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Mais um que quer ser professor, mas não sabe nem pronunciar o nome dos LIVROS.

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Mais um que quer ser professor, mas não sabe nem pronunciar o nome dos LIVROS.

Não é SEGUNDA CRÔNICAS, mas sim SEGUNDO CRÔNICAS.

Aprenda por favor.

Minha Resposta:

Bem, na sua frase final, "Aprenda por favor", está errada. O correto seria: "Aprenda, por favor". Faltou uma vírgula.

Mesmo assim, obrigado pelo comentário. Entretanto, neste caso, a correção feita pelo irmão não procede.

A forma tradicional e gramaticalmente adequada em português é “Primeira Crônicas” e “Segunda Crônicas”, porque está subentendida a palavra “parte”, “seção” ou, mais propriamente, a ideia de “primeira” e “segunda” divisão do livro de Crônicas. O numeral ordinal concorda, portanto, no feminino.

O mesmo princípio explica por que dizemos:

Primeira e Segunda Samuel;
Primeira e Segunda Reis;
Primeira e Segunda Crônicas;
Primeira e Segunda Coríntios;
Primeira e Segunda Tessalonicenses;
Primeira e Segunda Timóteo;
Primeira e Segunda Pedro;
Primeira, Segunda e Terceira João.

Quando dizemos “Segunda Crônicas”, não estamos afirmando que a palavra “Crônicas” seja singular. Trata-se do título tradicional do livro bíblico, com a ideia subentendida de “Segunda [parte do livro de] Crônicas”.

É verdade que, especialmente na linguagem cotidiana, algumas pessoas dizem “Segundo Crônicas”, provavelmente fazendo a concordância mental com a palavra “livro”: “o segundo livro de Crônicas”. Se a expressão completa fosse “o segundo livro de Crônicas”, então “segundo” estaria perfeitamente correto, porque concordaria com “livro”, que é masculino.

Mas, quando empregamos diretamente o título bíblico, a forma consagrada é “Segunda Crônicas”.

Isso também pode ser observado na maneira tradicional de identificar esses livros: I Crônicas e II Crônicas, isto é, Primeira Crônicas e Segunda Crônicas. O conteúdo bíblico, evidentemente, não é alterado por essa questão gramatical. O livro que chamamos de Segunda Crônicas começa apresentando Salomão estabelecido em seu reino e prossegue relatando, entre outras coisas, a história dos reis de Judá.

Portanto, dizer “Segunda Crônicas” não demonstra desconhecimento dos livros da Bíblia. É uma forma correta e tradicional de mencionar o livro.

De qualquer maneira, há ainda uma questão mais importante para todos nós que ensinamos, ouvimos ou comentamos assuntos bíblicos. O conhecimento das Escrituras deve vir acompanhado de humildade. O apóstolo Paulo escreveu:

“E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” (1 Coríntios 8:2).

E também:

“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Efésios 4:29).

Podemos discordar, corrigir e até apontar um erro quando ele realmente existe. Contudo, o cristão deve procurar fazê-lo com respeito e mansidão. A Escritura ensina que “ao servo do Senhor não convém contender, mas, sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem” (2 Timóteo 2:24-25).

Por isso, se eu cometer algum erro ao ensinar a Palavra de Deus, não tenho dificuldade alguma em ser corrigido. Somos todos aprendizes diante das Escrituras. Neste caso específico, porém, “Segunda Crônicas” não é um erro.

Mais importante do que demonstrarmos quem sabe mais é fazermos aquilo que Esdras decidiu fazer: “Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos” (Esdras 7:10).

Primeiro buscar, depois praticar e então ensinar. Esse princípio continua sendo muito importante para qualquer pessoa que deseja ensinar a Palavra de Deus.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos:

No grupo do Mário, certa vez, alguém disse que, se sair da assembleia, a pessoa leva partes da verdade, pois a verdade está na assembleia. Isso me cheira a exclusivismo.

 Alguém que me escreveu no YouTube:

No grupo do Mário, certa vez, alguém disse que, se sair da assembleia, a pessoa leva partes da verdade, pois a verdade está na assembleia. Isso me cheira a exclusivismo.

Minha Resposta:

Entendo a sua preocupação, e realmente precisamos ter muito cuidado com a maneira como expressamos esse assunto. Dependendo do sentido em que essa afirmação foi feita, ela pode transmitir uma ideia de exclusivismo que não encontra apoio nas Escrituras.

Precisamos começar fazendo uma distinção muito importante: a assembleia não é proprietária da verdade. A verdade pertence a Deus e foi revelada por Ele em Sua Palavra. O Senhor Jesus disse ao Pai: “A tua palavra é a verdade” (João 17:17). O próprio Senhor Jesus declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (João 14:6). Portanto, não podemos dizer que a verdade pertence a determinado grupo de cristãos, movimento, denominação ou conjunto de assembleias.

