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A Igreja e o Reino de Deus - Qual a Diferença?

 Alguém que me escrweveu no YouTube:

Gostei do vídeo: “A Igreja e o Reino de Deus — Qual a Diferença?”. Ajudou-me a entender este assunto complexo. Vou rever, depois das minhas férias, para entender melhor. Teve bastante Teologia Bíblica e Sistemática. PARABÉNS! Só não concordei com o entendimento do MILÊNIO LITERAL.

Minha Resposta:

Muito obrigado pelas palavras e por ter assistido ao vídeo com atenção. Fico contente por saber que o conteúdo ajudou a compreender melhor a diferença entre a Igreja e o Reino de Deus.

Quanto ao Milênio literal, compreendo que existem diferentes interpretações entre aqueles que estudam as profecias bíblicas. Há os que entendem os “mil anos” de Apocalipse 20 simbolicamente e há os que entendem que se trata de um período real e futuro. A posição que apresentei no vídeo é a segunda, porque entendo que ela acompanha de maneira mais natural tanto Apocalipse 20 como as muitas profecias do Antigo Testamento acerca do futuro reinado do Messias.

O ponto principal não está somente na expressão “mil anos”. Na realidade, o assunto começa muito antes do livro de Apocalipse.

  1. Apocalipse menciona seis vezes os mil anos

Em Apocalipse 20:1-7, a expressão “mil anos” aparece repetidamente. Satanás é preso por mil anos; os santos reinam com Cristo durante mil anos; os demais mortos não revivem até que os mil anos sejam completados; e, depois de terminados os mil anos, Satanás é solto.

Portanto, temos uma sequência:

Cristo volta em glória — Apocalipse 19:11-21;

Satanás é preso — Apocalipse 20:1-3;

Cristo reina com os Seus santos — Apocalipse 20:4-6;

completam-se os mil anos — Apocalipse 20:7;

Satanás é solto e ocorre a última rebelião — Apocalipse 20:7-10;

segue-se o julgamento do grande trono branco — Apocalipse 20:11-15;

depois aparecem o novo céu e a nova terra — Apocalipse 21:1.

Essa sequência é uma das razões pelas quais entendo que o Milênio não representa simplesmente a época atual da Igreja. O texto coloca esse reinado depois da manifestação gloriosa de Cristo descrita no capítulo 19 e antes do estado eterno apresentado nos capítulos 21 e 22.

Além disso, Apocalipse 20 apresenta os mil anos como um período definido entre acontecimentos igualmente definidos. Satanás é preso antes desse período e solto quando ele termina.

  1. A situação atual não corresponde à prisão de Satanás descrita em Apocalipse 20

Apocalipse 20:3 explica a finalidade da prisão de Satanás: “para que mais não engane as nações”.

Isso é muito importante.

No tempo presente, Satanás ainda está ativo. O apóstolo Pedro escreveu:

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (Primeira Epístola de Pedro 5:8).

Paulo também o chama de “deus deste século”, dizendo que ele cegou “os entendimentos dos incrédulos” (Segunda Epístola aos Coríntios 4:4).

Portanto, existe uma diferença evidente entre a atividade de Satanás atualmente e a condição apresentada em Apocalipse 20:1-3. Hoje ele anda em derredor e engana; naquele período estará preso no abismo para não enganar as nações.

  1. O Milênio não começa em Apocalipse 20

Apocalipse 20 revela claramente a duração do reino, mas o próprio reino já havia sido profetizado muitas vezes.

Por exemplo:

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros” (Isaías 9:6).

Logo depois:

“Do incremento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino” (Isaías 9:7).

Observe que o Messias está relacionado ao trono de Davi.

A mesma verdade aparece no anúncio do nascimento do Senhor Jesus:

“Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; e reinará eternamente na casa de Jacó” (Evangelho segundo Lucas 1:32-33).

Aqui temos elementos muito específicos: o Rei é Jesus Cristo; o trono é o trono de Davi; e a casa sobre a qual Ele reinará é a casa de Jacó.

Por isso, não considero correto transformar “Jacó” em Igreja ou o “trono de Davi” simplesmente no governo espiritual de Cristo no coração dos crentes. A Igreja possui bênçãos extraordinárias em Cristo, mas isso não significa que Deus tenha cancelado aquilo que prometeu a Israel.

  1. Israel e a Igreja precisam ser distinguidos

Esse ponto está diretamente relacionado com o tema do vídeo.

Quando não distinguimos Israel da Igreja, torna-se muito difícil compreender o Milênio literalmente, porque muitas promessas feitas especificamente a Israel acabam sendo aplicadas espiritualmente à Igreja.

Paulo, entretanto, ensina que Deus ainda possui propósitos para Israel:

“Digo, pois: porventura rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum” (Epístola aos Romanos 11:1).

Mais adiante:

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo” (Epístola aos Romanos 11:25-26).

Observe a palavra “até”. Existe um endurecimento parcial e temporário de Israel. Isso significa que Deus ainda tem propósitos futuros para aquela nação.

  1. Existem profecias que dificilmente podem ser colocadas na época atual ou no estado eterno

Isaías 11 apresenta um período extraordinário:

“E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará” (Isaías 11:6).

Depois acrescenta:

“Não se fará mal nem dano algum em todo o monte da minha santidade, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:9).

