Alguém que me escreveu no YouTube:
Os muçulmanos têm um plano para tornar a América uma nação muçulmana.
Os marxistas têm um plano para tornar a América uma nação marxista.
Os progressistas seculares têm um plano para tornar a América uma nação progressista secular.
Os cristãos parecem sempre ter um plano para impedir que o cristianismo continue influenciando nossa nação, discipulando as pessoas para a apatia política (“Não nos metemos com política”) ou para a ambiguidade política (“Jesus não é republicano nem democrata, nem de direita nem de esquerda” = aplicação primária do evangelho à cultura). Isso tem gerado resultados muito previsíveis nas últimas décadas.
Minha Resposta:
Compreendo a preocupação expressa nesse comentário, especialmente quando observamos mudanças morais profundas acontecendo na sociedade. Entretanto, para responder biblicamente, precisamos distinguir duas questões que muitas vezes são misturadas: a responsabilidade moral do cristão no mundo e o envolvimento do cristão na política partidária.
A Bíblia certamente não ensina que o cristão deve ser indiferente ao mal. Também não ensina que devemos assistir silenciosamente à injustiça, à imoralidade e à corrupção moral como se nada disso importasse. O Senhor Jesus disse:
“Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13).
E também:
“Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14).
Portanto, o cristão deve exercer influência. A grande questão é: que tipo de influência?
O Novo Testamento apresenta essa influência principalmente por meio do Evangelho, de uma vida santa, das boas obras, da verdade e do testemunho de Cristo, e não por meio da conquista do poder político.
O Senhor Jesus viveu em um ambiente profundamente político
Quando o Senhor Jesus esteve neste mundo, Israel encontrava-se sob domínio romano. Havia corrupção, injustiça, impostos, opressão e profundas tensões políticas.
Se alguma geração poderia esperar que o Messias organizasse um movimento político, seria aquela.
Contudo, quando quiseram fazê-Lo rei, Ele retirou-Se:
“Sabendo, pois, Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte” (João 6:15).
Mais tarde, diante de Pôncio Pilatos, declarou claramente:
“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos” (João 18:36).
Observe cuidadosamente. O Senhor não disse que não possuía um reino. Ele disse que Seu reino não tinha sua origem neste mundo.
Cristo realmente reinará sobre este mundo. As profecias anunciam um reino literal, justo e glorioso do Messias. Porém, esse reino não será estabelecido por eleições, partidos políticos ou movimentos sociais. Será estabelecido pelo próprio Senhor Jesus Cristo em Sua manifestação gloriosa.
Os apóstolos também viveram sob governos profundamente imorais
Quando Paulo escreveu aos Romanos, quem governava o Império Romano não era um governante cristão. Mesmo assim, Paulo não ensinou os cristãos a formar um movimento para conquistar Roma politicamente.
Ele escreveu:
“Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus” (Romanos 13:1).
Pedro ensinou de maneira semelhante:
“Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor” (1 Pedro 2:13).
Isso não significa obediência absoluta ao Estado. Quando a autoridade humana exige aquilo que contradiz diretamente a Palavra de Deus, permanece o princípio:
“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).
Portanto, o cristão respeita as autoridades, cumpre as leis, paga seus impostos, vive honestamente e procura ser um cidadão exemplar. Entretanto, sua fidelidade suprema pertence a Cristo.
A Bíblia manda o cristão orar pelos governantes
Há algo particularmente importante em 1 Timóteo 2:1-2:
“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade.”
Paulo poderia ter instruído os cristãos sobre como conquistar influência dentro do governo romano. Em vez disso, ensinou-os a orar por aqueles que governavam.
Isso não é apatia.
Orar pelos governantes é reconhecer que acima de presidentes, reis, parlamentos, congressos e tribunais existe um Deus soberano.
Daniel declarou:
“O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer” (Daniel 4:25).
Provérbios também declara:
“Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina” (Provérbios 21:1).
A confiança final do cristão, portanto, não está na urna eleitoral, mas no trono de Deus.
“Não nos envolvemos em política” não significa “não nos importamos com a sociedade”
Aqui está uma distinção muito importante.
Um cristão pode denunciar biblicamente o aborto sem transformar o púlpito em plataforma eleitoral.
Pode defender o casamento conforme estabelecido por Deus em Gênesis 2:24 e confirmado pelo Senhor Jesus em Mateus 19:4-6 sem pertencer a um partido político.
Pode ensinar a verdade sobre sexualidade, família, criação, justiça, honestidade, autoridade e responsabilidade individual sem identificar o Evangelho com a direita ou com a esquerda.
Pode ajudar pobres, necessitados, viúvas, órfãos, estrangeiros e pessoas marginalizadas sem aderir a uma ideologia política.
Pode condenar racismo, violência, corrupção, imoralidade e injustiça porque a Palavra de Deus os condena.
Portanto, separação da política partidária não significa indiferença moral.
Pelo contrário, significa que nossa autoridade para definir o certo e o errado não vem de um partido, mas da Palavra de Deus.
O cristianismo não precisa transformar uma nação em “nação cristã” para cumprir sua missão
Aqui talvez esteja o ponto fundamental.
A Grande Comissão não diz:
“Ide e conquistai os governos das nações.”
O Senhor Jesus disse:
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19).
E:
“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).
Em Atos dos Apóstolos 1:8, encontramos novamente:
“Ser-me-eis testemunhas.”
O objetivo é alcançar pessoas de todas as nações, não transformar cada nação numa versão política do cristianismo.
Há uma diferença enorme entre uma nação composta majoritariamente por pessoas influenciadas historicamente pelo cristianismo e o Reino de Deus.
Nenhum país moderno deve ser identificado com o Reino de Deus.
A Igreja também não substituiu Israel como uma nova nação político-territorial destinada a governar o mundo nesta dispensação.
A Igreja é um povo chamado para fora das nações e unido a Cristo.
A verdadeira transformação começa no coração
Suponhamos que amanhã todas as leis de uma determinada nação fossem substituídas por leis moralmente excelentes. Isso transformaria pecadores em filhos de Deus?
Não.
Uma lei pode restringir determinadas manifestações do pecado, e isso certamente pode trazer benefícios sociais. Mas nenhuma legislação consegue produzir o novo nascimento.
O Senhor Jesus disse:
“Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7).
O problema fundamental do homem não é político. É espiritual.
Cristo ensinou:
“Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura” (Marcos 7:21-22).
Portanto, trocar governantes sem transformar corações nunca resolverá o problema fundamental da humanidade.
O Evangelho trabalha exatamente onde a política não consegue chegar: no coração.
O cristianismo primitivo transformou sociedades sem possuir poder político
Este é um fato impressionante no livro de Atos dos Apóstolos.
Os primeiros cristãos não tinham presidentes, deputados, senadores, governadores ou partidos políticos cristãos. Humanamente falando, não tinham poder.
Mas tinham o Evangelho.
Em Tessalônica, seus adversários disseram:
“Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui” (Atos dos Apóstolos 17:6).
Como fizeram isso?
Pregando Cristo.
Vivendo vidas transformadas.
Formando igrejas locais.
Ensinando a Palavra.
Evangelizando.
Fazendo discípulos.
O cristianismo não conquistou inicialmente o mundo tomando o palácio de César; conquistou corações anunciando um Salvador crucificado e ressuscitado.
“Jesus não é republicano nem democrata” é uma afirmação verdadeira, embora possa ser mal utilizada
A frase pode ser usada como desculpa para evitar questões morais difíceis. Nesse caso, seu uso é inadequado.
Mas a afirmação em si contém uma verdade importante: Jesus Cristo não pode ser colocado dentro de nenhuma plataforma política humana.
Nenhum partido pode dizer legitimamente: “Cristo pertence a nós.”
É melhor inverter a pergunta.
Não devemos perguntar: “Jesus está do lado da direita ou da esquerda?”
Devemos perguntar: “Eu estou do lado da verdade revelada por Deus?”
Em determinados assuntos, uma proposta política pode coincidir com princípios bíblicos. Em outros, poderá contradizê-los profundamente.
O cristão não deve modificar a Bíblia para ajustá-la ao seu partido preferido. Deve julgar todas as ideias humanas pela Palavra de Deus.
Nossa cidadania principal está nos céus
Paulo escreveu:
“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).
A palavra usada transmite a ideia de cidadania ou comunidade política. O cristão vive neste mundo, mas pertence a outro.
Pedro emprega linguagem semelhante:
“Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros” (1 Pedro 2:11).
Isso explica por que o cristão não pode depositar sua esperança definitiva em projetos nacionais.
