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No grupo do Mário, certa vez, alguém disse que, se sair da assembleia, a pessoa leva partes da verdade, pois a verdade está na assembleia. Isso me cheira a exclusivismo.

 Alguém que me escreveu no YouTube:

No grupo do Mário, certa vez, alguém disse que, se sair da assembleia, a pessoa leva partes da verdade, pois a verdade está na assembleia. Isso me cheira a exclusivismo.

Minha Resposta:

Entendo a sua preocupação, e realmente precisamos ter muito cuidado com a maneira como expressamos esse assunto. Dependendo do sentido em que essa afirmação foi feita, ela pode transmitir uma ideia de exclusivismo que não encontra apoio nas Escrituras.

Precisamos começar fazendo uma distinção muito importante: a assembleia não é proprietária da verdade. A verdade pertence a Deus e foi revelada por Ele em Sua Palavra. O Senhor Jesus disse ao Pai: “A tua palavra é a verdade” (João 17:17). O próprio Senhor Jesus declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (João 14:6). Portanto, não podemos dizer que a verdade pertence a determinado grupo de cristãos, movimento, denominação ou conjunto de assembleias.

Ao mesmo tempo, há uma verdade bíblica importante por trás desse assunto. Em 1 Timóteo 3:15, Paulo chama a igreja do Deus vivo de “coluna e firmeza da verdade”. Isso não significa que a igreja produz a verdade ou que a verdade se origina nela. A figura da coluna mostra justamente o contrário: a coluna sustenta e exibe algo que já existe. Assim, a responsabilidade da igreja local é manter, defender, praticar e tornar visível a verdade que Deus revelou.

Há, portanto, uma grande diferença entre dizer “a verdade pertence à assembleia” e dizer “a assembleia tem a responsabilidade de sustentar a verdade”.

A primeira afirmação, se entendida como se determinado grupo possuísse exclusivamente a verdade, está errada. A segunda é claramente bíblica.

Também precisamos compreender o que queremos dizer pela palavra “assembleia”. No Novo Testamento, uma igreja local não é uma denominação nem uma organização mundial formada por diversas congregações subordinadas a uma sede. É um ajuntamento local de crentes reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo e sujeitos à Sua Palavra. O Senhor disse:

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20).

A centralidade, portanto, não está na “assembleia”, mas em Cristo.

É muito importante conservar essa ordem. Não somos reunidos em torno de uma doutrina chamada “doutrina dos irmãos”, nem em torno da história de determinado movimento, nem em torno de determinados pregadores. Somos reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo. A autoridade não está nos irmãos, mas no Senhor e em Sua Palavra.

Paulo combateu vigorosamente o espírito partidário quando escreveu aos coríntios:

“Cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo. Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).

Mais adiante ele pergunta:

“Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?” (1 Coríntios 14:36).

Essa pergunta é particularmente importante para o assunto. Nenhuma igreja local pode comportar-se como se a Palavra de Deus tivesse surgido dela ou como se Deus tivesse confiado toda a verdade exclusivamente àquele grupo.

Entretanto, também não devemos cair no extremo oposto e dizer que todas as formas de reunião cristã são igualmente bíblicas e que não importa onde ou como um cristão se reúne.

Isso também não seria correto.

O Novo Testamento apresenta princípios claros para uma igreja local. Encontramos, entre outras coisas, a perseverança na doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações em Atos dos Apóstolos 2:42; a reunião ao nome do Senhor em Mateus 18:20; a Ceia do Senhor em 1 Coríntios 11:23-26; o exercício dos dons em 1 Coríntios 12–14; a pluralidade de presbíteros em Atos dos Apóstolos 14:23 e Tito 1:5; a disciplina da igreja em 1 Coríntios 5; e a responsabilidade de conservar a sã doutrina em 1 Timóteo 1:3 e Tito 2:1.

Portanto, existem princípios bíblicos que devem ser mantidos.

Se uma pessoa deixa uma assembleia que procura praticar esses princípios e passa a frequentar um lugar onde alguns deles não são observados, ela pode, de fato, acabar deixando de praticar determinadas verdades que anteriormente praticava. Nesse sentido específico, alguém talvez tenha querido dizer que a pessoa “leva” ou abandona “partes da verdade”. Porém, eu não usaria essa expressão dessa maneira, porque facilmente transmite a impressão de que “nós temos a verdade e os outros não têm”.

Seria melhor dizer que um cristão pode afastar-se de determinadas práticas ou princípios bíblicos que antes reconhecia e praticava.

