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Irmão Josué, criar uma linha divisória entre ‘nós e eles’ é sectarismo

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão Josué, criar uma linha divisória entre ‘nós e eles’ é sectarismo. Todas as seitas cristãs fazem isso. Eu não pretendo mais comentar nas suas postagens; será uma perda de tempo.

Gastei mais de 30 anos de ministério combatendo um inimigo chamado ‘denominacionalismo’. Esse inimigo não existe. Nossos irmãos que não fazem parte da nossa ‘tradição’ são amados do Senhor. É muita arrogância achar que somos melhores que eles porque não usamos isso ou aquilo. Nossa responsabilidade é cuidar do rebanho que o Senhor nos confiou, com fidelidade, e aguardar o Tribunal de Cristo.

Grande abraço, irmão.

Minha resposta:

Agradeço pela sinceridade e respeito a sua decisão de não continuar a discussão. Entretanto, gostaria de esclarecer uma questão fundamental, porque me parece que estamos atribuindo sentidos diferentes às mesmas palavras.

Eu concordo plenamente quando afirma que os verdadeiros salvos que estão em diferentes denominações são amados do Senhor. Nunca afirmei que somos melhores do que eles. Muito menos afirmaria que somente aqueles que se reúnem como nós são salvos. Tal pensamento seria contrário à Palavra de Deus.

A salvação não depende de alguém pertencer a uma determinada igreja local, denominação ou grupo. Somos salvos exclusivamente pela graça de Deus, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8).

Portanto, há irmãos verdadeiramente salvos em diferentes lugares. Eles pertencem ao mesmo Corpo de Cristo ao qual eu pertenço. Se nasceram de novo e possuem o Espírito Santo, são meus irmãos em Cristo.

Mas é exatamente aqui que precisamos fazer uma distinção importante: uma coisa é a posição de um crente no Corpo de Cristo; outra coisa é a maneira como esse crente deve reunir-se e servir ao Senhor numa igreja local.

Efésios 4 não ensina que, porque existe um só Corpo, todas as formas de organização eclesiástica passam a ser igualmente bíblicas.

Muito pelo contrário.

Paulo diz:

“Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Efésios 4:3-6).

Observe cuidadosamente: Paulo não manda criar a unidade. Ela já existe. Ele manda guardá-la.

Quem criou essa unidade foi o Espírito Santo.

A pergunta, portanto, é esta: como devemos expressar visivelmente essa unidade que Deus já criou?

É justamente aqui que surge a dificuldade com o denominacionalismo.

Quando os coríntios começaram a identificar-se com determinados homens, Paulo não considerou isso uma diferença insignificante. Alguns diziam:

“Eu sou de Paulo.”

Outros:

“Eu, de Apolo.”

Outros:

“Eu, de Cefas.”

E outros:

“Eu, de Cristo.”

Qual foi a resposta de Paulo?

“Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).

Essa pergunta é extremamente importante.

Paulo não disse: “Não há problema, pois todos creem no mesmo Evangelho”.

Ele perguntou: “Está Cristo dividido?”

Por quê?

Porque estavam criando dentro do povo de Deus identidades que não deveriam existir.

O problema não era Paulo. Paulo era um excelente servo de Deus.

O problema não era Apolo. Apolo era “poderoso nas Escrituras” (Atos dos Apóstolos 18:24).

O problema não era Cefas.

O problema era transformar servos de Deus em centros de identificação entre os santos.

Por isso Paulo escreve:

“Que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10).

Então precisamos perguntar: se dizer “eu sou de Paulo” era errado no primeiro século, por qual princípio bíblico passaria a ser correto identificar os cristãos posteriormente pelos nomes de homens, movimentos, doutrinas particulares ou sistemas religiosos?

Não estou julgando os irmãos que se encontram nesses sistemas. Estou examinando o sistema à luz das Escrituras.

Essa distinção é essencial.

Posso amar profundamente um irmão batista sem acreditar que “Batista” seja uma identidade dada pela Bíblia à Igreja.

Posso amar um irmão presbiteriano sem encontrar no Novo Testamento autorização para dividir os cristãos entre presbiterianos e outros grupos.

Posso reconhecer como irmão alguém pertencente a uma igreja pentecostal sem, por isso, precisar aceitar todas as suas doutrinas e práticas.

Amar o irmão não significa necessariamente aprovar o sistema religioso ao qual ele pertence.

Da mesma maneira, reconhecer que alguém pertence ao Corpo de Cristo não significa que devemos necessariamente participar de tudo aquilo que ele pratica.

Esse princípio aparece claramente em toda a Escritura.

O próprio apóstolo Paulo, que ensinou tão fortemente a unidade do Corpo, também escreveu:

“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles” (Romanos 16:17).

