Alguém que me escreveu no YouTube:
A Bíblia não determina um único regime político, mas ensina que o governo deve promover a justiça e o bem do povo. A monarquia existiu em Israel: Saul, Davi e outros reis (1 Samuel 8; 2 Samuel 5:3). Porém, Deus advertiu contra a concentração abusiva de poder (1 Samuel 8:10-18). Gênesis 1:26-28 ensina que o homem foi criado à imagem de Deus para dominar sobre os animais e a criação, não para ser propriedade de outro homem. Provérbios 29:2: ‘Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas, quando o ímpio domina, o povo geme.’
Regimes autoritários podem transformar o poder político em instrumento de controle e opressão. O regime nazista, por exemplo, suprimiu liberdades, perseguiu e assassinou milhões de pessoas por critérios raciais e políticos, tendo os judeus como principal grupo perseguido no Holocausto. Regimes comunistas autoritários também produziram severas restrições às liberdades individuais em diferentes países.
O princípio bíblico permanece: o poder humano não deve substituir Deus nem se transformar em instrumento de tirania, opressão ou perseguição.
Minha Resposta:
Há vários pontos corretos nessa observação, mas precisamos fazer algumas distinções importantes para não atribuir à Bíblia aquilo que ela não afirma.
Em primeiro lugar, realmente não encontramos no Novo Testamento a determinação de que as nações devam adotar democracia, monarquia, república ou qualquer outro sistema político específico. O ensino dado aos cristãos não é sobre qual sistema político devem estabelecer, mas sobre como devem comportar-se diante das autoridades constituídas.
Romanos 13:1 declara:
“Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus.”
Isso não significa que Deus aprove moralmente tudo o que os governantes fazem. A autoridade governamental é uma instituição permitida e estabelecida por Deus para a manutenção da ordem na sociedade, mas os homens que exercem essa autoridade continuam pessoalmente responsáveis perante Deus pelo modo como a utilizam.
Isso aparece claramente em Daniel. Nabucodonosor era um monarca absoluto e extremamente poderoso. Contudo, precisou aprender que havia uma autoridade infinitamente superior à sua:
“Até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Daniel 4:25).
Portanto, nenhum governante é verdadeiramente soberano. Reis, presidentes, primeiros-ministros e qualquer outra autoridade continuam debaixo da soberania de Deus.
A experiência de Israel em 1 Samuel 8 também é muito instrutiva. O problema não era simplesmente a existência de uma monarquia, pois a própria Lei já havia previsto que Israel teria um rei e havia estabelecido limites para ele (Deuteronômio 17:14-20). Mais tarde, o próprio Deus escolheria Davi e faria uma aliança com ele.
O problema em 1 Samuel 8 estava especialmente no motivo pelo qual Israel desejava um rei:
“Constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações” (1 Samuel 8:5).
Deus explicou a Samuel:
“Não te têm rejeitado a ti; antes, a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:7).
Israel queria tornar-se semelhante às demais nações e colocar sua confiança numa estrutura humana visível. Por isso, Deus mostrou antecipadamente o perigo da concentração do poder nas mãos de homens pecadores.
É muito significativo observar a repetição da palavra “tomará” em 1 Samuel 8:11-17. O rei tomaria os filhos, tomaria as filhas, tomaria os campos, tomaria as vinhas, tomaria os servos e tomaria parte da produção do povo. Finalmente, Samuel declarou:
“E vós lhe sereis por servos” (1 Samuel 8:17).
Deus estava mostrando que o poder humano, quando exercido sem temor de Deus, possui uma tendência para ultrapassar os seus limites e transformar autoridade em opressão.
Entretanto, devemos acrescentar outro princípio muito importante: a Bíblia não ensina que toda autoridade forte seja necessariamente ilegítima, nem que a liberdade individual seja a autoridade suprema. A Escritura não coloca a autonomia humana no lugar de Deus. O padrão bíblico não é simplesmente “quanto mais liberdade individual, melhor”. O padrão é justiça, responsabilidade, ordem e submissão final a Deus.
Romanos 13:3-4 apresenta a finalidade normal da autoridade civil:
“Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem.”
Assim, biblicamente, a autoridade civil possui responsabilidades reais. Ela deve restringir o mal e preservar a ordem. Quando utiliza o poder para promover o mal, perseguir inocentes ou exigir aquilo que contraria diretamente a vontade de Deus, está pervertendo a finalidade da autoridade que recebeu.
Isso nos leva a outra distinção fundamental.
A submissão cristã ao governo não significa obediência absoluta ao governo.
O Senhor Jesus disse:
“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22:21).
Existem coisas que pertencem legitimamente a César, isto é, à autoridade civil. Mas existem coisas que pertencem exclusivamente a Deus. César não pode ocupar o lugar de Deus.
Por isso, quando as autoridades ordenaram aos apóstolos que deixassem de anunciar o Senhor Jesus, Pedro respondeu:
“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).
