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Os "irmãos exclusivistas" não afirmam que a fé dos pais seja suficiente para garantir a salvação dos filhos?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, permita-me fazer uma observação sobre o que disse em seu vídeo. Os irmãos exclusivistas não afirmam que a fé dos pais seja suficiente para garantir a salvação dos filhos, mas que os filhos, ao serem batizados, são tirados do paganismo e inseridos no cristianismo, mas não que sejam salvos. Falo isso porque estive em comunhão com os irmãos exclusivistas e conversávamos muito sobre esse assunto. Paz seja contigo.

Minha Resposta:

Meu irmão, agradeço sinceramente pela sua observação e pelo esclarecimento. Considero importante fazer essa distinção, especialmente porque você esteve em comunhão com os chamados irmãos exclusivistas e conhece de perto aquilo que eles ensinam sobre esse assunto.

Portanto, aceito a correção quanto à maneira como apresentei essa posição no vídeo. Se dei a entender que eles ensinam diretamente que a fé dos pais é suficiente para garantir a salvação dos filhos, então essa afirmação precisa ser corrigida.

Entretanto, feita essa correção, permanece uma questão doutrinária ainda mais profunda: qual é, biblicamente, o significado de batizar uma criança que ainda não creu pessoalmente no Senhor Jesus Cristo?

Segundo aquilo que você explicou, eles não afirmam que a criança seja salva pelo batismo. O argumento seria que, pelo batismo, ela é retirada da esfera do paganismo e colocada exteriormente na esfera do cristianismo ou da cristandade.

É exatamente aqui que precisamos examinar a questão com mais cuidado, porque podemos mudar as palavras sem resolver o problema bíblico.

  1. Se o batismo não salva, o que ele mudou espiritualmente na criança?

Creio que uma pergunta ajuda a levar esse ensino às suas consequências.

Suponhamos que uma criança seja batizada quando pequena, com base na fé de seus pais. Os anos passam, ela cresce, chega à idade em que pode compreender o Evangelho, arrepender-se e exercer pessoalmente fé no Senhor Jesus Cristo. Contudo, ela nunca o faz. Permanece sem conversão, sem novo nascimento e sem fé pessoal em Cristo e, nessa condição, parte para a eternidade.

Qual foi, então, o efeito daquele batismo sobre seu estado espiritual e sobre seu destino eterno?

Essa é a questão que considero decisiva.

Ela foi salva porque havia sido batizada?

Pelo esclarecimento apresentado, a resposta necessariamente deverá ser não, porque os próprios irmãos não atribuem ao batismo o poder de salvar.

Ela recebeu vida eterna por aquele batismo?

Não.

Foi justificada por aquele batismo?

Não.

Nasceu de novo por aquele batismo?

Não.

Foi reconciliada com Deus por aquele batismo?

Não.

Então, se chegou à idade de responsabilidade pessoal, ouviu ou teve condições de compreender o Evangelho, mas nunca creu pessoalmente em Cristo, que diferença aquele batismo realizado na infância produziu quanto à sua relação eterna com Deus?

Se não produziu diferença alguma, precisamos perguntar qual fundamento bíblico existe para afirmar que ele a retirou do paganismo e a colocou no cristianismo.

E, se alguém disser que aquele batismo produziu alguma diferença espiritual quanto ao seu destino eterno, então será necessário demonstrar nas Escrituras qual foi essa diferença. Nesse caso, já se estaria atribuindo ao batismo alguma eficácia espiritual sobre uma pessoa que jamais creu pessoalmente no Senhor Jesus.

Esse é precisamente o problema.

  1. Isso é diferente da questão das crianças que morrem na primeira infância

Faço aqui uma distinção importante para que ninguém interprete erroneamente o argumento.

Não estou falando de uma criança que morre ainda pequena, sem ter chegado à capacidade de compreender o Evangelho e exercer pessoalmente a fé. Essa é outra questão.

Há boas razões bíblicas para entendermos que uma criança que parte deste mundo nessa condição está segura nas mãos de Deus. Quando o filho pequeno de Davi morreu, ele declarou:

“Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (Segundo Livro de Samuel 12:23).

Portanto, minha argumentação aqui não pretende afirmar que uma criança que morre antes de possuir capacidade de exercer fé pessoal esteja condenada por não ter crido.

A situação que estou propondo é diferente.

Uma criança foi batizada porque seus pais eram cristãos. Cresceu. Chegou à idade em que podia responder pessoalmente ao Evangelho. Entretanto, nunca se arrependeu nem creu pessoalmente no Senhor Jesus. Morreu nessa condição.

Nesse caso, não podemos recorrer à sua incapacidade infantil, porque ela já havia chegado à idade em que podia responder à mensagem do Evangelho.

A pergunta permanece: o batismo que recebeu na infância alterou seu destino eterno?

Se não alterou, então precisamos reconhecer que aquele batismo não lhe conferiu vida espiritual.

Se alterou, então precisamos perguntar onde a Escritura atribui ao batismo infantil semelhante eficácia.

  1. “Introduzida na cristandade”, mas em que sentido?

Também precisamos definir cuidadosamente o significado dessa expressão.

Se significa simplesmente que a criança nasceu numa família cristã, é criada por pais cristãos, ouve a Bíblia, aprende sobre Cristo, frequenta reuniões cristãs e recebe influência do Evangelho, ela não precisa ser batizada para desfrutar desses privilégios.

Ela já os possui por ter nascido naquele lar.

Timóteo é um excelente exemplo:

“E que, desde a tua meninice, sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (Segunda Epístola a Timóteo 3:15).

Timóteo possuía desde a infância um enorme privilégio espiritual. Tinha uma avó temente a Deus e uma mãe temente a Deus (Segunda Epístola a Timóteo 1:5). Desde pequeno conhecia as Sagradas Escrituras.

Contudo, Paulo faz uma distinção muito importante. Conhecer as Escrituras desde criança poderia torná-lo “sábio para a salvação”, mas a salvação continuava sendo “pela fé que há em Cristo Jesus”.

Portanto, existe diferença entre privilégio familiar e salvação pessoal.

Uma criança criada num lar cristão encontra-se numa posição privilegiada quanto ao conhecimento da verdade. Mas não precisamos criar uma categoria batismal intermediária — alguém que não está salvo, mas teria sido retirado do paganismo e colocado no cristianismo mediante o batismo.

Precisamos perguntar onde o Novo Testamento ensina essa categoria.

  1. O problema fundamental: o batismo é administrado com base na fé dos pais

Há outro aspecto muito importante.

A criança não pediu para ser batizada.

Ela não confessou Cristo.

Ela não declarou arrependimento.

Ela não exerceu fé pessoal.

Ela não compreendeu o significado de sua identificação com a morte, o sepultamento e a ressurreição de Cristo.

Então, qual foi a base daquele batismo?

A fé e a decisão dos pais.

É verdade que os pais podem responder:

“Nossa fé não salva nosso filho.”

Concordamos.

Mas permanece o fato de que uma ordenança cristã foi aplicada ao filho porque os pais creram, e não porque o filho creu.

Portanto, mesmo que não se diga que a fé dos pais salvou a criança, é a fé dos pais que está servindo de fundamento para administrar à criança uma ordenança que, no Novo Testamento, está ligada à fé daquele que é batizado.

É precisamente aí que encontro a dificuldade.

Não encontramos nas Escrituras:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e, com base na tua fé, batiza teus filhos.”

Encontramos:

“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra” (Atos dos Apóstolos 2:41).

Em Samaria:

“Mas, como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres” (Atos dos Apóstolos 8:12).

Em Corinto:

“E muitos dos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados” (Atos dos Apóstolos 18:8).

A sequência apresentada é muito clara:

ouvir → crer → ser batizado.

