Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Sim! Mateus está falando de casamento, mas no contexto judaico. E o grave é que as denominações ditas igrejas estão trocando a exceção PORNEIA por MOICHEIA para tentar justificar o segundo casamento, que Jesus chamou de adultério. João Batista perdeu a cabeça por defender essa verdade.
Havia duas etapas:
Desposório — אירוסין (erusin): vínculo matrimonial formal. A mulher desposada já estava juridicamente vinculada ao homem, podendo ser chamada de ‘mulher’ (γυνή — gynē), e ele de ‘marido’ (ἀνήρ — anēr), embora ainda não tivessem consumado a união. Depois de coabitarem, havia a questão dos sinais da virgindade.
Nissuin — נישואין (nissuin): entrada na casa do marido e consumação da união.
A virgindade da mulher tinha importância jurídica. Deuteronômio 22:13–21 mostra o marido acusando sua mulher de não ser virgem, e Deuteronômio 22:23–24 fala da ‘virgem desposada’. Isso ajuda a entender Mateus 1:18.
Irmão, tem algo a acrescentar ou retirar desse texto?
É isso, irmão?
Minha Resposta:
Sim, de modo geral, concordo com a linha do seu raciocínio, mas eu faria alguns ajustes para que a argumentação fique mais precisa biblicamente e para não afirmarmos além daquilo que o próprio texto das Escrituras permite afirmar.
Antes, porém, quanto aos vídeos que o irmão me enviou, peço que não se preocupe em me mandar vídeos para assistir. Eu não costumo assistir a vídeos que me enviam, principalmente por falta de tempo. Recebo muitas perguntas e não consigo acompanhar vídeos ou áudios longos. É melhor o irmão enviar diretamente, por escrito, a dúvida específica, o argumento ou o texto bíblico que deseja analisar. Assim consigo responder de maneira mais objetiva.
Quanto ao assunto do casamento, o ponto de partida deve ser aquilo que o Senhor Jesus estabeleceu em Mateus 19. Ele não começou por Deuteronômio 24, mas voltou ao princípio da criação:
“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:4-6).
Isso é fundamental. O padrão de Deus não é divórcio e novo casamento, mas um homem e uma mulher unidos por Deus, tornando-se uma só carne. O Senhor retorna diretamente a Gênesis 2:24.
Quando os fariseus perguntaram por que Moisés havia permitido carta de divórcio, o Senhor respondeu:
“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).
Portanto, o divórcio nunca foi o ideal de Deus. Foi uma concessão relacionada à dureza do coração humano dentro de uma situação específica da legislação de Israel.
É justamente nesse contexto que precisamos considerar Mateus 5:32 e Mateus 19:9.
Há realmente uma diferença importante entre as palavras gregas porneia e moicheia. Porneia possui um campo de significado amplo e pode ser empregada para imoralidade sexual; moicheia, porém, refere-se especificamente ao adultério, isto é, à infidelidade relacionada ao vínculo matrimonial.
Isso torna muito importante a linguagem de Mateus 19:9:
“Qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição [porneia], e casar com outra, comete adultério [moicheia].”
O Senhor empregou palavras diferentes. Portanto, devemos ter cautela antes de simplesmente substituir porneia por “adultério”, especialmente porque, no mesmo contexto, Ele tinha à disposição a palavra própria para adultério.
Além disso, há um detalhe muito significativo: a chamada cláusula de exceção aparece em Mateus, Evangelho em que encontramos logo no primeiro capítulo a situação de José e Maria.
Mateus 1:18 diz:
“Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo.”
Eles estavam desposados e ainda não haviam se ajuntado. Entretanto, veja a linguagem utilizada em seguida:
“Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).
E o anjo lhe disse:
“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).
Isto é muito esclarecedor.
José é chamado de “marido”, e Maria é chamada de “mulher”, embora Mateus tenha acabado de dizer que eles ainda não haviam se ajuntado. Portanto, o desposório judaico possuía uma seriedade jurídica muito maior do que aquilo que hoje chamamos simplesmente de “noivado”.
José, ao perceber que Maria estava grávida, naturalmente concluiu que havia ocorrido infidelidade sexual durante aquele período. Por isso pensou em deixá-la secretamente. Evidentemente, depois recebeu de Deus a revelação de que Maria não havia cometido pecado, pois aquilo que nela estava gerado era do Espírito Santo (Mateus 1:20).
Deuteronômio 22 também ajuda a compreender esse pano de fundo. Ali encontramos a “moça virgem, desposada com algum homem” (Deuteronômio 22:23). Portanto, as próprias Escrituras reconhecem a situação peculiar da mulher que ainda era virgem, mas já estava desposada.
Eu apenas teria cuidado com a expressão “depois de coabitar tinha que dar sinais de virgindade”. Melhor seria dizer que, na legislação de Deuteronômio 22:13-21, existia a possibilidade de uma acusação relacionada à virgindade da mulher por ocasião do casamento, e a lei previa como essa acusação deveria ser tratada. Assim ficamos exatamente dentro da linguagem bíblica, sem transformar aquele procedimento legal específico numa afirmação geral além do que está escrito.
Outro ponto importante é comparar Mateus com Marcos e Lucas.
Em Marcos 10:11-12, o Senhor declarou:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera.”
Nenhuma exceção é apresentada.
Lucas 16:18 é igualmente direto:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera.”
Isso fortalece muito a interpretação de que a particularidade encontrada em Mateus está ligada ao contexto judaico que Mateus pressupõe. Se Mateus 19:9 estivesse estabelecendo uma autorização geral para um cristão divorciar-se do cônjuge por adultério e depois casar novamente, seria necessário explicar por que Marcos e Lucas apresentam a declaração absoluta do Senhor sem essa autorização.
Há ainda Romanos 7:2-3:
“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido.”
Também 1 Coríntios 7:10-11 afirma:
“Todavia, aos casados mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.”
Observe as duas possibilidades apresentadas quando ocorre a separação: permanecer sem casar ou reconciliar-se. Paulo não apresenta um novo casamento como solução.
Mais adiante, o princípio volta a aparecer:
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).
Portanto, entendo que a morte é aquilo que definitivamente desfaz o vínculo e deixa o cônjuge sobrevivente livre para casar novamente.
Quanto a João Batista, também concordo com o princípio que o irmão apresentou, mas eu ajustaria a maneira de expressá-lo. Eu não diria simplesmente que “João Batista perdeu a cabeça por defender que segundo casamento é adultério”, porque o texto apresenta uma situação específica.
Herodias havia sido mulher de Filipe, irmão de Herodes, e João dizia continuamente a Herodes:
“Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão” (Marcos 6:18).
Mateus registra:
“Porque Herodes tinha prendido João, e tinha-o manietado e encerrado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe; porque João lhe dissera: Não te é lícito possuí-la” (Mateus 14:3-4).
O ponto realmente muito forte é que João não reconheceu a nova união simplesmente porque social ou juridicamente ela havia sido estabelecida. Ele continuava chamando Herodias de mulher do irmão de Herodes. Isso demonstra que aquilo que os homens reconhecem legalmente não necessariamente altera o julgamento moral de Deus.
Portanto, eu reformularia essa parte assim: “João Batista sofreu e finalmente foi morto porque se recusou a reconhecer como lícita a união de Herodes com Herodias, enquanto permaneciam as condições que tornavam aquela união contrária à Palavra de Deus.”
Há ainda outro princípio que considero decisivo. Quando o Senhor Jesus falou sobre casamento, não disse: “o que o Estado legalizou” ou “o que o homem dissolveu”. Ele disse:
“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
A legislação humana pode declarar duas pessoas divorciadas, mas a questão para o cristão é outra: o vínculo que Deus estabeleceu foi desfeito diante de Deus?
É por isso que o novo casamento enquanto o primeiro cônjuge vive é tratado tão seriamente nas palavras do Senhor. Lucas 16:18 não poderia ser mais simples:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera.”
E Romanos 7:3 explica por que:
“Vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido.”
Assim, irmão Denis, eu conservaria a essência do seu texto, mas faria esses ajustes. Principalmente, evitaria depender excessivamente dos termos técnicos erusin e nissuin como se toda a doutrina dependesse deles. Eles podem ajudar historicamente, mas nossa posição não precisa ficar dependente da tradição judaica posterior. Mateus 1, Deuteronômio 22, Mateus 5, Mateus 19, Marcos 10, Lucas 16, Romanos 7 e 1 Coríntios 7 já fornecem base bíblica suficiente.
Também não diria simplesmente que porneia “sempre” significa pecado sexual antes do casamento, porque a palavra pode ter sentido mais amplo em outras passagens. Por exemplo, em 1 Coríntios 6:18 ela é empregada de maneira ampla: “Fugi da prostituição”. A questão é que, no contexto específico de Mateus 5 e Mateus 19, há boas razões para distinguir porneia de moicheia e compreender a exceção dentro do contexto judaico do desposório.
Resumindo: eu acrescentaria Mateus 1:18-20, Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:10-11,39. Ajustaria a frase sobre os “sinais da virgindade”, qualificaria melhor a afirmação sobre João Batista e evitaria afirmar que porneia tem sempre o significado restrito de pecado pré-matrimonial. Mas a conclusão central permanece: o casamento foi estabelecido por Deus como uma união para toda a vida, e o divórcio civil não deve ser usado para transformar aquilo que o Senhor chama de adultério em um casamento aprovado por Deus.
“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Josué Matos