Áudios

Pesquisar este blog

Você tem uma visão muito radical e estranha sobre o que a Bíblia diz sobre a política

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão Josué, você tem uma visão muito radical e estranha sobre o que a Bíblia diz sobre a política. Você citou muitos versículos que não fazem nenhum sentido para o século XXI, nem para a presente dispensação.

Nosso sistema político hoje não tem nada a ver com o período bíblico. Não faz nenhum sentido ler um versículo do profeta Daniel e aplicá-lo a nós hoje.

Vou lhe sugerir um documentário no YouTube:
“Avivamento nas Ilhas Fiji”.

Observe o que Deus fez quando os cristãos buscaram a presença do Senhor em oração para trazer solução para a pobreza e a violência que assolavam o país, e líderes cristãos foram chamados para participar do governo. Isso faz apenas 25 anos.

Minha Resposta:

Agradeço pela sua mensagem e pela oportunidade de esclarecer melhor o assunto. Concordo com uma parte importante do que você disse: realmente, precisamos ter cuidado para não retirar textos bíblicos do seu contexto e aplicá-los indiscriminadamente à Igreja. Israel, a Igreja e as nações não são a mesma coisa, e uma interpretação dispensacional das Escrituras exige justamente que façamos essas distinções.

Entretanto, isso não significa que um princípio revelado por Deus em uma dispensação necessariamente deixe de existir quando começa outra. Precisamos perguntar se o próprio Novo Testamento confirma ou revoga aquele princípio. E, no caso do governo humano, o Novo Testamento confirma claramente que a autoridade civil continua sendo uma instituição permitida e ordenada por Deus.

É justamente aqui que Daniel continua sendo importante.

  1. O princípio apresentado em Daniel continua válido

Daniel declarou acerca de Deus:

“Ele muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis” (Daniel 2:21).

Mais tarde, Nabucodonosor precisou aprender:

“...o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Daniel 4:25).

Alguém poderia dizer: “Mas isso aconteceu no Antigo Testamento e não pode ser aplicado à presente dispensação”.

Se tivéssemos somente Daniel, precisaríamos analisar cuidadosamente até onde poderíamos levar essa aplicação. Porém, encontramos o mesmo princípio no Novo Testamento, dirigido diretamente aos cristãos:

“Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Romanos 13:1).

Portanto, não estou simplesmente pegando Daniel e transferindo uma regra de Israel para a Igreja. O próprio Novo Testamento confirma o princípio da soberania de Deus sobre as autoridades humanas.

Daniel diz que Deus remove reis e estabelece reis. Romanos diz que as autoridades existentes foram ordenadas por Deus.

O princípio permanece.

  1. O sistema político mudou, mas o princípio não mudou

Concordo que o sistema político do século XXI é muito diferente daquele existente nos dias de Daniel, do Senhor Jesus e dos apóstolos.

Hoje temos democracias representativas, eleições, parlamentos, partidos políticos, presidentes, primeiros-ministros e outras estruturas que não existiam daquela forma no primeiro século.

Mas Romanos 13 não estabelece uma forma específica de governo. Paulo não diz que somente uma monarquia é instituída por Deus, nem que somente um império pode ser reconhecido como autoridade.

Ele apresenta um princípio muito mais amplo:

“...não há potestade que não venha de Deus” (Romanos 13:1).

Isso é importante porque, quando Paulo escreveu essas palavras, os cristãos estavam sujeitos ao Império Romano. Mesmo assim, Deus não orientou os cristãos a reformar politicamente Roma, conquistar cargos públicos ou organizar um movimento cristão para assumir o governo.

A orientação foi:

“Toda alma esteja sujeita às potestades superiores” (Romanos 13:1).

Pedro ensina a mesma coisa:

“Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores...” (1 Pedro 2:13-14).

E Paulo escreve a Tito:

“Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam e estejam preparados para toda boa obra” (Tito 3:1).

Portanto, embora as formas de governo mudem, os princípios divinos permanecem: o cristão respeita as autoridades, obedece às leis, paga os seus tributos, procura viver honestamente e reconhece que Deus continua soberano sobre os governos humanos.

  1. Qual é, então, a participação política ensinada especificamente à Igreja?

Aqui está um ponto que considero muito importante.

Quando Paulo orienta a Igreja acerca dos governantes, observe o que ele manda fazer:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1 Timóteo 2:1-2).

Veja a diferença.

Paulo não diz: “Procurem colocar cristãos no governo para que a sociedade seja transformada”.

Ele diz: orem pelos governantes.

Isso não é passividade. É confiança na soberania de Deus.

O cristão pode exercer uma influência imensa na sociedade, mas a influência característica do cristianismo não é política; é espiritual e moral.

O Senhor Jesus disse:

“Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13).

E:

“Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14).

Uma vida santa, uma família conduzida segundo a Palavra de Deus, uma igreja fiel, boas obras e, sobretudo, a proclamação do Evangelho podem produzir consequências profundas numa sociedade.

Mas devemos distinguir entre o efeito do Evangelho sobre pessoas e a missão da Igreja neste mundo.

A missão da Igreja não é cristianizar os governos, mas anunciar Cristo.

  1. O exemplo do Senhor Jesus é muito significativo

Quando o Senhor Jesus esteve neste mundo, havia injustiça política, opressão, pobreza, corrupção e violência.

Roma dominava Israel.

Havia governantes perversos. Herodes é um exemplo evidente.

Mesmo assim, não encontramos o Senhor organizando um movimento político para reformar o Império Romano.

Quando tentaram envolvê-Lo numa questão política relacionada ao pagamento de tributos, Ele respondeu:

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Mais tarde, diante de Pilatos, o Senhor declarou:

“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos...” (João 18:36).

Isso define de maneira extraordinária a posição do discípulo de Cristo.

Nós pertencemos a um Reino que não tem sua origem neste sistema mundial.

  1. Nossa cidadania principal está no céu

Paulo escreveu:

“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

A palavra usada aqui envolve a ideia de cidadania. O cristão pode possuir cidadania brasileira, portuguesa, americana ou qualquer outra, e deve cumprir corretamente as responsabilidades civis que essa cidadania lhe impõe.

Mas sua cidadania fundamental é celestial.

Paulo também escreve:

“De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo” (2 Coríntios 5:20).

A figura do embaixador é muito significativa. Um embaixador vive em determinado país, respeita suas leis e autoridades, mas representa outro governo.

Da mesma maneira, o cristão está neste mundo, mas pertence a Cristo.

  1. E o exemplo das Ilhas Fiji?

Não tenho dificuldade alguma em aceitar que cristãos sinceros possam orar intensamente por uma nação e que Deus, em Sua providência, produza grandes mudanças sociais.

Aliás, isso está perfeitamente de acordo com 1 Timóteo 2:1-4.

Devemos orar pelos governantes e pelas condições da sociedade para que possamos viver “uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade”.

Também não nego que um homem que professe ser cristão possa ocupar determinado cargo político e até procurar exercer esse cargo com honestidade. A questão que estou tratando é outra: devemos estabelecer experiências contemporâneas como padrão doutrinário para definir qual é a vocação da Igreja?

A resposta deve ser não.

Um documentário pode relatar acontecimentos interessantes. Uma transformação social pode ser extraordinária. Entretanto, nossa doutrina não pode ser construída sobre documentários, experiências nacionais, resultados sociais ou acontecimentos recentes.

A pergunta sempre precisa ser:

“O que dizem as Escrituras?”

Se amanhã surgir outro documentário mostrando uma nação onde milhares de cristãos entraram na política e tudo terminou em corrupção, isso também não estabeleceria nossa doutrina.

Nossa regra continua sendo a Palavra de Deus.

  1. Precisamos distinguir providência de mandamento

Deus pode colocar alguém em determinada posição de autoridade para cumprir Seus propósitos sem que isso estabeleça uma regra para a Igreja.

José foi governador no Egito (Gênesis 41:39-44).

Daniel ocupou uma posição elevada na Babilônia (Daniel 2:48).

Mardoqueu chegou a uma posição de grande autoridade no Império Persa (Ester 10:2-3).

Mas nenhum desses homens fazia parte da Igreja, que ainda não existia.

Eles estavam inseridos em outros momentos do programa de Deus.

Por isso, seria incoerente rejeitar Daniel 4 quando ele ensina a soberania de Deus sobre os governos porque “é de outra dispensação” e, ao mesmo tempo, usar Daniel como exemplo para justificar a participação política do cristão na presente dispensação.

Precisamos aplicar o mesmo princípio hermenêutico aos dois casos.

  1. O Novo Testamento apresenta outro caminho para a Igreja

Quando chegamos ao livro de Atos dos Apóstolos, encontramos uma oportunidade excelente para observar o cristianismo funcionando na prática.

Os apóstolos viveram sob autoridades frequentemente injustas.

Pedro foi preso.

Paulo foi preso.

Tiago foi morto por Herodes.

Os cristãos foram perseguidos.

E qual foi a reação da Igreja?

Quando Pedro e João foram ameaçados pelas autoridades em Atos dos Apóstolos 4, eles voltaram para os seus irmãos. A Igreja não organizou uma manifestação política nem tentou substituir os governantes.

Eles oraram.

“E, tendo eles orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo e anunciavam com ousadia a palavra de Deus” (Atos dos Apóstolos 4:31).

Isso é extremamente instrutivo.

A resposta apostólica à hostilidade do mundo foi oração e testemunho.

  1. Existe um limite para a submissão ao governo

Evidentemente, submissão às autoridades não significa obediência absoluta.

Existe uma autoridade superior ao Estado: Deus.

Quando as autoridades proibiram os apóstolos de anunciar Cristo, Pedro respondeu:

“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).

Esse é o limite bíblico.

Enquanto o governo não exigir do cristão algo contrário à vontade de Deus, devemos ser cidadãos submissos, respeitadores e honestos.

Quando o Estado exige algo contrário à Palavra de Deus, obedecemos a Deus e aceitamos as consequências dessa fidelidade.

  1. A esperança da Igreja não está na transformação política do mundo

Aqui está talvez nossa diferença principal.

Eu não encontro no Novo Testamento a promessa de que a Igreja transformará gradualmente os governos deste mundo até estabelecer uma sociedade cristã.

Pelo contrário, Paulo advertiu:

“Nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos” (2 Timóteo 3:1).

Também lemos que:

“...os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2 Timóteo 3:13).

A esperança do cristão não é que finalmente consigamos eleger governantes suficientes para preparar o Reino de Cristo.

Nossa esperança é uma Pessoa:

“...aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (Tito 2:13).

E Filipenses 3:20 acrescenta:

“...donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo”.

  1. Portanto, Daniel continua tendo muito a nos ensinar

Por isso, irmão, não considero estranho usar Daniel para demonstrar a soberania de Deus sobre as nações.

Daniel não está ensinando que a Igreja deve governar politicamente o mundo. Isso seria realmente uma aplicação indevida.

Mas quando Daniel declara:

“...o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Daniel 4:25),

ele revela um princípio sobre o governo soberano de Deus.

E esse mesmo princípio reaparece claramente no Novo Testamento:

“...não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Romanos 13:1).

Portanto, Daniel 4 e Romanos 13 não estão em contradição. Pelo contrário, Romanos confirma para a presente dispensação o princípio da soberania divina sobre as autoridades civis.

A nossa responsabilidade como cristãos está igualmente clara: respeitar as autoridades (Romanos 13:1-7); pagar aquilo que lhes é devido (Romanos 13:7); sujeitar-nos às instituições civis (1 Pedro 2:13-17); obedecer às autoridades enquanto isso não significar desobedecer a Deus (Tito 3:1; Atos dos Apóstolos 5:29); não difamar aqueles que governam (Tito 3:2); orar por todos os que estão em autoridade (1 Timóteo 2:1-2); viver como luz neste mundo (Filipenses 2:15); anunciar o Evangelho (Marcos 16:15); e esperar do céu o nosso Salvador (Filipenses 3:20).

Podemos desejar governantes honestos. Podemos lamentar a corrupção, a violência, a pobreza e a injustiça. Podemos ajudar os necessitados, fazer o bem a todos e orar fervorosamente pelo país em que vivemos. Devemos ser cidadãos exemplares.

Mas não devemos confundir isso com a missão celestial da Igreja.

A Igreja não recebeu de Cristo a comissão de conquistar o poder político para consertar o mundo. Recebeu algo infinitamente maior: anunciar ao mundo um Salvador que pode transformar o homem.

A grande necessidade do ser humano não é primeiramente um novo partido, um novo presidente, um novo parlamento ou um novo sistema econômico.

É uma nova vida.

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).

Governos podem modificar leis. Cristo transforma pessoas.

Governos podem restringir determinados males. Cristo liberta o pecador do domínio do pecado.

Governos são temporários. O Reino de Cristo é eterno.

Por isso, enquanto aguardamos o Senhor Jesus Cristo, nossa responsabilidade é clara: orar pelos governantes, respeitar as autoridades, fazer o bem, viver piedosamente e anunciar fielmente o Evangelho.

Josué Matos

Conheça Nossos Aplicativos: