Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Bom dia, irmão Josué.
Bem interessante a mensagem de hoje (11/03/26) sobre os "filhos de Deus".
Li rapidamente a minha Bíblia Septuaginta em português. E, salvo melhor juízo, você está certo.
Veja o texto da Septuaginta anexo.
Minha Resposta:
Bom dia, irmão.
Agradeço muito por ter dedicado tempo para verificar o texto na Septuaginta e por ter compartilhado essa observação comigo. Fico contente em saber que o irmão foi conferir diretamente no texto, pois isso demonstra o cuidado que devemos ter ao examinar as Escrituras.
De fato, a Septuaginta apresenta uma tradução que, à primeira vista, pode levar o leitor a pensar em seres angelicais naquele trecho de Gênesis. Isso acontece porque os tradutores gregos, ao lidarem com a expressão hebraica original, optaram por uma forma que reflete uma interpretação já existente entre alguns judeus daquele período. Entretanto, é importante lembrar que a Septuaginta é uma tradução — antiga e valiosa, sem dúvida — mas ainda assim uma tradução interpretativa do texto hebraico.
No texto hebraico de Gênesis 6:2 aparece a expressão “bene haElohim”, literalmente “filhos de Deus”. Essa mesma expressão é usada em diferentes contextos no Antigo Testamento e nem sempre se refere a anjos. O ponto essencial da interpretação deve considerar não apenas a expressão isolada, mas todo o contexto bíblico e a linha geral da revelação.
Observando o desenvolvimento do texto em Gênesis, percebemos que o capítulo anterior apresenta duas linhagens distintas: a descendência de Caim e a descendência de Sete. Em Gênesis 4 vemos a linha marcada pelo afastamento de Deus; já em Gênesis 4:26 lemos que “então se começou a invocar o nome do Senhor”. Essa observação prepara o leitor para entender que havia um testemunho daqueles que buscavam a Deus.
Assim, quando chegamos a Gênesis 6, a narrativa mostra a mistura dessas duas esferas: homens que tinham algum vínculo com o testemunho de Deus passaram a se unir indiscriminadamente com as “filhas dos homens”, expressão que indica o ambiente humano corrompido que se afastara de Deus. O resultado foi a completa degeneração moral da sociedade, culminando na declaração divina: “Viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra” (Gênesis 6:5).
Há também um ponto importante: o julgamento que segue no texto recai sobre a humanidade. O dilúvio vem por causa da corrupção do homem, não por causa de anjos. O texto afirma claramente: “O meu Espírito não contenderá para sempre com o homem” (Gênesis 6:3). Isso mostra que a responsabilidade moral apresentada ali é humana.
Outro detalhe relevante é que o Senhor Jesus, ao falar dos anjos, declarou que eles “não casam nem se dão em casamento” (Mateus 22:30). Isso torna difícil sustentar a ideia de anjos formando uniões matrimoniais na terra. A linha narrativa das Escrituras aponta muito mais para a deterioração do testemunho daqueles que deveriam andar com Deus, até restar apenas Noé e sua família como um remanescente fiel.
Portanto, embora a Septuaginta registre uma tradução que reflete uma interpretação antiga, quando observamos o texto hebraico, o contexto imediato e o ensino geral das Escrituras, a explicação que envolve a mistura entre aqueles que professavam conhecer a Deus e o mundo ao redor parece harmonizar-se melhor com o conjunto da revelação bíblica.
Agradeço novamente ao irmão por compartilhar a observação. Esse tipo de troca é sempre muito proveitosa, pois nos incentiva a voltar às Escrituras e examiná-las com mais cuidado, como os bereanos faziam diariamente para ver se as coisas eram assim (Atos 17:11).
Um forte abraço.