Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Bom dia!
A mensagem do grupo no WhatsApp Palavras do Evangelho:
“Então, a mim clamarão, mas eu não responderei; de madrugada me buscarão, mas não me acharão. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor.”
Provérbios 1:28-29
Muito interessante!
Mas não conheço, nem conheci uma pessoa assim.
Não estou questionando, apenas dizendo: quem somos nós para agirmos assim?
Seria maravilhoso se fosse assim, mas somos falhos. Errar é humano. Não somos inteligência artificial.
Pensar antes de errar é bom, mas, como minha avó polonesa falava: “Você, meu neto, vai passar a sua vida toda aprendendo e, no final, descobrir que nada sabe.”
Imagine imaginar ou pensar antes de cometer alguns tipos de erros.
Não sois máquinas. Humanos sois.
A Bíblia reúne diferentes tipos de apontamentos sobre supostos erros, contradições e imprecisões, divididos entre perspectivas críticas, históricas e teológicas.
Principais categorias apontadas como “erros”:
Contradições internas e divergências numéricas:
Diferenças em relatos paralelos, como as genealogias de Jesus descritas em Mateus e Lucas, ou variações numéricas em censos e contagens de exércitos (por exemplo, entre 2 Samuel 8:4 e 1 Crônicas 18:3-4).
Choques narrativos, como a cronologia sobre Josué e a conquista de cidades em Josué 15 versus Juízes 1.
Incompatibilidades históricas e arqueológicas:
Ausência de evidências arqueológicas contemporâneas que confirmem o relato do Êxodo em massa do Egito ou um dilúvio global.
Questões sobre figuras políticas, como o papel de Belsazar no Império Babilônico.
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Conceitos científicos antigos:
Visões da cosmovisão da Antiguidade (como a Terra fixa e o céu dividido em camadas) e classificações zoológicas da época, como o morcego listado entre as “aves” (Levítico 11:19) ou o coelho tratado como ruminante.
Erros de tradução e transmissão:
Desvios em cópias manuais ao longo dos séculos (erros de copistas) e traduções específicas, como a palavra hebraica almah (jovem) traduzida como “virgem” em Isaías 7:14, ou modificações em edições históricas (como o Novo Testamento de João Ferreira de Almeida, em 1681).
Visões sobre o tema:
Abordagem crítica e cética: vê esses pontos como provas de que a Bíblia é uma obra humana, culturalmente datada, com mitos emprestados de outras civilizações (como a Epopeia de Gilgamesh) e isenta de inerrância literal.
Abordagem apologética/tradicional: defende que muitos “erros” decorrem de leitura literalista ou fundamentalista, ignorando gêneros literários (poesia, hipérbole, linguagem fenomênica/observacional), ou restringe a inerrância estritamente aos manuscritos originais perdidos (autógrafos), atribuindo pequenas variações a lapsos de copistas que não alteram a doutrina central.
Só Deus é perfeito.
Tchau.
Minha Resposta:
Agradeço pela mensagem e pelas observações apresentadas. Gostaria de esclarecer algumas questões, principalmente porque o texto de Provérbios 1:28-29 não está ensinando que o ser humano precisa ser perfeito, que nunca pode cometer erros ou que Deus exige de nós uma capacidade sobre-humana de acertar em todas as decisões.
Na realidade, a passagem trata de algo muito diferente: a rejeição deliberada da sabedoria e das advertências de Deus.
1. O que realmente significa Provérbios 1:28-29?
Para compreendermos corretamente esses versículos, precisamos considerar o contexto que começa em Provérbios 1:20.
Ali, a sabedoria é apresentada de maneira personificada, como alguém que clama publicamente, convidando os homens a abandonarem seus caminhos insensatos e ouvirem a instrução.
Observe o que está escrito:
“Antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão.” (Provérbios 1:25).
Portanto, quando chegamos aos versículos 28 e 29, encontramos pessoas que não foram condenadas simplesmente porque cometeram erros humanos, mas porque rejeitaram repetidamente o conhecimento e desprezaram a correção.
Existe uma diferença muito grande entre alguém que erra por fraqueza ou ignorância e alguém que, conhecendo a vontade de Deus, decide desprezá-la.
A passagem descreve as consequências de uma rejeição persistente, não a atitude de Deus diante de uma pessoa sinceramente arrependida.
O próprio livro de Provérbios declara:
“Porque sete vezes cairá o justo e se levantará; mas os ímpios tropeçarão no mal.” (Provérbios 24:16).
Veja que a Bíblia reconhece a possibilidade de o justo cair. A diferença está na sua atitude diante da queda.
