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Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, a Bíblia fala de uma única religião diante de Deus, não é isso?

Quanto a não haver divisão na interpretação da Bíblia, qual outra forma podemos usar para sermos unânimes e andarmos segundo a sã doutrina? A Bíblia não é interpretada estudando-se o contexto, o idioma, o gênero literário etc.?

Tiago 1:27 afirma: “A religião pura e sem mácula diante de Deus é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e guardar-se incontaminado do mundo.”

João 12:48 “Quem me rejeitar a mim e não receber as minhas palavras já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia.”

A doutrina ensinada pela Igreja deve estar submetida às Escrituras, e não ser criada conforme a preferência de cada indivíduo.

Tito 2:1 fala da “sã doutrina”, e Efésios 4:14 adverte contra “todo vento de doutrina”.

Paulo ordena “que todos faleis a mesma coisa” e que não haja divisões entre os cristãos (1 Coríntios 1:10).

Judas fala da “fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3).

Paulo também diz para permanecer “na doutrina” que havia sido recebida (2 Tessalonicenses 2:15).

E existe um texto particularmente direto: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.”

— 2 Pedro 1:20

2 João 1:9 “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus.”

Efésios 2:20 diz que a Igreja está: “Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?

Minha Resposta:

Irmão, concordo com o princípio central do que você está dizendo: a Igreja não tem autoridade para inventar doutrinas, modificar a Palavra de Deus ou estabelecer como verdade aquilo que contradiz aquilo que Deus revelou nas Escrituras. Entretanto, penso que precisamos fazer algumas distinções importantes para não atribuirmos a determinados textos mais do que eles realmente estão dizendo.

Comecemos por Tiago 1:27. Quando Tiago fala da “religião pura e imaculada para com Deus, o Pai”, ele não está estabelecendo uma denominação religiosa nem dizendo que existe uma instituição terrena que possa reivindicar para si o título exclusivo de “a religião verdadeira”. O contexto é essencialmente prático.

No versículo anterior, Tiago fala daquele que “cuida ser religioso”, mas não refreia a língua. No versículo 27, ele mostra as características práticas da verdadeira religião: compaixão pelos necessitados e separação da corrupção do mundo. Portanto, o contraste é entre uma religiosidade meramente exterior e uma vida que demonstra realmente os efeitos da fé.

Isso está perfeitamente de acordo com todo o contexto da epístola de Tiago: “Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes” (Tiago 1:22).

Então, sim, existe uma verdade de Deus; existe uma fé verdadeira; existe uma doutrina verdadeira; existe um Evangelho verdadeiro. Mas precisamos tomar cuidado para não transformar a expressão “religião pura” de Tiago 1:27 no nome de uma organização ou sistema denominacional.

Quanto à unidade doutrinária, você também está correto ao afirmar que Deus não deseja confusão doutrinária entre os Seus filhos.

Primeira aos Coríntios 1:10 diz:

“Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa e que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos, em um mesmo sentido e em um mesmo parecer.”

Mas precisamos observar cuidadosamente qual era o problema em Corinto. Eles estavam formando partidos em torno de homens:

“Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo” (1 Coríntios 1:12).

A resposta de Paulo é extraordinariamente importante:

“Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:13).

Portanto, a solução apostólica para a divisão não era criar outro partido, mas voltar todos os olhos para Cristo.

Isso nos conduz diretamente ao problema das denominações. No Novo Testamento, os crentes não são identificados por nomes denominacionais. Encontramos “a igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2), “as igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2), “a igreja dos tessalonicenses” (1 Tessalonicenses 1:1), e assim sucessivamente.

O centro não era um nome denominacional, mas Cristo.

Isso também explica Efésios 4. Existe “um só corpo e um só Espírito... um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Efésios 4:4-6).

Essa unidade não é criada por uma organização humana. Paulo diz:

“Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3).

Observe a expressão: “guardar”. Não somos chamados para fabricar a unidade da Igreja. O Espírito Santo já produziu essa unidade. Nossa responsabilidade é guardá-la.

Agora, isso não significa que todas as interpretações da Bíblia sejam igualmente corretas. Certamente não são.

Você mencionou contexto, idioma e gênero literário, e concordo. Tudo isso é importante. Precisamos perguntar: quem escreveu? Para quem escreveu? Em que circunstâncias? Qual é o assunto do livro? Qual é o contexto imediato? Como aquela palavra era usada? Trata-se de narrativa histórica, poesia, profecia, parábola, doutrina apostólica ou linguagem figurada?

Um erro muito comum acontece quando alguém tira um versículo do seu contexto e constrói uma doutrina inteira sobre ele.

Atos dos Apóstolos 17:11 apresenta um princípio muito saudável. Os bereanos receberam a palavra pregada por Paulo, mas examinavam “cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”.

Veja que interessante: quem estava pregando era o próprio apóstolo Paulo. Mesmo assim, o texto elogia aqueles que examinavam as Escrituras.

Portanto, nenhuma igreja, pregador, pastor, presbítero, escritor, comentarista ou denominação deve ocupar o lugar das Escrituras.

Agora precisamos esclarecer também Segunda de Pedro 1:20:

“Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.”

Esse texto muitas vezes é usado como se Pedro estivesse dizendo: “Nenhum indivíduo pode interpretar pessoalmente a Bíblia”. Mas o contexto não está tratando principalmente da liberdade do leitor para estudar as Escrituras.

O versículo seguinte explica:

“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21).

O assunto é a origem da profecia.

A profecia bíblica não nasceu da imaginação particular do profeta. Isaías não inventou sua mensagem. Jeremias não criou a sua. Daniel não produziu suas profecias mediante conclusões pessoais. Pedro explica que aqueles homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.

