Áudios

Pesquisar este blog

Divórcio e novo casamento: o que realmente ensinam as Escrituras?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Engraçado, uma coisa que 99% dos ditos pastores das denominações, ditas igrejas, não contam é que a mensagem de Mateus 5:32 e 19:9 foi dada antes da cruz. Depois da cruz, não existe a exceção, provando que PORNEIA é uma exceção relacionada ao contexto judaico, enquanto MOICHEIA continua sendo uma advertência depois da cruz, caso haja um segundo casamento. Eles mentem ao usar a exceção de Mateus como se fosse destinada à Igreja, mas isso não é verdade.

https://youtu.be/h4Ba-g1dKpc?si=wzlbBeetSjmLmcNC

Sim! Mateus está falando de casamento, mas dentro do contexto judaico. O grave é que as denominações, ditas igrejas, estão trocando a exceção PORNEIA por MOICHEIA para tentar justificar o segundo casamento, que Jesus chamou de adultério. João Batista perdeu a cabeça por defender essa verdade.

No contexto judaico, havia duas etapas do casamento. A primeira era o desposório — אירוסין (erusin) —, que constituía um vínculo matrimonial formal. A mulher desposada já estava juridicamente vinculada ao homem, podendo ser chamada de “mulher” (γυνή — gynē), e ele de “marido” (ἀνήρ — anēr), embora ainda não tivessem consumado a união. Depois de coabitar, a mulher tinha que apresentar sinais de virgindade. A segunda etapa era o nissuin — נישואין (nissuin) —, que correspondia à entrada na casa do marido e à consumação da união.

A virgindade da mulher tinha importância jurídica. Deuteronômio 22:13–21 apresenta o caso de um marido que acusa sua mulher de não ser virgem, enquanto os versículos 23–24 falam da “virgem desposada”. Isso ajuda a compreender Mateus 1:18–19, pois Maria estava desposada com José, mas, antes de se ajuntarem, apareceu grávida, e José pensou em repudiá-la.

Por isso, Mateus 5:32 e 19:9 falam de anulação de casamento dentro desse contexto judaico, porque a lei de Deuteronômio 22 exigia a pureza de ambos. Jesus utiliza a palavra porneia (πορνεία), que significa imoralidade sexual. A mulher estava sujeita à pena de morte, e, no caso de moicheia (μοιχεία), adultério, também havia pena de morte. Não se tratava de divórcio. A interpretação que relaciona a exceção PORNEIA à situação sexual irregular durante o desposório é coerente com Deuteronômio 22 e Mateus 1.

Já Marcos 10:11–12 e Lucas 16:18 apresentam MOICHEIA como advertência, e não como exceção. Assim, Marcos e Lucas tratam de um casamento consumado, enquanto Mateus preserva a cláusula específica de PORNEIA (πορνεία), fornicação. Mesmo que fosse MOICHEIA, a pena prevista era a morte, e não o divórcio.

Jesus deu uma ordem imperativa aos casados: “Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6). Deus também ordena: “Se, porém, se separar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido” (1 Coríntios 7:11).

Romanos 7:3 declara: “De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido”.

O novo casamento é explicitamente autorizado para quem ficou viúvo: “Se falecer o marido, está livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

A ordem é, portanto, preservar a aliança, buscar o perdão e a reconciliação, pois Jesus ordenou: “O que Deus ajuntou não o separe o homem”.

Também está escrito: “Se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé”, sendo pior do que o incrédulo (1 Timóteo 5:8).

“Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2 Coríntios 13:8).

E 2 João 1:9 declara: “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus; quem persevera na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho”.

Minha Resposta:

Agradeço pelo comentário e pelas considerações apresentadas. O assunto do divórcio e do novo casamento exige muita seriedade, porque envolve uma instituição estabelecida pelo próprio Deus desde a criação. Concordo com a preocupação central da sua exposição: não podemos utilizar as Escrituras para justificar aquilo que o Senhor Jesus condenou.

Entretanto, considero importante esclarecer alguns aspectos para que a nossa compreensão esteja fundamentada não apenas na distinção entre palavras gregas, mas no conjunto do ensino bíblico.

1. O casamento foi instituído por Deus antes da existência de Israel e da Igreja

Em Gênesis 2:24, lemos:

"Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne."

Este princípio foi estabelecido antes da Lei de Moisés e antes da formação da nação de Israel. Portanto, o casamento não é uma instituição exclusivamente judaica, mas divina e universal.

Quando o Senhor Jesus foi interrogado sobre o divórcio, em Mateus 19:3-9, Ele não fundamentou a Sua resposta nos costumes judaicos, mas retornou ao princípio da criação.

