Alguém que me escreveu no YouTube:
Qual a base bíblica para o dízimo no Novo Testamento? Ou é só oferta no Novo Testamento?
Minha Resposta:
Essa é uma pergunta importante, porque precisamos distinguir entre aquilo que Deus estabeleceu para Israel debaixo da Lei e aquilo que o Novo Testamento ensina às igrejas.
A resposta mais direta é: não encontramos no Novo Testamento um mandamento determinando que os cristãos entreguem obrigatoriamente dez por cento dos seus rendimentos. O princípio estabelecido para a Igreja é o da contribuição voluntária, regular, pessoal, proporcional e feita com alegria.
O dízimo aparece várias vezes no Antigo Testamento e estava incorporado ao sistema estabelecido por Deus para Israel. Os levitas, por exemplo, não receberam uma herança territorial como as demais tribos e eram sustentados pelos dízimos:
“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo seu serviço que exercem, o serviço da tenda da congregação” (Números 18:21).
Encontramos também instruções sobre os dízimos em Levítico 27:30-33; Deuteronômio 12:17-19; 14:22-29 e 26:12-15.
É verdade que o dízimo aparece antes da Lei de Moisés. Abraão deu a Melquisedeque “o dízimo de tudo” (Gênesis 14:20), acontecimento posteriormente mencionado em Hebreus 7:1-10. Jacó também prometeu dar a Deus o dízimo de tudo quanto recebesse (Gênesis 28:20-22).
Entretanto, é importante observar que esses acontecimentos não aparecem no Novo Testamento como mandamentos estabelecendo que os cristãos devam entregar obrigatoriamente dez por cento.
E Mateus 23:23?
Algumas pessoas apresentam as palavras do Senhor Jesus aos fariseus como prova de que o dízimo continua obrigatório:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas e não omitir aquelas” (Mateus 23:23).
Devemos observar cuidadosamente o contexto. O Senhor estava falando aos escribas e fariseus, judeus que ainda se encontravam debaixo da Lei. A Igreja ainda não havia sido formada. A morte, ressurreição e ascensão do Senhor Jesus ainda não haviam ocorrido, e o Espírito Santo ainda não havia descido no dia de Pentecostes, conforme Atos dos Apóstolos 2.
Por isso, Mateus 23:23 não pode simplesmente ser transformado numa ordenança dada à Igreja. O Senhor reconheceu ali uma obrigação existente dentro da dispensação em que aqueles judeus viviam.
O mesmo acontece em Lucas 11:42. Em Lucas 18:12, o fariseu declara: “dou os dízimos de tudo quanto possuo”, mas evidentemente essa declaração também não constitui uma ordem dada à Igreja.
E Hebreus capítulo 7?
Hebreus 7 fala bastante sobre dízimos, especialmente do dízimo que Abraão deu a Melquisedeque. Porém, o propósito da passagem não é estabelecer uma regra financeira para as igrejas. O assunto é a superioridade do sacerdócio de Melquisedeque em relação ao sacerdócio levítico e, principalmente, a superioridade do sacerdócio do Senhor Jesus Cristo.
O próprio argumento de Hebreus mostra a mudança ocorrida:
“Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” (Hebreus 7:12).
Portanto, usar Hebreus 7 para estabelecer uma cobrança obrigatória de dez por cento à Igreja não corresponde ao propósito da passagem.
Qual é, então, o princípio para a Igreja?
Um dos textos mais claros encontra-se em 1 Coríntios 16:1-2:
“Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade.”
Observe que Paulo não disse: “cada um entregue o dízimo”. Ele apresenta princípios muito mais adequados à graça.
A contribuição deveria ser regular: “no primeiro dia da semana”.
Deveria ser individual: “cada um de vós”.
Deveria ser planejada: “ponha de parte”.
E deveria ser proporcional: “conforme a sua prosperidade”.
Não encontramos uma porcentagem determinada.
O ensino fica ainda mais claro em 2 Coríntios:
“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).
Aqui temos uma diferença importante. A contribuição cristã não deve ser resultado de coerção. Paulo diz “segundo propôs no seu coração”. Também diz “não com tristeza, ou por necessidade”.
