Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Pergunta:
Bom dia, amado.
Li em seu site o seguinte:
“Após o casamento ser consumado, a união é considerada indissolúvel. Não há base bíblica para o divórcio e um novo casamento enquanto ambos os parceiros ainda estão vivos.”
Alguém em um segundo matrimônio, sem ter estado viúvo ou solteiro, casando-se de novo, estará em pecado de adultério, correto? Como será salvo alguém numa situação trágica assim? Pois conheço várias pessoas crentes em tal situação... Dói-me o coração, entende? Uma tragédia eterna (condenação) que se avizinha, pois?
Obrigado por tudo, amado Josué.
Aliás, quando se consuma o casamento?
Minha Resposta:
A sua pergunta é muito importante, principalmente porque envolve duas verdades que precisamos manter juntas: a santidade do casamento e a grandeza da graça de Deus. Não devemos diminuir aquilo que a Palavra de Deus diz sobre o casamento, mas também não devemos transmitir a ideia de que alguém que caiu nesse pecado está necessariamente além do alcance da salvação. A Bíblia não ensina isso.
Primeiramente, preciso fazer uma pequena correção na maneira como a frase que você encontrou no site pode ser entendida. Quando se diz que “após o casamento ser consumado” a união é indissolúvel, alguém poderia entender que é a relação sexual que cria o casamento. Biblicamente, não devemos colocar a questão dessa maneira. A relação sexual é a consumação física do casamento, mas não é simplesmente o ato sexual que transforma duas pessoas em marido e mulher.
Quando duas pessoas se tornam marido e mulher?
Precisamos voltar ao primeiro casamento registrado na Bíblia:
“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e se apegará à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2:24).
Observe a ordem. Ela já é chamada de “sua mulher”, e então aparece a expressão “serão ambos uma carne”. Quando o Senhor Jesus citou essa passagem, acrescentou:
“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Portanto, o casamento não é constituído simplesmente pela relação sexual. Se assim fosse, qualquer relação sexual entre duas pessoas solteiras automaticamente constituiria um casamento, e a Bíblia não ensina isso.
Primeira aos Coríntios 6:16 mostra justamente a diferença. Paulo fala de um homem que se une sexualmente a uma prostituta e diz que os dois se tornam “um corpo”. Evidentemente, Paulo não está ensinando que aquele homem se casou com ela.
O casamento envolve um homem e uma mulher assumindo uma união matrimonial reconhecida como tal. A relação sexual posteriormente consuma fisicamente essa união.
Por isso, seria mais preciso dizer que, uma vez estabelecido o casamento, Deus considera aquele homem e aquela mulher unidos matrimonialmente, e a relação sexual é a expressão física e a consumação dessa união.
Isso também ajuda a compreender José e Maria. Antes de viverem juntos e antes da consumação física do casamento, Maria já é chamada de “mulher” de José, e José é chamado de “marido” (Mateus 1:18-20). Havia, no costume judaico, um compromisso matrimonial muito mais vinculativo do que aquilo que atualmente chamamos simplesmente de noivado.
O casamento foi planejado para durar enquanto ambos vivem
Quando os fariseus perguntaram ao Senhor Jesus sobre o divórcio, Ele não começou por Moisés. Ele voltou à criação:
“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez?” (Mateus 19:4).
Depois declarou:
“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Quando perguntaram por que Moisés havia permitido carta de divórcio, o Senhor respondeu:
“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).
Esta última frase é muito importante: “ao princípio não foi assim”.
O padrão de Deus não é casamento, divórcio e novo casamento. O padrão apresentado desde Gênesis é um homem e uma mulher unidos por toda a vida.
Esse ensino aparece de maneira muito clara também em Marcos:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).
Lucas registra:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).
Paulo ensina o mesmo princípio:
“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido” (Romanos 7:2-3).
E novamente:
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (Primeira aos Coríntios 7:39).
Assim, dentro desse entendimento das Escrituras, a morte é que põe fim ao vínculo matrimonial e deixa o cônjuge sobrevivente livre para casar novamente.
E se houver separação?
A própria Bíblia reconhece que podem surgir situações extremamente difíceis nas quais ocorre uma separação. Mas é muito significativo observar a orientação apostólica:
“Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (Primeira aos Coríntios 7:10-11).
Veja as duas possibilidades apresentadas depois da separação:
“fique sem casar”
ou
“que se reconcilie”.
Não aparece uma terceira opção dizendo: “case-se com outra pessoa”.
Isso é importante porque mostra que a separação, por mais dolorosa que seja, não concede automaticamente liberdade para outro casamento.
Então alguém no segundo casamento está irremediavelmente condenado?
Aqui precisamos ter muito cuidado.
Não devemos concluir: “Essa pessoa está em adultério, portanto não poderá ser salva”.
Se fizermos isso, estaremos indo além da Escritura.
A Bíblia realmente diz:
“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros...” (Primeira aos Coríntios 6:9).
Isso é muito sério.
Mas precisamos continuar lendo:
“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (Primeira aos Coríntios 6:11).
Observe cuidadosamente:
“E é o que alguns têm sido.”
Entre os cristãos de Corinto havia pessoas cujo passado incluía pecados sexuais gravíssimos. Contudo, o Evangelho havia alcançado essas pessoas.
Foram lavadas.
Foram santificadas.
Foram justificadas.
Portanto, não existe fundamento bíblico para dizer que o adultério seja um pecado que o sangue de Cristo não possa purificar.
O sangue de Jesus Cristo é suficiente para purificar de todo pecado:
“O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (Primeira de João 1:7).
Mas salvação envolve arrependimento
Aqui está o ponto que não podemos ignorar.
A graça de Deus perdoa o pecador, mas não transforma o pecado em algo aceitável.
Quando o Senhor Jesus tratou com a mulher samaritana, Ele revelou a situação dela:
“Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido” (João 4:18).
Que declaração impressionante!
O Senhor conhecia perfeitamente sua situação conjugal. Ainda assim, ofereceu-lhe a água da vida.
Portanto, aquela mulher não estava fora do alcance da graça.
Da mesma maneira, quando uma mulher foi apanhada em adultério, o Senhor lhe disse:
“Nem eu também te condeno; vai-te e não peques mais” (João 8:11).
Observe o equilíbrio perfeito.
Ele não disse que o pecado não importava.
Também não disse que aquela mulher estava além da possibilidade de perdão.
Disse:
“Não te condeno.”
Mas também:
“Não peques mais.”
Esse é o equilíbrio da graça e da verdade.
E alguém que se converte estando num segundo casamento?
Esta é provavelmente a parte mais dolorosa da sua pergunta.
Imagine uma pessoa que passou muitos anos longe de Deus. Divorciou-se, casou novamente, teve filhos nesse segundo relacionamento e, muitos anos depois, ouviu o Evangelho e verdadeiramente se converteu.
O que fazer?
Primeiro, devemos afirmar claramente que ela pode ser salva.
O Evangelho não diz:
“Crê no Senhor Jesus Cristo, a menos que você tenha complicado demais a sua vida matrimonial.”
A mensagem é:
“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).
O Senhor Jesus disse:
“O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37).
Portanto, jamais devemos dizer a uma pessoa sinceramente arrependida: “Para você não existe mais salvação”.
Isso seria negar o poder do Evangelho.
Entretanto, depois da conversão surge outra pergunta: como colocar a vida em conformidade com a Palavra de Deus?
E aqui a situação pode tornar-se extremamente dolorosa.
Se o primeiro cônjuge ainda vive, dentro do entendimento bíblico que estamos considerando, o segundo casamento não desfez o vínculo original. Por isso, não podemos simplesmente dizer que, depois da conversão, aquilo que anteriormente era contrário à Palavra de Deus automaticamente se tornou correto.
Primeira aos Coríntios 6:11 não diz: “E é o que alguns ainda continuam sendo”. Diz:
“E é o que alguns têm sido.”
Houve uma mudança.
É precisamente aí que entram o arrependimento, a obediência e, muitas vezes, consequências muito dolorosas.
Isso significa que a pessoa deve abandonar todas as suas responsabilidades?
Não.
Essa questão precisa ser tratada com muita sabedoria, especialmente quando existem filhos.
Uma coisa é reconhecer biblicamente uma situação matrimonial irregular. Outra coisa é imaginar que arrependimento significa abandonar filhos, deixar pessoas sem sustento ou agir irresponsavelmente.
Um homem continua tendo responsabilidades para com os filhos que gerou. O arrependimento nunca é desculpa para irresponsabilidade.
Por isso, casos concretos podem ser extremamente complexos e precisam ser tratados individualmente, com muita oração, conhecimento dos fatos, temor de Deus e submissão às Escrituras.
Pode haver consequências materiais, familiares e emocionais que permanecerão durante muitos anos.
Deus perdoa o pecado, mas nem sempre remove todas as consequências temporais daquele pecado.
Davi foi perdoado quando confessou:
“Pequei contra o Senhor.”
Natã respondeu:
“Também o Senhor traspassou o teu pecado; não morrerás” (Segundo Samuel 12:13).
Davi foi perdoado, mas várias consequências de suas escolhas permaneceram.
Portanto, essas pessoas estão caminhando inevitavelmente para a condenação eterna?
Eu não diria isso.
Não temos autoridade para olhar para determinadas pessoas que professam fé em Cristo e decretar individualmente: “Essas pessoas estão condenadas”.
A salvação é pela graça, mediante a fé:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).
Ao mesmo tempo, a verdadeira salvação produz transformação:
“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10).
Portanto, existem dois erros que precisamos evitar.
O primeiro seria dizer: “Está num segundo casamento, então não existe mais salvação para essa pessoa.”
Isso não é verdade.
O segundo seria dizer: “Se professou fé em Cristo, então não importa como continua vivendo.”
Isso também não é verdade.
A graça que salva também ensina o salvo a renunciar à impiedade, conforme Tito 2:11-12.
A diferença entre cair em pecado e viver deliberadamente no pecado
Isso também precisa ser compreendido.
Um verdadeiro cristão ainda pode pecar. Primeira de João 2:1 diz:
“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.”
Observe que João diz “se alguém pecar”, e não que o cristão tenha licença para permanecer deliberadamente no pecado.
Existe diferença entre um cristão cair, confessar seu pecado, arrepender-se e buscar restauração, e alguém decidir que continuará conscientemente numa condição contrária à Palavra de Deus porque não deseja enfrentar as consequências da obediência.
A Escritura nunca apresenta a graça como autorização para continuar no pecado.
Paulo pergunta:
“Permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante?”
E responde:
“De modo nenhum” (Romanos 6:1-2).
Por isso, não devemos olhar para essas pessoas sem compaixão
Você escreveu uma frase que merece atenção:
“Dói-me o coração.”
E deve doer mesmo.
Mas essa dor não deve ser apenas medo da condenação. Deve produzir compaixão.
Existem pessoas que tomaram decisões erradas antes de conhecerem a Palavra de Deus. Algumas receberam orientações religiosas equivocadas. Outras chegaram a Cristo depois de décadas de uma vida completamente desorganizada.
Não devemos diminuir a verdade para aliviar a consciência delas. Mas também não devemos usar a verdade como uma pedra para esmagá-las.
Precisamos fazer o que o Senhor fazia: apresentar verdade e graça.
A Palavra diz:
“Chorai com os que choram” (Romanos 12:15).
Existem situações matrimoniais em que praticamente qualquer caminho envolve sofrimento. Nesses casos, não ajudamos ninguém simplesmente dizendo: “Você está condenado”.
Devemos levar a pessoa a Cristo, mostrar-lhe o Evangelho, ajudá-la a compreender as Escrituras e, depois, ajudá-la a enfrentar honestamente diante de Deus as consequências da sua situação.
Há esperança até para quem arruinou completamente a própria vida
Talvez esta seja a parte mais importante da resposta.
Não existe uma vida tão complicada que Cristo seja incapaz de salvar.
Paulo escreveu:
“Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores” (Primeira a Timóteo 1:15).
Ele não veio salvar pessoas que conseguiram organizar perfeitamente suas vidas antes de chegar a Ele.
Ele veio salvar pecadores.
A cruz prova duas coisas ao mesmo tempo: quão terrível é o pecado e quão maravilhosa é a graça de Deus.
Se o pecado fosse uma coisa pequena, Cristo não precisaria morrer.
Mas se a graça de Deus fosse pequena, a morte de Cristo não seria suficiente para nós.
Por isso, quando você olha para conhecidos que estão nessa situação, não pense imediatamente: “Uma tragédia eterna se aproxima e não há mais esperança”.
Pense antes:
“Essas pessoas precisam conhecer profundamente a graça de Deus e também compreender seriamente aquilo que Sua Palavra ensina.”
Ore por elas.
Apresente-lhes Cristo.
Não esconda a verdade sobre o casamento, mas também não esconda a verdade sobre a cruz.
Há perdão para o adúltero.
Há perdão para o fornicário.
Há perdão para o ladrão.
Há perdão para o idólatra.
Há perdão para todo pecador que verdadeiramente se volta para Cristo.
Foi exatamente depois de mencionar vários desses pecados que Paulo escreveu aquelas palavras maravilhosas:
“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (Primeira aos Coríntios 6:11).
Portanto, devemos sustentar as duas verdades.
O casamento deve ser honrado e sua permanência defendida: “O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Mas o pecador também deve ouvir que existe um Salvador: “Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores” (Primeira a Timóteo 1:15).
Não devemos tornar o pecado menor do que Deus diz que ele é.
Mas também nunca devemos tornar a graça de Deus menor do que ela realmente é.
Josué Matos