Ao mesmo tempo, há uma verdade bíblica importante por trás desse assunto. Em 1 Timóteo 3:15, Paulo chama a igreja do Deus vivo de “coluna e firmeza da verdade”. Isso não significa que a igreja produz a verdade ou que a verdade se origina nela. A figura da coluna mostra justamente o contrário: a coluna sustenta e exibe algo que já existe. Assim, a responsabilidade da igreja local é manter, defender, praticar e tornar visível a verdade que Deus revelou.

Há, portanto, uma grande diferença entre dizer “a verdade pertence à assembleia” e dizer “a assembleia tem a responsabilidade de sustentar a verdade”.

A primeira afirmação, se entendida como se determinado grupo possuísse exclusivamente a verdade, está errada. A segunda é claramente bíblica.

Também precisamos compreender o que queremos dizer pela palavra “assembleia”. No Novo Testamento, uma igreja local não é uma denominação nem uma organização mundial formada por diversas congregações subordinadas a uma sede. É um ajuntamento local de crentes reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo e sujeitos à Sua Palavra. O Senhor disse:

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20).

A centralidade, portanto, não está na “assembleia”, mas em Cristo.

É muito importante conservar essa ordem. Não somos reunidos em torno de uma doutrina chamada “doutrina dos irmãos”, nem em torno da história de determinado movimento, nem em torno de determinados pregadores. Somos reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo. A autoridade não está nos irmãos, mas no Senhor e em Sua Palavra.

Paulo combateu vigorosamente o espírito partidário quando escreveu aos coríntios:

“Cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo. Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).

Mais adiante ele pergunta:

“Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?” (1 Coríntios 14:36).

Essa pergunta é particularmente importante para o assunto. Nenhuma igreja local pode comportar-se como se a Palavra de Deus tivesse surgido dela ou como se Deus tivesse confiado toda a verdade exclusivamente àquele grupo.

Entretanto, também não devemos cair no extremo oposto e dizer que todas as formas de reunião cristã são igualmente bíblicas e que não importa onde ou como um cristão se reúne.

Isso também não seria correto.

O Novo Testamento apresenta princípios claros para uma igreja local. Encontramos, entre outras coisas, a perseverança na doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações em Atos dos Apóstolos 2:42; a reunião ao nome do Senhor em Mateus 18:20; a Ceia do Senhor em 1 Coríntios 11:23-26; o exercício dos dons em 1 Coríntios 12–14; a pluralidade de presbíteros em Atos dos Apóstolos 14:23 e Tito 1:5; a disciplina da igreja em 1 Coríntios 5; e a responsabilidade de conservar a sã doutrina em 1 Timóteo 1:3 e Tito 2:1.

Portanto, existem princípios bíblicos que devem ser mantidos.

Se uma pessoa deixa uma assembleia que procura praticar esses princípios e passa a frequentar um lugar onde alguns deles não são observados, ela pode, de fato, acabar deixando de praticar determinadas verdades que anteriormente praticava. Nesse sentido específico, alguém talvez tenha querido dizer que a pessoa “leva” ou abandona “partes da verdade”. Porém, eu não usaria essa expressão dessa maneira, porque facilmente transmite a impressão de que “nós temos a verdade e os outros não têm”.

Seria melhor dizer que um cristão pode afastar-se de determinadas práticas ou princípios bíblicos que antes reconhecia e praticava.

Isso é bem diferente.

Também precisamos reconhecer que existem verdadeiros filhos de Deus fora das assembleias. Todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo e creu no Senhor Jesus Cristo pertence à Igreja que é o Corpo de Cristo. Paulo diz que fomos “batizados em um Espírito, formando um corpo” (1 Coríntios 12:13). Efésios 1:22-23 apresenta a Igreja como o Corpo de Cristo, e Cristo como sua Cabeça.

Assim, jamais deveríamos pensar que somente os cristãos reunidos em assembleias pertencem ao Corpo de Cristo.

Há irmãos e irmãs sinceros, piedosos e espirituais em diferentes contextos denominacionais. Podemos discordar da posição eclesiástica que ocupam e, ao mesmo tempo, reconhecê-los como nossos irmãos em Cristo. Se foram salvos pelo mesmo Senhor, pertencem ao mesmo Corpo.

Ao mesmo tempo, reconhecer isso não significa abandonar aquilo que entendemos ser o padrão bíblico para a igreja local.

Devemos manter a verdade, mas com humildade.

Há uma diferença enorme entre convicção e exclusivismo.

Convicção diz: “Creio que a Palavra de Deus ensina isso e, por amor ao Senhor, desejo obedecer”.

Exclusivismo diz: “Somente nós temos a verdade; quem não está conosco praticamente não tem nada”.

A primeira atitude é fidelidade; a segunda pode facilmente transformar-se em orgulho espiritual.

Paulo escreveu:

“Porque, quem te diferencia? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (1 Coríntios 4:7).

Tudo aquilo que conhecemos da verdade recebemos pela graça de Deus. Portanto, quanto mais verdade conhecemos, mais humildes deveríamos ser.