Sua conclusão foi:

"Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem." (Mateus 19:6)

Isso demonstra que o padrão divino para o casamento é uma união permanente entre um homem e uma mulher, e não um contrato que possa ser desfeito conforme a vontade humana.

2. A cláusula de exceção em Mateus e o contexto judaico

A sua observação sobre o contexto judaico merece atenção.

Em Mateus 5:32 e 19:9, encontramos a expressão grega porneia, geralmente traduzida como prostituição, fornicação ou imoralidade sexual.

Já a palavra moicheia refere-se especificamente ao adultério.

Essa distinção é importante, embora seja necessário reconhecer que porneia possui um significado mais amplo e pode abranger diferentes formas de imoralidade sexual, incluindo, em determinados contextos, o adultério. Portanto, a diferença entre as duas palavras, isoladamente, não prova que porneia se refira exclusivamente ao pecado cometido durante o desposório.

Entretanto, existe uma interpretação que considero bastante coerente com o contexto judaico de Mateus: a de que a cláusula de exceção está relacionada à infidelidade descoberta durante o período de desposório.

Mateus 1:18-19 apresenta um exemplo esclarecedor.

Maria estava desposada com José, mas ainda não haviam coabitado. Quando José soube da gravidez, pensou em deixá-la secretamente.

Observe que José já é chamado de marido, embora o casamento ainda não tivesse sido consumado.

Isso demonstra que, na sociedade judaica, o desposório constituía um compromisso matrimonial juridicamente reconhecido, cuja dissolução exigia um procedimento formal.

Essa circunstância ajuda a compreender por que Mateus registra uma cláusula que não aparece em Marcos 10:11-12 nem em Lucas 16:18.

Contudo, devemos distinguir entre uma interpretação coerente e uma afirmação expressamente demonstrada pelo texto. Mateus não declara explicitamente que a exceção se limita ao desposório. Essa conclusão resulta da comparação das passagens e do seu contexto histórico.

Também é importante observar que Deuteronômio 22:13-21 trata de uma acusação feita depois do casamento, e não simplesmente de uma anulação durante o desposório.

Portanto, embora a interpretação apresentada tenha fundamentos que merecem consideração, devemos evitar construir toda a doutrina do casamento exclusivamente sobre essa distinção.

3. O ensino de Cristo permanece válido depois da cruz

Você observou corretamente que as palavras de Mateus 5 e 19 foram pronunciadas antes da morte do Senhor Jesus.

Entretanto, precisamos ter cuidado com a conclusão de que determinado ensino de Cristo deixou de ser aplicável simplesmente porque foi pronunciado antes da cruz.

Nem todos os ensinamentos dados durante o ministério terreno do Senhor pertencem exclusivamente à dispensação da Lei.

O próprio apóstolo Paulo, escrevendo à igreja em Corinto depois da morte e ressurreição de Cristo, confirmou a autoridade do ensino do Senhor sobre o casamento.

Em 1 Coríntios 7:10-11, escreveu:

"Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher."

Essa passagem é particularmente importante.

Paulo não apresentou uma nova possibilidade de casamento para aqueles que se separassem. Pelo contrário, estabeleceu duas alternativas: permanecer sem casar ou buscar a reconciliação.

Portanto, o princípio da permanência do casamento não foi abolido pela cruz, mas reafirmado no ensino apostólico dirigido à Igreja.

4. O novo casamento enquanto o cônjuge vive

Em Romanos 7:2-3, o apóstolo Paulo declara:

"Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido."

O versículo seguinte esclarece que, se ela se unir a outro homem enquanto o marido ainda vive, será chamada adúltera.

Embora Paulo utilize o casamento como ilustração para explicar a relação do crente com a Lei, seu argumento está fundamentado num princípio matrimonial reconhecido.

Em 1 Coríntios 7:39, encontramos novamente:

"A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor."

A passagem apresenta claramente a morte do cônjuge como aquilo que encerra o vínculo matrimonial e permite um novo casamento.

O mesmo princípio aparece em Marcos 10:11-12 e Lucas 16:18, onde o Senhor Jesus associa o divórcio seguido de novo casamento ao adultério.

Assim, entendo que a posição mais segura, considerando o conjunto das Escrituras, é reconhecer a permanência do vínculo matrimonial enquanto ambos os cônjuges vivem.

5. A separação não é a mesma coisa que a dissolução do casamento

Outro aspecto importante é que a Bíblia reconhece a possibilidade de uma separação, embora não a apresente como autorização automática para um novo casamento.

Em 1 Coríntios 7:11, Paulo admite a situação de alguém que se separou, mas determina que permaneça sem casar ou procure reconciliar-se.

Em 1 Coríntios 7:15, o apóstolo considera a situação em que um cônjuge descrente abandona o crente, afirmando que Deus nos chamou para a paz.

