Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Graça e paz, Josué.
Pergunta de uma pessoa:
Se a nossa POSIÇÃO é em CRISTO, por que os exclusivistas evitam que novos irmãos partam o pão?
Se já estamos em CRISTO espiritualmente e a MESA é ESPIRITUAL, não terrena?
Minha Resposta:
A pergunta é importante porque envolve verdades que, embora relacionadas, não devem ser confundidas: nossa posição em Cristo, a Igreja que é o Corpo de Cristo, a igreja local, a Mesa do Senhor, a Ceia do Senhor e a comunhão de uma igreja local.
Primeiramente, concordo que todo verdadeiro salvo está em Cristo. A Palavra de Deus declara:
“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
Também lemos:
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17).
E ainda:
“Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:27).
Portanto, a posição espiritual do salvo em Cristo não depende de ele pertencer a determinada denominação, grupo ou igreja local. Todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo pertence a Cristo e, consequentemente, pertence à Igreja que é o Corpo de Cristo.
Entretanto, aqui precisamos fazer uma distinção muito importante: pertencer ao Corpo de Cristo não significa automaticamente estar na comunhão prática de determinada igreja local.
A Igreja, Corpo de Cristo, e a igreja local
A Igreja que é o Corpo de Cristo é formada por todos os verdadeiros salvos desta presente dispensação.
“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” (1 Coríntios 12:13).
Esta é uma realidade espiritual que Deus realizou. Nenhum ancião recebe alguém no Corpo de Cristo, e nenhuma igreja local pode excluir alguém do Corpo de Cristo. É Deus quem coloca o salvo nessa posição.
Mas, quando chegamos à igreja local, encontramos uma esfera de testemunho e responsabilidade coletiva.
Por exemplo, em Atos dos Apóstolos 2:41-42 encontramos uma ordem muito instrutiva:
“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.”
Observe a sequência:
receberam a Palavra;
foram batizados;
foram acrescentados;
perseveravam na doutrina dos apóstolos;
na comunhão;
no partir do pão;
e nas orações.
Portanto, o partir do pão não aparece como uma atividade isolada da vida da igreja local.
A pessoa não chegava simplesmente para participar do pão e do cálice sem qualquer relação com a comunhão, a doutrina e o testemunho daquela igreja.
Não somos recebidos simplesmente à Ceia do Senhor
Este é um ponto que precisa ser compreendido.
Biblicamente, não deveríamos pensar na recepção de uma pessoa simplesmente como “recebê-la para partir o pão”.
A recepção é à comunhão da igreja local.
A Ceia do Senhor é uma das expressões dessa comunhão.
Atos dos Apóstolos 2:42 não diz apenas que perseveravam no partir do pão. Antes disso, diz que perseveravam “na doutrina dos apóstolos e na comunhão”.
Isso significa que a comunhão da igreja local é muito mais ampla do que comer do pão e beber do cálice.
Quando uma pessoa é recebida na comunhão, ela passa a compartilhar dos privilégios e também das responsabilidades daquela igreja local.
Por isso, seria incorreto reduzir toda a questão da comunhão à pergunta: “Posso ou não posso partir o pão?”
A questão é maior:
“Posso estar em comunhão com esta igreja, com sua doutrina, seu testemunho e sua prática?”
Existe responsabilidade dos dois lados. A igreja recebe a pessoa, mas, em certo sentido, a pessoa também recebe aquela igreja e identifica-se com a sua comunhão.
Mesa do Senhor e Ceia do Senhor não são exatamente a mesma coisa
Aqui está, talvez, uma das principais causas de confusão.
As expressões aparecem em contextos diferentes.
A “Mesa do Senhor” aparece em 1 Coríntios 10:21:
“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.”
Já a expressão “Ceia do Senhor” aparece em 1 Coríntios 11:20:
“De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a Ceia do Senhor.”
Embora as duas verdades estejam relacionadas, não devemos simplesmente transformar as duas expressões em sinônimos absolutos.
A Mesa do Senhor, em 1 Coríntios 10, apresenta principalmente o princípio da comunhão.
A Ceia do Senhor, em 1 Coríntios 11, apresenta a reunião memorial instituída pelo Senhor Jesus, na qual os crentes comem do pão e bebem do cálice em memória dEle.
Podemos resumir assim:
A Mesa do Senhor fala da comunhão.
A Ceia do Senhor fala da comemoração.
A Mesa enfatiza aquilo com que estamos associados.
A Ceia enfatiza Aquele de quem nos lembramos.
O que significa “mesa” na Bíblia?
Precisamos abandonar a ideia de que a “Mesa do Senhor” seja simplesmente o móvel onde são colocados o pão e o cálice.
Não é disso que 1 Coríntios 10 está tratando.
O contexto começa anteriormente:
“Porventura o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).
Depois Paulo usa Israel como exemplo:
“Vede a Israel segundo a carne; os que comem os sacrifícios não são, porventura, participantes do altar?” (1 Coríntios 10:18).