Além disso, nenhuma assembleia local é infalível. As sete igrejas de Apocalipse 2 e 3 demonstram isso claramente. Éfeso tinha aspectos dignos de elogio, mas havia deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:4). Pérgamo tolerava doutrinas erradas (Apocalipse 2:14-15). Tiatira tolerava grave corrupção (Apocalipse 2:20). Sardes tinha nome de que vivia, mas estava morta (Apocalipse 3:1). Laodiceia tornou-se morna e autossuficiente (Apocalipse 3:15-17).

Portanto, uma assembleia pode começar bem e posteriormente afastar-se da verdade. O simples fato de alguém dizer “somos uma assembleia reunida ao nome do Senhor” não torna automaticamente tudo o que aquela igreja ensina ou pratica correto.

Tudo precisa continuar sendo examinado pelas Escrituras.

Os bereanos nos fornecem um excelente exemplo. Mesmo ouvindo o apóstolo Paulo, eles “de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos dos Apóstolos 17:11).

Esse deve ser sempre o nosso critério.

Não devemos perguntar simplesmente: “O que as assembleias ensinam?”

Devemos perguntar: “O que dizem as Escrituras?”

Se aquilo que ensinamos nas assembleias estiver de acordo com as Escrituras, devemos mantê-lo, não porque seja uma tradição das assembleias, mas porque é Palavra de Deus. Se alguma tradição nossa não puder ser sustentada pelas Escrituras, não temos autoridade para transformá-la em mandamento de Deus.

Por isso, eu diria que sua preocupação tem fundamento se a frase foi usada no sentido de que determinado grupo de assembleias possui exclusivamente a verdade. Isso seria uma maneira inadequada e perigosa de pensar.

Por outro lado, não devemos desprezar a verdade bíblica de que a igreja local deve ser “coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:15). Ela recebeu a responsabilidade de sustentar, praticar, defender e proclamar a verdade de Deus.

A assembleia não é a fonte da verdade.

Cristo é a verdade (João 14:6).

A Palavra de Deus é a verdade (João 17:17).

O Espírito Santo é o Espírito da verdade (João 16:13).

E a igreja local deve ser coluna e firmeza dessa verdade (1 Timóteo 3:15).

Quando mantemos essa ordem, evitamos tanto o denominacionalismo quanto o exclusivismo.

Portanto, não devemos dizer: “A verdade está conosco porque somos da assembleia”.

Devemos dizer: “Desejamos estar onde a Palavra de Deus nos ensina a estar e praticar aquilo que ela nos manda praticar”.

E, mesmo fazendo isso, devemos permanecer humildes, reconhecendo que tudo o que sabemos e tudo o que somos devemos exclusivamente à graça de Deus.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos:

Você está repetindo o erro de Darby, e ele é o pai dessa interpretação sectária

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Meu irmão, a sua interpretação está fora do contexto. Os ‘dois ou três’ do versículo 20 são os mesmos do versículo 16; não se refere aos cultos nem à identificação do local de reunião. O Senhor está confirmando o que diz a Lei em Deuteronômio 19:15.

Se o irmão transgressor aceitasse a reconciliação na presença de duas ou três testemunhas, a autoridade do Nome do Senhor seria suficiente para resolver a questão; o caso não precisaria ser levado para a assembleia. O ensino do Senhor, no contexto, está tratando apenas de um caso de disciplina e não do formato e liturgia do culto. O Senhor está presente mesmo que seja uma única pessoa, mas, no caso de testemunhar uma situação de pecado, precisa haver, no mínimo, duas testemunhas. É esse o ensino do Senhor no contexto de Mateus 18:20.

Você está repetindo o erro de Darby. Ele é o pai dessa interpretação sectária, que é conhecida como ‘exclusivismo’. Essa doutrina já fez inúmeras divisões entre irmãos sinceros e zelosos das Escrituras. Os missionários irlandeses que vieram para o Brasil são santos homens de Deus; damos graças a Deus por eles, mas trouxeram essa cultura religiosa que já produziu muitas divisões no Brasil.

As igrejas que esses missionários plantaram têm a mesma tradição litúrgica: não usam placas, não usam instrumentos musicais, não reconhecem pastores, consideram todos os denominacionais como ‘sistema religioso’. Observe que todos os grupos darbystas, exclusivistas, fazem o mesmo.

Os missionários irlandeses não aceitam a ideia de que fazem parte do ‘movimento dos irmãos’; por isso, eles não têm comunhão com os darbystas exclusivistas. Mas, para isso, precisam anular a história da Igreja. Eles trazem a ideia de que a história que os historiadores deixaram escrita é a história da ‘igreja professa’, e que as igrejas locais que eles plantaram são as verdadeiras igrejas do Novo Testamento.

Meu irmão, isso é falsificar a história para introduzir uma interpretação particular. Isso está muito próximo de uma heresia. Como resultado, vemos essas igrejas envelhecendo e não conseguindo ter uma geração nova para dar continuidade à obra de Deus. Tornaram-se igrejas com pouca atração para a juventude, devido ao rigor exagerado.