Portanto, ninguém deveria transformar a contribuição cristã numa espécie de imposto religioso.
Isso significa que o cristão pode simplesmente não contribuir?
Também não.
Seria um erro sair do legalismo do dízimo obrigatório e cair no egoísmo de não contribuir.
O Novo Testamento não reduz a responsabilidade do cristão; pelo contrário, eleva-a. Em 2 Coríntios 8, os cristãos da Macedônia são apresentados como um exemplo extraordinário. Apesar de sua pobreza, contribuíram generosamente:
“Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente” (2 Coríntios 8:3).
A palavra importante aqui é “voluntariamente”.
Mas há algo ainda mais profundo no versículo 5:
“E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor e depois a nós, pela vontade de Deus” (2 Coríntios 8:5).
Esse é o verdadeiro fundamento da contribuição cristã: antes de entregar alguma coisa, o cristão reconhece que ele próprio pertence ao Senhor.
Isso concorda com Romanos 12:1:
“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”
O cristão não pertence dez por cento ao Senhor e noventa por cento a si mesmo. Tudo pertence ao Senhor: sua vida, seu corpo, seu tempo, seus bens e seus recursos. Somos administradores daquilo que Deus colocou em nossas mãos.
Além disso, o Novo Testamento ensina claramente que os recursos materiais devem ser utilizados para sustentar a obra de Deus e aqueles que trabalham nela.
Paulo escreve:
“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Coríntios 9:14).
Veja também 1 Coríntios 9:7-11; Gálatas 6:6; Filipenses 4:10-18 e 1 Timóteo 5:17-18.
Da mesma maneira, as contribuições eram usadas para ajudar irmãos necessitados. Isso aparece claramente em Atos dos Apóstolos 4:34-35; 11:27-30; Romanos 15:25-27; 1 Coríntios 16:1-4 e 2 Coríntios 8–9.
Portanto, não seria correto concluir: “Como não existe dízimo obrigatório, não preciso dar nada”.
O ensino é exatamente o contrário. O cristão deve contribuir, mas sua contribuição nasce da graça e não de uma porcentagem legalmente imposta.
E se alguém quiser dar dez por cento?
Não há problema algum.
Um cristão pode estabelecer dez por cento como referência pessoal para organizar suas contribuições. Outro poderá contribuir com quinze, vinte ou trinta por cento, dependendo da sua prosperidade, responsabilidades e exercício diante do Senhor. Em determinadas circunstâncias, alguém poderá dar muito mais.
O problema começa quando transformamos os dez por cento numa lei para a Igreja e afirmamos que todo cristão está biblicamente obrigado a entregar exatamente essa porcentagem.
Não encontramos tal mandamento nas epístolas.
Aliás, quando Paulo apresenta extensamente o assunto das contribuições em 1 Coríntios 16 e 2 Coríntios 8–9, seria a ocasião perfeita para dizer: “Entreguem dez por cento”. Mas ele não faz isso. Em vez disso, fala de prosperidade, disposição do coração, voluntariedade, generosidade e alegria.
Por isso, podemos resumir o ensino do Novo Testamento desta maneira: o dízimo de dez por cento não é apresentado como uma lei obrigatória para a Igreja; a contribuição, porém, é claramente ensinada. Ela deve ser regular, pessoal, planejada, proporcional à prosperidade, voluntária, generosa e alegre.
A graça não deveria produzir menos generosidade do que a Lei. Quem compreende quanto recebeu de Deus em Cristo não perguntará apenas: “Qual é o mínimo que preciso dar?”, mas procurará saber: “Quanto posso colocar à disposição do Senhor daquilo que Ele confiou às minhas mãos?”
Porque o grande modelo da contribuição cristã não é uma porcentagem, mas o próprio Senhor Jesus:
“Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (2 Coríntios 8:9).
Esse é o princípio da graça: não dar porque uma lei exige dez por cento, mas dar voluntariamente, proporcionalmente e com alegria porque primeiro recebemos tudo de Deus em Cristo.
Josué Matos
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