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Gostaria de levantar algumas questões sobre a eclesiologia de Darby

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Gostaria de levantar algumas questões sobre a eclesiologia de Darby, porque há pontos na história dos Irmãos Reunidos que considero importantes e que, sinceramente, ainda não consigo compreender.

Darby desenvolveu uma teologia na qual considerava a Igreja em um estado de ruína tão profundo que, em sua compreensão, nenhum dos corpos eclesiásticos existentes poderia ser verdadeiramente reconhecido como igreja. Mas será que essa conclusão tinha fundamento bíblico suficiente?

A Bíblia não proíbe a existência de ministros reconhecidos, presbíteros, pastores e diáconos. O problema não é a existência de liderança, mas transformar essa liderança em domínio sobre o rebanho, impedir o exercício dos dons ou estabelecer uma autoridade que ultrapasse aquilo que Cristo concedeu.

Se uma igreja, como a Igreja Anglicana, confessava a Trindade, a divindade de Cristo, sua morte e ressurreição, a suficiência das Escrituras e a justificação pela fé, por que não poderia ser reconhecida como uma igreja cristã, apesar de suas falhas institucionais?

É evidente que havia problemas na relação entre Igreja e Estado, assim como em sua estrutura clerical. Mas uma igreja ter problemas não significa necessariamente que tenha deixado de ser uma expressão legítima da Igreja de Cristo.

Se a Igreja de Cristo é uma só, e se os cristãos verdadeiros estavam espalhados pelas diferentes comunidades protestantes, por que a solução encontrada foi estabelecer reuniões separadas dessas comunidades? Não seria possível defender a unidade do corpo de Cristo, combater o clericalismo, denunciar a interferência do Estado e incentivar o exercício dos dons sem necessariamente romper a comunhão com aqueles irmãos?

Darby tinha autoridade para determinar, com base em sua própria interpretação, que os demais corpos eclesiásticos haviam deixado de ser igrejas de Cristo?

Outra questão que considero importante: por que ele não permaneceu onde estava, procurando combater os erros e trabalhar pela correção daquilo que considerava antibíblico, deixando a Deus o que não estava sob seu controle?

Quando lemos as cartas de Cristo às sete igrejas em Apocalipse 2 e 3, encontramos erros graves, inclusive tolerância à falsa doutrina, imoralidade e abandono do primeiro amor. Entretanto, Cristo chama aquelas igrejas ao arrependimento. Não encontramos uma orientação geral para que os fiéis abandonassem suas congregações e formassem novas igrejas locais. Ao contrário, Cristo se dirige às próprias igrejas e exige que corrijam seus caminhos.

Isso me leva a outra pergunta: se Cristo tratou daquela maneira as igrejas que apresentavam problemas tão graves, com qual fundamento podemos afirmar que a separação institucional era a única maneira bíblica de recuperar a ordem da Igreja?

E há ainda uma afirmação que considero especialmente problemática: dizer que foi somente no século XIX, com Darby, que a verdade sobre a Igreja começou a ser recuperada. Isso significa que, durante aproximadamente dezoito séculos, a Igreja de Cristo não havia compreendido corretamente sua própria identidade e seu funcionamento?

Como ficam os cristãos fiéis que viveram antes de Darby? Como ficam os reformadores, os cristãos que defenderam a justificação pela fé, os que preservaram e anunciaram o Evangelho, os que sofreram perseguições por amor a Cristo?

Não estou afirmando que Darby não tenha identificado problemas reais, nem que a Igreja não precise constantemente ser examinada e corrigida pelas Escrituras. O que questiono é a conclusão de que a restauração da verdade exigia uma separação das demais comunidades cristãs.

Afinal, lutar pela pureza da Igreja é uma coisa. Concluir que a pureza exige separar-se dos demais cristãos é outra.