Não encontramos:

os pais creem → os filhos são batizados → são colocados na cristandade → posteriormente espera-se que eles venham a exercer fé pessoal.

  1. O batismo bíblico pressupõe uma profissão pessoal

É importante observar ainda que não basta alguém passar pela água para que o ato tenha automaticamente o significado bíblico do batismo cristão.

Em Atos dos Apóstolos 8, Simão professou crer e foi batizado. Entretanto, posteriormente Pedro lhe disse:

“Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus” (Atos dos Apóstolos 8:21).

Isso demonstra, pelo menos, que o rito exterior não substitui a realidade interior.

A água não transforma uma profissão sem realidade em salvação.

No caso de uma criança pequena, existe uma questão ainda anterior: ela nem sequer está fazendo profissão de fé.

Não significa que a criança esteja mentindo ou fazendo uma falsa profissão. Significa simplesmente que não fez profissão alguma.

Por isso, o problema do batismo infantil não é simplesmente a idade cronológica. O problema é a ausência daquilo que biblicamente precede o batismo: recepção consciente do Evangelho e profissão pessoal de fé.

  1. As famílias batizadas não demonstram batismo infantil

Frequentemente são mencionadas as famílias batizadas no livro de Atos dos Apóstolos.

No caso do carcereiro de Filipos, porém, lemos:

“E lhe pregaram a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (Atos dos Apóstolos 16:32).

Depois:

“E logo foi batizado, ele e todos os seus” (Atos dos Apóstolos 16:33).

Primeiro, portanto, a Palavra foi anunciada à casa.

Além disso, o versículo seguinte relaciona aquela casa com a alegria resultante da fé:

“E, levando-os a sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (Atos dos Apóstolos 16:34).

Não existe no texto qualquer informação de que havia bebês naquela família. Construir o batismo infantil sobre a possibilidade de existirem crianças pequenas nessas casas é acrescentar ao texto algo que ele não afirma.

O mesmo princípio aparece repetidamente: Palavra, fé e batismo.

  1. Primeira Epístola aos Coríntios 7:14 não estabelece o batismo infantil

Outro texto que merece consideração é:

“Doutra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos” (Primeira Epístola aos Coríntios 7:14).

Mas Paulo não diz:

“Vossos filhos são santos porque foram batizados.”

A condição especial dos filhos aparece em razão da relação familiar tratada no contexto, não como resultado do batismo.

Isso é muito importante.

Se alguém deseja chamar essa condição de uma posição exterior privilegiada dos filhos de crentes, então o próprio texto demonstra que eles já possuem esse privilégio sem batismo.

Nesse caso, novamente surge a pergunta: por que precisamos do batismo para retirá-los do paganismo e introduzi-los numa esfera privilegiada, se Paulo reconhece uma posição peculiar dos filhos de um crente sem mencionar qualquer batismo?

  1. O batismo não substituiu a circuncisão de Israel

Outro argumento comum é relacionar diretamente a circuncisão de Israel ao batismo cristão.

Entretanto, Israel e a Igreja não são constituídos segundo o mesmo princípio.

Um israelita nascia fisicamente dentro daquela nação. A circuncisão estava relacionada à descendência natural e às promessas dadas àquela nação.

Mas ninguém nasce fisicamente dentro da Igreja.

O Evangelho segundo João estabelece claramente:

“Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Evangelho segundo João 1:12-13).

A expressão “não nasceram do sangue” é especialmente importante.

Pais cristãos não geram filhos cristãos espiritualmente.

A vida eterna não é hereditária.

A fé não é hereditária.

O novo nascimento não é hereditário.

A pertença ao Corpo de Cristo não é hereditária.

Por isso, não podemos transportar para a Igreja um princípio genealógico pertencente a Israel.

  1. O significado do próprio batismo aponta para uma realidade espiritual

Epístola aos Romanos 6 apresenta o significado do batismo:

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Epístola aos Romanos 6:4).

O batismo fala de identificação com Cristo em Sua morte, sepultamento e ressurreição.

Ele não foi estabelecido para transformar uma criança num membro exterior da cristandade enquanto se aguarda para saber se, no futuro, ela realmente crerá em Cristo.

O batismo não torna alguém cristão; ele é o testemunho daquele que professa pertencer a Cristo.

O batismo não comunica vida eterna:

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (Evangelho segundo João 3:36).

O batismo não substitui o novo nascimento:

“Necessário vos é nascer de novo” (Evangelho segundo João 3:7).

O batismo não substitui a fé:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

  1. A semelhança prática com o batismo infantil católico

Aqui aparece também outra dificuldade.

Se batizamos uma criança sem fé pessoal com a finalidade de colocá-la exteriormente dentro da cristandade, acabamos realizando um ato muito semelhante, na sua forma básica, ao batismo infantil praticado pelo catolicismo.

Evidentemente, existem diferenças doutrinárias importantes. Não seria correto afirmar que os irmãos exclusivistas necessariamente atribuem ao batismo a mesma eficácia sacramental que a doutrina católica lhe atribui.

Mas permanece uma semelhança fundamental: uma ordenança é administrada a uma criança que não exerceu fé pessoal.

E a dificuldade torna-se ainda maior se posteriormente for considerado válido até mesmo o batismo católico recebido na infância quando aquela pessoa, anos depois, realmente se converte.

Nesse caso precisamos perguntar:

Como pode uma cerimônia realizada antes da fé tornar-se, retroativamente, o batismo de alguém que posteriormente creu?

O batismo recebido quando a pessoa não possuía fé não pode adquirir posteriormente a fé que estava ausente no momento em que foi realizado.

A fé posterior não pode ser transportada retrospectivamente para a infância.

  1. Atos dos Apóstolos 19 apresenta um princípio importante

Em Atos dos Apóstolos 19:1-5, Paulo encontrou homens que haviam recebido anteriormente o batismo de João.

Depois de receberem esclarecimento acerca do Senhor Jesus:

“E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus” (Atos dos Apóstolos 19:5).

Isso apresenta um princípio importante.

A verdade compreendida posteriormente não transformou automaticamente o ato anterior em algo diferente daquilo que ele representava quando foi realizado.

Portanto, se uma pessoa recebeu uma cerimônia batismal quando criança, sem fé pessoal em Cristo, sua conversão aos quinze, vinte, trinta ou cinquenta anos não pode voltar no tempo e colocar fé pessoal dentro daquele ato praticado na infância.

O padrão bíblico continua sendo que o batismo cristão acompanha a fé daquele que é batizado.

  1. Voltemos à pergunta que realmente testa essa doutrina

Talvez a maneira mais simples de verificar as consequências dessa posição seja apresentar um caso concreto.

Um casal cristão tem um filho.

A criança é batizada porque seus pais creem.

Diz-se que ela foi retirada do paganismo e colocada na cristandade.

Ela cresce.

Aos dez, quinze, vinte anos ou mais, possui plena capacidade de compreender o Evangelho.

Entretanto, nunca se arrepende.

Nunca recebe pessoalmente o Senhor Jesus.

Nunca nasce de novo.

Nunca exerce fé salvadora em Cristo.

E morre nessa condição.

Pergunto:

Aquele batismo infantil modificou seu destino eterno?

Se a resposta for “sim”, então o batismo recebeu alguma eficácia espiritual independente da fé pessoal, e precisamos encontrar nas Escrituras onde Deus prometeu isso.

Se a resposta for “não”, então precisamos perguntar qual foi o significado espiritual real de dizer que o batismo a “retirou do paganismo e a colocou na cristandade”.

Porque, quanto à questão fundamental da relação daquela pessoa com Deus, permaneceu necessária a mesma coisa que seria necessária se ela jamais tivesse recebido aquele batismo:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

É justamente aí que aparece a inconsistência.

