Áudios

Como saber se eu sou joio ou trigo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Na parábola do joio e do trigo diz que haverá uma separação no tempo certo. Como saber se eu sou joio ou trigo?

Minha Resposta:

A pergunta que fez é muito séria e, ao mesmo tempo, muito reveladora. O simples fato de alguém se preocupar em saber se é joio ou trigo já diz muito sobre o estado do coração diante de Deus.

Na parábola do joio e do trigo, registrada em Mateus 13:24-30 e explicada pelo próprio Senhor em Mateus 13:36-43, o Senhor Jesus mostra que, no mesmo campo — que é o mundo — convivem, lado a lado, os filhos do reino e os filhos do maligno. O trigo é fruto da boa semente semeada pelo Filho do Homem; o joio é resultado da obra do inimigo. Exteriormente, durante um tempo, eles podem parecer semelhantes, mas a natureza é totalmente diferente.

O ponto central da parábola não é ensinar que o crente deve viver angustiado tentando se autodefinir, mas mostrar que a separação final pertence a Deus e acontecerá no tempo determinado por Ele, no fim da era. Nenhum homem tem autoridade para arrancar o joio antes da hora, nem mesmo para se declarar justo por si mesmo.

A Escritura, porém, nos dá critérios claros para exame pessoal. O trigo não é definido por perfeição, mas por vida. Onde há trigo, há vida produzida por Deus. Onde há joio, há aparência, mas não há vida espiritual. O próprio apóstolo Paulo exorta: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5).

Algumas perguntas bíblicas ajudam nesse exame à luz da Palavra:

– Houve arrependimento verdadeiro e fé em Jesus Cristo como Salvador pessoal? Atos dos Apóstolos 20:21.
– Há uma nova vida gerada pelo Espírito Santo? João 3:3-7.
– Existe amor pela verdade, pela Palavra de Deus e pelo Senhor Jesus? João 8:31; 1 João 2:3-5.
– Há disciplina do Pai quando há pecado? Hebreus 12:6-8.
– Existe fruto, ainda que imperfeito, na caminhada cristã? Mateus 7:16; Gálatas 5:22-23.

O joio não se preocupa com essas coisas. O joio está confortável na religiosidade, no nome de cristão, na aparência exterior. Já o trigo, mesmo consciente de suas falhas, sente sede de Deus, fome da Palavra, tristeza pelo pecado e desejo de agradar ao Senhor.

É importante lembrar que a segurança do trigo não está em si mesmo, mas na obra perfeita de Cristo. “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24). A salvação não repousa em sentimentos, mas na promessa fiel de Deus.

Portanto, se há em seu coração essa inquietação santa, esse temor de Deus, esse desejo de estar em Cristo e de andar na luz, isso não é característica de joio. O joio não pergunta, não examina, não se humilha diante de Deus. O trigo, sim, vive dependente da graça.

Descanse não em si mesmo, mas em Cristo. Continue firmando-se na Palavra, vivendo em arrependimento, fé e comunhão. Aquele que começou a boa obra é fiel para completá-la até o dia de Jesus Cristo, conforme Filipenses 1:6.

Que o Senhor traga paz, clareza e segurança ao seu coração pela verdade da Sua Palavra.

Josué Matos

Deus é um Delírio? Richard Dawkins

 Alguém me escreveu no YouTube:

Me escreveu depois de ter assistido ao meu vídeo: Deus é um Delírio? Richard Dawkins  

Esta pessoa me disse: Como comprovar o inexistente? Quem afirma a existência é quem deve provar, o que nunca fizeram os cristãos.

Minha Resposta:

Você levanta um ponto que costuma aparecer com frequência em debates filosóficos e científicos, e ele merece uma resposta clara e honesta.

De fato, quando alguém afirma algo, deve estar disposto a apresentar razões para essa afirmação. Contudo, isso vale igualmente para ambos os lados. Dizer “Deus não existe” não é uma posição neutra; é uma afirmação metafísica tão forte quanto dizer “Deus existe”. Portanto, também exige fundamentos racionais. A ausência de prova empírica* não equivale automaticamente à prova da inexistência. Há muitas realidades que não são observáveis diretamente, mas são inferidas a partir de seus efeitos.

