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Gostaria também de fazer uma pergunta sobre a afirmação de que os Irmãos Reunidos não constituem uma denominação

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Gostaria também de fazer uma pergunta sobre a afirmação de que os Irmãos Reunidos não constituem uma denominação.

Afinal, o que caracteriza uma denominação? É necessário ter uma instituição formal, uma sede, uma liderança centralizada ou uma placa com determinado nome para ser considerado um movimento denominacional?

Pergunto isso porque observo que os Irmãos Reunidos possuem uma identidade doutrinária própria, costumes e práticas característicos, critérios específicos de comunhão e uma tradição histórica compartilhada. Além disso, em muitas comunidades, os irmãos são orientados ou até impedidos de visitar outras igrejas, justamente porque entendem que somente o seu movimento, ou a sua forma de reunião, corresponde à verdadeira ordem bíblica e apostólica da Igreja.

Em algumas situações, as demais igrejas são consideradas denominações que não ensinam a verdade, que não pregam o verdadeiro Evangelho e cujos membros sequer deveriam ser reconhecidos ou chamados de irmãos. Isso porque possuem práticas ou interpretações diferentes: algumas utilizam instrumentos musicais no culto, outras não celebram a Ceia todos os domingos, outras possuem uma compreensão diferente sobre o batismo, entre tantas outras questões.

Mas será que essas diferenças, por si só, anulam a comunhão entre os membros do corpo de Cristo? Será que o uso de instrumentos musicais, a frequência da celebração da Ceia ou uma interpretação diferente sobre o batismo são critérios suficientes para deixar de reconhecer alguém que confessa verdadeiramente a Cristo como nosso irmão?

Afinal, a unidade da Igreja está fundamentada em Cristo, na fé verdadeira no Evangelho e naquilo que nos une a Ele, ou na uniformidade de costumes, práticas e interpretações eclesiásticas?

Se a Igreja de Cristo é uma só, por que a comunhão entre os cristãos acaba sendo tão condicionada à identificação com determinado movimento e à sua forma específica de reunião?

Então, gostaria de entender: se existe uma doutrina característica, uma identidade própria, costumes específicos, critérios restritivos de comunhão e até impedimentos para visitar outras comunidades cristãs, o que realmente diferencia esse movimento de uma denominação?

Não seria possível afirmar que, embora não possuam uma denominação formal ou uma placa, acabaram desenvolvendo uma identidade denominacional na prática?

Não estou afirmando que toda diferença doutrinária deva ser ignorada, nem que não existam critérios bíblicos para a comunhão. O que questiono é transformar questões de costumes, práticas e interpretações em barreiras que podem impedir o reconhecimento de verdadeiros irmãos em Cristo.

Afinal, rejeitar o denominacionalismo significa realmente não pertencer a uma denominação ou pode significar apenas pertencer a um movimento que não se reconhece como tal, mas que considera sua própria forma de reunião a única expressão legítima da Igreja de Cristo?

Minha Resposta:

Agradeço pelas perguntas, que considero importantes e merecedoras de uma resposta fundamentada nas Escrituras. O assunto envolve algumas distinções que precisamos compreender para não confundirmos a unidade espiritual do Corpo de Cristo com a responsabilidade de uma igreja local de obedecer à Palavra de Deus.

Primeiramente, quero esclarecer que não defendo a ideia de que somente aqueles que se reúnem nas assembleias conhecidas historicamente como "Irmãos Reunidos" sejam verdadeiros cristãos. Muito menos que a salvação ou a condição de membro do Corpo de Cristo dependa de alguém frequentar essas assembleias.

A Palavra de Deus ensina claramente:

"Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito." (1 Coríntios 12:13).

Portanto, todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo, pertence ao Corpo de Cristo, independentemente do lugar onde se reúne.

Entretanto, reconhecer essa verdade não significa que todas as formas de organização, doutrina e prática das comunidades cristãs estejam igualmente de acordo com o ensino do Novo Testamento.

