Alguém me escreveu no WhatsApp:
A paz, presbítero. Se estamos em um corpo corruptível e em nós não habita bem algum, como entender versículos como 1 João 5:18? Pecamos todos os dias, uns mais e outros menos.
Minha Resposta:
A dificuldade nessa passagem surge porque, à primeira vista, parece haver uma contradição entre duas verdades ensinadas na própria epístola de João. Por um lado, o apóstolo afirma claramente:
“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.” (1 João 1:8)
E também:
“Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso.” (1 João 1:10)
Portanto, João não está ensinando que o crente se torna uma pessoa absolutamente incapaz de pecar. Pelo contrário, ele reconhece que ainda existe pecado na vida do crente. Tanto é assim que escreve:
“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.” (1 João 2:1)
Assim, a própria epístola deixa claro que o crente ainda pode pecar.
Então, como entender 1 João 5:18?
“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca.”
A chave para compreender este versículo está na nova natureza que o crente recebe no novo nascimento. Quando uma pessoa crê no Senhor Jesus Cristo, Deus comunica uma nova vida. Essa nova vida é santa, divina e incompatível com o pecado.
A Escritura ensina que existem duas realidades no crente:
A velha natureza (a carne)
A nova natureza (a vida que vem de Deus)
O apóstolo Paulo descreve isso claramente:
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum.” (Romanos 7:18)
Aqui está exatamente o ponto mencionado em sua pergunta: na carne realmente não habita bem algum.
Mas ao mesmo tempo o crente recebeu uma nova vida de Deus. Essa vida não tem ligação com o pecado. Ela é caracterizada pela justiça e pela santidade. A nova natureza não peca porque procede de Deus.
Por isso João pode afirmar que aquele que é nascido de Deus “não peca”. Ele está falando da natureza que vem de Deus.
Em outras palavras, João não está dizendo que o crente nunca comete atos de pecado, mas que a vida divina que ele recebeu não vive na prática do pecado, nem tem o pecado como seu caráter.
Esse é o mesmo pensamento expresso em outro versículo da mesma epístola:
“Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado, porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.” (1 João 3:9)
A “semente” mencionada ali é a vida divina implantada no crente. Essa vida é santa e não pode produzir pecado.
Contudo, enquanto o crente ainda vive neste corpo, existe um conflito entre a carne e o Espírito. Paulo descreve esse conflito assim:
“Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro.” (Gálatas 5:17)
Portanto, o crente pode pecar quando anda segundo a carne. Mas isso não é o caráter da nova vida que ele recebeu de Deus.
Por isso João acrescenta ainda no versículo:
“...o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca.”
Isso mostra duas coisas importantes:
Primeiro, o crente possui uma nova vida que o preserva do domínio do pecado.
Segundo, o maligno não pode dominar essa vida que procede de Deus.
O diabo pode tentar, acusar e perturbar, mas não pode destruir a vida divina que Deus implantou no crente.
Assim, 1 João 5:18 não ensina perfeição sem pecado na vida presente, mas ensina que a nova vida recebida no novo nascimento não vive no pecado como estilo de vida.
O verdadeiro nascido de Deus pode cair, pode falhar, pode pecar — mas não permanece no pecado, não vive no pecado e não tem o pecado como prática habitual.
Isso distingue o verdadeiro crente do mundo. João conclui dizendo:
“Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno.” (1 João 5:19)
Portanto, a presença ocasional de pecado na vida do crente não nega o novo nascimento; o que a Palavra de Deus ensina é que aquele que realmente nasceu de Deus não vive na prática contínua e deliberada do pecado, pois a vida de Deus nele produz um novo caráter e um novo caminho.