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Eles confundem o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Graça e paz, irmão Josué.

Conversei com um judeu, e ele disse que acredita que, quando vier a ressurreição, eles irão morar na Terra restaurada e não subirão para o terceiro céu.

É isso mesmo que ensina a tradição judaica?

Eles confundem o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem?

Minha Resposta:

A sua pergunta envolve dois assuntos que precisam ser separados: primeiro, qual é a esperança de Israel apresentada no Antigo Testamento; segundo, o que o Novo Testamento acrescenta a essa revelação.

Em certo sentido, aquilo que esse judeu lhe falou tem uma base compreensível no Antigo Testamento. A esperança profética dada a Israel está fortemente relacionada com a Terra, com a restauração da nação, com Jerusalém e com o reino do Messias. Porém, a revelação completa das Escrituras vai além disso.

  1. A esperança nacional de Israel está realmente relacionada com a Terra

Deus fez promessas literais a Abraão e aos seus descendentes. Em Gênesis 12:1-3, Gênesis 13:14-17 e Gênesis 15:18, encontramos a promessa da terra.

Posteriormente, os profetas desenvolveram amplamente essa esperança. Por exemplo:

“E acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes e se exalçará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações” (Isaías 2:2).

Isaías apresenta ainda um período em que o Messias governará em justiça, haverá transformação nas condições da criação e “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:1-9).

Ezequiel também fala da restauração de Israel:

“E vos tomarei dentre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra” (Ezequiel 36:24).

Encontramos a mesma esperança em Jeremias 30:3; Jeremias 31:8-14; Ezequiel 37:21-28; Amós 9:11-15; Miquéias 4:1-8; Zacarias 8:1-8 e Zacarias 14:9-21.

Portanto, o judeu com quem o irmão conversou não está simplesmente inventando uma esperança terrena. Existe realmente no Antigo Testamento uma expectativa muito forte de restauração de Israel e de um reino messiânico estabelecido sobre a Terra.

O problema aparece quando se pensa que isso constitui toda a revelação de Deus acerca do destino dos santos ressuscitados.

  1. O próprio Antigo Testamento ensina a ressurreição

A ressurreição também fazia parte da esperança de Israel.

Daniel escreveu:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12:2).

O Senhor Jesus confirmou que a esperança da ressurreição já estava implícita na revelação dada aos patriarcas. Respondendo aos saduceus, que negavam a ressurreição, Ele citou Êxodo 3:6:

“Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22:32).

Isso é muito importante. Abraão recebeu promessas que não foram plenamente cumpridas durante sua vida terrena. Hebreus 11:13 diz que aqueles homens “morreram na fé, sem terem recebido as promessas”.

Assim, a ressurreição está ligada também à fidelidade de Deus às Suas promessas.

  1. Entretanto, Abraão esperava mais do que simplesmente uma Terra restaurada

Aqui o Novo Testamento acrescenta algo extraordinário.

Sobre Abraão, lemos:

“Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10).

Depois lemos:

“Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial” (Hebreus 11:16).

Portanto, seria incompleto afirmar simplesmente que todos os santos israelitas ressuscitarão para permanecer na Terra em condições semelhantes às pessoas que entrarão vivas no reino milenar.

Existe uma diferença importante entre Israel restaurado como nação sobre a Terra e os santos ressuscitados e glorificados.

Durante o reino milenar haverá pessoas vivendo naturalmente sobre a Terra. Israel terá seu lugar determinado por Deus, Jerusalém terá importância especial e Cristo exercerá Seu governo universal. Isaías 11; Isaías 35; Isaías 65:18-25; Jeremias 31; Ezequiel 36–37; Zacarias 14 e Apocalipse 20 apresentam diferentes aspectos desse reino.

Mas os ressuscitados pertencem a uma condição diferente. Ressurreição não significa simplesmente retornar à antiga existência natural.

  1. Precisamos também distinguir Israel da Igreja

Aqui encontramos outra diferença fundamental.

As promessas nacionais de Israel não devem ser transferidas para a Igreja, assim como as promessas específicas dadas à Igreja não devem ser confundidas com aquelas dadas a Israel.

A esperança característica da Igreja é celestial.

O Senhor Jesus disse aos discípulos:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas [...] vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós também” (João 14:2-3).

Paulo explica:

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:16-17).

Portanto, para a Igreja, a questão central nem sequer é simplesmente “onde iremos morar?”, mas “com quem estaremos?”

“E assim estaremos sempre com o Senhor.”

Esta é a esperança cristã.

  1. O terceiro céu

A expressão “terceiro céu” aparece claramente em 2 Coríntios 12:2, quando Paulo diz:

“Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos [...] foi arrebatado ao terceiro céu.”

No versículo 4, Paulo relaciona essa experiência com o “paraíso”.

