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Como explicar Atos 13:48, no contexto do que diz a Escritura referente à universalidade da obra da salvação realizada pelo Senhor Jesus Cristo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Meu amado irmão Josué, como explicar Atos 13:48, no contexto do que diz a Escritura referente à universalidade da obra da salvação realizada pelo Senhor Jesus Cristo?

Minha Resposta:

Meu amado irmão, esta é uma pergunta muito importante, porque Atos 13:48 precisa ser entendido sem diminuir nenhuma das duas verdades que a Escritura apresenta: de um lado, a soberania de Deus na salvação; de outro, a responsabilidade do homem diante do Evangelho e a suficiência da obra de Cristo para todos.

O texto diz:

“E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos dos Apóstolos 13:48).

A expressão “ordenados para a vida eterna” não deve ser enfraquecida. O texto realmente apresenta uma ação divina. Entretanto, também não devemos transformar este versículo numa declaração de que Cristo morreu somente por determinadas pessoas ou de que Deus não deseja a salvação dos demais. Isso seria fazer Atos 13:48 contradizer muitas declarações claras das Escrituras.

  1. O contexto começa com a responsabilidade humana

Antes de chegarmos ao versículo 48, precisamos ler o versículo 46:

“Mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios” (Atos dos Apóstolos 13:46).

Observe o contraste.

No versículo 46, temos homens rejeitando a Palavra de Deus.

No versículo 48, temos pessoas crendo e sendo apresentadas como “ordenadas para a vida eterna”.

Portanto, Lucas coloca lado a lado duas verdades. A incredulidade não é atribuída a um decreto divino que obrigou aqueles judeus a rejeitarem o Evangelho. Paulo diz claramente: “visto que a rejeitais”.

Eles foram responsáveis por sua rejeição.

Por outro lado, quando os gentios creem, a salvação deles é atribuída à graça e ao propósito soberano de Deus.

Isto revela um princípio importante encontrado em toda a Escritura: quando o homem se perde, a responsabilidade é do próprio homem; quando o pecador é salvo, toda a glória pertence a Deus.

O Senhor Jesus expressou essas duas verdades de maneira muito bela:

“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37).

A primeira parte apresenta a soberania divina: “Todo o que o Pai me dá virá a mim”.

A segunda apresenta a porta inteiramente aberta ao pecador: “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.

Não precisamos destruir uma verdade para preservar a outra.

  1. Atos 13:48 realmente ensina eleição

Não vejo necessidade de alterar o sentido natural de “ordenados” para evitar a doutrina da eleição. A eleição é uma doutrina bíblica.

Efésios 1:4 diz:

“Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo.”

Segunda aos Tessalonicenses 2:13 declara:

“Deus vos elegeu desde o princípio para a salvação.”

Primeira de Pedro 1:2 fala dos crentes como:

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai.”

Portanto, quando Atos 13:48 afirma que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”, temos uma manifestação histórica do propósito soberano de Deus.

O Evangelho foi anunciado publicamente. Muitos ouviram a mesma mensagem. Alguns a rejeitaram, enquanto outros creram. E Lucas, olhando para aqueles que creram, mostra-nos o lado divino da sua salvação: eles estavam ordenados para a vida eterna.

Entretanto, isso não significa que o Evangelho tenha sido oferecido somente a eles.

Muito pelo contrário.

  1. O próprio contexto de Atos 13 mostra a amplitude da salvação

É muito significativo que, imediatamente antes de Atos 13:48, Paulo cite Isaías:

“Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra” (Atos dos Apóstolos 13:47).

Portanto, seria estranho interpretar o versículo seguinte como se estivesse restringindo a suficiência da obra de Cristo a um pequeno grupo, quando o versículo anterior acaba de apresentar a salvação alcançando “os confins da terra”.

O Evangelho não pertence exclusivamente a Israel. A salvação em Cristo é anunciada aos gentios e deve chegar a todas as nações.

O próprio Senhor havia dito:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

E também:

“Que em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações” (Lucas 24:47).

Portanto, a eleição divina nunca deve ser usada como desculpa para limitar a proclamação do Evangelho. Nós não sabemos quem são os eleitos. Nossa responsabilidade é anunciar Cristo a todos.

  1. A obra de Cristo possui suficiência universal

Aqui precisamos fazer uma distinção importante.

A Bíblia ensina que a obra realizada pelo Senhor Jesus Cristo é suficiente para todos, embora somente aqueles que creem recebam pessoalmente os seus benefícios salvadores.

Primeira de João 2:2 declara:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.”

Observe cuidadosamente: João não diz apenas pelos pecados dos judeus e gentios eleitos. Ele amplia deliberadamente a declaração: “todo o mundo”.

Primeira a Timóteo 2:3-6 acrescenta:

“Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos.”

Também lemos:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tito 2:11).

E Hebreus 2:9 declara que o Senhor Jesus:

“pela graça de Deus, provasse a morte por todos.”

Estas passagens impedem que interpretemos Atos 13:48 como se a morte de Cristo fosse insuficiente para qualquer pecador que venha a Ele.

  1. “Todo aquele que quiser”

Talvez uma das expressões mais importantes para equilibrar este assunto seja encontrada no encerramento da própria Bíblia:

“E quem tem sede venha; e quem quiser tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17).

Não encontramos na Escritura um pecador querendo sinceramente vir a Cristo e sendo impedido porque descobriu que não era eleito.

Isso simplesmente não existe.

O Senhor Jesus disse:

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7:37).

Também declarou:

“Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:15).

E novamente:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).

A expressão é maravilhosa: “todo aquele”.

Não existe nenhuma autorização bíblica para dizermos a um pecador: “Talvez Cristo não tenha morrido por você” ou “Talvez você não possa ser salvo porque talvez não esteja entre os eleitos”.