Gostaria de compreender qual é o fundamento bíblico para essa conclusão, e não apenas ouvir que os Irmãos Reunidos voltaram ao padrão do Novo Testamento. É justamente esse padrão que precisa ser demonstrado pelas Escrituras.

Minha Resposta:

Agradeço pelas questões apresentadas, pois demonstram uma preocupação legítima em compreender o fundamento bíblico da reunião dos cristãos e os acontecimentos históricos relacionados ao movimento conhecido como Irmãos Reunidos.

Entretanto, acredito que, antes de examinarmos as questões levantadas, precisamos estabelecer uma distinção fundamental: uma coisa é a Igreja como Corpo de Cristo, outra é a igreja local como testemunho coletivo, e outra, ainda, são os sistemas religiosos organizados pelos homens ao longo da história.

Sem compreender essas diferenças, dificilmente chegaremos a uma conclusão satisfatória.

1. Darby não fundou a Igreja nem estabeleceu uma nova denominação

Primeiramente, é importante esclarecer que John Nelson Darby não foi o fundador da Igreja, tampouco os cristãos que começaram a reunir-se no século XIX pretendiam estabelecer uma nova denominação.

Na verdade, uma das características daquele movimento foi justamente a rejeição do denominacionalismo, porque seus participantes entenderam que as divisões estabelecidas entre os cristãos não correspondiam ao propósito de Deus revelado nas Escrituras.

Além disso, o movimento não começou exclusivamente com Darby. Outros cristãos, como Anthony Norris Groves, Edward Cronin, John Gifford Bellett e Francis Hutchinson, participaram dos primeiros esforços para reunir-se simplesmente como discípulos do Senhor Jesus Cristo.

O objetivo não era formar outra organização religiosa, mas reconhecer que todos os verdadeiros salvos pertencem ao mesmo Corpo de Cristo, independentemente das denominações às quais estejam associados.

O apóstolo Paulo escreveu:

"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação" (Efésios 4:4).

E também:

"Porque todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres" (1 Coríntios 12:13).

Portanto, a unidade da Igreja não foi criada por Darby nem por qualquer movimento religioso. Ela foi estabelecida pelo Espírito Santo.

A responsabilidade dos cristãos é reconhecer e guardar essa unidade, conforme Efésios 4:3.

2. A Igreja como Corpo de Cristo nunca esteve em ruínas

Aqui encontramos uma distinção essencial para compreender a posição de Darby.

Quando se fala da ruína da Igreja, não se está afirmando que o Corpo de Cristo tenha sido destruído, perdido sua unidade espiritual ou deixado de existir.

O Senhor Jesus declarou:

"Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mateus 16:18).

Essa promessa permanece absolutamente verdadeira.

A Igreja como Corpo de Cristo é uma obra divina, formada por todos os que verdadeiramente pertencem ao Senhor Jesus. Nenhuma organização humana pode destruí-la, assim como nenhuma denominação pode reivindicar sua representação exclusiva.

Entretanto, existe outra dimensão da responsabilidade cristã: o testemunho público e coletivo daqueles que professam o nome de Cristo.

Em 1 Coríntios 3:10-15, Paulo apresenta a responsabilidade humana na edificação sobre o fundamento, que é Jesus Cristo. Os materiais utilizados nessa construção serão provados pelo fogo.

Em 2 Timóteo 2:20, encontramos a figura de uma grande casa, na qual existem vasos para honra e outros para desonra.

Essas passagens demonstram que existe uma diferença entre aquilo que Cristo edifica perfeitamente e aquilo que os homens constroem sob sua própria responsabilidade.

Assim, quando Darby falava da ruína da Igreja, referia-se principalmente ao fracasso do testemunho cristão na Terra, e não à destruição da verdadeira Igreja de Cristo.

3. A existência de liderança bíblica nunca foi o problema

Concordo plenamente com a observação de que a Bíblia reconhece presbíteros, pastores, diáconos e o exercício dos dons espirituais.

