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Não faz sentido a pessoa voltar para ressuscitar, visto que 1 Coríntios 15 deixa claro que não será o corpo carnal que ressuscitará, mas, sim, outro corpo, o corpo espiritual?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Não faz sentido a pessoa voltar para ressuscitar, visto que 1 Coríntios 15 deixa claro que não será o corpo carnal que ressuscitará, mas, sim, outro corpo, o corpo espiritual. Jesus explicava aos saduceus que Deus era Deus dos vivos justamente por causa da ressurreição. Do contrário, Ele diria que Abraão vive, e não que iria ressuscitar no último dia.

Minha Resposta:

É importante separar duas verdades bíblicas que não se contradizem: a existência consciente depois da morte e a futura ressurreição do corpo.

Em parte, o seu raciocínio está correto: quando um crente morre, ele não deixa de existir e não fica inconsciente aguardando a ressurreição. Entretanto, 1 Coríntios 15 não ensina que Deus simplesmente abandona definitivamente o corpo que morreu e cria outro ser sem relação com aquele que foi sepultado. O capítulo ensina ressurreição e transformação.

  1. O que significa “corpo espiritual”?

Paulo escreve:

“Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44).

A expressão “corpo espiritual” não significa “um espírito sem corpo”. Isso seria uma contradição com a própria expressão usada por Paulo. Continua sendo um corpo, porém um corpo transformado e perfeitamente adequado à esfera celestial.

Observe a linguagem empregada em 1 Coríntios 15:

“Semeia-se em corrupção, ressuscitará em incorrupção; semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual” (1 Coríntios 15:42-44).

Paulo não diz simplesmente: “um corpo é sepultado e outro, sem qualquer relação com ele, é criado”. Ele diz: “semeia-se” e “ressuscitará”. Existe continuidade de identidade, embora haja uma transformação extraordinária na condição desse corpo.

É semelhante à ilustração da semente apresentada pelo próprio apóstolo:

“Insensato! O que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão” (1 Coríntios 15:36-37).

O trigo que nasce não possui a mesma aparência do grão que foi colocado na terra, mas existe continuidade entre a semente e aquilo que dela surge. Assim será na ressurreição.

Portanto, podemos dizer que será o mesmo corpo quanto à identidade, mas completamente diferente quanto à sua condição. Hoje é corruptível; será incorruptível. Hoje é mortal; será imortal. Hoje é corpo natural; será corpo espiritual. Hoje está sujeito à fraqueza; será ressuscitado em poder.

Filipenses confirma isso:

“Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso” (Filipenses 3:21).

Observe que Paulo não diz que Cristo simplesmente descartará nosso corpo e nos dará uma identidade diferente. Ele diz que transformará “o nosso corpo”.

  1. A ressurreição de Cristo é o grande modelo

O melhor exemplo é o próprio Senhor Jesus Cristo.

Quando Ele ressuscitou, não apareceu simplesmente como um espírito. O Senhor disse aos discípulos:

“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).

Era verdadeiramente o mesmo Jesus que havia sido crucificado. Havia continuidade de identidade. Todavia, Seu corpo estava agora numa condição gloriosa de ressurreição.

Da mesma forma, a esperança do crente não é simplesmente continuar existindo como espírito depois da morte. Nossa esperança inclui “a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23).

  1. O que acontece entre a morte e a ressurreição?

Aqui está um ponto fundamental.

Quando o crente morre, seu corpo fica na sepultura, mas ele próprio continua consciente na presença do Senhor.

Paulo escreve:

“Desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).

E também:

“Desejo partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23).

Portanto, a Bíblia não ensina que o crente deixa completamente de existir até a ressurreição.

O corpo morreu, mas a pessoa continua existindo conscientemente diante de Deus.

É justamente aqui que entram Abraão, Isaque e Jacó.

  1. O argumento do Senhor Jesus aos saduceus

Os saduceus negavam a ressurreição. Eles apresentaram ao Senhor Jesus o conhecido caso da mulher que havia sido esposa de sete irmãos, perguntando:

“Na ressurreição, pois, de qual dos sete será a mulher?” (Mateus 22:28).

O Senhor respondeu:

“Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mateus 22:29).

Depois acrescentou:

“E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22:31-32).

Há duas verdades nessa resposta.

Primeiro: Abraão, Isaque e Jacó continuavam vivos diante de Deus.

Quando Deus falou com Moisés na sarça ardente, Abraão já estava morto havia séculos. Mesmo assim, Deus não disse: “Eu era o Deus de Abraão”. Ele disse:

“Eu sou o Deus de Abraão” (Êxodo 3:6).

Isso demonstra que Abraão continuava existindo.

Lucas torna isso ainda mais claro:

“Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele vivem todos” (Lucas 20:38).

Portanto, neste ponto precisamos fazer uma pequena correção à afirmação apresentada na pergunta: o Senhor Jesus realmente ensinou que Abraão estava vivo naquele momento, embora seu corpo estivesse morto. Abraão estava vivo diante de Deus, aguardando a ressurreição.

  1. Se Abraão já estava vivo, por que precisava ressuscitar?

Porque estar vivo como espírito na presença de Deus não é a mesma coisa que estar ressuscitado.

Esta distinção resolve grande parte da dificuldade.

