Áudios

Pesquisar este blog

Você está repetindo o erro de Darby, e ele é o pai dessa interpretação sectária

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Meu irmão, a sua interpretação está fora do contexto. Os ‘dois ou três’ do versículo 20 são os mesmos do versículo 16; não se refere aos cultos nem à identificação do local de reunião. O Senhor está confirmando o que diz a Lei em Deuteronômio 19:15.

Se o irmão transgressor aceitasse a reconciliação na presença de duas ou três testemunhas, a autoridade do Nome do Senhor seria suficiente para resolver a questão; o caso não precisaria ser levado para a assembleia. O ensino do Senhor, no contexto, está tratando apenas de um caso de disciplina e não do formato e liturgia do culto. O Senhor está presente mesmo que seja uma única pessoa, mas, no caso de testemunhar uma situação de pecado, precisa haver, no mínimo, duas testemunhas. É esse o ensino do Senhor no contexto de Mateus 18:20.

Você está repetindo o erro de Darby. Ele é o pai dessa interpretação sectária, que é conhecida como ‘exclusivismo’. Essa doutrina já fez inúmeras divisões entre irmãos sinceros e zelosos das Escrituras. Os missionários irlandeses que vieram para o Brasil são santos homens de Deus; damos graças a Deus por eles, mas trouxeram essa cultura religiosa que já produziu muitas divisões no Brasil.

As igrejas que esses missionários plantaram têm a mesma tradição litúrgica: não usam placas, não usam instrumentos musicais, não reconhecem pastores, consideram todos os denominacionais como ‘sistema religioso’. Observe que todos os grupos darbystas, exclusivistas, fazem o mesmo.

Os missionários irlandeses não aceitam a ideia de que fazem parte do ‘movimento dos irmãos’; por isso, eles não têm comunhão com os darbystas exclusivistas. Mas, para isso, precisam anular a história da Igreja. Eles trazem a ideia de que a história que os historiadores deixaram escrita é a história da ‘igreja professa’, e que as igrejas locais que eles plantaram são as verdadeiras igrejas do Novo Testamento.

Meu irmão, isso é falsificar a história para introduzir uma interpretação particular. Isso está muito próximo de uma heresia. Como resultado, vemos essas igrejas envelhecendo e não conseguindo ter uma geração nova para dar continuidade à obra de Deus. Tornaram-se igrejas com pouca atração para a juventude, devido ao rigor exagerado.

As igrejas no Brasil que seguem essa tradição estão passando por muitas dificuldades. A membresia está diminuindo, não estão conseguindo alcançar as gerações dos filhos, muitos estão indo para as ‘denominações’. Chegou o momento de essas igrejas refletirem sobre a realidade do século XXI. Estão ficando fora do contexto religioso, cultural e social da nossa época. A Palavra de Deus é autoridade absoluta, mas podemos errar na aplicação dela para os nossos dias.

Observe que não existe, no Novo Testamento, uma epístola destinada à ‘Igreja que se reúne em nome do Senhor Jesus’. Nenhum apóstolo usou essa expressão. Só o APÓSTOLO JOHN NELSON DARBY interpretou dessa forma. Medite nisso, meu irmão.

Minha Resposta:

Agradeço pela sua exposição. Concordo com o irmão em um ponto importante: Mateus 18:20 não deve ser retirado do seu contexto. O contexto imediato é, de fato, um problema entre irmãos que pode culminar numa questão de disciplina da igreja local. Entretanto, é justamente quando examinamos cuidadosamente esse contexto que percebemos que Mateus 18:20 não pode ser limitado às duas ou três testemunhas mencionadas no versículo 16.

O ponto fundamental está na progressão estabelecida pelo próprio Senhor Jesus:

“Se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só” (Mateus 18:15).

Depois:

“Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada” (Mateus 18:16).

E depois:

“E, se não as escutar, dize-o à igreja” (Mateus 18:17).

Portanto, reconheço perfeitamente a relação de Mateus 18:16 com Deuteronômio 19:15. O Senhor está aplicando o princípio de que uma questão não deveria ser estabelecida pela palavra isolada de uma pessoa.

Mas observe que o processo não termina no versículo 16.

Se o irmão não ouvir as testemunhas, a questão deve ser levada à igreja. No versículo 17, portanto, já não estamos apenas diante do ofendido, do ofensor e das testemunhas. Estamos diante da igreja local.