Finalmente ele menciona a “mesa dos demônios” (1 Coríntios 10:21).
Obviamente, Paulo não está contrastando dois móveis.
Ele está falando de duas comunhões incompatíveis.
Participar de uma mesa significa identificar-se com aquilo que ela representa.
É nesse sentido que a Mesa do Senhor é espiritual. Mas o fato de ela ser espiritual não elimina suas consequências práticas.
Pelo contrário, é justamente porque a comunhão é espiritual que devemos ter cuidado com nossas associações.
A Mesa do Senhor não pertence a um grupo religioso
Também precisamos tomar cuidado para não transformar a expressão “Mesa do Senhor” numa espécie de título denominacional.
Nenhuma denominação pode dizer: “A Mesa do Senhor pertence a nós.”
Ela é do Senhor.
Também não existe nas Escrituras uma classe de cristãos chamada “os da Mesa do Senhor”, como se determinada organização religiosa tivesse adquirido direitos sobre ela.
Paulo diz:
“a mesa do Senhor” (1 Coríntios 10:21).
O destaque está na palavra “Senhor”.
É a Sua autoridade que importa.
Portanto, a pergunta principal não deveria ser: “Qual grupo possui a Mesa do Senhor?”
A pergunta deveria ser:
“Estamos procurando obedecer à Palavra do Senhor na comunhão da igreja local?”
A Ceia do Senhor
Quando chegamos a 1 Coríntios 11, a ênfase muda.
Ali encontramos:
“Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:23-24).
Aqui temos claramente a comemoração.
O pão nos faz recordar o corpo do Senhor entregue por nós.
O cálice nos faz recordar Seu sangue derramado.
E Paulo acrescenta:
“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Coríntios 11:26).
Portanto, a Ceia olha em pelo menos duas direções.
Olhamos para trás:
“a morte do Senhor”.
E olhamos para a frente:
“até que venha”.
No centro está a Pessoa de Cristo:
“em memória de mim”.
Se todos os salvos estão em Cristo, por que não admitir imediatamente qualquer pessoa ao partir do pão?
Porque posição espiritual e comunhão prática não são exatamente a mesma coisa.
Um exemplo muito claro está em 1 Coríntios 5.
O homem mencionado naquele capítulo era reconhecido como estando dentro da esfera da igreja local, mas, devido ao pecado moral grave em que persistia, deveria ser colocado fora daquela comunhão:
“Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Coríntios 5:13).
Isso não significa que os anciãos tinham poder para retirar alguém do Corpo de Cristo.
Nenhum homem possui esse poder.
Mas a igreja tinha responsabilidade quanto à sua comunhão local.
Portanto, a Bíblia estabelece uma distinção entre a posição que alguém possui diante de Deus e a condição prática necessária para desfrutar da comunhão de uma igreja local.
Outro exemplo aparece em 2 Tessalonicenses 3:6:
“Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebeu.”
Veja que Paulo chama a pessoa de “irmão”, mas, ao mesmo tempo, reconhece que seu comportamento poderia exigir uma ação prática da igreja.
Logo, o argumento “ele está em Cristo, portanto necessariamente deve participar imediatamente de tudo na igreja local” não resolve a questão.
Mas isso autoriza o exclusivismo?
Não.
Existe um perigo no outro extremo.
Uma igreja pode ser tão cuidadosa com a recepção que acaba estabelecendo condições que a própria Palavra de Deus não estabeleceu.
Não devemos acrescentar mandamentos humanos às Escrituras.
Não deveríamos perguntar se a pessoa pertence ao “nosso grupo”, se utiliza determinado nome religioso ou se procede exatamente do mesmo círculo de igrejas.
A pergunta fundamental é se temos razões bíblicas para reconhecê-la como uma pessoa salva, batizada, de vida moral compatível com a profissão cristã, que não esteja envolvida em doutrina fundamentalmente falsa ou em associações que comprometam a comunhão e que esteja disposta a caminhar de acordo com a Palavra de Deus.
A recepção bíblica não deve ser nem descuidada nem sectária.
Por que pode haver necessidade de esperar?
Imagine uma pessoa completamente desconhecida chegando a uma igreja local e dizendo:
“Sou salvo e quero partir o pão hoje.”
Os responsáveis nunca a viram. Não sabem quem ela é, no que acredita, como vive nem de onde veio.
Seria necessariamente uma ofensa pedir algum tempo para conhecê-la?
Não.
Isso não significa afirmar que ela não seja salva.
Significa apenas reconhecer a responsabilidade da igreja.
No Novo Testamento encontramos inclusive o princípio das cartas de recomendação.
Paulo escreve:
“Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencreia, para que a recebais no Senhor, como convém aos santos” (Romanos 16:1-2).
Em outra ocasião encontramos:
“E, querendo ele passar à Acaia, o animaram os irmãos e escreveram aos discípulos que o recebessem” (Atos dos Apóstolos 18:27).
Isso mostra que havia reconhecimento e responsabilidade entre as igrejas.