A própria Bíblia reconhece esse tipo de evidência indireta. Romanos 1:19-20 afirma que aquilo que pode ser conhecido de Deus é manifesto por meio da criação, de modo que o Seu eterno poder e divindade se tornam perceptíveis pelas coisas criadas. O argumento não é sentimental, mas racional: o efeito aponta para uma causa adequada. Ordem, racionalidade, leis constantes da natureza e inteligibilidade do universo não explicam a si mesmas.

Além disso, a questão da existência de Deus não se limita ao campo das ciências naturais. Trata-se também de uma questão filosófica e existencial. A ciência descreve como os fenômenos ocorrem; ela não responde por que existe algo em vez de nada, nem de onde vem a própria racionalidade humana capaz de investigar o universo. Salmos 19:1 declara que os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos, indicando que a criação comunica significado, não apenas dados.

Outro ponto frequentemente ignorado é o testemunho moral. A noção universal de certo e errado, de culpa e responsabilidade, pressupõe um padrão objetivo. Romanos 2:14-15 fala da lei escrita no coração humano, cuja consciência ora acusa, ora defende. Se tudo é fruto do acaso e da matéria impessoal, essa obrigação moral perde o seu fundamento real.

Quanto à fé cristã, ela não se apresenta como um “salto no escuro”. Hebreus 11:1 define a fé como a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que não se veem, não como ausência de razões, mas como confiança baseada em testemunho. A fé bíblica nasce do ouvir a Palavra de Deus, conforme Romanos 10:17, e envolve tanto a mente quanto a consciência.

Por fim, é importante lembrar que o cristianismo não afirma apenas a existência abstrata de Deus, mas um Deus que se revelou na história. Atos dos Apóstolos 17:26-27 declara que Deus determinou tempos e limites para as nações, para que O buscassem, ainda que tateando. A proposta bíblica não é uma prova de laboratório, mas um convite à reflexão honesta sobre a realidade, a vida, a moral, a história e o próprio ser humano.

Portanto, a pergunta não é simplesmente “onde está a prova?”, mas “que tipo de prova é adequada para a questão que está sendo feita?”. Negar Deus exige, no mínimo, explicar satisfatoriamente a origem do universo, da vida, da razão e da moralidade sem recorrer a pressupostos que, no fundo, também não podem ser provados empiricamente.

* A palavra empírica, no contexto do texto, refere-se a algo que é conhecido ou verificado exclusivamente por meio da experiência sensorial direta, isto é, pelos sentidos humanos como visão, audição, tato, olfato e paladar, geralmente associada à observação, experimentação e repetição controlada.

Em termos simples, conhecimento empírico é aquele que depende de testes observáveis e mensuráveis. Por exemplo, medir a temperatura de um corpo com um termômetro, observar uma reação química em laboratório ou verificar a queda de um objeto pela gravidade são experiências empíricas. Elas podem ser repetidas, comparadas e analisadas por diferentes pessoas, chegando a resultados semelhantes.

No texto, o termo foi usado para esclarecer que a ciência moderna trabalha prioritariamente com esse tipo de conhecimento. Ela é extremamente eficaz para explicar como os fenômenos naturais acontecem, mas é limitada quando tenta responder questões que vão além da observação direta, como a origem última da existência, o sentido da vida, o valor moral ou a razão pela qual o universo é inteligível.

A Bíblia, por sua vez, reconhece essas limitações humanas. Jó 38:4 registra a pergunta de Deus ao homem: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência”. O texto não rejeita a observação do mundo criado, mas mostra que nem tudo pode ser reduzido à experiência empírica humana.

Outro exemplo está em Eclesiastes 3:11, que afirma que Deus colocou a eternidade no coração do homem, sem que este possa compreender plenamente a obra que Deus faz do princípio ao fim. Isso indica que existem realidades verdadeiras que não são acessíveis apenas pelos sentidos ou por experimentos.

Portanto, quando se diz que algo não é empírico, não se está afirmando que seja irracional ou ilusório, mas que não pode ser provado ou refutado apenas pelos métodos das ciências naturais. A fé cristã se apoia na revelação divina, no testemunho histórico e na coerência racional, não em experimentos laboratoriais. Como afirma Hebreus 11:3, pela fé entendemos que o mundo foi criado pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.

