Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Irmão, a celebração da Ceia não é um rito físico desnecessário? Há passagem que mostra que celebrar a morte de Cristo é pela fé no que Ele fez na cruz. Há necessidade de comer pão e beber suco?
O sentido é espiritual, como Jesus apresenta em João 6. Participar do corpo e do sangue de Cristo está ligado à fé e à apropriação de Cristo pela fé, e não simplesmente ao ato físico de comer pão e beber suco.
Jesus diz:
‘Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna’ (João 6:54).
Mas, no mesmo discurso, Ele explica a natureza dessa participação:
‘Quem crê em mim tem a vida eterna’ (João 6:47).
E também:
‘O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida’ (João 6:63).
Portanto, ‘comer’ e ‘beber’ em João 6 não precisam ser entendidos como mastigar literalmente a carne de Jesus e beber literalmente o Seu sangue. É uma linguagem de receber, permanecer e depender de Cristo pela fé.
Há ainda uma diferença importante entre João 6 e a Ceia do Senhor de 1 Coríntios 11. Na Ceia, Paulo fala de pão e cálice como sinais/participação naquilo que Cristo realizou, mas o Novo Testamento não ensina que o pão físico se transforme literalmente em carne, nem que o vinho/suco se transforme literalmente em sangue.”
Minha Resposta:
Irmão, você está correto em uma parte muito importante da sua interpretação de João 6, mas a conclusão de que, por isso, não seria necessário participar fisicamente do pão e do cálice na Ceia do Senhor não corresponde ao ensino completo do Novo Testamento.
A chave está justamente na distinção que você mencionou: João 6 e a Ceia do Senhor não estão ensinando a mesma coisa.
Em João 6, realmente, o Senhor Jesus não está instituindo a Ceia do Senhor. Naquele momento, a Ceia sequer havia sido instituída. Isso aconteceria posteriormente, na noite em que Ele foi traído, conforme Mateus 26:26-29, Marcos 14:22-25 e Lucas 22:19-20.
Em João 6, comer a carne do Filho do Homem e beber o Seu sangue descreve figuradamente a apropriação pessoal de Cristo pela fé.
O próprio capítulo ajuda a interpretar essa linguagem. O Senhor diz:
“Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê em mim nunca terá sede” (João 6:35).
Observe o paralelismo: “vir a mim” e “crer em mim” correspondem à ideia espiritual de comer e beber. Portanto, concordo que João 6:54 não ensina que alguém recebe a vida eterna por ingerir literalmente pão e vinho, muito menos que estes elementos se transformem fisicamente no corpo e no sangue de Cristo.
Se João 6:54 estivesse falando literalmente da Ceia do Senhor, teríamos um sério problema, pois isso faria da participação na Ceia uma condição para receber a vida eterna. Mas o Evangelho segundo João ensina repetidamente que a vida eterna é recebida pela fé no Filho de Deus: João 3:16; 3:36; 5:24; 6:40; 6:47.
Portanto, neste ponto precisamos fazer uma distinção clara:
João 6 fala da apropriação de Cristo pela fé para a vida eterna.
A Ceia do Senhor fala de crentes que já possuem a vida eterna e que, obedecendo ao Senhor, lembram-se dEle por meio do pão e do cálice.
Uma coisa não elimina a outra.
O problema do seu argumento está em concluir que, porque a realidade espiritual é recebida pela fé, o símbolo físico ordenado pelo Senhor tornou-se desnecessário. O Novo Testamento não permite essa conclusão.
Na noite em que foi traído, o próprio Senhor Jesus tomou pão, deu graças, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo:
“Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19).
Depois tomou o cálice:
“Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20).
Observe especialmente as palavras: “Fazei isto”.
O Senhor não disse simplesmente: “Lembrem-se da minha morte”. Ele estabeleceu uma maneira pela qual os Seus discípulos deveriam recordá-Lo durante a Sua ausência.
Portanto, comer o pão e beber do cálice não é uma tentativa de obter salvação por meio de uma cerimônia física. É um ato de obediência de pessoas que já foram salvas pela fé.
Anos depois da morte, ressurreição e ascensão do Senhor Jesus, o apóstolo Paulo voltou ao mesmo assunto. E isto é muito importante, porque demonstra que a Ceia não era uma cerimônia temporária destinada apenas aos apóstolos.
Paulo escreveu:
“Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:23-24).
Depois acrescentou:
“Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim” (1 Coríntios 11:25).
E então temos uma declaração que praticamente resolve a questão:
“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Coríntios 11:26).
Veja os verbos empregados pelo Espírito Santo: “comerdes” e “beberdes”.
Portanto, existe uma ação física. Mas essa ação física possui um significado espiritual.
O erro estaria em cair em um de dois extremos.
O primeiro seria transformar os elementos físicos em algo que a Bíblia nunca diz que eles se tornam. O pão não se transforma literalmente no corpo de Cristo, e o conteúdo do cálice não se transforma literalmente no sangue de Cristo.
Aliás, depois de dizer “isto é o meu corpo”, Paulo continua chamando o elemento de “pão”:
“Todas as vezes que comerdes este pão...” (1 Coríntios 11:26).
E novamente:
“Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice” (1 Coríntios 11:28).
Continua sendo pão.
O segundo extremo, porém, seria dizer: “Já que o pão é somente um símbolo e a realidade é espiritual, então não precisamos mais do símbolo”.
Isso também ultrapassa as Escrituras, porque foi o próprio Senhor que escolheu os símbolos e disse: “Fazei isto em memória de mim”.
Podemos fazer uma comparação com o batismo.
A salvação não vem da água do batismo. Somos salvos pela graça mediante a fé, conforme Efésios 2:8-9. Entretanto, isso não torna o batismo desnecessário. O Senhor ordenou que aqueles que creem fossem batizados (Mateus 28:19; Marcos 16:16), e vemos essa prática repetidamente em Atos dos Apóstolos.
O ato exterior não produz a realidade espiritual, mas expressa uma realidade espiritual segundo uma ordem do Senhor.
O mesmo princípio pode ser observado na Ceia.
O pão não salva.
O cálice não salva.
Participar da Ceia não comunica vida eterna.
Não recebemos novamente o sacrifício de Cristo.
Cristo não é sacrificado novamente.
O pão não se transforma no corpo de Cristo.
O conteúdo do cálice não se transforma no sangue de Cristo.
Mas tudo isso não significa que comer o pão e beber do cálice sejam desnecessários. São precisamente as ações que o Senhor ordenou como memorial de Si mesmo.
Há ainda outro aspecto importante em 1 Coríntios 10:
“Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).
Novamente, isso não significa transformação física dos elementos. O pão permanece pão e o cálice permanece cálice. Entretanto, ao participarmos deles conjuntamente, expressamos comunhão com aquilo que eles representam.
Paulo prossegue:
“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:17).
Aqui aparece também o caráter coletivo da Ceia. Não se trata apenas de um crente, sozinho, pensando na cruz. A Ceia do Senhor é apresentada no Novo Testamento em relação à comunhão dos santos reunidos.
Por isso lemos:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (Atos dos Apóstolos 2:42).
E mais tarde:
“E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão...” (Atos dos Apóstolos 20:7).
Veja como o ensino se completa.
Nos Evangelhos, o Senhor instituiu a Ceia.
Em Atos dos Apóstolos, os discípulos praticaram a Ceia.
Em 1 Coríntios, o Espírito Santo explicou a doutrina da Ceia.
E em 1 Coríntios 11:26 foi estabelecido até quando ela deveria continuar:
“Até que venha.”
Portanto, enquanto o Senhor Jesus não vier buscar a Sua Igreja, permanece válida a ordem: “Fazei isto em memória de mim”.
Há ainda algo muito precioso aqui. A Ceia olha em três direções.
Olhamos para trás: “anunciais a morte do Senhor”.
Olhamos para o presente: “fazei isto em memória de mim”.
Olhamos para o futuro: “até que venha”.
Assim, a Ceia está situada entre a cruz e a vinda do Senhor.
A cruz diz que a obra foi consumada. A Ceia não acrescenta absolutamente nada ao sacrifício de Cristo. Hebreus deixa claro que Cristo ofereceu um único sacrifício pelos pecados e assentou-Se à direita de Deus (Hebreus 10:10-14).
Mas, enquanto aguardamos Sua volta, o próprio Senhor deixou aos Seus uma maneira simples, visível e coletiva de recordá-Lo.
Por isso, eu não chamaria a Ceia de “rito físico desnecessário”. Se fosse uma invenção humana destinada a transmitir graça ou produzir salvação, poderíamos rejeitá-la. Mas não foi inventada pela Igreja, por uma denominação ou por uma tradição religiosa. Foi instituída pelo próprio Senhor Jesus.
Sua simplicidade é justamente uma das suas belezas: um pão e um cálice. Nada de altar, sacerdote humano, transubstanciação ou repetição do sacrifício de Cristo. Apenas crentes reunidos, obedecendo àquele que disse:
“Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19).
Portanto, podemos resumir assim: João 6 ensina que precisamos receber Cristo pela fé para termos vida eterna; 1 Coríntios 10 e 11 ensinam que aqueles que já receberam Cristo pela fé devem reunir-se e participar do pão e do cálice em memória dEle.
A realidade espiritual não anula o símbolo que Cristo instituiu. Pelo contrário, é justamente porque conhecemos pela fé a realidade da Sua Pessoa e da Sua obra que podemos compreender o significado do pão e do cálice.
Não comemos o pão para receber Cristo.
Comemos o pão porque já recebemos Cristo.
Não bebemos do cálice para obter perdão.
Participamos do cálice porque confiamos no sangue que já foi derramado para nossa redenção.
Não celebramos a Ceia para repetir o Calvário.
Celebramos porque o sacrifício realizado no Calvário foi perfeito, suficiente e definitivo.
E continuaremos fazendo isso, conforme Ele mesmo determinou, “até que venha”.
Josué Matos