Entretanto, precisamos distinguir entre os dons concedidos por Cristo e os cargos religiosos estabelecidos pelos sistemas eclesiásticos.

Em Efésios 4:11, lemos:

"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores."

Observe que esses dons são concedidos pelo próprio Senhor Jesus Cristo.

Por outro lado, Atos dos Apóstolos 14:23 apresenta a constituição de presbíteros nas igrejas, e Atos dos Apóstolos 20:28 declara que o Espírito Santo constituiu os supervisores para apascentarem a igreja de Deus.

Em 1 Pedro 5:2-3, os presbíteros são exortados a apascentar o rebanho, não como dominadores, mas como exemplos.

Portanto, as igrejas locais devem reconhecer os homens que o Espírito Santo capacitou para exercer essa responsabilidade.

O problema surge quando se estabelece uma classe clerical que assume o exercício regular do ministério em lugar dos demais membros do Corpo de Cristo, criando uma distinção institucional entre clérigos e leigos que não encontramos como modelo nas igrejas apostólicas.

Em 1 Coríntios 14:26, Paulo descreve uma reunião na qual diferentes irmãos poderiam contribuir para a edificação da igreja, sempre sujeitos à ordem estabelecida pelo próprio apóstolo.

Isso não significa ausência de liderança ou liberdade para qualquer pessoa agir independentemente das Escrituras. Significa que o ministério pertence à esfera dos dons espirituais e não depende necessariamente da ordenação por uma instituição religiosa.

4. Uma organização pode ensinar verdades fundamentais e, ainda assim, apresentar uma estrutura contrária às Escrituras

A pergunta sobre a Igreja Anglicana é importante.

Reconheço que, historicamente, muitos cristãos anglicanos defenderam verdades fundamentais do Evangelho, anunciaram a salvação pela fé e demonstraram profunda fidelidade ao Senhor Jesus Cristo.

Entretanto, precisamos distinguir duas questões.

A primeira é se existem verdadeiros cristãos dentro de determinada organização religiosa.

A segunda é se a estrutura e o funcionamento dessa organização correspondem ao modelo apresentado no Novo Testamento.

A resposta afirmativa à primeira pergunta não exige necessariamente uma resposta afirmativa à segunda.

Uma organização pode conservar doutrinas fundamentais corretas e, ao mesmo tempo, apresentar práticas e estruturas que não encontram fundamento nas Escrituras.

Por exemplo, no Novo Testamento não encontramos uma igreja nacional subordinada à autoridade religiosa de um monarca, nem uma hierarquia eclesiástica que governe diversas igrejas locais por meio de uma estrutura centralizada.

Encontramos igrejas locais com seus próprios presbíteros, responsáveis pelo rebanho que lhes foi confiado.

Veja Atos dos Apóstolos 20:17,28; Filipenses 1:1; Tito 1:5 e 1 Pedro 5:1-3.

Portanto, reconhecer a existência de verdadeiros cristãos em determinada denominação não significa necessariamente reconhecer toda a sua organização eclesiástica como expressão fiel da ordem estabelecida por Deus.

E isso não é uma condenação dos cristãos que ali se encontram.

5. Por que não permanecer nos sistemas religiosos e procurar reformá-los?

Essa talvez seja uma das questões mais importantes.

É verdade que devemos procurar corrigir os erros e contribuir para a edificação dos demais cristãos. Entretanto, a Bíblia também apresenta situações nas quais a fidelidade à Palavra de Deus exige afastamento daquilo que contraria seus ensinamentos.

Em 2 Timóteo 2:19, lemos:

"Qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade."

Nos versículos seguintes, Paulo apresenta a figura da grande casa e declara:

"De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra" (2 Timóteo 2:21).

Observe que essa orientação foi dada em um contexto no qual o apóstolo já descrevia a presença de erros doutrinários e desordem entre aqueles que professavam o cristianismo.