Assim, “empírico” descreve um tipo específico de conhecimento, válido e importante, mas não suficiente para responder todas as questões fundamentais da existência.

Josué Matos

Uma bandeja com pequenos cálices ao começar a ceia do Senhor e também pequenos pedaços de pão. Isto está correto?

Alguém que me escreveu no YouTube:

Segue um resumo fiel e direto, destacando exatamente os pontos levantados na pergunta, sem acrescentar elementos externos:

A reflexão apresentada parte de 1 Coríntios 11:28, chamando atenção para a expressão “beba do cálice” e sua construção no texto original grego. Observa-se que o verbo “beber” aparece acompanhado da preposição ἐκ (ek), que indica origem ou procedência, sugerindo que o participante bebe aquilo que provém do cálice, e não necessariamente levando o mesmo recipiente físico à boca. Essa observação gramatical abre a possibilidade de entender que o vinho, uma vez abençoado no cálice, possa ser distribuído, de modo semelhante ao pão, do qual todos comem sem que seja colocado literalmente na boca por todos.

Ao mesmo tempo, a reflexão reconhece a tensão existente entre essa possibilidade gramatical e o forte valor simbólico apresentado em 1 Coríntios 10, onde “o cálice” aparece no singular como expressão da comunhão do sangue de Cristo e da unidade do Corpo. Surge, então, a preocupação de que o uso de cálices individuais possa comprometer esse símbolo de unidade, aproximando a prática de um ato mais individual do que coletivo.

Diante disso, são levantadas duas questões centrais: até que ponto a ênfase na preposição ἐκ permite flexibilidade na forma de distribuição sem ferir o princípio bíblico da unidade do Corpo; e como preservar a pureza do símbolo do cálice único diante de necessidades práticas — como grandes ajuntamentos ou questões de saúde — sem cair no individualismo que historicamente se buscou evitar.

O cerne da questão está em discernir a diferença entre a participação comum numa única bênção e a fragmentação do símbolo, procurando manter fidelidade tanto ao texto bíblico quanto ao ensino apostólico sobre a comunhão da igreja.

Minha Resposta:

Agradeço a forma respeitosa, cuidadosa e bem fundamentada com que o irmão apresenta a sua reflexão. O tema é relevante, delicado e merece, de fato, ser tratado com reverência às Escrituras, sobriedade doutrinária e espírito de comunhão.

Passo a responder às questões levantadas, procurando manter o equilíbrio entre o rigor bíblico, o valor do símbolo e a prática da igreja local.

  1. A observação gramatical de 1 Coríntios 11:28

A análise do verbo πινέτω (pinetō) acompanhado da preposição ἐκ (ek) é correta. A construção “beba do cálice” indica, de fato, o ato de beber algo que procede do cálice, e não, necessariamente, o gesto físico de levar o mesmo recipiente à boca. Essa mesma construção aparece em outros textos do Novo Testamento sem implicar identidade absoluta entre fonte e meio físico imediato.

Do ponto de vista estritamente gramatical, portanto, a preposição ἐκ permite a ideia de participação no conteúdo que procede de uma fonte comum. A analogia que o irmão faz com o pão é pertinente: todos comem “do pão”, embora não coloquem literalmente a boca no mesmo ponto do pão, nem o pão seja levado à boca como uma unidade indivisível.

Isso nos mostra que a Escritura, ao empregar essa linguagem, não está a legislar sobre o método físico exato, mas a afirmar a realidade espiritual da participação.

  1. O peso teológico do símbolo em 1 Coríntios 10

Em 1 Coríntios 10:16, o apóstolo Paulo afirma: “O cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo?”. Aqui, o cálice aparece claramente como símbolo coletivo e unitário, ligado à comunhão (koinonia). O ponto central não é o objeto material em si, mas aquilo que ele representa: a participação comum no sangue de Cristo.

O cálice, no ensino paulino, aponta para uma única realidade redentora, uma única obra consumada, um único fundamento da comunhão do Corpo. O mesmo ocorre com o pão em 1 Coríntios 10:17: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo”. O apóstolo não está a afirmar que existe um único pedaço físico de pão em todas as reuniões, mas que há uma única realidade espiritual representada.

