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Portanto, ser cristão e participar da política não são coisas incompatíveis

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Um cristão pode participar da política, pois a Bíblia não apresenta uma proibição geral de ocupar cargos públicos ou de exercer a cidadania.

O ponto principal é como ele participa:

Deve agir com honestidade e justiça (Miquéias 6:8).

Não deve colocar o poder político acima de Deus (Atos dos Apóstolos 5:29).

Pode votar, participar de debates, ocupar cargos e buscar o bem da sociedade.

Deve evitar corrupção, mentira, violência e idolatria política.

Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Portanto, ser cristão e participar da política não são coisas incompatíveis. O cristão pode estar na política, mas sua fidelidade última deve ser a Deus.

Minha Resposta:

É verdade que a Bíblia ensina o cristão a respeitar as autoridades civis, obedecer às leis, pagar os seus impostos e viver como cidadão exemplar. Entretanto, é necessário fazer uma distinção importante: uma coisa é o cristão estar sujeito ao governo; outra, bem diferente, é envolver-se na administração política deste mundo.

Quando examinamos o ensino do Novo Testamento, não encontramos os apóstolos orientando os cristãos a procurar cargos políticos, organizar partidos, participar de campanhas eleitorais ou tentar transformar a sociedade por meio do poder político. Pelo contrário, encontramos o cristão apresentado como alguém cuja cidadania principal pertence a outra esfera:

“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

A palavra traduzida por “cidade” nesse versículo traz a ideia de cidadania. Portanto, embora o cristão tenha responsabilidades civis no país onde vive, sua verdadeira cidadania é celestial.

Isso está em harmonia com as palavras do próprio Senhor Jesus diante de Pôncio Pilatos:

“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

Essa declaração é fundamental para compreendermos a posição do cristão diante da política. Cristo não disse que não possui um reino. Ele possui. O ponto é que o Seu reino não deriva sua autoridade do atual sistema mundial. O Senhor acrescentou que, se Seu reino fosse deste mundo, Seus servos combateriam. Portanto, os discípulos de Cristo não receberam a missão de conquistar ou administrar os reinos deste mundo para estabelecer o reino de Deus.

  1. “Dai a César” não significa “governai com César”

Mateus 22:21 é frequentemente utilizado para defender o envolvimento político do cristão:

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”

Mas o assunto daquela passagem não era a participação dos discípulos no governo romano. A pergunta feita ao Senhor era sobre o pagamento de tributos.

A moeda trazia a imagem e a inscrição de César. O Senhor reconheceu a responsabilidade civil de pagar aquilo que era devido ao governo.

Paulo ensina exatamente o mesmo princípio:

“Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo. Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Romanos 13:6-7).

Assim, “dar a César” significa reconhecer a autoridade civil estabelecida por Deus e cumprir nossas responsabilidades para com ela. Não significa que o cristão tenha recebido a responsabilidade de participar da disputa pelo poder político.

  1. Romanos 13 ensina submissão, não participação política

Romanos 13:1-7 é provavelmente a passagem mais importante sobre o relacionamento do cristão com o governo.

“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (Romanos 13:1).

Observe a posição em que o Espírito Santo coloca o cristão: sujeito às autoridades.

O texto não diz que a Igreja deve conquistar o governo, controlar o Estado ou eleger representantes para implantar princípios cristãos. O ensino é que Deus estabeleceu a autoridade civil para conservar a ordem e restringir o mal.

Isso não significa que todos os governantes sejam bons ou que Deus aprove tudo aquilo que fazem. Quando Paulo escreveu Romanos, o Império Romano estava longe de representar os princípios cristãos. Mesmo assim, Paulo ensinou submissão às autoridades.

O governo humano é uma instituição estabelecida por Deus, mas isso não significa que todo ato praticado pelos governantes tenha a aprovação de Deus.

  1. Há um limite para a submissão

Neste ponto, Atos dos Apóstolos 5:29 realmente é importante:

“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.”

Entretanto, esse versículo também precisa ser observado em seu contexto.

Pedro e os outros apóstolos não estavam formando um movimento político contra o governo. Eles haviam recebido de Cristo a ordem de anunciar o Evangelho, e as autoridades queriam impedir essa pregação.

Quando a autoridade humana exige aquilo que Deus proíbe ou proíbe aquilo que Deus ordena, a autoridade divina é superior.

Esse princípio também aparece em Atos dos Apóstolos 4:19-20.

Portanto, o cristão deve obedecer ao governo enquanto essa obediência não o obrigar a desobedecer claramente a Deus.

  1. Qual é, então, a influência política indicada ao cristão?

A resposta apostólica é muito significativa:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Timóteo 2:1-2).

Observe que Paulo não manda Timóteo organizar os cristãos para colocar pessoas favoráveis à Igreja no governo. Ele manda os cristãos orarem pelos governantes.

E qual é o objetivo?

“Para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade.”

Isso permite que a Igreja cumpra sua verdadeira missão.

A grande comissão deixada pelo Senhor não foi política:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

Da mesma maneira:

“Portanto, ide, ensinai todas as nações...” (Mateus 28:19).

O objetivo do Evangelho não é reformar o velho homem, mas anunciar-lhe a necessidade de uma nova vida. Não é simplesmente produzir uma sociedade moralmente melhor, mas chamar pecadores ao arrependimento e à fé no Senhor Jesus Cristo.

  1. O cristão é peregrino e forasteiro

Pedro apresenta outro princípio fundamental:

“Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros...” (1 Pedro 2:11).

Logo depois, Pedro trata justamente do relacionamento do cristão com as autoridades:

“Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor” (1 Pedro 2:13).

A combinação dessas duas verdades é muito importante.

Somos peregrinos e forasteiros, mas não somos rebeldes.

Não pertencemos ao sistema deste mundo, mas respeitamos suas autoridades.

Não procuramos controlar o governo, mas oramos pelos governantes.

Não participamos da corrupção deste mundo, mas procuramos viver de maneira irrepreensível diante dele.

Pedro resume isso admiravelmente:

“Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai o rei” (1 Pedro 2:17).

Observe cuidadosamente a ordem: ao rei devemos honra; a Deus devemos temor e obediência suprema.

  1. E quanto a votar?

Aqui precisamos ser cuidadosos, porque não existe no Novo Testamento um mandamento dizendo literalmente: “não votarás”. O sistema eleitoral democrático moderno não existia da maneira como o conhecemos hoje.

Portanto, não devemos inventar um versículo que a Bíblia não contém.

Todavia, precisamos perguntar se participar da escolha daqueles que governarão este mundo é coerente com a posição celestial do cristão apresentada no Novo Testamento.

O princípio de Filipenses 3:20 pesa muito nessa questão: nossa cidadania está nos céus.

Além disso, o cristão que escolhe um candidato inevitavelmente se associa, em alguma medida, ao programa político que esse candidato e seu partido representam. Nenhum partido político representa integralmente a vontade de Deus. Em muitos casos, a mesma plataforma pode defender determinadas coisas compatíveis com princípios bíblicos e, simultaneamente, outras inteiramente contrárias às Escrituras.

Por isso, entendemos que a posição mais coerente com o caráter celestial, peregrino e separado da Igreja é não se envolver nas disputas partidárias deste mundo.

  1. E ocupar um cargo político?

Aqui a dificuldade torna-se ainda maior.

Um cristão que ocupa um cargo político não está simplesmente obedecendo às autoridades; passa a exercer autoridade dentro do sistema político.

Além disso, um governante precisa representar pessoas das mais diferentes convicções e executar leis que podem entrar diretamente em conflito com sua consciência diante de Deus.

O Novo Testamento fornece instruções detalhadas para cristãos como pais, filhos, maridos, esposas, empregados, patrões e cidadãos. Entretanto, é significativo que não encontremos instruções dirigidas aos cristãos ensinando-os a exercer cargos políticos.

José governou no Egito. Daniel exerceu posição elevada na Babilônia. Davi foi rei de Israel. Mas precisamos lembrar que esses homens pertenciam a uma dispensação diferente. Especialmente no caso de Israel, tratava-se de uma nação escolhida por Deus, com governo, território, legislação e promessas nacionais.

A Igreja não é Israel.

A Igreja não recebeu território terrestre nem a missão de governar as nações nesta presente dispensação.

Nossa vocação é celestial.

  1. Ser sal e luz não significa assumir o governo

Às vezes Mateus 5:13-16 é usado para justificar o envolvimento político:

“Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo.”

Mas como essa luz deve brilhar?

O próprio Senhor explica:

“Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:16).

Portanto, o cristão influencia a sociedade principalmente por aquilo que é e pelo testemunho que dá.

Um patrão cristão deve ser justo.

Um empregado cristão deve ser honesto.

Um comerciante cristão não deve enganar.

Um cidadão cristão deve respeitar as leis.

Um cristão deve ajudar os necessitados.

Deve falar a verdade.

Deve defender aquilo que é biblicamente correto em sua vida e testemunho.

E, acima de tudo, deve anunciar Cristo.

Essa influência pode ser enorme sem transformar a Igreja num movimento político.

  1. O exemplo do próprio Senhor Jesus

Talvez o argumento mais forte esteja na vida do Senhor.

Ele viveu sob o domínio de Roma, num período de grandes injustiças políticas. Entretanto, nunca organizou um movimento para derrubar o Império Romano.

Quando alguém tentou envolvê-Lo numa disputa civil, Ele respondeu:

“Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” (Lucas 12:14).

Quando quiseram fazê-Lo rei pela força, Ele retirou-Se:

“Sabendo, pois, Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte” (João 6:15).

E diante de Pilatos declarou:

“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

Não poderia haver exemplo mais claro.

  1. O cristão espera outro Rei

Existe ainda uma razão profética para nossa posição.

A esperança da Igreja não é finalmente eleger um governo perfeito. Nossa esperança é a vinda do Senhor Jesus Cristo.

“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

Somente Cristo estabelecerá justiça perfeita sobre a Terra.

Isaías profetizou:

“E o principado está sobre os seus ombros” (Isaías 9:6).

O governo perfeito não virá das urnas, das ideologias humanas nem dos partidos políticos. Virá quando o Rei dos reis assumir publicamente aquilo que Lhe pertence.

Conclusão

Portanto, eu faria uma correção importante à afirmação apresentada.

Concordo que o cristão deve ser honesto, justo, respeitador das autoridades, cumpridor de suas responsabilidades civis e absolutamente fiel a Deus. Concordo também que nenhuma autoridade humana está acima de Deus.

Mas não concordo que dessas verdades possamos concluir automaticamente que o cristão “pode votar, participar de debates, ocupar cargos” políticos.

Essas conclusões não aparecem nos textos apresentados.

Mateus 22:21 ensina responsabilidade diante de César.

Romanos 13:1-7 ensina submissão às autoridades.

1 Pedro 2:13-17 ensina sujeição e honra.

1 Timóteo 2:1-4 ensina oração pelos governantes.

Atos dos Apóstolos 5:29 estabelece o limite da obediência civil.

João 18:36 mostra que o reino de Cristo não é deste mundo.

Filipenses 3:20 declara que nossa cidadania está nos céus.

Assim, o cristão não deve ser indiferente às pessoas nem ao sofrimento existente na sociedade. Pelo contrário, deve fazer o bem, socorrer, testemunhar, evangelizar, orar pelos governantes e ser um cidadão exemplar. Mas sua missão não é conquistar o sistema político para Cristo.

Somos embaixadores de outro reino, peregrinos de passagem por este mundo e cidadãos de uma pátria celestial.

Enquanto os homens discutem quem deve governar, o cristão sabe quem finalmente governará:

“E no vestido e na sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Apocalipse 19:16).

Nossa esperança não está em colocar o homem certo no trono.

Nossa esperança é a volta dAquele a quem o trono pertence.

Josué Matos

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