Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Corrija-me se eu estiver errado. Uma coisa me chamou a atenção em Mateus 5:32 e 19:9. Quando Jesus falou sobre a exceção para repudiar a mulher, isso aconteceu antes da cruz. Então, isso seria mais uma prova de que a exceção foi mencionada por causa de Deuteronômio 22, que vigorava até a cruz, na Velha Aliança? Essa exceção não aparece depois da cruz. Está correto?
Se for isso, é notório que a única opção na Nova Aliança é reconciliar-se ou ficar só, pois a exceção para se casar novamente seria a morte do marido ou da esposa.
Mateus não é Novo Testamento? O Novo Testamento não começa depois da cruz? Porque há uma distinção importante entre o livro e a vigência da Nova Aliança. Se dissermos que as palavras de Jesus naquela exceção pertencem à Nova Aliança, então elas não estariam apenas no contexto judaico, mas serviriam para toda a Igreja. Como devemos entender isso?
Minha Resposta:
Você percebeu um ponto muito importante, mas precisamos fazer uma pequena distinção para que o argumento fique biblicamente mais preciso.
Sim, quando o Senhor Jesus pronunciou as palavras registradas em Mateus 5:32 e Mateus 19:9, a cruz ainda não havia acontecido, a Igreja ainda não havia sido formada e Israel ainda estava sob a Lei de Moisés. Contudo, isso não significa que tudo o que o Senhor ensinou antes da cruz deixou de ter aplicação depois dela. Muitos princípios ensinados pelo Senhor antes da cruz são permanentes.
Portanto, o argumento principal não deve ser simplesmente: “Jesus falou antes da cruz, logo isso não se aplica à Igreja”. Precisamos observar o contexto, as palavras empregadas e, especialmente, comparar Mateus com Marcos, Lucas e o ensino apostólico.
Mateus está dentro do Novo Testamento, mas os acontecimentos narrados ocorrem antes da inauguração da Nova Aliança
Aqui existe uma distinção importante.
Quando falamos da organização dos livros da Bíblia, Mateus pertence ao Novo Testamento. Mas quando falamos historicamente da Nova Aliança inaugurada pelo sangue de Cristo, devemos lembrar que grande parte dos Evangelhos narra acontecimentos anteriores à cruz.
O próprio Senhor Jesus, na noite em que foi traído, disse:
“Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20).
Compare também Mateus 26:28 e 1 Coríntios 11:25.
Hebreus apresenta a mesma relação entre a morte de Cristo e a Nova Aliança (Hebreus 9:15-17).
Portanto, durante o ministério terreno do Senhor Jesus, Israel ainda vivia sob a ordem mosaica. É por isso que encontramos o Senhor falando do altar (Mateus 5:23-24), ordenando ao homem curado que apresentasse a oferta determinada por Moisés (Mateus 8:4), reconhecendo o lugar dos escribas e fariseus “na cadeira de Moisés” (Mateus 23:2) e participando das festas judaicas.
Mas isso, por si só, não elimina o ensino do Senhor acerca do casamento. Pelo contrário, precisamos descobrir qual princípio Ele estava restaurando.
Jesus levou a questão do casamento para antes da Lei
Quando os fariseus perguntaram:
“É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mateus 19:3),
o Senhor não começou por Deuteronômio 24. Ele voltou a Gênesis:
“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez?” (Mateus 19:4).
E acrescentou:
“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Isso é fundamental.
O padrão do casamento não começou com Moisés. O casamento é uma instituição da criação. Gênesis 2:24 declara:
“Portanto deixará o varão o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.”
Assim, o princípio é anterior a Israel, anterior à Lei e anterior à Igreja.
Quando os fariseus mencionaram Moisés, perguntando por que ele havia “mandado” dar carta de divórcio, Jesus corrigiu a maneira como apresentaram a questão:
“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim” (Mateus 19:8).
Moisés não estabeleceu o divórcio como o ideal de Deus. Ele regulamentou uma situação surgida por causa da dureza do coração humano.
Cristo, porém, retorna ao princípio.
A cláusula de exceção precisa ser entendida dentro do contexto de Mateus
Aqui chegamos ao ponto central da pergunta.
Mateus 5:32 e Mateus 19:9 contêm a expressão traduzida como “a não ser por causa de prostituição” ou “exceto por causa de fornicação”.
A palavra usada é “porneia”.
Entretanto, quando o Senhor fala de adultério, é usada outra palavra, relacionada a “moicheia”.
Essa distinção é importante.
Se o Senhor estivesse simplesmente querendo dizer “exceto em caso de adultério cometido durante o casamento”, seria estranho empregar uma palavra diferente justamente quando o adultério está sendo mencionado no mesmo contexto.