Não estamos discutindo aqui o destino eterno de bebês ou crianças que morrem antes de possuírem capacidade de responder pessoalmente ao Evangelho. Estamos falando de alguém que recebeu o batismo infantil, cresceu, tornou-se pessoalmente responsável diante da mensagem do Evangelho, mas nunca creu.

O batismo recebido dos pais não pode ocupar o lugar da fé que aquela pessoa jamais exerceu.

  1. A fé dos pais tem enorme importância, mas não pode substituir a fé do filho

A fé dos pais é preciosa.

Pais cristãos devem ensinar seus filhos:

“E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos” (Deuteronômio 6:6-7).

Devem criá-los:

“Na doutrina e admoestação do Senhor” (Epístola aos Efésios 6:4).

Devem orar por eles, ensinar-lhes as Escrituras e apresentar-lhes continuamente a pessoa e a obra do Senhor Jesus Cristo.

Mas existe algo que nenhum pai cristão pode fazer pelo filho: crer em seu lugar.

Os pais podem ensinar o Evangelho aos filhos, mas não podem arrepender-se pelos filhos.

Podem orar pelos filhos, mas não podem nascer de novo pelos filhos.

Podem levar os filhos às reuniões cristãs, mas não podem convertê-los.

Podem transmitir-lhes conhecimento bíblico, mas não podem transmitir-lhes vida eterna biologicamente.

Da mesma forma, sua fé não pode servir de substituto para a fé pessoal que, no padrão do Novo Testamento, precede o batismo.

  1. Portanto, reconheço a correção, mas permanece a divergência bíblica

Meu irmão, agradeço novamente sua observação. É importante representar corretamente aquilo que outros irmãos realmente ensinam.

Portanto, faço a correção: se esses irmãos não ensinam que a fé dos pais salva os filhos e não ensinam que o batismo infantil salva a criança, não devemos afirmar que eles ensinam isso.

Contudo, isso não resolve a questão bíblica.

Pelo contrário, leva-nos à pergunta principal:

Se a fé dos pais não salva o filho e o batismo não salva o filho, com que autoridade bíblica a fé dos pais é utilizada como base para administrar ao filho uma ordenança que, no Novo Testamento, acompanha a fé pessoal daquele que é batizado?

E onde encontramos no Novo Testamento a doutrina de que esse batismo retira uma criança do paganismo e a introduz na cristandade?

Não basta dar um nome a essa posição. É necessário demonstrá-la pelas Escrituras.

Quando examinamos os exemplos apostólicos, encontramos repetidamente:

“foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra” (Atos dos Apóstolos 2:41);

“como cressem... se batizavam” (Atos dos Apóstolos 8:12);

o eunuco ouviu acerca de Jesus e então pediu o batismo (Atos dos Apóstolos 8:35-38);

Cornélio e os seus ouviram a Palavra e então foram batizados (Atos dos Apóstolos 10:44-48);

a Palavra foi anunciada ao carcereiro e à sua casa e então veio o batismo (Atos dos Apóstolos 16:31-34);

“muitos dos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados” (Atos dos Apóstolos 18:8).

O padrão é claro:

Evangelho → recepção da Palavra → fé pessoal → batismo.

Não:

fé dos pais → batismo dos filhos → entrada na cristandade → fé pessoal talvez muitos anos depois.

É por isso que considero que a questão não pode ser resolvida simplesmente dizendo que “o batismo não salva; apenas introduz na cristandade”. A própria ideia de introduzir pelo batismo alguém que ainda não creu numa posição cristã precisa de fundamento apostólico.

O batismo bíblico não é uma antecipação da fé futura.

Não é uma extensão da fé dos pais sobre os filhos.

Não é uma cerimônia que recebe posteriormente seu significado quando a pessoa finalmente se converte.

É o testemunho daquele que pessoalmente recebeu o Evangelho e professa pertencer ao Senhor Jesus Cristo.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Epístola aos Efésios 2:8-9).

Portanto, agradeço pela correção e pelo espírito respeitoso com que apresentou sua observação. É sempre proveitoso corrigirmos uma descrição quando ela não representa exatamente aquilo que outros irmãos ensinam. Mas, depois dessa correção, permanece intacta a necessidade de examinar o ensino à luz das Escrituras. E é nesse ponto que continuo não encontrando fundamento no Novo Testamento para o batismo infantil, seja ele apresentado como meio de salvação, seja apresentado apenas como meio de introduzir uma criança na cristandade.

Paz seja contigo também.

Josué Matos
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Qual a base bíblica para o dízimo no Novo Testamento? Ou é só oferta no Novo Testamento?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Qual a base bíblica para o dízimo no Novo Testamento? Ou é só oferta no Novo Testamento?

Minha Resposta:

Essa é uma pergunta importante, porque precisamos distinguir entre aquilo que Deus estabeleceu para Israel debaixo da Lei e aquilo que o Novo Testamento ensina às igrejas.

A resposta mais direta é: não encontramos no Novo Testamento um mandamento determinando que os cristãos entreguem obrigatoriamente dez por cento dos seus rendimentos. O princípio estabelecido para a Igreja é o da contribuição voluntária, regular, pessoal, proporcional e feita com alegria.

O dízimo aparece várias vezes no Antigo Testamento e estava incorporado ao sistema estabelecido por Deus para Israel. Os levitas, por exemplo, não receberam uma herança territorial como as demais tribos e eram sustentados pelos dízimos:

“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo seu serviço que exercem, o serviço da tenda da congregação” (Números 18:21).

Encontramos também instruções sobre os dízimos em Levítico 27:30-33; Deuteronômio 12:17-19; 14:22-29 e 26:12-15.

É verdade que o dízimo aparece antes da Lei de Moisés. Abraão deu a Melquisedeque “o dízimo de tudo” (Gênesis 14:20), acontecimento posteriormente mencionado em Hebreus 7:1-10. Jacó também prometeu dar a Deus o dízimo de tudo quanto recebesse (Gênesis 28:20-22).

Entretanto, é importante observar que esses acontecimentos não aparecem no Novo Testamento como mandamentos estabelecendo que os cristãos devam entregar obrigatoriamente dez por cento.

E Mateus 23:23?

Algumas pessoas apresentam as palavras do Senhor Jesus aos fariseus como prova de que o dízimo continua obrigatório:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas e não omitir aquelas” (Mateus 23:23).

Devemos observar cuidadosamente o contexto. O Senhor estava falando aos escribas e fariseus, judeus que ainda se encontravam debaixo da Lei. A Igreja ainda não havia sido formada. A morte, ressurreição e ascensão do Senhor Jesus ainda não haviam ocorrido, e o Espírito Santo ainda não havia descido no dia de Pentecostes, conforme Atos dos Apóstolos 2.

Por isso, Mateus 23:23 não pode simplesmente ser transformado numa ordenança dada à Igreja. O Senhor reconheceu ali uma obrigação existente dentro da dispensação em que aqueles judeus viviam.

O mesmo acontece em Lucas 11:42. Em Lucas 18:12, o fariseu declara: “dou os dízimos de tudo quanto possuo”, mas evidentemente essa declaração também não constitui uma ordem dada à Igreja.

E Hebreus capítulo 7?

Hebreus 7 fala bastante sobre dízimos, especialmente do dízimo que Abraão deu a Melquisedeque. Porém, o propósito da passagem não é estabelecer uma regra financeira para as igrejas. O assunto é a superioridade do sacerdócio de Melquisedeque em relação ao sacerdócio levítico e, principalmente, a superioridade do sacerdócio do Senhor Jesus Cristo.

O próprio argumento de Hebreus mostra a mudança ocorrida:

“Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” (Hebreus 7:12).

Portanto, usar Hebreus 7 para estabelecer uma cobrança obrigatória de dez por cento à Igreja não corresponde ao propósito da passagem.

