Alguém que me escreveu no YouTube:
Irmão, poderia me tirar uma dúvida? Corrija-me se eu estiver errado no raciocínio. No ministério terreno de Jesus, estava estabelecida uma aliança; depois da cruz, foi estabelecida uma Nova Aliança.
Se estiver correto isso, no ensinamento de Jesus antes da cruz, quando é mencionada aquela exceção em Mateus, não seria mais uma prova de que Ele estava se referindo à exigência da pureza em Israel, de acordo com a Lei, em Deuteronômio 22, entre outras passagens do Velho Testamento que exigiam a virgindade em Israel?
Pensando aqui: o registro em Mateus foi depois da cruz, mas as palavras, o ensinamento, foram ditas antes. O Evangelho de Mateus é dirigido aos judeus, o debate é entre judeus e, devido a tudo isso, não tem como se aplicar à Igreja...
Pelo menos é o que eu entendi...
Mateus 5:32: “Qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz que ela cometa adultério.”
Mateus 5:32: “Qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz que ela cometa adultério.”
O que eu entendi aqui é que, entre os judeus, se a mulher fosse pura, o casamento se consumava, estando ligados e ficando sujeitos ao adultério se houvesse outro casamento entre eles...
Para a Igreja, depois da cruz, o apóstolo Paulo só se dirige a solteiros e viúvas...
Depois, aos casados, é o próprio Deus que se manifesta, ordenando: reconcilie-se ou fique só...
Então, compreendi que nada se sobrepõe à ordem: o que Deus ajuntou, o homem não separa. O homem não tem competência para isso, exceto a morte...
Agora, se dissermos que Mateus 5:32 e 19:9 servem para a Igreja, então poderíamos dizer que o apóstolo Paulo se esqueceu de dizer aos solteiros, viúvas e divorciados? Não tem como, né, irmão?
Se estiver correto isso, no ensinamento de Jesus antes da cruz, quando é mencionada aquela exceção em Mateus, não seria mais uma prova de que Ele estava se referindo à exigência da pureza em Israel, de acordo com a Lei, em Deuteronômio 22, entre outras passagens do Velho Testamento que exigiam a virgindade em Israel?
Gálatas 4:4-5 — Cristo nasceu sob a Lei para resgatar os que estavam debaixo dela.
A Nova Aliança foi estabelecida pelo sangue de Cristo.
Hebreus 9:16-17 — O texto relaciona a validade do testamento à morte do testador.
O começo do Novo Testamento como parte da Bíblia e o início da Nova Aliança em vigor não têm distinção?
Minha Resposta:
A sua observação é muito pertinente, especialmente porque procura compreender as Escrituras respeitando as diferentes dispensações e distinguindo o ministério terreno do Senhor Jesus da revelação posteriormente entregue aos apóstolos para a Igreja.
De maneira geral, concordo com a linha principal do seu raciocínio, embora seja necessário esclarecer alguns pontos para não chegarmos à conclusão de que todos os ensinamentos pronunciados pelo Senhor Jesus antes da cruz sejam exclusivamente judaicos e, portanto, sem aplicação para os cristãos.
Vamos considerar a questão por partes.
1. O Novo Testamento como divisão da Bíblia e a Nova Aliança não começaram no mesmo momento
Sim, existe uma distinção importante.
Quando abrimos a Bíblia no Evangelho de Mateus, estamos entrando na parte das Escrituras que convencionalmente chamamos de Novo Testamento. Entretanto, historicamente, os acontecimentos narrados no início dos Evangelhos ainda ocorreram durante a dispensação da Lei.
Gálatas 4:4-5 declara:
“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”
Portanto, o Senhor Jesus nasceu, viveu e desenvolveu Seu ministério terreno entre pessoas que estavam debaixo da Lei de Moisés.
A Nova Aliança, por sua vez, foi anunciada antecipadamente em Jeremias 31:31-34 e teve seu fundamento estabelecido pelo sangue derramado de Cristo.
Na última ceia, o Senhor declarou:
“Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20).
Hebreus 9:15-17 também relaciona a morte de Cristo à eficácia dessa nova disposição divina.
