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Somos obrigado a escolher um candidato?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Mais importa obedecer a Deus do que aos homens (Atos dos Apóstolos 5:29). Porém, votar não afronta, por si só, a fé cristã. Enquanto vivemos neste mundo, somos peregrinos e embaixadores de Cristo, mas também devemos respeitar as autoridades e cumprir legitimamente as obrigações civis, conforme Romanos 13:1-7.

No Brasil, o art. 14, § 1º, da Constituição determina que o alistamento eleitoral e o voto são obrigatórios para maiores de 18 anos e facultativos para analfabetos, maiores de 70 anos e maiores de 16 e menores de 18 anos.

Portanto, para quem está sujeito à obrigatoriedade constitucional, votar é uma responsabilidade civil. Isso não significa colocar a confiança no homem ou abandonar a fé, pois a nossa esperança continua estando em Cristo. A obediência ao Estado, porém, encontra seu limite quando uma exigência humana contrariar diretamente aquilo que Deus ordena.

Minha Resposta:

Concordo que o princípio de Atos dos Apóstolos 5:29 deve ser considerado juntamente com Romanos 13:1-7. Entretanto, há uma distinção importante que precisamos fazer: uma coisa é a nossa obrigação de submissão às autoridades civis; outra coisa é participar da escolha daqueles que governarão este mundo.

Romanos 13 não diz que o cristão deve escolher os governantes. O texto ensina que devemos estar sujeitos às autoridades constituídas:

“Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Romanos 13:1).

Portanto, a responsabilidade apresentada ao cristão é de sujeição, não de participação política. O mesmo princípio aparece em 1 Pedro 2:13-14:

“Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores e para louvor dos que fazem o bem.”

Também encontramos em Tito 3:1:

“Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam e estejam preparados para toda boa obra.”

Observe a consistência do ensino do Novo Testamento. O cristão deve respeitar as autoridades, obedecer às leis, pagar os seus impostos e cumprir suas responsabilidades civis. Entretanto, isso não significa necessariamente envolver-se na escolha política dos governantes.

Há ainda outro detalhe importante no caso brasileiro. A lei estabelece a obrigatoriedade eleitoral para determinadas pessoas e, portanto, o cristão deve respeitar essa determinação. Porém, ninguém é obrigado a escolher um candidato. O eleitor pode comparecer às urnas e votar em branco ou anular o seu voto. Assim, ele cumpre a obrigação civil sem necessariamente participar da escolha entre os candidatos apresentados.

Isso resolve justamente a aparente dificuldade entre submissão ao Estado e separação política.

O Estado pode exigir de mim o cumprimento de uma obrigação civil, e devo obedecer enquanto isso não contrariar a Palavra de Deus. Mas o Estado não pode obrigar minha consciência a depositar confiança ou apoio em determinado candidato.

Além disso, a posição do cristão neste mundo precisa ser considerada. Paulo escreveu:

“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

A palavra utilizada por Paulo envolve a ideia de cidadania. O cristão possui responsabilidades terrenas, mas sua verdadeira cidadania e esperança são celestiais. Isso concorda com as palavras do próprio Senhor Jesus:

“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

Também somos chamados de “embaixadores da parte de Cristo” (2 Coríntios 5:20). Um embaixador vive num país que não é o seu, respeita suas autoridades e suas leis, mas representa os interesses de outra pátria. Espiritualmente, essa figura ajuda a compreender a posição do cristão neste mundo.

Isso também explica por que, quando o Novo Testamento trata da relação do cristão com os governantes, a ênfase não está em escolher governantes, mas em orar por eles:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Timóteo 2:1-2).

Esse é um princípio muito significativo. A influência que Deus apresenta diretamente ao cristão em relação aos governantes é a oração. Devemos orar para que Deus governe sobre as circunstâncias e permita condições nas quais possamos viver em piedade, anunciar o Evangelho e servir ao Senhor em paz.

Daniel já havia aprendido que, por detrás dos acontecimentos políticos deste mundo, existe a soberania de Deus:

“Até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Daniel 4:25).

Por isso, a nossa confiança não deve estar no candidato A ou B, na direita ou na esquerda, neste ou naquele partido. Nossa confiança está no Senhor.

Isso não significa rebeldia contra o governo. Muito pelo contrário. O cristão deve procurar ser um cidadão exemplar. Deve obedecer às leis, pagar os seus impostos, respeitar as autoridades e não participar de desordem ou insubordinação. O Senhor Jesus mesmo disse:

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Aqui encontramos um equilíbrio maravilhoso. Existe aquilo que pertence a César e existe aquilo que pertence a Deus. Ao governo damos aquilo que legitimamente lhe pertence; mas nossa consciência, nossa fidelidade e nossa esperança pertencem ao Senhor.

Somente quando o Estado exige aquilo que Deus proíbe, ou proíbe aquilo que Deus ordena, chegamos ao limite estabelecido em Atos dos Apóstolos 5:29:

“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.”

Foi exatamente isso que aconteceu com os apóstolos. Eles não estavam promovendo uma revolta contra o governo. As autoridades ordenaram que deixassem de anunciar o Senhor Jesus, e isso entrava diretamente em conflito com a ordem que haviam recebido de Deus. Nesse ponto, obedecer aos homens significaria desobedecer a Deus.

Portanto, eu faria esta distinção: cumprir a legislação eleitoral é uma responsabilidade civil; escolher e apoiar um candidato é outra questão. No Brasil, embora exista a obrigatoriedade do voto para determinadas pessoas, isso não significa que o cidadão seja obrigado a dar seu voto a um candidato. Há a possibilidade do voto em branco ou nulo.

Assim, não vejo contradição entre respeitar a obrigação estabelecida pelo Estado e, ao mesmo tempo, manter-se separado das disputas políticas e partidárias deste mundo.

Nossa missão principal não é transformar este mundo através da política, mas apresentar-lhe Cristo através do Evangelho. Não fomos enviados para anunciar um candidato, um partido ou uma ideologia, mas para anunciar Aquele que morreu e ressuscitou:

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos dos Apóstolos 4:12).

Governos passam, presidentes passam, partidos surgem e desaparecem, mas o nosso Senhor permanece. O cristão respeita César, ora por César e cumpre suas legítimas obrigações para com César; porém, sua esperança não está em César. Está em Cristo.

Josué Matos

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