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E sobre o jejum?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

E sobre o jejum?

Minha Resposta:

O jejum é uma prática encontrada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Entretanto, precisamos compreender seu verdadeiro significado, sua finalidade espiritual e, principalmente, se existe algum mandamento que obrigue os cristãos a jejuar nos dias atuais.

A resposta bíblica é que o jejum é uma prática legítima, que pode acompanhar a oração e a busca pela direção de Deus, mas não constitui uma obrigação imposta à Igreja, tampouco um meio de alcançar méritos diante de Deus.

Vamos considerar algumas passagens das Escrituras.

1. O jejum no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, o jejum estava frequentemente associado à humilhação diante de Deus, ao arrependimento, à tristeza e à busca pela orientação divina.

Encontramos diversos exemplos:

  • Moisés jejuou durante quarenta dias e quarenta noites na presença do Senhor (Êxodo 34:28).
  • Davi jejuou enquanto buscava a misericórdia de Deus pela vida de seu filho (2 Samuel 12:16).
  • Esdras proclamou um jejum para que o povo se humilhasse diante de Deus e buscasse um caminho seguro (Esdras 8:21-23).
  • Os habitantes de Nínive proclamaram um jejum como expressão de arrependimento diante da mensagem anunciada por Jonas (Jonas 3:5-10).

Entretanto, Deus deixou claro que a simples abstinência de alimentos não possuía valor espiritual quando o coração permanecia distante Dele.

Em Isaías 58:3-7, o Senhor repreendeu aqueles que jejuavam exteriormente, mas continuavam praticando injustiças, contendas e opressões.

Isso nos ensina que o jejum nunca deveria ser considerado um ritual capaz de substituir a obediência à Palavra de Deus.

2. O que o Senhor Jesus ensinou sobre o jejum?

Em Mateus 6:16-18, o Senhor Jesus ensinou:

"Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam."

Observe que o Senhor não condenou o jejum. Sua repreensão foi dirigida àqueles que utilizavam essa prática para demonstrar uma espiritualidade que desejavam exibir publicamente.

Os fariseus transformavam o jejum numa demonstração exterior de religiosidade. Segundo Lucas 18:12, alguns se orgulhavam de jejuar duas vezes por semana.

O Senhor Jesus ensinou justamente o contrário: aquele que jejua deve fazê-lo diante de Deus, sem procurar reconhecimento humano.

Portanto, o valor do jejum não está na quantidade de horas sem comer, mas na sinceridade do coração diante do Senhor.

3. Por que os discípulos não jejuavam enquanto Jesus estava com eles?

Encontramos uma passagem particularmente importante em Mateus 9:14-15.

Os discípulos de João Batista perguntaram ao Senhor Jesus por que eles e os fariseus jejuavam frequentemente, enquanto os discípulos de Jesus não jejuavam.

O Senhor respondeu:

"Podem, porventura, andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão."

O Senhor apresentou a Si mesmo como o Esposo. Enquanto estava fisicamente com os discípulos, Sua presença era motivo de alegria.

Entretanto, chegaria o momento em que Ele lhes seria tirado.

É importante observar que Jesus não estabeleceu nessa passagem um calendário religioso, uma quantidade obrigatória de dias ou uma frequência semanal de jejum.

Ele simplesmente mostrou que haveria circunstâncias nas quais Seus discípulos jejuariam.

4. A Igreja primitiva praticava o jejum?

Sim. O livro de Atos dos Apóstolos apresenta dois exemplos particularmente esclarecedores.

Em Atos 13:2-3, encontramos os cristãos reunidos em Antioquia servindo ao Senhor e jejuando. Foi naquela ocasião que o Espírito Santo indicou Barnabé e Saulo para a obra à qual os havia chamado.

Depois disso, os cristãos jejuaram, oraram e lhes impuseram as mãos, despedindo-os.

Outro exemplo aparece em Atos 14:23:

"E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido."

Essas passagens demonstram que o jejum era praticado pelos primeiros cristãos, especialmente em circunstâncias relacionadas à oração, à dependência de Deus e a decisões importantes no serviço cristão.

Entretanto, precisamos distinguir entre uma prática registrada nas Escrituras e um mandamento universal dirigido a todos os cristãos.

O Novo Testamento não estabelece que todo crente deva jejuar determinado número de vezes por semana, nem determina períodos obrigatórios de abstinência alimentar para a Igreja.

