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Ontem houve uma tentativa de sequestro de um avião a caminho de Tel Aviv, cheio de israelenses. Mais uma vez, os israelenses saíram ilesos.

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Bom dia. Ontem houve uma tentativa de sequestro de um avião a caminho de Tel Aviv, cheio de israelenses. Mais uma vez, os israelenses saíram ilesos.

Eu gostaria de entender, não de questionar as atitudes de Deus. Ele não tem que me dar satisfação, pois é soberano em tudo. Porém, parece haver um contraste entre os irmãos no passado, em Hebreus 11:30-39, que sofreram pela fé, e esses israelenses que não conhecem a Deus.

Poderia me explicar, por gentileza?

Um abraço.

Minha Ressposta:

A sua pergunta é muito interessante, porque toca em dois assuntos que precisamos distinguir cuidadosamente: a soberania e a providência de Deus sobre os acontecimentos deste mundo e, ao mesmo tempo, o relacionamento particular de Deus com Israel em Seu propósito profético.

Primeiramente, precisamos ter cuidado para não interpretar um acontecimento específico — como o livramento de pessoas de um acidente, atentado, guerra ou tentativa de sequestro — como prova de que aquelas pessoas são salvas ou de que Deus está aprovando espiritualmente a vida delas.

O Senhor Jesus ensinou exatamente o contrário desse tipo de conclusão. Em Lucas 13:1-5, algumas pessoas falaram ao Senhor sobre galileus que haviam sido mortos por Pilatos. O Senhor respondeu:

“Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo.”

Depois Ele mencionou as dezoito pessoas sobre as quais caiu a torre de Siloé e perguntou se elas eram mais culpadas que os demais habitantes de Jerusalém. Novamente respondeu que não.

Portanto, alguém escapar de uma tragédia não significa necessariamente que seja mais justo, assim como alguém morrer numa tragédia não significa necessariamente que seja mais pecador.

  1. O próprio Hebreus 11 apresenta os dois lados

Na realidade, o contraste que você percebe já aparece dentro do próprio capítulo 11 de Hebreus.

Veja algo muito interessante.

Em Hebreus 11:33-35 encontramos pessoas que, pela fé:

“venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos.”

Aqui temos livramento.

Daniel foi preservado dos leões. Os três amigos de Daniel foram preservados do fogo. Outros “escaparam do fio da espada”.

Mas imediatamente depois o texto muda:

“E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada” (Hebreus 11:36-37).

Observe a expressão: “e outros”.

Uns escaparam da espada.

Outros morreram pela espada.

E todos estavam vivendo pela fé.

Este é justamente um dos grandes ensinamentos de Hebreus 11. A fé não significa que Deus necessariamente nos livrará fisicamente de todo sofrimento. Pela fé, alguns foram libertos; pela mesma fé, outros aceitaram a morte sem negar a Deus.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego entenderam muito bem isso quando disseram a Nabucodonosor:

“Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses” (Daniel 3:17-18).

Eles sabiam que Deus podia livrá-los, mas não presumiram que Deus fosse obrigado a fazê-lo.

Essa é uma fé extraordinária: “Deus pode; mas, mesmo que não faça, continuaremos fiéis”.

  1. Portanto, sofrimento não significa abandono de Deus

Quando chegamos aos mártires de Hebreus 11, poderíamos pensar que Deus os abandonou. Porém, a avaliação divina é exatamente oposta.

Hebreus 11:38 diz:

“Dos quais o mundo não era digno.”

Aos olhos humanos, eles perderam tudo. Aos olhos de Deus, o mundo é que não era digno deles.

Por isso, precisamos distinguir livramento temporal de bênção espiritual.

Uma pessoa pode receber um grande livramento nesta vida e continuar perdida espiritualmente. Outra pode morrer por causa de sua fidelidade a Cristo e entrar imediatamente na presença do Senhor.

O maior livramento não é escapar da morte física. O maior livramento é escapar da condenação eterna.

