça descoberta nas reuniões, existe outra característica correspondente ao homem:
o cabelo curto.
Os sinais, portanto, harmonizam-se:
Esses sinais visíveis expressam a distinção que Deus estabeleceu.
1 CORÍNTIOS 11:15
O cabelo comprido é a glória da mulher
“Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso...”
A palavra empregada transmite a ideia de glória.
O cabelo comprido é a glória da mulher.
Observe que Paulo não diz apenas “a irmã em Cristo”. Ele fala da mulher.
Trata-se de uma distinção relacionada à própria natureza.
Por isso devemos animar as irmãs a deixar o cabelo crescer ao seu comprimento natural.
Essa expressão é importante:
“Deixar o cabelo crescer ao comprimento natural”
O princípio apresentado não consiste em estabelecer uma medida em centímetros.
Paulo não diz:
O princípio é que a mulher deixe crescer o seu cabelo, em contraste com o homem, para quem o cabelo comprido é apresentado como desonra.
Naturalmente, o comprimento alcançado não será idêntico em todas as mulheres. Há diferenças individuais na capacidade de crescimento, densidade, textura e comprimento natural do cabelo.
Por isso, não devemos estabelecer arbitrariamente uma medida que a Escritura não estabelece.
O ponto é preservar o sinal feminino apresentado no texto:
a mulher deixa o cabelo crescer, em vez de adotar deliberadamente o cabelo curto característico do homem.
“PORQUE O CABELO LHE FOI DADO EM LUGAR DE VÉU”
1 Coríntios 11:15 não elimina a cobertura dos versículos 5 e 6
Esta expressão precisa ser entendida cuidadosamente.
Alguém poderia argumentar:
“Se o cabelo foi dado à mulher em lugar de véu, então, tendo cabelo comprido, ela não precisa colocar outra cobertura sobre a cabeça durante a reunião.”
Mas essa conclusão não corresponde ao argumento do capítulo.
Se o cabelo comprido fosse a mesma cobertura exigida anteriormente, os versículos 5 e 6 perderiam o sentido.
Paulo já havia falado da mulher que não se cobre e havia dito:
“Se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também.”
Observe a distinção.
Ela possui cabelo, mas ainda assim Paulo pode dizer que ela está descoberta.
Além disso, ele argumenta que, se ela não quiser a cobertura, deveria também cortar ou rapar o cabelo.
Portanto, no raciocínio apostólico existem duas coisas distintas.
1. A cobertura colocada sobre a cabeça
É a cobertura usada no contexto das reuniões:
véu, lenço ou mantilha.
Ela constitui um sinal exterior relacionado com a ordem de chefia.
2. A cobertura natural
É o cabelo comprido da mulher.
Essa cobertura foi dada pela própria natureza e constitui a glória da mulher.
Portanto, a mulher entra na reunião apresentando duas coberturas:
uma cobertura natural — seu cabelo comprido;
e
uma cobertura colocada sobre a cabeça — o véu, lenço ou mantilha.
Uma não anula a outra.
O cabelo comprido não foi apresentado para cancelar o mandamento dos versículos anteriores.
Ao contrário, a cobertura natural confirma o mesmo princípio que a cobertura usada na reunião representa.
A natureza deu à mulher o cabelo comprido como sinal correspondente à sua posição; e, na reunião da igreja, ela acrescenta a cobertura prescrita pelo ensino apostólico.
As duas coisas apontam na mesma direção.
UMA OBSERVAÇÃO SOBRE AS PALAVRAS GREGAS PARA “COBERTURA”
Há uma distinção interessante no vocabulário empregado no capítulo.
Nos versículos em que Paulo fala de cobrir a cabeça, aparece o verbo grego relacionado a κατακαλύπτω — katakalyptō, com o sentido de cobrir, velar, manter coberto.
Já no final do versículo 15, quando Paulo diz que o cabelo foi dado à mulher “em lugar de véu” ou “por cobertura”, aparece outra palavra:
περιβόλαιον — peribólaion.
A palavra transmite a ideia daquilo que é lançado ou colocado ao redor, uma cobertura ou envoltório.
Essa diferença de vocabulário é importante porque reforça que não devemos simplesmente identificar, sem distinção, todas as referências do capítulo como se Paulo estivesse falando exatamente da mesma coisa.