Portanto, a unidade ensinada não está ancorada na indivisibilidade material do recipiente, mas na indivisibilidade daquilo que ele simboliza.

  1. A relação entre símbolo e prática

É aqui que a questão exige maior discernimento espiritual. A Escritura apresenta o cálice como símbolo de unidade, mas não fornece um mandamento explícito quanto à obrigatoriedade de um único recipiente físico passando de mão em mão. A força do símbolo está no fato de todos beberem da mesma bênção, do mesmo sangue, da mesma obra de Cristo.

Historicamente, irmãos zelosos procuraram preservar, na prática externa, essa unidade visível, evitando tudo o que pudesse sugerir individualismo. Esse zelo é digno de respeito. Contudo, zelo não deve ser confundido com normatividade bíblica absoluta quando a Escritura não legisla explicitamente.

A preposição ἐκ, longe de enfraquecer o símbolo, protege o princípio: todos bebem da mesma fonte, ainda que, por razões práticas, o conteúdo seja distribuído. O perigo não está no uso de recipientes auxiliares, mas na perda da consciência espiritual do que está a ser simbolizado.

  1. Questões práticas e responsabilidade pastoral

Situações como grandes ajuntamentos, limitações físicas, enfermidades ou necessidades sanitárias não anulam a verdade espiritual da Ceia do Senhor. A Escritura nunca subordina a comunhão espiritual a condições logísticas ideais. Pelo contrário, ensina-nos que a Ceia deve ser celebrada com discernimento, reverência e consciência do Corpo.

Quando a prática é conduzida com ensino claro, explicando que todos participam do mesmo cálice da bênção, que o vinho procede de uma única fonte simbólica e que a comunhão não é fragmentada, o uso de meios auxiliares não introduz individualismo, desde que o espírito da reunião seja preservado.

O verdadeiro individualismo começa quando a Ceia deixa de ser entendida como expressão da comunhão do Corpo e passa a ser vista como um ato privado entre o crente e Deus. Isso pode ocorrer tanto com um único cálice físico quanto com vários recipientes, se o ensino for deficiente.

  1. Respostas objetivas às perguntas levantadas

Quanto à primeira questão: a ênfase na preposição ἐκ permite, sim, uma flexibilidade legítima na distribuição, desde que não se perca o princípio da participação comum na mesma bênção. A gramática sustenta essa possibilidade; a teologia da comunhão estabelece os limites.

Quanto à segunda questão: a pureza do símbolo do cálice único é preservada quando a igreja local compreende e mantém, em fé e doutrina, que há uma única comunhão no sangue de Cristo. As necessidades práticas não anulam o símbolo, desde que não se transformem em princípio doutrinário ou em expressão de autonomia individual.

Em resumo, o Novo Testamento chama-nos menos à uniformidade mecânica e mais à unidade espiritual consciente. A Ceia do Senhor não é definida pelo formato do recipiente, mas pela realidade do Cristo lembrado, proclamado e compartilhado em comunhão.


Pode ser usado vários copinhos na ceia e vários pãezinhos, como é feito pela Igreja Católica?

A resposta curta é: não, o que foi exposto não equivale, nem justifica, a prática adotada pela Igreja Católica de vários “cálices individuais” independentes nem de pães consagrados individualmente como unidades autônomas. O princípio bíblico e o ensino apostólico caminham noutra direção.

Agora, a explicação mais clara e organizada.

  1. O que a Escritura afirma de forma positiva

Em 1 Coríntios 10:16-17, o apóstolo Paulo estabelece dois símbolos fundamentais:

– “O cálice da bênção que abençoamos”
– “O pão que partimos”

Ambos estão no singular e ligados diretamente à ideia de comunhão. O texto não está a tratar apenas de linguagem, mas de realidade espiritual objetiva: há uma só comunhão no sangue de Cristo e um só corpo, formado por muitos membros.

O ponto central é este:
o cálice e o pão representam uma realidade única e comum, não múltiplas realidades paralelas.

  1. O erro do modelo sacramental católico

Na teologia católica, cada hóstia consagrada é considerada, em si mesma, o “Cristo inteiro”, independentemente da comunhão da assembleia. Isso desloca o foco:

– da comunhão do Corpo
– para um ato sacramental individual

Esse modelo rompe exatamente com o ensino de 1 Coríntios 10:17, onde Paulo afirma que “nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo”. Ali, o pão não é uma soma de pães individuais; é um símbolo comum do Corpo unido.