5. O jejum torna nossa oração mais poderosa?

Aqui precisamos ter bastante cuidado com alguns ensinamentos populares.

Há quem afirme que determinadas respostas de Deus somente podem ser alcançadas mediante jejuns prolongados, ou que quanto maior o sacrifício físico, maior será o poder espiritual recebido.

Entretanto, não encontramos nas epístolas um ensino que apresente o jejum como uma espécie de instrumento para obrigar Deus a atender às nossas petições.

Nossa aproximação de Deus está fundamentada na pessoa e na obra do Senhor Jesus Cristo, e não em nossos sacrifícios pessoais.

Hebreus 4:16 declara:

"Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno."

Observe que o convite é para nos aproximarmos com confiança, fundamentados na graça divina.

O jejum pode acompanhar um período especial de oração, mas não torna Deus mais disposto a ouvir Seus filhos, como se Sua bondade dependesse da quantidade de refeições que deixamos de fazer.

Também não devemos confundir disciplina espiritual com poder espiritual. O poder pertence a Deus, e o cristão depende continuamente do Espírito Santo.

6. O cristão que não jejua está em pecado?

Não podemos afirmar isso.

Não existe nas epístolas dirigidas à Igreja um mandamento que estabeleça o jejum como uma obrigação periódica para todos os salvos.

Diferentemente da oração, sobre a qual encontramos uma exortação expressa em 1 Tessalonicenses 5:17 — "Orai sem cessar" —, não encontramos uma determinação equivalente ordenando que todos os cristãos jejuem continuamente ou em dias específicos.

Portanto, não seria correto transformar uma prática voluntária numa lei espiritual.

O cristão pode sentir a necessidade de separar determinado período para oração e jejum, especialmente diante de alguma circunstância que o leve a buscar a direção do Senhor com maior dedicação.

Contudo, isso deve acontecer de maneira sincera, sem imposições humanas e sem considerar espiritualmente inferiores aqueles que não adotam a mesma prática.

Também é importante lembrar que o jejum não é uma competição espiritual. Pessoas com limitações de saúde, necessidades alimentares específicas ou que dependem de medicamentos não devem ser constrangidas a comprometer sua saúde para demonstrar espiritualidade.

Deus conhece o coração e as circunstâncias de cada pessoa.

7. O verdadeiro jejum não substitui uma vida de comunhão com Deus

Um cristão pode permanecer muitas horas sem se alimentar e, ainda assim, continuar distante de Deus em seus pensamentos e atitudes.

Por outro lado, alguém pode desfrutar de profunda comunhão com o Senhor sem estar praticando um jejum alimentar.

A verdadeira espiritualidade não se mede pelo sofrimento físico, mas pela obediência à Palavra de Deus, pela dependência do Espírito Santo e pela manifestação do caráter de Cristo em nossa vida.

Em Colossenses 2:20-23, o apóstolo Paulo adverte contra práticas religiosas baseadas em proibições humanas e no rigor para com o corpo, mostrando que tais exercícios, por si mesmos, não possuem poder para vencer os desejos da carne.

Isso não significa que toda abstinência voluntária seja errada. Significa que não devemos atribuir ao sofrimento físico uma capacidade espiritual que as Escrituras não lhe conferem.

O jejum não santifica automaticamente uma pessoa. A santificação está relacionada à ação de Deus em nossa vida, mediante Sua Palavra e o Espírito Santo (João 17:17; 2 Tessalonicenses 2:13).

Conclusão

O jejum é uma prática bíblica legítima, mas não é uma condição para a salvação, não constitui uma obrigação periódica para a Igreja e não deve ser utilizado como instrumento de demonstração pública de espiritualidade.

Quando praticado, deve acompanhar uma atitude sincera de oração, humilhação e dependência de Deus.

Não devemos condenar quem jejua, nem acusar de desobediência aquele que não jejua.

O importante é compreender que nossa comunhão com Deus não depende de rituais exteriores, mas de nosso relacionamento com Ele por meio do Senhor Jesus Cristo.

O cristão não precisa passar fome para convencer Deus a ouvi-lo. Ele já possui, em Cristo, livre acesso ao Pai (Efésios 2:18).

O jejum pode ser uma expressão de nossa dedicação a Deus, mas jamais deve ocupar o lugar daquilo que é verdadeiramente essencial: a fé, a obediência, a oração e a comunhão diária com o Senhor.

Josué Matos

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