Alguém que me escreveu no YouTube:
Como os tessalonicenses aguardavam o arrebatamento a qualquer momento, por causa das perseguições e tribulações que sofriam, por que é que Paulo lhes escreveu, na segunda carta, para eles aguardarem o arrebatamento a qualquer momento? Para eles não se esquecerem?
Minha Resposta
Agradeço pela sua pergunta. Para compreendermos corretamente o assunto, precisamos considerar o propósito das duas epístolas aos Tessalonicenses e, principalmente, distinguir dois acontecimentos proféticos que muitas vezes são confundidos: o arrebatamento da Igreja e a manifestação do Senhor Jesus Cristo em glória para estabelecer o Seu reino.
Antes de tudo, precisamos esclarecer um detalhe importante: na segunda epístola, Paulo não estava simplesmente lembrando os tessalonicenses de que deveriam continuar aguardando o arrebatamento. O principal objetivo era corrigir um entendimento equivocado que estava causando perturbação entre eles.
1. Os tessalonicenses já aguardavam a vinda do Senhor Jesus
Na primeira epístola, Paulo elogiou aqueles cristãos porque haviam abandonado os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar a volta do Seu Filho.
Em 1 Tessalonicenses 1:9-10, lemos:
"Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus a seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura."
Observe que a esperança daqueles cristãos não estava fundamentada nas perseguições que enfrentavam, mas na promessa da vinda do Senhor Jesus.
As perseguições eram uma realidade na vida deles, conforme encontramos em 1 Tessalonicenses 1:6 e 3:3-4. Entretanto, não eram essas dificuldades que determinavam quando Cristo viria.
Eles aguardavam uma Pessoa, o Senhor Jesus Cristo, e não determinados acontecimentos proféticos.
Essa distinção é fundamental.
2. Na primeira epístola, Paulo explicou o arrebatamento da Igreja
Em 1 Tessalonicenses 4:13-18, Paulo apresentou uma revelação especial acerca da vinda do Senhor para buscar os que Lhe pertencem.
Havia entre os tessalonicenses uma preocupação relacionada aos cristãos que já haviam falecido. Eles precisavam compreender o que aconteceria com esses salvos quando o Senhor Jesus viesse.
Paulo explicou:
"Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor." (1 Tessalonicenses 4:16-17).
Observe a expressão utilizada pelo apóstolo: "Nós, os que ficarmos vivos".
Paulo incluiu a si mesmo entre aqueles que poderiam estar vivos quando o Senhor viesse. Isso demonstra que a esperança do arrebatamento era uma realidade presente para os cristãos daquela geração.
Ele não apresentou uma série de acontecimentos que precisariam ocorrer antes desse encontro com Cristo.
O objetivo dessa revelação era trazer consolo e esperança, como confirma o versículo 18:
"Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras."
3. O problema na segunda epístola era diferente
Quando chegamos à segunda epístola, encontramos uma situação que precisava ser corrigida.
Os tessalonicenses estavam enfrentando perseguições e tribulações intensas. Além disso, haviam recebido informações equivocadas relacionadas ao Dia do Senhor.
Paulo escreveu:
"Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto." (2 Tessalonicenses 2:1-2).
É importante observar que algumas traduções apresentam, no versículo 2, a expressão "Dia do Senhor", enquanto outras utilizam "Dia de Cristo". O contexto mostra que Paulo estava tratando da falsa ideia de que aquele período profético de juízo já havia chegado.
Pelo que entendemos do texto, alguns estavam ensinando que os tessalonicenses já se encontravam no período relacionado ao Dia do Senhor.
Como estavam sofrendo perseguições, poderiam pensar que aquelas aflições eram os juízos divinos anunciados nas profecias.
Isso naturalmente produziria inquietação.
Afinal, se já estivessem naquele período de juízo, o que teria acontecido com a promessa de serem livrados da ira futura, mencionada em 1 Tessalonicenses 1:10 e 5:9?
Portanto, Paulo escreveu para corrigir esse erro doutrinário e tranquilizar aqueles cristãos.
4. O arrebatamento e o Dia do Senhor não são a mesma coisa
Aqui encontramos a chave para compreender a questão.
O arrebatamento é o acontecimento no qual o Senhor Jesus virá buscar os salvos que pertencem à Sua Igreja, ressuscitando os que morreram em Cristo e transformando os que estiverem vivos.
Essa verdade é apresentada em 1 Tessalonicenses 4:13-18 e 1 Coríntios 15:51-52.
O Dia do Senhor, por sua vez, está relacionado à intervenção divina em juízo sobre o mundo e ao estabelecimento da autoridade de Cristo.
Nas profecias do Antigo Testamento, encontramos diversas referências a esse Dia, como em Isaías 13:6-11, Joel 2:1-11 e Sofonias 1:14-18.
Em 1 Tessalonicenses 5:2-3, Paulo escreveu:
"Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite. Pois que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição."
Observe a diferença.
No arrebatamento, os salvos serão reunidos com Cristo.
