Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Oi, irmão. Sobre o ministério da Palavra, sabemos que é aberto aos irmãos que estão em comunhão. Minha dúvida é: como se dá, na prática, o “falem dois ou três, e os outros julguem”?
Agradeço. Paz seja contigo.
Minha Resposta:
Essa é uma pergunta importante porque Primeira aos Coríntios 14:29 precisa ser entendida dentro do seu contexto e, principalmente, precisamos distinguir aquilo que acontecia na igreja apostólica da aplicação desse princípio às reuniões da igreja local hoje.
Paulo escreveu:
“E falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (Primeira aos Coríntios 14:29).
Primeiramente, o texto não está dizendo simplesmente que qualquer irmão em comunhão poderia levantar-se e falar. O versículo diz especificamente “profetas”. Naquele período inicial da Igreja havia o dom sobrenatural de profecia, pelo qual Deus comunicava revelação antes que o Novo Testamento estivesse completo. Por isso, no versículo seguinte encontramos:
“Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro” (Primeira aos Coríntios 14:30).
Observe a palavra “revelada”. Portanto, estamos diante de uma situação própria daquele período em que havia profetas recebendo revelação divina.
Hoje não temos profetas nesse sentido. A revelação de Deus nas Escrituras está completa, e nossa responsabilidade não é receber novas revelações, mas ensinar, expor e aplicar fielmente aquilo que Deus já revelou em Sua Palavra.
Entretanto, os princípios estabelecidos nesse capítulo continuam extremamente importantes para o ministério da Palavra na igreja local.
O primeiro princípio é a pluralidade do ministério.
Paulo diz: “falem dois ou três”. Isso mostra que o padrão apresentado não é o ministério monopolizado permanentemente por um único homem. Na igreja local existem diferentes dons concedidos pelo Senhor.
“Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (Primeira aos Coríntios 12:7).
Também lemos:
“Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis” (Primeira aos Coríntios 12:18).
Assim, uma igreja não deveria depender espiritualmente de um único homem que ensina todas as semanas como se somente ele tivesse capacidade para ministrar. O Senhor distribui dons entre os membros do Corpo.
Ao mesmo tempo, isso não significa que qualquer irmão, simplesmente porque está em comunhão, necessariamente tenha o dom de ensinar publicamente.
Primeira aos Coríntios 12:29 pergunta:
“São todos mestres?”
A resposta evidente é não.
Portanto, estar em comunhão permite ao irmão participar da vida da igreja, mas não significa automaticamente que possua todos os dons. Um irmão pode ser muito espiritual, fiel e piedoso e, contudo, não possuir capacidade dada por Deus para o ministério público da Palavra.
Na prática, os irmãos vão sendo reconhecidos pelo exercício do dom que receberam do Senhor. Isso não exige uma ordenação humana ou um título eclesiástico, mas também não significa ausência de discernimento por parte da igreja.
O segundo princípio é que “os outros julguem”.
Aqui “julgar” não significa que, depois de cada irmão terminar sua mensagem, alguém precise levantar-se publicamente e dizer se concorda ou não com o que foi falado.
Não é essa a ideia.
Trata-se de discernimento espiritual.
O ministério apresentado à igreja nunca está acima da Palavra de Deus. Tudo aquilo que é ensinado precisa ser avaliado à luz das Escrituras.
Esse mesmo princípio aparece em Primeira aos Tessalonicenses 5:20-21:
“Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem.”
Também encontramos em Primeira João 4:1:
“Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.”
Portanto, enquanto um irmão ministra, os demais irmãos espirituais, especialmente aqueles maduros e experientes na Palavra, estão ouvindo com discernimento.
Eles estão considerando: aquilo que está sendo ensinado está de acordo com as Escrituras? Cristo está sendo exaltado? A passagem foi corretamente aplicada? Há equilíbrio doutrinário? O ministério está edificando a igreja?
Esse julgamento normalmente acontece silenciosamente durante o ministério.
Se aquilo que foi ensinado está correto, a igreja recebe e é edificada.
Se surgir algum pequeno equívoco, talvez seja suficiente conversar posteriormente com o irmão.
Se, porém, alguém ensinar algo doutrinariamente grave ou contrário às Escrituras, os irmãos responsáveis pela igreja não devem simplesmente permitir que o erro continue sendo ensinado.
É justamente aqui que entra a responsabilidade dos presbíteros.
Em Atos dos Apóstolos 20:28, Paulo diz:
“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus.”
E Tito 1:9 diz que o presbítero deve ser:
“Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes.”
Portanto, existe liberdade no ministério, mas liberdade não significa ausência de governo espiritual.
O Espírito Santo dirige a reunião, mas os presbíteros têm responsabilidade diante de Deus pela doutrina e pelo cuidado do rebanho.
Outro princípio importante aparece no versículo 30:
“Cale-se o primeiro.”
Isso ensina consideração pelos outros irmãos.
Um irmão não deveria ocupar todo o tempo disponível simplesmente porque começou a falar. Se há outros irmãos capazes de contribuir para a edificação, deve existir sensibilidade para lhes dar oportunidade.
Paulo continua:
“Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros, para que todos aprendam e todos sejam consolados” (Primeira aos Coríntios 14:31).
Observe: “uns depois dos outros”.
Não há competição.
Não há dois falando simultaneamente.
Não há disputa pelo púlpito.
Não há necessidade de um irmão mostrar que sabe mais que outro.
O objetivo é muito simples:
“Para que todos aprendam e todos sejam consolados.”
Esse é o grande teste do ministério: a edificação da igreja.
Primeira aos Coríntios 14:26 estabelece o princípio:
“Faça-se tudo para edificação.”
Além disso, Paulo acrescenta uma declaração extremamente importante:
“E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (Primeira aos Coríntios 14:32).
Isso significa que ninguém pode justificar desordem dizendo: “O Espírito Santo me obrigou a falar”.
O Espírito Santo nunca conduz alguém de maneira contrária à ordem que Ele próprio estabeleceu nas Escrituras.
O irmão mantém domínio próprio. Ele pode começar, terminar, resumir sua mensagem e dar lugar a outro irmão.
Por isso Paulo conclui:
“Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (Primeira aos Coríntios 14:33).
E finalmente:
“Mas faça-se tudo decentemente e com ordem” (Primeira aos Coríntios 14:40).
Então, trazendo isso diretamente para a prática de uma igreja local hoje: não reproduzimos exatamente Primeira aos Coríntios 14:29 como se ainda houvesse profetas recebendo novas revelações. O que permanece é o princípio espiritual. O ministério não deve ser monopolizado por um homem; os irmãos que possuem dom para ensinar devem ter oportunidade de exercê-lo; ninguém deve dominar a reunião; tudo deve ocorrer com ordem e consideração mútua; e aquilo que é ministrado deve ser continuamente examinado à luz das Escrituras.
Portanto, “os outros julguem” não significa criar uma espécie de debate público depois de cada mensagem. Significa que nenhum ministério é recebido cegamente. A Palavra de Deus é a autoridade final, e os irmãos espiritualmente maduros, especialmente aqueles que cuidam do rebanho, têm responsabilidade de discernir aquilo que está sendo ensinado.
Há, portanto, uma diferença importante entre “ministério aberto” e “ministério sem ordem”. O primeiro é bíblico; o segundo não é. A liberdade do Espírito Santo nunca elimina o discernimento, o exercício dos dons, a responsabilidade dos presbíteros nem a ordem da casa de Deus.
Josué Matos
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