Entretanto, essa passagem não declara expressamente que o cônjuge abandonado esteja autorizado a contrair um novo casamento.

A expressão "não está sujeito à servidão" não deve ser automaticamente interpretada como a dissolução do vínculo matrimonial.

Também é necessário reconhecer que existem situações graves, como violência doméstica e ameaças à integridade física, nas quais a separação pode ser necessária para proteger a vida e a segurança das pessoas envolvidas.

A preservação do casamento jamais deve ser utilizada como argumento para obrigar alguém a permanecer exposto à violência. A reconciliação deve envolver arrependimento verdadeiro, segurança e responsabilidade.

6. O exemplo de João Batista

Você também mencionou João Batista, e sua observação tem fundamento bíblico.

Em Marcos 6:17-18, lemos que Herodes havia tomado Herodias, mulher de seu irmão Filipe, e João lhe dizia:

"Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão."

João Batista não modificou a verdade para agradar a Herodes, mesmo sabendo que sua fidelidade poderia trazer consequências.

Entretanto, devemos lembrar que aquele relacionamento envolvia circunstâncias específicas de adultério e de violação da Lei. Por isso, não devemos utilizar o episódio isoladamente para resolver todas as questões relacionadas ao divórcio.

O princípio que permanece é que nenhuma autoridade humana pode transformar em legítimo aquilo que Deus condena.

7. A fidelidade à verdade deve ser acompanhada de graça

Concordo que existe muita confusão no meio religioso sobre o casamento, o divórcio e o novo casamento.

Entretanto, precisamos evitar afirmações generalizadas de que praticamente todos os responsáveis por comunidades religiosas estejam mentindo deliberadamente.

Há uma diferença entre ensinar conscientemente algo contrário às Escrituras e chegar a uma interpretação equivocada de uma passagem difícil.

Isso não significa relativizar a verdade, mas reconhecer que devemos defendê-la com fidelidade, humildade e respeito.

Em 2 Timóteo 2:24-25, Paulo ensina que o servo do Senhor não deve contender, mas ser manso para com todos, apto para ensinar e paciente, instruindo com mansidão aqueles que resistem.

Também precisamos lembrar que o divórcio frequentemente envolve sofrimento profundo, filhos afetados, famílias desfeitas e pessoas que necessitam de orientação espiritual.

A verdade bíblica não deve ser enfraquecida para acomodar o pecado, mas também não deve ser apresentada sem a graça, a misericórdia e a compaixão que caracterizam o Senhor Jesus Cristo.

Conclusão

Portanto, concordo com o ponto principal da sua preocupação: o casamento é uma instituição divina, estabelecida para durar toda a vida, e o divórcio civil não significa necessariamente que o vínculo matrimonial tenha sido desfeito diante de Deus.

Também considero que a interpretação da cláusula de exceção de Mateus como uma referência ao desposório judaico oferece uma explicação coerente para a ausência dessa cláusula nos Evangelhos de Marcos e Lucas.

Contudo, precisamos reconhecer que existem diferentes interpretações dessa passagem entre estudiosos que igualmente defendem a autoridade e a inspiração das Escrituras. A interpretação do desposório não depende simplesmente de afirmar que porneia e moicheia nunca possam abranger o mesmo comportamento, mas de considerar cuidadosamente o contexto em que o Senhor utilizou essas expressões.

O que permanece indiscutível é que o Senhor Jesus condenou a facilidade com que o casamento era desfeito e reafirmou o propósito original de Deus.

Nas instruções dirigidas à Igreja, o apóstolo Paulo ensina que os cônjuges não devem separar-se e que, havendo separação, devem permanecer sem casar ou buscar a reconciliação (1 Coríntios 7:10-11). Também declara expressamente que a morte encerra o vínculo matrimonial, permitindo um novo casamento (1 Coríntios 7:39).

Assim, entendo que não devemos transformar as dificuldades matrimoniais, a infidelidade ou as permissões da legislação civil em justificativas automáticas para um novo casamento enquanto o primeiro cônjuge vive.

Ao mesmo tempo, a fidelidade à Palavra de Deus exige que tratemos aqueles que enfrentam essas situações com verdade, compaixão e responsabilidade.

Afinal, o propósito do ensino bíblico não é simplesmente vencer uma discussão doutrinária, mas conduzir as pessoas à obediência ao Senhor Jesus Cristo.

Como está escrito:

"Se me amais, guardai os meus mandamentos." (João 14:15)

E também:

"Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade." (2 Coríntios 13:8)

Que o Senhor nos conceda sabedoria para defender a verdade das Escrituras sem acrescentar às Suas palavras aquilo que elas não afirmam expressamente.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: