Alguém que me escreveu no WhatsApp:
“Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou.”
— Apocalipse 19:7.
E em Apocalipse 19:9:
“Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro.”
Irmão, tem um dilema: se Mateus 24 diz respeito a um contexto profético predominante a Israel, distinto do arrebatamento da igreja, como associar isso, sendo que haverá só uma boda do Cordeiro?
Minha Resposta:
A dificuldade desaparece quando fazemos uma distinção que o próprio texto bíblico permite: uma coisa são as bodas do Cordeiro; outra é a ceia ou celebração das bodas. E também precisamos distinguir a posição da Igreja, como Noiva, da posição de Israel e dos demais convidados.
Há uma só Noiva e, portanto, uma só boda do Cordeiro. Mateus 24 não exige uma segunda boda.
Quem é a esposa do Cordeiro?
Em Apocalipse 19:7-8 lemos:
“Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos.”
A esposa aqui é a Igreja. Essa figura já havia sido apresentada pelo apóstolo Paulo:
“Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (Segunda Epístola aos Coríntios 11:2).
O mesmo relacionamento aparece em Efésios 5:25-27, onde Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, tendo em vista apresentá-la a Si mesmo gloriosa, sem mácula, ruga ou coisa semelhante.
Portanto, em Apocalipse 19, não estamos diante de Israel tornando-se a esposa do Cordeiro. É a Igreja que aparece nessa posição celestial.
Quando acontecem as bodas?
A sequência de Apocalipse 19 é muito importante.
Primeiro encontramos:
“São chegadas as bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:7).
Depois:
“Já a sua esposa se aprontou” (Apocalipse 19:7).
Somente depois disso, no versículo 11, João diz:
“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro” (Apocalipse 19:11).
Ou seja, a apresentação das bodas ocorre antes da manifestação pública de Cristo vindo do céu para a terra.
Isso combina perfeitamente com a distinção entre o arrebatamento e a manifestação de Cristo.
No arrebatamento, o Senhor vem buscar os Seus:
“Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:17).
Depois disso ocorre o Tribunal de Cristo, relacionado à avaliação do serviço dos crentes (Primeira Epístola aos Coríntios 3:12-15; Segunda Epístola aos Coríntios 5:10). Isso ajuda a compreender por que, em Apocalipse 19:8, a esposa já aparece vestida de linho fino, identificado com “as justiças dos santos”.
Então temos uma sequência coerente:
Arrebatamento da Igreja → Tribunal de Cristo → Bodas do Cordeiro → manifestação de Cristo em glória.
Onde entra Mateus 24?
É justamente aqui que precisamos evitar misturar duas coisas distintas.
Mateus 24 não está descrevendo as bodas do Cordeiro. O assunto predominante é a situação profética na terra, particularmente relacionada a Israel, Jerusalém, Judeia, o período de grande tribulação e finalmente a manifestação pública do Filho do Homem.
Observe a linguagem:
“Então, os que estiverem na Judeia, fujam para os montes” (Mateus 24:16).
“E orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado” (Mateus 24:20).
“Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco haverá jamais” (Mateus 24:21).
Depois:
“E verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:30).
Portanto, o ponto culminante de Mateus 24 é a manifestação do Filho do Homem à terra.
Já Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4 apresenta o Senhor descendo e os santos subindo para encontrá-Lo nos ares.
São movimentos diferentes:
No arrebatamento, os santos sobem para encontrar Cristo.
Na manifestação, Cristo desce em glória, e os Seus vêm com Ele.
Isso é confirmado em Colossenses 3:4:
“Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.”
Então por que aparecem figuras de casamento em Mateus?
Aqui está provavelmente a origem do dilema.
Depois do discurso de Mateus 24, encontramos em Mateus 25 a parábola das dez virgens:
“Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mateus 25:1).
Pode surgir a pergunta: se essas pessoas estão esperando o Noivo, não seriam elas a Igreja esperando pelo arrebatamento?
Não necessariamente.
Ali elas não são apresentadas como a Noiva. São pessoas que saem ao encontro do Noivo.
Essa diferença é muito importante.
João Batista utilizou uma distinção semelhante:
“O que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo” (João 3:29).
Observe as categorias:
Cristo — o Esposo.
Igreja — a esposa.
Outros — amigos ou convidados.
Portanto, nem toda figura de casamento na Bíblia transforma aqueles que aparecem na parábola em membros da Noiva.
Apocalipse 19 faz exatamente essa distinção
Veja algo muito interessante entre os versículos 7 e 9.
No versículo 7 temos:
“a sua esposa se aprontou”.
Mas no versículo 9 temos:
“Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro.”
Se os chamados para a ceia fossem exatamente a mesma figura da esposa, teríamos uma construção bastante estranha: a esposa seria simultaneamente aquela que está se casando e uma convidada para o próprio casamento.