Qual é, então, o princípio para a Igreja?

Um dos textos mais claros encontra-se em 1 Coríntios 16:1-2:

“Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade.”

Observe que Paulo não disse: “cada um entregue o dízimo”. Ele apresenta princípios muito mais adequados à graça.

A contribuição deveria ser regular: “no primeiro dia da semana”.

Deveria ser individual: “cada um de vós”.

Deveria ser planejada: “ponha de parte”.

E deveria ser proporcional: “conforme a sua prosperidade”.

Não encontramos uma porcentagem determinada.

O ensino fica ainda mais claro em 2 Coríntios:

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).

Aqui temos uma diferença importante. A contribuição cristã não deve ser resultado de coerção. Paulo diz “segundo propôs no seu coração”. Também diz “não com tristeza, ou por necessidade”.

Portanto, ninguém deveria transformar a contribuição cristã numa espécie de imposto religioso.

Isso significa que o cristão pode simplesmente não contribuir?

Também não.

Seria um erro sair do legalismo do dízimo obrigatório e cair no egoísmo de não contribuir.

O Novo Testamento não reduz a responsabilidade do cristão; pelo contrário, eleva-a. Em 2 Coríntios 8, os cristãos da Macedônia são apresentados como um exemplo extraordinário. Apesar de sua pobreza, contribuíram generosamente:

“Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente” (2 Coríntios 8:3).

A palavra importante aqui é “voluntariamente”.

Mas há algo ainda mais profundo no versículo 5:

“E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor e depois a nós, pela vontade de Deus” (2 Coríntios 8:5).

Esse é o verdadeiro fundamento da contribuição cristã: antes de entregar alguma coisa, o cristão reconhece que ele próprio pertence ao Senhor.

Isso concorda com Romanos 12:1:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”

O cristão não pertence dez por cento ao Senhor e noventa por cento a si mesmo. Tudo pertence ao Senhor: sua vida, seu corpo, seu tempo, seus bens e seus recursos. Somos administradores daquilo que Deus colocou em nossas mãos.

Além disso, o Novo Testamento ensina claramente que os recursos materiais devem ser utilizados para sustentar a obra de Deus e aqueles que trabalham nela.

Paulo escreve:

“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Coríntios 9:14).

Veja também 1 Coríntios 9:7-11; Gálatas 6:6; Filipenses 4:10-18 e 1 Timóteo 5:17-18.

Da mesma maneira, as contribuições eram usadas para ajudar irmãos necessitados. Isso aparece claramente em Atos dos Apóstolos 4:34-35; 11:27-30; Romanos 15:25-27; 1 Coríntios 16:1-4 e 2 Coríntios 8–9.

Portanto, não seria correto concluir: “Como não existe dízimo obrigatório, não preciso dar nada”.

O ensino é exatamente o contrário. O cristão deve contribuir, mas sua contribuição nasce da graça e não de uma porcentagem legalmente imposta.

E se alguém quiser dar dez por cento?

Não há problema algum.

Um cristão pode estabelecer dez por cento como referência pessoal para organizar suas contribuições. Outro poderá contribuir com quinze, vinte ou trinta por cento, dependendo da sua prosperidade, responsabilidades e exercício diante do Senhor. Em determinadas circunstâncias, alguém poderá dar muito mais.

O problema começa quando transformamos os dez por cento numa lei para a Igreja e afirmamos que todo cristão está biblicamente obrigado a entregar exatamente essa porcentagem.

Não encontramos tal mandamento nas epístolas.

Aliás, quando Paulo apresenta extensamente o assunto das contribuições em 1 Coríntios 16 e 2 Coríntios 8–9, seria a ocasião perfeita para dizer: “Entreguem dez por cento”. Mas ele não faz isso. Em vez disso, fala de prosperidade, disposição do coração, voluntariedade, generosidade e alegria.

Por isso, podemos resumir o ensino do Novo Testamento desta maneira: o dízimo de dez por cento não é apresentado como uma lei obrigatória para a Igreja; a contribuição, porém, é claramente ensinada. Ela deve ser regular, pessoal, planejada, proporcional à prosperidade, voluntária, generosa e alegre.

A graça não deveria produzir menos generosidade do que a Lei. Quem compreende quanto recebeu de Deus em Cristo não perguntará apenas: “Qual é o mínimo que preciso dar?”, mas procurará saber: “Quanto posso colocar à disposição do Senhor daquilo que Ele confiou às minhas mãos?”

Porque o grande modelo da contribuição cristã não é uma porcentagem, mas o próprio Senhor Jesus:

“Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (2 Coríntios 8:9).

Esse é o princípio da graça: não dar porque uma lei exige dez por cento, mas dar voluntariamente, proporcionalmente e com alegria porque primeiro recebemos tudo de Deus em Cristo.

Josué Matos

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Estou precisando de ajuda para melhor explicar Primeira Coríntios 11:15, onde diz: "pois o cabelo lhe foi dado em lugar de mantilha".

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Bom dia, irmão Josué. Estou precisando de ajuda para melhor explicar Primeira Coríntios 11:15, onde diz: "pois o cabelo lhe foi dado em lugar de mantilha".

Há mulheres que querem justificar o não uso do véu na congregação com este verso bíblico.

Minha Resposta:

Bom dia, irmão. Desculpe não ter respondido na hora. Quando o irmão me enviou a mensagem, eu estava saindo para caminhar. Agora voltei e preparei este texto para tentar explicar melhor 1 Coríntios 11:15, porque realmente esse versículo, quando é separado do restante do capítulo, pode dar a impressão de que o cabelo substitui o véu. Mas, quando acompanhamos o argumento de Paulo desde o início, percebemos que o cabelo comprido e o véu são duas coisas diferentes.

O versículo 15 diz:

“Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu.” — 1 Coríntios 11:15

A pergunta então é: se o cabelo foi dado à mulher “em lugar de véu”, por que ela precisaria usar também uma cobertura na cabeça na congregação?

A resposta fica mais simples quando não começamos pelo versículo 15, mas pelos versículos anteriores.

Em 1 Coríntios 11:5-6, Paulo fala da mulher que está com a cabeça descoberta. E então diz:

“Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também...”

Veja a importância desse argumento.

Paulo está falando de uma mulher que já possui cabelo. Tanto possui que ele diz que, se ela não quiser se cobrir, então que seja também tosquiada ou rapada.

Portanto, naquele momento existem duas coisas distintas:

1. O cabelo que a mulher já possui.
2. Uma cobertura que ela deve colocar sobre a cabeça.

Se o cabelo fosse o próprio véu dos versículos 5 e 6, o argumento de Paulo não faria sentido. Seria como se Paulo estivesse dizendo: “Se a mulher não tem cabelo, então corte o cabelo”. Isso seria contraditório.

Mas não é isso que ele diz.

Ele diz, em outras palavras: se ela não quer colocar a cobertura sobre a cabeça, então que corte também o cabelo. E, como é vergonhoso para a mulher ficar tosquiada ou rapada, Paulo conclui claramente:

“Que ponha o véu.” — 1 Coríntios 11:6

Então, este é o primeiro ponto que eu explicaria às irmãs: o próprio contexto mostra que cabelo e véu não são a mesma coisa.

Depois, chegando aos versículos 14 e 15, Paulo passa a falar da cobertura que a própria natureza deu à mulher.

Ele diz que é desonra para o homem ter cabelo crescido, mas:

“Ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso.”

Ou seja, Deus deu à mulher uma glória natural: o cabelo comprido.

Há inclusive uma diferença interessante nas palavras gregas usadas por Paulo.

Nos primeiros versículos, quando Paulo fala de a cabeça estar coberta, ele emprega palavras relacionadas ao verbo grego κατακαλύπτω — katakalyptō, que significa cobrir, velar, manter coberto.