Aqui encontramos o limite da submissão cristã. Enquanto a autoridade humana não exige do cristão algo contrário à Palavra de Deus, ele deve respeitá-la e obedecer-lhe. Porém, quando obedecer ao homem significa desobedecer claramente a Deus, a autoridade divina prevalece.
Isso não autorizou Pedro e os demais apóstolos a promoverem uma revolução contra o governo. Eles simplesmente continuaram obedecendo a Deus e aceitaram as consequências dessa fidelidade.
Este ponto é muito importante quando tratamos de regimes autoritários. O cristianismo do Novo Testamento surgiu e se expandiu debaixo do Império Romano, e vários imperadores foram cruéis e perseguidores. Mesmo assim, os apóstolos não organizaram um movimento político para derrubar Roma.
Pedro escreveu:
“Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores e para louvor dos que fazem o bem” (1 Pedro 2:13-14).
Mais adiante acrescentou:
“Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai o rei” (1 Pedro 2:17).
Observe a diferença: o rei deve ser honrado, mas Deus deve ser temido. A autoridade humana possui uma posição legítima, porém limitada; somente Deus possui autoridade absoluta.
Da mesma maneira, Paulo não orientou os cristãos a transformarem o sistema político romano. Em vez disso, escreveu:
“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Timóteo 2:1-2).
Portanto, a responsabilidade apresentada ao cristão é orar pelas autoridades e viver de maneira piedosa, honesta e pacífica.
Há ainda uma diferença essencial entre Israel no Antigo Testamento e a Igreja no Novo Testamento.
Israel era uma nação terrena, possuía território, legislação civil, magistrados, exército e reis. A Igreja não é uma continuação política de Israel e não recebeu de Deus a missão de estabelecer um governo sobre as nações.
O próprio Senhor Jesus declarou:
“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
E o apóstolo Paulo escreveu:
“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).
Por isso, a grande missão da Igreja não é reformar politicamente o mundo, mas anunciar o Evangelho ao mundo. O Senhor Jesus não ordenou aos discípulos que conquistassem governos, mas:
“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).
Naturalmente, isso não significa indiferença diante da injustiça. O cristão deve praticar o bem, defender a verdade, socorrer o necessitado, tratar todos com dignidade e jamais participar de perseguição ou injustiça. O Senhor Jesus chamou os Seus discípulos de “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5:13-16).
Quanto aos exemplos históricos mencionados — nazismo, comunismo ou qualquer outro regime que tenha produzido perseguição, assassinato e opressão — o cristão não precisa defender uma ideologia política oposta para condenar tais atrocidades. Basta aplicar os princípios da Palavra de Deus. Assassinato, perseguição injusta, racismo, crueldade e opressão são incompatíveis com a justiça divina, independentemente do nome político utilizado pelo regime que os pratique.
Também precisamos ter cuidado para não imaginar que a democracia, por si mesma, seja a solução bíblica para o problema do pecado humano. Um ditador pode praticar injustiça, mas uma maioria também pode aprovar aquilo que Deus condena. A verdade não é determinada pelo número de votos.
A Bíblia mostra diversas formas de governo humano ao longo da história, mas aponta finalmente para um governo perfeito que não será estabelecido pelo progresso político da humanidade.
Isaías profetizou acerca do Senhor Jesus:
“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros” (Isaías 9:6).
E acrescentou:
“Do incremento deste principado e da paz, não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar em juízo e em justiça” (Isaías 9:7).
Apocalipse também aponta para esse momento:
“Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Apocalipse 11:15).
Portanto, podemos concordar com a afirmação de que o poder humano não deve ocupar o lugar de Deus nem ser utilizado como instrumento de tirania. Contudo, a conclusão bíblica vai ainda mais longe.
O problema fundamental não está apenas no sistema político, mas no coração humano. Um sistema pode estabelecer limites ao poder e produzir benefícios sociais importantes, mas nenhum sistema político consegue eliminar o pecado.
Jeremias 17:9 declara:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”
Por isso, a esperança final do cristão não está numa monarquia, numa república, numa democracia, no capitalismo, no socialismo ou em qualquer outra construção política humana. Nossa esperança está no Senhor Jesus Cristo.
Até que Ele estabeleça o Seu reino, o cristão deve respeitar as autoridades, pagar aquilo que lhes é devido, orar pelos governantes, praticar o bem e viver como cidadão responsável (Romanos 13:1-7; 1 Timóteo 2:1-2; Tito 3:1-2; 1 Pedro 2:13-17). Mas, se algum governo exigir aquilo que contradiz claramente a Palavra de Deus, permanece o princípio estabelecido pelos apóstolos:
“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).
Governos humanos passam. Impérios surgem e desaparecem. Sistemas políticos mudam. Mas a autoridade de Deus permanece, e o único governo absolutamente justo será aquele exercido pelo próprio Senhor Jesus Cristo.
Josué Matos