Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Boa tarde, irmão.
Ainda vou meditar na sua preciosa reflexão.
Mas segue outra pergunta...
Existe instrução direta para a Igreja, no Novo Testamento, praticar o jejum?
Minha Resposta:
Sim, o jejum aparece no Novo Testamento como uma prática legítima para os discípulos do Senhor e encontramos a igreja primitiva praticando-o. Entretanto, é importante fazer uma distinção: não encontramos nas epístolas uma ordem estabelecendo o jejum como uma obrigação periódica da igreja, com dias, duração ou frequência determinados.
Em outras palavras, o Novo Testamento não institui para a Igreja uma “lei do jejum”, como se todos os cristãos fossem obrigados a jejuar em determinados dias. Contudo, o Senhor Jesus reconheceu que Seus discípulos jejuariam, ensinou como deveriam fazê-lo, e posteriormente encontramos cristãos efetivamente jejuando no livro de Atos dos Apóstolos.
Em Atos dos Apóstolos 13:2, os irmãos em Antioquia jejuaram enquanto buscavam orientação quanto ao serviço; e, em Atos dos Apóstolos 14:23, Paulo e Barnabé oraram e jejuaram quando foram reconhecidos presbíteros nas igrejas.
O Senhor Jesus não aboliu o jejum
Uma passagem importante encontra-se em Mateus 6:16-18. Observe cuidadosamente a maneira como o Senhor começa:
“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas...” (Mateus 6:16).
Ele não disse: “Se jejuardes”, mas “quando jejuardes”. Assim como anteriormente havia dito “quando, pois, deres esmola” (Mateus 6:2) e “quando orares” (Mateus 6:5), agora diz “quando jejuardes”.
O assunto principal naquela passagem não é estabelecer quando ou quantas vezes o discípulo deve jejuar. O Senhor está corrigindo a maneira hipócrita de praticá-lo.
Os fariseus podiam transformar uma prática espiritual em demonstração pública de espiritualidade. Por isso, o Senhor ensina:
“Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6:17-18).
Portanto, o jejum não deveria servir para mostrar aos outros quão espiritual alguém é.
Cristo disse que chegaria o tempo em que Seus discípulos jejuariam
Talvez esta seja uma das passagens mais esclarecedoras sobre a pergunta.
Quando perguntaram ao Senhor por que os discípulos de João e os fariseus jejuavam, mas Seus discípulos não, Ele respondeu:
“Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” (Mateus 9:15).
O mesmo ensino aparece em Marcos 2:18-20 e Lucas 5:33-35.
Observe a última expressão:
“Então jejuarão.”
Durante a presença corporal de Cristo entre eles, aquele não era o momento apropriado para o jejum caracterizado pela tristeza e humilhação. O Noivo estava presente. Mas o Senhor antecipou Sua partida e declarou que depois disso Seus discípulos jejuariam.
Assim, não podemos afirmar que o jejum pertence exclusivamente ao judaísmo ou que desapareceu com a formação da Igreja. O próprio Senhor antecipou sua prática entre Seus discípulos depois de Sua partida.
A igreja em Antioquia praticava o jejum
Quando chegamos ao livro de Atos dos Apóstolos, encontramos exatamente isso acontecendo.
Atos dos Apóstolos 13 apresenta uma igreja local muito importante: Antioquia. Havia ali profetas e doutores, entre eles Barnabé e Saulo.
Então lemos:
“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (Atos dos Apóstolos 13:2).
E depois:
“Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (Atos dos Apóstolos 13:3).
Aqui já não estamos no período da Lei de Moisés. Estamos claramente dentro da história da Igreja.
Isso é muito significativo.
O jejum aparece associado à oração, à comunhão com Deus e a uma importante decisão relacionada à obra missionária. Não parece haver qualquer tentativa de impressionar pessoas. Pelo contrário, aqueles irmãos estavam buscando a vontade de Deus, e foi nesse contexto que o Espírito Santo tornou conhecida Sua vontade.
O jejum não dava autoridade ao Espírito Santo; preparava os servos para ouvi-Lo
Devemos tomar cuidado para não transformar o jejum numa espécie de mecanismo para obrigar Deus a agir.
Atos dos Apóstolos 13 não ensina que aqueles homens jejuaram para adquirir poder sobre Deus. Eles estavam “servindo ao Senhor e jejuando”.
O jejum bíblico está relacionado à humilhação, dependência e concentração nas coisas de Deus. A pessoa voluntariamente deixa de atender, durante determinado período, uma necessidade legítima do corpo para dedicar-se mais intensamente às coisas espirituais.
Por isso, jejum e oração aparecem juntos.