1. O que caracteriza uma denominação?

A palavra "denominação" não aparece nas Escrituras como uma classificação das igrejas cristãs. Trata-se de uma expressão desenvolvida historicamente para identificar organizações religiosas que possuem uma identidade própria, frequentemente acompanhada de uma estrutura administrativa, doutrinária ou institucional.

É verdade que uma denominação não precisa necessariamente possuir uma sede mundial, uma liderança centralizada ou uma placa com determinado nome. Uma identidade coletiva pode adquirir características denominacionais mesmo sem essas estruturas.

Contudo, precisamos distinguir uma identidade histórica de uma identidade eclesiástica.

As expressões "Irmãos Reunidos", "Irmãos de Plymouth" ou simplesmente "Irmãos" são designações históricas utilizadas para identificar cristãos que, especialmente a partir do século XIX, procuraram retornar à simplicidade das reuniões e aos princípios encontrados no Novo Testamento.

Essas expressões não deveriam constituir títulos religiosos ou condições de comunhão.

Quando alguém pergunta a qual denominação pertenço, minha resposta é que sou simplesmente um cristão, salvo pela graça de Deus, que procura reunir-se com outros cristãos segundo os princípios ensinados nas Escrituras.

Não pertenço a uma organização religiosa mundial denominada "Irmãos Reunidos", nem reconheço uma autoridade eclesiástica central que governe todas as assembleias locais.

No Novo Testamento, encontramos igrejas identificadas pelas localidades onde se reuniam: a igreja de Deus em Corinto (1 Coríntios 1:2), as igrejas da Galácia (Gálatas 1:2) e a igreja dos tessalonicenses (1 Tessalonicenses 1:1).

Não encontramos igrejas identificadas por nomes denominacionais.

Entretanto, reconheço que existe um perigo real: quando cristãos começam a transformar sua história, suas tradições ou sua identidade coletiva em uma espécie de organização exclusiva, podem desenvolver um espírito denominacional, ainda que rejeitem esse nome.

Portanto, não basta afirmar que não somos uma denominação. Precisamos demonstrar, na prática, que não estamos criando uma identidade sectária.

2. A unidade do Corpo de Cristo e a comunhão de uma igreja local

Aqui encontramos uma distinção fundamental.

A Igreja, considerada como Corpo de Cristo, é formada por todos os verdadeiros salvos desta dispensação. Essa unidade é espiritual, estabelecida pelo Espírito Santo, e não pode ser destruída pelas divisões humanas.

Efésios 4:4 declara:

"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação."

Entretanto, o Novo Testamento também apresenta igrejas locais, com responsabilidades específicas quanto à doutrina, à comunhão, à disciplina e à ordem das reuniões.

Em Atos dos Apóstolos 2:42, encontramos quatro características da comunhão dos primeiros cristãos:

"E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações."

Observe que a comunhão estava relacionada à perseverança na doutrina dos apóstolos.

Isso significa que a comunhão de uma igreja local não pode ser estabelecida simplesmente com base na afirmação de que todos somos cristãos, sem considerar aquilo que as Escrituras ensinam sobre a vida coletiva dos salvos.

Mas também não significa que toda diferença de entendimento deva impedir a comunhão.

Precisamos distinguir entre reconhecer alguém como membro do Corpo de Cristo e recebê-lo à comunhão de uma igreja local. São questões relacionadas, mas não idênticas.

Uma igreja local possui responsabilidades que não podem ser ignoradas em nome de uma unidade meramente exterior.

3. As diferenças doutrinárias anulam a condição de alguém como cristão?

Não necessariamente.

Uma pessoa pode estar equivocada quanto a determinados aspectos da doutrina e, ainda assim, ser verdadeiramente salva.

O fundamento da salvação não é o conhecimento perfeito de todas as doutrinas bíblicas, mas a pessoa e a obra do Senhor Jesus Cristo.

Em Romanos 10:9, lemos:

"Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo."

Contudo, também devemos lembrar que nem toda pessoa que simplesmente declara crer em Jesus é necessariamente salva. O próprio Senhor advertiu sobre isso em Mateus 7:21-23.

A fé salvadora envolve uma verdadeira confiança no Cristo revelado nas Escrituras.

