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Meu irmão, o ‘ide a todo o mundo, pregai o evangelho’ não se refere à Igreja.

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Meu irmão, o ‘ide a todo o mundo, pregai o evangelho’ não se refere à Igreja. E, quanto ao Evangelho como responsabilidade da assembleia local, não temos esse modelo nas Sagradas Escrituras. É muito útil quando observamos todo o contexto. Observação: temos aí ideias clericais herdadas de irmãos carnais, que adoram e elevam costumes humanos acima da vontade do Senhor e dos ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Minha Resposta:

Meu irmão, concordo plenamente com uma coisa que você disse: precisamos observar todo o contexto. Entretanto, justamente quando examinamos o conjunto do Novo Testamento, não creio que seja possível sustentar que a evangelização esteja desligada da responsabilidade e do testemunho da igreja local.

Antes de tudo, precisamos fazer uma distinção. A igreja local não é a fonte da comissão, nem o evangelista é servo da igreja no sentido de receber dela o seu chamado. O evangelista é servo de Cristo e recebe do Senhor o seu dom e direção. Porém, disso não se segue que seu trabalho seja independente da igreja local. O Novo Testamento apresenta exatamente o contrário: o evangelista pertence ao Corpo de Cristo, está em comunhão com os santos e seu trabalho está relacionado ao testemunho das igrejas.

  1. Efésios 4 apresenta um argumento muito importante

Depois da Sua morte, ressurreição e ascensão, Cristo concedeu homens à Sua Igreja:

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efésios 4:11).

É importante observar cuidadosamente a linguagem. Aqui não temos simplesmente dons abstratos dados aos homens. Temos homens dotados que o Cristo ressuscitado e glorificado concede ao Seu Corpo.

Entre eles está o evangelista.

E aqui surge uma pergunta muito simples: por que Cristo deu evangelistas à Igreja?

Certamente não para evangelizarem a própria Igreja, porque o evangelista, propriamente dito, anuncia as boas-novas aos que estão fora. A Igreja é constituída daqueles que já receberam o Evangelho.

Portanto, o fato de o evangelista ser dado à Igreja demonstra precisamente que a atividade evangelística, embora dirigida ao mundo, pertence ao serviço que procede do âmbito da Igreja.

Efésios 4:12 prossegue falando do “aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”.

Assim, existe uma diferença entre o destinatário da evangelização e a esfera à qual o evangelista pertence.

O destinatário é o mundo.

O evangelista é dado à Igreja.

Seu Senhor é Cristo.

Sua mensagem é o Evangelho de Deus.

Seu campo são os perdidos.

E os convertidos, por meio desse trabalho, são posteriormente batizados, ensinados e agregados ao testemunho de uma igreja local.

Isso aparece repetidamente em Atos dos Apóstolos.

  1. A Grande Comissão foi dada pelo Cristo ressuscitado

Também não me parece correto afastar Mateus 28:18-20, Marcos 16:15 e Lucas 24:46-49 da presente dispensação simplesmente porque a Igreja, historicamente, ainda não havia sido formada em Atos dos Apóstolos 2.

É verdade que a Igreja começou no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu e os crentes foram unidos num só Corpo. Primeira Epístola aos Coríntios 12:13 nos ajuda a compreender essa verdade.

Mas não podemos concluir daí que tudo aquilo que Cristo disse aos discípulos antes de Atos 2 esteja automaticamente fora da presente dispensação.

Se aplicássemos esse princípio de maneira consistente, criaríamos enormes dificuldades.

Observe a sequência.

Depois da ressurreição, o Senhor disse:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

Em Mateus:

“Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:19-20).

Em Lucas, o Senhor declara que “em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” e acrescenta: “E destas coisas sois vós testemunhas” (Lucas 24:47-48).

Agora observe Atos dos Apóstolos 1:8:

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”

Como separar essas declarações?

Lucas 24 termina com a comissão e com a promessa do poder do alto. Atos dos Apóstolos começa retomando exatamente o mesmo assunto. O Senhor manda os discípulos aguardarem em Jerusalém até receberem o Espírito Santo.

Depois, em Atos 2, o Espírito Santo vem.

Portanto, temos uma sequência histórica e doutrinária:

Cristo morre;

Cristo ressuscita;

Cristo comissiona Seus discípulos;

Cristo promete o Espírito Santo;

Cristo ascende;

o Espírito Santo desce;

a Igreja é formada;

os discípulos começam a cumprir a comissão.

Não estamos tratando de acontecimentos desconectados.

  1. Os apóstolos da comissão são os apóstolos da Igreja

Há outro problema com a tentativa de separar completamente a Grande Comissão da Igreja.

A quem o Senhor deu aquela comissão?

Aos Seus apóstolos.

E quem encontramos como fundamento doutrinário da Igreja?

Os mesmos apóstolos.

Efésios 2:20 diz que a Igreja está “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina”.

Atos dos Apóstolos 2:42 diz que os primeiros crentes “perseveravam na doutrina dos apóstolos”.

Portanto, não podemos tratar aqueles homens como se pertencessem exclusivamente a um programa relacionado com Israel e não tivessem relação com a Igreja.