Portanto, não se está a defender vários pães autônomos nem vários cálices independentes, como se cada crente tivesse a sua própria “ceia”.

  1. O que foi afirmado — e o que não foi

O que foi afirmado é isto:

– A Escritura não exige, de forma explícita, que todos levem o mesmo recipiente físico à boca.
– A preposição “ἐκ” (ek), em 1 Coríntios 11:28, indica participação no que procede do cálice, não a obrigatoriedade do mesmo gesto físico.

O que não foi afirmado:

– Não foi afirmado que cada copo seja “um cálice”.
– Não foi afirmado que vários pãezinhos sejam “vários pães” no sentido bíblico.
– Não foi afirmado que a Ceia possa ser fragmentada em atos individuais independentes.

A distinção é crucial.

  1. Unidade do símbolo ≠ unicidade absoluta do utensílio

Biblicamente, o símbolo é um só porque a realidade que ele aponta é uma só.

– Um pão, ainda que partido.
– Um cálice, ainda que o conteúdo seja distribuído.

Se houver distribuição, ela só faz sentido se ficar claro que:

– o pão procede de um só pão
– o vinho procede de um só cálice da bênção
– a assembleia participa de uma única comunhão

Sem isso, perde-se o significado bíblico e cai-se num modelo funcionalmente individualista, mesmo que revestido de linguagem cristã.

  1. O verdadeiro limite bíblico

O limite não é técnico, mas doutrinário e espiritual.

O erro começa quando:
– o símbolo deixa de expressar a comunhão do Corpo
– a Ceia passa a ser vivida como um momento privado
– o ensino apostólico de 1 Coríntios 10 e 11 é diluído

Isso pode acontecer tanto com:
– um único recipiente físico, se não houver discernimento
– quanto com meios auxiliares, se não houver clareza doutrinária

  1. Conclusão objetiva

Portanto, respondendo de forma inequívoca à sua pergunta:

Não, a reflexão apresentada não legitima a prática católica, nem o uso de vários “cálices” independentes ou “pães individuais” como unidades autônomas.
O princípio bíblico permanece: uma só comunhão, um só pão, um só cálice da bênção, expressão visível da unidade do Corpo de Cristo.

Se algo rompe esse princípio, ainda que pareça prático ou organizado, já não está alinhado com o ensino apostólico.


Há denominações que usam uma bandeja com pequenos cálices ao começar a ceia do Senhor e também pequenos pedaços de pão. Isto está correto?

O correto seria começar a ceia com um pão e um cálice e, sendo necessário, distribuir do único cálice a indivíduos.

Vou organizar a resposta em pontos objetivos.

  1. O ponto de partida da Ceia do Senhor nas Escrituras

No ensino apostólico, a Ceia do Senhor não começa com múltiplos elementos, mas com um pão e um cálice. É assim que Paulo apresenta a doutrina em 1 Coríntios 10:16-17:

– “O cálice da bênção que abençoamos”
– “O pão que partimos”

O ponto de partida é sempre o singular, porque o símbolo nasce da unidade da obra de Cristo e da unidade do Corpo. O pão é partido; o cálice é partilhado. A unidade é apresentada antes da distribuição.

Quando uma reunião já se inicia com uma bandeja de pequenos cálices e pequenos pedaços de pão independentes, o símbolo já nasce fragmentado, e isso enfraquece visivelmente o ensino apostólico, ainda que a intenção seja reverente.

  1. A diferença entre “distribuição” e “fragmentação do símbolo”

Há uma diferença essencial entre:

– distribuir a partir de um único pão e de um único cálice
– começar a Ceia com múltiplos pães e múltiplos cálices

A primeira preserva o símbolo; a segunda o redefine.

Biblicamente, o pão é um antes de ser partido, e o cálice é um antes de ser compartilhado. A distribuição é consequência da unidade, não o seu substituto.

Por isso, a sequência correta, do ponto de vista doutrinário, é:

  1. Um pão é apresentado e partido

  2. Um cálice da bênção é apresentado

  3. Se necessário, o conteúdo do cálice pode ser distribuído, sem que isso transforme cada recipiente num “novo cálice”

Quando se inverte essa ordem, perde-se a pedagogia espiritual do símbolo.