O jejum sem oração pode ser apenas abstinência de alimentos. O valor espiritual não está simplesmente em deixar de comer, mas no propósito diante de Deus.
Não encontramos uma legislação apostólica sobre o jejum
Aqui está uma distinção que considero muito importante.
Embora encontremos o jejum praticado no Novo Testamento, não encontramos nas epístolas instruções como:
“Todo cristão deverá jejuar uma vez por semana.”
Ou:
“A igreja deverá estabelecer determinado dia para jejum.”
Ou ainda:
“O jejum deverá durar tantas horas.”
Nada disso foi determinado.
Compare isso, por exemplo, com a Ceia do Senhor. Sobre ela encontramos instruções específicas para a igreja em 1 Coríntios 11:23-26.
Encontramos também instruções claras sobre oração em 1 Timóteo 2:1-8; sobre o ministério da Palavra em 1 Coríntios 14; sobre disciplina em 1 Coríntios 5; sobre os anciãos em 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9.
Quanto ao jejum, porém, não encontramos uma regulamentação semelhante.
Portanto, devemos evitar os dois extremos.
Um extremo seria dizer: “O cristão não deve jejuar porque o jejum pertence ao Antigo Testamento.”
Isso não corresponde ao Novo Testamento, pois o Senhor disse “então jejuarão”, e encontramos cristãos jejuando em Atos dos Apóstolos 13.
O outro extremo seria transformar o jejum numa ordenança obrigatória da Igreja, estabelecendo dias, horários e regras que o Novo Testamento não estabeleceu.
Também não temos autoridade bíblica para fazer isso.
O perigo do jejum como demonstração de espiritualidade
Existe ainda outro aspecto importante. O Senhor condenou severamente o jejum usado para alimentar orgulho religioso.
Na parábola do fariseu e do publicano, o fariseu dizia:
“Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lucas 18:12).
O problema não estava simplesmente em jejuar duas vezes por semana. O problema estava no coração daquele homem. Seu jejum havia se transformado em motivo de justiça própria.
Ele praticamente apresentava diante de Deus um currículo religioso.
O publicano, ao contrário:
“Nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lucas 18:13).
E foi este que desceu justificado para sua casa.
Portanto, o jejum pode ser uma prática espiritual legítima e, ao mesmo tempo, tornar-se carnal quando produz orgulho.
Jejum não torna alguém mais espiritual que outro
Também precisamos ter cuidado com isso.
Um irmão que jejua não deve considerar-se superior àquele que não jejua.
O jejum não acrescenta mérito à obra de Cristo. Não aumenta nossa aceitação diante de Deus. Não completa a justificação. Nossa posição diante de Deus está inteiramente fundamentada em Cristo e em Sua obra.
“Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1).
Portanto, não jejuamos para sermos aceitos por Deus. O crente já foi aceito no Amado, conforme Efésios 1:6.
O jejum pertence ao campo da vida prática e da disciplina espiritual, não ao fundamento da nossa salvação.
Então, a Igreja deve praticar o jejum?
Eu responderia da seguinte maneira:
O Novo Testamento reconhece e aprova o jejum como uma prática espiritual dos discípulos do Senhor. Cristo ensinou como deveria ser praticado e declarou que Seus discípulos jejuariam depois de Sua partida. Atos dos Apóstolos mostra cristãos jejuando e orando em conexão com o serviço do Senhor e a busca da Sua vontade.
Contudo, não existe uma ordem apostólica transformando o jejum numa obrigação ritual ou numa ordenança da igreja local, nem estabelecendo frequência, duração ou dias determinados.
Portanto, podemos dizer que o jejum é bíblico, mas não legalista; recomendável em circunstâncias apropriadas, mas não uma ordenança; espiritual quando acompanhado de oração e verdadeira dependência de Deus, mas inútil quando praticado para demonstrar piedade diante dos homens.
Talvez a melhor síntese esteja justamente nas palavras do Senhor:
“Quando jejuardes...” (Mateus 6:16).
Ele reconhece a prática.
“Não vos mostreis contristados como os hipócritas...” (Mateus 6:16).
Ele condena sua ostentação.
“Teu Pai, que vê em secreto...” (Mateus 6:18).
Ele mostra para quem o jejum verdadeiramente deve ser realizado.
E finalmente:
“Então jejuarão” (Mateus 9:15).
Ele próprio antecipou que haveria lugar para essa prática entre Seus discípulos depois de Sua partida.
Assim, irmão, há fundamento neotestamentário para o jejum cristão, inclusive exemplo dentro de uma igreja local. O que não encontramos é uma ordem para transformá-lo numa regra obrigatória ou num ritual periódico para toda a Igreja.
Josué Matos
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