Na primeira parte, ele trata da cabeça estar coberta ou descoberta no contexto da ordem da igreja.
No versículo 15, apresenta o cabelo comprido como uma cobertura natural concedida à mulher.
Assim, o cabelo comprido confirma, em vez de eliminar, o princípio anteriormente apresentado.
O QUE SIGNIFICA, NA PRÁTICA, “MANTER O CABELO CRESCIDO”?
O ensino apresentado nesta exposição é que a mulher deve deixar seu cabelo crescer ao comprimento natural.
Isso precisa ser distinguido de uma regra humana segundo a qual “uma mulher jamais poderá cortar sequer alguns milímetros do cabelo”.
O texto bíblico enfatiza o cabelo crescido/comprido em contraste com aquilo que caracteriza o homem.
Portanto, o princípio que deve governar a irmã é:
preservar conscientemente o cabelo comprido como a glória que Deus lhe deu.
Não seria correto transformar isso numa busca por uma medida mínima em centímetros, porque Paulo não forneceu tal medida.
Também precisamos reconhecer diferenças naturais. O cabelo de algumas mulheres cresce muito mais do que o de outras. Algumas possuem cabelo extremamente denso e pesado; outras possuem cabelo fino; algumas chegam naturalmente a comprimentos muito grandes; outras não.
A fidelidade ao princípio não pode ser medida simplesmente comparando o comprimento do cabelo de duas mulheres.
O importante é a disposição de conservar aquilo que a passagem apresenta como distintivo feminino: cabelo crescido ou comprido.
CONSIDERAÇÃO PRÁTICA: E QUANTO A APARAR AS PONTAS OU A PROBLEMAS REAIS COM O CABELO?
É necessário distinguir entre preservar o princípio bíblico e criar regras além daquilo que está escrito.
Podem existir circunstâncias excepcionais relacionadas ao peso, à densidade ou a outras dificuldades práticas. A Escritura não fornece uma tabela de centímetros nem regulamenta cada situação possível.
Por isso, não devemos estabelecer uma legislação que Deus não estabeleceu.
O princípio permanece:
“ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso.”
A aplicação deve procurar preservar esse princípio, e não descobrir uma maneira de contorná-lo.
Assim, diante de necessidades práticas, a pergunta principal não deveria ser:
“Quanto posso cortar sem pecar?”
Mas:
“Como posso resolver esta necessidade, preservando, tanto quanto possível, aquilo que Deus apresenta como glória da mulher?”
Isso coloca o coração na direção correta: submissão à Palavra, e não procura por uma medida mínima de obediência.
1 CORÍNTIOS 11:16
“Se alguém quiser ser contencioso”
“Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus.”
Paulo encerra o assunto antecipando a possibilidade de alguém desejar contender.
Não deveríamos abordar essas verdades com espírito de discussão ou procurando maneiras de escapar daquilo que foi ensinado.
Nas igrejas de Deus, esses símbolos deveriam ser mantidos como expressão visível da ordem divina de chefia.
Temos, portanto:
O HOMEM
A MULHER
Esses sinais demonstram exteriormente o grande princípio estabelecido no versículo 3:
Deus é a cabeça de Cristo.
Cristo é a cabeça do homem.
O homem é a cabeça da mulher.
Não são meros costumes inventados por determinada congregação.
São sinais que apontam para uma realidade maior.
Quando uma irmã cobre a cabeça na reunião e conserva o cabelo comprido, ela está reconhecendo visivelmente a ordem estabelecida por Deus.
Quando o irmão permanece de cabeça descoberta e mantém o cabelo curto, também está reconhecendo essa ordem.
Assim, tanto o homem quanto a mulher têm o privilégio de demonstrar, por sua conduta, a autoridade de Cristo e a ordem estabelecida por Deus.
O propósito final não é exaltar o homem sobre a mulher.
O propósito final é que Cristo seja honrado.
Quando cada pessoa ocupa voluntariamente o lugar que Deus lhe deu, a ordem divina é manifestada na igreja.
É por isso que devemos continuar mantendo esses símbolos nas reuniões públicas da igreja, não simplesmente porque “sempre fizemos assim”, mas porque desejamos sujeitar-nos à Palavra de Deus e dar ao Senhor Jesus Cristo o lugar que Lhe pertence.
“Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão, e o varão a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo.” — 1 Coríntios 11:3
Josué Matos
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