Quanto às diferenças mencionadas na pergunta, considero importante esclarecer que não devemos colocar todas no mesmo nível.

A utilização de instrumentos musicais, a frequência da celebração da Ceia do Senhor e as diferentes interpretações sobre o batismo são assuntos que precisam ser examinados biblicamente. Entretanto, não possuem a mesma natureza que a negação da divindade de Cristo, da Sua ressurreição corporal ou da salvação pela graça mediante a fé.

Por exemplo, uma pessoa pode frequentar uma comunidade que utiliza instrumentos musicais e ser verdadeiramente salva. O mesmo acontece com alguém que participa de uma igreja onde a Ceia do Senhor não é celebrada semanalmente.

Essas diferenças, por si mesmas, não anulam sua condição de membro do Corpo de Cristo.

Por outro lado, reconhecer alguém como salvo não nos obriga a considerar igualmente bíblicas todas as práticas da comunidade à qual pertence.

Essa distinção é indispensável.

4. A comunhão deve estar fundamentada em Cristo ou na uniformidade de práticas?

A comunhão cristã tem seu fundamento em Cristo.

Entretanto, a comunhão de uma igreja local também envolve obediência à Sua Palavra.

Em 1 Coríntios 1:10, Paulo escreveu:

"Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos em um mesmo sentido e em um mesmo parecer."

O apóstolo não estava ensinando que todos deveriam possuir os mesmos costumes culturais ou preferências pessoais. Ele estava combatendo divisões e ensinando a necessidade de unidade espiritual e doutrinária.

Em Romanos 14, encontramos uma orientação importante sobre diferenças de consciência entre os cristãos.

Paulo mostra que existem questões nas quais os crentes podem possuir entendimentos diferentes, sem que isso justifique rejeitarem uns aos outros.

Romanos 14:1 declara:

"Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas."

E Romanos 15:7 acrescenta:

"Portanto, recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para glória de Deus."

Essas passagens mostram que não devemos transformar opiniões pessoais ou questões secundárias em condições de comunhão.

Entretanto, Romanos 14 não autoriza uma igreja local a abandonar os ensinamentos claros das Escrituras sobre sua organização, adoração e disciplina.

A liberdade cristã não deve ser confundida com a liberdade de modificar aquilo que Deus estabeleceu.

5. Por que as assembleias procuram seguir uma ordem específica de reunião?

A razão fundamental não deveria ser a preservação de uma tradição histórica, mas a convicção de que o Novo Testamento apresenta princípios para o funcionamento das igrejas locais.

Por exemplo, encontramos o ensino sobre a pluralidade de presbíteros em Atos dos Apóstolos 14:23 e Tito 1:5; o sacerdócio de todos os crentes em 1 Pedro 2:5,9; o exercício dos dons espirituais para edificação em 1 Coríntios 14:26; e a celebração da Ceia do Senhor em Atos dos Apóstolos 20:7 e 1 Coríntios 11:23-26.

Esses princípios não foram inventados no século XIX.

Os cristãos que participaram daquele movimento de recuperação das verdades sobre a Igreja procuraram colocar em prática aquilo que encontraram nas Escrituras.

Naturalmente, isso não significa que todas as assembleias pratiquem esses princípios perfeitamente, nem que estejam livres de erros.

Também não significa que tudo aquilo que se tornou costume entre elas possua necessariamente autoridade bíblica.

É preciso distinguir entre um mandamento das Escrituras, uma conclusão doutrinária fundamentada nelas e um costume desenvolvido historicamente.

Uma prática não se torna obrigatória simplesmente porque tem sido observada durante muitas gerações.

6. Os cristãos devem ser impedidos de visitar outras igrejas?

Não encontramos no Novo Testamento uma proibição geral que impeça um cristão de visitar outra comunidade religiosa.

Entretanto, devemos distinguir entre visitar, observar, participar de uma reunião e envolver-se efetivamente em práticas que contrariem a Palavra de Deus.

O cristão precisa exercer discernimento.

Em 1 Tessalonicenses 5:21, lemos:

"Examinai tudo. Retende o bem."

