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O Crente Abstém-se de Escolher o Político?

Alguém que me escreveu no YouTube: 

Irmão, nem sei se eu discordo do seu vídeo: “O Crente Abstém-se de Escolher o Político?”, mas não vejo problema, enquanto vivemos neste mundo, em andar de acordo com a lei, desde que a lei humana não transgrida a lei de Deus ou nos faça desobedecer a Deus.

Obedecer a Deus acima dos homens: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).

Não chamar o mal de bem nem o bem de mal: Isaías 5:20.

Não praticar nem apoiar a injustiça: Êxodo 23:2; Provérbios 17:15.

Buscar a justiça e o bem: Miqueias 6:8.

Orar pelas autoridades: 1 Timóteo 2:1-2.

Respeitar as autoridades constituídas: Romanos 13:1-7 — sem que isso signifique obedecer a uma autoridade quando ela exige desobediência a Deus, como mostra Atos dos Apóstolos 5:29.

Minha Resposta:

Agradeço pelo seu comentário. Na realidade, concordo com os princípios bíblicos que o irmão apresentou. Creio que a diferença está em distinguir duas coisas: a responsabilidade do cristão diante das autoridades e a participação do cristão na escolha e no sistema político deste mundo.

A Palavra de Deus ensina claramente que o cristão deve ser um cidadão exemplar. Deve respeitar as autoridades, cumprir as leis, pagar os seus impostos e comportar-se de maneira honesta e pacífica. Romanos 13:1 diz: “Toda alma esteja sujeita às potestades superiores”. O mesmo princípio aparece em Tito 3:1: “Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda boa obra”.

Pedro também escreveu: “Sujeitai-vos, pois, a toda ordenação humana por amor do Senhor” (1 Pedro 2:13). Portanto, não defendo que o cristão seja rebelde contra o governo ou que despreze as leis do país onde vive. Pelo contrário, a sujeição à autoridade civil faz parte do testemunho cristão.

Há, naturalmente, um limite. Quando uma autoridade humana exige algo contrário à vontade revelada de Deus, a autoridade divina prevalece. Foi exatamente o que aconteceu quando os apóstolos receberam ordem para não ensinar no nome do Senhor Jesus. Pedro respondeu: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos dos Apóstolos 5:29).

Observe, porém, que os apóstolos não utilizaram isso como justificativa para uma revolta contra o governo. Eles simplesmente obedeceram a Deus e aceitaram as consequências dessa obediência. Esse princípio continua válido para nós.

A questão do vídeo, entretanto, vai um pouco além. Não é simplesmente: “O cristão deve obedecer às leis?”. A resposta a isso é claramente sim. A questão é: “A Igreja recebeu de Deus a missão de participar do sistema político deste mundo e escolher aqueles que irão governá-lo?”

É aí que entendo haver uma diferença importante.

  1. O cristão pertence a uma cidadania celestial

Paulo escreveu:

“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

A ideia envolve cidadania. Embora tenhamos uma cidadania terrena e as responsabilidades correspondentes a ela, nossa posição espiritual é celestial. Somos pessoas que aguardam dos céus o Senhor Jesus Cristo.

O Senhor também disse diante de Pilatos:

“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

Se o Reino de Cristo fosse deste mundo, Seus servos lutariam por Ele. Mas o Senhor deixou claro que a origem e o caráter do Seu Reino não pertencem ao sistema presente.

  1. Romanos 13 ensina sujeição, não participação política

Esse ponto é muito importante.

Romanos 13:1-7 ensina como o cristão deve comportar-se diante das autoridades existentes. O texto não manda o cristão escolher as autoridades nem lhe atribui a responsabilidade de determinar quem deverá governar.

Paulo não diz: “Escolhei boas autoridades”. Ele diz:

“Toda alma esteja sujeita às potestades superiores” (Romanos 13:1).

Depois acrescenta:

“Porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Romanos 13:1).

Portanto, reconheço a autoridade que Deus permitiu que existisse, mesmo quando não concordo moralmente com tudo aquilo que essa autoridade faz.

Isso era especialmente significativo no primeiro século. Os cristãos não estavam vivendo sob governantes piedosos. Mesmo assim, foram ensinados a respeitar a autoridade civil.

  1. A responsabilidade indicada em relação aos governantes é principalmente a oração

Creio que 1 Timóteo 2:1-2 é particularmente importante:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade.”

É interessante observar o que Paulo manda os cristãos fazerem em relação aos governantes: orar por eles.

O cristão pode exercer uma influência extraordinária diante do trono de Deus. Devemos orar para que haja condições de paz, liberdade e ordem que permitam uma vida piedosa e também a propagação do Evangelho.

Isso é muito diferente de transformar a Igreja numa força política.

  1. O cristão não pode chamar o mal de bem

Concordo plenamente com o irmão quanto a Isaías 5:20:

“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal.”

Porém, justamente aqui aparece uma dificuldade séria da política partidária.

Um partido ou candidato pode defender determinada posição que consideramos correta e, ao mesmo tempo, defender outras coisas contrárias à Palavra de Deus. Outro candidato pode acertar numa área e errar profundamente noutra.

Quando o cristão assume publicamente determinado partido ou candidato, pode acabar sendo identificado não somente com aquilo que aquele partido defende de correto, mas também com princípios e práticas que jamais poderia defender biblicamente.

Por isso, a separação política não significa neutralidade moral.

Posso dizer que o aborto é contrário aos princípios da Palavra de Deus sem pertencer a um partido político.

Posso dizer que o casamento foi estabelecido por Deus entre homem e mulher, conforme Gênesis 2:24 e Mateus 19:4-6, sem pertencer a um partido político.

Posso condenar a corrupção, a injustiça, a mentira e a opressão sem transformar-me em militante de determinado candidato.

O padrão que determina o que considero certo ou errado não é a esquerda, a direita ou o centro. É a Palavra de Deus.

  1. Miqueias 6:8 não transforma a Igreja numa instituição política

O irmão citou corretamente Miqueias 6:8:

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus?”

Isso deve caracterizar nossa vida.

Mas praticar a justiça é diferente de assumir a responsabilidade pelo governo deste mundo.

Um cristão deve ser justo no emprego, na família, nos negócios, nos seus compromissos e no relacionamento com outras pessoas. Deve socorrer o necessitado, não fazer acepção de pessoas e jamais participar de corrupção ou fraude.

Nossa justiça deve aparecer em nossa maneira de viver.

O Senhor Jesus disse:

“Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13).

E também:

“Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5:14).

A luz não precisa ocupar o governo para ser luz. Ela precisa simplesmente brilhar.

  1. A missão principal da Igreja é outra

Antes de subir aos céus, o Senhor Jesus não ordenou aos discípulos que reformassem politicamente o Império Romano. Ele lhes disse:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

E também:

“Ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (Atos dos Apóstolos 1:8).

A grande necessidade do homem não é primeiramente mudar de governo, mas mudar de coração.

Um homem pode viver numa excelente democracia e continuar perdido em seus pecados. Pode possuir todos os direitos civis e permanecer espiritualmente morto.

O Evangelho trata da raiz do problema: o pecado.

Por isso Paulo afirmou:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).

  1. Isso não significa indiferença diante do sofrimento

Abster-se da política partidária não significa fechar os olhos para o sofrimento humano.

Gálatas 6:10 diz:

“Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.”

O cristão deve ajudar, servir, socorrer, alimentar, consolar e defender biblicamente aquilo que é justo.

O Senhor Jesus andou fazendo o bem (Atos dos Apóstolos 10:38). Porém, nunca Se tornou partidário dos movimentos políticos de Seu tempo.

Havia romanos, herodianos, zelotes, fariseus e outros grupos com interesses políticos e religiosos. Cristo não Se colocou sob nenhuma dessas bandeiras.

Quando tentaram envolvê-Lo numa questão delicada relacionada ao governo romano, Ele respondeu:

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Isso estabelece uma distinção que considero fundamental.

  1. Somos embaixadores de Cristo

Há ainda outra expressão que considero muito significativa:

“De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo” (2 Coríntios 5:20).

Um embaixador representa os interesses do país que o enviou. Da mesma forma, nossa principal responsabilidade neste mundo é representar Aquele que nos enviou.

Estamos aqui para apresentar Cristo aos homens.

Por isso Paulo também escreveu:

“Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” (2 Timóteo 2:4).

Isso não significa abandonar as responsabilidades normais da vida. Paulo trabalhava, utilizava seus direitos civis quando necessário e respeitava as autoridades. A questão é não permitir que os sistemas deste mundo ocupem o lugar da nossa vocação celestial.

Portanto, irmão, penso que concordamos em vários pontos fundamentais: devemos obedecer às autoridades, respeitar as leis, pagar aquilo que devemos, buscar o bem, rejeitar a injustiça, não chamar o mal de bem e, quando houver conflito direto entre uma ordem humana e uma ordem divina, obedecer a Deus acima dos homens.

A diferença está apenas na conclusão que tiramos desses princípios.

Não vejo em Romanos 13:1-7 uma ordem para escolher os governantes, mas uma ordem para nos sujeitarmos às autoridades constituídas. Não vejo em 1 Timóteo 2:1-2 uma convocação para militância política, mas uma convocação para oração pelos governantes. E não vejo na missão dada pelo Senhor à Igreja uma ordem para reformar politicamente o mundo, mas para anunciar o Evangelho e viver nele como sal e luz.

Por isso, creio que o cristão pode respeitar plenamente o governo sem fazer parte da política; pode obedecer às leis sem escolher partidos; pode denunciar biblicamente o pecado sem tornar-se militante; e pode desejar o bem da sociedade sem perder de vista que sua esperança não está num governante terreno.

Nossa esperança é uma Pessoa.

“Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20).

Enquanto Ele não vem, devemos viver de maneira honesta, pacífica e piedosa, respeitar as autoridades, orar por elas e anunciar a todos — inclusive aos políticos e governantes — que a verdadeira necessidade do homem é reconciliar-se com Deus por meio do Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

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