As igrejas no Brasil que seguem essa tradição estão passando por muitas dificuldades. A membresia está diminuindo, não estão conseguindo alcançar as gerações dos filhos, muitos estão indo para as ‘denominações’. Chegou o momento de essas igrejas refletirem sobre a realidade do século XXI. Estão ficando fora do contexto religioso, cultural e social da nossa época. A Palavra de Deus é autoridade absoluta, mas podemos errar na aplicação dela para os nossos dias.

Observe que não existe, no Novo Testamento, uma epístola destinada à ‘Igreja que se reúne em nome do Senhor Jesus’. Nenhum apóstolo usou essa expressão. Só o APÓSTOLO JOHN NELSON DARBY interpretou dessa forma. Medite nisso, meu irmão.

Minha Resposta:

Agradeço pela sua exposição. Concordo com o irmão em um ponto importante: Mateus 18:20 não deve ser retirado do seu contexto. O contexto imediato é, de fato, um problema entre irmãos que pode culminar numa questão de disciplina da igreja local. Entretanto, é justamente quando examinamos cuidadosamente esse contexto que percebemos que Mateus 18:20 não pode ser limitado às duas ou três testemunhas mencionadas no versículo 16.

O ponto fundamental está na progressão estabelecida pelo próprio Senhor Jesus:

“Se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só” (Mateus 18:15).

Depois:

“Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada” (Mateus 18:16).

E depois:

“E, se não as escutar, dize-o à igreja” (Mateus 18:17).

Portanto, reconheço perfeitamente a relação de Mateus 18:16 com Deuteronômio 19:15. O Senhor está aplicando o princípio de que uma questão não deveria ser estabelecida pela palavra isolada de uma pessoa.

Mas observe que o processo não termina no versículo 16.

Se o irmão não ouvir as testemunhas, a questão deve ser levada à igreja. No versículo 17, portanto, já não estamos apenas diante do ofendido, do ofensor e das testemunhas. Estamos diante da igreja local.

É exatamente nesse contexto que o Senhor prossegue:

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mateus 18:18).

Depois fala da concordância em oração no versículo 19 e conclui:

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20).

Portanto, o “porque” do versículo 20 é muito importante. O Senhor não está simplesmente repetindo a regra jurídica das duas ou três testemunhas do versículo 16. Ele está explicando a autoridade espiritual e a presença que fundamentam aquilo que acabou de dizer acerca da igreja.

Há, portanto, uma diferença entre os “dois ou três” do versículo 16 e os “dois ou três” do versículo 20.

No versículo 16, eles são testemunhas chamadas pelo irmão ofendido. No versículo 20, são pessoas “reunidas” ao Nome do Senhor Jesus, e Ele promete estar “no meio delas”.

Além disso, se Mateus 18:20 estivesse simplesmente repetindo Deuteronômio 19:15, teríamos uma dificuldade bastante evidente: testemunhas são chamadas para estabelecer um fato; porém, Mateus 18:20 não diz “onde estiverem duas ou três testemunhas”. Diz:

“onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome”.

E acrescenta:

“aí estou eu no meio deles”.

Portanto, o assunto desenvolveu-se das testemunhas para a igreja, da igreja para sua autoridade de ligar e desligar, dessa autoridade para a concordância em oração e, finalmente, para a presença do Senhor no meio daqueles reunidos ao Seu Nome.

É importante também esclarecer outra questão. Ninguém está afirmando que Cristo não esteja com um crente individualmente.

O Senhor habita no crente pelo Espírito Santo. Paulo podia dizer: “Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). O Senhor prometeu Sua companhia individual aos Seus servos (Mateus 28:20), e cada crente desfruta de comunhão pessoal com Deus.

Mas Mateus 18:20 não está tratando simplesmente da presença de Cristo com o crente individual. A expressão é coletiva:

“no meio deles”.

Não posso estar “no meio” de uma única pessoa. A linguagem pressupõe uma companhia reunida, tendo Cristo como centro.

Outro ponto muito importante é a expressão “reunidos em meu nome”. O texto grego emprega uma construção que transmite a ideia de reunião em direção ao Seu Nome, isto é, tendo o Seu Nome como ponto de referência. Além disso, “reunidos” está na forma passiva. O pensamento não é meramente o de pessoas que resolveram organizar uma reunião segundo suas próprias preferências, mas de pessoas que foram reunidas tendo a Pessoa e a autoridade do Senhor Jesus Cristo como centro.

Isso harmoniza perfeitamente com o restante do Novo Testamento.

Veja, por exemplo, Primeira aos Coríntios 5:4:

“Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo.”

Aqui temos uma igreja local reunida para tratar exatamente de disciplina. Portanto, Paulo aplica à prática de uma igreja local os mesmos elementos encontrados em Mateus 18: o ajuntamento da igreja, o Nome do Senhor Jesus, Sua autoridade e uma decisão disciplinar.

Isso é muito significativo.

Paulo não diz que a igreja age em nome de Paulo, de Pedro, de Apolo ou de qualquer outro homem. Ela age “em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.

E isso nos leva a uma questão ainda mais ampla.

O irmão argumenta que nenhuma epístola foi dirigida à “igreja que se reúne em nome do Senhor Jesus”. É verdade que essa frase exata não aparece como título de uma epístola. Mas esse argumento não prova que o princípio não seja bíblico.

Também não encontramos uma epístola começando com a expressão “à igreja que pratica o batismo por imersão”, nem “à igreja que celebra a Ceia do Senhor no primeiro dia da semana”, nem “à igreja governada por uma pluralidade de presbíteros”. Mesmo assim, encontramos esses princípios quando reunimos o ensino do Novo Testamento.

As igrejas eram normalmente identificadas pela localidade:

“à igreja de Deus que está em Corinto” (Primeira aos Coríntios 1:2);

“à igreja dos tessalonicenses” (Primeira aos Tessalonicenses 1:1);

“às igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2);

“a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos” (Filipenses 1:1).

Observe algo muito interessante: não encontramos “Igreja de Paulo”, “Igreja de Pedro”, “Igreja de Apolo” ou qualquer denominação criada para distinguir um grupo de cristãos de outro.

Quando justamente esse espírito apareceu em Corinto, Paulo o repreendeu:

“Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo” (Primeira aos Coríntios 1:12).

E imediatamente pergunta:

“Está Cristo dividido?” (Primeira aos Coríntios 1:13).

Este princípio existia muito antes de John Nelson Darby.

Por isso, atribuir a Darby a origem da ideia de reunir-se somente ao Nome do Senhor Jesus desloca a discussão. A pergunta correta não é: “Quem ensinou isso no século XIX?”, mas: “O que encontramos no Novo Testamento?”

Eu não preciso provar que Darby estava certo. Também não preciso provar que missionários irlandeses estavam certos. Preciso perguntar se o ensino está de acordo com a Palavra de Deus.

Se Darby ensinou alguma coisa contrária às Escrituras, devemos rejeitá-la. Se um missionário irlandês ensinou algo contrário às Escrituras, devemos rejeitá-lo nesse ponto. E, da mesma maneira, se uma prática denominacional moderna contradiz as Escrituras, não devemos aceitá-la simplesmente porque milhões de cristãos a praticam.

“Examinai tudo. Retende o bem” (Primeira aos Tessalonicenses 5:21).

Também precisamos fazer uma distinção histórica importante entre uma verdade bíblica e o homem que, em determinado período da história, voltou a enfatizá-la.

Martinho Lutero não inventou a justificação pela fé porque a destacou no século XVI. A doutrina já estava em Romanos e Gálatas.

Da mesma maneira, se cristãos dos séculos XVIII, XIX, XX ou XXI redescobrem determinado princípio das Escrituras, a verdade não passa a pertencer a essas pessoas.

O teste continua sendo:

“Que diz a Escritura?” (Romanos 4:3).

Quanto à afirmação de que essa interpretação seria “sectária”, é necessário considerar justamente o que caracteriza uma seita ou partido segundo o Novo Testamento.

Paulo repreendeu os coríntios porque estavam criando partidos em torno de homens:

“Eu sou de Paulo; e eu, de Apolo; e eu, de Cefas” (Primeira aos Coríntios 1:12).

Reunir-se exclusivamente como cristãos, recusando um nome partidário, não é, em si mesmo, sectarismo. Pelo contrário, o princípio procura evitar exatamente aquilo que Paulo condenou.

Naturalmente, uma pessoa pode transformar até uma posição correta em motivo de orgulho. Um grupo pode dizer que se reúne somente ao Nome do Senhor e, ao mesmo tempo, manifestar espírito sectário, orgulho, dureza e falta de amor. Isso deve ser condenado.

Mas o abuso de uma verdade não anula a verdade.

Também não creio que devamos decidir questões doutrinárias observando se determinadas igrejas estão crescendo ou diminuindo.

O irmão menciona igrejas envelhecendo, jovens saindo e números diminuindo. Reconheço que isso deve produzir profundo exercício diante de Deus. Uma igreja precisa perguntar se está evangelizando, discipulando os jovens, ensinando as Escrituras, cuidando pastoralmente das famílias e demonstrando o amor de Cristo.

Mas números não podem determinar se uma doutrina é verdadeira.

Quando muitos discípulos abandonaram o Senhor Jesus em João 6, Ele não alterou Seu ensino para torná-lo mais atraente. Pelo contrário:

“Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele” (João 6:66).

Então perguntou aos doze:

“Quereis vós também retirar-vos?” (João 6:67).

A verdade nunca deve ser medida pelo número de pessoas que permanecem.

A igreja em Filadélfia tinha “pouca força”, mas recebeu do Senhor um elogio extraordinário:

“Guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8).