Essa descrição não corresponde ao mundo presente.

Mas também encontramos elementos em outras profecias que mostram que não se trata ainda do estado eterno.

Isaías 65:20, por exemplo, ainda menciona morte e longevidade humana. Isso não pode descrever o estado eterno, porque em Apocalipse 21:4 está escrito que então “não haverá mais morte”.

Portanto, temos necessidade de reconhecer um período intermediário: não é a presente dispensação da Igreja, porque as condições descritas ainda não existem; e não é o estado eterno, porque ainda aparecem morte, nações e outras condições próprias da Terra. O Milênio encaixa-se precisamente nesse período profético.

  1. Zacarias apresenta o Senhor reinando sobre a Terra

Zacarias declara:

“E o Senhor será rei sobre toda a terra” (Zacarias 14:9).

O contexto é muito significativo. O capítulo fala da vinda do Senhor, do monte das Oliveiras, de Jerusalém e das nações.

Depois lemos:

“E acontecerá que todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém subirão de ano em ano para adorarem o Rei, o Senhor dos Exércitos, e celebrarem a festa das cabanas” (Zacarias 14:16).

Temos, portanto, Jerusalém, nações e o Senhor reconhecido como Rei.

Isso novamente não descreve adequadamente nem a presente época da Igreja nem o estado eterno. Aponta para o futuro governo messiânico de Cristo sobre a Terra.

  1. O Salmo 72 também descreve esse reinado

O Salmo 72 apresenta um Rei governando universalmente:

“Dominará de mar a mar, e desde o rio até às extremidades da terra” (Salmos 72:8).

E:

“E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão” (Salmos 72:11).

Ainda não vemos todas as nações submetidas ao Senhor Jesus dessa maneira. Hebreus reconhece exatamente essa realidade:

“Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas” (Epístola aos Hebreus 2:8).

Cristo possui o direito de reinar, mas a manifestação pública e universal desse governo ainda é futura.

  1. Cristo precisa reinar

Paulo escreveu:

“Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés” (Primeira Epístola aos Coríntios 15:25).

Depois acrescenta:

“Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (Primeira Epístola aos Coríntios 15:26).

Isso também ajuda a compreender a ordem profética. Há um período no qual Cristo reina e progressivamente todos os inimigos são colocados debaixo dos Seus pés. Finalmente, a própria morte é eliminada.

Isso concorda perfeitamente com Apocalipse 20 e 21: primeiro temos o reinado; depois, o julgamento final; finalmente, no novo céu e na nova terra, a morte já não existe.

  1. Mil anos não significa que o reino de Cristo terminará depois disso

Às vezes surge esta dificuldade: se Lucas 1:33 diz que o reino de Cristo “não terá fim”, como podemos dizer que haverá um reino de mil anos?

Não existe contradição.

Os mil anos dizem respeito a uma fase determinada do governo de Cristo sobre esta Terra. Depois disso, Seu domínio não termina. O Milênio conduz ao estado eterno.

Apocalipse 11:15 declara:

“Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre.”

Portanto, Cristo não deixa de ser Rei quando terminam os mil anos. Termina aquela forma específica do reino sobre a Terra atual, e segue-se o estado eterno.

  1. Por que, então, entendo o Milênio literalmente?

Não é apenas porque Apocalipse 20 diz “mil anos”. É porque essa interpretação permite que várias linhas proféticas da Bíblia permaneçam em seu sentido natural.

Deus fez promessas a Abraão e aos seus descendentes; fez promessas a Davi acerca do seu trono; os profetas anunciaram a restauração de Israel; anunciaram Jerusalém ocupando um lugar especial; anunciaram as nações submetidas ao Messias; anunciaram paz e justiça sobre a Terra; e o Novo Testamento confirma que Jesus receberá o trono de Davi e reinará sobre a casa de Jacó.

Finalmente, Apocalipse 20 revela a duração desse período: mil anos.

Por isso, considero o Milênio literal não como uma doutrina construída exclusivamente sobre uma expressão encontrada em Apocalipse, mas como a conclusão de uma longa linha profética que começa muito antes. Apocalipse 20 não cria a esperança do reino messiânico; ele acrescenta um detalhe que as profecias anteriores não haviam revelado com a mesma clareza: a sua duração.

Naturalmente, reconheço que existem cristãos sinceros que interpretam essas passagens de maneira diferente. Contudo, quando seguimos uma leitura normal das promessas feitas a Israel e distinguimos Israel da Igreja, o Milênio literal apresenta uma harmonia muito clara entre os profetas, os Evangelhos, as Epístolas e o livro de Apocalipse.

E talvez, quando rever o vídeo depois das férias, este seja um bom ponto para observar: não analisar apenas Apocalipse 20 isoladamente, mas acompanhar toda a linha bíblica do reino — desde as promessas feitas a Abraão e Davi, passando por Isaías, Salmos, Daniel e Zacarias, chegando às palavras do Senhor Jesus e, finalmente, a Apocalipse 19–21.

A grande esperança não são simplesmente “mil anos”. A grande esperança é a manifestação gloriosa do próprio Senhor Jesus Cristo como Rei, quando aquilo que hoje este mundo rejeita será publicamente reconhecido:

“E no vestido e na sua coxa tem escrito este nome: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Apocalipse 19:16).

Josué Matos

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