  1. O problema das bandejas com cálices individuais desde o início

O uso de bandejas com pequenos cálices, já prontos desde o início da Ceia, transmite implicitamente algumas ideias problemáticas:

– que cada crente “tem o seu cálice”
– que a comunhão é apenas simultânea, não comum
– que a unidade é apenas conceitual, não simbolicamente expressa

Ainda que se diga verbalmente que “todos participam do mesmo sangue de Cristo”, o símbolo visível passa a ensinar outra coisa. E na Ceia do Senhor, o símbolo ensina tanto quanto as palavras.

  1. A questão prática não anula o princípio, mas não pode substituí-lo

É legítimo reconhecer situações práticas: número elevado de participantes, limitações físicas, questões de saúde. A Escritura não ignora a realidade. Contudo, a solução prática deve proteger o princípio, não redefini-lo.

Distribuir o conteúdo de um único cálice, quando necessário, não fere o símbolo.
Substituir o cálice único por vários cálices independentes, como ponto de partida, fere o ensino apostólico.

O mesmo vale para o pão: pequenos pedaços só fazem sentido se procedem claramente de um único pão partido diante da assembleia.

  1. Conclusão clara e afirmativa

Portanto, a sua conclusão está correta e bem alinhada com o ensino do Novo Testamento:

– O correto é começar a Ceia do Senhor com um pão e um cálice
– A unidade deve ser apresentada antes da participação
– Havendo necessidade, a distribuição deve proceder a partir dessa unidade, e não substituí-la
– Práticas que já iniciam a Ceia com múltiplos cálices e múltiplos pães independentes enfraquecem o símbolo bíblico da comunhão do Corpo

A Ceia do Senhor não é apenas algo que se faz corretamente, mas algo que ensina corretamente. E o ensino começa no modo como os símbolos são apresentados.

Josué Matos

O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30

Alguém me escreveu no WhatsApp:

RESUMO DA DÚVIDA APRESENTADA

  1. PERGUNTAS EXPLÍCITAS DO DENIS

A dúvida do Denis nasce a partir da leitura de Romanos 8:28–30 e do texto do autor citado, e pode ser organizada nas seguintes perguntas:

  1. O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30, já que ele nunca havia ouvido esse ensino dessa forma?

  2. Quem são exatamente “os que amam a Deus” e “os que são chamados segundo o Seu propósito” mencionados em Romanos 8:28? Trata-se de um grupo específico e previamente definido?

  3. O que significa Deus “chamar” alguém?
    Esse chamado é algo que pode ser recusado ou é uma intervenção irresistível e garantida?

  4. Se a conversão acontece por uma intervenção direta de Deus na mente do pecador, tornando a fé absolutamente certa, como entender a responsabilidade humana?

  5. Como pessoas poderão ser julgadas e condenadas por incredulidade (Apocalipse 21:8) se, segundo essa explicação, Deus não lhes concedeu essa chamada eficaz ou “autorização” para crer?

  6. No juízo final, alguém poderia legitimamente dizer:
    “Senhor, eu não cri porque o Senhor não deixou”?

Essa última pergunta é o ponto central da inquietação do Denis.

  1. O QUE O AUTOR DO TEXTO AFIRMA (EM SÍNTESE ORGANIZADA)

O autor do texto que Denis leu apresenta a doutrina da eleição e da predestinação da seguinte forma:

  1. Romanos 8:29–30 descreve um processo completo e garantido de conversão e salvação, composto por etapas sequenciais:
    conheceu → predestinou → chamou → justificou → glorificou.

  2. Esse processo não é meramente informativo ou descritivo, mas uma intervenção direta de Deus na alma do pecador.

  3. A “chamada” de Deus é definida como uma ação irresistível, na qual Deus interfere diretamente na mente do pecador, tornando-o sensível ao evangelho e garantindo que essa sensibilidade resultará necessariamente em conversão.

  4. Os que amam a Deus não chegaram a esse ponto por iniciativa própria, mas exclusivamente por terem sido alvos dessa intervenção divina.

  5. O “conhecer de antemão” não é presciência, nem previsão do comportamento humano, mas um relacionamento íntimo e amoroso estabelecido por Deus antes da existência dessas pessoas.