Abraão está vivo diante de Deus, mas ainda aguarda a ressurreição do corpo.

A morte produziu uma separação entre o espírito e o corpo. A ressurreição desfará essa condição, não fazendo Abraão voltar simplesmente à antiga vida mortal, mas introduzindo-o numa condição corporal adequada à eternidade.

Por isso, quando o Senhor Jesus disse que Deus é “Deus dos vivos”, Ele não estava negando uma futura ressurreição. Pelo contrário, Ele estava usando exatamente essa verdade para provar aos saduceus a certeza da ressurreição.

O próprio Senhor introduziu Sua explicação dizendo:

“E, acerca da ressurreição dos mortos...” (Mateus 22:31).

Portanto, a conclusão não pode ser que Abraão já estava vivo e, por isso, não precisava ressuscitar. O argumento é justamente o contrário: Abraão continua existindo diante de Deus e ainda receberá aquilo que Deus prometeu na ressurreição.

  1. Marta também compreendia a ressurreição futura

Quando Lázaro morreu, o Senhor Jesus disse:

“Teu irmão há de ressuscitar” (João 11:23).

Marta respondeu:

“Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia” (João 11:24).

Marta conhecia a doutrina da futura ressurreição. Porém, o Senhor levou-a a algo ainda maior:

“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25).

Portanto, existe vida consciente depois da morte e existe uma futura ressurreição corporal. Uma verdade não elimina a outra.

  1. Jó esperava uma ressurreição corporal

Essa esperança já aparece no Antigo Testamento:

“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26).

Também Daniel escreveu:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão” (Daniel 12:2).

Observe a expressão: “no pó da terra”. A ressurreição está relacionada precisamente àquilo que aconteceu com o corpo.

  1. A mesma verdade aparece em 1 Tessalonicenses

Paulo escreve:

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro” (1 Tessalonicenses 4:16).

Esses crentes já estão com Cristo quanto à sua parte imaterial, mas seus corpos ainda aguardam a ressurreição.

Quando Cristo vier, acontecerá algo extraordinário:

“Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Coríntios 15:52).

Veja as duas situações:

Os mortos: “ressuscitarão”.

Os vivos: “seremos transformados”.

Em ambos os casos, o resultado será um corpo glorificado, adequado à presença de Deus.

  1. “Carne e sangue não podem herdar o reino de Deus”

Talvez parte da dificuldade esteja em 1 Coríntios 15:50:

“A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção.”

Paulo não está dizendo que não haverá corpo. Se fosse isso, estaria contradizendo tudo aquilo que acabara de ensinar sobre o “corpo espiritual”.

“Carne e sangue”, nesse contexto, descreve nossa atual condição mortal, corruptível e natural.

Por isso ele imediatamente explica:

“Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados” (1 Coríntios 15:51).

A palavra fundamental é “transformados”.

  1. Portanto, não é simplesmente “outro corpo”

Dizer que será “outro corpo” pode causar uma impressão errada, como se Deus descartasse completamente o corpo atual e criasse uma pessoa corporalmente sem qualquer continuidade com aquela que morreu.

A linguagem bíblica é mais precisa: é ressurreição acompanhada de transformação.

Paulo escreve:

“Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1 Coríntios 15:53).

Observe a força da expressão “isto que é corruptível”.

Existe continuidade.

O corruptível torna-se incorruptível.

O mortal reveste-se de imortalidade.

O corpo natural é ressuscitado como corpo espiritual.

O corpo de humilhação é transformado à semelhança do corpo glorioso de Cristo.

Assim, a ressurreição não significa simplesmente fazer o homem retornar à mesma condição física que possuía antes de morrer. Isso seria apenas voltar à mortalidade. A ressurreição bíblica significa Deus levantar o corpo em uma condição nova, gloriosa, incorruptível e imortal.

  1. Conclusão

Podemos resumir o ensino bíblico desta maneira:

Quando o crente morre, seu corpo permanece na morte, mas seu espírito continua consciente na presença do Senhor. Por isso Abraão, Isaque e Jacó estavam vivos diante de Deus mesmo séculos depois de sua morte física.

Entretanto, essa condição não é a ressurreição.

Na ressurreição, Deus levantará o corpo, preservando a identidade da pessoa, porém transformando completamente sua condição. O corpo que hoje é natural, mortal, corruptível, fraco e sujeito à morte será ressuscitado espiritual, incorruptível, glorioso e imortal.

Portanto, 1 Coríntios 15 não contradiz as palavras do Senhor Jesus aos saduceus. Pelo contrário, as duas passagens se completam.

Abraão vive diante de Deus agora, mas ainda aguarda a ressurreição.

E o corpo que ressuscitará não será simplesmente o velho corpo restaurado à sua condição mortal, nem um corpo completamente desconectado daquele que morreu. Será o corpo ressuscitado e transformado pelo poder de Deus.

É precisamente por isso que Paulo termina essa grande exposição dizendo:

“Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (1 Coríntios 15:54-55).

A esperança cristã não é apenas que a alma sobreviva à morte. É muito maior: Cristo venceu a própria morte, e essa vitória será finalmente manifestada quando os mortos em Cristo forem ressuscitados e receberem corpos glorificados, semelhantes ao Seu corpo glorioso.

Josué Matos

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