A mensagem apostólica era muito diferente:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

  1. Então, como harmonizar eleição e universalidade?

Precisamos aceitar tudo o que Deus revelou, mesmo quando nossa capacidade humana não consegue explicar completamente como essas verdades se encontram no conselho eterno de Deus.

A Bíblia ensina simultaneamente:

Deus elege.

Deus chama.

O Espírito Santo convence.

Cristo realizou uma obra suficiente para todos.

O Evangelho deve ser anunciado a todos.

Deus deseja a salvação dos homens.

O pecador é chamado ao arrependimento.

O pecador é responsável quando rejeita Cristo.

Todo aquele que crê recebe a vida eterna.

Nenhum pecador que venha verdadeiramente a Cristo será rejeitado.

Há um belo exemplo dessa combinação em Atos dos Apóstolos 18. Quando Paulo estava em Corinto, o Senhor lhe disse:

“Não temas, mas fala, e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (Atos dos Apóstolos 18:9-10).

O Senhor sabia quem seria salvo. Mas qual foi a consequência disso?

Paulo não deixou de evangelizar pensando: “Se Deus tem Seu povo aqui, então não preciso pregar”.

Foi exatamente o contrário:

“E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:11).

A eleição não destrói a evangelização; ela a encoraja.

  1. O mesmo Paulo que ensinou eleição desejava a salvação dos perdidos

Este ponto é especialmente importante.

Paulo, que escreveu extensamente sobre eleição e predestinação, também escreveu:

“Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação” (Romanos 10:1).

Ele não raciocinava: “Se são eleitos, serão salvos; portanto, não preciso me preocupar”.

Pelo contrário, desejava ardentemente a salvação deles.

Poucos versículos depois escreveu:

“Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Romanos 10:13).

E então apresenta a necessidade da evangelização:

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14).

Portanto, a soberania de Deus não elimina os meios que Ele determinou para alcançar os pecadores. Deus salva, mas determinou que o Evangelho fosse anunciado e que o pecador fosse chamado a crer.

  1. A Bíblia apresenta os dois lados sem constrangimento

Talvez nossa dificuldade esteja em querer fazer a Escritura responder perguntas filosóficas que ela não pretende responder.

Deuteronômio 29:29 estabelece um princípio muito útil:

“As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre.”

Há aspectos dos conselhos eternos de Deus que pertencem a Ele.

Aquilo que foi revelado a nós é claro:

“Deus... anuncia agora a todos os homens, e em todo lugar, que se arrependam” (Atos dos Apóstolos 17:30).

Também é claro:

“Quem crê no Filho tem a vida eterna; mas quem não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36).

Nossa responsabilidade, portanto, não é descobrir previamente quem foi ordenado para a vida eterna. Nossa responsabilidade é anunciar Cristo.

Depois que uma pessoa crê, pode olhar para trás e perceber que sua salvação não começou nela mesma, mas no propósito gracioso de Deus. Em vez de produzir orgulho, a eleição deveria produzir profunda humildade e adoração.

  1. Atos 13:46 e 13:48 devem permanecer juntos

Creio que esta seja uma das chaves mais importantes do texto.

Atos dos Apóstolos 13:46:

“Visto que a rejeitais...”

Responsabilidade humana.

Atos dos Apóstolos 13:48:

“Creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.”

Soberania divina.

Não devemos retirar nenhum dos dois versículos.

Se ficarmos somente com o versículo 46, poderemos acabar fazendo da salvação uma realização humana.

Se ficarmos somente com o versículo 48 e ignorarmos o restante das Escrituras, poderemos acabar eliminando a responsabilidade humana e restringindo indevidamente a oferta sincera do Evangelho.

A Escritura mantém ambos.

  1. A cruz é a base da proclamação universal

Finalmente, devemos distinguir entre a provisão realizada na cruz e a apropriação pessoal dessa provisão.

Cristo morreu e ressuscitou. A obra está consumada. O Evangelho pode agora ser anunciado indistintamente.

O Senhor Jesus disse:

“E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (João 12:32).

Paulo escreve:

“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” (Segunda aos Coríntios 5:19).

Por isso o apóstolo continua:

“Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (Segunda aos Coríntios 5:20).

A obra de Cristo fornece uma base perfeita para que possamos olhar para qualquer pessoa neste mundo e dizer sinceramente: “Creia no Senhor Jesus Cristo”.

Conclusão

Atos 13:48 não contradiz a universalidade da obra salvadora do Senhor Jesus. O versículo revela o lado soberano da salvação: aqueles gentios que creram estavam “ordenados para a vida eterna”.

Mas o mesmo contexto revela a responsabilidade humana, pois outros “rejeitaram” a Palavra de Deus e julgaram a si mesmos indignos da vida eterna.

A Escritura não nos autoriza a resolver uma dessas verdades eliminando a outra.

Podemos resumir assim:

A fonte da salvação está em Deus.

O fundamento da salvação está na obra consumada de Cristo.

O poder que opera na salvação é do Espírito Santo.

A mensagem da salvação deve ser anunciada a todos.

O convite do Evangelho é dirigido a todos.

A responsabilidade de crer é colocada sobre o pecador.

Aquele que rejeita Cristo é responsável por sua rejeição.

Aquele que vem a Cristo jamais será rejeitado.

E aquele que é salvo descobrirá que, por trás da sua fé, havia uma graça que o precedeu e um propósito eterno de Deus que jamais poderia conhecer antes de crer.

Assim, quando pregamos o Evangelho, não perguntamos ao pecador se ele é eleito. Dizemos:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

E quando ele crê, podemos dizer com toda a Escritura:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8).

A soberania pertence a Deus, a responsabilidade pertence ao homem, a salvação pertence ao Senhor, e toda a glória pertence ao Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

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