  6. Esse conhecimento está inseparavelmente ligado à eleição; Deus conhece porque escolhe, ou escolhe e, ao mesmo tempo, conhece.

  7. A eleição é totalmente incondicional, não baseada em qualquer atitude futura, fé prevista ou resposta humana.

  8. Deus escolheu determinadas pessoas antes da fundação do mundo para terem comunhão eterna com Ele.

  9. A predestinação é a garantia absoluta de que essa eleição se cumprirá; ou seja, que o eleito inevitavelmente chegará à salvação.

  10. Os eleitos não podem deixar de ser salvos e não podem ser enganados por falsas doutrinas, pois a predestinação assegura tanto a salvação quanto a preservação na verdade.

  11. Embora o evangelho seja pregado a todos, apenas os eleitos recebem a graça eficaz da fé salvadora.

  1. ONDE NASCE A DÚVIDA CENTRAL

A dúvida do Denis surge exatamente da combinação entre essas afirmações do autor e textos como Apocalipse 21:8.

O conflito percebido por ele é o seguinte:

– Se apenas os eleitos recebem essa intervenção irresistível de Deus que os leva infalivelmente à fé,
– e se os não eleitos nunca recebem essa chamada eficaz,
– como essas pessoas podem ser julgadas e condenadas por incredulidade?

Em termos simples, a pergunta final do Denis é:

Como Deus pode condenar alguém por não crer, se essa pessoa nunca recebeu, segundo essa explicação, a ação divina necessária para que pudesse crer?

Esse é o núcleo da dúvida que ele está apresentando.

Minha Resposta:

Denis, a tua pergunta é legítima e toca exatamente no ponto onde muitos sistemas teológicos entram em tensão com o conjunto das Escrituras.

O próprio texto que citaste levanta um problema que ele não resolve: se a chamada é uma intervenção irresistível, garantida e seletiva, como o autor define, então o juízo final de Apocalipse 21:8 se torna moralmente incoerente. A Bíblia, porém, não entra em contradição consigo mesma.

Vamos responder usando os próprios termos e textos apresentados.

Primeiro, sobre Romanos 8:28–30.

Paulo não está explicando como alguém passa da incredulidade para a fé, mas descrevendo o caminho completo daqueles que já estão “em Cristo”. O texto começa com “os que amam a Deus”, não com “os que ainda estão mortos em pecados”. O foco é segurança, não mecanismo de conversão.

Quando Paulo diz “aos que de antemão conheceu”, ele não está afirmando que Deus impediu outros de crer, mas que Deus conhece plenamente aqueles que viriam a estar em Cristo. Em nenhum momento o texto afirma que Deus criou incrédulos incapazes de crer para depois condená-los.

O próprio Paulo esclarece isso mais adiante:

“Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11:32).

Segundo, a definição de “chamada” apresentada no texto não é a única bíblica.

A Bíblia fala claramente de chamados rejeitados:

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:14).

Se a chamada fosse irresistível, esse versículo não faria sentido. O chamado é real, verdadeiro e pode ser resistido. Isso não diminui a soberania de Deus; apenas mantém a responsabilidade humana.

Terceiro, sobre João 15:16.

Jesus não está ali falando de salvação individual eterna, mas da escolha dos apóstolos para um ministério específico. O contexto é frutificação e missão, não condenação ou eleição para o céu. Usar esse texto para sustentar que ninguém pode crer sem autorização prévia ignora o contexto imediato.

Quarto, 2 Tessalonicenses 2:13 resolve o ponto-chave.

O texto diz que Deus escolheu “para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”. A fé não é apresentada como algo imposto, mas como meio. O Espírito atua, a verdade é anunciada, e a fé responde. Não há qualquer indicação de que Deus negue fé a quem deseja crer.

Quinto, Romanos 9 não ensina condenação sem responsabilidade.

Paulo fala do direito soberano de Deus em conduzir a história da redenção, especialmente no contexto de Israel e dos gentios. Ele mesmo antecipa a objeção moral e não responde dizendo “Deus impede alguns de crer”, mas afirmando que Deus suporta “com muita longanimidade os vasos da ira” (Romanos 9:22). Longanimidade não combina com impedimento ativo.