Também encontramos advertências contra falsos ensinamentos em Romanos 16:17, Gálatas 1:8-9 e 2 João 9-11.

Essas passagens mostram que nem toda associação religiosa é espiritualmente indiferente.

Contudo, não seria correto utilizar tais advertências para afirmar que qualquer visita a uma comunidade cristã diferente constitui pecado ou desobediência.

Se alguém proíbe indiscriminadamente todo contato com outros cristãos apenas porque não pertencem ao mesmo círculo de comunhão, essa atitude precisa ser examinada à luz das Escrituras.

A fidelidade à verdade não exige desprezo pelos demais membros do Corpo de Cristo.

7. É correto considerar que somente os Irmãos Reunidos representam a verdadeira Igreja?

Não.

Nenhuma assembleia local, nem qualquer conjunto de assembleias, pode reivindicar ser a totalidade da Igreja de Cristo.

A Igreja pertence ao Senhor Jesus, que declarou:

"Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." (Mateus 16:18).

Observe que Ele disse "minha igreja".

A Igreja não pertence a um movimento, a uma denominação, a uma tradição ou a determinados líderes religiosos.

Entretanto, precisamos distinguir duas afirmações muito diferentes.

Uma coisa é dizer: "Procuramos reunir-nos segundo os princípios que encontramos no Novo Testamento."

Outra, completamente diferente, é afirmar: "Somente aqueles que se reúnem conosco pertencem verdadeiramente à Igreja de Cristo."

A primeira afirmação expressa uma convicção doutrinária que deve permanecer sujeita ao exame das Escrituras.

A segunda é uma reivindicação exclusivista que não encontra fundamento bíblico.

Também devemos lembrar que o Senhor Jesus disse aos discípulos:

"Porque quem não é contra nós é por nós." (Marcos 9:40).

O contexto dessa passagem mostra que os discípulos haviam encontrado alguém expulsando demônios em nome de Jesus, mas procuraram impedi-lo porque não os acompanhava.

O Senhor corrigiu essa atitude.

Isso nos ensina que não devemos confundir fidelidade a Cristo com pertencimento ao nosso próprio círculo de relacionamento.

8. É possível desenvolver um espírito denominacional sem possuir uma denominação formal?

Sim, e considero essa observação pertinente.

O denominacionalismo não se manifesta apenas por meio de instituições, estruturas administrativas ou nomes religiosos.

Pode manifestar-se também quando um grupo de cristãos desenvolve uma identidade coletiva tão exclusiva que passa a considerar sua própria história e suas práticas como critérios fundamentais para reconhecer os demais cristãos.

Em 1 Coríntios 1:12-13, Paulo repreendeu aqueles que diziam:

"Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo."

E perguntou:

"Está Cristo dividido?"

É significativo que até mesmo a expressão "eu sou de Cristo" pudesse ser utilizada de maneira partidária, quando empregada para distinguir um grupo dos demais.

Portanto, alguém pode rejeitar todos os nomes denominacionais e, ainda assim, alimentar um espírito sectário.

O perigo não está somente no nome que utilizamos, mas na atitude que demonstramos.

Se a expressão "Irmãos Reunidos" deixar de ser uma identificação histórica e passar a funcionar como uma identidade religiosa exclusiva, então estaremos nos aproximando justamente daquilo que procuramos evitar.

A solução, entretanto, não é abandonar os princípios bíblicos para alcançar uma unidade institucional mais ampla, mas retornar continuamente às Escrituras, examinando nossas próprias práticas com humildade.

9. Como devemos compreender a recepção à comunhão de uma igreja local?

Essa questão merece atenção especial.

A recepção à comunhão de uma igreja local não deveria depender simplesmente de alguém pertencer anteriormente a uma assembleia do mesmo círculo.

Em Atos dos Apóstolos 9:26-28, encontramos Saulo procurando juntar-se aos discípulos em Jerusalém. Inicialmente, eles tinham receio, mas Barnabé apresentou seu testemunho, esclarecendo o que havia acontecido em sua conversão.