Veja como é interessante: o mesmo Paulo que diz “há um só Corpo” também diz “desviai-vos deles”.

Logo, unidade bíblica e separação bíblica não são contraditórias.

Existe uma separação que nasce do orgulho, e essa é pecaminosa. Mas existe também uma separação que nasce da obediência à Palavra de Deus.

Paulo escreveu ainda:

“Todavia, o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19).

Portanto, o argumento “não devemos estabelecer nenhuma linha de separação” precisa ser qualificado. A própria Escritura estabelece linhas de separação.

Em 2 João 9-11, por exemplo, há separação por causa de doutrina acerca de Cristo.

Em 1 Coríntios 5, há separação por causa de pecado moral.

Em Romanos 16:17, há separação daqueles que causam divisões contrárias à doutrina apostólica.

Em 2 Timóteo 2:19-22, há o princípio de afastar-se daquilo que desonra o Senhor e seguir “a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor”.

Portanto, não podemos transformar “unidade” em comunhão sem critérios.

Há ainda outro ponto da mensagem do irmão que merece consideração. O irmão diz que certas questões seriam apenas “liturgia, usos e costumes” e que não deveriam causar separação.

Concordo que existem questões secundárias e diferenças pessoais que nunca deveriam dividir os santos. Romanos 14 trata justamente de diferenças dessa natureza.

Mas nem tudo o que acontece numa igreja local pode ser colocado na categoria de “usos e costumes”.

Por exemplo: quem governa a igreja local? Isso é apenas costume?

Como são reconhecidos os anciãos? É apenas costume?

Quem exerce publicamente o ministério da Palavra? É apenas tradição?

A Ceia do Senhor é apenas questão litúrgica?

A disciplina da igreja é apenas costume?

O sacerdócio de todos os crentes é apenas uma preferência histórica?

A autoridade da Palavra de Deus sobre as reuniões da igreja é apenas uma tradição surgida no século XIX?

Não podemos reduzir aquilo que os apóstolos ensinaram acerca da igreja local à categoria de “liturgia”.

Paulo escreveu:

“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinem outra doutrina” (1 Timóteo 1:3).

E também:

“Estas coisas te escrevo, esperando ir ver-te bem depressa; mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:14-15).

Observe a expressão: “como convém andar na casa de Deus”.

Isso mostra que Deus não deixou a organização e o funcionamento da igreja local inteiramente entregues à criatividade humana.

Existe uma ordem.

Existe doutrina.

Existem princípios.

Existe autoridade apostólica registrada nas Escrituras.

Por isso, quando procuramos reunir-nos somente ao nome do Senhor Jesus, a questão não deve ser: “Somos melhores que os outros?”

De maneira nenhuma.

A pergunta correta é: “O que está escrito?”

O Senhor Jesus disse:

“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20).

O centro é Cristo.

Não um movimento.

Não um fundador.

Não uma tradição histórica.

Não “os irmãos”.

Não uma denominação.

Cristo.

E aqui concordo com uma preocupação do irmão: se alguém disser “eu sou dos irmãos” com o mesmo espírito partidário com que outro diz “eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo” ou “eu sou de determinada denominação”, caiu exatamente no erro condenado em 1 Coríntios 1.

Não usar placa não torna ninguém automaticamente bíblico.

Não possuir um nome denominacional também não torna uma igreja automaticamente fiel.

Podemos rejeitar todos os nomes denominacionais e, ainda assim, desenvolver orgulho sectário.

Podemos dizer que nos reunimos somente ao nome do Senhor e, na prática, agir como se o nosso círculo fosse o Corpo de Cristo inteiro.

Isso também estaria errado.

Mas o abuso de uma verdade não anula a verdade.

Se alguns transformaram a posição não denominacional numa espécie de “denominação sem nome”, devemos corrigir esse espírito, não abandonar o princípio bíblico.

Jamais deveríamos dizer: “Nós somos o Corpo de Cristo”.

Devemos dizer: “Somos parte do Corpo de Cristo”.

Jamais deveríamos pensar: “Somente entre nós existem verdadeiros cristãos”.

Devemos reconhecer cada verdadeiro filho de Deus como membro do Corpo de Cristo.

Mas, ao mesmo tempo, devemos perguntar individualmente: “Senhor, como Tu queres que eu me reúna?”

Sobre a questão histórica, também precisamos ter cuidado. Nossa autoridade não vem de uma suposta sucessão histórica desde os apóstolos.

Eu não preciso provar que uma determinada congregação possui uma cadeia histórica ininterrupta desde o primeiro século para obedecer hoje ao Novo Testamento.

Imagine que durante séculos ninguém praticasse determinada verdade bíblica. Se amanhã alguém abrir a Bíblia, encontrar aquela verdade e obedecer-lhe, ela não passa a ser uma doutrina nova.