Mas, no versículo 15, quando diz que o cabelo foi dado à mulher “em lugar de véu” ou “por cobertura”, a palavra é περιβόλαιον — peribólaion, que tem o sentido de cobertura, envoltório, algo que envolve ou cai ao redor.

Portanto, Paulo não está simplesmente repetindo no versículo 15 exatamente a mesma coisa que havia dito nos versículos 5 e 6.

Podemos entender assim, de uma maneira bem simples:

A mulher possui uma cobertura natural: o seu cabelo comprido.

E, quando está na reunião da igreja, usa uma cobertura sobre a cabeça: o véu, lenço ou mantilha.

Uma cobertura não elimina a outra.

Pelo contrário, as duas ensinam o mesmo princípio espiritual.

E qual é esse princípio?

Precisamos voltar ao versículo-chave de toda essa passagem, 1 Coríntios 11:3:

“Cristo é a cabeça de todo o varão, e o varão a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo.”

Esse é o assunto principal do capítulo: a ordem de chefia estabelecida por Deus.

Por isso o homem participa das reuniões com a cabeça descoberta, enquanto a mulher cobre a cabeça. São sinais visíveis de uma verdade espiritual.

Paulo ainda diz em 1 Coríntios 11:10:

“Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos.”

Ou seja, existe alguma coisa sobre a cabeça dela que manifesta exteriormente o reconhecimento da autoridade estabelecida por Deus.

Depois, nos versículos 14 e 15, Paulo mostra que a própria natureza confirma essa distinção: o cabelo comprido é desonroso para o homem, enquanto o cabelo comprido é glória para a mulher.

Então podemos resumir assim:

O homem: cabelo curto e cabeça descoberta na reunião.

A mulher: cabelo comprido e cabeça coberta na reunião.

São duas distinções que caminham juntas.

Há ainda uma maneira muito simples de mostrar que o versículo 15 não pode significar: “Como tenho cabelo, não preciso usar véu.”

Se essa interpretação fosse correta, teríamos que voltar ao versículo 6 e perguntar:

Por que Paulo mandaria colocar o véu?

Ele diz expressamente:

“Que ponha o véu.”

Não faria sentido Paulo ensinar nos versículos 5 e 6 que a mulher deve se cobrir e, nove versículos depois, dizer que ela não precisa se cobrir porque já tem cabelo.

Isso faria Paulo contradizer a si mesmo dentro de poucos versículos.

Não há contradição quando entendemos que são duas coberturas diferentes.

O cabelo é a cobertura natural, a glória que Deus deu à mulher.

O véu é a cobertura colocada sobre a cabeça no contexto da reunião, manifestando a ordem de chefia estabelecida por Deus.

Por isso, quando alguém usa somente a última frase do versículo 15 — “o cabelo lhe foi dado em lugar de mantilha” — para dizer que a irmã não precisa usar véu, está isolando essa frase de todo o raciocínio que Paulo começou no versículo 3 e desenvolveu até o versículo 16.

É preciso ler o capítulo inteiro.

E há outro detalhe importante: Paulo não fundamenta isso simplesmente num costume de Corinto. Nos versículos 7 a 9, ele volta até Gênesis, capítulos 1 e 2, à criação do homem e da mulher. No versículo 10 menciona os anjos. Nos versículos 14 e 15 apela à natureza. E no versículo 16 termina mencionando “as igrejas de Deus”.

Portanto, o argumento é muito mais amplo do que um costume local de Corinto.

Assim, eu explicaria às irmãs com bastante simplicidade:

“Irmãs, o cabelo comprido não substitui o véu. Se substituísse, Paulo não poderia dizer no versículo 6: ‘que ponha o véu’. O cabelo comprido é a cobertura natural e a glória que Deus deu à mulher; o véu é a cobertura que ela coloca sobre a cabeça na reunião, como sinal da ordem de chefia ensinada desde o versículo 3. Uma coisa não anula a outra.”

E é importante ensinar isso com mansidão, sem transformar o véu simplesmente numa regra da congregação. A irmã precisa compreender por que usa o véu. Quando compreende o princípio da chefia, deixa de ser apenas “a igreja manda usar” e passa a ser uma maneira consciente de honrar a ordem que Deus estabeleceu.

No final, o assunto não é simplesmente um pedaço de tecido sobre a cabeça. O assunto maior é a honra devida a Cristo e a submissão à ordem estabelecida por Deus na Sua Palavra.

Josué Matos

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PRIMEIRA CORÍNTIOS 11:1-16

 

A Ordem Divina da Chefia, a Cobertura da Cabeça e o Cabelo

A primeira epístola aos Coríntios foi escrita aproximadamente no ano 57 d.C., quando o apóstolo Paulo estava em Éfeso, durante aquele período de três anos relacionado com a sua terceira viagem missionária.

Paulo tinha ouvido, por intermédio da família de Cloé, acerca de certas desordens existentes na igreja em Corinto. Além disso, tinha recebido uma carta, provavelmente enviada por pessoas daquela igreja, na qual eram levantadas determinadas questões. Por isso, o apóstolo escreveu esta epístola, tratando de vários assuntos relacionados com a vida e o funcionamento de uma igreja de Deus.

Podemos dividir a epístola, de maneira simples, da seguinte forma:

  • capítulos 1 a 4 — unidade;

  • capítulos 5 a 7 — santidade;

  • capítulos 8 a 10 — liberdade;

  • capítulos 11 a 14 — os ajuntamentos da igreja;

  • capítulo 15 — ressurreição;

  • capítulo 16 — coletas.

Nos capítulos 11 a 14 encontramos várias referências às ocasiões em que os crentes se ajuntam. Isso indica que Paulo está tratando especificamente do procedimento relacionado com as reuniões da igreja e daquilo que deve acontecer nesses ajuntamentos.

O capítulo 11 pode ser dividido em duas partes principais. Os versículos 1 a 16 tratam da chefia e dos sinais visíveis relacionados com ela; os versículos 17 a 34 tratam da Ceia do Senhor.

É significativo que Paulo trate da chefia antes de tratar da Ceia do Senhor. Havia coisas em Corinto que precisavam ser corrigidas antes que o apóstolo abordasse a Ceia.

Os primeiros dezesseis versículos também podem ser divididos em três partes:

Versículos 1 a 6 — o princípio.
O princípio fundamental aparece especialmente no versículo 3: Deus estabeleceu uma ordem de chefia que precisa ser reconhecida.

Versículos 7 a 12 — o protótipo.
Paulo leva os nossos pensamentos de volta a Gênesis, capítulos 1 e 2. Adão e Eva apresentam o padrão estabelecido por Deus desde a criação.

Versículos 13 a 16 — aquilo que é próprio e a própria natureza.
Aquilo que é apropriado, juntamente com o testemunho da natureza, confirma a distinção estabelecida por Deus entre o homem e a mulher.


1 CORÍNTIOS 11:1

“Sede meus imitadores, como também eu de Cristo”

Na realidade, este versículo pertence ao final do assunto tratado no capítulo 10. Ali Paulo está tratando da liberdade cristã e explica como procurou fazer tudo o que era possível para alcançar almas.

Em determinadas circunstâncias, ele estava disposto a abrir mão dos seus próprios direitos, desde que isso não significasse violar a Palavra de Deus, a fim de ganhar pessoas para Cristo.

Por isso ele podia dizer:

“Sede meus imitadores, como também eu de Cristo.”

Em outras palavras: façam aquilo que eu faço; imitem o meu exemplo.

Também nós devemos ter essa disposição. Devemos fazer tudo aquilo que pudermos, sem infringir a Palavra de Deus, para alcançar almas para Cristo.


