Alguém que me escreveu no YouTube:
Perdoe-me, irmão, mas a sua resposta sobre a pressa de Jesus para subir ao Pai, após encontrar Maria Madalena, não faz sentido. Você disse que a pressa era por causa da glorificação do corpo. Ele ressuscitou, apareceu para ela e só subiu na presença de todos após quase um mês de aparições esporádicas, e com possíveis corpos diferentes. Lembra dos dois discípulos no caminho de Emaús? Eles não o reconheceram, mesmo jantando com Ele. Por fim, voltou a aparecer muito tempo depois para Saulo.
Minha Resposta:
Obrigado pela observação. Entretanto, é necessário esclarecer alguns pontos, porque a sua conclusão atribui à minha resposta algo que não foi exatamente o que eu afirmei. Eu não disse que Jesus estava com “pressa” para realizar a ascensão definitiva ao céu. Essa ideia de “pressa” não deve ser confundida com aquilo que está sendo tratado em João 20:17.
O texto diz:
“Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai; mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20:17).
A ascensão pública e definitiva do Senhor aconteceu posteriormente, depois do período em que Ele Se apresentou ressuscitado aos discípulos. Sobre isso não há dúvida, pois Lucas declara:
“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus” (Atos dos Apóstolos 1:3).
Portanto, foram quarenta dias, e não simplesmente “quase um mês”. Depois desse período aconteceu a ascensão descrita em Atos dos Apóstolos 1:9:
“E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos.”
Mas isso não anula João 20:17. Pelo contrário, precisamos entender cada passagem dentro do seu próprio contexto.
Em João 20, Maria Madalena encontra o Senhor ressuscitado e, ao reconhecê-Lo, evidentemente procura agarrar-se a Ele. Por isso, uma forma muito apropriada de compreender a expressão é “não me detenhas” ou “não continues agarrada a mim”. A ideia não é simplesmente que Maria estivesse proibida de tocar fisicamente no Senhor.
Isso fica evidente porque outras pessoas tocaram no Senhor ressuscitado.
Mateus registra:
“E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram” (Mateus 28:9).
Mais tarde, o próprio Senhor disse a Tomé:
“Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; e chega a tua mão e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente” (João 20:27).
Portanto, João 20:17 não pode significar que o corpo ressuscitado de Cristo não pudesse ser tocado enquanto Ele ainda não tivesse realizado a ascensão definitiva.
O ponto é outro.
Maria havia recuperado, por assim dizer, Aquele que pensava ter perdido. Naturalmente, desejava conservá-Lo consigo. Porém, o relacionamento dos discípulos com Cristo não continuaria como antes da cruz. O Senhor havia ressuscitado e seguiria para o Pai. Maria não deveria agarrar-se àquela forma anterior de relacionamento terreno com Ele.
É justamente por isso que Jesus não apenas diz “não me detenhas”, mas imediatamente acrescenta:
“...porque ainda não subi para meu Pai.”
A ascensão estava diante dEle.
O próprio Senhor já havia preparado os discípulos para essa mudança:
“Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai” (João 16:28).
E também:
“Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei” (João 16:7).
Portanto, não estou dizendo que a ascensão definitiva registrada em Atos dos Apóstolos 1 aconteceu naquele mesmo momento diante de Maria. A Bíblia afirma claramente que houve quarenta dias de aparições antes dessa ascensão.
Quanto aos “possíveis corpos diferentes”, aqui também precisamos ter bastante cuidado para não afirmar mais do que a Escritura afirma.
A Bíblia não diz que Jesus apareceu depois da ressurreição usando corpos diferentes.
Pelo contrário, o Senhor fez questão de demonstrar aos discípulos a identidade e realidade do Seu corpo ressuscitado.
Quando eles pensaram estar vendo um espírito, Ele declarou:
“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).
A expressão é muito importante:
“Sou eu mesmo.”
Depois acrescentou:
“E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés” (Lucas 24:40).
João registra a mesma realidade:
“E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado” (João 20:20).