Não era simplesmente uma situação em que qualquer desconhecido chegava, declarava-se cristão e automaticamente participava de tudo.
Ao mesmo tempo, não encontramos no Novo Testamento fundamento para criar uma burocracia religiosa que mantenha indefinidamente afastado um crente conhecido, piedoso e biblicamente apto apenas porque ele não pertence ao mesmo círculo de igrejas.
“Examine-se, pois, o homem a si mesmo”
Alguém poderá citar:
“Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice” (1 Coríntios 11:28).
Isso é verdade e muito importante.
Entretanto, precisamos respeitar o contexto.
Paulo está tratando da maneira como os crentes que já estavam na igreja em Corinto participavam da Ceia do Senhor.
Alguns estavam participando de maneira indigna. Por isso deveriam examinar a si mesmos.
O texto não ensina que toda responsabilidade da igreja desaparece e que qualquer pessoa pode determinar unilateralmente sua própria participação.
Se interpretássemos dessa maneira, entraríamos em conflito com outras passagens que ensinam claramente a responsabilidade coletiva da igreja quanto à sua comunhão, disciplina e pureza.
Estar “em Cristo” não elimina a responsabilidade prática
Este princípio aparece em muitas áreas da vida cristã.
O salvo está “em Cristo”, mas deve andar como Cristo andou:
“Aquele que diz que está nele também deve andar como ele andou” (1 João 2:6).
O salvo é santo quanto à sua posição, mas também recebe a ordem:
“Como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver” (1 Pedro 1:15).
Temos, portanto, posição e prática.
Nossa posição é perfeita em Cristo.
Nossa prática deve corresponder à nossa posição.
O mesmo princípio se aplica à comunhão da igreja local.
A Mesa é espiritual, mas isso não significa que seja individual
Este ponto também é importante.
Dizer que algo é espiritual não significa dizer que seja puramente individual.
A comunhão apresentada em 1 Coríntios 10 é coletiva:
“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:17).
Observe as palavras:
“nós”;
“muitos”;
“um só corpo”;
“todos participamos”.
É uma realidade espiritual, porém expressa coletivamente.
Por isso, a participação no partir do pão nunca deveria ser entendida como uma decisão puramente particular:
“Eu sei que sou salvo, portanto ninguém tem nada a ver com minha participação.”
Isso contraria o próprio significado de comunhão.
Comunhão significa participação compartilhada.
Então qual seria o equilíbrio bíblico?
Creio que podemos resumir da seguinte maneira.
Todo verdadeiro salvo está em Cristo e pertence ao Seu Corpo.
Nenhuma igreja local coloca alguém em Cristo.
Nenhuma igreja local possui a Mesa do Senhor.
A Mesa do Senhor, em 1 Coríntios 10, enfatiza comunhão e associação espiritual sob o senhorio de Cristo.
A Ceia do Senhor, em 1 Coríntios 11, é a comemoração instituída pelo Senhor, na qual os crentes reunidos comem o pão e bebem do cálice em memória dEle.
A Ceia do Senhor é uma expressão da comunhão da igreja local, e não uma cerimônia independente dessa comunhão.
Por isso, biblicamente, não deveríamos falar apenas em “receber alguém à Ceia”; o princípio mais amplo é receber alguém à comunhão da igreja local.
Essa recepção envolve responsabilidade.
A igreja não deve receber levianamente quem vive em pecado conhecido ou sustenta doutrina que atinge fundamentos da fé.
Por outro lado, também não deve rejeitar um verdadeiro crente simplesmente porque ele não pertence ao seu círculo de igrejas ou não carrega determinado rótulo.
É preciso evitar os dois extremos:
a abertura sem discernimento e o exclusivismo sectário.
O centro deve continuar sendo Cristo
Finalmente, quando discutimos a Mesa e a Ceia do Senhor, existe o perigo de gastarmos tanto tempo discutindo quem pode ou não participar que acabamos perdendo de vista o grande propósito da própria Ceia.
O Senhor não disse:
“Fazei isto para demonstrardes que sois melhores do que outros cristãos.”
Também não disse:
“Fazei isto em memória da vossa igreja.”
Muito menos:
“Fazei isto em memória do vosso grupo.”
Ele disse:
“Fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24).
Cristo é o centro.
A Mesa é do Senhor.
A Ceia é do Senhor.
A igreja é de Deus.
A Palavra é a autoridade.
Portanto, não devemos usar a verdade da comunhão para criar uma seita fechada, nem usar a verdade da nossa posição em Cristo para eliminar a ordem, a santidade e a responsabilidade da igreja local.
Precisamos conservar as duas verdades.
Todo verdadeiro salvo está em Cristo.
Mas todo verdadeiro salvo é também chamado a andar em obediência a Cristo.
É justamente porque pertencemos a Ele que devemos desejar comunhão com outros salvos segundo a Sua Palavra, procurando manter “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3), sem sacrificar a verdade e sem criar exigências que Deus não criou.
Josué Matos