O episódio demonstra a importância de conhecer o testemunho de alguém que deseja estar em comunhão com os santos.

Em Romanos 16:1-2, Paulo recomendou Febe à igreja, pedindo que fosse recebida no Senhor.

Ao mesmo tempo, as Escrituras mostram que a comunhão envolve responsabilidade quanto à conduta moral e à doutrina. Primeira aos Coríntios 5 trata da disciplina diante de pecado moral grave, enquanto Tito 3:10-11 apresenta a necessidade de lidar com quem promove divisões.

Portanto, não seria correto afirmar que qualquer pessoa que se declara cristã deva ser automaticamente recebida à comunhão, sem qualquer consideração quanto ao seu testemunho, à sua doutrina ou à sua conduta.

Mas também não seria correto estabelecer como condição de recepção a identificação com determinado movimento histórico.

O fundamento deve ser bíblico, e não denominacional.

Uma pessoa verdadeiramente salva, que mantém uma conduta compatível com sua profissão de fé e não sustenta ensinamentos contrários aos fundamentos da fé cristã, não deve ser rejeitada simplesmente porque anteriormente frequentava uma comunidade diferente.

Isso não elimina a responsabilidade dos presbíteros de avaliar cada situação com sabedoria, considerando também a disposição da pessoa em respeitar a ordem bíblica da igreja local.

10. A comunhão não é apenas participação na Ceia do Senhor

Outro aspecto importante é compreender que, no Novo Testamento, a comunhão de uma igreja local envolve mais do que participar ocasionalmente da Ceia do Senhor.

A comunhão inclui responsabilidades, sujeição à Palavra de Deus, participação na vida coletiva da igreja e reconhecimento da responsabilidade dos presbíteros.

Em Hebreus 13:17, encontramos a exortação:

"Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas."

Isso significa que a recepção à comunhão não deve ser tratada como uma simples autorização para participar do pão e do cálice.

A Ceia do Senhor é uma expressão da comunhão que já existe entre aqueles que constituem a igreja local.

Primeira aos Coríntios 10:16-17 apresenta a participação no pão e no cálice como expressão de comunhão. Já 1 Coríntios 11:17-34 mostra que a Ceia é celebrada quando a igreja está reunida.

Por essa razão, entendemos que a recepção é à comunhão da igreja local, e não simplesmente à Mesa do Senhor.

Esse entendimento também explica por que uma assembleia pode reconhecer alguém como verdadeiro cristão e, ainda assim, não considerá-lo automaticamente recebido à sua comunhão.

Não se trata necessariamente de rejeitar sua salvação ou sua condição de membro do Corpo de Cristo, mas de reconhecer que a comunhão local envolve responsabilidades específicas.

Naturalmente, isso deve ser tratado com amor, respeito e cuidado pastoral, sem atitudes de superioridade espiritual.

11. A verdadeira unidade não exige abandonar a verdade

A pergunta sobre a unidade da Igreja é especialmente importante.

Em Efésios 4:3, Paulo exorta os cristãos a procurarem guardar "a unidade do Espírito pelo vínculo da paz".

Observe que ele não nos manda criar essa unidade, mas guardá-la.

A unidade do Corpo de Cristo já existe porque foi estabelecida pelo Espírito Santo.

Entretanto, essa unidade não significa que todas as práticas religiosas devam ser aceitas indistintamente.

O Senhor Jesus, em Sua oração registrada em João 17, pediu pela unidade daqueles que haveriam de crer nEle. Mas, no mesmo contexto, declarou:

"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade." (João 17:17).

Portanto, unidade e verdade não são princípios opostos.

A unidade espiritual deve ser acompanhada pela fidelidade à Palavra de Deus.

Também não devemos confundir separação eclesiástica com rejeição pessoal.

Podemos amar e reconhecer como verdadeiros cristãos aqueles com quem não compartilhamos todas as convicções relativas à ordem da igreja local.

Podemos orar por eles, respeitá-los e reconhecer aquilo que Deus realiza em suas vidas, sem necessariamente participar de todas as suas práticas religiosas.