Isso não significa que devemos desejar igrejas pequenas, envelhecidas ou sem jovens. Evidentemente que não. Devemos evangelizar, trabalhar com crianças e jovens, discipular novos convertidos e transmitir fielmente a verdade à geração seguinte, conforme Segunda a Timóteo 2:2.

Entretanto, existe uma diferença entre tornar a mensagem compreensível à geração atual e modificar princípios bíblicos para tornar uma igreja mais atraente.

A cultura muda. A Palavra de Deus permanece.

O irmão menciona também instrumentos musicais, placas, pastores e outras práticas. Cada um desses assuntos precisa ser examinado separadamente pelas Escrituras. Não seria correto usar Mateus 18:20 sozinho para resolver todas essas questões.

Por exemplo, o Novo Testamento reconhece claramente pastores. O que precisa ser perguntado é se “pastor” aparece como título de um homem que governa sozinho uma igreja local ou se encontramos uma pluralidade de presbíteros/bispos exercendo cuidado pastoral.

Em Atos dos Apóstolos 20:17, Paulo chama os “anciãos da igreja” de Éfeso. No versículo 28, mostra que o Espírito Santo os constituiu bispos para apascentarem a igreja de Deus. Em Filipenses 1:1 aparecem “bispos e diáconos”. Em Primeira de Pedro 5:1-3, os presbíteros devem apascentar o rebanho de Deus.

Portanto, não se trata de “não reconhecer pastores”. Trata-se de perguntar qual é o modelo de liderança apresentado no Novo Testamento.

Quanto às placas, o prédio onde os cristãos se reúnem não é a igreja. A igreja são as pessoas. Pode haver uma identificação física para que alguém encontre o local; isso é uma questão prática. O problema surge quando um nome passa a estabelecer uma identidade eclesiástica diferente daquela que pertence a todos os cristãos.

Quanto aos instrumentos musicais, igualmente precisamos estudar especificamente o padrão de adoração apresentado à Igreja no Novo Testamento, e não simplesmente perguntar o que Israel fazia no Templo ou o que a cultura contemporânea prefere.

Portanto, esses assuntos não devem ser misturados como se constituíssem uma única questão.

Mas volto ao ponto central: Mateus 18:20.

Concordo que o contexto é disciplina.

Discordo da conclusão de que, por causa disso, Mateus 18:20 não ensine um princípio relacionado à igreja local.

É justamente o contrário.

Porque o contexto é disciplina, necessariamente existe uma igreja local. O versículo 17 diz:

“Dize-o à igreja”.

O versículo 18 mostra a autoridade dessa igreja para ligar e desligar.

O versículo 19 mostra a dependência de Deus em oração.

E o versículo 20 apresenta a presença e a autoridade do Senhor Jesus no meio daqueles reunidos ao Seu Nome.

Primeira aos Coríntios 5 confirma exatamente esse princípio quando uma igreja efetivamente precisou exercer disciplina:

“Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós... com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo” (Primeira aos Coríntios 5:4).

Portanto, não precisamos escolher entre duas interpretações: “Mateus 18 trata de disciplina” ou “Mateus 18 apresenta princípios da igreja local”.

As duas coisas estão relacionadas.

O contexto imediato é disciplina na igreja local, e justamente nesse contexto o Senhor revela princípios fundamentais acerca da autoridade da igreja, da oração coletiva, do Seu Nome e da Sua presença no meio dos santos reunidos.

Finalmente, irmão, penso que devemos evitar transformar a questão numa disputa entre “Darby”, “missionários irlandeses”, “denominações” e “movimento dos irmãos”.

Esses nomes pertencem à história.

Nossa autoridade é a Palavra de Deus.

Os bereanos foram elogiados não porque aceitaram ou rejeitaram determinado pregador por causa da sua origem, tradição ou reputação, mas porque:

“de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos dos Apóstolos 17:11).

Esse continua sendo o caminho seguro.

Não pergunto se Darby ensinou isso.

Não pergunto se os missionários irlandeses ensinaram isso.

Não pergunto se determinada denominação aceita ou rejeita isso.

Pergunto simplesmente:

O que ensina a Palavra de Deus?

E, lendo Mateus 18:15-20 em sua sequência, comparando-o com Primeira aos Coríntios 1:10-13; 5:4; 11:17-20; 14:23-26, Filipenses 1:1, Atos dos Apóstolos 20:17,28 e Apocalipse 3:8, entendo que permanece perfeitamente bíblico afirmar que uma igreja local deve reconhecer somente a autoridade do Senhor Jesus Cristo e reunir-se tendo Sua Pessoa e Seu Nome como centro.

Podemos discordar da interpretação, mas não considero correto classificá-la como “muito próxima de uma heresia”, especialmente quando estamos tratando de uma interpretação que procura fundamentar cada prática na autoridade das Escrituras.

Heresia é uma palavra séria.

Melhor será abrirmos a Bíblia e examinarmos cada ponto diante do texto sagrado.

Se estivermos errados, que a Palavra de Deus nos corrija.