Sexto, Apocalipse 21:8 responde diretamente à tua pergunta.

Os condenados são chamados de “incrédulos”. A Bíblia nunca diz que são “impedidos de crer”, mas que “não quiseram crer”. O próprio Senhor Jesus afirma:

“Não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

No juízo, ninguém será condenado por falta de autorização divina, mas por rejeição consciente da luz recebida.

“Esta é a condenação: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (João 3:19).

Se alguém disser no juízo “não cri porque Deus não deixou”, essa acusação não encontra respaldo em nenhum texto bíblico. A Escritura afirma repetidamente que Deus chama, convida, anuncia, adverte e oferece, e que a condenação ocorre porque o homem rejeita.

A eleição bíblica jamais transforma Deus em injusto, nem o homem em vítima. Ela exalta a graça sem anular a responsabilidade.

Para compreender corretamente eleição, predestinação e responsabilidade humana, é necessário partir do testemunho completo das Escrituras, evitando definições isoladas que absolutizam um aspecto em detrimento de outro.

Eleição, na Bíblia, é o ato soberano de Deus pelo qual Ele decide salvar um povo para Si em Cristo. Essa eleição não é apresentada como um decreto arbitrário e desconectado do evangelho, mas como parte do propósito eterno de Deus realizado em Jesus Cristo. A Escritura afirma que Deus escolheu “em Cristo” antes da fundação do mundo, não indivíduos isoladamente fora dele. Cristo é o Eleito de Deus, e todos os que estão unidos a Ele participam dessa eleição. Assim, a eleição é sempre cristocêntrica, graciosa e redentora, nunca fatalista.

A eleição não significa que Deus criou dois grupos — um destinado à salvação e outro à condenação — sem qualquer relação com fé, resposta ou rejeição da verdade. A condenação nunca é atribuída à eleição, mas ao pecado e à incredulidade. A Bíblia é clara ao afirmar que os homens se perdem porque rejeitam a luz, resistem à verdade e não creem no testemunho que Deus lhes deu acerca do Seu Filho.

Predestinação, por sua vez, não trata do ato inicial de crer, mas do destino final daqueles que estão em Cristo. Os textos que falam de predestinação afirmam que Deus determinou de antemão que os salvos seriam conformados à imagem do Seu Filho, adotados como filhos, feitos herdeiros e glorificados. A predestinação diz respeito ao propósito de Deus quanto ao fim, não ao meio pelo qual o pecador entra em Cristo.

Em nenhum texto bíblico a predestinação é apresentada como uma imposição de fé ou como um impedimento para que alguém creia. Ela é a garantia divina de que aqueles que pertencem a Cristo não serão abandonados no caminho, mas chegarão com segurança ao destino que Deus estabeleceu. A predestinação assegura a consumação da salvação, não a negação da oportunidade de crer.

Quanto à responsabilidade humana, a Escritura a afirma de forma inequívoca. O homem é chamado ao arrependimento, à fé e à obediência. O evangelho é anunciado a todos, e o convite é sincero e verdadeiro. A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, e o Espírito Santo atua convencendo o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Essa atuação divina não anula a responsabilidade do homem; antes, a torna real e inescapável.

A Bíblia reconhece que o homem, por si mesmo, não busca a Deus nem pode produzir salvação por obras. Contudo, isso não significa que ele seja impedido de crer quando confrontado pela verdade. A incredulidade não é causada por falta de permissão divina, mas pela rejeição consciente da luz. Sempre que a Escritura descreve a condenação, ela a vincula à incredulidade, à desobediência e ao amor ao pecado.

A harmonia bíblica é esta: Deus é absolutamente soberano, e o homem é verdadeiramente responsável. Deus chama, anuncia, oferece e convida; o homem responde ou rejeita. Quando alguém crê, toda a glória pertence a Deus; quando alguém se perde, a culpa recai sobre a rejeição da verdade. A eleição exalta a graça; a responsabilidade humana preserva a justiça de Deus.

Assim, eleição e predestinação nunca devem ser usadas para explicar por que alguém não creu, mas para assegurar aos que creram que a sua salvação não depende do acaso, do mérito ou da perseverança humana, e sim do propósito fiel e eterno de Deus em Cristo.

Josué Matos

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