A sua autoridade não começa amanhã.

Sua autoridade estava nas Escrituras desde o princípio.

Portanto, a pergunta fundamental não é: “Em que século começou o movimento dos irmãos?”

A pergunta é: “Esses princípios estão ou não estão no Novo Testamento?”

Atos dos Apóstolos 2:42 diz:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.”

Isso não foi escrito no século XIX.

Atos dos Apóstolos 20:7 mostra os discípulos reunidos no primeiro dia da semana para partir o pão.

Isso não começou no século XIX.

Filipenses 1:1 menciona “bispos e diáconos”, mostrando a liderança local.

Isso não surgiu no século XIX.

1 Pedro 2:5 ensina o sacerdócio dos crentes.

Isso não começou no século XVI nem no século XIX.

1 Coríntios 14 apresenta o exercício dos dons na reunião da igreja.

Isso não foi inventado por qualquer movimento moderno.

Mateus 18:20 apresenta Cristo como centro da reunião dos Seus.

Portanto, não estamos obrigados a defender um movimento histórico. Estamos obrigados a perguntar se aquilo que fazemos encontra fundamento na Palavra de Deus.

Quanto ao crescimento numérico, precisamos ter ainda mais cautela.

Uma igreja diminuir numericamente não prova que sua doutrina esteja errada, assim como uma igreja crescer numericamente não prova que sua doutrina esteja certa.

Se números fossem o critério da verdade, muitas religiões falsas teriam de ser consideradas verdadeiras.

O Senhor Jesus disse à igreja em Filadélfia:

“Tendo pouca força, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8).

Pouca força, mas fidelidade.

Isso não significa que devemos ficar indiferentes à evangelização. Muito pelo contrário. Precisamos evangelizar mais, alcançar os jovens, utilizar todos os meios legítimos disponíveis e levar o Evangelho onde as pessoas estão.

Paulo dizia:

“Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1 Coríntios 9:22).

Podemos mudar métodos.

Podemos usar internet, vídeos, redes sociais, aplicativos, transmissões e outros meios que Paulo jamais conheceu.

Podemos mudar a maneira de comunicar sem mudar a mensagem.

Mas nunca devemos alterar princípios da Palavra de Deus simplesmente porque determinado modelo parece produzir melhores resultados numéricos.

Finalmente, irmão, quero deixar muito claro: não tenho qualquer dificuldade em chamá-lo de irmão em Cristo, nem considero inferiores os verdadeiros crentes que estão nas denominações.

Há muitos irmãos piedosos, dedicados e espirituais nesses lugares, alguns dos quais talvez tenham uma vida cristã muito mais consagrada do que a minha.

A questão não é “quem é melhor?”

Essa pergunta nem deveria existir entre nós.

A questão é: “O que ensinam as Escrituras?”

Também não estou defendendo a separação por preferências pessoais, gostos, costumes culturais ou orgulho religioso. Devemos lutar contra esse espírito.

Mas também não podemos chamar toda separação de sectarismo, porque a própria Palavra de Deus ordena separação em determinadas circunstâncias.

O equilíbrio bíblico é este:

“Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3).

E, ao mesmo tempo:

“Qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19).

Unidade sem verdade torna-se ecumenismo.

Separação sem amor torna-se sectarismo.

O caminho bíblico é guardar a verdade em amor:

“Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:15).

Portanto, irmão, não quero levantar uma barreira entre “nós” e “eles”. Quero reconhecer como irmão todo aquele que verdadeiramente pertence a Cristo.

Entretanto, reconhecer todos os salvos como meus irmãos não me dá liberdade para tratar como indiferente aquilo que a Palavra de Deus ensina acerca da igreja local.

A minha responsabilidade não é provar que “meu grupo” está certo.

Minha responsabilidade é abrir as Escrituras e perguntar:

“Senhor, o que queres que eu faça?”

Se descobrirmos que alguma coisa que praticamos não está de acordo com a Palavra de Deus, devemos abandoná-la, ainda que nossos pais e avós a tenham praticado.

E, se descobrirmos que determinada verdade está claramente ensinada na Palavra, devemos obedecê-la, ainda que sejamos poucos.

Não se trata de sermos melhores do que nossos irmãos.

Trata-se simplesmente de reconhecermos que Cristo é Senhor, inclusive da Sua igreja.

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja” (Colossenses 1:18).

Se Ele é a Cabeça, cabe a nós obedecer.

Grande abraço, irmão. Que possamos continuar amando sinceramente todos os que pertencem ao Senhor Jesus, sem sacrificar a verdade e sem permitir que a defesa da verdade nos faça perder o amor pelos nossos irmãos.

Josué Matos

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