Se estivermos certos, que a Palavra de Deus nos conserve fiéis, ainda que sejamos poucos.

“Guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8).

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos:

A Bíblia não determina um único regime político, mas ensina que o governo deve promover a justiça e o bem do povo?

Alguém que me escreveu no YouTube:

A Bíblia não determina um único regime político, mas ensina que o governo deve promover a justiça e o bem do povo. A monarquia existiu em Israel: Saul, Davi e outros reis (1 Samuel 8; 2 Samuel 5:3). Porém, Deus advertiu contra a concentração abusiva de poder (1 Samuel 8:10-18). Gênesis 1:26-28 ensina que o homem foi criado à imagem de Deus para dominar sobre os animais e a criação, não para ser propriedade de outro homem. Provérbios 29:2: ‘Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas, quando o ímpio domina, o povo geme.’

Regimes autoritários podem transformar o poder político em instrumento de controle e opressão. O regime nazista, por exemplo, suprimiu liberdades, perseguiu e assassinou milhões de pessoas por critérios raciais e políticos, tendo os judeus como principal grupo perseguido no Holocausto. Regimes comunistas autoritários também produziram severas restrições às liberdades individuais em diferentes países.

O princípio bíblico permanece: o poder humano não deve substituir Deus nem se transformar em instrumento de tirania, opressão ou perseguição.

Minha Resposta:

Há vários pontos corretos nessa observação, mas precisamos fazer algumas distinções importantes para não atribuir à Bíblia aquilo que ela não afirma.

Em primeiro lugar, realmente não encontramos no Novo Testamento a determinação de que as nações devam adotar democracia, monarquia, república ou qualquer outro sistema político específico. O ensino dado aos cristãos não é sobre qual sistema político devem estabelecer, mas sobre como devem comportar-se diante das autoridades constituídas.

Romanos 13:1 declara:

“Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus.”

Isso não significa que Deus aprove moralmente tudo o que os governantes fazem. A autoridade governamental é uma instituição permitida e estabelecida por Deus para a manutenção da ordem na sociedade, mas os homens que exercem essa autoridade continuam pessoalmente responsáveis perante Deus pelo modo como a utilizam.

Isso aparece claramente em Daniel. Nabucodonosor era um monarca absoluto e extremamente poderoso. Contudo, precisou aprender que havia uma autoridade infinitamente superior à sua:

“Até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Daniel 4:25).

Portanto, nenhum governante é verdadeiramente soberano. Reis, presidentes, primeiros-ministros e qualquer outra autoridade continuam debaixo da soberania de Deus.

A experiência de Israel em 1 Samuel 8 também é muito instrutiva. O problema não era simplesmente a existência de uma monarquia, pois a própria Lei já havia previsto que Israel teria um rei e havia estabelecido limites para ele (Deuteronômio 17:14-20). Mais tarde, o próprio Deus escolheria Davi e faria uma aliança com ele.

O problema em 1 Samuel 8 estava especialmente no motivo pelo qual Israel desejava um rei:

“Constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações” (1 Samuel 8:5).

Deus explicou a Samuel:

“Não te têm rejeitado a ti; antes, a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:7).

Israel queria tornar-se semelhante às demais nações e colocar sua confiança numa estrutura humana visível. Por isso, Deus mostrou antecipadamente o perigo da concentração do poder nas mãos de homens pecadores.

É muito significativo observar a repetição da palavra “tomará” em 1 Samuel 8:11-17. O rei tomaria os filhos, tomaria as filhas, tomaria os campos, tomaria as vinhas, tomaria os servos e tomaria parte da produção do povo. Finalmente, Samuel declarou:

“E vós lhe sereis por servos” (1 Samuel 8:17).

Deus estava mostrando que o poder humano, quando exercido sem temor de Deus, possui uma tendência para ultrapassar os seus limites e transformar autoridade em opressão.

Entretanto, devemos acrescentar outro princípio muito importante: a Bíblia não ensina que toda autoridade forte seja necessariamente ilegítima, nem que a liberdade individual seja a autoridade suprema. A Escritura não coloca a autonomia humana no lugar de Deus. O padrão bíblico não é simplesmente “quanto mais liberdade individual, melhor”. O padrão é justiça, responsabilidade, ordem e submissão final a Deus.

Romanos 13:3-4 apresenta a finalidade normal da autoridade civil:

“Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem.”

Assim, biblicamente, a autoridade civil possui responsabilidades reais. Ela deve restringir o mal e preservar a ordem. Quando utiliza o poder para promover o mal, perseguir inocentes ou exigir aquilo que contraria diretamente a vontade de Deus, está pervertendo a finalidade da autoridade que recebeu.

Isso nos leva a outra distinção fundamental.

A submissão cristã ao governo não significa obediência absoluta ao governo.

O Senhor Jesus disse:

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Existem coisas que pertencem legitimamente a César, isto é, à autoridade civil. Mas existem coisas que pertencem exclusivamente a Deus. César não pode ocupar o lugar de Deus.

Por isso, quando as autoridades ordenaram aos apóstolos que deixassem de anunciar o Senhor Jesus, Pedro respondeu:

“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).

Aqui encontramos o limite da submissão cristã. Enquanto a autoridade humana não exige do cristão algo contrário à Palavra de Deus, ele deve respeitá-la e obedecer-lhe. Porém, quando obedecer ao homem significa desobedecer claramente a Deus, a autoridade divina prevalece.

Isso não autorizou Pedro e os demais apóstolos a promoverem uma revolução contra o governo. Eles simplesmente continuaram obedecendo a Deus e aceitaram as consequências dessa fidelidade.

Este ponto é muito importante quando tratamos de regimes autoritários. O cristianismo do Novo Testamento surgiu e se expandiu debaixo do Império Romano, e vários imperadores foram cruéis e perseguidores. Mesmo assim, os apóstolos não organizaram um movimento político para derrubar Roma.

Pedro escreveu:

“Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores e para louvor dos que fazem o bem” (1 Pedro 2:13-14).

Mais adiante acrescentou:

“Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai o rei” (1 Pedro 2:17).

Observe a diferença: o rei deve ser honrado, mas Deus deve ser temido. A autoridade humana possui uma posição legítima, porém limitada; somente Deus possui autoridade absoluta.

Da mesma maneira, Paulo não orientou os cristãos a transformarem o sistema político romano. Em vez disso, escreveu:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Timóteo 2:1-2).

Portanto, a responsabilidade apresentada ao cristão é orar pelas autoridades e viver de maneira piedosa, honesta e pacífica.

Há ainda uma diferença essencial entre Israel no Antigo Testamento e a Igreja no Novo Testamento.

Israel era uma nação terrena, possuía território, legislação civil, magistrados, exército e reis. A Igreja não é uma continuação política de Israel e não recebeu de Deus a missão de estabelecer um governo sobre as nações.

O próprio Senhor Jesus declarou:

“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

E o apóstolo Paulo escreveu:

“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

Por isso, a grande missão da Igreja não é reformar politicamente o mundo, mas anunciar o Evangelho ao mundo. O Senhor Jesus não ordenou aos discípulos que conquistassem governos, mas:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

Naturalmente, isso não significa indiferença diante da injustiça. O cristão deve praticar o bem, defender a verdade, socorrer o necessitado, tratar todos com dignidade e jamais participar de perseguição ou injustiça. O Senhor Jesus chamou os Seus discípulos de “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5:13-16).

Quanto aos exemplos históricos mencionados — nazismo, comunismo ou qualquer outro regime que tenha produzido perseguição, assassinato e opressão — o cristão não precisa defender uma ideologia política oposta para condenar tais atrocidades. Basta aplicar os princípios da Palavra de Deus. Assassinato, perseguição injusta, racismo, crueldade e opressão são incompatíveis com a justiça divina, independentemente do nome político utilizado pelo regime que os pratique.

Também precisamos ter cuidado para não imaginar que a democracia, por si mesma, seja a solução bíblica para o problema do pecado humano. Um ditador pode praticar injustiça, mas uma maioria também pode aprovar aquilo que Deus condena. A verdade não é determinada pelo número de votos.

A Bíblia mostra diversas formas de governo humano ao longo da história, mas aponta finalmente para um governo perfeito que não será estabelecido pelo progresso político da humanidade.

Isaías profetizou acerca do Senhor Jesus:

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros” (Isaías 9:6).

E acrescentou:

“Do incremento deste principado e da paz, não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar em juízo e em justiça” (Isaías 9:7).

Apocalipse também aponta para esse momento:

“Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Apocalipse 11:15).

Portanto, podemos concordar com a afirmação de que o poder humano não deve ocupar o lugar de Deus nem ser utilizado como instrumento de tirania. Contudo, a conclusão bíblica vai ainda mais longe.

O problema fundamental não está apenas no sistema político, mas no coração humano. Um sistema pode estabelecer limites ao poder e produzir benefícios sociais importantes, mas nenhum sistema político consegue eliminar o pecado.

Jeremias 17:9 declara:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”

Por isso, a esperança final do cristão não está numa monarquia, numa república, numa democracia, no capitalismo, no socialismo ou em qualquer outra construção política humana. Nossa esperança está no Senhor Jesus Cristo.

Até que Ele estabeleça o Seu reino, o cristão deve respeitar as autoridades, pagar aquilo que lhes é devido, orar pelos governantes, praticar o bem e viver como cidadão responsável (Romanos 13:1-7; 1 Timóteo 2:1-2; Tito 3:1-2; 1 Pedro 2:13-17). Mas, se algum governo exigir aquilo que contradiz claramente a Palavra de Deus, permanece o princípio estabelecido pelos apóstolos:

“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).

Governos humanos passam. Impérios surgem e desaparecem. Sistemas políticos mudam. Mas a autoridade de Deus permanece, e o único governo absolutamente justo será aquele exercido pelo próprio Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

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