Entretanto, a separação apresentada nessa passagem não é um convite ao isolamento espiritual.

Logo depois, Paulo acrescenta:

"Segue a justiça, a fé, a caridade e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor" (2 Timóteo 2:22).

Portanto, encontramos dois princípios complementares: afastar-se daquilo que desonra o Senhor e buscar comunhão com aqueles que desejam invocá-lo de coração puro.

É importante observar que a aplicação dessa passagem aos sistemas denominacionais exige discernimento. O texto não apresenta uma lista de denominações das quais os cristãos devam sair, mas estabelece um princípio de separação do mal que não pode ser ignorado.

Da mesma forma, 2 Coríntios 6:14-18 apresenta o princípio de separação de associações incompatíveis com a santidade de Deus, embora seu contexto não trate diretamente das denominações cristãs modernas.

Assim, o argumento não deve ser que todo cristão precisa abandonar uma organização simplesmente porque ela possui um nome denominacional. A questão é se sua permanência o obriga a participar de práticas que considera contrárias à Palavra de Deus.

6. E quanto às sete igrejas de Apocalipse?

A observação sobre Apocalipse 2 e 3 merece atenção.

De fato, o Senhor Jesus dirigiu suas mensagens a igrejas que apresentavam diferentes condições espirituais, algumas delas bastante graves.

Entretanto, precisamos observar que essas mensagens não ensinam que uma igreja pode permanecer indefinidamente no erro sem consequências.

À igreja de Éfeso, o Senhor declarou:

"Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres" (Apocalipse 2:5).

Portanto, uma igreja local pode perder seu testemunho como consequência de sua infidelidade.

Em Pérgamo, o Senhor condenou a tolerância de falsas doutrinas (Apocalipse 2:14-16).

Em Tiatira, repreendeu a tolerância de uma influência corruptora que conduzia seus servos ao pecado (Apocalipse 2:20-23).

Em Sardes, declarou:

"Tens nome de que vives e estás morto" (Apocalipse 3:1).

Essas passagens demonstram que o Senhor não considera suficiente a existência de uma estrutura religiosa ou de uma profissão cristã exterior.

Contudo, também precisamos reconhecer que o Senhor não ordenou indiscriminadamente que todos os fiéis abandonassem aquelas igrejas.

Em Tiatira, por exemplo, dirigiu palavras específicas aos que não haviam seguido a falsa doutrina, exortando-os a conservar o que tinham até sua vinda (Apocalipse 2:24-25).

Isso nos ensina que a separação não deve ser aplicada mecanicamente a qualquer situação de fraqueza ou desordem.

O princípio é que a fidelidade ao Senhor exige rejeição do mal, mas a forma de agir deve ser determinada pelas Escrituras e pelas circunstâncias concretas.

7. Separação do mal não significa separação dos verdadeiros cristãos

Aqui encontramos outro ponto fundamental.

Os primeiros cristãos que passaram a reunir-se fora das denominações não defendiam, em princípio, que somente eles pertenciam ao Corpo de Cristo.

Pelo contrário, reconheciam que todos os verdadeiros salvos, independentemente de sua associação denominacional, pertenciam à única Igreja.

A questão era a base sobre a qual os cristãos deveriam reunir-se.

Em 1 Coríntios 1:12-13, Paulo repreendeu os coríntios porque alguns afirmavam pertencer a Paulo, outros a Apolo, outros a Cefas e outros a Cristo.

Sua pergunta foi:

"Está Cristo dividido?" (1 Coríntios 1:13).

A unidade do Corpo de Cristo não pode ser dividida por nomes, preferências ministeriais ou organizações humanas.

Por isso, reunir-se simplesmente ao nome do Senhor Jesus Cristo não significa afirmar que os demais cristãos não pertencem a Ele.

Mateus 18:20 declara:

"Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles."

O fundamento da reunião cristã deve ser a pessoa e a autoridade do Senhor Jesus.