É exatamente nesse contexto que o Senhor prossegue:

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mateus 18:18).

Depois fala da concordância em oração no versículo 19 e conclui:

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20).

Portanto, o “porque” do versículo 20 é muito importante. O Senhor não está simplesmente repetindo a regra jurídica das duas ou três testemunhas do versículo 16. Ele está explicando a autoridade espiritual e a presença que fundamentam aquilo que acabou de dizer acerca da igreja.

Há, portanto, uma diferença entre os “dois ou três” do versículo 16 e os “dois ou três” do versículo 20.

No versículo 16, eles são testemunhas chamadas pelo irmão ofendido. No versículo 20, são pessoas “reunidas” ao Nome do Senhor Jesus, e Ele promete estar “no meio delas”.

Além disso, se Mateus 18:20 estivesse simplesmente repetindo Deuteronômio 19:15, teríamos uma dificuldade bastante evidente: testemunhas são chamadas para estabelecer um fato; porém, Mateus 18:20 não diz “onde estiverem duas ou três testemunhas”. Diz:

“onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome”.

E acrescenta:

“aí estou eu no meio deles”.

Portanto, o assunto desenvolveu-se das testemunhas para a igreja, da igreja para sua autoridade de ligar e desligar, dessa autoridade para a concordância em oração e, finalmente, para a presença do Senhor no meio daqueles reunidos ao Seu Nome.

É importante também esclarecer outra questão. Ninguém está afirmando que Cristo não esteja com um crente individualmente.

O Senhor habita no crente pelo Espírito Santo. Paulo podia dizer: “Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). O Senhor prometeu Sua companhia individual aos Seus servos (Mateus 28:20), e cada crente desfruta de comunhão pessoal com Deus.

Mas Mateus 18:20 não está tratando simplesmente da presença de Cristo com o crente individual. A expressão é coletiva:

“no meio deles”.

Não posso estar “no meio” de uma única pessoa. A linguagem pressupõe uma companhia reunida, tendo Cristo como centro.

Outro ponto muito importante é a expressão “reunidos em meu nome”. O texto grego emprega uma construção que transmite a ideia de reunião em direção ao Seu Nome, isto é, tendo o Seu Nome como ponto de referência. Além disso, “reunidos” está na forma passiva. O pensamento não é meramente o de pessoas que resolveram organizar uma reunião segundo suas próprias preferências, mas de pessoas que foram reunidas tendo a Pessoa e a autoridade do Senhor Jesus Cristo como centro.

Isso harmoniza perfeitamente com o restante do Novo Testamento.

Veja, por exemplo, Primeira aos Coríntios 5:4:

“Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo.”

Aqui temos uma igreja local reunida para tratar exatamente de disciplina. Portanto, Paulo aplica à prática de uma igreja local os mesmos elementos encontrados em Mateus 18: o ajuntamento da igreja, o Nome do Senhor Jesus, Sua autoridade e uma decisão disciplinar.

Isso é muito significativo.

Paulo não diz que a igreja age em nome de Paulo, de Pedro, de Apolo ou de qualquer outro homem. Ela age “em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.

E isso nos leva a uma questão ainda mais ampla.

O irmão argumenta que nenhuma epístola foi dirigida à “igreja que se reúne em nome do Senhor Jesus”. É verdade que essa frase exata não aparece como título de uma epístola. Mas esse argumento não prova que o princípio não seja bíblico.

Também não encontramos uma epístola começando com a expressão “à igreja que pratica o batismo por imersão”, nem “à igreja que celebra a Ceia do Senhor no primeiro dia da semana”, nem “à igreja governada por uma pluralidade de presbíteros”. Mesmo assim, encontramos esses princípios quando reunimos o ensino do Novo Testamento.

As igrejas eram normalmente identificadas pela localidade:

“à igreja de Deus que está em Corinto” (Primeira aos Coríntios 1:2);

“à igreja dos tessalonicenses” (Primeira aos Tessalonicenses 1:1);

“às igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2);

“a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos” (Filipenses 1:1).

Observe algo muito interessante: não encontramos “Igreja de Paulo”, “Igreja de Pedro”, “Igreja de Apolo” ou qualquer denominação criada para distinguir um grupo de cristãos de outro.

Quando justamente esse espírito apareceu em Corinto, Paulo o repreendeu:

“Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo” (Primeira aos Coríntios 1:12).