Há uma explicação muito coerente dentro do próprio Evangelho de Mateus.
Em Mateus 1 encontramos José e Maria.
Eles estavam desposados, mas ainda não tinham consumado o casamento:
“Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem...” (Mateus 1:18).
Apesar disso, José já é tratado como marido:
“José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).
E o anjo diz:
“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).
Isso parece estranho para nós porque o nosso noivado não possui essa condição jurídica. Mas no sistema judaico o desposório era muito mais vinculativo.
José e Maria ainda não haviam se unido matrimonialmente, mas o compromisso era tão sério que, para desfazê-lo, seria necessário repudiá-la.
José acreditou inicialmente que Maria havia sido sexualmente infiel durante o período do desposório.
É exatamente esse contexto que ajuda a compreender por que a exceção aparece em Mateus.
Deuteronômio 22 também ajuda a compreender o pano de fundo
Deuteronômio 22 trata de diferentes pecados sexuais e de situações relacionadas à virgindade, ao desposório e ao casamento.
É importante notar que, sob a Lei, o adultério não era simplesmente uma autorização para divorciar-se e casar novamente. A penalidade estabelecida era muito mais severa:
“Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido, então ambos morrerão” (Deuteronômio 22:22).
Também encontramos em Deuteronômio 22:23-24 o caso de uma virgem desposada.
Isso demonstra que havia uma condição especial envolvendo o desposório judaico.
Portanto, há fundamento para relacionar a exceção de Mateus ao contexto judaico de pureza antes da consumação do casamento, particularmente à situação de uma pessoa desposada que se mostrasse sexualmente infiel.
Mas eu faria uma pequena correção na maneira como a pergunta foi formulada: não diria simplesmente que “a exceção deixou de existir porque Deuteronômio 22 deixou de vigorar na cruz”. Diria que a exceção dizia respeito a uma circunstância própria do desposório judaico, razão pela qual não aparece quando o ensino é apresentado em contextos gentílicos e posteriormente nas epístolas.
Por que a exceção aparece somente em Mateus?
Este é um argumento muito importante.
Veja o que o Senhor diz em Marcos:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).
Nenhuma exceção.
Veja Lucas:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).
Novamente, nenhuma exceção.
Isso é significativo.
Mateus possui forte contexto judaico e apresenta a situação de José e Maria, na qual uma mulher desposada é chamada “mulher”, José é chamado “marido”, e romper o desposório exigiria repudiá-la.
Marcos, escrevendo num contexto em que essa peculiaridade judaica não precisava ser explicada, simplesmente apresenta o princípio:
se alguém deixa o cônjuge e casa com outro, comete adultério.
Lucas faz a mesma coisa.
Portanto, não podemos usar o texto mais difícil de Mateus para contradizer as declarações absolutamente claras de Marcos e Lucas. Devemos interpretar a cláusula de Mateus de uma maneira que esteja em harmonia com todo o ensino do Senhor.
O ensino apostólico depois da cruz confirma isso
Aqui está talvez a confirmação mais forte da observação feita na pergunta.
Quando chegamos às epístolas, escritas diretamente às igrejas, não encontramos novamente a cláusula de exceção de Mateus.
Em Romanos 7:2-3, Paulo escreve:
“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei e assim não será adúltera se for de outro marido.”
Observe cuidadosamente.
Paulo não diz:
“enquanto o marido viver, exceto se houver adultério”.
Ele simplesmente diz:
“enquanto ele viver”.
E depois:
“morto o marido, está livre”.
A morte é apresentada como aquilo que encerra o vínculo matrimonial.
O mesmo aparece em 1 Coríntios 7.
“Fique sem casar ou que se reconcilie”
Em 1 Coríntios 7:10-11 encontramos uma passagem especialmente importante porque Paulo está dando instruções diretamente aos crentes:
“Todavia, aos casados mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.”
Aqui temos exatamente as duas possibilidades mencionadas na pergunta.
Se houver separação:
“fique sem casar”
ou
“que se reconcilie”.
Não aparece uma terceira possibilidade:
“case-se com outra pessoa”.
Isso é muito importante.
Além disso, Paulo diz:
“mando, não eu, mas o Senhor”.
Ou seja, Paulo está apoiando sua instrução naquilo que o próprio Senhor já havia ensinado.
Isso harmoniza perfeitamente com Marcos 10:11-12 e Lucas 16:18.
E quando o cônjuge incrédulo abandona o crente?