A linguagem sugere uma distinção.
Há o Cordeiro.
Há Sua esposa.
E há aqueles que são chamados à ceia.
Isso nos ajuda muito a compreender as passagens proféticas relacionadas a Israel.
Bodas e ceia das bodas não precisam significar exatamente o mesmo momento
Esse é talvez o ponto principal para responder ao dilema.
Apocalipse 19:7 fala das “bodas do Cordeiro”.
Apocalipse 19:9 fala daqueles “chamados à ceia das bodas do Cordeiro”.
No costume matrimonial que serve de pano de fundo à figura, o casamento e a celebração ou banquete nupcial estavam intimamente relacionados, mas não precisavam designar exatamente o mesmo momento.
Assim, podemos entender as bodas propriamente ditas como relacionadas a Cristo e Sua Igreja no céu, antes da manifestação gloriosa; enquanto a celebração pública das bênçãos resultantes dessa união se relaciona com o estabelecimento do Reino na terra.
Não são duas esposas.
Não são dois casamentos.
Não são duas bodas do Cordeiro.
É um único relacionamento matrimonial de Cristo com Sua Igreja, seguido pela manifestação pública da glória desse relacionamento.
Israel não precisa ser a Noiva para participar da alegria das bodas
Isso também resolve outra dificuldade.
Israel terá uma posição extraordinária no Reino milenar, conforme as promessas do Antigo Testamento. Mas isso não exige transformar Israel na Igreja.
Deus pode conceder bênçãos diferentes a grupos diferentes sem destruir a unidade do Seu propósito em Cristo.
Israel restaurado desfrutará das bênçãos terrenas do Reino prometido. A Igreja estará associada celestialmente com Cristo.
Por isso encontramos, por exemplo, as promessas feitas a Israel em Isaías 2:1-4; Isaías 11:1-10; Jeremias 31:31-37 e Zacarias 12–14, sem necessidade de transformar Israel na Igreja.
Ao mesmo tempo, a Igreja possui sua vocação celestial:
“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Epístola aos Filipenses 3:20).
Mateus 24 e Apocalipse 19, portanto, se encaixam
Podemos colocar os acontecimentos da seguinte maneira:
A Igreja está na terra durante o presente período.
Cristo vem para os Seus e ocorre o arrebatamento, conforme Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:13-18 e Primeira Epístola aos Coríntios 15:51-52.
A Igreja está com Cristo no céu.
Na terra desenrolam-se os acontecimentos proféticos que culminam na grande tribulação e na manifestação do Filho do Homem descrita em Mateus 24.
No céu, a Igreja comparece perante o Tribunal de Cristo e aparece posteriormente preparada como esposa.
Apocalipse 19:7 anuncia as bodas do Cordeiro.
Então o céu se abre em Apocalipse 19:11.
Cristo vem em glória.
Os santos vêm com Ele, como também ensinam Colossenses 3:4 e Apocalipse 19:14.
Cristo estabelece Seu Reino, e as bênçãos relacionadas à grande celebração messiânica alcançam Israel restaurado e os demais participantes do Reino.
Assim, Mateus 24 não descreve outra boda. Descreve acontecimentos que conduzem à manifestação pública daquele que já possui Sua esposa.
Uma ilustração simples
Podemos resumir usando a própria figura matrimonial.
Imagine:
O Noivo recebe Sua Noiva.
As bodas acontecem.
Depois o casal aparece publicamente.
Em seguida acontece a grande celebração com os convidados.
A presença de convidados na celebração não significa que o Noivo tenha se casado novamente.
Da mesma maneira, a presença de Israel e de outros santos nas bênçãos relacionadas à celebração do Reino não significa uma segunda boda do Cordeiro.
Há um só Cordeiro.
Há uma só esposa do Cordeiro.
Há uma só união matrimonial.
Mas existem convidados que participam da alegria resultante dessa união.
É exatamente por isso que Apocalipse 19 consegue dizer, com apenas dois versículos de diferença:
“já a sua esposa se aprontou” (Apocalipse 19:7),
e:
“Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:9).
A esposa está preparada; os outros são chamados.
Portanto, irmão, não há contradição entre interpretar Mateus 24 predominantemente dentro do programa profético relacionado a Israel e afirmar que existe apenas uma boda do Cordeiro. O problema só aparece quando identificamos todos os participantes das figuras matrimoniais como sendo a Noiva.
A Igreja é a esposa; Cristo é o Cordeiro e Esposo; Israel restaurado e outros santos podem participar da alegria e das bênçãos da celebração sem se tornarem, por isso, a esposa.
E essa distinção preserva tanto as promessas específicas feitas a Israel quanto a posição singular que o Novo Testamento atribui à Igreja como Noiva de Cristo.