O amor cristão não exige concordância absoluta em todas as questões, mas também não autoriza que abandonemos convicções fundamentadas nas Escrituras.

12. O perigo de transformar a fidelidade bíblica em exclusivismo

Quero concluir reconhecendo que a preocupação apresentada na pergunta possui fundamento quando observamos certas atitudes que podem surgir entre cristãos.

Existe uma diferença entre procurar obedecer fielmente às Escrituras e desenvolver a convicção de que somente o nosso círculo de comunhão possui toda a verdade.

Nenhum cristão, nenhuma igreja local e nenhum conjunto de assembleias possui conhecimento perfeito de toda a Palavra de Deus.

Em 1 Coríntios 13:12, Paulo reconheceu a limitação do nosso conhecimento presente.

Isso deve produzir humildade.

Ao mesmo tempo, a consciência das nossas limitações não deve conduzir ao abandono das verdades que conseguimos compreender claramente nas Escrituras.

O equilíbrio bíblico consiste em permanecer firmes naquilo que Deus revelou, sem transformar nossas convicções em motivo de orgulho espiritual.

O apóstolo Paulo escreveu:

"Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?" (1 Coríntios 14:36).

Essa pergunta continua sendo uma advertência importante contra qualquer pretensão de exclusividade.

A Palavra de Deus não pertence a um grupo particular de cristãos.

Também não podemos esquecer que o Senhor Jesus declarou:

"Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." (João 13:35).

Portanto, uma assembleia pode conservar uma ordem exterior que considera bíblica e, ainda assim, falhar gravemente em seu testemunho se lhe faltar amor, humildade e consideração pelos demais cristãos.

Considerações finais

Respondendo diretamente à questão principal: sim, é possível que cristãos que rejeitam o denominacionalismo acabem desenvolvendo, na prática, características denominacionais ou um espírito sectário.

Essa possibilidade precisa ser reconhecida e examinada com sinceridade.

Entretanto, não considero correto concluir que todas as assembleias que procuram reunir-se exclusivamente ao nome do Senhor Jesus Cristo constituam necessariamente uma denominação apenas porque compartilham convicções doutrinárias, princípios de comunhão e uma história semelhante.

A existência de convicções comuns não constitui, por si mesma, uma organização denominacional.

O problema surge quando essas convicções deixam de ser examinadas pelas Escrituras e passam a ser defendidas simplesmente porque representam a tradição ou a identidade de determinado grupo.

Também é importante reconhecer que a comunhão bíblica não pode ser reduzida a uma aceitação indiscriminada de todas as práticas religiosas, assim como não pode ser limitada a uma identificação histórica com os chamados Irmãos Reunidos.

Minha convicção é que devemos procurar reunir-nos conforme os princípios apresentados no Novo Testamento, reconhecendo que todos os verdadeiros salvos pertencem ao único Corpo de Cristo, mas sem ignorar as responsabilidades particulares de uma igreja local.

Não afirmo que somente aqueles que se reúnem dessa maneira sejam salvos, nem que sejam cristãos superiores aos demais.

Entretanto, também não posso abandonar aquilo que compreendo ser o ensino das Escrituras simplesmente porque outros cristãos possuem interpretações ou práticas diferentes.

O nosso compromisso deve ser com Cristo e com Sua Palavra, e não com a preservação de uma identidade religiosa.

Se uma prática que seguimos é bíblica, devemos mantê-la por obediência ao Senhor. Se é apenas uma tradição humana, devemos estar dispostos a examiná-la e, se necessário, abandoná-la.

Por fim, considero que a pergunta mais importante não é simplesmente se os Irmãos Reunidos constituem ou não uma denominação, mas se cada igreja local está verdadeiramente procurando obedecer ao Senhor Jesus Cristo segundo a Sua Palavra.

É isso que deve determinar nossa posição.

Não devemos defender uma denominação, um movimento ou uma tradição histórica, mas procurar manifestar, em nossa vida individual e coletiva, a autoridade e a centralidade do Senhor Jesus Cristo.

Afinal, o propósito de uma igreja local não é preservar o nome dos Irmãos Reunidos, mas glorificar o nome do Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

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