Alguém que me escreveu no YouTube:
Quando um irmão pensa que o pedobatismo é válido, devemos considerar isso como má doutrina ou é um mal-entendido sobre o batismo?
Minha Resposta:
Creio que precisamos fazer uma distinção importante. O pedobatismo, isto é, o batismo de crianças que ainda não exerceram fé pessoal no Senhor Jesus Cristo, não encontra fundamento no ensino do Novo Testamento. Portanto, como ensino, é um erro doutrinário. Entretanto, isso não significa necessariamente que todo irmão que aceita o pedobatismo deva ser considerado um falso mestre ou alguém que ensina deliberadamente uma “má doutrina”. Em muitos casos, trata-se de um entendimento equivocado acerca da natureza, do significado e dos requisitos do batismo cristão.
É importante distinguir entre uma doutrina errada e a condição espiritual da pessoa que sustenta esse erro. Um verdadeiro crente pode estar errado sobre determinado assunto bíblico e ainda assim ser um irmão genuíno em Cristo. Áquila e Priscila encontraram Apolo, que era “eloquente e poderoso nas Escrituras”, mas cujo conhecimento ainda era incompleto. Então “lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:24-26). O caminho bíblico é ensinar e corrigir pelas Escrituras.
No caso do batismo, o padrão apresentado no Novo Testamento é bastante claro: primeiro vem a recepção da Palavra e a fé; depois, o batismo.
Em Atos dos Apóstolos 2:41 lemos: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra”. Portanto, receberam a Palavra e depois foram batizados.
Em Atos dos Apóstolos 8, quando o evangelho foi anunciado em Samaria, “como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres” (Atos dos Apóstolos 8:12). Novamente, a ordem é fé e depois batismo.
O mesmo princípio aparece no caso do eunuco etíope. Filipe anunciou-lhe Jesus e, depois de receber a mensagem, ele pediu para ser batizado (Atos dos Apóstolos 8:35-38).
Também encontramos essa ordem na casa de Cornélio. Eles ouviram a Palavra, receberam o Espírito Santo como consequência da fé em Cristo e então Pedro perguntou: “Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também receberam como nós o Espírito Santo?” (Atos dos Apóstolos 10:47).
O carcereiro de Filipos também é significativo. Paulo e Silas disseram: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos dos Apóstolos 16:31). Depois “lhe pregaram a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (Atos dos Apóstolos 16:32). Somente depois disso ocorreu o batismo. Portanto, usar os chamados “batismos de casas” para provar o pedobatismo exige colocar no texto algo que ele não afirma. Não há indicação de que bebês tenham sido batizados.
Além disso, o próprio significado do batismo pressupõe uma experiência espiritual anterior. Romanos 6:3-4 apresenta o batismo relacionado à identificação do crente com a morte, o sepultamento e a ressurreição de Cristo. Colossenses 2:12 igualmente diz: “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus”. O batismo, portanto, é uma figura pública da identificação do crente com Cristo.
Há ainda um episódio particularmente esclarecedor em Atos dos Apóstolos 19:1-7. Alguns homens haviam recebido anteriormente o batismo de João. Quando Paulo percebeu que a compreensão deles era incompleta, explicou-lhes a verdade acerca do Senhor Jesus. Depois disso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Isso demonstra que não basta ter passado anteriormente por uma cerimônia chamada “batismo”; é necessário que o ato corresponda ao significado bíblico do batismo cristão.
Por isso, uma pessoa que foi “batizada” quando bebê e posteriormente se converte ao Senhor Jesus não deveria pensar que já recebeu o batismo cristão. Biblicamente, ela ainda precisa ser batizada como crente. Não se trata propriamente de “rebatismo”, pois aquilo que recebeu quando criança não corresponde ao padrão neotestamentário do batismo cristão.
Também devemos lembrar que a palavra grega baptízō traz a ideia de mergulhar, imergir. O próprio relato de João Batista é significativo: “João estava também batizando em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas” (João 3:23). Se fosse simplesmente uma questão de colocar algumas gotas de água sobre alguém, a referência a “muitas águas” perderia grande parte de sua força.
Portanto, há dois problemas no pedobatismo: o sujeito e, frequentemente, o modo. O sujeito bíblico do batismo é aquele que recebeu a Palavra e creu em Cristo; e o modo apresentado pelo significado da palavra e pelo simbolismo de Romanos 6 é a imersão.
Entretanto, há ainda uma distinção muito importante quanto à gravidade do erro.
Uma coisa é um irmão dizer: “Creio que filhos pequenos de cristãos podem ser batizados como sinal de pertencimento à família da aliança”. Consideramos essa interpretação equivocada e sem apoio suficiente no Novo Testamento. Outra coisa, muito mais grave, é ensinar que o batismo infantil regenera a criança, remove o pecado original, comunica salvação ou torna automaticamente aquela criança participante da vida de Cristo.
Nesse segundo caso, já não estamos apenas diante de uma interpretação equivocada sobre quem deve ser batizado. Estamos tocando na própria doutrina da salvação.
A Escritura é clara:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).
“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).
“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36).
Nenhuma cerimônia exterior possui poder regenerador. A salvação está em Cristo e é recebida mediante a fé. Atribuir ao batismo poder salvador é, portanto, um erro consideravelmente mais grave do que simplesmente estar equivocado quanto à idade ou condição da pessoa que deve ser batizada.
Assim, eu responderia à pergunta desta maneira: o pedobatismo é uma doutrina errada acerca do batismo, porque não corresponde ao padrão apresentado no Novo Testamento. Porém, não devemos automaticamente classificar todo irmão pedobatista como falso mestre ou alguém comprometido com doutrinas destruidoras da fé. Precisamos saber exatamente o que ele crê.
Se ele reconhece que a salvação é somente pela graça, mediante a fé em Cristo, mas entende equivocadamente que filhos de crentes podem ser batizados, estamos diante de um irmão que necessita de melhor compreensão bíblica sobre o batismo.
Se, porém, ele atribui ao batismo infantil poder regenerador, salvador ou sacramental, então o problema se torna muito mais sério, porque já interfere diretamente na doutrina bíblica da salvação.
Finalmente, nossa atitude para com um irmão que pensa diferente nesse assunto não deve ser de hostilidade, mas também não deve ser de indiferentismo doutrinário. Paulo escreveu: “Examinai tudo. Retende o bem” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:21). Devemos receber aquilo que está de acordo com a Palavra de Deus e corrigir, com mansidão e clareza, aquilo que não está.
O padrão apostólico continua sendo simples: a Palavra é anunciada, a pessoa ouve, arrepende-se, crê no Senhor Jesus Cristo e, como discípulo, é batizada. Não encontramos no Novo Testamento um mandamento, um exemplo inequívoco ou uma explicação doutrinária que estabeleça o batismo de bebês como prática da Igreja.
Josué Matos
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