Foram precisamente aqueles homens que, depois da descida do Espírito Santo, aparecem conduzindo o testemunho inicial da Igreja.

Pedro prega em Atos 2.

Pedro e João testemunham em Atos 3 e 4.

Os apóstolos testemunham da ressurreição em Atos 4:33.

Depois, o Evangelho alcança Samaria em Atos 8.

Posteriormente chega aos gentios.

Isso corresponde perfeitamente à progressão de Atos dos Apóstolos 1:8:

Jerusalém → Judeia → Samaria → confins da terra.

  1. Antioquia torna a relação com a igreja local ainda mais evidente

Talvez um dos exemplos mais claros seja Atos dos Apóstolos 13.

Ali encontramos uma igreja local estabelecida em Antioquia:

“E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores” (Atos dos Apóstolos 13:1).

Enquanto aqueles irmãos serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse:

“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (Atos dos Apóstolos 13:2).

Quem chamou Barnabé e Saulo?

O Espírito Santo.

Portanto, a autoridade não veio da assembleia.

Mas onde estavam esses homens?

Na igreja local.

E o que fez aquela igreja?

“Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (Atos dos Apóstolos 13:3).

O versículo seguinte preserva perfeitamente o equilíbrio:

“E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (Atos dos Apóstolos 13:4).

A igreja os despediu em comunhão; o Espírito Santo os enviou.

Isso destrói dois extremos.

O primeiro é o clericalismo, no qual uma organização religiosa controla o servo de Deus.

O segundo é o independentismo, no qual alguém afirma servir ao Senhor sem qualquer vínculo prático com a comunhão da igreja.

Nenhum dos dois corresponde ao padrão apresentado em Atos.

  1. E o que aconteceu quando terminaram aquela viagem evangelística?

Esse ponto é ainda mais esclarecedor.

Depois de pregarem o Evangelho em várias cidades, fazerem discípulos e estabelecerem igrejas, Paulo e Barnabé retornaram.

Para onde?

Antioquia.

“E dali navegaram para Antioquia, de onde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido” (Atos dos Apóstolos 14:26).

Depois:

“E, quando chegaram e reuniram a igreja, relataram quão grandes coisas Deus fizera por eles e como abrira aos gentios a porta da fé” (Atos dos Apóstolos 14:27).

Por que reunir a igreja para contar o que Deus havia realizado?

Porque havia comunhão entre a obra evangelística e aquela igreja local.

Não era “meu ministério”, “minha missão” ou “minha obra” funcionando independentemente dos santos.

Era trabalho para o qual o Espírito Santo havia chamado os servos, realizado em comunhão com uma igreja local, e depois relatado àquela igreja.

  1. A evangelização produzia novas igrejas

Atos dos Apóstolos também apresenta uma progressão extremamente importante.

O Evangelho era anunciado.

Pessoas eram salvas.

Os convertidos eram ensinados.

E igrejas eram estabelecidas.

Em Atos dos Apóstolos 14:21-23, Paulo e Barnabé anunciaram o Evangelho, fizeram muitos discípulos, voltaram fortalecendo os convertidos e estabeleceram anciãos em cada igreja.

Portanto, evangelização e igreja local não aparecem como duas realidades sem ligação.

A evangelização alcança os perdidos e, pela graça de Deus, produz convertidos. Esses convertidos são batizados, ensinados e passam a constituir testemunhos locais.

Essa relação é tão clara que o objetivo do trabalho evangelístico não é simplesmente produzir decisões individuais, mas ver pessoas salvas, discipuladas e reunidas segundo o padrão da Palavra de Deus.

  1. Filipe também confirma que evangelizar é um dom exercido para fora

Atos dos Apóstolos 21:8 chama Filipe especificamente de “evangelista”.

Mas onde vemos Filipe exercendo esse dom?

Especialmente em Atos 8.

Ele desce a Samaria e “lhes pregava a Cristo” (Atos dos Apóstolos 8:5).

Depois, o Senhor o dirige ao encontro do eunuco etíope e Filipe “lhe anunciou a Jesus” (Atos dos Apóstolos 8:35).

Isso confirma exatamente o sentido de Efésios 4.

O evangelista é um homem dado por Cristo à Igreja, mas seu dom o leva aos não convertidos.

Não há contradição alguma nisso.

O pastor é dado à Igreja e trabalha especialmente entre as ovelhas.

O mestre é dado à Igreja e ensina a verdade.

O evangelista é dado à Igreja e sai à procura dos perdidos.

Todos pertencem ao mesmo sistema divino de serviço sob a autoridade da Cabeça, Cristo.

  1. A igreja local possui, sim, um testemunho evangelístico

Também precisamos distinguir entre dizer que não encontramos no Novo Testamento exatamente o formato moderno de uma “reunião evangelística dominical às 19 horas” e afirmar que não existe responsabilidade evangelística ligada à igreja local.

São coisas completamente diferentes.

O Novo Testamento não determina um horário semanal chamado “reunião do Evangelho”. Mas isso não significa que uma igreja local não possa organizar oportunidades para a pregação do Evangelho.

