Alguém me escreveu por e-mail:
Gostaria de fazer algumas perguntas.
1) Qual entendimento dos Irmãos com quem você se reúne sobre quando um irmão comete um pecado moral, doutrinal ou eclesiástico ou simplesmente decide parar de congregar ou ir para uma denominação católica ou evangélica? Pelo que conheço dos Irmãos Exclusivos, o procedimento é não ter contato para evitar contaminação. Por isso gostaria de entender o ponto de vista dos "Irmãos Abertos", sei que são terminologias que os irmãos não gostam de usar, mas é só para diferenciar melhor.
2) Para um irmão estar partindo o pão ele precisa passar por um tempo de espera até ser recebido pela assembleia ou pode partir o pão sem esse procedimento?
3) A Ceia para vocês é um memorial simbólico ou vocês creem em uma presença real de Cristo?
Minha Resposta:
Suas perguntas são muito importantes, porque tocam em três áreas fundamentais da vida da igreja: disciplina, comunhão e a pessoa do Senhor na Ceia. Vou responder ponto a ponto, de forma bíblica e organizada.
Como é tratado um irmão que peca, abandona a comunhão ou vai para uma denominação?
Antes de tudo, é importante dizer que não seguimos um sistema humano, mas princípios das Escrituras. E esses princípios fazem distinções importantes.
a) Quando há pecado moral, doutrinal ou eclesiástico
A Palavra de Deus mostra que a disciplina existe, mas não com o objetivo de “cortar relações humanas”, e sim preservar a santidade da assembleia e restaurar o irmão.
Em 1 Coríntios 5:11 lemos:
“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador...”
Aqui vemos claramente:
- Há casos em que o pecado exige afastamento da comunhão prática
- Isso não é por desprezo pessoal, mas por fidelidade a Deus
Em 2 Tessalonicenses 3:14-15 há um equilíbrio importante:
“...não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão.”
Ou seja:
- Não há indiferença
- Não há ódio
- Há cuidado, mas com separação necessária
Portanto, diferente do que você mencionou sobre certos grupos, não se trata de cortar todo tipo de contato humano, mas de:
- Suspender a comunhão cristã (especialmente na Ceia)
- Manter um espírito de restauração
b) Quando alguém decide parar de congregar
Aqui não se trata imediatamente de disciplina formal, mas de uma condição espiritual triste.
Hebreus 10:25 diz:
“Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns...”
A assembleia deve:
- Procurar
- Exortar
- Restaurar
Mas se a pessoa insiste, ela se coloca fora da comunhão prática.
c) Quando alguém vai para sistemas religiosos (católicos ou evangélicos denominacionais)
Isso é visto como afastamento da verdade prática da reunião simples ao nome do Senhor Jesus.
2 Timóteo 2:19-22 mostra que há um chamado à separação do erro:
“...aparte-se da iniquidade todo aquele que profere o nome de Cristo...”
E também:
“...se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra...”
Portanto:
- Não tratamos como inimigo
- Mas reconhecemos que não está andando na mesma base de comunhão
Sobre participar do partir do pão
A Ceia do Senhor não é algo individual, mas um ato de comunhão da assembleia.
Atos dos Apóstolos 2:42 mostra:
“E perseveravam... no partir do pão...”
E em 1 Coríntios 10:16-17 vemos:
“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo...”
Isso mostra que:
- Não é um ato isolado
- Expressa comunhão com o corpo de Cristo
Por isso, normalmente:
- Há um reconhecimento da assembleia
- Não é um “tempo de espera formal”, como uma regra rígida
- Mas há cuidado para conhecer a pessoa, seu testemunho e doutrina
Em 1 Coríntios 14:40:
“Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.”
Ou seja:
- Não é burocracia
- É responsabilidade espiritual
A Ceia é simbólica ou há presença real?
A Ceia é um memorial, mas não é algo vazio.
O próprio Senhor disse em Lucas 22:19:
“Fazei isto em memória de mim.”
E em 1 Coríntios 11:26:
“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.”
Portanto:
- Não cremos em transformação literal (como no catolicismo)
- Nem em uma presença física de Cristo nos elementos
Mas também não é algo meramente simbólico no sentido superficial
Existe:
- Uma realidade espiritual profunda
- Comunhão com Cristo
1 Coríntios 10:16 diz:
“O cálice de bênção... não é a comunhão do sangue de Cristo?”
Ou seja:
- Não há presença física nos elementos
- Mas há comunhão real com a pessoa do Senhor
Conclusão
Resumindo:
- A disciplina visa restaurar, não excluir definitivamente
- A comunhão da Ceia exige responsabilidade coletiva
- A Ceia é um memorial com profunda realidade espiritual, não ritual vazio nem presença física
Tudo isso está ligado a um princípio central:
Mateus 18:20:
“Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”
É a presença do Senhor no meio da assembleia que governa tudo — não um sistema humano.
Fico à disposição se quiser aprofundar algum desses pontos, especialmente sobre disciplina ou recepção à comunhão.
Um abraço em Cristo.
Josué Matos