Naturalmente, essa passagem precisa ser compreendida em seu contexto, que trata também da responsabilidade e da disciplina entre os discípulos. Não se deve utilizá-la isoladamente como se bastasse reunir duas ou três pessoas para demonstrar que todos os aspectos da ordem de uma igreja local estão presentes.

Entretanto, ela estabelece um princípio precioso: Cristo é o centro da reunião dos seus.

Portanto, a separação de uma estrutura religiosa não deve representar rejeição pessoal dos cristãos que permanecem nela.

Podemos reconhecer esses cristãos como membros do Corpo de Cristo, amá-los, respeitá-los e reconhecer a obra de Deus em suas vidas, sem necessariamente concordar com todas as práticas das organizações às quais pertencem.

8. Darby tinha autoridade para determinar quais organizações eram igrejas de Cristo?

Não. Darby não possuía autoridade apostólica para estabelecer novas regras para a Igreja.

Nenhum cristão possui essa autoridade.

A autoridade pertence ao Senhor Jesus Cristo e à sua Palavra.

O próprio apóstolo Paulo declarou:

"Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?" (1 Coríntios 14:36).

E também:

"Se alguém cuida ser profeta ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor" (1 Coríntios 14:37).

Portanto, nenhuma interpretação de Darby, William Kelly ou qualquer outro escritor deve ser aceita simplesmente por causa de sua reputação.

Tudo precisa ser examinado à luz das Escrituras.

O exemplo dos bereanos continua válido:

"Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" (Atos dos Apóstolos 17:11).

O valor do trabalho realizado por aqueles cristãos no século XIX não depende de atribuir infalibilidade aos seus ensinamentos.

Se suas conclusões estiverem de acordo com a Palavra de Deus, devem ser recebidas. Se não estiverem, devem ser rejeitadas.

9. A verdade sobre a Igreja ficou perdida durante dezoito séculos?

Não devemos afirmar que a verdade sobre a Igreja desapareceu completamente durante dezoito séculos e somente voltou a existir com Darby.

Essa conclusão seria historicamente excessiva e biblicamente injustificável.

Durante toda a história do cristianismo, Deus preservou testemunhas fiéis, homens e mulheres que amaram sua Palavra e permaneceram firmes na fé.

A Reforma Protestante, por exemplo, teve grande importância na recuperação e proclamação de verdades fundamentais, especialmente a justificação pela fé.

Também existiram, antes e depois da Reforma, grupos de cristãos que procuraram reunir-se de maneira simples, estudar as Escrituras e resistir a determinadas estruturas religiosas.

O que aconteceu no século XIX foi uma renovada atenção a verdades relacionadas à natureza da Igreja como Corpo de Cristo, à distinção entre Israel e a Igreja, ao sacerdócio de todos os crentes, ao exercício dos dons espirituais e à ordem das igrejas locais.

Não se tratou da criação dessas verdades, pois elas já estavam registradas nas Escrituras.

Também não seria correto afirmar que ninguém as compreendeu anteriormente.

O que podemos reconhecer é que houve uma recuperação significativa e uma sistematização desses ensinamentos entre os cristãos associados ao movimento dos Irmãos.

A verdade não começou com Darby. Ela estava nas Escrituras desde os dias dos apóstolos.

10. Qual é, afinal, o padrão bíblico de uma igreja local?

Para responder à questão central, precisamos considerar o conjunto dos ensinamentos do Novo Testamento.

Em Atos dos Apóstolos 2:41-42, encontramos os primeiros convertidos perseverando na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações.

Em Atos dos Apóstolos 20:7, encontramos os discípulos reunidos no primeiro dia da semana para partir o pão.

Em Filipenses 1:1, encontramos uma igreja com santos, bispos e diáconos.

Em Atos dos Apóstolos 20:17,28, encontramos presbíteros responsáveis por apascentar o rebanho.