Os Estados Unidos passarão.
O Brasil passará.
Portugal passará.
Todos os impérios, repúblicas e sistemas políticos humanos passarão.
Mas o Reino de Cristo permanecerá.
Daniel profetizou:
“O Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído” (Daniel 2:44).
Isso significa que devemos permanecer silenciosos diante do pecado?
De maneira alguma.
João Batista repreendeu Herodes:
“Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão” (Marcos 6:18).
Ele não precisou tornar-se político para dizer ao governante que estava errado.
Paulo pregou diante de Félix “da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro”, a ponto de Félix ficar atemorizado (Atos dos Apóstolos 24:25).
Os cristãos devem falar.
Devemos anunciar a verdade.
Devemos defender aquilo que Deus chama de certo.
Devemos denunciar aquilo que Deus chama de pecado.
Mas há uma diferença entre falar profeticamente à sociedade e tornar a Igreja instrumento de um projeto partidário.
Quando a Igreja se identifica com um partido, inevitavelmente passa a carregar também os erros daquele partido.
Quando permanece identificada com Cristo, pode confrontar todos eles.
A maior influência cristã sobre uma sociedade continua sendo espiritual
Imagine milhares de pessoas verdadeiramente convertidas a Cristo.
Maridos amando suas esposas conforme Efésios 5:25.
Esposas vivendo piedosamente.
Pais criando seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor, conforme Efésios 6:4.
Trabalhadores honestos.
Empresários honestos.
Jovens vivendo em pureza.
Cristãos ajudando necessitados.
Famílias restauradas.
Pessoas abandonando drogas, prostituição, mentira, corrupção e violência.
Igrejas pregando fielmente a Palavra de Deus.
Isso teria enorme influência social.
Mas seria consequência do Evangelho transformando pessoas, e não da Igreja conquistando o Estado.
O cristão é sal e luz justamente porque é diferente do sistema que procura iluminar.
Cristo ainda governará este mundo
Finalmente, o cristão não é pessimista quanto ao futuro de Cristo.
O mundo não terminará nas mãos dos marxistas, dos progressistas, dos muçulmanos, dos conservadores, dos republicanos ou dos democratas.
Terminará sob a autoridade de Jesus Cristo.
Apocalipse 11:15 declara:
“Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre.”
E Apocalipse 19:16 apresenta o Senhor Jesus como:
“REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES.”
Então haverá um governo perfeitamente justo.
Não haverá corrupção.
Não haverá fraude eleitoral.
Não haverá interesses partidários.
Não haverá lobby.
Não haverá injustiça legislativa.
Não haverá governante pecador ocupando o trono.
Isaías 9:6 declara:
“E o principado está sobre os seus ombros.”
O mundo ainda conhecerá o governo perfeito, mas somente quando conhecer o governo direto do Rei perfeito.
Conclusão
Portanto, eu não diria que o cristão que se mantém separado da política partidária está necessariamente promovendo “apatia política”.
A questão é outra.
O cristão foi chamado para uma missão superior: representar Cristo num mundo que O rejeitou.
Isso não significa fechar os olhos para a sociedade. Significa exercer influência segundo os meios que Deus estabeleceu: oração, Evangelho, santidade, boas obras, testemunho, verdade, amor ao próximo e fidelidade às Escrituras.
Podemos lamentar quando uma sociedade abandona princípios bíblicos. Podemos ensinar claramente contra o pecado. Podemos defender a verdade. Podemos aproveitar as liberdades civis que Deus nos concede. Devemos obedecer às autoridades enquanto elas não nos obrigarem a desobedecer a Deus.
Mas nunca devemos confundir o avanço do Evangelho com a vitória de um partido político.
Paulo não disse: “Nossa esperança está em Roma.”
Ele disse:
“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).
É possível conquistar uma eleição e perder uma geração para Cristo.
Também é possível viver sob um governo hostil e ver o Evangelho avançar poderosamente, como aconteceu no primeiro século.
Nossa esperança não é que os cristãos consigam finalmente controlar os governos deste mundo.
Nossa esperança é uma Pessoa:
“aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tito 2:13).
A Igreja não recebeu a missão de preparar o trono para Cristo mediante política. Cristo estabelecerá Seu próprio trono quando vier.
Até lá, nossa responsabilidade permanece clara:
“Pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).
Josué Matos