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Como proceder com "irmãos exclusivistas" que nos visitam?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, em casos de irmãos na comunhão das assembleias dos irmãos exclusivistas ou casa de oração nos visitar, se eles partem o pão nas suas assembleias locais, eles partem o pão com os irmãos abertos? Existe alguma recomendação ou observação sobre o assunto? Pergunto, pois tenho vários conhecidos, irmãos nessas situações, que pretendem nos visitar. Como não somos exclusivistas, preciso entender como proceder. Grato, irmão, paz seja contigo.

Minha Resposta:

Irmão, vamos então organizar o assunto de forma mais clara, distinguindo cuidadosamente os três pontos (a Mesa do Senhor, a Ceia do Senhor e a Recepção à Comunhão da assembleia local) que precisam ser compreendidos, e depois tratar da questão da carta de recomendação.

  1. A Mesa do Senhor

A Mesa do Senhor é um princípio espiritual e não meramente um ato local. Em 1 Coríntios 10:21 lemos: “Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.”

Aqui não está em foco simplesmente o momento da Ceia, mas a identificação com uma comunhão espiritual. A Mesa fala de:

– autoridade do Senhor,
– santidade do Senhor,
– comunhão com Ele,
– separação de tudo o que é contrário a Ele.

A Mesa é d’Ele. Nenhuma assembleia possui a Mesa. Nenhum grupo pode reivindicar exclusividade sobre ela. Ela representa a posição cristã de comunhão com Cristo ressuscitado e com todos os que são d’Ele.

Portanto, nunca se exclui alguém da “Mesa do Senhor” como se fosse possível retirá-lo do Corpo de Cristo. O que pode ocorrer é exclusão da comunhão prática numa assembleia local, o que o impede de participar da Ceia ali.

  1. A Ceia do Senhor

A Ceia do Senhor é o ato visível que expressa aquela comunhão. Em 1 Coríntios 11:23-26 vemos a instituição da Ceia. Ela é:

– memorial da morte do Senhor,
– anúncio da Sua morte até que venha,
– expressão da unidade do Corpo (1 Coríntios 10:17).

A Ceia não cria unidade; ela a declara. O pão é um só, porque o Corpo é um só.

Participar da Ceia é um privilégio ligado à comunhão prática. Por isso, em 1 Coríntios 11:28 lemos: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo.” A responsabilidade é pessoal, mas a assembleia também tem responsabilidade de guardar a santidade da comunhão (1 Coríntios 5).

  1. A comunhão prática numa assembleia local

Aqui entramos no aspecto administrativo.

A comunhão prática é a expressão local da unidade do Corpo. Ela envolve:

– recepção,
– disciplina,
– responsabilidade coletiva,
– reconhecimento mútuo.

Em Atos 2:42 vemos quatro coisas que caracterizavam a comunhão prática: doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações.

A disciplina em 1 Coríntios 5 mostra que alguém pode ser removido da comunhão local (“tirai dentre vós a esse iníquo”), mas isso não significa que deixou de pertencer ao Corpo de Cristo. Ele é excluído da comunhão prática, não da Mesa em seu sentido espiritual absoluto.

Por isso é fundamental distinguir:
– A Mesa é do Senhor e é universal.
– A Ceia é a expressão visível da Mesa.
– A comunhão local é a administração prática dessa comunhão.

  1. Sobre irmãos vindos de outras assembleias

Quando um irmão visita uma assembleia onde não é conhecido, a Escritura apresenta o princípio da recomendação.

Em Atos 18:27 lemos que os irmãos escreveram aos discípulos para que recebessem Apolo.
Em Romanos 16:1-2 Paulo recomenda Febe à assembleia em Roma.
Em 2 Coríntios 3:1 há referência às cartas de recomendação.

Portanto, o princípio bíblico da carta de recomendação existe. Ele não é formalismo, mas proteção:

– protege o visitante,
– protege a assembleia,
– evita constrangimentos,
– mantém ordem.

Se ninguém conhece o irmão visitante, é prudente pedir recomendação da assembleia onde ele está em comunhão. Isso não é desconfiança, é cuidado espiritual.

  1. A carta não é “chave automática”

Aqui é necessário equilíbrio.

Uma carta de recomendação não é, por si só, uma chave automática para entrar na comunhão.

Por quê?

Porque a recepção não depende apenas de um documento, mas da base sobre a qual aquela comunhão se estabelece.

Se o grupo de onde o irmão vem não mantém princípios neotestamentários básicos — como:

– sã doutrina quanto à Pessoa de Cristo,
– pureza moral,
– reconhecimento da unidade do Corpo,
– disciplina bíblica,

então uma carta daquele grupo não pode ser tratada como equivalente à recomendação de uma assembleia que anda segundo os princípios do Novo Testamento.

A comunhão bíblica não é meramente interdenominacional ou ecumênica. Ela é fundamentada na verdade.

2 João 10-11 é muito claro ao dizer que não devemos receber nem dar saudação àquele que não traz a doutrina de Cristo.

Logo:

– A carta é um meio de confirmação,
– mas a base da comunhão é doutrinária e moral,
– e a assembleia local permanece responsável diante do Senhor.

  1. Voltando à questão dos irmãos chamados exclusivistas

Se esses irmãos são:

– verdadeiramente salvos,
– não estão sob disciplina,
– não sustentam erro doutrinário,
– não estão ligados a práticas contrárias à verdade,

não há fundamento bíblico para recusá-los simplesmente por diferença de posição administrativa.

Se a intenção da visita é tentar introduzir os seus ensinos "exclusivistas", isto deve ser tratado antes de recebê-los.

Por outro lado, se a posição deles envolve princípios que neguem, na prática, a unidade do Corpo ou introduzam exclusivismo sectário como base de comunhão, isso precisa ser cuidadosamente discernido.

Cada caso deve ser tratado com oração, diálogo e clareza.

Conclusão

A Mesa do Senhor é universal.
A Ceia do Senhor é o memorial que expressa essa comunhão.
A comunhão prática é a administração local dessa verdade.

A carta de recomendação é um princípio bíblico saudável, mas não substitui o discernimento espiritual nem altera a responsabilidade da assembleia.

Que o Senhor nos conceda equilíbrio: nem exclusivismo humano, nem liberalidade descuidada, mas fidelidade à Sua Palavra.

Josué Matos