Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Boa tarde, irmão.
Há alguns dias, o Senhor me deu uma aula a respeito de temor e reverência. Eu não ia compartilhar com o irmão, mas me senti incomodado para compartilhar.
Essa aula surgiu através de Provérbios. Foi quando fui orar… O Senhor está em todo lugar, e não podemos orar de qualquer jeito, mas com toda reverência.
Lembrei-me de Jacó, que dormiu num certo lugar e teve a visão da escada: “Deus está nesse lugar, e eu não sabia”. Deus estava ali quando Naamã se lavou no rio sete vezes; estava na sarça conversando com Moisés.
Temor é o reconhecimento da santidade e autoridade do Senhor em todo lugar, e a reverência é a maneira como nos portamos diante dEle.
Isso fez muita diferença para mim. Parece comum, mas, para mim, foi muito especial. Minhas orações fazem muito mais sentido, pois Ele está ao meu lado, e eu não sabia.
Tenho certeza de que o Senhor completará a obra dEle em mim.
Um grande abraço em Cristo!
Minha Resposta:
Agradeço por compartilhar esta experiência. O assunto que o irmão menciona é realmente muito importante, pois o temor do Senhor ocupa um lugar fundamental em toda a Palavra de Deus. Provérbios começa estabelecendo justamente este princípio: “O temor do Senhor é o princípio da ciência” (Provérbios 1:7). Mais adiante lemos: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Provérbios 9:10).
Entretanto, gostaria apenas de acrescentar algumas considerações que podem ajudar a colocar essa experiência sobre uma base bíblica ainda mais segura.
O irmão fez uma distinção interessante entre temor e reverência. Biblicamente, os dois conceitos estão intimamente relacionados. O temor do Senhor não é simplesmente medo de Deus, como alguém teria medo de um inimigo ou de uma pessoa imprevisível. Para aquele que está em Cristo, trata-se do profundo reconhecimento de quem Deus é: Sua santidade, majestade, autoridade, poder e absoluta grandeza. Esse conhecimento produz reverência na maneira como nos aproximamos dEle.
Por isso Hebreus 12:28-29 diz: “Sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade; porque o nosso Deus é um fogo consumidor”. É muito significativo que essas palavras sejam dirigidas a crentes. Deus tornou-Se nosso Pai, mas não deixou de ser santo. Temos liberdade para entrar na Sua presença, porém essa liberdade nunca deve ser confundida com irreverência ou excessiva familiaridade.
O Senhor Jesus nos deu acesso ao Pai. Hebreus 4:16 diz: “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça”. Observe o maravilhoso equilíbrio das Escrituras: confiança, sim; irreverência, nunca. Intimidade, sim; leviandade, não. Somos filhos, mas Aquele de quem somos filhos continua sendo o Deus santo.
Até mesmo o Senhor Jesus, nos dias da Sua carne, demonstrou essa profunda reverência. Hebreus 5:7 fala das Suas orações e súplicas e diz que Ele “foi ouvido quanto ao que temia”. A ideia ali envolve temor santo, reverência e piedade. Se o próprio Filho, em Sua perfeita humanidade, manifestou tamanha reverência diante do Pai, quanto mais nós devemos aprender a nos aproximar de Deus dessa maneira.
Quanto à experiência de Jacó, a passagem realmente ilustra muito bem esse princípio. Depois do sonho em Betel, ele declarou:
“Na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia. E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus” (Gênesis 28:16-17).
Naturalmente, devemos entender isso dentro do contexto daquela ocasião. Jacó recebeu uma manifestação especial de Deus naquele lugar. Isso não significa que Deus estivesse somente em Betel. Pelo contrário, as Escrituras ensinam claramente a onipresença de Deus.
Davi expressou isso maravilhosamente no Salmo 139:
“Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também” (Salmos 139:7-8).
Portanto, há uma verdade ainda maior por trás daquilo que o irmão percebeu: não precisamos fazer Deus estar presente quando começamos a orar. Ele já está presente. A oração não traz Deus até nós; antes, pela oração tomamos conscientemente nosso lugar diante dEle.
Isso muda profundamente a maneira de orar.
Quando fechamos a porta do quarto e ninguém mais está vendo, Deus está ali. Quando oramos silenciosamente, Deus está ali. Quando estamos numa reunião da igreja e um irmão se levanta para orar, Deus está presente. Quando nenhuma palavra ainda saiu de nossos lábios, Ele já conhece nosso coração.
O Senhor Jesus disse:
“Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6:6).
Veja que expressão preciosa: “teu Pai, que vê em secreto”.
Por isso, a oração cristã possui ao mesmo tempo intimidade e solenidade. Estamos falando com nosso Pai, mas esse Pai é Deus. Somos recebidos por graça, mas entramos na presença do Santo. Podemos falar livremente, mas nunca de maneira leviana.
Há, porém, um pequeno cuidado que considero importante acrescentar à expressão “o Senhor me deu uma aula”. Entendo perfeitamente o que o irmão quis dizer, mas é sempre saudável submetermos nossas experiências e impressões à Palavra de Deus. Não devemos transformar uma impressão interior em revelação divina adicional. Deus já nos deu nas Escrituras tudo aquilo que precisamos para conhecer Sua vontade e crescer espiritualmente.
O Espírito Santo pode, sim, usar a Palavra que já conhecemos para despertar nossa consciência, trazer determinado texto à nossa lembrança e fazer-nos perceber uma verdade bíblica que antes não havíamos considerado com suficiente atenção. O próprio Senhor Jesus disse acerca do Espírito Santo: “Ele vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14:26).
Por isso, eu diria que aquilo que aconteceu com o irmão pode ser entendido como uma percepção mais profunda de uma verdade que já estava revelada nas Escrituras. E isso é muito precioso.
Também achei muito significativa sua frase: “Temor é o reconhecimento da santidade e autoridade do Senhor em todo lugar, e a reverência é a maneira como nos portamos diante dEle”.
Realmente existe uma relação muito próxima entre essas duas coisas. Quando reconhecemos quem Deus é, nossa conduta diante dEle muda. O problema da irreverência geralmente começa quando perdemos a percepção da grandeza de Deus.
Isaías experimentou algo semelhante. Quando viu “ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono”, ouviu os serafins proclamando:
“Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Isaías 6:1-3).
A primeira consequência daquela visão não foi orgulho espiritual, mas consciência da própria pequenez: “Ai de mim! Pois estou perdido” (Isaías 6:5).
Quanto mais conhecemos verdadeiramente a Deus, menos levianos nos tornamos diante dEle.
Isso não produz uma vida cristã triste ou aterrorizada. Pelo contrário, temor e alegria podem existir juntos. O Salmo 2:11 diz: “Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor”. Há alegria, mas há temor. Há comunhão, mas há reverência. Há liberdade, mas também consciência da majestade divina.
O Novo Testamento mostra o mesmo equilíbrio. A igreja primitiva “andava no temor do Senhor e consolação do Espírito Santo” (Atos dos Apóstolos 9:31). Observe novamente as duas coisas juntas: temor do Senhor e consolação do Espírito Santo. O temor bíblico não destrói a comunhão; ele a torna mais profunda e santa.
E há ainda algo especialmente precioso para nossa vida de oração: não somente Deus está presente, mas, para o crente, temos acesso consciente ao Pai por meio de Cristo e no poder do Espírito Santo. Efésios 2:18 declara: “Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito”.
Assim, quando nos ajoelhamos para orar, não estamos simplesmente falando para o espaço esperando que Deus, em algum lugar distante, nos escute. Pela obra do Senhor Jesus temos acesso ao Pai.
Por isso também podemos dizer:
“Senhor, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento” (Salmos 139:1-2).
Quanto à sua última frase — “Tenho certeza de que o Senhor completará a obra dEle em mim” — ela nos lembra Filipenses 1:6: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo”.
Que continuemos, portanto, crescendo no conhecimento do Senhor, sempre deixando que a Palavra de Deus examine nossas experiências, pensamentos e sentimentos. Quanto mais conhecermos Sua graça, mais O amaremos; e quanto mais conhecermos Sua santidade, mais reverentemente andaremos diante dEle.
O verdadeiro temor do Senhor não nos faz fugir da Sua presença. Faz-nos desejar estar nela, mas conscientes de quem Ele é.
Josué Matos
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