Alguns usam 1 Coríntios 7:15 para ensinar que o abandono permite novo casamento:
“Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão ou irmã não está sujeito à servidão.”
Porém, o texto não diz:
“está livre para casar novamente”.
A questão é que o crente não deve viver numa guerra permanente tentando obrigar o incrédulo a permanecer. Se o incrédulo decidiu partir, o crente não pode mantê-lo preso fisicamente à relação.
Paulo termina:
“Deus chamou-nos para a paz.”
Isso deve ser entendido à luz do que ele acabou de dizer:
“fique sem casar ou que se reconcilie” (1 Coríntios 7:11).
Quando Paulo quer falar claramente da liberdade para um novo casamento, ele sabe fazê-lo. Veja 1 Coríntios 7:39:
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.”
Aqui a linguagem é inequívoca.
Enquanto ele vive: “está ligada”.
Quando ele morre: “fica livre para casar”.
A viuvez é, portanto, claramente apresentada como condição para novo casamento
Sim. Nesse ponto, a conclusão apresentada na pergunta está correta.
Romanos 7:2-3 ensina isso.
1 Coríntios 7:39 repete isso.
Paulo também escreve:
“Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu” (1 Coríntios 7:8).
E, em outro contexto, afirma:
“Quero, pois, que as que são moças se casem” (1 Timóteo 5:14).
Portanto, a Escritura reconhece claramente o novo casamento depois da morte do cônjuge.
Então Mateus 5:32 e 19:9 não valem para nós?
Não devemos colocar dessa maneira.
O ensino de Mateus continua sendo Palavra de Deus e possui enorme importância para nós. O princípio ensinado pelo Senhor é permanente:
“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
O que precisamos distinguir é a situação específica contemplada pela cláusula de exceção.
Ela aparece em Mateus porque o Evangelho apresenta elementos particularmente judaicos e porque o desposório judaico possuía uma condição jurídica diferente do nosso noivado moderno.
É justamente Mateus que nos oferece, em José e Maria, a chave histórica para compreender como alguém poderia ser chamado “marido” e “mulher” antes de terem se ajuntado.
Depois que o casamento está efetivamente constituído, o princípio apresentado pelo restante do Novo Testamento é extremamente claro:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela” (Marcos 10:11).
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera” (Lucas 16:18).
“Vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido” (Romanos 7:3).
“Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido” (1 Coríntios 7:11).
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive” (1 Coríntios 7:39).
A questão não depende apenas da mudança da Antiga para a Nova Aliança
Portanto, eu reformularia a conclusão da pergunta da seguinte maneira:
A cláusula de exceção de Mateus não deve ser entendida simplesmente como uma permissão temporária que terminou automaticamente na cruz. Ela deve ser compreendida dentro do contexto judaico em que foi pronunciada, particularmente à luz do desposório e da distinção entre fornicação e adultério.
Ao mesmo tempo, é muito significativo que a exceção não apareça em Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 ou 1 Coríntios 7:10-11,39.
Quando chegamos às instruções apostólicas dirigidas às igrejas, a regra é clara: o casamento estabelece um vínculo para toda a vida. Havendo uma separação, a orientação é permanecer sem casar ou buscar a reconciliação. A liberdade expressamente declarada para um novo casamento aparece quando o cônjuge morre.
Isso também demonstra que o ensino cristão sobre a permanência do casamento não depende simplesmente da Lei de Moisés. Na realidade, ele retorna muito mais longe: ao propósito original de Deus na criação.
Por isso o Senhor não disse: “O que Moisés regulamentou não separe o homem”.
Ele disse:
“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Esse é o ponto fundamental.
A Lei tolerou determinadas situações por causa da dureza do coração humano. Cristo, porém, levou os seus ouvintes de volta ao princípio:
“Mas, ao princípio, não foi assim” (Mateus 19:8).
E o ensino apostólico mantém esse padrão: enquanto ambos vivem, permanece o vínculo; se houver separação, permaneça sem casar ou reconcilie-se; ocorrendo a morte do cônjuge, há liberdade para casar novamente, “contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).
Assim, sua percepção está essencialmente no caminho correto, apenas com esta ressalva: não é simplesmente porque Mateus 5 e 19 aconteceram antes da cruz que a cláusula deve ser descartada. A razão mais consistente é compreender a cláusula dentro do contexto judaico do desposório e depois harmonizá-la com o ensino inequívoco do Senhor em Marcos e Lucas e com o ensino apostólico em Romanos e 1 Coríntios.
A Escritura inteira, considerada em conjunto, apresenta o casamento como uma união estabelecida por Deus, destinada a permanecer enquanto os dois cônjuges viverem.
Josué Matos