Isso é bem diferente.

Também precisamos reconhecer que existem verdadeiros filhos de Deus fora das assembleias. Todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo e creu no Senhor Jesus Cristo pertence à Igreja que é o Corpo de Cristo. Paulo diz que fomos “batizados em um Espírito, formando um corpo” (1 Coríntios 12:13). Efésios 1:22-23 apresenta a Igreja como o Corpo de Cristo, e Cristo como sua Cabeça.

Assim, jamais deveríamos pensar que somente os cristãos reunidos em assembleias pertencem ao Corpo de Cristo.

Há irmãos e irmãs sinceros, piedosos e espirituais em diferentes contextos denominacionais. Podemos discordar da posição eclesiástica que ocupam e, ao mesmo tempo, reconhecê-los como nossos irmãos em Cristo. Se foram salvos pelo mesmo Senhor, pertencem ao mesmo Corpo.

Ao mesmo tempo, reconhecer isso não significa abandonar aquilo que entendemos ser o padrão bíblico para a igreja local.

Devemos manter a verdade, mas com humildade.

Há uma diferença enorme entre convicção e exclusivismo.

Convicção diz: “Creio que a Palavra de Deus ensina isso e, por amor ao Senhor, desejo obedecer”.

Exclusivismo diz: “Somente nós temos a verdade; quem não está conosco praticamente não tem nada”.

A primeira atitude é fidelidade; a segunda pode facilmente transformar-se em orgulho espiritual.

Paulo escreveu:

“Porque, quem te diferencia? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (1 Coríntios 4:7).

Tudo aquilo que conhecemos da verdade recebemos pela graça de Deus. Portanto, quanto mais verdade conhecemos, mais humildes deveríamos ser.

Além disso, nenhuma assembleia local é infalível. As sete igrejas de Apocalipse 2 e 3 demonstram isso claramente. Éfeso tinha aspectos dignos de elogio, mas havia deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:4). Pérgamo tolerava doutrinas erradas (Apocalipse 2:14-15). Tiatira tolerava grave corrupção (Apocalipse 2:20). Sardes tinha nome de que vivia, mas estava morta (Apocalipse 3:1). Laodiceia tornou-se morna e autossuficiente (Apocalipse 3:15-17).

Portanto, uma assembleia pode começar bem e posteriormente afastar-se da verdade. O simples fato de alguém dizer “somos uma assembleia reunida ao nome do Senhor” não torna automaticamente tudo o que aquela igreja ensina ou pratica correto.

Tudo precisa continuar sendo examinado pelas Escrituras.

Os bereanos nos fornecem um excelente exemplo. Mesmo ouvindo o apóstolo Paulo, eles “de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos dos Apóstolos 17:11).

Esse deve ser sempre o nosso critério.

Não devemos perguntar simplesmente: “O que as assembleias ensinam?”

Devemos perguntar: “O que dizem as Escrituras?”

Se aquilo que ensinamos nas assembleias estiver de acordo com as Escrituras, devemos mantê-lo, não porque seja uma tradição das assembleias, mas porque é Palavra de Deus. Se alguma tradição nossa não puder ser sustentada pelas Escrituras, não temos autoridade para transformá-la em mandamento de Deus.

Por isso, eu diria que sua preocupação tem fundamento se a frase foi usada no sentido de que determinado grupo de assembleias possui exclusivamente a verdade. Isso seria uma maneira inadequada e perigosa de pensar.

Por outro lado, não devemos desprezar a verdade bíblica de que a igreja local deve ser “coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:15). Ela recebeu a responsabilidade de sustentar, praticar, defender e proclamar a verdade de Deus.

A assembleia não é a fonte da verdade.

Cristo é a verdade (João 14:6).

A Palavra de Deus é a verdade (João 17:17).

O Espírito Santo é o Espírito da verdade (João 16:13).

E a igreja local deve ser coluna e firmeza dessa verdade (1 Timóteo 3:15).

Quando mantemos essa ordem, evitamos tanto o denominacionalismo quanto o exclusivismo.

Portanto, não devemos dizer: “A verdade está conosco porque somos da assembleia”.

Devemos dizer: “Desejamos estar onde a Palavra de Deus nos ensina a estar e praticar aquilo que ela nos manda praticar”.

E, mesmo fazendo isso, devemos permanecer humildes, reconhecendo que tudo o que sabemos e tudo o que somos devemos exclusivamente à graça de Deus.

Josué Matos

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