E, oito dias depois, as marcas da crucificação continuavam identificáveis, pois Jesus disse a Tomé:
“Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; e chega a tua mão e põe-na no meu lado” (João 20:27).
Portanto, não temos base bíblica para falar em vários corpos. Temos o mesmo Jesus que morreu, foi sepultado e ressuscitou corporalmente, agora numa condição de ressurreição.
Quanto aos dois discípulos no caminho de Emaús, o próprio texto explica por que eles não reconheceram Jesus:
“Os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem” (Lucas 24:16).
Mais tarde:
“Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram” (Lucas 24:31).
Observe que Lucas não diz que Jesus tinha outro corpo e, por essa razão, eles não conseguiram reconhecê-Lo. Diz que os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-Lo e, posteriormente, foram abertos.
Há uma diferença muito grande entre as duas afirmações.
Além disso, pouco depois, quando Jesus apareceu aos discípulos reunidos, fez questão de eliminar qualquer dúvida acerca da realidade corporal da Sua ressurreição:
“Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo” (Lucas 24:38-39).
Ele chegou inclusive a comer diante deles:
“Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de mel; o que ele tomou, e comeu diante deles” (Lucas 24:42-43).
Portanto, o episódio de Emaús não prova a existência de “possíveis corpos diferentes”.
Finalmente, você menciona corretamente a aparição do Senhor a Saulo. Porém, essa aparição pertence a outra situação.
Quando Cristo apareceu a Saulo no caminho de Damasco, a ascensão de Atos dos Apóstolos 1 já havia acontecido. Cristo já estava no céu.
Paulo realmente viu o Senhor ressuscitado e glorificado, tanto que posteriormente escreveu:
“E, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim, como a um abortivo” (1 Coríntios 15:8).
E também perguntou:
“Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo, Senhor nosso?” (1 Coríntios 9:1).
Mas a aparição a Saulo não significa que Jesus tenha voltado a viver na terra ou que tenha assumido outro corpo.
Atos dos Apóstolos deixa claro que a manifestação veio do céu:
“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu” (Atos dos Apóstolos 9:3).
E a voz declarou:
“Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Atos dos Apóstolos 9:5).
Temos, portanto, duas situações distintas.
Primeiro, depois da ressurreição, Cristo permaneceu quarenta dias manifestando-Se aos discípulos e dando “muitas e infalíveis provas” de que estava vivo (Atos dos Apóstolos 1:3).
Depois aconteceu Sua ascensão pública e definitiva, quando “uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos” (Atos dos Apóstolos 1:9).
Posteriormente, Cristo glorificado manifestou-Se a Saulo a partir do céu.
Uma coisa não contradiz a outra.
Há ainda um detalhe muito precioso em João 20:17 que não deve ser perdido em toda essa discussão. O Senhor diz a Maria:
“Vai para meus irmãos.”
E acrescenta:
“Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.”
A obra da cruz estava consumada. Cristo havia ressuscitado. Agora os Seus são chamados de “meus irmãos”, sendo introduzidos, pela graça, numa nova posição e numa nova proximidade com Deus.
Isso concorda com Hebreus:
“Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hebreus 2:11).
Portanto, João 20:17 não está ensinando que Jesus realizou naquele instante, diante de Maria, a ascensão pública narrada em Atos dos Apóstolos 1. Tampouco precisamos imaginar que Ele tenha usado vários corpos durante as aparições posteriores à ressurreição.
O que a Escritura afirma com segurança é que o mesmo Jesus que morreu ressuscitou corporalmente, apresentou-Se vivo durante quarenta dias, ascendeu posteriormente ao céu e, já glorificado, manifestou-Se mais tarde a Saulo.
E quanto à expressão “pressa”, volto ao ponto inicial: essa não foi a afirmação que fiz. Portanto, não seria correto construir a objeção partindo da ideia de que eu teria dito que Jesus estava com “pressa” para realizar naquele momento a ascensão definitiva descrita em Atos dos Apóstolos.
Josué Matos