1 CORÍNTIOS 11:2

Paulo começa elogiando os coríntios

Paulo inicia esta seção dizendo que louva os irmãos porque eles se lembravam dele e conservavam os ensinamentos que lhes haviam sido transmitidos.

É interessante comparar isso com o versículo 17. No versículo 2, Paulo pode dizer:

“Eu vos louvo.”

Mais adiante, porém, no versículo 17, ele precisa dizer:

“Não vos louvo.”

Há aqui um princípio importante. Antes de censurar ou corrigir, Paulo reconhece aquilo que havia de recomendável nos coríntios.

Encontramos algo semelhante nas cartas dirigidas pelo Senhor Jesus às sete igrejas da Ásia, em Apocalipse, capítulos 2 e 3. Antes de censurar aquilo que estava errado, o Senhor reconhecia aquilo que podia ser elogiado.

Naturalmente, Esmirna e Filadélfia não receberam as mesmas censuras das demais igrejas, pois estavam andando de maneira diferente. Mas, nas outras, antes da repreensão, encontramos palavras de reconhecimento.

Isso nos ensina uma lição prática. Quando precisamos corrigir um irmão ou uma irmã, é bom reconhecer primeiramente aquilo que há de recomendável naquela pessoa. Não devemos procurar apenas aquilo que está errado.

Paulo tinha ensinado os coríntios durante aproximadamente dezoito meses de trabalho entre eles, na sua segunda viagem missionária. Em boa medida, eles se lembravam dos seus ensinamentos e os praticavam. Por isso Paulo podia elogiá-los.

Entretanto, havia áreas nas quais tinham se afastado seriamente do padrão apostólico, e algumas delas seriam tratadas a partir deste ponto.


1 CORÍNTIOS 11:3

O princípio fundamental da chefia

“Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão, e o varão a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo.”

Este é o versículo-chave desta seção e talvez possamos considerá-lo o versículo-chave de toda esta primeira parte do capítulo.

Cada expressão é importante.

Paulo apresenta três relações:

Deus → Cristo → homem → mulher.

Ele diz que:

  • Deus é a cabeça de Cristo;

  • Cristo é a cabeça do homem;

  • o homem é a cabeça da mulher.

Trata-se de uma ordem estabelecida por Deus e que deve ser respeitada.

É interessante que Paulo comece mencionando Cristo. Alguém poderia perguntar: “Se Deus é a cabeça de Cristo, por que Paulo não começou com Deus?”

Quando estudamos cuidadosamente os escritos de Paulo, percebemos que muitas vezes aquilo que ele coloca primeiro recebe especial destaque. Aqui ele deseja salientar Cristo.

Cristo é a Pessoa central. Ele é Aquele que nos atrai. Ele deve ocupar o lugar central nos ajuntamentos da igreja.

Por isso Paulo começa:

“Cristo é a cabeça de todo o varão.”

Precisamos também distinguir, ainda que sejam assuntos relacionados, Cristo como Senhor e Cristo como Cabeça.

Quando pensamos em Cristo como Senhor, pensamos especialmente em propriedade e domínio. Ele é Senhor; pertencemos a Ele e estamos sob o Seu senhorio.

Quando pensamos em Cristo como Cabeça, o pensamento é particularmente de ordem, governo e autoridade. É Cristo dirigindo e exercendo a autoridade que Lhe pertence.

Portanto, nesta passagem, estamos tratando da ordem divina de chefia.

A partir desse princípio estabelecido no versículo 3, Paulo passa a mostrar como essa verdade deve ser expressa visivelmente.

Não basta dizer que reconhecemos a chefia estabelecida por Deus. Há sinais pelos quais essa ordem deve ser demonstrada.


1 CORÍNTIOS 11:4

O homem deve estar com a cabeça descoberta

“Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.”

A expressão “sua própria cabeça”, neste contexto, refere-se a Cristo, pois o versículo anterior declarou:

“Cristo é a cabeça de todo o varão.”

Imaginemos, portanto, um irmão presente numa reunião da igreja. Ele se levanta para orar ou profetizar e está com a cabeça coberta.

Segundo o ensino apostólico, ao fazer isso ele desonra a sua Cabeça, isto é, Cristo.

Aqui encontramos a razão pela qual os homens assistem às reuniões da igreja com a cabeça descoberta.

Não se trata simplesmente de um costume criado pelos irmãos.

Não se trata apenas de uma tradição.

O homem permanece com a cabeça descoberta porque deseja honrar o Senhor Jesus Cristo.

Cristo merece ser honrado.

Por isso, o varão não coloca sobre a cabeça véu, lenço, mantilha ou outra cobertura correspondente.

Sua cabeça permanece descoberta como reconhecimento visível da ordem estabelecida por Deus.


1 CORÍNTIOS 11:5

A mulher e a cabeça coberta

“Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua própria cabeça...”

Agora Paulo apresenta a situação correspondente da mulher.

Precisamos observar primeiramente uma questão que às vezes causa dificuldade. Paulo menciona aqui uma mulher orando ou profetizando. Isso significa que ele está autorizando uma irmã a levantar-se e falar audivelmente numa reunião da igreja?

Não.

Neste capítulo, Paulo não aprova nem censura diretamente essa prática. Ele está tratando de outro assunto: a chefia e a cobertura da cabeça.

O apóstolo mantém os assuntos organizados e trata de um problema de cada vez.

Para conhecermos a orientação apostólica quanto à participação audível das mulheres nas reuniões da igreja, precisamos chegar a 1 Coríntios 14:34-36, onde o assunto é tratado diretamente.

Ali é ensinado que não é permitido à mulher falar audivelmente nas reuniões da igreja, devendo permanecer em silêncio.

Portanto, 1 Coríntios 11:5 não deve ser usado para contradizer 1 Coríntios 14. Paulo simplesmente considera aqui a situação sob o aspecto da cobertura da cabeça, porque esse é o assunto que está tratando.

Quando uma mulher comparece ao ajuntamento com a cabeça descoberta, ela desonra a sua cabeça — isto é, o homem, segundo a ordem apresentada no versículo 3.

E, por consequência, a desordem acaba atingindo toda a sequência da chefia estabelecida por Deus.

Assim, a prática bíblica é que as irmãs usem uma cobertura sobre a cabeça ao participarem das reuniões da igreja.

Essa cobertura pode ser chamada de:

  • véu;

  • lenço;

  • mantilha;

  • cobertura da cabeça.

O elemento fundamental é que a cabeça da mulher esteja coberta.


1 CORÍNTIOS 11:5-6

Se não se cobre, que também se tosquie

Paulo fortalece seu argumento fazendo uma comparação bastante incisiva.

Se uma mulher se recusa a cobrir a cabeça, então, seguindo o raciocínio apostólico, que também seja tosquiada ou rapada.

Mas isso era considerado extremamente vergonhoso.

Mesmo no primeiro século, uma mulher aparecer publicamente com a cabeça rapada ou o cabelo tosquiado era algo humilhante. Poderia estar associado à condição de escrava ou, em determinadas circunstâncias, a uma mulher marcada pela vergonha do adultério.

A grande maioria das mulheres teria horror de aparecer dessa maneira.

Por isso o argumento chega a uma conclusão muito simples:

“Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.”

Em outras palavras: se ela reconhece a vergonha de eliminar aquilo que naturalmente distingue e honra a mulher, deve igualmente reconhecer a necessidade da cobertura prescrita para a ocasião em consideração.

Assim, Paulo encerra essa parte do argumento:

“Que ponha o véu.”


1 CORÍNTIOS 11:7

O homem é a glória de Deus e a mulher é a glória do homem

“O varão, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do varão.”

A partir daqui, Paulo leva nossos pensamentos de volta à criação.

Temos diante de nós Gênesis 1:26-27.

Deus criou o homem à Sua imagem.

Por isso Paulo ensina que o varão não deve cobrir a cabeça, pois é imagem e glória de Deus.

Essa glória deve ficar exposta.

Mais uma vez encontramos a razão doutrinária para o homem permanecer com a cabeça descoberta nas reuniões.

Depois Paulo acrescenta:

“Mas a mulher é a glória do varão.”

Nesta passagem encontramos uma sequência muito interessante:

  • o homem é a glória de Deus;

  • a mulher é a glória do homem;

  • posteriormente veremos que o cabelo comprido é a glória da mulher.

Podemos pensar numa roseira. A roseira é bela, mas qual é a sua glória? A rosa.

Da mesma maneira, o homem foi colocado por Deus como ponto culminante da criação terrestre. Nenhuma outra criatura ocupa a posição que Deus deu ao ser humano.

Por isso Paulo afirma que o homem é imagem e glória de Deus e, no contexto das reuniões da igreja, não deve cobrir a cabeça.


1 CORÍNTIOS 11:8

“A mulher provém do varão”

“Porque o varão não provém da mulher, mas a mulher do varão.”

Agora Paulo passa de Gênesis 1 para Gênesis 2.

Sabemos o que aconteceu na formação de Eva.

Deus fez Adão cair em profundo sono, tomou uma das suas costelas e dela formou a mulher. Depois apresentou a mulher ao homem.

Assim, historicamente, a primeira mulher procedeu do primeiro homem.

É exatamente isso que Paulo utiliza em seu argumento:

“A mulher [provém] do varão.”

A ordem da criação demonstra a precedência dada ao homem dentro da estrutura de chefia estabelecida por Deus.

Isso não significa que a mulher seja espiritualmente inferior ao homem.

Inferioridade não é o assunto.

O assunto é ordem e chefia.

Uma mulher espiritual reconhece a ordem estabelecida por Deus sem entender isso como uma declaração de menor valor pessoal ou espiritual.

É importante observar também uma diferença entre Efésios 5 e 1 Coríntios 11.

Em Efésios 5, encontramos especificamente a relação entre marido e esposa.

Aqui, porém, Paulo usa o princípio de maneira mais abrangente: ele está falando de homem e mulher, ou varão e mulher.

Portanto, o princípio de 1 Coríntios 11 não está limitado simplesmente ao relacionamento conjugal.


1 CORÍNTIOS 11:9

A mulher foi criada por causa do homem

“Porque também o varão não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do varão.”

Continuamos em Gênesis 2, especialmente Gênesis 2:18.

Ali encontramos o propósito declarado por Deus ao formar a mulher.

Ela seria uma ajudadora idônea para Adão.

Portanto, na ordem original da criação, o homem foi a razão para a formação da mulher.

Também nesse sentido Paulo demonstra a precedência do homem dentro da ordem estabelecida por Deus.

Não estamos falando de superioridade moral, intelectual ou espiritual.

Estamos falando da ordem da criação, que Paulo utiliza como fundamento para a doutrina da chefia.

Isso também demonstra que o ensino de 1 Coríntios 11 não pode ser descartado simplesmente como um costume social particular da cidade de Corinto.

Paulo fundamenta seu argumento na própria criação de Adão e Eva.


1 CORÍNTIOS 11:10

O sinal de autoridade sobre a cabeça

“Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos.”

Este versículo apresenta uma expressão que pode parecer mais difícil.

Talvez esperássemos que Paulo dissesse:

“sinal de sujeição”.

Mas encontramos a ideia de autoridade.

O sinal está sobre a cabeça da mulher.

Portanto, devemos observar a posição da mulher em relação a esse sinal: ela está debaixo dele.

Assim, ao colocar sobre a cabeça a cobertura que representa autoridade, ela demonstra visivelmente que reconhece estar debaixo da ordem de autoridade estabelecida por Deus.

É uma explicação simples:

o sinal de autoridade está sobre ela; ela voluntariamente ocupa o lugar que Deus lhe designou debaixo dessa autoridade.

Assim, a cobertura não é apresentada como objeto de inferiorização.

É um sinal visível de reconhecimento da ordem divina.

A irmã cristã, portanto, tem a responsabilidade de cobrir a cabeça nas ocasiões indicadas pela passagem.

Paulo acrescenta uma expressão solene:

“por causa dos anjos”.

Isso nos lembra que as reuniões da igreja têm uma dimensão que ultrapassa aquilo que os nossos olhos conseguem perceber. As inteligências celestiais observam a ordem de Deus sendo manifestada entre o Seu povo.

Por isso, aquilo que fazemos numa reunião da igreja não deve ser avaliado simplesmente pela moda, pelos costumes da sociedade ou pelas preferências pessoais.

Há princípios divinos sendo representados.


1 CORÍNTIOS 11:11-12

Homem e mulher são mutuamente dependentes no Senhor

Depois de estabelecer a precedência do homem na criação, Paulo evita qualquer conclusão errada de independência ou superioridade absoluta.

O homem e a mulher não são independentes um do outro no Senhor.

É verdade que a primeira mulher procedeu do homem.

Eva veio de Adão.

Mas, desde então, todo homem nasce de uma mulher.

Assim, existe uma bela dependência mútua.

E, acima de tudo:

“Tudo vem de Deus.”

A chefia bíblica, portanto, não dá ao homem licença para desprezar a mulher, tratá-la como inferior ou imaginar que não precisa dela.

Deus estabeleceu diferenças de posição e responsabilidade, mas também estabeleceu uma profunda dependência entre homem e mulher.

Tudo encontra a sua origem e ordem final no próprio Deus.


1 CORÍNTIOS 11:13

“É decente que a mulher ore a Deus descoberta?”

Paulo agora apela para aquilo que é próprio, apropriado e conveniente.

Ele convida os próprios leitores a julgarem a situação.

Quando uma irmã participa de uma reunião da igreja com a cabeça descoberta, algo está faltando em relação ao sinal exterior da posição que Deus deu à mulher.

A cobertura corresponde à ordem de chefia anteriormente estabelecida.

Por isso, a pergunta de Paulo praticamente conduz o leitor à resposta:

não é apropriado que a mulher esteja descoberta nessa situação.


1 CORÍNTIOS 11:14

O cabelo comprido no homem

“Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o varão ter cabelo crescido?”

Agora Paulo chama a atenção para a própria natureza.

Há uma distinção natural que deve ser preservada entre homem e mulher.

O cabelo comprido não corresponde ao sinal que a natureza atribui ao homem.

Por isso Paulo o chama de desonra para o varão.

Assim, além da cabeça descoberta nas reuniões, existe outra característica correspondente ao homem:

o cabelo curto.

Os sinais, portanto, harmonizam-se:

  • homem — cabeça descoberta e cabelo curto;

  • mulher — cabeça coberta nas reuniões e cabelo comprido.

Esses sinais visíveis expressam a distinção que Deus estabeleceu.


1 CORÍNTIOS 11:15

O cabelo comprido é a glória da mulher

“Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso...”

A palavra empregada transmite a ideia de glória.

O cabelo comprido é a glória da mulher.

Observe que Paulo não diz apenas “a irmã em Cristo”. Ele fala da mulher.

Trata-se de uma distinção relacionada à própria natureza.

Por isso devemos animar as irmãs a deixar o cabelo crescer ao seu comprimento natural.

Essa expressão é importante:

“Deixar o cabelo crescer ao comprimento natural”

O princípio apresentado não consiste em estabelecer uma medida em centímetros.

Paulo não diz:

  • até a cintura;

  • até os ombros;

  • tantos centímetros abaixo dos ombros;

  • determinada medida universal.

O princípio é que a mulher deixe crescer o seu cabelo, em contraste com o homem, para quem o cabelo comprido é apresentado como desonra.