Entretanto, devemos ter cuidado para não transformar a expressão “terceiro céu” numa fórmula aplicada indistintamente a todas as promessas escatológicas.

A Bíblia apresenta diferentes grupos dentro do programa profético de Deus: a Igreja, Israel, os santos do Antigo Testamento e aqueles que serão salvos durante os acontecimentos futuros. Todos são salvos pela obra de Cristo, mas isso não significa que todas as promessas feitas a eles sejam idênticas.

  1. E quanto ao “Dia do Senhor” e à “vinda do Filho do Homem”?

Aqui eu faria uma pequena correção na forma da pergunta.

Não devemos dizer simplesmente que os judeus “confundem” o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem, porque biblicamente existe realmente uma relação entre essas duas coisas.

O “Dia do Senhor” é uma expressão muito importante dos profetas.

Isaías 2:10-21 mostra o Senhor intervindo diretamente na história humana, humilhando a soberba dos homens.

Joel declara:

“Porque o dia do Senhor está perto” (Joel 2:1).

Sofonias 1:14 diz:

“O grande dia do Senhor está perto.”

Zacarias 14 também associa o Dia do Senhor à intervenção divina, ao juízo das nações e ao estabelecimento do governo do Senhor.

O Novo Testamento conserva essa expressão. Veja Atos dos Apóstolos 2:20; 1 Tessalonicenses 5:2; 2 Tessalonicenses 2:2 e 2 Pedro 3:10.

  1. A vinda do Filho do Homem está inserida nesse cenário

Quando chegamos aos Evangelhos, encontramos repetidamente a expressão “Filho do Homem” relacionada com a Sua manifestação em glória.

O Senhor disse:

“Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mateus 24:27).

E depois:

“E verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:30).

Compare também Mateus 16:27; Mateus 24:37-44; Mateus 25:31; Marcos 13:26; Lucas 17:24-30 e Lucas 21:27.

Tudo isso remonta especialmente à profecia de Daniel:

“Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem” (Daniel 7:13).

Portanto, o Dia do Senhor e a manifestação do Filho do Homem não são duas ideias completamente desconectadas.

O Dia do Senhor é um período mais amplo da intervenção e supremacia pública de Deus sobre a Terra. Dentro desse programa encontra-se a manifestação gloriosa de Cristo como Filho do Homem.

  1. O ponto que precisa ser distinguido é o arrebatamento da Igreja

Aqui está uma distinção muito importante.

O arrebatamento descrito em João 14:1-3, 1 Coríntios 15:51-52 e 1 Tessalonicenses 4:13-18 não deve ser confundido com a manifestação pública do Filho do Homem descrita, por exemplo, em Mateus 24:27-31.

No arrebatamento, Cristo vem para receber os Seus.

Na manifestação, Cristo vem com os Seus.

No arrebatamento, o encontro é “nos ares” (1 Tessalonicenses 4:17).

Na manifestação, Ele aparece publicamente em poder e grande glória (Mateus 24:30).

O arrebatamento pertence particularmente à esperança da Igreja. A manifestação do Filho do Homem está relacionada com Sua intervenção pública na Terra, o julgamento e o estabelecimento do Seu reino.

Colossenses 3:4 mostra muito bem essa diferença:

“Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.”

  1. Portanto, há uma parte verdadeira no que esse judeu lhe falou

Podemos resumir da seguinte maneira:

A esperança nacional de Israel é realmente terrena e está ligada à restauração da nação, à terra prometida e ao reino do Messias.

Porém, isso não significa que a revelação bíblica sobre os santos ressuscitados se limite a uma existência terrena.

O Novo Testamento revela aspectos celestiais que o Antigo Testamento não desenvolvia plenamente.

Além disso, não podemos colocar Israel e a Igreja exatamente na mesma posição profética. Israel possui promessas nacionais e terrenas que Deus ainda cumprirá literalmente; a Igreja possui uma vocação celestial e aguarda o Senhor Jesus para ser arrebatada e estar para sempre com Ele.

Finalmente, o Dia do Senhor e a vinda do Filho do Homem não devem ser tratados como acontecimentos sem relação. A manifestação gloriosa do Filho do Homem está inserida no grande programa do Dia do Senhor. O que precisamos distinguir dessa manifestação pública é o arrebatamento da Igreja, que constitui a esperança própria daqueles que estão em Cristo nesta presente dispensação.

Assim, o judeu com quem o irmão conversou preserva, ainda que de maneira incompleta, algo da antiga esperança de Israel: ressurreição, restauração, Terra e reino. O que lhe falta é aquilo que somente pode ser compreendido plenamente à luz da revelação do Novo Testamento: Jesus de Nazaré é o Messias prometido, Ele já ressuscitou dentre os mortos, voltará para buscar a Sua Igreja e posteriormente Se manifestará como Filho do Homem em poder e grande glória, cumprindo também as promessas que Deus fez a Israel.

Josué Matos

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