O próprio Senhor Jesus foi rejeitado, perseguido e crucificado. Os apóstolos sofreram. Estêvão foi apedrejado (Atos dos Apóstolos 7:54-60). Tiago foi morto à espada (Atos dos Apóstolos 12:1-2). Pedro, naquela mesma ocasião, foi milagrosamente libertado da prisão (Atos dos Apóstolos 12:3-11).

Veja novamente o princípio: Tiago morreu; Pedro foi libertado.

Seria Tiago menos amado por Deus?

Certamente não.

Deus tinha propósitos diferentes para cada um.

  1. E quanto aos israelenses de hoje?

Aqui precisamos acrescentar outra verdade importante.

A Bíblia ensina que Israel continua tendo um lugar específico nos propósitos de Deus, mas isso não significa que todo israelense atualmente seja salvo ou esteja espiritualmente em comunhão com Deus.

Paulo deixa isso muito claro em Romanos capítulos 9 a 11.

Quanto à condição espiritual atual da nação, existe incredulidade. Paulo escreve:

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11:32).

Também diz:

“Que Israel não conseguiu aquilo que buscava; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” (Romanos 11:7).

Portanto, não devemos confundir a posição profética de Israel com a salvação individual de cada israelense.

Um judeu precisa de Cristo exatamente como um gentio precisa de Cristo.

Pedro disse:

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos dos Apóstolos 4:12).

Hoje, judeus e gentios são salvos da mesma maneira: pela graça de Deus, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo.

  1. Entretanto, Deus não terminou Seu propósito com Israel

Aqui está outro lado da questão.

Embora Israel esteja atualmente, em grande parte, em incredulidade, isso não significa que Deus tenha cancelado as promessas feitas àquela nação.

Paulo pergunta diretamente:

“Digo, pois: porventura rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum” (Romanos 11:1).

Mais adiante ele explica:

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo” (Romanos 11:25-26).

E apresenta uma razão importantíssima:

“Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29).

Isso significa que Deus ainda cumprirá aquilo que prometeu a Abraão, Isaque, Jacó e Davi. A incredulidade atual de Israel não tornou Deus infiel às Suas promessas.

Entretanto, devemos ser cuidadosos aqui: isso não significa que todo acontecimento moderno envolvendo Israel possa ser interpretado automaticamente como uma intervenção milagrosa de Deus.

Se israelenses escapam de um atentado, podemos agradecer a Deus pela preservação daquelas vidas. Mas não temos autoridade bíblica para afirmar, sem uma revelação específica das Escrituras, que aquele determinado acontecimento ocorreu porque aquelas pessoas eram israelenses.

Deus, em Sua providência, preserva diariamente inúmeras pessoas de diferentes nacionalidades, inclusive pessoas que não O conhecem.

  1. Deus também demonstra bondade aos que não O conhecem

O Senhor Jesus disse:

“Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5:45).

Paulo também disse aos habitantes pagãos de Listra que Deus:

“não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações” (Atos dos Apóstolos 14:17).

Portanto, uma pessoa não precisa ser salva para experimentar a bondade providencial de Deus.

Todos nós respiramos o ar que Deus criou. O sol nasce sobre crentes e incrédulos. Deus concede alimento, saúde, inteligência, família, oportunidades e inúmeros livramentos a pessoas que talvez jamais tenham reconhecido Sua mão.

Romanos 2:4 diz que “a benignidade de Deus te leva ao arrependimento”.

Assim, o livramento de uma pessoa incrédula não significa aprovação divina. Pode ser simplesmente mais uma demonstração da paciência e da bondade de Deus, dando-lhe oportunidade para arrepender-se.

  1. Israel continua sendo uma nação especial no propósito profético

Ao mesmo tempo, existe algo singular em Israel que não podemos ignorar.

Deus disse a Abraão:

“E far-te-ei uma grande nação” (Gênesis 12:2).

Posteriormente prometeu a terra à sua descendência (Gênesis 13:14-17; 15:18).

Séculos de desobediência de Israel não anularam aquilo que Deus determinou cumprir. Romanos 11 mostra que a rejeição atual da nação é temporária. Existe um futuro para Israel nos propósitos de Deus.