Atos dos Apóstolos mostra igrejas apoiando servos, enviando-os em comunhão, recebendo relatos do trabalho e vendo novas igrejas surgirem por meio da evangelização.

Além disso, cada cristão individualmente é testemunha.

Atos dos Apóstolos 1:8 estabelece o princípio do testemunho.

Primeira Epístola de Pedro 3:15 mostra o crente preparado para responder acerca da esperança que possui.

Filipenses 2:15-16 apresenta os santos resplandecendo “como astros no mundo”, retendo “a palavra da vida”.

Portanto, há evangelização pessoal por irmãos e irmãs e há o trabalho específico daquele que recebeu do Senhor capacidade de evangelista.

  1. Primeira Epístola aos Tessalonicenses é particularmente significativa

Paulo escreveu a uma igreja local:

“Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 1:8).

Isso é muito importante.

Paulo não está falando somente de um evangelista individual. Está escrevendo à “igreja dos tessalonicenses” (1:1) e diz que, a partir deles, “soou a palavra do Senhor”.

Portanto, uma igreja local pode possuir um poderoso testemunho evangelístico.

Isso não significa que todos sejam evangelistas. Efésios 4 não diz isso.

Mas toda a companhia pode estar envolvida no testemunho: alguns pregando publicamente, outros convidando pessoas, outros distribuindo literatura, outros conversando pessoalmente, outros ajudando materialmente, outros sustentando a obra e todos orando.

  1. Isso não é clericalismo

Quanto à afirmação de que essa posição seria consequência de “ideias clericais”, penso que acontece justamente o contrário quando seguimos o padrão bíblico.

Clericalismo é criar uma classe profissional que monopoliza o serviço espiritual.

Mas o padrão do Novo Testamento reconhece a diversidade de dons concedidos soberanamente por Cristo.

O evangelista evangeliza.

O mestre ensina.

O pastor cuida.

Os anciãos supervisionam localmente.

Os demais santos também servem conforme aquilo que receberam do Senhor.

Primeira Epístola aos Coríntios 12 compara a igreja a um corpo justamente porque nenhum membro possui todas as funções.

Efésios 4 apresenta Cristo como a Cabeça e mostra que “todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas”, contribui para seu próprio crescimento (Efésios 4:16).

Isso é precisamente o oposto do clericalismo.

  1. O evangelista não pertence a uma organização missionária; pertence a Cristo e ao Seu Corpo

É importante manter esse equilíbrio.

Não creio que uma igreja local tenha autoridade para fabricar evangelistas, assim como não pode fabricar mestres ou pastores.

É Cristo quem dá o evangelista.

Efésios 4:11 é claro: “Ele mesmo deu”.

A igreja reconhece aquilo que Cristo concedeu.

Do mesmo modo, a recomendação de um irmão para dedicar-se integralmente ao Evangelho não transforma aquele irmão em evangelista. Se ele é verdadeiramente evangelista, o dom já veio de Cristo.

Entretanto, quando esse dom é reconhecido, é perfeitamente bíblico que os irmãos tenham comunhão com ele, orem por ele, auxiliem-no e acompanhem com interesse o trabalho que Deus está realizando.

Foi exatamente o que vemos entre Antioquia, Paulo e Barnabé.

Portanto, irmão, eu concordo que devemos rejeitar costumes meramente humanos quando são elevados ao nível da Palavra de Deus. Também concordo que não devemos transformar determinado formato de “reunião evangelística” numa ordenança bíblica, como se toda igreja fosse obrigada a realizar exatamente o mesmo tipo de reunião, no mesmo dia e da mesma maneira.

Mas daí concluir que o Evangelho não constitui parte da responsabilidade e do testemunho da igreja local é ir além do que as Escrituras permitem.

A própria Escritura apresenta:

Cristo ressuscitado ordenando que o Evangelho alcance todas as nações;

Cristo prometendo o Espírito Santo para capacitar Suas testemunhas;

o Espírito Santo vindo em Atos dos Apóstolos 2 e formando a Igreja;

os mesmos apóstolos iniciando imediatamente o testemunho;

Cristo glorificado dando evangelistas à Igreja;

uma igreja local, Antioquia, tendo comunhão com homens chamados pelo Espírito para levar o Evangelho;

esses homens voltando e relatando à igreja aquilo que Deus fizera;

o Evangelho produzindo convertidos;

e esses convertidos sendo ensinados e constituídos em novas igrejas locais.

Não vejo como chamar esse conjunto de evidências de “ideias clericais”.

Pelo contrário, considero um princípio muito simples do Novo Testamento: a Igreja não existe para si mesma. Enquanto está neste mundo, ela deve resplandecer como testemunho de Cristo. O evangelista é servo do Senhor, não empregado da assembleia; mas Cristo o deu à Igreja, e seu serviço para alcançar os perdidos não está desligado da comunhão, das orações e do testemunho dos santos.

E talvez Efésios 4:11 seja justamente uma das passagens que tornam isso mais claro: Cristo deu evangelistas à Igreja porque a Igreja já foi evangelizada, mas o mundo ainda precisa ser.

Josué Matos

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