No Dia do Senhor, o mundo incrédulo enfrentará os juízos divinos.
Por isso, em 1 Tessalonicenses 5:9, Paulo declarou:
"Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo."
Na compreensão pré-tribulacional das profecias bíblicas, a Igreja será arrebatada antes do período da grande tribulação. A Igreja não está destinada a experimentar os juízos divinos daquele período.
Isso não significa que os cristãos estejam livres de perseguições neste mundo. O próprio Senhor Jesus declarou em João 16:33 que os Seus discípulos teriam aflições.
Precisamos distinguir as tribulações que os salvos enfrentam neste mundo da futura manifestação da ira divina.
5. Por que Paulo mencionou a apostasia e o homem do pecado?
Em 2 Tessalonicenses 2:3, Paulo escreveu:
"Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição."
Aqui precisamos prestar atenção ao assunto que o apóstolo está desenvolvendo.
Paulo não está dizendo que a Igreja precisa aguardar a manifestação do homem do pecado antes de ser arrebatada.
Ele está explicando que o Dia do Senhor, entendido como aquele período profético de juízo, não poderia ser considerado já presente, pois determinados acontecimentos relacionados a esse período ainda não haviam ocorrido.
A manifestação do homem do pecado está associada aos acontecimentos proféticos posteriores ao arrebatamento, conforme a interpretação pré-tribulacional.
Portanto, não devemos transformar os acontecimentos descritos em 2 Tessalonicenses 2 em condições que a Igreja necessariamente precisa presenciar antes de encontrar o Senhor nos ares.
A esperança da Igreja continua sendo a vinda de Cristo.
Em Tito 2:13, encontramos:
"Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo."
6. Paulo queria que eles permanecessem firmes na verdade
Depois de corrigir os equívocos relacionados ao Dia do Senhor, Paulo escreveu:
"Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa." (2 Tessalonicenses 2:15).
Aqui encontramos outra parte importante da resposta à sua pergunta.
Paulo não estava simplesmente preocupado com a possibilidade de os tessalonicenses esquecerem o arrebatamento.
Ele queria que não fossem enganados por ensinamentos falsos, nem perdessem a tranquilidade diante das perseguições que estavam enfrentando.
A esperança cristã precisava permanecer fundamentada na Palavra de Deus, e não nas circunstâncias ao redor.
Além disso, em 2 Tessalonicenses 1:6-10, Paulo mostrou que Deus faria justiça aos Seus servos perseguidos e que o Senhor Jesus seria revelado do céu em glória e poder.
Aqueles cristãos não precisavam interpretar as perseguições como prova de que já estavam experimentando os juízos do Dia do Senhor.
Deus conhecia os seus sofrimentos e cumpriria todas as Suas promessas.
7. O que aprendemos para os nossos dias?
A situação dos tessalonicenses apresenta uma lição importante para nós.
Muitas pessoas procuram relacionar guerras, perseguições, crises económicas, acontecimentos políticos e catástrofes naturais com a proximidade do arrebatamento.
Entretanto, a esperança da Igreja não depende de identificarmos esses acontecimentos.
A Igreja não recebeu a orientação de aguardar o aparecimento do anticristo, a reconstrução de um templo ou o início da grande tribulação para então esperar o Senhor Jesus.
O próprio Senhor declarou:
"E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós também." (João 14:3).
Essa é a esperança que deve ocupar o coração dos salvos.
É claro que a Bíblia apresenta diversos acontecimentos proféticos relacionados ao futuro de Israel, das nações e do estabelecimento do reino de Cristo. Entretanto, não devemos confundir esses acontecimentos com a promessa feita à Igreja de ser recebida pelo Senhor.
Conclusão
Respondendo diretamente à sua pergunta: não, Paulo não escreveu a segunda epístola simplesmente para que os tessalonicenses não se esquecessem de aguardar o arrebatamento.
Na primeira epístola, ele havia ensinado acerca do arrebatamento, trazendo consolo aos cristãos que estavam preocupados com aqueles que haviam morrido em Cristo.
Na segunda epístola, Paulo precisou corrigir um erro que estava perturbando a igreja: a ideia de que o Dia do Senhor já havia chegado.
Por isso, ele explicou que os acontecimentos relacionados àquele período profético ainda não estavam presentes e encorajou os cristãos a permanecerem firmes nos ensinamentos que haviam recebido.
A diferença é importante: os tessalonicenses não precisavam aguardar o homem do pecado para então esperar Cristo. Precisavam compreender que as perseguições que sofriam não significavam que já estivessem no período dos juízos divinos.
O arrebatamento permanece como a bendita esperança da Igreja, enquanto a manifestação de Cristo em glória está relacionada ao cumprimento dos propósitos divinos de juízo e governo sobre a Terra.
Assim, a nossa esperança não está em escapar das dificuldades comuns à vida cristã, mas em encontrar o Senhor Jesus, que prometeu voltar para receber os Seus.
"Certamente cedo venho. Amém. Ora, vem, Senhor Jesus." (Apocalipse 22:20).
Josué Matos