Assim, precisamos distinguir três coisas:
- O Novo Testamento como divisão literária da Bíblia, que começa com Mateus.
- O período histórico do ministério terreno de Cristo, quando Israel ainda estava debaixo da Lei.
- A Nova Aliança, cujo fundamento é o sangue de Cristo derramado na cruz.
É importante acrescentar que a Nova Aliança foi originalmente prometida à casa de Israel e à casa de Judá (Jeremias 31:31). A Igreja, embora distinta de Israel, participa atualmente das bênçãos espirituais fundamentadas no sangue de Cristo (1 Coríntios 11:25; 2 Coríntios 3:6).
Portanto, a distinção que você percebeu é correta.
2. O contexto judaico da exceção mencionada em Mateus
Aqui chegamos ao ponto principal da sua pergunta.
Em Mateus 5:32 e 19:9 encontramos uma expressão que não aparece da mesma maneira nos relatos paralelos de Marcos e Lucas: a exceção relacionada à fornicação, ou prostituição, conforme a tradução bíblica utilizada.
Isso merece atenção.
Mateus apresenta particularmente o Senhor Jesus como o Messias prometido a Israel. Seu Evangelho contém numerosas referências aos costumes judaicos, às profecias do Antigo Testamento e às questões relacionadas à Lei de Moisés.
Em Mateus 19:3, por exemplo, os fariseus perguntaram ao Senhor se era lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo.
O debate estava diretamente relacionado à interpretação judaica de Deuteronômio 24:1-4.
Entretanto, o Senhor Jesus não começou Sua resposta pela legislação mosaica. Ele voltou ao princípio da criação:
“Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mateus 19:6).
Isso é muito significativo.
Antes da existência de Israel, antes de Moisés e antes da instituição da Lei, Deus já havia estabelecido o casamento como uma união entre um homem e uma mulher (Gênesis 2:24).
Consequentemente, o casamento não é uma instituição exclusivamente judaica, nem uma ordenança que tenha surgido com a Nova Aliança. É uma instituição divina estabelecida na criação.
Quanto à exceção encontrada em Mateus, existe uma interpretação que a relaciona ao contexto matrimonial judaico, especialmente à situação dos desposados.
Entre os judeus, o compromisso matrimonial possuía um caráter jurídico muito mais forte do que o noivado normalmente possui em nossa sociedade. Os desposados já eram considerados marido e mulher, embora ainda não tivessem consumado o casamento.
Um exemplo bastante esclarecedor encontra-se em Mateus 1:18-19.
Maria estava desposada com José e, antes de se ajuntarem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. José, desconhecendo inicialmente a origem daquela gravidez, pensou em deixá-la secretamente.
Observe que José é chamado de marido de Maria, embora ainda não tivessem passado a viver maritalmente.
Esse contexto ajuda a compreender por que a questão da fornicação poderia ter uma importância particular no ambiente matrimonial judaico.
Deuteronômio 22:13-21 também demonstra a seriedade atribuída à pureza sexual no contexto do casamento israelita.
Contudo, precisamos fazer uma ressalva: não seria correto afirmar que a palavra grega utilizada em Mateus, porneia, significa exclusivamente a ausência de virgindade antes do casamento. Seu significado é mais amplo e envolve imoralidade sexual.
Portanto, a interpretação da exceção como relacionada ao contexto judaico dos desposados é uma explicação possível e coerente com essa linha de entendimento, mas não devemos apresentá-la como se o significado da palavra, isoladamente, resolvesse toda a discussão.
3. Por que Marcos e Lucas não apresentam a mesma exceção?
Essa observação fortalece a necessidade de examinarmos cuidadosamente os diferentes contextos dos Evangelhos.
Marcos 10:11-12 registra:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera.”
Lucas 16:18 declara:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também.”
Observe que, nessas passagens, não encontramos a cláusula de exceção registrada por Mateus.
Isso não significa que os Evangelhos estejam em contradição. Cada escritor, inspirado pelo Espírito Santo, apresenta os ensinamentos do Senhor segundo o propósito particular do seu relato.