O justo não é apresentado como alguém incapaz de errar, mas como alguém que não faz do erro o seu caminho.
2. Somos humanos, falhos e limitados. A Bíblia concorda com isso?
Certamente!
A expressão popular “errar é humano” contém uma verdade que a própria Escritura reconhece, embora não deva ser utilizada para justificar a prática deliberada do pecado.
Em Eclesiastes 7:20, lemos:
“Na verdade, não há homem justo sobre a terra, que faça bem e nunca peque.”
O apóstolo João também escreveu:
“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.” (1 João 1:8).
Portanto, ninguém está afirmando que devemos agir como máquinas, que somos perfeitos ou que conseguimos antecipar todas as consequências das nossas decisões.
Deus conhece perfeitamente a nossa condição.
“Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó.” (Salmos 103:14).
Entretanto, nossa imperfeição não elimina a responsabilidade moral que temos diante de Deus.
O Senhor não exige que sejamos oniscientes, mas nos chama a ouvir Sua Palavra, reconhecer nossos pecados e receber Sua graça.
É justamente porque somos falhos que necessitamos de um Salvador.
3. A diferença entre cometer erros e rejeitar a Deus
Gostaria de destacar especialmente este ponto, porque ele é fundamental para compreender a mensagem publicada.
Uma pessoa pode cometer um erro e reconhecer que errou. Pode cair e desejar levantar-se. Pode não compreender determinada passagem bíblica e procurar esclarecimento.
Nada disso corresponde necessariamente à atitude condenada em Provérbios 1.
O problema apresentado naquele capítulo é o coração que despreza a correção e não deseja ouvir a verdade.
O Senhor Jesus declarou:
“E não quereis vir a mim para terdes vida.” (João 5:40).
Observe a expressão: “não quereis”.
A questão não era simplesmente uma incapacidade intelectual, mas a indisposição de receber Aquele que Deus havia enviado.
Ao mesmo tempo, Cristo fez uma promessa maravilhosa:
“E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” (João 6:37).
Portanto, a mensagem de Provérbios não deve ser interpretada como se Deus estivesse procurando uma oportunidade para rejeitar pessoas imperfeitas.
Pelo contrário, ela nos ensina a importância de ouvir Sua voz enquanto temos oportunidade.
4. Quanto às supostas contradições e aos erros da Bíblia
A segunda parte da mensagem apresenta uma série de objeções frequentemente levantadas contra as Escrituras.
É importante distinguir três coisas: aquilo que o texto bíblico realmente afirma, aquilo que uma tradução apresenta e aquilo que determinado leitor interpreta.
Nem toda dificuldade de interpretação constitui uma contradição.
Da mesma forma, reconhecer que existem variantes entre manuscritos antigos não significa concluir que a mensagem bíblica seja uma invenção humana.
A Bíblia foi escrita ao longo de muitos séculos, por diferentes escritores, em contextos históricos e culturais distintos. Entretanto, apresenta uma unidade extraordinária em torno da revelação de Deus e de Seu propósito de redenção em Cristo.
Vejamos brevemente alguns exemplos mencionados.
As genealogias de Jesus em Mateus e Lucas:
Mateus 1 apresenta a genealogia de Cristo destacando Sua descendência real e Sua relação com Abraão e Davi. Lucas 3 apresenta uma genealogia que retrocede até Adão.
Existem diferentes explicações propostas para as diferenças entre essas genealogias, incluindo a possibilidade de apresentarem linhas genealógicas distintas e questões relacionadas à descendência legal e familiar.
Essas dificuldades merecem estudo, mas a existência de nomes diferentes não demonstra, por si só, que os relatos sejam falsos.
As diferenças numéricas entre Samuel e Crônicas:
É verdade que encontramos algumas diferenças numéricas entre determinados relatos paralelos do Antigo Testamento.
Algumas podem estar relacionadas à transmissão manuscrita, outras às diferentes maneiras de registrar os acontecimentos.
Reconhecer a possibilidade de um erro de copista não equivale a atribuir um erro à inspiração divina.
A inspiração diz respeito à Palavra comunicada por Deus; a transmissão manuscrita envolve o trabalho humano de preservação e reprodução dos textos.
A arqueologia e os acontecimentos bíblicos:
A ausência de determinada evidência arqueológica não constitui automaticamente uma prova de que um acontecimento nunca ocorreu.
A arqueologia trabalha com vestígios materiais que sobreviveram ao tempo, e esses vestígios são necessariamente incompletos.
Um exemplo interessante é Belsazar, mencionado em Daniel 5. Durante muito tempo, sua posição histórica foi questionada. Posteriormente, registros antigos contribuíram para esclarecer que ele exerceu autoridade na Babilônia durante a ausência de seu pai, Nabonido.
Isso demonstra a importância de não transformar as limitações do conhecimento histórico atual em conclusões definitivas contra o texto bíblico.
Quanto ao Êxodo e ao dilúvio, existem debates arqueológicos e históricos que não devem ser simplificados. A ausência de consenso sobre determinados vestígios não resolve, por si só, a questão da historicidade dos relatos.
O morcego, o coelho e a linguagem antiga:
Também precisamos compreender que a Bíblia não foi escrita utilizando os sistemas modernos de classificação científica.
Em Levítico 11, encontramos uma classificação prática de animais dentro do contexto alimentar e cerimonial de Israel.
Não seria correto exigir que um texto escrito na Antiguidade utilizasse a terminologia da zoologia moderna.
O mesmo acontece quando dizemos atualmente que o Sol nasceu ou se pôs. Estamos utilizando uma linguagem de observação, e não apresentando uma teoria científica sobre o movimento dos astros.
A palavra “virgem” em Isaías 7:14:
A palavra hebraica almah é objeto de discussão linguística, mas seu emprego não torna impossível a referência a uma jovem virgem.
Além disso, Mateus 1:22-23 apresenta expressamente o nascimento virginal do Senhor Jesus como cumprimento profético.
A interpretação cristã dessa passagem não depende simplesmente de uma escolha arbitrária feita por um tradutor moderno.
Quanto às diferenças entre edições e traduções, elas precisam ser examinadas individualmente, comparando os manuscritos, o contexto e as línguas originais.
A existência de dificuldades textuais não autoriza a conclusão de que toda a Escritura esteja comprometida.
5. A Bíblia foi escrita por homens falhos, mas sua origem é divina
Aqui encontramos uma distinção fundamental.
Os escritores bíblicos eram seres humanos. Moisés, Davi, Pedro e Paulo não eram homens perfeitos.
A própria Bíblia registra suas fraquezas, seus pecados e suas limitações.
Entretanto, a inspiração das Escrituras não depende da perfeição pessoal daqueles que foram utilizados para escrevê-las.
O apóstolo Pedro declarou:
“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21).
E Paulo escreveu:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça.” (2 Timóteo 3:16).
Portanto, a posição cristã não é que os escritores bíblicos fossem máquinas ou que Deus tivesse eliminado suas características pessoais.
Deus utilizou homens reais, com diferentes personalidades, estilos e vocabulários, conduzindo-os pelo Espírito Santo na comunicação de Sua Palavra.
É perfeitamente legítimo estudar os manuscritos, examinar questões históricas e procurar compreender passagens difíceis. A fé bíblica não exige que abandonemos a razão.
Contudo, também precisamos reconhecer que uma dificuldade ainda não resolvida não é necessariamente um erro demonstrado.
6. Só Deus é perfeito!
Concordo plenamente com a última afirmação da mensagem: só Deus é perfeito.
E é justamente aqui que encontramos a beleza do Evangelho.
Se a salvação dependesse de nossa perfeição pessoal, nenhum de nós poderia ser salvo.
Romanos 3:23 declara:
“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.”
Mas a passagem continua apresentando a maravilhosa graça divina:
“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.” (Romanos 3:24).
O Senhor Jesus não veio ao mundo porque encontrou pessoas perfeitas. Ele veio precisamente porque somos pecadores e necessitamos de redenção.
“Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lucas 19:10).
Assim, gostaria de concluir voltando à mensagem inicial de Provérbios.
O propósito daquela advertência não é exigir que o homem nunca erre, mas mostrar que é perigoso desprezar continuamente a voz de Deus.
Não precisamos conhecer pessoalmente alguém que tenha chegado à condição descrita em Provérbios 1 para reconhecer a seriedade da advertência. A Palavra de Deus revela atitudes do coração que nem sempre conseguimos perceber exteriormente.
Nossa limitação humana deve conduzir-nos à humildade, não à rejeição da verdade.
Podemos passar a vida inteira aprendendo e chegar ao fim reconhecendo quanto ainda desconhecemos, como dizia sua avó. Essa é uma observação muito interessante.
Entretanto, existe algo que podemos conhecer com segurança: Deus nos ama, Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou, e todo aquele que nEle crê recebe a vida eterna (João 3:16; 1 Coríntios 15:3-4).
Não somos máquinas. Somos seres humanos, falhos e necessitados da graça divina.
E é exatamente para pessoas assim que o Evangelho foi anunciado.
Josué Matos