Em 1 Coríntios 12, encontramos a diversidade de dons espirituais no único Corpo de Cristo.

Em 1 Coríntios 14, encontramos princípios que regulam o exercício dos dons e a edificação coletiva nas reuniões.

Em 1 Coríntios 5, encontramos a responsabilidade da igreja local de exercer disciplina quando necessário.

Em 1 Pedro 5:1-4, encontramos a responsabilidade dos presbíteros de cuidar do rebanho, reconhecendo Cristo como o Supremo Pastor.

Em 1 Timóteo 3:14-15, encontramos a importância de saber como convém proceder na casa de Deus.

Essas passagens não apresentam uma denominação religiosa, uma autoridade eclesiástica nacional ou uma estrutura clerical centralizada.

Apresentam igrejas locais compostas por cristãos que pertencem ao Senhor Jesus, perseveram na doutrina apostólica, reconhecem a liderança espiritual estabelecida por Deus e procuram obedecer às instruções das Escrituras.

É esse conjunto de princípios que fundamenta a convicção de que os cristãos podem reunir-se simplesmente ao nome do Senhor Jesus, sem necessidade de pertencer a uma organização denominacional.

Isso, naturalmente, não significa que toda assembleia que adota esse modelo o pratique perfeitamente. Também as assembleias dos Irmãos precisam examinar constantemente sua doutrina e conduta à luz das Escrituras.

Conclusão

Acredito que o ponto central de toda essa discussão não seja defender Darby ou condenar as denominações religiosas.

A verdadeira questão é saber se a Palavra de Deus apresenta princípios suficientes para orientar a reunião, a comunhão, a adoração, o ministério e a liderança dos cristãos.

Entendo que sim.

Também reconheço que nem toda diferença de interpretação justifica uma separação, assim como nem toda estrutura religiosa deve ser considerada inteiramente falsa porque apresenta determinados erros.

Entretanto, quando um cristão compreende, pelas Escrituras, que determinada prática ou organização contraria a ordem estabelecida pelo Senhor, ele possui a responsabilidade pessoal de agir conforme sua consciência instruída pela Palavra de Deus.

Não se trata de reivindicar superioridade espiritual sobre os demais cristãos, mas de procurar obedecer àquilo que se compreende ser a vontade do Senhor.

A separação bíblica não deve nascer do orgulho, do espírito partidário ou do desprezo pelos demais membros do Corpo de Cristo. Deve nascer da fidelidade à verdade, acompanhada de humildade e amor.

Por isso, não considero correto afirmar que a pureza da Igreja exige separar-se de todos os cristãos que não compartilham integralmente da nossa compreensão eclesiástica.

O que as Escrituras exigem é separação do mal, fidelidade à doutrina apostólica e comunhão com aqueles que invocam o Senhor de coração puro.

Por fim, a pergunta que precisamos fazer não é se determinada prática foi ensinada por Darby, Lutero, Calvino ou qualquer outro homem, mas se ela encontra fundamento suficiente na Palavra de Deus.

Porque a Igreja pertence a Cristo, e somente Ele possui autoridade para determinar como seu povo deve reunir-se e servi-lo.

Uma última observação histórica também merece ser feita: nem todas as decisões posteriores de Darby foram acompanhadas pelos demais cristãos daquele movimento. As divisões ocorridas no século XIX, especialmente em 1848, demonstram que houve divergências importantes sobre os limites da comunhão e a autoridade exercida entre as assembleias. Portanto, não devemos confundir a recuperação dos princípios bíblicos de reunião com a aprovação de todas as decisões tomadas por seus participantes.

A fidelidade às Escrituras também exige reconhecer os erros cometidos por aqueles que procuraram defendê-las.

Nosso compromisso não deve ser com a preservação de um movimento histórico, mas com a pessoa do Senhor Jesus Cristo, a unidade do seu Corpo e a obediência à sua Palavra.

Josué Matos

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