Naturalmente, o comprimento alcançado não será idêntico em todas as mulheres. Há diferenças individuais na capacidade de crescimento, densidade, textura e comprimento natural do cabelo.

Por isso, não devemos estabelecer arbitrariamente uma medida que a Escritura não estabelece.

O ponto é preservar o sinal feminino apresentado no texto:

a mulher deixa o cabelo crescer, em vez de adotar deliberadamente o cabelo curto característico do homem.


“PORQUE O CABELO LHE FOI DADO EM LUGAR DE VÉU”

1 Coríntios 11:15 não elimina a cobertura dos versículos 5 e 6

Esta expressão precisa ser entendida cuidadosamente.

Alguém poderia argumentar:

“Se o cabelo foi dado à mulher em lugar de véu, então, tendo cabelo comprido, ela não precisa colocar outra cobertura sobre a cabeça durante a reunião.”

Mas essa conclusão não corresponde ao argumento do capítulo.

Se o cabelo comprido fosse a mesma cobertura exigida anteriormente, os versículos 5 e 6 perderiam o sentido.

Paulo já havia falado da mulher que não se cobre e havia dito:

“Se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também.”

Observe a distinção.

Ela possui cabelo, mas ainda assim Paulo pode dizer que ela está descoberta.

Além disso, ele argumenta que, se ela não quiser a cobertura, deveria também cortar ou rapar o cabelo.

Portanto, no raciocínio apostólico existem duas coisas distintas.

1. A cobertura colocada sobre a cabeça

É a cobertura usada no contexto das reuniões:

véu, lenço ou mantilha.

Ela constitui um sinal exterior relacionado com a ordem de chefia.

2. A cobertura natural

É o cabelo comprido da mulher.

Essa cobertura foi dada pela própria natureza e constitui a glória da mulher.

Portanto, a mulher entra na reunião apresentando duas coberturas:

uma cobertura natural — seu cabelo comprido;

e

uma cobertura colocada sobre a cabeça — o véu, lenço ou mantilha.

Uma não anula a outra.

O cabelo comprido não foi apresentado para cancelar o mandamento dos versículos anteriores.

Ao contrário, a cobertura natural confirma o mesmo princípio que a cobertura usada na reunião representa.

A natureza deu à mulher o cabelo comprido como sinal correspondente à sua posição; e, na reunião da igreja, ela acrescenta a cobertura prescrita pelo ensino apostólico.

As duas coisas apontam na mesma direção.


UMA OBSERVAÇÃO SOBRE AS PALAVRAS GREGAS PARA “COBERTURA”

Há uma distinção interessante no vocabulário empregado no capítulo.

Nos versículos em que Paulo fala de cobrir a cabeça, aparece o verbo grego relacionado a κατακαλύπτω — katakalyptō, com o sentido de cobrir, velar, manter coberto.

Já no final do versículo 15, quando Paulo diz que o cabelo foi dado à mulher “em lugar de véu” ou “por cobertura”, aparece outra palavra:

περιβόλαιον — peribólaion.

A palavra transmite a ideia daquilo que é lançado ou colocado ao redor, uma cobertura ou envoltório.

Essa diferença de vocabulário é importante porque reforça que não devemos simplesmente identificar, sem distinção, todas as referências do capítulo como se Paulo estivesse falando exatamente da mesma coisa.

Na primeira parte, ele trata da cabeça estar coberta ou descoberta no contexto da ordem da igreja.

No versículo 15, apresenta o cabelo comprido como uma cobertura natural concedida à mulher.

Assim, o cabelo comprido confirma, em vez de eliminar, o princípio anteriormente apresentado.


O QUE SIGNIFICA, NA PRÁTICA, “MANTER O CABELO CRESCIDO”?

O ensino apresentado nesta exposição é que a mulher deve deixar seu cabelo crescer ao comprimento natural.

Isso precisa ser distinguido de uma regra humana segundo a qual “uma mulher jamais poderá cortar sequer alguns milímetros do cabelo”.

O texto bíblico enfatiza o cabelo crescido/comprido em contraste com aquilo que caracteriza o homem.

Portanto, o princípio que deve governar a irmã é:

preservar conscientemente o cabelo comprido como a glória que Deus lhe deu.

Não seria correto transformar isso numa busca por uma medida mínima em centímetros, porque Paulo não forneceu tal medida.

Também precisamos reconhecer diferenças naturais. O cabelo de algumas mulheres cresce muito mais do que o de outras. Algumas possuem cabelo extremamente denso e pesado; outras possuem cabelo fino; algumas chegam naturalmente a comprimentos muito grandes; outras não.

A fidelidade ao princípio não pode ser medida simplesmente comparando o comprimento do cabelo de duas mulheres.

O importante é a disposição de conservar aquilo que a passagem apresenta como distintivo feminino: cabelo crescido ou comprido.


CONSIDERAÇÃO PRÁTICA: E QUANTO A APARAR AS PONTAS OU A PROBLEMAS REAIS COM O CABELO?

É necessário distinguir entre preservar o princípio bíblico e criar regras além daquilo que está escrito.

Podem existir circunstâncias excepcionais relacionadas ao peso, à densidade ou a outras dificuldades práticas. A Escritura não fornece uma tabela de centímetros nem regulamenta cada situação possível.

Por isso, não devemos estabelecer uma legislação que Deus não estabeleceu.

O princípio permanece:

“ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso.”

A aplicação deve procurar preservar esse princípio, e não descobrir uma maneira de contorná-lo.

Assim, diante de necessidades práticas, a pergunta principal não deveria ser:

“Quanto posso cortar sem pecar?”

Mas:

“Como posso resolver esta necessidade, preservando, tanto quanto possível, aquilo que Deus apresenta como glória da mulher?”

Isso coloca o coração na direção correta: submissão à Palavra, e não procura por uma medida mínima de obediência.


1 CORÍNTIOS 11:16

“Se alguém quiser ser contencioso”

“Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus.”

Paulo encerra o assunto antecipando a possibilidade de alguém desejar contender.

Não deveríamos abordar essas verdades com espírito de discussão ou procurando maneiras de escapar daquilo que foi ensinado.

Nas igrejas de Deus, esses símbolos deveriam ser mantidos como expressão visível da ordem divina de chefia.

Temos, portanto:

O HOMEM

  • cabeça descoberta nas reuniões;

  • cabelo curto.

A MULHER

  • cabeça coberta nas reuniões;

  • cabelo comprido.

Esses sinais demonstram exteriormente o grande princípio estabelecido no versículo 3:

Deus é a cabeça de Cristo.
Cristo é a cabeça do homem.
O homem é a cabeça da mulher.

Não são meros costumes inventados por determinada congregação.

São sinais que apontam para uma realidade maior.

Quando uma irmã cobre a cabeça na reunião e conserva o cabelo comprido, ela está reconhecendo visivelmente a ordem estabelecida por Deus.

Quando o irmão permanece de cabeça descoberta e mantém o cabelo curto, também está reconhecendo essa ordem.

Assim, tanto o homem quanto a mulher têm o privilégio de demonstrar, por sua conduta, a autoridade de Cristo e a ordem estabelecida por Deus.

O propósito final não é exaltar o homem sobre a mulher.

O propósito final é que Cristo seja honrado.

Quando cada pessoa ocupa voluntariamente o lugar que Deus lhe deu, a ordem divina é manifestada na igreja.

É por isso que devemos continuar mantendo esses símbolos nas reuniões públicas da igreja, não simplesmente porque “sempre fizemos assim”, mas porque desejamos sujeitar-nos à Palavra de Deus e dar ao Senhor Jesus Cristo o lugar que Lhe pertence.

“Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o varão, e o varão a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo.” — 1 Coríntios 11:3

Josué Matos

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