É significativo que Marcos mencione também a mulher que deixa o marido, uma situação especialmente compreensível no ambiente jurídico romano.
Mateus, por sua vez, registra a discussão em seu contexto judaico.
Entendo, portanto, que devemos considerar seriamente a particularidade da exceção apresentada em Mateus, sem transformá-la automaticamente numa autorização geral para o divórcio seguido de um novo casamento entre cristãos.
4. O ensino específico para a Igreja em 1 Coríntios 7
Aqui encontramos uma das passagens mais importantes para esclarecer sua pergunta.
O apóstolo Paulo, escrevendo a uma igreja local, trata diretamente das questões matrimoniais.
Em 1 Coríntios 7:10-11, lemos:
“Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.”
Observe três aspectos fundamentais.
Primeiro, Paulo afirma expressamente que essa determinação procede do Senhor. Quando diz “não eu, mas o Senhor”, está fazendo referência à autoridade do ensinamento de Cristo.
Segundo, ele reconhece que uma separação pode ocorrer. Entretanto, não transforma essa separação numa dissolução automática do vínculo matrimonial.
Terceiro, apresenta duas possibilidades para quem se separou: permanecer sem casar ou reconciliar-se com o cônjuge.
Não encontramos aqui uma terceira possibilidade autorizando o casamento com outra pessoa enquanto o primeiro cônjuge permanece vivo.
Isso é particularmente significativo porque Paulo estava escrevendo a uma igreja situada num ambiente gentílico, muito diferente dos costumes matrimoniais judaicos.
Também precisamos observar que, em 1 Coríntios 7:12, quando Paulo diz “digo eu, não o Senhor”, não está oferecendo uma opinião humana sem autoridade divina. Ele está tratando, sob inspiração do Espírito Santo, de uma situação que não havia sido abordada diretamente nos ensinamentos terrenos de Cristo: o casamento entre uma pessoa convertida e outra que permanece incrédula.
Assim, não existe oposição entre Cristo e Paulo, mas uma revelação harmoniosa e progressiva da vontade de Deus.
5. Paulo se esqueceu de mencionar os divorciados?
Não. E considero esse um dos pontos mais importantes da sua observação.
Em 1 Coríntios 7, Paulo apresenta orientações para diferentes situações matrimoniais:
- Aos solteiros e às viúvas, nos versículos 8 e 9.
- Aos casados, nos versículos 10 e 11.
- Aos que possuem cônjuges incrédulos, nos versículos 12 a 16.
- Às virgens, a partir do versículo 25.
- Às viúvas, novamente, no versículo 39.
Entretanto, ao tratar especificamente dos casados que se separam, sua orientação é permanecer sem casar ou buscar a reconciliação.
Isso não pode ser considerado um esquecimento.
Em 1 Coríntios 14:37, o próprio apóstolo afirma que aquilo que escreve constitui mandamento do Senhor.
Além disso, encontramos duas declarações particularmente esclarecedoras.
Romanos 7:2:
“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.”
E 1 Coríntios 7:39:
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.”
Observe que Paulo não apresenta o divórcio como o acontecimento que liberta uma pessoa para contrair outro casamento. Ele menciona expressamente a morte.
Portanto, entendo que a orientação apostólica para a Igreja confirma a permanência do vínculo matrimonial enquanto ambos os cônjuges vivem.
6. Mas o ensino de Mateus não se aplica à Igreja?
Aqui faria apenas um ajuste na maneira de expressar sua conclusão.
Não devemos afirmar simplesmente que Mateus 5:32 e 19:9 não servem para a Igreja, pois isso poderia transmitir a ideia de que os ensinamentos do Senhor Jesus registrados nos Evangelhos perderam sua autoridade para os cristãos.
O próprio Paulo, em 1 Coríntios 7:10, recorre àquilo que o Senhor havia ordenado.
A distinção necessária é outra: nem todas as instruções pronunciadas durante o ministério terreno de Cristo foram dirigidas diretamente à Igreja, que ainda seria formada, mas isso não significa que seus ensinamentos não contenham princípios permanentes para ela.