Por isso mesmo devemos interpretar as Escrituras com reverência, permitindo que a própria Escritura esclareça a Escritura.

Também concordo plenamente com a importância de Judas 3:

“Batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.”

Existe, portanto, um depósito doutrinário recebido. Não estamos autorizados a criar outro cristianismo para cada geração.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido” (2 Timóteo 1:13).

E novamente:

“Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tito 2:1).

Isso estabelece um princípio fundamental: a Igreja não determina o que é verdade; ela recebe a verdade de Deus e deve preservá-la, ensiná-la e praticá-la.

É exatamente aí que Efésios 2:20 se torna tão importante.

A Igreja é apresentada como um edifício:

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Entretanto, precisamos comparar essa passagem com Primeira aos Coríntios 3:11:

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.”

Não existe contradição.

Cristo é o fundamento absoluto. Os apóstolos e profetas foram aqueles através dos quais o fundamento doutrinário da Igreja foi estabelecido. Eles anunciaram Cristo e, mediante inspiração divina, deixaram registrada a doutrina que a Igreja deveria seguir.

Atos dos Apóstolos 2:42 mostra exatamente isso:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos.”

Observe que não diz que perseveravam numa doutrina que seria posteriormente desenvolvida segundo a vontade de cada geração. A doutrina já havia sido recebida.

Por isso Judas pode falar da fé “uma vez” entregue aos santos.

Também por isso João estabelece um limite muito sério:

“Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus” (2 João 9).

Portanto, chegando diretamente à sua pergunta final: “Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?”

Se uma organização ensina conscientemente doutrinas contrárias às Escrituras em questões fundamentais da fé cristã, o simples fato de ela utilizar o nome “igreja” não transforma o erro em verdade.

O nome não autentica a doutrina. A doutrina deve ser examinada pela Palavra de Deus.

O Senhor Jesus advertiu:

“Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7:7).

E Paulo advertiu:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gálatas 1:8).

Veja a força desse princípio. Paulo não disse: “Aceitem a doutrina porque fui eu quem ensinou”. Ele colocou até a si próprio debaixo da autoridade da mensagem divina já recebida: “ainda que nós mesmos”.

Portanto, nenhuma autoridade humana está acima da Palavra de Deus.

Mas acrescento uma cautela igualmente importante: nem toda divergência de interpretação significa necessariamente “outro evangelho”.

Há doutrinas fundamentais e há questões secundárias nas quais cristãos verdadeiros podem chegar a conclusões diferentes por limitações de entendimento.

Por exemplo, negar a divindade de Cristo, negar Sua verdadeira humanidade, negar Sua ressurreição corporal, negar que Jesus Cristo é o Filho de Deus ou apresentar outro caminho de salvação atinge fundamentos da fé.

Já diferenças sobre determinados detalhes proféticos, certos aspectos da organização das reuniões, interpretação de uma passagem difícil ou outras questões semelhantes precisam ser examinadas cuidadosamente, mas não devemos automaticamente colocar toda divergência no mesmo nível de Gálatas 1.

A própria Escritura nos ensina a distinguir as coisas.

Existe “outro evangelho” que deve ser rejeitado (Gálatas 1:6-9), existem “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1), existem falsos mestres que introduzem “heresias de perdição” (2 Pedro 2:1), mas também existem questões nas quais Paulo ordena paciência entre irmãos que possuem diferentes níveis de compreensão, como vemos em Romanos 14.

A unidade bíblica, portanto, não significa uniformidade produzida por uma autoridade denominacional. Também não significa que cada pessoa possa interpretar a Bíblia como quiser.

Os dois extremos são perigosos.

De um lado: “A instituição decide o que a Bíblia significa.”

Do outro: “A Bíblia significa aquilo que eu quiser que ela signifique.”

Nenhuma dessas posições é segura.

A pergunta correta é:

“O que realmente está escrito?”

Depois:

“O que o escritor inspirado quis comunicar naquele contexto?”

E finalmente:

“Como essa passagem se harmoniza com o restante das Escrituras?”

Foi exatamente assim que o próprio Senhor Jesus tratou as Escrituras. Repetidamente Ele dizia:

“Está escrito” (Mateus 4:4,7,10).

E, depois da ressurreição:

“Começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24:27).

Portanto, você está certo quanto ao princípio fundamental: precisamos voltar às Escrituras.

Não devemos perguntar primeiramente: “O que ensina a minha denominação?”

Muito menos: “O que eu gostaria que este texto significasse?”

Devemos perguntar: “O que diz a Escritura?” (Romanos 4:3).

E, quando descobrimos claramente aquilo que Deus revelou, nossa responsabilidade não é adaptar a Palavra à nossa tradição, mas adaptar nossa crença e nossa prática à Palavra.

A verdadeira unidade cristã nunca será alcançada colocando uma instituição acima das Escrituras. Tampouco será alcançada permitindo que cada indivíduo transforme sua opinião pessoal em doutrina.

A verdadeira unidade encontra seu centro em Cristo, sua autoridade na Palavra de Deus e seu poder no Espírito Santo.

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:5).

Cristo continua sendo a Cabeça da Igreja (Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18), as Escrituras continuam sendo nossa autoridade doutrinária (2 Timóteo 3:16-17), e a responsabilidade dos crentes continua sendo perseverar “na doutrina dos apóstolos” (Atos dos Apóstolos 2:42).

Se uma tradição concorda com as Escrituras, podemos recebê-la porque é bíblica. Se uma tradição contradiz as Escrituras, devemos ficar com as Escrituras.

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva” (Isaías 8:20).

Josué Matos

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