Por isso, devemos manter duas verdades juntas:

Israel, como nação, possui promessas terrenas e proféticas que Deus ainda cumprirá.

Porém, o israelense individualmente não é salvo simplesmente porque descende de Abraão.

João Batista já advertia:

“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão” (Mateus 3:9).

A descendência natural não substitui a necessidade de arrependimento e fé.

  1. Não devemos medir o amor de Deus pelas circunstâncias

Talvez este seja o ponto principal da sua pergunta.

Se julgarmos apenas pelas circunstâncias, poderíamos chegar a conclusões completamente erradas.

José foi vendido como escravo e depois lançado injustamente numa prisão. Parecia abandonado, mas Deus estava com ele (Gênesis 39:21).

João Batista foi decapitado (Mateus 14:10).

Estêvão foi apedrejado (Atos dos Apóstolos 7:59).

Paulo sofreu açoites, prisões, naufrágios, fome e inúmeras perseguições (2 Coríntios 11:23-27).

O próprio Senhor Jesus foi chamado de “homem de dores e experimentado nos trabalhos” (Isaías 53:3).

Portanto, seria impossível dizer que ausência de sofrimento significa maior favor de Deus.

Às vezes Deus demonstra Seu poder tirando o Seu servo da fornalha.

Outras vezes demonstra Seu poder sustentando o Seu servo dentro dela.

Às vezes Ele livra da morte.

Outras vezes Ele concede graça para enfrentar a morte.

Paulo experimentou os dois lados. Em certa ocasião escreveu:

“E fomos libertados de tão grande morte, e livra; em quem esperamos que também nos livrará ainda” (2 Coríntios 1:10).

Mas, no final da vida, sabendo que sua morte estava próxima, escreveu:

“Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:6-7).

Ele não considerou sua morte uma derrota.

  1. Hebreus 11 fornece a resposta mais completa

Portanto, quando colocamos lado a lado os israelenses que escaparam dessa situação e os fiéis de Hebreus 11 que sofreram, não devemos concluir que existe uma contradição.

O próprio Hebreus 11 mostra que Deus pode permitir resultados diferentes.

Pela fé, alguns:

“escaparam do fio da espada” (Hebreus 11:34).

Pela fé, outros:

“foram mortos ao fio da espada” (Hebreus 11:37).

A mesma fé.

O mesmo Deus.

Resultados terrenos diferentes.

Mas todos dentro da soberania divina.

E há uma expressão muito importante no final do capítulo:

“E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hebreus 11:39).

Observe: “todos estes”.

Tanto aqueles que venceram batalhas como aqueles que morreram.

Tanto aqueles que foram milagrosamente libertados como aqueles que foram martirizados.

Todos receberam bom testemunho pela fé.

Isso nos ensina que a verdadeira vitória não consiste necessariamente em permanecer vivo, saudável ou livre de problemas. A verdadeira vitória é permanecer fiel a Deus.

Por isso Paulo podia dizer:

“Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Filipenses 1:21).

Então, podemos agradecer a Deus quando vidas são preservadas, sejam israelenses ou de qualquer outra nacionalidade. Toda preservação da vida é motivo de gratidão. Mas não devemos transformar cada acontecimento político, militar ou extraordinário envolvendo Israel em cumprimento profético específico, a menos que a própria Escritura nos dê fundamento para isso.

Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que Israel não desapareceu dos propósitos de Deus. A nação encontra-se atualmente em incredulidade, mas Deus ainda cumprirá Suas promessas. O futuro espiritual de Israel não está fundamentado na justiça dos israelenses atuais, mas na fidelidade de Deus à Sua própria Palavra.

E quanto aos santos que sofreram em Hebreus 11, eles não receberam menos de Deus. Na verdade, a Escritura lhes presta um dos maiores testemunhos que alguém poderia receber:

“Dos quais o mundo não era digno” (Hebreus 11:38).

Alguns glorificaram a Deus sendo libertados.

Outros glorificaram a Deus permanecendo fiéis até a morte.

E tanto o livramento como a perseverança estavam debaixo da mão soberana de Deus.

Josué Matos

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