Por exemplo, em Mateus 10:5-6, o Senhor ordenou aos doze que não fossem aos gentios, mas às ovelhas perdidas da casa de Israel. Posteriormente, em Mateus 28:19, encontramos a ordem de fazer discípulos de todas as nações.
Não existe contradição. Existe uma distinção dispensacional que precisa ser respeitada.
Da mesma maneira, devemos considerar o contexto judaico da cláusula de exceção em Mateus, sem descartar o princípio universal estabelecido pelo próprio Senhor acerca do casamento.
A posição que considero mais coerente com o conjunto das Escrituras é que a exceção de Mateus não deve ser utilizada para estabelecer uma autorização geral de novo casamento para pessoas divorciadas enquanto o primeiro cônjuge permanece vivo.
A interpretação que relaciona essa exceção à situação particular dos desposados judeus oferece uma explicação para sua presença em Mateus e sua ausência em Marcos e Lucas.
Reconheço, entretanto, que existem diferentes interpretações dessa passagem. A questão não deve ser resolvida simplesmente pela ausência da exceção nos demais Evangelhos, mas pelo exame harmonioso de toda a revelação bíblica.
7. O princípio que permanece: o que Deus ajuntou não separe o homem
Acredito que sua conclusão principal está correta.
A autoridade para estabelecer o casamento pertence a Deus. A legislação humana pode reconhecer juridicamente um divórcio, mas não possui autoridade para modificar, por si mesma, aquilo que Deus estabeleceu como princípio matrimonial.
É importante observar que o Senhor Jesus não disse apenas que Moisés havia estabelecido determinadas regras para Israel. Ele afirmou:
“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez?” (Mateus 19:4).
E acrescentou:
“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mateus 19:6).
O Senhor estava restaurando a atenção dos Seus ouvintes para a vontade original de Deus, anterior à própria Lei de Moisés.
Esse mesmo princípio aparece posteriormente em Efésios 5:31-32, quando Paulo utiliza a união matrimonial como figura da relação entre Cristo e a Igreja.
Portanto, o casamento possui uma dignidade que ultrapassa os costumes sociais, as legislações nacionais e as diferentes dispensações.
Isso não significa que uma pessoa deva permanecer exposta à violência, ao abuso ou a situações que coloquem sua integridade em perigo. A proteção da vida e a segurança pessoal precisam ser consideradas. Contudo, a necessidade de afastamento por razões graves não deve ser confundida automaticamente com liberdade bíblica para estabelecer outro casamento.
Conclusão
Respondendo objetivamente à sua última pergunta: sim, o começo do Novo Testamento como divisão da Bíblia e o estabelecimento da Nova Aliança são acontecimentos distintos.
O Senhor Jesus desenvolveu Seu ministério terreno sob a Lei, anunciou a Nova Aliança e estabeleceu seu fundamento mediante Sua morte na cruz.
Quanto à questão matrimonial, considero importante conservar estas distinções:
- A exceção registrada em Mateus precisa ser examinada à luz do contexto judaico no qual foi pronunciada.
- O princípio da permanência do casamento não começou com Moisés, mas com Deus, no jardim do Éden.
- A revelação apostólica dirigida à Igreja apresenta a reconciliação ou a permanência sem novo casamento como orientação para os cônjuges separados.
- A morte de um dos cônjuges é expressamente apresentada como o acontecimento que liberta o sobrevivente para um novo casamento (Romanos 7:2-3; 1 Coríntios 7:39).
Assim, não entendo que Paulo tenha esquecido de mencionar uma autorização para os divorciados. Pelo contrário, suas instruções são suficientemente claras quanto ao princípio que devemos observar.
A questão fundamental não é procurar até onde podemos ir para desfazer uma união matrimonial, mas compreender até onde vai a autoridade daquilo que Deus estabeleceu.
E, nesse sentido, as palavras do Senhor Jesus continuam sendo a referência fundamental:
“Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mateus 19:6).
Que Deus nos conceda sabedoria para interpretar Sua Palavra com fidelidade, respeitando tanto as distinções dispensacionais quanto a harmonia de toda a revelação divina.
Josué Matos