Alguém que me escreveu no YouTube:
Eu entendo o seu ponto de vista, porém precisamos entender que a mensagem central do Evangelho é a ressurreição dos mortos. O objetivo dele é fazer com que o homem vença o seu maior inimigo, a morte, através do combate ao pecado. Sendo assim, todos os trechos que você menciona são exemplos de figuras de linguagem, sentido figurado e visões. Eles não me parecem ser fatos, mas sombras do que há de acontecer. Então, não devemos levá-los ao pé da letra.
Veja, por exemplo, a transfiguração, onde parecia que Jesus conversava com Moisés e Elias. O objetivo ali era mostrar aos discípulos a divindade de Jesus, e não que Elias e Moisés estavam vivos na Glória. O texto deixa claro que o episódio era uma visão.
Minha Resposta:
Agradeço pelo seu comentário. Concordo que a ressurreição ocupa um lugar fundamental na mensagem do Evangelho. O apóstolo Paulo deixa isso muito claro em 1 Coríntios 15. Se Cristo não ressuscitou, a nossa fé é vã (1 Coríntios 15:14-17). Também concordo que a morte é chamada de “o último inimigo” (1 Coríntios 15:26) e que sua derrota definitiva está relacionada à ressurreição.
Entretanto, precisamos distinguir duas verdades que a Bíblia apresenta claramente: uma coisa é a existência consciente da pessoa depois da morte; outra coisa é a ressurreição do corpo. A primeira não elimina a necessidade da segunda.
A ressurreição não significa que uma pessoa que deixou completamente de existir volta a existir. Ressurreição, nas Escrituras, envolve o corpo. Por isso Paulo pergunta: “Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Coríntios 15:35). Depois explica que aquilo que é semeado em corrupção ressuscitará em incorrupção (1 Coríntios 15:42-44).
É justamente aqui que está a diferença.
Quando um crente morre, seu corpo fica aguardando a ressurreição, mas ele não deixa de existir conscientemente diante de Deus.
O próprio Paulo escreveu:
“Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).
Observe a relação estabelecida pelo apóstolo: deixar o corpo e estar com o Senhor.
Paulo apresenta novamente essa mesma esperança em Filipenses:
“Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. [...] Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:21-23).
Se, ao morrer, Paulo simplesmente deixasse de ter existência consciente até a ressurreição, seria difícil entender por que ele descreveu a morte como “ganho” e afirmou que “partir e estar com Cristo” era “ainda muito melhor”.
Mas há ainda outros textos.
Na cruz, o Senhor Jesus disse ao malfeitor arrependido:
“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).
O homem estava pensando no futuro: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (Lucas 23:42). Entretanto, o Senhor lhe respondeu falando daquele mesmo dia: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
Portanto, sua esperança não precisava aguardar a ressurreição para começar. Seu corpo morreria e aguardaria a ressurreição, mas ele estaria com Cristo.
O mesmo princípio aparece em Lucas 16:19-31, na narrativa do rico e Lázaro. Depois da morte, ambos aparecem conscientes. Lázaro está consolado e o rico está em tormento. Abraão também aparece consciente. Independentemente da discussão sobre ser uma parábola ou não, o Senhor jamais construiria um ensino usando como fundamento uma condição falsa acerca dos mortos.
Agora chegamos à transfiguração.
É verdade que Mateus 17:9 registra a palavra “visão”:
“E, descendo eles do monte, Jesus lhes ordenou, dizendo: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do Homem seja ressuscitado dentre os mortos.”
Mas a palavra “visão” não significa necessariamente algo imaginário, irreal ou sem correspondência com aquilo que realmente estava acontecendo.
O próprio texto deixa isso evidente.
Lucas escreve:
“E eis que estavam falando com ele dois varões, que eram Moisés e Elias” (Lucas 9:30).
Observe que Lucas não diz que os discípulos imaginaram Moisés e Elias. Ele identifica claramente os dois homens.
E mais:
“Os quais apareceram com glória e falavam da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém” (Lucas 9:31).
Eles não estavam apenas aparecendo. Estavam conversando com Cristo, e Lucas informa inclusive o assunto da conversa: a morte que o Senhor Jesus realizaria em Jerusalém.
Moisés havia morrido muitos séculos antes. Deuteronômio registra claramente:
“Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme o dito do Senhor. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém tem sabido até hoje a sua sepultura” (Deuteronômio 34:5-6).
Elias, por outro lado, não passou pela morte da maneira comum, pois foi levado por Deus (2 Reis 2:11).
Séculos depois, ambos aparecem com Cristo.
Há um detalhe ainda mais importante. Pedro estava presente naquele acontecimento e, muitos anos depois, explicou o que havia acontecido:
“Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” (2 Pedro 1:16).
Pedro não diz: “Tivemos uma imaginação” ou “assistimos a uma representação fictícia”.
Ele diz: “Nós mesmos vimos”.
E continua:
“E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo” (2 Pedro 1:18).
Portanto, a transfiguração foi uma visão no sentido de uma revelação sobrenatural concedida aos discípulos, mas aquilo que lhes foi mostrado comunicava uma realidade verdadeira. Eles realmente viram a majestade de Cristo, realmente ouviram a voz do Pai e realmente viram Moisés e Elias falando com o Senhor.
Além disso, é importante observar que a transfiguração não tinha apenas a finalidade de demonstrar a divindade de Cristo. Ela também antecipava a glória futura do Seu reino.
Pouco antes, o Senhor havia dito:
“Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino” (Mateus 16:28).
Logo depois vem a transfiguração (Mateus 17:1-8).
Pedro posteriormente relacionou aquela experiência à “virtude e à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Pedro 1:16). Portanto, o monte apresentou antecipadamente uma manifestação da glória do reino futuro de Cristo.
Moisés e Elias também são significativos nessa cena. Moisés havia passado pela morte; Elias havia sido trasladado sem passar pela morte comum. Assim, naquela cena gloriosa temos uma bela antecipação daquilo que ocorrerá quando Cristo vier: haverá santos que morreram e serão ressuscitados, e haverá crentes vivos que serão transformados.
Paulo ensina exatamente isso:
“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:16-17).
Portanto, precisamos evitar dois extremos.
O primeiro seria negar a ressurreição futura do corpo. Isso seria contrário a 1 Coríntios 15.
O segundo seria pensar que, porque haverá uma ressurreição futura, necessariamente não existe consciência entre a morte e a ressurreição. A Bíblia não ensina isso.
O corpo aguarda a ressurreição, mas a pessoa continua existindo.
É por isso que a Escritura pode chamar a morte física de “sono”. O Senhor disse acerca de Lázaro:
“Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono” (João 11:11).
Os discípulos entenderam literalmente e pensaram que Lázaro estivesse dormindo. Então o Senhor esclareceu:
“Lázaro está morto” (João 11:14).
Portanto, “dormir” é uma figura bíblica para a morte, especialmente porque o corpo do crente será despertado na ressurreição. Não significa necessariamente inconsciência da pessoa diante de Deus.
Apocalipse apresenta a mesma verdade quando João vê “as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus” (Apocalipse 6:9). Essas almas estão conscientes e clamam:
“Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Apocalipse 6:10).
Depois recebem uma resposta e lhes é dito que “repousassem ainda um pouco de tempo” (Apocalipse 6:11).
Novamente temos pessoas que morreram fisicamente, mas aparecem conscientes antes da ressurreição final.
Por isso, não considero correto classificar todos esses textos simplesmente como figuras de linguagem e concluir que não descrevem nenhuma realidade presente. Quando diferentes partes das Escrituras convergem para a mesma verdade, devemos permitir que uma passagem esclareça a outra.
A esperança cristã completa não é simplesmente a sobrevivência da alma depois da morte. Nossa grande esperança é Cristo e, juntamente com Sua vinda, a ressurreição e transformação do corpo.
“Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1 Coríntios 15:53).
Então se cumprirá plenamente a palavra:
“Tragada foi a morte na vitória” (1 Coríntios 15:54).
Portanto, concordamos que a vitória definitiva sobre a morte será manifestada na ressurreição. A diferença está em afirmar que, até essa ressurreição, os mortos deixaram de existir conscientemente. É justamente isso que textos como Lucas 16:19-31; Lucas 23:43; 2 Coríntios 5:6-8; Filipenses 1:21-23; Apocalipse 6:9-11 e a própria transfiguração não nos permitem concluir.
A ressurreição continua sendo indispensável, porque Deus não salvará apenas uma parte do homem. O corpo também pertence ao propósito redentor de Deus. Por isso aguardamos “a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23).
Assim, quando um crente morre, seu corpo aguarda a ressurreição, enquanto ele está com Cristo. Quando Cristo vier, o corpo será ressuscitado e transformado, e então a obra de redenção será manifestada também nele.
Essa é a maravilhosa esperança cristã: morrer é estar com Cristo; ressuscitar é receber um corpo incorruptível e glorificado; e o destino final do salvo é estar para sempre com o Senhor.
Josué Matos