E imediatamente pergunta:

“Está Cristo dividido?” (Primeira aos Coríntios 1:13).

Este princípio existia muito antes de John Nelson Darby.

Por isso, atribuir a Darby a origem da ideia de reunir-se somente ao Nome do Senhor Jesus desloca a discussão. A pergunta correta não é: “Quem ensinou isso no século XIX?”, mas: “O que encontramos no Novo Testamento?”

Eu não preciso provar que Darby estava certo. Também não preciso provar que missionários irlandeses estavam certos. Preciso perguntar se o ensino está de acordo com a Palavra de Deus.

Se Darby ensinou alguma coisa contrária às Escrituras, devemos rejeitá-la. Se um missionário irlandês ensinou algo contrário às Escrituras, devemos rejeitá-lo nesse ponto. E, da mesma maneira, se uma prática denominacional moderna contradiz as Escrituras, não devemos aceitá-la simplesmente porque milhões de cristãos a praticam.

“Examinai tudo. Retende o bem” (Primeira aos Tessalonicenses 5:21).

Também precisamos fazer uma distinção histórica importante entre uma verdade bíblica e o homem que, em determinado período da história, voltou a enfatizá-la.

Martinho Lutero não inventou a justificação pela fé porque a destacou no século XVI. A doutrina já estava em Romanos e Gálatas.

Da mesma maneira, se cristãos dos séculos XVIII, XIX, XX ou XXI redescobrem determinado princípio das Escrituras, a verdade não passa a pertencer a essas pessoas.

O teste continua sendo:

“Que diz a Escritura?” (Romanos 4:3).

Quanto à afirmação de que essa interpretação seria “sectária”, é necessário considerar justamente o que caracteriza uma seita ou partido segundo o Novo Testamento.

Paulo repreendeu os coríntios porque estavam criando partidos em torno de homens:

“Eu sou de Paulo; e eu, de Apolo; e eu, de Cefas” (Primeira aos Coríntios 1:12).

Reunir-se exclusivamente como cristãos, recusando um nome partidário, não é, em si mesmo, sectarismo. Pelo contrário, o princípio procura evitar exatamente aquilo que Paulo condenou.

Naturalmente, uma pessoa pode transformar até uma posição correta em motivo de orgulho. Um grupo pode dizer que se reúne somente ao Nome do Senhor e, ao mesmo tempo, manifestar espírito sectário, orgulho, dureza e falta de amor. Isso deve ser condenado.

Mas o abuso de uma verdade não anula a verdade.

Também não creio que devamos decidir questões doutrinárias observando se determinadas igrejas estão crescendo ou diminuindo.

O irmão menciona igrejas envelhecendo, jovens saindo e números diminuindo. Reconheço que isso deve produzir profundo exercício diante de Deus. Uma igreja precisa perguntar se está evangelizando, discipulando os jovens, ensinando as Escrituras, cuidando pastoralmente das famílias e demonstrando o amor de Cristo.

Mas números não podem determinar se uma doutrina é verdadeira.

Quando muitos discípulos abandonaram o Senhor Jesus em João 6, Ele não alterou Seu ensino para torná-lo mais atraente. Pelo contrário:

“Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele” (João 6:66).

Então perguntou aos doze:

“Quereis vós também retirar-vos?” (João 6:67).

A verdade nunca deve ser medida pelo número de pessoas que permanecem.

A igreja em Filadélfia tinha “pouca força”, mas recebeu do Senhor um elogio extraordinário:

“Guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8).

Isso não significa que devemos desejar igrejas pequenas, envelhecidas ou sem jovens. Evidentemente que não. Devemos evangelizar, trabalhar com crianças e jovens, discipular novos convertidos e transmitir fielmente a verdade à geração seguinte, conforme Segunda a Timóteo 2:2.

Entretanto, existe uma diferença entre tornar a mensagem compreensível à geração atual e modificar princípios bíblicos para tornar uma igreja mais atraente.

A cultura muda. A Palavra de Deus permanece.

O irmão menciona também instrumentos musicais, placas, pastores e outras práticas. Cada um desses assuntos precisa ser examinado separadamente pelas Escrituras. Não seria correto usar Mateus 18:20 sozinho para resolver todas essas questões.

Por exemplo, o Novo Testamento reconhece claramente pastores. O que precisa ser perguntado é se “pastor” aparece como título de um homem que governa sozinho uma igreja local ou se encontramos uma pluralidade de presbíteros/bispos exercendo cuidado pastoral.

Em Atos dos Apóstolos 20:17, Paulo chama os “anciãos da igreja” de Éfeso. No versículo 28, mostra que o Espírito Santo os constituiu bispos para apascentarem a igreja de Deus. Em Filipenses 1:1 aparecem “bispos e diáconos”. Em Primeira de Pedro 5:1-3, os presbíteros devem apascentar o rebanho de Deus.

Portanto, não se trata de “não reconhecer pastores”. Trata-se de perguntar qual é o modelo de liderança apresentado no Novo Testamento.

Quanto às placas, o prédio onde os cristãos se reúnem não é a igreja. A igreja são as pessoas. Pode haver uma identificação física para que alguém encontre o local; isso é uma questão prática. O problema surge quando um nome passa a estabelecer uma identidade eclesiástica diferente daquela que pertence a todos os cristãos.

Quanto aos instrumentos musicais, igualmente precisamos estudar especificamente o padrão de adoração apresentado à Igreja no Novo Testamento, e não simplesmente perguntar o que Israel fazia no Templo ou o que a cultura contemporânea prefere.

Portanto, esses assuntos não devem ser misturados como se constituíssem uma única questão.

Mas volto ao ponto central: Mateus 18:20.

Concordo que o contexto é disciplina.

Discordo da conclusão de que, por causa disso, Mateus 18:20 não ensine um princípio relacionado à igreja local.

É justamente o contrário.

Porque o contexto é disciplina, necessariamente existe uma igreja local. O versículo 17 diz:

“Dize-o à igreja”.

O versículo 18 mostra a autoridade dessa igreja para ligar e desligar.

O versículo 19 mostra a dependência de Deus em oração.

E o versículo 20 apresenta a presença e a autoridade do Senhor Jesus no meio daqueles reunidos ao Seu Nome.

Primeira aos Coríntios 5 confirma exatamente esse princípio quando uma igreja efetivamente precisou exercer disciplina:

“Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós... com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo” (Primeira aos Coríntios 5:4).

Portanto, não precisamos escolher entre duas interpretações: “Mateus 18 trata de disciplina” ou “Mateus 18 apresenta princípios da igreja local”.

As duas coisas estão relacionadas.

O contexto imediato é disciplina na igreja local, e justamente nesse contexto o Senhor revela princípios fundamentais acerca da autoridade da igreja, da oração coletiva, do Seu Nome e da Sua presença no meio dos santos reunidos.

Finalmente, irmão, penso que devemos evitar transformar a questão numa disputa entre “Darby”, “missionários irlandeses”, “denominações” e “movimento dos irmãos”.

Esses nomes pertencem à história.

Nossa autoridade é a Palavra de Deus.

Os bereanos foram elogiados não porque aceitaram ou rejeitaram determinado pregador por causa da sua origem, tradição ou reputação, mas porque:

“de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos dos Apóstolos 17:11).

Esse continua sendo o caminho seguro.

Não pergunto se Darby ensinou isso.

Não pergunto se os missionários irlandeses ensinaram isso.

Não pergunto se determinada denominação aceita ou rejeita isso.

Pergunto simplesmente:

O que ensina a Palavra de Deus?

E, lendo Mateus 18:15-20 em sua sequência, comparando-o com Primeira aos Coríntios 1:10-13; 5:4; 11:17-20; 14:23-26, Filipenses 1:1, Atos dos Apóstolos 20:17,28 e Apocalipse 3:8, entendo que permanece perfeitamente bíblico afirmar que uma igreja local deve reconhecer somente a autoridade do Senhor Jesus Cristo e reunir-se tendo Sua Pessoa e Seu Nome como centro.

Podemos discordar da interpretação, mas não considero correto classificá-la como “muito próxima de uma heresia”, especialmente quando estamos tratando de uma interpretação que procura fundamentar cada prática na autoridade das Escrituras.

Heresia é uma palavra séria.

Melhor será abrirmos a Bíblia e examinarmos cada ponto diante do texto sagrado.

Se estivermos errados, que a Palavra de Deus nos corrija.

Se estivermos certos, que a Palavra de Deus nos conserve fiéis, ainda que sejamos poucos.

“Guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8).

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: