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E, quanto a termos poder em nossas mãos para combater a injustiça/opressão, caso ela nos seja evidenciada, não temos responsabilidade?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Graça e paz.

Assunto muito delicado em seu vídeo, Josué Matos: “Crentes, Peregrinos e Forasteiros Neste Mundo”. Entendo que Cristo é o melhor, e a régua do mundo vai até o menos pior.

O que pode me dizer sobre aquela profecia sobre os oito príncipes que se levantarão no fim dos tempos? (Malaquias)

E, quanto a termos poder em nossas mãos para combater a injustiça/opressão, caso ela nos seja evidenciada, não temos responsabilidade?

Deus abençoe sua vida.

Tenho aprendido muito com o que o Senhor lhe deu!

Minha Resposta:

Graça e paz. Agradeço pelas palavras e pelas perguntas, que realmente tratam de assuntos importantes.

Primeiramente, creio que a passagem à qual você se refere não está no livro de Malaquias, mas em Miqueias 5:5-6:

“E este será a nossa paz. Quando a Assíria vier à nossa terra e quando pisar em nossos palácios, levantaremos contra ela sete pastores e oito príncipes dentre os homens. Esses consumirão a terra da Assíria à espada e a terra de Ninrode nas suas entradas; assim nos livrará da Assíria, quando vier à nossa terra e quando calcar os nossos termos.”

É muito importante observar o contexto, pois Miqueias 5 é uma passagem profundamente messiânica. Poucos versículos antes encontramos uma das profecias mais conhecidas acerca do nascimento do Senhor Jesus:

“E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Miqueias 5:2).

Mateus 2:5-6 confirma que essa profecia se refere ao Senhor Jesus Cristo.

Portanto, Miqueias não está simplesmente apresentando oito líderes políticos que aparecerão isoladamente no fim dos tempos. Todo o contexto aponta para Israel, para seus inimigos, para a manifestação do Messias e para o estabelecimento do Seu governo.

Quando chegamos a Miqueias 5:5, encontramos a expressão “sete pastores e oito príncipes dentre os homens”. Não devemos necessariamente entender esses números como se Deus estivesse revelando que exatamente oito homens específicos aparecerão no cenário mundial e que precisássemos tentar identificá-los hoje.

Essa construção numérica aparece outras vezes no Antigo Testamento. Por exemplo:

“Em seis angústias te livrará; e na sétima o mal não te tocará” (Jó 5:19).

Também lemos:

“Por três transgressões de Damasco e por quatro, não retirarei o castigo” (Amós 1:3).

A ideia é de suficiência, abundância ou plenitude. Assim, “sete pastores e oito príncipes” aponta para a provisão suficiente que Deus levantará para enfrentar o inimigo naquele contexto. O centro da profecia não são os oito príncipes; o centro é Cristo.

Observe a expressão maravilhosa: “E este será a nossa paz” (Miqueias 5:5). A segurança final de Israel não estará nos governantes humanos, nos exércitos ou na capacidade política da nação, mas no próprio Messias.

Isso também explica por que devemos ter cuidado ao pegar essa passagem e aplicá-la diretamente à Igreja. Miqueias está tratando profeticamente de Israel. A Igreja possui esperança e vocação diferentes. Nossa esperança não é conquistar o governo deste mundo, mas aguardar o Senhor Jesus Cristo dos céus (Filipenses 3:20-21; 1 Tessalonicenses 1:10).

Quanto à segunda pergunta, ela é muito importante: se temos condições de combater uma injustiça ou uma opressão, não temos responsabilidade?

Sim, temos responsabilidade, mas precisamos definir biblicamente qual é essa responsabilidade.

Ser peregrino e forasteiro não significa ser indiferente ao sofrimento das pessoas. O cristão jamais deve olhar para uma pessoa sofrendo injustiça e dizer: “Isso não me interessa porque minha cidadania está nos céus”.

O Senhor Jesus contou a parábola do bom samaritano justamente mostrando a responsabilidade moral de socorrer aquele que está diante de nós necessitado (Lucas 10:30-37).

Gálatas 6:10 também diz:

“Então, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.”

E Tiago escreve:

“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete pecado” (Tiago 4:17).

Portanto, se presenciamos uma injustiça e temos meios legítimos para ajudar uma pessoa, devemos fazê-lo. Podemos socorrer uma vítima, denunciar um crime às autoridades competentes, servir como testemunha, prestar auxílio material, defender alguém que está sendo injustamente acusado e utilizar os recursos legais disponíveis.

Há uma diferença, porém, entre isso e assumir para a Igreja a missão de transformar politicamente este mundo.

Romanos 13:1-7 ensina que Deus estabeleceu a autoridade civil justamente para manutenção da ordem e punição do mal. Paulo chama a autoridade de “ministro de Deus” quando ela exerce essa função.

Isso significa que, diante de um crime ou de uma injustiça, recorrer às autoridades não contradiz nossa condição de peregrinos.

O próprio apóstolo Paulo utilizou seus direitos legais quando necessário.

Quando foi açoitado ilegalmente em Filipos, ele não simplesmente ignorou o abuso. Paulo lembrou aos magistrados que ele e Silas eram cidadãos romanos e haviam sido açoitados sem condenação (Atos dos Apóstolos 16:35-39).

Em outra ocasião, quando estavam prestes a açoitá-lo, Paulo perguntou:

“É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?” (Atos dos Apóstolos 22:25).

E, quando percebeu que não teria julgamento justo, utilizou o direito que possuía:

“Apelo para César” (Atos dos Apóstolos 25:11).

Portanto, submissão às autoridades não significa aceitar passivamente toda injustiça. O cristão pode recorrer aos meios legais disponíveis.

Existe, contudo, um limite muito claro.

Quando uma autoridade exige aquilo que Deus proíbe ou proíbe aquilo que Deus ordena, nossa primeira fidelidade pertence a Deus.

Foi por isso que Pedro e os demais apóstolos disseram:

“Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).

Mas observe que os apóstolos não organizaram uma revolução contra o governo. Eles obedeceram a Deus e aceitaram sofrer as consequências dessa fidelidade.

Aqui encontramos o equilíbrio.

O cristão não deve ser indiferente à injustiça, mas também não recebeu de Cristo a missão de conquistar o sistema político para estabelecer o Reino de Deus.

Nossa responsabilidade é fazer o bem, ajudar o necessitado, denunciar aquilo que deve ser denunciado pelos meios legítimos, agir com justiça em nossa esfera de responsabilidade, obedecer às autoridades enquanto isso não significar desobedecer a Deus e, sobretudo, anunciar o Evangelho.

O Senhor Jesus disse:

“Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13).

E:

“Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14).

A influência cristã deve acontecer principalmente pelo caráter, pelas boas obras, pela verdade e pelo testemunho do Evangelho.

Há algo muito significativo em 1 Timóteo 2:1-4. Quando Paulo fala sobre reis e autoridades, ele não manda a Igreja conquistar o poder político. Ele manda os cristãos orarem:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que estão em eminência.”

Por quê?

“Para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade.”

E então Paulo relaciona isso ao propósito evangelístico de Deus:

“Que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade.”

Portanto, nosso grande objetivo não é colocar o mundo em ordem antes da vinda de Cristo. As Escrituras não apresentam a presente era caminhando para uma transformação moral progressiva produzida pela Igreja. Pelo contrário, Paulo escreveu:

“Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2 Timóteo 3:13).

A solução definitiva para a injustiça deste mundo não virá de um partido político, de uma ideologia ou de um governante humano. Virá quando aquele que nasceu em Belém, mencionado justamente em Miqueias 5, assumir publicamente o governo que Lhe pertence.

Isaías profetizou:

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros” (Isaías 9:6).

Então haverá justiça perfeita porque o próprio Cristo governará.

Enquanto esse dia não chega, o cristão vive numa posição muito especial: está no mundo, mas não pertence ao mundo (João 17:14-16); respeita as autoridades (Romanos 13:1-7); ora por elas (1 Timóteo 2:1-2); faz o bem a todos (Gálatas 6:10); socorre quem sofre (Lucas 10:30-37); utiliza legitimamente seus direitos quando necessário (Atos dos Apóstolos 16:35-39; 22:25; 25:11); recusa-se a obedecer quando o Estado exige desobediência a Deus (Atos dos Apóstolos 5:29); e anuncia ao mundo a única mensagem capaz de transformar verdadeiramente o ser humano: o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim, ser “peregrino e forasteiro” não significa fugir das responsabilidades. Significa saber onde está nossa verdadeira cidadania, a quem pertencemos e qual é nossa principal missão enquanto atravessamos este mundo.

“Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma” (1 Pedro 2:11).

Estamos aqui por algum tempo, fazemos todo o bem que pudermos enquanto estivermos aqui, mas aguardamos nossa verdadeira Pátria e o nosso verdadeiro Rei.

Josué Matos

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