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Devemos repreender o inimigo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Boa noite, irmão.

Há um certo costume/doutrina entre os crentes denominacionais de, quando enfrentam alguma situação adversa, dizerem que têm que repreender o inimigo. Eu não encontrei nenhuma passagem na Bíblia que aprove essa prática.

Recordo-me daquela jovem adivinhadora que ficou atormentando os apóstolos, e eles expulsaram o demônio dela. Também me recordo de uma situação de Paulo em que, numa das viagens, Satanás impediu a viagem. Mesmo assim, Paulo não repreendeu o inimigo. O mesmo Paulo, quando foi picado pela víbora, nada falou.

Estou falando isso porque hoje tive uma situação comum na vida de todos. Vou resumir: meu carro acendeu a luz da injeção eletrônica. Levei-o ao mecânico, e o carro saiu pior do que estava. Levei-o a outro mecânico, que constatou que o primeiro havia colocado uma vela de ignição errada, o que poderia ter fundido o motor.

Fiquei irado com o primeiro mecânico e me excedi em palavras. Já pedi perdão a Deus por isso, mas sei que isso em mim precisa mudar, e preciso confiar mais no Senhor, até mesmo em situações que podem nos prejudicar muito. Não adianta eu querer resolver tudo do meu jeito.

Eu creio que foi uma situação muito mais de Deus querendo me mostrar como devo agir do que o inimigo me atacando.

Passei o dia sem paz. Agora à noite, parei, abri a Bíblia e li alguns salmos, e a paz voltou (Salmos de Davi, do 12 ao 18).

Referente ao assunto, o que o irmão poderia dizer?

Minha Resposta:

Creio que o irmão percebeu corretamente dois aspectos importantes nessa experiência. O primeiro diz respeito à prática de “repreender o inimigo”; o segundo, ainda mais pessoal, diz respeito à maneira como Deus pode usar circunstâncias desagradáveis para trabalhar em nosso caráter.

Quanto ao primeiro ponto, realmente não encontramos no Novo Testamento uma orientação dada aos crentes para que, diante de cada dificuldade, problema financeiro, enfermidade, acidente, defeito mecânico ou outra adversidade, comecem a “repreender Satanás”. O ensino apostólico segue outra direção.

Há uma passagem particularmente esclarecedora em Judas 9. Quando Miguel, o arcanjo, contendia com o diabo acerca do corpo de Moisés, ele “não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda”. Se até Miguel, um arcanjo, não assumiu para si essa autoridade de pronunciar julgamento contra Satanás, devemos ter muita cautela com a maneira leviana como algumas pessoas hoje se dirigem diretamente ao diabo.

O ensino dado ao crente é:

“Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tiago 4:7).

Observe a ordem. Primeiro: “sujeitai-vos [...] a Deus”. Depois: “resisti ao diabo”. A resistência ao diabo não consiste em desafiar Satanás verbalmente, mas em permanecer sujeito a Deus e firme na fé.

Pedro ensina a mesma coisa:

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé” (Primeira Epístola de Pedro 5:8-9).

Portanto, temos três atitudes: sobriedade, vigilância e resistência firme na fé. Não encontramos a orientação: “repreendei o diabo”.

Isso não significa negar a realidade da atividade de Satanás. Muito pelo contrário. A Bíblia mostra claramente que Satanás é real e que pode se opor à obra de Deus. O próprio Paulo escreveu:

“Por isso bem quisemos uma e outra vez ir ter convosco, pelo menos eu, Paulo, mas Satanás no-lo impediu” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 2:18).

Paulo reconheceu que Satanás havia colocado um impedimento no seu caminho. Entretanto, é interessante que não encontramos Paulo dizendo: “Eu repreendo Satanás e determino que esse impedimento desapareça”. Ele reconheceu a ação do adversário, mas continuou dependendo da direção e providência de Deus.

Temos ainda Segunda Epístola aos Coríntios 12:7. Paulo fala de seu “espinho na carne” como “um mensageiro de Satanás para me esbofetear”. Qual foi a reação de Paulo? Ele não repreendeu Satanás. Ele foi ao Senhor:

“Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim” (Segunda Epístola aos Coríntios 12:8).

E o Senhor não removeu o espinho. Em vez disso, respondeu:

“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (Segunda Epístola aos Coríntios 12:9).

Isso é muito instrutivo. Algo que Paulo relacionava à atividade de Satanás estava, ao mesmo tempo, debaixo da soberania de Deus e sendo usado por Deus para produzir humildade no apóstolo.

A história de Jó apresenta o mesmo princípio. Satanás estava agindo, mas não podia ultrapassar os limites estabelecidos por Deus (Jó 1:10-12; 2:4-6). Jó não conhecia os acontecimentos que estavam ocorrendo no mundo espiritual. Mesmo assim, sua grande preocupação era sua relação com Deus.

Isso nos leva à situação que o irmão relatou.

Nem toda adversidade deve ser imediatamente atribuída a Satanás.

O carro apresentar defeito pode simplesmente fazer parte das circunstâncias normais da vida. Um mecânico cometer um erro pode decorrer de incompetência, descuido ou falha humana. Não precisamos procurar uma causa demoníaca para cada contratempo que encontramos.

Naturalmente, Satanás pode aproveitar circunstâncias para nos tentar. E talvez aí esteja uma distinção importante.

O problema mecânico pode não ter sido produzido por Satanás, mas a ira descontrolada certamente pode tornar-se uma oportunidade para o inimigo. Paulo escreve:

“Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo” (Epístola aos Efésios 4:26-27).

Veja como isso se aproxima da experiência que o irmão descreveu. O problema inicial estava no carro, mas rapidamente o problema mais importante passou para o coração.

A vela errada poderia prejudicar o motor; porém, a ira poderia prejudicar espiritualmente o irmão.

Talvez, portanto, a pergunta mais proveitosa não seja: “Foi Satanás que fez isso?”, mas: “O que Deus quer trabalhar em mim através disso?”

Tiago escreve:

“Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações, sabendo que a prova da vossa fé obra a paciência” (Tiago 1:2-3).

Deus pode usar circunstâncias extremamente comuns para revelar coisas que ainda precisam ser trabalhadas em nós. Às vezes imaginamos que conhecemos nosso coração até surgir uma circunstância que nos contraria profundamente. É nesse momento que aparece aquilo que estava escondido.

O irmão mesmo identificou isso quando escreveu: “Sei que isso em mim precisa mudar”.

Esse reconhecimento é muito importante.

O problema não está em perceber que houve pecado. O perigo seria justificar a ira dizendo: “Ele merecia ouvir aquilo porque quase estragou meu motor”. Pode até haver razão legítima para reclamar, exigir reparação ou responsabilizar alguém pelo prejuízo. O cristão não precisa aceitar passivamente uma injustiça. Mas uma coisa é buscar justiça; outra é pecar enquanto procuramos justiça.

Tiago diz:

“Todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus” (Tiago 1:19-20).

Podemos estar absolutamente certos quanto aos fatos e completamente errados quanto à maneira de reagir.

O mecânico poderia estar errado, mas isso não tornaria correta uma reação pecaminosa.

Por isso, creio que há bastante sabedoria no que o irmão percebeu: talvez Deus tenha permitido a circunstância para mostrar uma área que ainda precisa ser tratada.

Pedro escreve:

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (Primeira Epístola de Pedro 5:6-7).

E é significativo que imediatamente depois Pedro fale sobre Satanás:

“Sede sóbrios; vigiai...” (Primeira Epístola de Pedro 5:8).

Primeiro entregamos nossa ansiedade a Deus; depois permanecemos sóbrios e vigilantes diante do adversário.

Há ainda outro detalhe muito bonito no seu relato. O irmão disse que passou o dia sem paz, mas à noite abriu a Bíblia, leu os Salmos 12 a 18, e a paz voltou.

Isso também é muito instrutivo.

Davi conheceu circunstâncias incomparavelmente mais difíceis do que um problema material. Foi perseguido, caluniado, traído e ameaçado de morte. Entretanto, nos Salmos ele continuamente leva sua angústia para Deus.

No Salmo 13, justamente dentro da sequência que o irmão leu, Davi começa perguntando:

“Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” (Salmos 13:1).

Mas termina dizendo:

“Mas eu confio na tua benignidade; na tua salvação se alegrará o meu coração. Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem” (Salmos 13:5-6).

As circunstâncias talvez ainda não tivessem mudado. Quem mudou foi Davi diante das circunstâncias.

E no Salmo 18 encontramos:

“O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio” (Salmos 18:2).

Esse é o caminho.

A paz não voltou porque o problema do carro desapareceu naquele momento. A paz voltou quando o coração voltou a ocupar-se com Deus.

Há uma grande lição nisso.

Frequentemente queremos primeiro que Deus mude as circunstâncias para depois termos paz. Deus, porém, muitas vezes trabalha de maneira inversa: Ele muda nosso coração diante das circunstâncias e nos dá paz mesmo antes de o problema ser resolvido.

“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplicas, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Epístola aos Filipenses 4:6-7).

Portanto, irmão, eu resumiria assim: não precisamos viver procurando Satanás atrás de cada problema. Precisamos viver procurando a mão de Deus em todas as circunstâncias.

Quando houver realmente oposição do inimigo, a orientação bíblica é sujeitar-nos a Deus, vigiar e resistir firmes na fé. Quando houver uma provação, devemos perguntar o que Deus deseja produzir em nós. Quando pecarmos em nossa reação, devemos confessar o pecado, aprender com a queda e prosseguir. E quando a ansiedade roubar nossa paz, devemos fazer exatamente aquilo que o irmão fez: voltar à presença de Deus e à Sua Palavra.

Talvez o maior resultado de toda essa experiência não seja descobrir por que a luz da injeção eletrônica acendeu, mas descobrir algo que Deus quis iluminar dentro do coração.

O carro precisava de reparação, mas Deus mostrou que havia também algo em nós que precisava ser tratado.

E esse segundo conserto tem valor eterno.

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará” (Salmos 37:5).

Josué Matos

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